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‘Re Brasil Novo — rupturas e continuidades: 1930-1937 OGOVERNO PROVISORIO © ipido triunfo dos que se rebelaraim contra 0 governo Washingson Luts e, por-tabe- la, detrubaram a Primeita Repiblica, ction um clima de euforia na vida politica brasileica, O nove contexio indicava que a6 oligarquias mais conservadoras que dominaram a Repiblica desde seu inicio estavam afastadas do poder central. Este setia conttolado por um Governo Provisério axe que uma nova Constinuigéo fosse elsborada © Congresso Nacional foi dssolvide e fo- sam nomeados interventores em todas os escados, ‘quase todos veceranos das revolias renenvistas. A palavra de ordem era construit ur nova Estado que no fosse mera expressio da jogo politico dominado pelas oligarquias raais poderasas e seus partidos republicanos regionais. 94 wasromano mast RerOatiCA ‘Mas os grupos que tomaram o poder em 1930 ~ uma coligagio de dlissidéncias oligdrquicas e “eenentes” ~ tarmpouco erat tnidos. Se todos concordavam que era preciso construir um novo poder central e reformat vitios aspectos da sociedade brasileira, divergiam quanto 205 caminhos para chogar a esses objetivos. Os “tenentes", reunidos no Clube 3 de Ou bro, defendiam um governo forte e centralizado que rutelasse a sociedade c interviesse na economia. }4os ideres politicos do novo regime, que eram coriundos das elites politicas tadicionais, se dividiam entre a opgio por ‘um liberalismo aberto a algumas reformas sociais € 0 autoricarismo como ‘caminho para a modemnizacio de Brasil. Os gatichos, herdeitos do posi vismo que dava o com da politica estadual desde o final do século 0%, eram mais inclinados 8 ideia do Estado interventor. As dissidéncias oligérquicas ‘mineiras, outro importante polo de sustentagio do novo regime, apoiavam o liberalsmo como principio, temperado pelo pragmatismo politico que Jhes permitia campor corn as autorittios. Desde que chegaram ao poder, os grupos do novo regime manti ham-se em tenso equilibrio, E, em meio As tenses ente liberals © au- toritirios, consolidava-se a lideranca de Geuilio Vargas que, de maneira habil e pragmatica, fazia 0, papel de mediador de interesses'ema conflito, cevitando tomar medidas exeremas 2 favor au contra as tendéncias poltticas ‘em disputa. © que unia todos os grupos, no momento imediaro & tomada de poder, era isolar os paulistas do PRP, os grandes perdedores de 1930, Essa, entretanto, ndo era uma carefa ficil. Além da importncia poli da oligarquia paulisea, havia 20 menos dois temas sensiveis que envolviam o estado de Sio Paulo ¢ ligavam seu destino & politica nacional: 0 café © a “quescio opera’ ‘A economia brasileira, frigl e pouco produtiva, dependia das divisas geradas pela exportagio do café paulista. A grande crise do capitalismo ‘mundial, iniciada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Yorke em outubro de 1929, tinka causado grandes perdas aos cafeicultores. Os ‘mercados internacionais se retrairam, o crédito para exportacio diminuiu, [Nao por acaso, 0 nove governo ~ que prometia diversificar a economia brasileira e mio mais oxganizé-la em fungio das politicas de valorizagio do café que tanto desagradavam as classes médias das grandes cidades 1a burgucsia industrial ~teve que fazer exatamente 0 contrério. Em 1931, BeASILNOVO-AUFTURASECoNNCDADEs OS para indignasao de muitos “revoluciondtios’, Vargas autorizou a compra de estoques de café com recursos piiblicos, alén de poi de divide dos cafeicultores com o Estado a queima de milhares de sacas do produto, No fisndo, usava a mesma féraula da Primeira Reptiblica de “socialicar as vent com o govern comprande 0 excess de prods do x para liminuir a oferta do mercado e, consequentemente, aumentar os Intetnacionais do produce. = ed © novo gaverno, portanto, reconhecia que a economia brasileira era completamente dependente do café. O pals comprava quase todos os ‘manufaturados do exterior, produzia pouco alimento para sua populaséo, por conta dos imensos laifndios improdutives ou voltados para a agro- exportagio e precisava de divisas, ou sej2, moedas estrangeieas aceitas no comércio internacional, como o délar e libra, para importar os produtos « pagar sua divida externa. A altemativa a essa politica de valorizacéo do café seria modificar, de maneira radical ¢ abrupra, a estrutura social e eco- nomica do Brasil ~ 0 que néo estava nes planos dos novos governantes Os “revolucionérios* de 1930, no fundo, queriam apenas uma reforma politica ¢ ndo uma revolugéo social, ‘A “questio operiria” era paricularmente senstvel na cidade de Sio Paulo. A capital do estado concentrava um grande contingente de operé- ros, entio ainda muito ligados ideologicamente ao anarcossindicalismo. A tepressio do governo tinha enfraqaccido o fmpeto de huta das organizagées sindicats, mas o faro é que a classe operéra, ainda que diminuta, era uma tealidade social politica que ganhava importincia politica ¢ econdinica cada ver maior na vida braileitz. Hm Santos, 0 sindicalismo de base co- munista era importante, concenirado nos trabalhadores do grande porto por onde entrava ¢ safa a maior parte dos bens econdmicos importados € exportados. Ainda concentradas em poucas cidades, a classe operdtia e suas ‘organizagies sindieais e politicas ndo foram protagonistas principais dos eventos politicos que culminaram na quedz da Primeira Repibliea, mas ra um fator de tensio social a set considerado no novo regime. NSo por 2caso, uma das primeiras medidas burocriticas do Governo Provisério foi 4 ctiagio do Ministério do Trabalho, em 1931. Em Sio Paulo, o