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Projeto Vidas Plurais

Enfrentando a Homofobia e
o Sexismo em sala de aula

(Versão preliminar)

Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero


(Nedig/Ceam/UnB)

Distrito Federal, 2010.


Equipe
Hilan Nissior Bensusan | coordenador
Denise Botelho | coordenadora adjunta
Flávia Bascunan Timm | coordenadora administrativa

Alice de Barros Gabriel | coordenadora pedagógica e conteudista


Felipe Areda | conteudista
Tatiana Nascimento dos Santos | conteudista
Wanderson Flor do Nascimento | conteudista

(Versão preliminar)

Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero


(Nedig/Ceam/UnB)

Distrito Federal, 2010.


Vidas Plurais: Guia Docente 3

MÓDULO 1- EDUCAÇÃO GÊNERO E SEXUALIDADE

01 – INTRODUÇÃO mens devem se relacionar entre si. A-


prendemos o que significa ser de uma
A educação tem muitas funções. Uma das
certa nacionalidade e como ser dela. A-
mais importantes é formar pessoas, o que
prendemos o que significam os lugares
faz dela uma das mais relevantes práticas
sociais e aprendemos a ocupá-los.
da experiência humana. Esse processo de
formação não é apenas cognitivo, quer A escola – enquanto instituição privilegia-
dizer, não está apenas ligado com os sa- da do trabalho educativo – ocupa um lu-
beres que se adquirem e constroem atra- gar central na constituição da subjetivida-
vés das práticas educativas. É um proces- de, e é entendida como uma instituição
so também subjetivador: que forma formadora. É muito comum ouvirmos que
sujeitos/as. Neste módulo, discutiremos a a escola é uma das instituições responsá-
maneira como a educação (sobretudo a veis pela formação das pessoas cidadãs. E
formal/escolar) participa desse processo, a cidadania é, além de um modo de inte-
e vamos ver como as relações de gênero, ração política no mundo, um modo de
sexualidades, linguagens e violência se ser1.
articulam nesse processo de formação. O processo de formação envolve a rela-
ção com os valores que circulam explícita
ou silenciosamente em nossa sociedade.
1.1 – A ESCOLA E A CONSTRUÇÃO
Os valores são fundamentais na constru-
DA SUBJETIVIDADE
ção do que somos, de nossa subjetividade.
Existem muitas formas de entender a pa- As imagens que temos de nós mes-
lavra “subjetividade”. Aqui pensaremos mas/os, das outras pessoas e do mundo
sobre um de seus sentidos mais importan- são totalmente atravessadas por valores,
tes, o que está ligado com aquilo que nós que nos apontam que é certo ou bom ser
somos. Palavras como subjetivar e subjeti- de um determinado modo e, sobretudo,
vação estarão, nesse contexto, ligadas que é mau ou errado ser de outro.
com o processo através do qual nós che-
Não é tão evidente a efetivação desse
gamos a ser aquilo que somos.
processo. E por isso é tão difícil trabalhar
Esta percepção da subjetividade supõe para a construção de subjetividades não-
que aquilo que somos não está pronto opressivas ou não-oprimidas. Muitas vezes
desde o nosso nascimento, mas que a- temos a impressão de que o que somos é
prendemos a ser o que somos. E nesse um fato, um dado de nossa história ou
processo de aprender, a educação ocupa mesmo da natureza. E naturalizar um pro-
um lugar fundamental. Nela, além de a- cesso atravessado por valores é extrema-
prender coisas, aprendemos a ser o que mente perigoso, na medida em que não
somos e também aprendemos maneiras podemos ver a violência atuando na cons-
de lidar com as coisas e com as outras tituição desses processos.
pessoas. É também através da educação
que aprendemos o que significa ser mu-
lher e homem, e como mulheres e ho- 1 NASCIMENTO, 2004, pp. 17-33
4 Módulo 1: Subjetivação, Gênero e Sexualidade

Não conseguimos ver, por exemplo, que estudantes como da nossa mesma, já que
ao citarmos em sala papéis mostrando de o trabalho de construção da subjetividade
modo fixo e separado tarefas para ho- não acontece só quando estamos na con-
mens e mulheres, estamos reforçando dição de estudantes... é um trabalho da
uma imagem sexista da divisão sexual do vida inteira. Uma postura crítica das práti-
trabalho. Imagens de como as relações cas escolares pode ser uma chave para
acontecem estão presentes em nossos pensarmos em uma outra produção de
cotidianos. E devemos estar atentas/os outras subjetividades, menos oprimidas,
para que essas imagens não se perpetuem menos opressoras.
como normas: elas devem ser problemati-
zadas e examinadas para ver se não es-
condem em si mecanismos opressivos. Os
livros didáticos, nossos exemplos, nossas Para observar...
atividades, sobretudo nas séries iniciais, Olhe com cuidado livros didáticos das séries iniciais e observe
devem ser lidos e pensados com cuidado, se nas gravuras aparecem apenas mulheres ou meninas reali-
para não naturalizar papéis que são soci- zando trabalho doméstico, e se em imagens da realização de
almente construídos. trabalhos públicos ou funções executivas aparecem apenas
homens; veja que cores de peles aparecem nas imagens liga-
As imagens televisivas são muito utilizadas das à pobreza ou ao trabalho subvalorizado. É importante
como recursos didáticos no espaço esco- discutir com nossas/os estudantes essas imagens, pois elas se
lar, podendo ser muito interessantes pe- internalizam e fica parecendo que não apenas o mundo é
dagogicamente. Podemos utilizá-las para assim, como também, de algum modo, deve ser.
desconstruir os papéis naturalizados, des-
de que questionemos imagens naturaliza-
das dos papéis atribuídos a mulheres e
homens, ou aquelas que sustentam que a
1.2 – O PAPEL DO GÊNERO E DA
única forma de família é a heterossexual,
SEXUALIDADE NA CONSTRUÇÃO DE
ou que pessoas negras são úteis apenas
SUJEITOS
em trabalhos subvalorizados etc. Além de
criticar essas imagens, podemos buscar E falar em subjetividades nos remete ao
outras, que construam referências positi- debate sobre as sexualidades, as afetivida-
vas e apontem outras formas de relações des e as relações de gênero, que são ins-
raciais ou de gênero e sexualidades. No tâncias muito importantes na formação
final desse guia, você vai encontrar uma das pessoas. Por quê? Porque definem a
lista de sugestões com filmes, livros, músi- maneira pela qual as pessoas vão se rela-
cas, um calendário e outros materiais pa- cionar consigo mesmas, e umas com as
radidáticos para trabalhar em sala de aula. outras. Veremos, nos módulos 02 e 03,
que o gênero é uma ferramenta de distin-
É essencial que estejamos atentas/os a
ção entre seres que acaba organizando
como temos trabalhado em nossa prática
modos de vida, sociedades e costumes. A
pedagógica, mesmo sem saber, para a
divisão sexual do trabalho, por exemplo, é
manutenção de valores opressivos. É um
uma prática recorrente em muitas civiliza-
trabalho difícil, mas que é importante, já
ções humanas, ou seja, muitas sociedades
que estamos contribuindo para a forma-
atribuem, para seu funcionamento e ma-
ção da subjetividade tanto de nossas/os
Vidas Plurais: Guia Docente 5

nutenção, papéis específicos a suas/seus tipos de feminilidades e masculinidades.


integrantes a partir da classificação de Tipos que não sigam normas rígidas e
“feminino” ou “masculino”. inquestionáveis; que não demandem a
agressividade como fator principal, nem o
ódio ao feminino – como acontece com a
GÊNERO DE TRAÇOS BIOLÓGICOS masculinidade hegemônica2. E, principal-
QUE CATEGORIZA PESSOAS mente, tipos que não costurem “identida-
Apesar de se estabelecer como uma leitu- de de gênero” e “sexualidade” como um
ra social (costumes) de dados biológicos par inseparável. Esse curso é sobre como
(corpos), o gênero é um mecanismo que a suposta indivisibilidade entre “gênero” e
também constrói corpos. Por exemplo, na “sexualidade”, aliada a uma maneira única
educação infantil ocorre muito o incentivo de entender sua relação, resulta em o-
para que as meninas brinquem “de casi- pressão e aniquilamento de estudantes
nha” ou “de boneca”, “de escolinha”, LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, traves-
brincadeiras baseadas em tarefas domésti- tis e transexuais. 3
cas. Aos meninos, o incentivo é para
brincadeiras mais públicas, como “soltar
pipa”, “jogar biloca”, “subir em árvore”,
O que são relações e identidade de gênero?
“carrinho”. O resultado disso é notado no
desenvolvimento psicomotor de mulheres "Nossa cultura educa as crianças de forma diferenciada
e homens em outras etapas de suas vidas, tomando por base modelos do que é feminino ou mas-
quando apresentam menor aptidão física culino. É a partir das diferenças sexuais e culturais que a
sociedade cria idéias sobre o que é ser homem e o que
para determinadas tarefas ou maior treino
é ser mulher. A isso chamamos identidade de gênero.
para outras.
As relações de gênero servem para explicar os papéis
Como é que nós, professoras e professo- sociais (comportamentos) atribuídos ao homem e à
res, estamos incentivando esta discrimi- mulher na sociedade e para deixar evidente que as de-
nação que impede às crianças um desen- sigualdades existentes entre homens e mulheres não
volvimento mais amplo e pleno de suas são naturais, porque não são biológicas. Elas são cria-
ção das sociedades, por isso afirmamos que são uma
várias potencialidades, e não só de algu-
construção social e histórica, podendo ser modifica-
mas? Se numa aula de educação física
das".3
vamos formar times de queimada femini-
nos e times de futebol masculinos, já es-
tamos reforçando uma distinção social de
gênero. Sabemos que nós mesmas/os BINARISMOS NÃO DÃO CONTA DAS
fomos criadas/os desse jeito, e como ele DIVERSIDADES AFETIVO-SEXUAL E
funciona naturalizando e tornando invisí- DE IDENTIDADE DE GÊNERO
veis seus processos de elaboração, é ne-
cessário fazer um movimento de auto- A idéia de pares opostos complementares
percepção que permita entender nossa (arroz com feijão, yin e yang, positivo e
própria formação como um determinado
2 Mais sobre isso no módulo 03.
tipo de mulher ou homem. 3 Essa definição foi retirada do Caderno Temático
Assim fica mais fácil ver que, se nos cons- e Metodológico nº 2 do Projeto Saúde e Gênero
no Campo, da CONTAG – Confederação Nacio-
truímos assim, podemos construir outros nal d@s Trabalhador@s na Agricultura.
6 Módulo 1: Subjetivação, Gênero e Sexualidade

negativo, dentro e fora...) é recorrente em têm sido perseguidas e condenadas como


muitos sistemas de pensamento, desde os erradas até hoje. 4
religiosos/espirituais, filosóficos, matemá-
ticos, biológicos até os sistemas sexuais,
afetivos e outros. Aparece em “pares” “Costumo comparar a travesti a uma ilha, só que ao invés de
como mente/corpo, espiritual/mundano, estar cercada de água por todos os lados está cercada pela
sagrado/profano, mulheres/homens e violência”
feminino/masculino. Janaína Dutra4
Aqui nos interessa pensar em como essas
relações se estabelecem de forma a perpe-
tuar uma crença de que as mulheres exis- A expressão da sexualidade, os usos eró-
tem para os homens (e vice-versa), assu- ticos e sensoriais que fazemos a partir de
mindo essa crença como correta e defini- nosso corpo, se exercem de muitas for-
tiva, e abolindo outras formas de relações mas, e o encontro afetivo-sexual com
entre as pessoas: mulheres/mulheres, outra pessoa é mais uma delas. Não tem
homens/homens, mulheres/homens, mu- que ser o uso mais importante, e nem tem
lheres/homens/mulheres... O que cha- que ser um uso escondido. Como profes-
mamos de diversidade afetivo-sexual são soras e professores, é muito importante
as várias possibilidades de encontros afe- lembrar que vivemos numa sociedade que
tivo-sexuais entre as pessoas, onde a he- trata de forma abusiva a sexualidade e a
terossexualidade (relações afetivo-sexuais corporeidade das pessoas, ao mesmo
entre pessoas de sexo/gênero opostos) é tempo em que interdita debates sobre
mais uma das possibilidades, e não a úni- isso5. Por exemplo, enquanto é comum
ca. ver corpos super-sexualizados na mídia
(geralmente femininos), não há um costu-
A própria separação entre sexualidade e
me de se conversar, nas famílias, sobre
afetividade é um binarismo, e tem raízes
masturbação. Isso se reflete em várias
bem recentes, no Romantismo do século
situações escolares. Como na disciplina de
XIX, que atualizou e consolidou narrativas
“Educação Sexual” nas escolas, que mais
mais antigas que definiam a idéia de par
aborda medidas de prevenção de gravidez
romântico complementar: uma mulher
e DST/Aids, do que se constrói como
para um homem, almas gêmeas insepará-
espaço de compartilhar conhecimentos
veis que se amam, casam e vivem juntas
até que a morte @s separe. Fora desse par
central, qualquer outro encontro sexual 4 Travesti, advogada, militante pelos direitos
seria não só pecaminoso – já que o sexo, LGBT, morreu em 2004 em decorrência de um
câncer. Janaína foi presidente da Associação das
de acordo com uma daquelas narrativas, Travestis do Ceará (Atrac) e da Articulação Nacio-
tinha que ser exclusivamente para repro- nal das Travestis (Antra), também foi uma das
fundadoras do Grupo de Resistência Asa Branca
dução – mas desviante, anormal, doentio. (GRAB). Em homenagem à sua história de luta e
Por isso é que a homoafetividade, um dos resistência, o Centro de Referência LGBT de
muitos tipos de orientação afetivo-sexual, Fortaleza se chama “Centro de Referência Janaina
Dutra”.
e o livre exercício da identidade de gênero 5 Discutiremos como a sexualidade das mulheres
está capturada pelas vontades masculinas no regi-
me político e sexual a que chamamos de patriar-
cado no módulo 3.
Vidas Plurais: Guia Docente 7