operatiado c os “tenentes” ensalaram uma aproxi- magio que desagradou as cites tradicionais paulista. A criagio do Pati 96 ssvoesno unas asPcaLcs do Popular Paulista (ert), liderado por Miguel Costa, um dos lideres da Revolugao de 1924 e da Coluna Prestes, era a expresso mais clara dessa aproximagio. O rrp estava muito longe de ser um partido de tendéncias anarquistas ou comunistas, mas a mera possibilidade de um pactido de ‘massas ligando os renentes mais radicals aos opersrios deixou 2 situacao em Sao Paulo ainda mais explosiva. A poderosa ofigarquia do estado ba deirante, desalojada do poder em nivel federal, ainds dominava 0 poder regional, Era apoiada pefas classes médias, que consideravam Geailio Var 28 ¢0 autoritarismo do Governo Provisério uma “dicadura ustxpadora do poder’, disposta 2 humilhar os paulistas No final de 1931, muitos lideres liberaise federalistas de outeos esta- dos que haviam apoiado 2 revolea de 1930 também estaram decepcionados como estilo personalisra de Vargas e preocupados com excessivo papel dos “tenentes” no Governo Provisério. © quadro para uma nova guerra civil estava dado, | AREVOLTA PAULISTA DE 1952: HISTORIA E MEMORIA A chamada “Revolugto Constivuconalista de 1932", como a historiogtafia oficial paulist cujo maior exemplo foi Alfcdo Ells) nomeou a revolta contra 0 Govern Provsério de Gevilo,é parte de um quadeo mais amplo de conflites politicos esocis que se seguiram 3 queda da Primeica Replica ‘A Revoluséo de 1930 have sido fruto de uma alanca encre disidacias oi- sxquicase miltares rebeldes(s “tenentstas),atiuladas sob um programa di- iso, Os "revolucionéros”defendiam a moralizacio das cleiies, constantemen- ce fraudades na Primeira Replica, eo desenvolvimento econdmico do Brasil afestado da dependéncia histérca do café exporcado. As liderangas de Getilo ‘Vargas, ex-ministo da Primeira Replica, e do general Gées Monteiro sobre 0 Exércto ainds nfo estavam consolidacas. Assim, ao longo de 1931, as tenses. centre os diveros grupos que se unica pate acabar com o domiaio paulisté do Estado brasileiro mostaram-s cats e evidentes. Para as oligarquias elisidentes que apoiaram a Revolucio de 1930 eta preciso “seconstitucionalizar” o Brasil em caviter de urgénca, convocandoeleiges para uma Assembleia Consiuiete {que tepactuasseo jogo da poder entre seis cvis. Hf para os “tenentes”, euni dos nas Legis Revolucionérias ¢ no Clube 3 de Gueubro, 0 melhor carinko pant mocaizar e descnvolver econormicamente o Brasil era uma dicadusa que se apoiase nas massas tabalhadoras ¢ do dependesse mais do jogo eleioral das clivs oliginquicss. = ‘USL Nov -RLPTURAS ECOMTINUTOADES Em Sic Paulo, o estado que mis perder com o fim da Peimcica Repl ca, 8 enses pois desta natura eram pantculamente greves. Mesmo 0 Partido Democrsico,diaidéncia do Partido Republicano Palisa que apotara «a Revoluso de 1939, nfo cou asciro com a nomeagio do interentor no es tado, oceronel Joo Alberto, pernambucan, neat eesquenis, A pressio coact ee fo tia que joo Abertorenuncou cm julho de 1951, mas asieuagio cm Sto Pals nto se acalmou. Além dele, Miguet Cost, older da colina hist ica junto com Lats Carls Prestes, cca una sombs pevigosa que paisa sobre as elites paufisss. Costa eves uma aptoximazio com o aperarado, através ds formacio do Partido Poplar Pauls [No comeso de 1932, Vargas latamence manobravs pare cmasar poder dos tenentsas mais radiais, frendo urn movimento de riproximagio com as vires opaque regions que exgim «Tecontnacionalzagio” do Bra Que n0 fando era um caminho para volar a ter infvéniapolen, Nessa diceo, Rio Grande do Sul, Babi e mesmo Minas Geri, pts do far de Sto Paso, etaram em pede gue com © Govesno Proviso. Em Fverczo de 1982, a promulgaci de ums ova Le Econ, defining legos pra 2 Consinnt, parca sero maps da etd par acalmaro ambiente polit, Pera conemplro: pauls, Vargas nomteou Pero de Teledo como interven. tos ele er “pata cv, leone exigia Frente Unica Pala rida em fevesite de 1932, fro da io do RAP com 07. “ado pareca se encaminhar para a acerto, mas 2 éepredasso da se do Dicria Caries, erica do Gaverno Povtéi,azedou noramente as relies ence a olga liberss eo eneniss,com 35 primera cuando osu tmor pela destuigo do jrnal Em fins de mo, situacio de Sio Paulo rdialiony Aisin de Osada ‘Arana, considera o plc cil mas primo dos nent, inst da Fa zenda do Governo Provisho, a vista como ums provocsto pls cits beri plist No di 25 de mai, a tenia de tomar dete 2 ee do Pad Po pula Pula termina moti, com orto eed. sil ds nia dos ‘mortae—Marcins, Miya, Drdusioe Catnargo (MMD¢)—nomeaa a sociedade seca cia eno pra preparar rn revle armada contra Geni. aia evolea explo em 9 deutho. Sao Paulo espera a ade de todas as fags vai inate com o govemo de Geto, Mas xt conse spusiguar Rio Grands do Sl, Baha © Minas Gass, esariando uma poss allanga com ox pastas. ‘A opinio pica pauls parca ccoa a alata de onder defen por [NontiroLabstoregemonia ou separagio™ Na verdad, nenhum grupo po- lisco do esado se organinavaseiamente para separ do Br AS les palit abi gue o eto, por marco que foe, precisa do retant do Ba, de seus recrsos, merendos¢ impostas oF 98 cartons noms nePORLicA ‘io Paulo combstes as pas do govesno federal por quase es meses “Apesar do podetiorelativo do esado, eda ampla roobilizagio da socedade pat lista, sobrerudo suas elites e classes médias, 0 enfrentamento risa nto foi ben sucedid, Em meados de setembro, o comandante-gera, general Bectoldo Klinger, jf nogociava wna par separadamente,consrariando pare da opiniio pblca paulista. A rendigao yeio a3 de outubro. © pragmético Gecilio sabia que o Brasil