sobre as várias possibilidades de expres-


são e vivências afetivas e/ou sexuais.
Homoafetividade é um termo usado “para descrever a
Você já ouviu que falar de maneira aberta complexidade e a multiplicidade de relações afetivas
e respeitosa sobre a diversidade de orien- e/ou sexuais entre pessoas do mesmo sexo/gênero.
tações afetivo-sexuais e identidades de Não é sinônimo de homoerótico e homossexual, pois
gênero na escola é um incentivo à homos- conota também os aspectos emocionais e afetivos en-
volvidos na relação amorosa entre pessoas do mesmo
sexualidade? Isso se baseia na idéia de
sexo/gênero.” Mais usado para descrever as relações
que as homoafetividades e identidades
entre as pessoas do mesmo sexo/gênero do que para
múltiplas de gênero são anormais, desvi- se referir a elas. Já homossexualidade é “a atração
antes, como se a própria heterossexuali- sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo/gênero”.
dade, definida como norma, não fosse A palavra “homossexualismo” não é mais usada, por
incentivada diariamente nas escolas, nove- seu caráter preconceituoso “devido ao sufixo „ismo‟,
las, músicas, nas expectativas de pais e que denota doença, anormalidade” 7; por isso foi subs-
mães quanto a suas filhas e filhos... A tituída por homossexualidade.
heterossexualidade é exercida como uma Identidade de gênero é “a profunda vivência interna e
pedagogia dominante dos afetos e rela- individual do gênero tal como cada pessoa a sente,
ções, colocada geralmente de forma im- podendo ou não corresponder ao sexo atribuído no
positiva e violenta, levando muitas crian- nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que
ças, adolescentes, jovens e pessoas adul- pode envolver modificação da aparência ou função
tas pra fora da escola, para a vida à mar- corporal por meios médicos, cirúrgicos e outros, desde
gem da sociedade, e também para a mor- que livremente escolhida) e outras expressões de gêne-
te. ro, inclusive vestimentas, modos de falar e maneiris-
mos”.
Ao longo desse guia, vamos conhecer
Orientação afetivo-sexual é entendida como “a capaci-
algumas abordagens teóricas e metodoló-
dade de cada pessoa de sentir uma profunda atração
gicas que permitam investir no caráter de emocional, afetiva e sexual por pessoas de um gênero
formação pró-diversidade que a educação diferente do seu, ou de seu mesmo gênero, ou de mais
deve assumir para realizar seu papel de de um gênero” 8
“estruturação de concepções de mundo e
de consciência social, de circulação e con-
solidação de valores, de promoção da
diversidade cultural, da formação para a
1.3 – ESCOLA, GÊNERO E
cidadania, de constituição de sujeitos soci-
SEXUALIDADE. ENTRE A VIOLÊNCIA
ais e de desenvolvimento de práticas pe-
E A SUBJETIVAÇÃO
dagógicas”, já que “o processo formativo
pressupõe o reconhecimento da pluralida- Como já vimos antes, a escola é um dos
de e da alteridade, condições básicas da espaços privilegiados da construção da
liberdade para o exercício da crítica, da
7 Trechos retirados do Manual de Comunicação
criatividade, do debate de idéias e para o LGBT da ABGLT.
reconhecimento, respeito, promoção e 8 Essas definições constam dos Princípios de Yog-

valorização da diversidade”.6 7 8 yakarta, consolidados em 2006 como um docu-


mento-referência na aplicação de direitos humanos
a pessoas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, tra-
vestis e transexuais. Disponível em espanhol em
6Trechos do Plano Nacional de Educação em http://www.yogyakartaprinciples.org/index.php?it
Direitos Humanos, 2008, p. 31. em=25.
8 Módulo 1: Subjetivação, Gênero e Sexualidade

subjetividade, ou seja, ela é um dos espa- consigo essas marcas, as distribuem, mul-
ços de subjetivação. Vimos também que tiplicam,.
um dos aspectos fundamentais da consti- A escola é um dos mais importantes es-
tuição da subjetividade é formado pelas paços de socialização de nossa cultura.
imagens de gênero e as expectativas soci- Socialização pode ser entendida como
ais de quais relações afetivo/sexuais são processo de aprender a viver e a ser em
possíveis entre homens e mulheres e os sociedade. Em nossa sociedade, as manei-
valores agregados a estas expectativas. ras como nos relacionamos com as outras
A escola é também um espaço de encon- pessoas, conosco e com tudo o mais são
tro entre pessoas diferentes, e que se rela- aprendidas através dos processos sociali-
cionam de maneiras diversas com os pa- zadores; é neles que parte de nosso pro-
péis que delas se esperam socialmente. cesso de subjetivação ocorre.
Uma das várias formas que esses encon- Nesses processos, os valores, preconcei-
tros assume é a violência, tanto física tos, desafetos são igualmente aprendidos.
quanto simbólica9. É também a escola uma espécie de labo-
Esta violência não apenas agride as pes- ratório onde experimentamos – sob uma
soas, mas também as subjetiva, também criteriosa supervisão das outras pessoas
as ensina a ser como elas são. Dentre as envolvidas nos mesmos processos sociais
diversas violências visíveis no espaço esco- – as condutas que devemos ter diante de
lar, estão presentes as que se conectam nosso mundo social. Na escola aprende-
com o gênero e com a sexualidade. A mos sobre diversos papéis sociais e tam-
violência misógina e as violências lesbofó- bém sobre que tipos de relação estabele-
bica, homofóbica, bifóbica, travestifóbica ceremos nossas condutas, sabendo, assim,
ou transfóbica são vistas rotineiramente quais são os papéis valorizados e quais
no ambiente da escola e assumem um devemos desvalorizar. E nesse processo
caráter muito importante na constituição de aplicar os valores, aprendemos a fazer
da sociabilidade e da individualidade das circular e até mesmo a criar e recriar valo-
pessoas que perpassam o espaço escolar: res.
docentes, estudantes e todo o restante da
comunidade escolar. Nesse cenário violen-
to aprende-se a ser heterossexual (violan-
do quem não é) e aprende-se a não ser Para observar...
heterossexual sofrendo violências, escon- Nas práticas pedagógicas de sua escola é possível ver piadas
dendo seus afetos ou sendo menos inteiro que envolvam ou reforcem papéis estereotipados de homens e
nas aparições públicas; aprende-se a ser mulheres, ou ainda que condenem a diversidade de orienta-
homem inferiorizando-se as mulheres; ções sexuais? Pense em como transformá-las em exemplos
aprende-se, normalmente, a ser mulher didáticos. Que tipo de impacto você pensa que pode haver na
subjetividade de um/a adolescente ou criança que cresce sen-
sendo objetificada pelos homens. E a vio-
do educadas com esse tipo de exemplos? Vale a pena obser-
lência se institui como uma das marcas de
var, por exemplo, as aulas de educação física e ver como esses
constituição da subjetividade das pessoas elementos se articulam...
que estão na escola e, saindo dela, levam

9 LOURO, 1998, pp. 57-87


Vidas Plurais: Guia Docente 9

Um dos fenômenos envolvendo violência resolução de conflitos e modos de lidar


e papéis sociais na escola é o bullying. com a violência e perseguições ou intimi-
dações, por meio de processos participa-
tivos e democráticos”.11
Você já ouviu falar sobre Bullying? Levando em consideração o que dissemos
Bullying é um termo psico-pedagógico que tem sido usado antes, sobre a violência muitas vezes se
para conceituar a prática de agressividade repetitiva entre ocultar enquanto constitutiva de subjetivi-
crianças e adolescentes, que aparece através de persegui- dades, podemos ver que durante muito
ções, humilhações e intimidações. Essa prática tem sido vista tempo as práticas violentas na escola e-
como uma nova síndrome social, denominada Síndrome de ram tidas como “brincadeiras de crianças
maus-tratos repetitivos – SMAR.10 É importante, contudo, e adolescentes”12. Só que essas “brinca-
não esquecermos que essa definição faz uma leitura psico-
deiras” se mostraram mais sérias e com-
pedagógica de um fenômeno social, uma vez que as crianças
prometedoras do que gostaríamos que
atingidas pelo bullying são aquelas com traços considerados
desvalorizados socialmente, tais como: pobreza, negritude,
fossem. É urgente, para uma escola que
homossexualidade, não-enquadramento em padrões estéti- se engaje positivamente na formação de
cos e funcionais (crianças gordas ou magras, crianças com subjetividades, que se oponha à violência
deficiência...). Nos módulos 02 e 05 você vai ter mais acesso e opressões diversas, pensando em estra-
a essa discussão de como as opressões articulam diversos tégias de modificação das relações agres-
preconceitos e criam estigmas e esterótipos que fomentam sivas na escola e avaliando criticamente os
a exclusão. modos como nos relacionamos com o
gênero e a sexualidade.

10

Gênero e Sexualidade estão entre os ele- 1.4 – LINGUAGENS NÃO-


mentos principais que motivam o bullying: DISCRIMINATÓRIAS OU “LINGUAGEM
homossexuais e meninas são alvos privile- INCLUSIVA”
giados dessa prática violenta. Combatê-la O DISCURSO COMO PALCO
no espaço escolar implica em compreen- POLÍTICO
der como os lugares de papéis de gênero Lutar com palavras
e diversas orientações afetivo-sexuais, é a luta mais vã.
envoltos num complexo de gênero, sexua- Entanto lutamos
lidade e violência, participam da constru- mal rompe a manhã.
ção da subjetividade das pessoas que Carlos Drummond de Andrade,
compõem a comunidade escolar. O Plano no poema O Lutador
Nacional de Educação em Direitos Huma-
nos aponta que a superação dessa reali- Ao longo desse guia, você notará o uso
dade de violência deve se dar a partir de de diversos símbolos e recursos lingüísti-
“ações fundamentadas em princípios de cos para marcar a flexão de gênero em
convivência, para que se construa uma substantivos: @, as/os, x . A gramática
escola livre de preconceitos, violência, normativa do português brasileiro aponta
abuso sexual, intimidação e punição cor- que o masculino funciona como termo
poral, incluindo procedimentos para a
11 PNEDH, 2008, p. 35.
10 FANTE, 2005. 12 FERRARI, 2008, p. 2
10 Módulo 1: Subjetivação, Gênero e Sexualidade

“genérico” ou “universal”. Assim é que a um ambiente escolar que seja frutífero e


linguagem, como sistema de expressão acolhedor da diversidade.
mas também de poder, perpetua a noção GAY É XINGAMENTO?
de que o masculino é sujeito universal, ou
referência primeira de mundo. Mas essa A linguagem também alimenta o imaginá-
noção é justa? Não se pensamos que o rio, criando novas possibilidades de mun-
uso do masculino genérico insiste na do ou reforçando o mesmo. Se uma pro-
crença de que um único tipo de sujeito fessora ou um professor insiste em usar
pode representar ou falar por vários tipos, nos exemplos sempre um “Joãozinho”, e
um tal “sujeito universal”. nunca uma “Flavinha”, isso reforça a idéia
de que as mulheres não existem como
sujeitas sociais. Da mesma forma, se as
referências feitas à pessoa com deficiência
“O homem universal é o resultado histórico de um desnu- vão ser sempre de condescendência ou
damento: ele surge historicamente quando despojado do
pena (“ela tem um probleminha na per-
valor de suas diferenças culturais”
na”, “o coitadinho do cego”), então isso
Hannah Arendt invisibiliza a luta política desse segmento,
bem como a trajetória pessoal de resis-
tência e fortalecimento que cada qual traz
É por se sentir de fora dessa representa-
consigo – além de reforçar o estigma.
ção unitária que vários grupos repensam
Termos como “débil mental”, “aleijad@”,
suas práticas políticas também no plano
“viado” e “sapatão” costumam carregar
discursivo ou lingüístico. São grupos de
uma forte carga depreciativa. Mas por
mulheres; indígenas; negr@s; população
quê? Porque um determinado uso social
LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, traves-
as consagrou assim. Podemos, então, usar
tis e transexuais; pessoas com deficiência,
termos não-depreciativos, ou ressignificar
entre outros. Seus movimentos reivindica-
esses.
tórios passam por uma demanda de mu-
dança discursiva, para que não só garan- Mas a linguagem inclusiva não se refere
tam o direito de se falarem por si mesm@s unicamente a uma lista de termos que
– o que se chama protagonismo – mas devem ser usados em lugar de outros –
também de escolherem quais termos vão “bom dia a todas e todos” é um ótimo
usar. começo, mas não basta. É preciso repen-
sar constantemente nossa postura com
Isso deixa nítido que a linguagem, o cam-
relação ao mundo e às diversas existên-
po discursivo, é também um campo de
batalha. Ela, como ferramenta de comuni-
cação humana, pode mostrar o espectro
Você sabia?
múltiplo que compõe a diversidade de
pessoas, ou pode reforçar a idéia exclu- Você sabia que o Movimento LGBT já foi chamado de Mo-
dente e hierárquica de quem importa a vimento GLS (gays, lésbicas, simpatizantes), e até recente-
mente de Movimento GLTB (gays, lésbicas, transgêneros e
ponto de ter representação lingüística, de
bissexuais)? Foi na Conferência Nacional GLBT (gays, lésbi-
merecer ser falad@. É por isso que usar
cas, bissexuais, travestis e transexuais), em 2008, que o ter-
formas não discriminatórias de falar e mo LGBT foi adotado nacionalmente, como uma demanda
escrever faz parte do planejamento para das lésbicas para aumentar a visibilidade e o protagonismo
feminino. Da mesma forma, o movimento de pessoas com
deficiência já foi chamado de “movimento de pessoas com
necessidades especiais”, “movimento de pessoas portadoras
de deficiência” e outros.
Vidas Plurais: Guia Docente 11