também precisava de Sto Pau lo, ¢ evitou retaliagées excesivas aos paulistas. Diferentemente de 1924, aqtando cidade fo aacada de Forma violence ea repress foi disseminada contra seus habitants, desea vex 0 governo federal preferia wma repressto seletva, enviando para o exo os lideres mais direcamente envolvidos na | revolt (7 beni no cot. A instabilidade dos anos entre 1931 ¢ 1932 era um sinal da precétia convivencia politica que carscterizaia os 30 anos seguintes da historia republicana brasiica. Por um lado, havia uma oligarquia de base rural dlividida entre liberais aaigados 3s velhas prdticas politicas tradicionais (fraude eleitoral, liberalismo conservador, cotonelismo) ¢ reformadores dispostos a modernizar a economia, reconhecendo # necessidade pragmé- tica de dividir 0 poder com outros grupos politicos ¢ sociais. A burguesia industrial, importante em alguns estados como So Paulo ¢ Rio de Janeiro, ainda cra pequens e politicamente dependente dos fizendeiros que domi- navam a economia nacional, Por outro, no andar de baixo da sociedade, hhavia uma classe operdria que se expressava através de suas organizagbes sindicais, mas no tinha nivel de organizacéo politica para impor um projeto politico socialista ¢ revoluciondtio & sociedade em seu conjunto. No meio, uma classe média pequena, dependente dos empzegos e fel a0s valores das oligarquias as quais servia, eja como funciondrios pablicos, seja como profissionais liberais (médicos, advogados, comesciantes, gerentes), Este era o precitio “Estado de compromisso” inaugutado em 1930, no qual a forga inercial da velha sociedade rural coexistia com a busca da modernizagéo social ¢ econdmica. Cabia ao Governo Provisério equilibrar cessas demandas, sem ameacar a ordem sociel mais profunda. Mas a socie- dade brasileira, pela primeira vez na sua bistéria, parecia dividida cada vee -mais em projetos e visées de mundo inconciliéves. musi. xovo-Rurtumseconmumanss 99) ‘UMA SOCIEDADE EM EBULICAO rz preciso institucionalizarelegalizar 0 novo regime o quanto antes, para evitar novas revoltase esvariara principal critica dos liberais pauliseas vencidos, a de que Vargas era um “ditador usurpador ¢ ilegitimo”. De fito, vtios atores sociais exiglam mais participacéo na vida politics nacional e, em grande parte, a chamada Revolucso de 1930 tinha conseguida adesées 2 partir de uma promesca de mais participacao e democtacia. Nio exa mais possivel ignoré-los. Q levante paulista, embora tena sido derrotado nas armas, fez com que 0 Governo Provisério agilizasse a convocacio da Assembleia Cons- tiruinte, Outro desdobramento importante da nova postura de Gecilio Vargas, e do grapo mais pragmdcico que 0 cercava, foi a diminuigio do poder dos “tenentes” ¢ de seu fmpeto para renovar as instiuig6es republi- canas e subjugar as oligarquias tradicionais a qualquer prego. Depois de experimentar um auge do seu poder entre 1931 e 1952, com a atuagio do Clube 3 de Outubro, os tenentiscas como grupo policico ausénomo foi sendo esvaziado pelo govemno Vargas e pelo préprio Exército, disposto a recompor e reforsar a hierarquia interna. Para Vargas, algumas lideian- cas desse movimento podetiam ser aprovcitadas como quadros do novo regime, mas ndo deveriam dar o tom da politica nacional. O regime nao podia, pela sua prépria origem nas elites segionais que romperam com a Primeira Repablica, se afastar completamente das oligarquias tradicionais, sob o risco de perder apoio nos estadas da federagéo onde clas ainda eram snuito influences. Vargas cntendia que a reconstrugéo do Estado rumo a uma maior centralizagio politica e modernizagso econémica deveria ser ‘combinada com a manutenggo da ordem social, Para a alta oficialidade do Exéreito brasileiro, 0 tenentisino era visto como uma faca de dois gumes. Por um lado, era considerado um movimento importante, a0 exigir maior protagonismo dos militares na vida politica. Por outro, expressava a falta de comando das altas patentes militares (coronéis e generais), pois os protagonistas do movimento eram militares da baisa oficialidade (tenentes ¢ capitées) que, em principio, deveriam se subordinar as altas patentes. Nos anos 1930, pereebendo aque esta quebra de hicrarquia e a forma impetuosa pela qual os tenentes atuavam na vida politica eram ameagas & unidade do Exército, iniciou-se 100 eastoms posnasi-rspuanica uma ampla reforma administrative na drea militar. Conduzida por Gées Monteiro e Eurico Gaspar Dura, essa reforma visava fortalecer 0 g ralato e reforcar os elos hierirquicos com a baixa oficialidade. Monteiro ia com a frase: “B. preciso acabar com a politica no Exéscito, para fazer a politica do Exércite”. Isso significava que 0 Exéscito, como instizuigio buracsitica de Estado, deveria interferir na politica nacional. Para esses militares, o Exército deveria funcionar como tuma espécie de poder qutelar sobre a saciedade, a partir do que a alta oficialidade milicar julgava see 0s “iateresses nacionais": modernizar a economia através da industrializagio, promover o culeo a0 nacionalismo acima dos inceresses regionalistas, promover a integracio do territério nacional e garantir a ardem social “cristée ocidental”. Este iltima pon- to wadutia 0 medo de uma revolugio socialista prolecéria que mudasse completamente a estrucura e 08 valores domiinantes na sociedade. Com o esvaziamento do tenentismo como forga politica aurdaoma, as suas liderancas acabaram por se dispersar entre os movimentos de ex querda (208 ¢ Alianga Nacional Libertadora) e de diteta (Agio Incegralista Brasileira) que surgiram entre 1932 e 1935. Muiros outros tenendistas foram incorporadas como quadsos politiosse adminiscrativos do governo federal, rendendo-se ao novo jogo politico das elites civis. Nos anos 1930, 0 mundo vivia uma época de efervescenei ica, dividido entre diteta ¢ esquerda, fascistas ¢ comunistas, com ambos critcando a "“democracia liberal”. A politica liberal, baseada na representa- io parlamentar escolhida pelo voto dos cidadios e na separagio entre Es- tado e sociedade civil, era considerada incapaz de absorver os conflios de classe das sociedades industrais ¢ urbanas. Os principios liberais cissicos, enfarizando os direitos individuais, a preméncia dos contratos privados € 6 livre-mercado, pareciam condenados diante da nova realidade social «€ geopolitica do mundo. A crise econémica de 1929 tinha sido a prova de sua ineficécia no campo da economia, pois fora provocada, em grande parte, pele concorréncia sem rogeas entre os grandes grupos industrais que dominavam os mercaclos. Fascistas ¢ comunistas, a partir de motives, métodos ¢ caminhos diferentes, defendiam um Estado forte ¢ tutelar que contiolasse a vida dos individuos e das massas, alémm de cegulamentar a ideols- seasi.xove-nueruasszconmmenaces IQ] cconomia, afastando-se do liberalismo politico e econdmico, © Brasil nfo ficou imune a esse debate internacional Os fascistas © toda a extrema direica autoritésia defendiam © corporativismo como forma ideal de organiar a sociedade, O corpo- racivismo consistia em fazer com que o Estado organizasse a sociedade na forma de corporagées profissionais que reunisscm empresis trabalhadores, cujos eventuais conflitos de inceresses seria tutelados pela burocracia central de maneira a planejac as atividades econdmicas, em nome do desenvolvimento ¢ harmo: rnacionais. Obviamente, para os trabalhadores, essa solucio traria mais énus do que bénus, pois a tendéncia do Estado era se tender & influéncia e & pressio dos grupos econdmicos mais poderosos. Nesse modelo de sociedade, o jogo eleito- ral, mesmo limitado 3s camadas médias da populacio, era visto como sum fator de risco a estabilidade. [Nos anos 1930, 0 mundo se viu dividido entre esses dois projetos ideais de sociedade, antag6nicos entre si em tudo, menos na ctitica que faziara & democtacia “burguesa liberal”. O resultado de tamanha cferves- ‘éncia ¢ debate politico foi que a sociedade brasileira conheceu formas de ago € organizagéo coletivas como nunca aconteceta ances. A convocagio para as eleig6es, visando & composicao da Assembleia Constituinte, e 03 novos partidos, organizagées politicas de massa que surgiam, agitaram os anos que vio de 1932 a 1935. Nesse petiodo, sio perceptiveis ao menos quatro grandes tendéncias politico-ideol6gicast 1, Autoritarismo ciensificiea: essa tendéncia estava encravada no miicleo do poder que dirigia 0 Estado pés-1930. Basicamente, reunia politicos civis, militares ¢ intelectuais que defendiam um Estado forte, burocratizado ¢ intervenior (sobretado na economia, na educagio ¢ nas relagées de erabalho), mesclando clementos do corporativismo com valores liberais, como o apoio A iniciativa privada na economia. Liberalisme: reunia. muita liderangas oligérquicas tradicionais, com adesio de boa parte da classe média urbana e dos profs sionais liberais. Para essa linha ideolégica, a instieuigées e os valores liberais ainda deveriam nortear a sociedad (livre-inicia- 102 castors vomeasi.neronuice tiva na economia, dteito inviokivel de propriedade, liberdade individual, liberdede de expressio, federalismo, independéncia entre 0s ttés poderes do Estado ~ Fxecutivo, Legislative e Judi cittio). Entretanco, conforme 2 tradigfo oligirquica do libera- lismo brasileiro, a politica deveria ser um clube fechado, com regras eleitorais que impedissem as massas de exercer seu direito de voto e fazetem se representar no Parlamento. Estas, mesmo para os liberais, deveriam ser objeto de rigoroso controle social inculcagio moral ¢ ideolégica conservadora, seja pela eligito, scja pelo civismo, Os liberas se consticuiram no principal foco de tensio contra o governo Vargas. Eram criticos do Estado in- terventor, mas néo hesitariam em apolar o governo na repressio 408 movimentos populares € aos comunistas 3. Exquendiomos (reformist ¢ revoluciondrio): com a Revolugio de 1930 ¢ 0 reconecimento da importincia ¢ legitimidade da “questio social” pelo Escado, houve uma ascensio do movimen- to sindical-operdsio independente entre 1932 ¢ 1935, perfodo de grande agitagio operiria, ainda pouco estudado pelos his- toriadores. Para os comunistas, a saida para a crise capitalista maa revolugio liderada pelo partida em nome dos operitios € camponescs, que deveriainstaurar uma “ditadura do proletatia- do”, acabar com a proptiedade privada ¢ construir a sociedade comunista igualiétia. Além disso, havia setores da classe média (obrecudo entre a baixa classe média} que, mesmo sem aderir 20 comunismo, defendiam 0 nacionalismo econémico ca interven- ‘60 estaral na economia para industrializar 0 Brasil e livrar o pais dda infludncia das grandes poténcias econémicas da época, como Inglaterra ¢ Estados Unidos. Q proprio Partido Comunista es tava dividido entre a defesa da revolucao operitia radical ¢ uma politica de aliangas que unisse os setores democriticos e pro- sgressistas da sociedade contra o fascisino, Em 19934, socialistas, rnacionalistas e comunistas acabaram convergindo na formacso da Alianga Nacional Libertadora (aN), uma frente antifascist, organizada efetivamente entre marco ¢ julho de 1935, quando chegou a contar com cercz de 400 mil filiados. As principais seasiLnovo-aueruaaseconrivuipanes 103 criticas da ANL eram contra o capital financciro ¢ contra o lati- fiindio, considerados impedimentos para a democratizacio da sociedade e modemnizagéo da economia. 