cias que o habitam – tanto no plano físico que mais existências diversas sejam per-
como no simbólico –, de forma que a cebidas e mencionadas de maneira positi-
existência da diversidade seja sempre a- va.
nunciada. Isso amplia a possibilidade de

Sugestão de atividade...
Que outras formas de preconceito a linguagem apresenta? Pense, com suas alunas e alunos, alternativas a essas formas
e crie um glossário de usos não-discriminatórios de linguagem.

Sugestões de uso de linguagem não-discriminatória/linguagem inclusiva:


O homem Humanidade, as pessoas, a espécie humana
Pessoa de cor; bem moren@; mulat@ Negra, negro; pessoa(s) negra(s)
Disseminar (evoca “sêmen”) Difundir, espalhar
Os jovens A juventude, as pessoas jovens, as e os jovens
Os idosos As pessoas idosas; idosas e idosos
Os alunos Estudantes; os alunos e as alunas
Os professores Professoras e professores; a equipe docente
Os eleitores O eleitorado

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABGLT. Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Ma-
nual de Comunicação LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Curitiba:
2010.
CONTAG. Confederação Nacional d@s Trabalhador@s na Agricultura. Caderno Temático e
Metodológico nº 2 – Para Lideranças do Projeto Formação de Multiplicadores(as) em Gêne-
ro, Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos. Ministério da Saúde/Contag. Brasília: 2008.
FANTE, Cleo. O fenômeno bullying. Campinas: Verus, 2005.
FERRARI, Anderson. “Devido ele ser afeminado. Foi constrangedor porque ele era meu
amigo e ainda me envolveram na questão” – BULLYING E HOMOFOBIA NA ESCOLA.
Anais do Encontro Internacional Fazendo Gênero 8 - Corpo, violência e Poder. Florianópo-
lis: UFSC, 2008.
HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano.Rio de Janei-
ro: Bertrand Brasil, 2000.
NASCIMENTO, wanderson flor do. Esboço de crítica à escola disciplinar. São Paulo: Loyo-
la, 2004.
12 Módulo 1: Subjetivação, Gênero e Sexualidade

PAUL, Pamela. Pornificados. São Paulo: Cultrix, 2006.


PNEDH, BRASIL. Comitê nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de
Educação em Direitos Humanos. Brasília: 2008. Secretaria Especial dos Direitos Huma-
nos/Presidência da República.
Vidas Plurais: Guia Docente 13

MÓDULO 2 - DESNATURALIZANDO O SEXO

O sexo possui um lugar central na organi- pessoa, bem como dela sobre si mesma e
zação de nossa sociedade, perpassando a forma como ela se percebe, dá sentido
nosso cotidiano e quase todos os aspectos a sua experiência, seu corpo, suas rela-
de nossa vida (se não todos). ções e as posições sociais que ocupa.
“Vamos falar de sexo?” Ao ver uma mulher grávida, a pergunta
quase instantânea que surge em nossa
Com essa pergunta poderíamos supor
mente é: é menino ou menina? Por que
que esse é um tema sobre o qual quase
essa informação é importante e por que
não falamos ou temos medo de conver-
ela passa a organizar um conjunto enor-
sar; mas, se observarmos e olharmos a-
me de expectativas sobre aquele ser? Por
tentamente para o nosso cotidiano, per-
que essa informação organiza a nossa
ceberemos justamente o contrário: fala-
prática educacional, orientando os com-
mos o tempo todo sobre sexo. Ele está na
portamentos, gostos, desejos, afetos que
televisão (seja nos desenhos animados,
julgamos ser ou não adequados a esse ou
seja nos reality shows), nas revistas, nas
aquele sexo? Por que essa informação
propagandas (seja nas de cerveja, seja nas
guiará os olhares atentos que vigiarão
de brinquedos infantis), nas conversas do
esse corpo durante toda sua vida, pres-
dia-a-dia (daquelas ditas em voz alta até as
tando bastante atenção aos seus gestos,
cochichadas) e em espaços centrais em
práticas, desejos, comportamentos, rela-
nossa vida como a família, os grupos de
cionamentos e afetos? Por que frente à
amizade e a escola.
complexidade das características das pes-
O sexo é uma palavra cheia de significa- soas e suas singularidades, esse divisão
dos. Refere-se à divisão da humanidade binária da humanidade faz tanto sentido e
em mulheres e homens; ao conjunto de é utilizada para organizar as relações soci-
caracteres segundo o qual se divide os ais e instituições? Por que o sexo importa
seres vivos em classificações de fêmea ou tanto?
macho; aos órgãos genitais externos; ao
Investigar o que chamamos de “sexo” e
conjunto de práticas, desejos, relações e
denunciar seu processo de naturalização
afetos concebidos como sexualidade; ao
faz parte do esforço intelectual de histori-
ato sexual em si etc. Esses múltiplos signi-
adoras, antropólogas e teóricas feminis-
ficados são, na maioria das vezes, pensa-
tas, e outras pesquisadoras e pesquisado-
dos de forma conectada e são constante-
res do gênero. Naturalização é o processo
mente utilizados para dar sentido a nossa
como algo que é produzido culturalmente,
realidade, classificar seres e objetos e or-
através das práticas sociais e relações de
ganizar nossas instituições. O sexo está
poder, passa a ser visto como natural e
presente nas poesias, nas novelas, nas
como causa daquilo que na verdade é
piadas, nas brincadeiras, nas divisões de
consequência. Passamos a considerar
banheiros públicos, nos formulários que
que a divisão de papéis sexuais é natural
preenchemos e, principalmente, em nós
pois assim se mascara o dispendioso e
mesm@s. O sexo organiza um conjunto de
violento processo de adequação das pes-
expectativas das/os outras/os sobre uma
soas a esses papéis.
14 Módulo 2: Desnaturalizando o Sexoe