4, Fascisme: 0 principal grupo fascista brasileiro (mas nao 0 tini- co) era a Acgo Integralista Brasileira (a1) criada em ourubro de 1932, A base social dos integralistas localirava-se na dasse édia, sobretudo de origem imigrante do Centro-Sul do Brasil integralismo organizou-se nacionalmente, sob a lideranga de alguns intelectuais como Plinio Salgado, Miguél Reale, Gustavo Barroso, a partir do modelo paramilitar dos partidos Fascistas europeus. Esse modelo implicava uma estrucura de milicia, com chefes, subchefes, uniformes, paradas solenes. A ideologia integraista misturava nacionalismo, civismo, corporativismo € catolicismo uleraconservador, criticando comunistas liberais. Conforme 2 doutrina da ata, 0 Estado Integral ceveria ser 0 fiador desses valores, fazendo com que a sociedade se mobilizas- se pela nagio, Ao conteiria dos autoriitios pragmiéticos, mais preocupados com a criagio de uma burocracia estatal tutear, 0s fascistas defendiam uma organizagio civil de massa para mo- bilizar politicamente a sociedade, sob o comando de um chefe personalista, tendo camo modelo os Iideres fascistas curopeus, ‘Adolf Hitler e Benito Mussolini. A ASSEMBEEIA CONSTITUINTE DE 1933/1934 As cleigées para a Assembleia Constituinte foram regradas pelo novo Codigo Eleitoral, lancado em 1932, que tentava ampliar a representacio motalizar as cleigdes. Pela primeira vez, 0 voto eia secreto, 25 mulheres podian: votar e haveria uma justiga eleitoral independente para monitorar os resultados e coibir as fraudes. ‘Além das grandes tendénciasideol6gicas, dezenas de partidos polt- ticos foram crlados depois da Revolagio de 1930, muitos com exisetncia cfernera einteresses meramente fsiolbgivos (ow seja, para defender interes- ses particulares de grupos com poder econémico ou chefes politicos locais). ‘Os nomes dos partides da época revelam uma mistura de nacionalismo, 104 sastona nomaasnentsuica comporativismo ¢ regionalismo — Partido da Lavoura, Partido Economists, Partido dos Empregados do Comércio, Essas cendéncias acabaram se en- contrando na Assembleia Constituinte ¢ derem os tons do debate. Algm das candidatos eleitas peto sistema de representagio, havia ‘uma bancada “profissional” (funciondcios péblicos, empregados, emprega- ores} escolhide por delegados sindicais. Cetca de 40 deputados consticuin- tes foram cleitos dessa forma, entre os 254 que compunham a Assembleta, ‘com apoio de setores do governo que defendia uma experiéncia inspitada no modelo corporativo na politica brasileira. © resultado geral, encretanto, _mostrou a forga persistence das ofigarquias regionais de linhager liberal A Igreja Catélica,eradicionalmente influente na sociedade e na vida politica brasileira, cambém no ficou alhela em meio a tanta mobilizacz. Os incelectuais catdicos, apoiados pelo alto clero de Tgreja, organizaram a Agdo Catélica. Bles temiam que os sctores laicos ¢ positiviseas que esta vvarn na poder do Estado realizassem reformas sociais e educacionsis na Constituigéo que pudessem ameagar a influéacia catélica na sociedade brasileira, fundamental para compreender os valores morais dominantes. Além disso, a Liga Eleitoral Carica conseguiu impor uma agenda no debate eleitoral e consticuinte, evitando que o esquerdismo ¢ as propostas Ihicaslevassem a um desvio da tradicfo catélica que imperava na sociedade brasileira, sobremuda na definicSo constitucional sobre © papel da familia 0 sistema educacional. Exemplo da pressio cxtélica sobre a Constituinte foi a oficializagio do casamento religioso ¢ do casamento indissokivel (com 4 proibigio do divércio. (Os candidatos para a Constituinte que se apresentaram como het= deiros do tenentismo tiveram fraca votagio, resttita sobretudo 20 Rio. de Janeiro e 2 Pernambuco. © Governa Provisério mostrou sua face autoritacia, impondo um zegimento interno & Assembleia e apresentando um anteprojeto de Cons- tituiso que s6 podia ser “emendado” pelos constituintes eleitos, © nio redigido novamente a partir do comeyo, Entre 0 final de 1933 ¢ julho de 1934, os debates na Assembleia Constituinte foram acalorados, ¢ 0 resultado foi uma Constituigio avancada, mas de pouca efetividade no dia a dia da sociedade. easitnoww-averueas econmmuroanes 105, Mesmmo aprovando © aumento dos poderes da Unio, sobretude no ‘campo da legislagio econémica e social, frente aos estados, @ principio federalista foi mantido. O voto passaria a ser obrigatério € secreto, mas continwatia vedado aos anaifabetos. As rcivindicagées dos trabalhadores foram parcialmente aceitas, com 2 criagao da Justica do Trabalho, do sald rio minimo, jornada de oito horas didrias ¢férias anuais, mas demorariam ppata ser implementadas eferivamente, Nese ponto, o governo teve uma dertota, pois defendia a existéncia de um sindicato Unico por categoria profissional, para melhor controlé-los dentro do principio corporativo, mas a Assembleia acabou aprovando a phutalidade sindical. ‘A Constituicéo estabeleceu que @ primeira eleicio depois da sua promulgacio seria indireta, como defendiam 03 membros do Governo Provisbrio, estabelecendo eleigies diretas somente depois do fim do man dato presidencial, Assim, ficou mais ficil a confirmagio de Gettlio Vargas ja no poder. Em julho de 1934, 175 deputados votaram cm Vargas, contra 71 que deram 0 votos a outros candidatos, principalmente ao contetrinco «antigo aliado de Vargas, Borges de Medeitos. Em meio ao equilibrio precétio da nova face da politica brasileira, Gettlio Vargas, se nfo era unanimidade, demonstrava grande capacidade de lidar com demandas opostas, neutralizar adversitios, estimular divi- s6es ¢ se afirmar como a possibilidade mais vidvel no governo do pais. Mas sua lideranga pessoal, a0 contritio do que muitas vezes se pensa, cestava longe de ser consolidadsa, seja entre 2s elites regionais, se[a entre os grupos populares. AS “MINORIAS” VAO A LUTA: NEGROS E MULHERES NOS AGITADOS ANOS 1950 ‘Nos anos 1930, em meio 3s lus gerais da sociedade ques organizavadi- reitae 8 exquena para mudar a vida politica e social, comecaram a surgir pautes cd teivindicagéesexpeciicas de grupos considesadas “mincrias socials". Malhe- res enegtos passaram a organlzar de maneira autonoma, dspostos a interfere ra politica brasiciza ¢ conquistar direitos espectficos que superassem os velhes preconceitos de uma sociedade patriacal e racists. Jé nos anos 1920, mulheres de todas as classes, abalhadoras pobres ou madames ricas da sociedad, teciam crtises ao mundo piblico dominado pelos homens, ainda que sob perspectivas diferences,Paea as operivias, atuando nos sindicacos,« conquista de igualdade | | | | | | 106 aston oopessiresoncica ‘stava ligads& lus geral contra 0 sistema eapitaista, Para as mulheres a alice leads, «lua se focava no dircto de voto. Em 1932, 0 Cédigo Eleitoral final rmente previo voto feminino, ainda qs com algumas restsgbes,confzrada na Conscialeéo de 1934. (Os aodcscendentes bratileiros rambéma pasarama se organizar de manera | automa esistemtca« parte dos anos 1920. As revindicagées inci varia vam confocmaeo estado, Na Bahia, surgi um discurs idenitiio com base nas berangas aficans. Em Séo Paulo, os "homens de cor’ como eram chamados os negros, se pautaram por um discurso mais “usinilacionisa’, lurando pela inseio em condigées de igualdade na sociedade branca e buzguesa. No Rio {de Janez, 2 visio da “mestigagem come vocarfo da sociedad braslleira era {ais dominante. Era comm a todos os grupos ¢discurses de miltineia negra, | hhavia a erties 20 racism, a desigualdade de oportunidades e 20 preconceito. | ‘Nos anos 1930, surgi a primeira grande organizagio negra do Brasil, chameda | | de Frente Negra Brasieza (ENB). Alguns dos seus lideres, paradoxaimente, se | excansaram com o fascism ¢ o nacionalsmo autortsi, em sintonia com parte || Gaselitesbrancas da époce: Mas aexpesiécia da PNB gerow outasorganiagses | depois da Segunia Gueree Mundial, esbogando uma critica mais profunela is | eteacuras seins €econdmicas que evar ports da exclasio racial edo pre- | conceit. Em 1950, fo realizado 1 Congresso do Negro Brasileiro, reafiemando | als pola jgualdade rac Ln rereaeecerennncrnnteeenetemennenneete enna O LEVANTE COMUNISTA DE 1935 Com a promulgagio da Constituicio de 1934, que trazia alguns avangos democriticos em termos de direitos politicos e sociais, o Brasil parecia iniciar uma nova fase em sua histria. Entretanto, em um exame mais detalhado, a conjuncura de época néo indicava que as estruturas politicas ¢ valores herdados da Primeira Republica estivessem superados. As oligarqaias regionais se revelazam ainda atuantes e vigorosas no debate da Assembleia Constieuinte, decepeionando muitos que acteditayam em reformas antioligérquicas mais profundas, como fora prometido pela Re- volugio de 1930. Em meados da década de 1930, a economia ainda era dependente do setor agroexportador, sem nenhuma politica de industriali- zaso & vista, Se alguns direitos trabalhistas para os operdrios haviam sido consolidados na Constituigéo, a situacio do trabalhador rural no Brasil continuava dramética, Pasa ele, néo havia perspectiva de ama reforma agriria, ainda que moderada, ou de assisténcia social minima que melho- seasnovo-rueTurasecontinuinares 107 rassem seu nivel de vida. Apeias do ponto de vista politico-cleitoral podia se falar em algum avanco significativo, com a instituigao do voto secteto, do voto feminino e da justigaeleitoral. Em compensagio, os analfaberos — sendo o analfabetismo a condicio da maioria dos eeitores que vinham das classes populares ~ continuavam proibidas de votat. ‘A efecvescéneia politica do periodo, por outro lado, havia gerado nnovas organizacées, como a aNL. Essa organizagio era fortmada por vitios prupos democriticos, socialistas ¢ ancifascistas que denunciavam o avango da extrema diteita e do conservadorismo autoritirio, na sociedade e no préprio governo Vargas. Embora minoritéria na Assembleia Constituinte, ‘2ANL consegui mobilizar as ruas,levando os teabalhadores que continua- ‘vam a lutar por melhores salétios ¢ condicdes de trabalho. ‘No primeito semesize de 1935, a ANi reuniu milhares de cidadios em assembleias e comicios, defendendo um programa de reformas radicais que passava pela suspensio do pagamento da divida externa brasileira, a nacionalizagéo de empresas estrangeiras, a reforma agréria voltada para a divisio dos latifindios e a consolidacso de liberdades democriticas que peemitissem a livee organizagio pa € participagio de secores po- pulares na vida politica. A entidade reunia até muitos revolucionsrios de 1930, frustrados com o conservadorismo do governo Vargas, como alguns “ccnentes” que haviam deixado 0 governo. O presidente de honra da ANE era Luls Carlos Prestes, ider da jé lendéria Coluna Prestes. Isolado no cexilio em Buenos Aires ¢, depois de 1930, em Montevidéu, Prestes recusara « anistia do governo brasileiro ¢ rompera com seus antigos companheiros da Coluna, acusando-os de aderir & nova ordem politica pés-1930 em twoca de recompensas politicas ¢ materiais. Q caminho que levou Prestes do