Nesse módulo, buscaremos nos aproxi- passa de um lado ao outro do binarismo


mar de algumas críticas da naturalização natural/histórico. No entanto, Foucault
do sexo – tanto no que se refere à sexua- alerta que existem normas sociais estritas
lidade como à divisão de gênero. Busca- para não só controlar, mas incitar um
remos compreender o papel da sexualida- certo tipo de exercício da sexualidade, em
de, enquanto dispositivo sócio-cultural, e que aprendemos um jeito específico de
do gênero, enquanto estrutura de violên- sermos seres sexuais em comunidade,
cia, na construção da subjetividade e na através das relações sociais que nos fazem
organização das relações sociais, explici- ser como somos.
tando os processos de constituição de
papéis sociais numa lógica que normatiza
os corpos, as relações e as subjetividades. “É pelo sexo efetivamente, ponto imaginário fixado pelo
dispositivo de sexualidade, que todos [e todas] devem
passar para ter acesso a sua própria inteligibilidade (já que
2.1- A SEXUALIDADE COMO ele é, ao mesmo tempo, o elemento oculto e o princípio
DISPOSITIVO produtor de sentido), à totalidade de seu corpo (pois ele é
uma parte real e ameaçada deste corpo do qual constitui
Michel Foucault (1926-1984), conhecido
simbolicamente o todo), à sua identidade (já que ele alia a
pesquisador francês, branco e importante
força de uma pulsão à singularidade de uma história).”
ativista referente aos direitos gays, publi- Michel Foucault 1
cou na obra História da sexualidade sua
investigação sobre o tema de um ponto
de vista histórico. Ele pesquisou como a Foucault1 se refere à sexualidade como
sexualidade se transformou em um ele- um dispositivo. Um dispositivo é um me-
mento tão importante nas sociedades canismo, um aparato, uma engrenagem,
ocidentais a ponto de ser utilizada, inclusi- uma rede articulada que organiza diferen-
ve, para saber (e determinar) a verdade tes elementos em um determinado mo-
sobre as pessoas. Algo do tipo: "Diga-me mento histórico a partir de um objetivo
sobre tua sexualidade e te direi quem és". estratégico dominante. A sexualidade é
Desconfiando de sua naturalização e in- um dispositivo que reúne, agrupa e co-
vestigando nossa compreensão sobre ela, necta em uma unidade várias dimensões
Foucault nos conta que nosso entendi- diferentes de nossa experiência: caracte-
mento sobre a sexualidade surge num rísticas anatômicas, desejos, formas de
contexto histórico específico. Isso pode relação, condutas, afetos, características
soar estranho, já que é comum acreditar comportamentais, sensações e funções
que não apenas o sexo é um dado bioló- biológicas. A organização desse conjunto
gico, mas que a sua função ou finalidade é de dimensões em um todo coeso se dá,
também já determinada naturalmente: a para Foucault, apenas a partir dos séculos
sexualidade muitas vezes é entendida co- XVI e XVII, quando as sociedades ociden-
mo o lado animal do ser humano afloran- tais e as que foram e são colonizadas por
do. É comum acreditar que natural e his- elas iniciam a multiplicação de discursos
tórico se opõem (ou natural e cultural), a sobre o sexo. Trata-se de discursos psi-
natureza sendo necessidade e imutabilida- quiátricos, médicos, religiosos e legais
de, e a história (ou cultura) sendo liberda-
de, possibilidade. A sexualidade, então, 1 FOUCAULT, 1888, pp. 145-6.
Vidas Plurais: Guia Docente 15

buscando analisar o sexo, defini-lo e es- ocupa na organização de nossas socieda-


quadrinhá-lo. Nesse processo é que a des: a sexualidade passa a ditar a verdade
sexualidade foi fabricada. Dizer que a se- e a totalidade da pessoa, o que conecta
xualidade é um dispositivo implica em sua singularidade a toda a espécie huma-
pensá-la como fabricada (e não natural: na.
não existem mecanismos ou dispositivos Como exemplo do funcionamento do
naturais), constituída. E como qualquer dispositivo da sexualidade nos dias de
dispositivo, atende a determinado modo hoje, que faz com que a sexualidade nos
de funcionamento - sustentado por ideais interpele, nos defina e nos construa, a
ou imaginários - e produz outras coisas historiadora brasileira tania navarro-
além de si mesmo. swain cita a expressão corrente “vida se-
– Mas então, antes disso não existia sexu- xual” ou ainda frases como “Sexo é vi-
alidade? No sentido de hoje, não. O que da!” presentes nos jornais, revistas, nove-
chamamos hoje de sexualidade é uma las e em conversas cotidianas. Ela questi-
noção que agrupa um conjunto de dimen- ona: “Como explicar a expressão „vida
sões da experiência que não estavam dire- sexual‟, senão pela desmedida importân-
tamente conectadas antes do século XVII. cia que dá aos órgãos genitais? Por que
O historiador inglês Alan Bray no livro não se fala, por exemplo, de „vida visual‟
“Homossexualidade na Inglaterra da Re- e de „vida manual‟?”3 O dispositivo da
nascença”2 afirma, por exemplo, que sexualidade faz com que essa dimensão
identificar um indivíduo na Renascença da experiência ganhe preponderância
como homossexual ou não seria um equí- sobre outras dimensões de nossa vida,
voco. Não por não haver práticas eróticas passando a atuar diretamente no signifi-
entre indivíduos do mesmo sexo, mas cado que damos à própria vida.
porque não veremos na Renascença o Apesar de ser um dispositivo histórico, a
sentido que atribuímos hoje à homosse- sexualidade, no entanto, nos aparece co-
xualidade, de forma particular, e à sexua- mo natural, como fundamento orgânico,
lidade como um todo, de forma geral. No como destino biológico da espécie –
tempo descrito e analisado por Alan Bray, somos assim e sempre fomos as-
a homossexualidade era pensada em fun- sim! Porém, tão logo prestamos atenção
ção de atos isolados; é somente a partir no esforço diário que se mantém para
do século XIX que ela passa a significar disciplinar práticas, corpos e comporta-
uma definição estável de u- mentos, começamos a desconfiar dessa
ma identidade. Hoje dizemos que uma dita naturalidade.
pessoa é homossexual, mesmo que ela
nunca tenha realizado nenhum ato com
uma pessoa do mesmo sexo, mas apenas 2.2- O SEXO COMO CATEGORIA
manifeste esse desejo. Passamos a ver a
Em 1949, na obra “O segundo Sexo”, a
sexualidade como uma estrutura da per-
feminista francesa Simone de Beauvoir foi
sonalidade das pessoas, independente dos
categórica: “Não se nasce mulher, torna-
atos que ela pratique. Por isso Foucault
denuncia o lugar central que a sexualidade