esquerdismo socialista do final dos anos 1920 para a converséo final 20 ‘comunismo radical, por volta de 1931, nao foi tranquil. Mas 0 fato € que ‘os lideres da Internacional Comunista, que na prética mandavam ao PC brasileico, percebiam no exlider da Coluna o futuro lider da “Revolucio Brasileira’. Em fins de 1931, Prestes vigjou clandestinamente para Moscow, Os soviéticos, sob a lideranga autocritica de Josef Stalin, tinham planos para estimular uma revolucio socialista na América do Sul, com amplo apoio da Internacional Comunista (1c). Na avaliagao da 1c, Prestes parecia 0 lider mais ousado, carismético c aglutinador de vatias tendén~ cias, pelo scu prestigio. Em 1934, cle foi acito oficialmente no Powe em abril de 1935 voltou, secreramente, para o Brasil com 1a primeira Repiblice Soviética das Américas. Com ele, formar 0 pa vieram varios agentes da tC, como a alema Olga Bendtio, que acabatia se casando com o brasileiro, Em jutho de 1935, Press divulgou um manifesto pedindo a dei rubada do governo “odiaso de Varges” ¢ deferidendo “todo poder 2 Nt” Alguns dias depois, aproveirando 2 oportunidad causada pela radicaliza- Gio dos termos desse manifesto, o governo Vargas suspendeu as atividades dda Aliangz, abrindo caminho paca a repressio 20 movimento, Apesar da grande adesio & ANL, © movimento se dispersou depois de ser declarado ilegal, demonstcando a fragilidade de sua organizacio. ‘Além disso, muitos membros da 4Nt-nfo cinham simpatia por uma oma- da violenta do podes, preferindo apostar na via eleitoral para conquistar 0 governo nacional. Vale lembrar que o Brasit, em principio, ceria eleisées presidenciais em 1938 © um partido forte, de massas, capaz de articular fs serores progressistas da classe média e do operariado, poderia ter um candidato com chances reais de conquistar 0 poder do voto, Pasa os comunistas mais radicais, 2 proibigio da aNL confiema- va sua tese de que as elites brasileiras nio permitiriam que a sociedade mnudasse pelo voto e pela aio de um movimento de massas pacifico. Essa conclusio deu forga aos milicantes comunistas que atuavam no seu interior defendendo um levance armado. Depois da proibigao da ANL, © 7B ¢2 1Capostaram em um levanté revolucionéio; a lideranca de Prestes e sua influéncia nos quartéis somadas 20 peso comunista no movimen- to operdrio seriam a garantia da vitSria, Mesmo sem a ANI, 0 caminho para a revolugio conauista no Brasil parecia tragado ¢ invencivel. A ANL funcionaria como um movimento de massas, capaz. de mobilizar varios setores da sociedade que nio accitavam nem o liberalismo oligicquico, nem o fascismo. O FCB organizaria os operdtios ¢ os soldados, que seria, 2 tropa de choque da sonhada revolugio. Os primeiros deveriam apoié- Ja na forma de greves ¢ de milicias armadas, ¢ os segundos, com sua formacéo militar, se rebelariam ainda nos quartéis, impedindo qualquer reaglo do Exército legalista na eepressio ao levante. O plane era esse, mas a realidade foi bem diference. weasitnow-auerensseconntmvinaves IO9 No final de novembro de 1935, varios quartéis se rebelasam, em Natal, Recife © no Rio de Janciro, Depois de quatro dias de combates, has ras € nos quartéis, o levante comunista foi completamente derrotado plas foxcas militares figis a0 governo. As bases operdcias do PCR NSO esta- ‘vam devidamente organizadas e preparadas para o levante, ¢ praticamente nao adericam. A “grande revolugio” parecia mais com uma “tebeliao te- nentist”, cazregada de voluntarismo e impero dos rebeldes, mas pouco articulada com outros setores sociais. A represséo policial que se seguiu foi iatensa e cruel. Sob a li- detanga de Filinto Muller, ironicamente um ex-membro da Coluna Prestes expulso por mé conduta com as financas do movimento, @ Po- licia Especial do Distrito Federal (Rio de Janeito} conduziu a captura € 108 incerrogazérios de comunistas e simpasizantes. Muitos membros da {AL que no tinham participado do levante comunista também foram presos. © governo declarou “estado de guerra” e, na peética, as garan- tias ¢ 05 direicos da Consticuigio de 1934 foram suspensos. Muitos dos presos foram barbaramente torturados, com apoio até da policia secreta natista, a Gestapo. O interesse dos nazistas era, sobretudo, pelos cida- dios alemics envolvidos na conspiragéo comunista contra © governo Vargas, como Olga Bendrio ¢ Harry Berger. Olga foi prese junto com Luis Carlos Prestes em marco de 1936, depois de uma grande cagada policial. Posteriormente, ela foi deportada para a Alemanha, grévida do brasileiro, morrendo em um campo de concentragao antes do final da Segunda Guerra Mundial. Uma grande campanha internacional conduzida pela mée de Prestes conseguit retirar a filha do casal, Anita Leocédia, da Alemanha nazista. Prestes s6 seria libertado em 1945 {mas nem a prisio, nem 2 derrota do levante abalariam a lenda em torno do seu name). O Partido Comunista Brasileiro foi desarticulado, com a prisio da maior parte dos seus Iideres. No mesmo ano foi instituido o ‘Tribunal de Seguranca Nacional, subordinado a Justiga Militar, para realizar julgamentos répids, nos quais 0s acusados mal podiam se defender, violando os rituais dos processos juridicos tradicionais. Cerca de 1.400 pessoas foram sentenciadas por esse ribunal até dezembro de 1937, 10 stonistosmasn rsroacica ACONSTRUCAO DE UMA ORDEM POLITICA AUTORITARIA, (0 levante comunista derrotado; além de reforgar 0 anticomunismo das elites civis e militares brasileiras, serviu para consolidar o poder pessoal de Gevilio Vargas no comando do Estado brasileiro. Até os integralstas, que no tinham simpatia politica pelo presidente, tiveram que se subordinar, ‘momentaneamentes & sua autoridade e liderange na iuta contra 0 inimigo comum de ambos, os comunistas. Os grupos lberas, sempre assustados com qualquer desordem social que pudesse ameagar suas propriedades, privilégios sociaise valores morals, apaiaram a repressio 20s comunistas. Dentro do alto escaléo do governo, a ameaga comunista servin para justificar 2 opgéo daqueles que defendiam uma ordem autoritiria escan- carada, sobretudo oficiais militares de alta patente ¢ alguns ministros. As poucas vores liberais dentro do governo foram sendo marginalizadas poli- ticamente, Entretanto, oficialmente, © governo Vargas prometia manter as cleigdes presidenciais de 1938 e fazer o pais voltar A normalidade consti tucional. Porém, 2 opcio por promover um golpe de Estado realizado no para derrubar o presidente Vargas, mas para reforcé-lo dentro de uma nova cordem autoritiia plena, j estava no seut horizonte ‘Além dos aspectos conjunturais que favoreceram o “autogolpe” do sgoverno Vargas, que seria realizado eferivamente em 10 de novembro de 1937, a construgao da ordem autoritéria foi estimulada pela claboracio de ‘varias doutrinas politicas, Defendidas por intelectuais de renome & época, como Azevedo Amaral, Oliveira Vianna e Francisco Campos, essas dou- tinas pregavam reformas estruturais no Estado brasileiro que reforgassem a burocracia 0 controle da educagio; a repressio € a propaganda politica, como pilares de um “governo force”. O argumento central dos pensadozes auorittios era que a modernizacio da sociedade brasileira na direcéo de ‘uma “civilizacao industrial” deveria ser feita de maneira tutelada, condu- ida por um “governo forte”, para evitar que os conflitos sociais gerados nesse processo destruissem a ordem estabelecida, Qutro ponto em comum do pensamento autoritério que emergiu nos anos 1930 era a defesa da submissio das oligarquias regionais aos interesses nacionais. A “nova po tica do Brasil” deveria ser maior que a hegemonia imposta pelos principals estados da federagio, apagando de uma ver por todas as sombras da Pri- rmeita Repiiblica. Para os idedlogos autoriciios, era necessirio um chefe snasitnovo-ruerumsecowrmrapanes 11] politico personalista que condurisse esse procesto, caja autoridade e estilo de governo ni fossem qucstionados periodicamente nos pleitos eleitoras, colocando em risco as diretrizes estratégicas do desenvolvimento nactonal Nos anos 1930, isso significava, na pritica, reforgar o podere a autoridade pessoal de Gecilio Vargas. Se havia pontes em comum entre essas varias correntes da pensa- mento autoritério (cientficistas, fascistase catélicos) — como o ancicorna- nismo, o ancltheralismo, o nacionalismo conservador ¢ © corporatvisma como ideal de organizacio social -, existiam também muitas diferencas. Os “ciemtificistas” auroritios tendiam a conciliae a turela do Estado com a manutengio de certas liberdades individuais restritas ao mundo privado dos cidadies, limitando-o a controlar a vida piblica e a planejar a econo- mia nacional. Os catSlicos no valorizavam tanto o Estado como tinico ator responsivel pela orem social, dando mais importincia 4 familia patriarcal e Igreja como fundamentos morais dessa ordem. Os fascists tendiam a fundir 0 Estado, o partide e a sociedade em uma organizagio politica Gnica, o que era negado pelas outras correntes autoritérias ‘As burocracias civil militar passaram a ter um papel central nesse processo politico e social, colocando-se como mediadoras entre os interes- ses privados de fazendeiras ¢ donos de indkstrias e 0 governo federal. Em grande parte, a partir da seganda metade dos anos 1930, o poder crescente de Geeilio Vargas seapoiava naquelas burocracias. A nova forma de Estado que se desenhava ~ mais centralizado, regulador ¢ intervencionista na eco- nomia~ nunca chegou a ameagar © poder das velhas elites regionais, mas as submeteu a outro projeto politico e econémico, pautado pela indus- twializagio. Em tese, a burocracia técnica subordinada a0 governo federal deveria disciplinar os quadros politicos © os interesses regionais e, para tal, foram criados vitios érgias burocriticos. Jem 1931, foram criados o Ministério da Educagéo ¢ Satide © 0 Ministério do Trabalho, voltado para a tutela sobre as classes populares ¢ a preparacio das prpras elites nas ta- refas de governo e lideranga, Em 1933, 0 Departamento Nacional do Café prometia regulamentar ¢ planejar tecnicamente a producéo, 2 estocagem © 0 comércio do importante produto, evitando que a competicéo desen- ficada de produtores © comerciantes privados criasse um excesso de oferta dda bebida e baixasse seus pregos. Em 1934, foi criado © Departamento de 112. rasomoomas-neevauca Propaganda ¢ Difuséo Culeural, paca centralizar a propaganda oficial 1936, foi criado © Instituto Nacional de Estatistica ¢.Cartografia, base do atwal Instcaco Brasileiro de Geografia Estarética (ince). Esse furor burocratico s6 cresceria depois de 1937. © Exército brasileiro passou por um processa de seorganizacio burocritica, tomando-se mais centraizado ¢ hicrarquizado, © que 1e- presentou a liquidacéo do estilo tenentista de intervencSo militar na politica. Tornando-se urn efetivo avor politico instalado no coracio do Estado, 0 Exército se via como a instituisio central na mediagéo dos conflitos saciais politicos. © peincipal lider militar era o general Gées Monteiro, Logo apés a queda da Primeira Repliblica cle escreveuo livto A Revolugé de 30 ¢ a finalidade politica do Exército, defendendo a ideia de que o Extrcita era a “concentracéo da nacionalidade”. Gées Monteiro