2 BRAY, 1982. 3 NAVARRO-SWAIN, 2006.


16 Módulo 2: Desnaturalizando o Sexoe

se.”4 Ela busca desconstruir a naturaliza- Essa percepção mascara o grande empe-
ção da feminilidade, mostrando que não é nho social em construir o que é chamado
resultado da natureza, mas de relações de “instinto”. Basta uma ida a uma loja de
sociais específicas. A autora dava um pas- brinquedos infantis para perceber o esfor-
so fundamental para a crítica da opressão ço pedagógico que é empreendido para
às mulheres: conceber que as pessoas não que crianças ocupem essas posições soci-
nascem com um sexo que as destina ins- ais: enquanto os brinquedos voltados para
tintivamente a ocupar uma posição na menino insistem no estímulo da agressivi-
sociedade, mas que são as relações sociais dade e competitividade (bonecos guerrei-
concretas que colocam as pessoas em ros, carrinhos, armas etc), os brinquedos
posições sociais construindo-as e catego- voltados para menina estimulam a vaidade
rizando-as como homens e mulheres. e a maternidade (brinquedos que simulam
atividades domésticas, bonecas nenéns
para serem cuidadas, bonecas modelos
para serem enfeitadas etc). Mesmo o que
pode aparecer como simples brincadeira é
utilizado de forma coerciva para delimitar
papéis sociais. Para quem duvida dessa
coerção, basta imaginar qual é normal-
mente a reação de uma família quando
seu filho deseja brincar apenas com bone-
cas ou quando uma menina diz que quer
brincar de cowboy.

Sugestões de filmes
Alguns filmes podem ser interessantes para levantar dis-
cussões sobre o papel opressor das expectativas de gênero
desenvolvidas pela sociedade:
“Uma escola do babado” (Jamie Babbit, 1999) é uma co-
média sobre uma adolescente líder de torcida que é inter-
nada por familiares e amig@s num centro de heterossexua-
lização, por acharem-na parecida com uma lésbica, mesmo
tendo um namorado. Lá ela conhece outras pessoas e
redescobre sua sexualidade.
Normalmente a natureza é apontada co- “Billy Elliot” (Stephen Daldry, 2000) conta a história de um
mo causa da construção de papéis sociais garoto de 11 anos que ao, ver aulas de balé na academia
baseada no sexo, por exemplo: “As mu- onde faz aulas de boxe, fica fascinado por dança e, contra
lheres devem ficar em casa cuidando das as expectativas de seu pai, deseja se tornar um grande
dançarino.
filhas e filhos, porque a natureza quis as-
“Minha vida em cor de rosa” (Alain Berliner, 1993) é um
sim. As mulheres são instintivamente ma-
drama que conta a história de um menino que decide se
ternais”, “homens são naturalmente a- vestir apenas com roupas consideradas femininas, causan-
gressivos”, “homens não choram” etc. do grande furor e comoção na pequena cidade onde mora.
Esses filmes discutem o difícil processo de quem manifesta
4 BEAUVOIR, 1980, p. 9. um desejo, uma vontade, uma prática, um jeito de ser, um
sonho diferente do é que esperado pela sociedade a partir
da normatização sexual.
Vidas Plurais: Guia Docente 17

Aos sexos atribuímos temperamentos e ceba diferenças de temperamentos entre


características de personalidade como se mulheres e homens –, como as caracterís-
elas fossem naturais e universais. Afetivi- ticas atribuídas na divisão entre sexos são
dade X Agressividade, Apego X Despren- completamente arbitrárias. Não há nada
dimento, Fraqueza X Coragem e muitas que naturalmente ligue mulheres à passi-
outras características e qualidades vão se vidade e homens à agressividade.
tornando quase sinônimos de Feminilida- Como bem definiu a ensaísta francesa e
de X Masculinidade. A antropóloga esta- ativista lesbiana-feminista Monique Wittig,
dunidense Margareth Mead realizou longa o sexo é uma categoria6. Categorias são
pesquisa de campo na Polinésia e publi- resultados de processos sociais e não des-
cou, em 1935, o livro “Sexo e Tempera- tinos biológicos imutáveis. Segundo Wit-
mento”, que justamente desconstruiu essa tig, a divisão entre mulheres e homens
visão. Mead estuda três sociedades (Ara- não se refere a indicadores biológicos
pesh, Mundugumor e Tchambuli), anali- naturais, mas forma categorias constituí-
sando a forma como cada uma concebia das socialmente através de um processo
os papéis sexuais e as características de de opressão. O sexo é uma categoria que
personalidade atribuídas às pessoas. O classifica e ordena hierarquicamente os
povo Arapesh tinha temperamento pacífi- seres, funcionando da mesma forma que
co, lá nem mulheres nem homens faziam a categoria “raça” para o processo de
guerra. Entre o povo Mundugumor, am- escravização. A raça é utilizada para justi-
bos o sexo possuíam um temperamento ficar e naturalizar uma opressão ao cons-
bélico. Já no povo Tchambuli havia uma truir hierarquias entre seres – da mesma
diferença nítida entre os temperamentos forma funciona o sexo. Nossa concepção
que eram esperados e valorizados em naturalizada da diferença, no entanto,
cada sexo: os homens eram vaidosos e exclui as indagações e questionamentos
utilizavam grande parte do tempo se ar- sobre os processos de opressão, que pas-
rumando e embelezando, já as mulheres sam a ser pensados como eternos, imutá-
eram extremamente práticas.5 veis e universais, mas na verdade são
Duas das sociedades analisadas por Mead produtos de forças políticas, econômicas e
não concebiam divisões nítidas de caracte- ideológicas. Segundo Wittig: “É a opres-
rísticas de personalidade entre mulheres e são que cria o sexo e não o contrário. O
homens (Arapesh e Mundugumor), en- contrário seria dizer que o sexo cria a
quanto na que concebe essa divisão (T- opressão, ou que a causa (origem) da o-
chambuli) os temperamentos são percebi- pressão deve ser encontrada no sexo, na
dos como justamente o contrário do que divisão natural dos sexos pré-existente a
esperamos em nossa sociedade. Para a (ou que existe fora da) sociedade.”7 Wittig
antropóloga, isso revela o papel do pro- alerta que algumas divisões percebidas na
cesso educacional na construção de tem- humanidade como “naturais” se devem a
peramentos; de modo que tanto as carac- opressões sociais que hierarquizam pes-
terísticas comportamentais entre sexos soas em tipo de seres (pessoas brancas X
podem ser completamente aproximadas – pessoas negras, homens X mulheres etc),
fazendo com que uma sociedade não per-
6 WITTIG, 1992.
5 Conf. MEAD, 2000. 7 Op. cit., p. 2.
18 Módulo 2: Desnaturalizando o Sexoe

mas que esse processo é mascarado para nas formas diferentes como se disciplinam
que pensemos que essa divisão já existe os corpos das meninas e dos meninos etc.
antes de qualquer processo social. Assim A pesquisadora Guacira Lopes Louro cita,
Wittig afirma que o sexo é produto do por exemplo, como meninas e meninos
sexismo, da opressão institucionalizada possuem diferente inserção no espaço
que divide hierarquicamente os seres, escolar e usufruem de forma diferente o
normatiza os corpos, as relações e os tempo. A ideologia do dispositivo da se-
comportamentos a partir da categoria de xualidade mascara, no entanto, a opres-
sexo.8 são, naturalizando os papéis sexuais soci-
ais e fazendo pensarmos que isso é “natu-
ral”, “necessário” e que faz parte dos dife-
“A ideologia da diferença sexual funciona como uma cen- rentes processos de desenvolvimento.
sura em nossa cultura, que mascara, por naturalização, a Como afirma Louro, “Tal „naturalidade‟
oposição social entre homens e mulheres. Masculi-
tão fortemente construída talvez nos im-
no/feminino, macho/fêmea são categorias que servem
peça de notar que, no interior das atuais
para ocultar o fato de que diferenças sociais sempre per-
tencem a uma ordem econômica, política, ideológica. escolas, onde convivem meninos e meni-
Todo sistema de dominação estabelece divisões no nível nas, rapazes e moças, eles e elas se mo-
material e econômico.” Monique Wittig9 vimentam, circulam e se agrupam de for-
mas distintas. Observamos, então, que
eles parecem „precisar‟ de mais espaço do
Wittig9 nos alerta, assim como Simone de que elas, parecem preferir „naturalmente‟
Beauvoir, que os sexos são feitos, fabrica- atividades ao ar livre, enquanto que outras
dos nas relações sociais e que funcionam tenham de trabalhar após o horário esco-
como uma ideologia ao mascarar a opres- lar; que algumas devam „poupar‟ enquan-
são que os constitui. O processo de fabri- to que outras tenham direito a „matar‟ o
cação dos sexos é cotidiano e perpassa as tempo. Um longo aprendizado vai, afinal,
relações de trabalho, as relações familia- „colocar cada um em seu lugar‟”10
res, a produção de conhecimento, os pro-
cessos educacionais. No espaço escolar, o
sexo é fabricado e afirmado o tempo to- 2.3- O CONCEITO DE GÊNERO
do: quando se divide a turma em mulhe- O termo “gênero” pode ser utilizado co-
res e homens em uma fila e para a execu- mo sinônimo do termo “sexo” no sentido
ção de uma atividade, quando construí- de uma categoria social. No entanto, é
mos expectativas diferentes para alunas e importante salientar que esse se trata de
alunos, nas figuras presentes nos murais e um termo em disputa, sobre o qual se
nos livros didáticos que representam famí- constróem diferentes abordagens teóricas
lias heterossexuais com divisões de traba- e emergem importantes debates. Nos
lhos bem definidas, nos exemplos que anos 70, feministas de países ocidentais
utilizamos para explicar um conceito ou de língua inglesa construíram uma abor-
construir um problema de matemática, dagem que ficou conhecida por “sistema
8
sexo/gênero”, que concebia o sexo e o
O conceito de Sexismo e outras expressões da
violência de gênero serão discutidos no próximo gênero como conceitos que se referem a
módulo.
9 WITTIG, 1992, p. 2. 10 LOURO, 1997, p. 60.
Vidas Plurais: Guia Docente 19

dimensões diferentes da realidade. Para criança?”, afinal isso definirá as roupas


essas autoras, o sexo se referia a uma que ela usará, com quais brinquedos brin-
realidade biológica e o gênero a uma rea- cará e até seu nome. Na escola essa dife-
lidade cultural. O sexo, nessa visão, seria rença passar a atuar na normatização dos
a divisão natural, determinada biologica- corpos. Uma/um professora/or passa ao
mente, entre fêmeas e machos; já o gêne- lado de uma/um estudante de lóbulo pre-
ro seria determinado culturalmente, pro- so de 10 anos e discretamente briga:
duzido pelas relações sociais. “Cruza as pernas! Se dê o respeito, pes-
soas de lóbulo preso não podem ficar
Contudo, o “sistema sexo/gênero” – cen-
com a perna assim escancarada.” Essas e
tral nas discussões das teóricas dos EUA –
muitas outras “chamadas de atenção” vão
foi bastante criticado nas teorias france-
colocar aos poucos cada pessoa em seu
sas. Wittig é uma das principais críticas
devido lugar, através de um longo apren-
desse sistema, ao questionar que a natura-
dizado que definirá os papéis sociais. Uma
lização do sexo como uma determinação
pessoa dessa sociedade talvez nunca se
biológica ignora o papel que as práticas
questione sobre tal divisão arbitrária e
sociais, as relações de poder e as catego-
nem perceba as divisões das pessoas nes-
rizações culturais têm na “produção” des-
sas duas categorias como absolutamente
sa realidade dita biológica. Mais recente-
inequívocas e evidentes – afinal, “sempre
mente, autoras estadunidenses como Judi-
foi e será assim”.
th Butler, sob a influência de Monique
Wittig, fazem a mesma crítica e apontam O “sistema sexo/gênero” se baseia em
que o “sistema sexo/gênero” ignora que a uma divisão de natureza/cultura, na qual
pressuposição de uma divisão binária imu- o sexo estaria para natureza assim como
tável, antes da cultura, já é resultado do o gênero estaria para cultura. O que as
gênero, esse aparato cultural. O olhar que autoras e autores críticas/os dessa divisão
nos faz ver uma divisão binária como evi- argumentam é que nós, emers@s dentro
dente e inequívoca perante a multiplicida- da cultura e produzid@s por ela, não con-
de de características e singularidades que seguimos ter acesso a uma “natureza”
um ser apresenta já é resultado de um pura, pré-social que informe como as
processo cultural que nos amestrou desde coisas “realmente são”; pelo contrário,
cedo a ver essa divisão. Vestimos “lentes nossa visão da natureza já é organizada
culturais” para enxergar a natureza. pelas categorias da cultura. Nesse sentido,
podemos conceber o termo gênero como
Façamos um exercício e pensemos, por
sinônimo de sexo: ambos se referindo a
exemplo, numa sociedade em que desde
categorizações produzidas socialmente.
cedo todas as pessoas fossem categoriza-
Nesse guia, você vai encontrar o uso in-
das pelo formato das orelhas em dois
discriminado dos dois termos.
tipos: as pessoas de lóbulo da orelha pre-
so e as pessoas de lóbulo da orelha solto.
Essa divisão é central para organizar nos- 2.4- GÊNERO: UMA ESTRUTURA
sa sociedade, categorizar as pessoas e ELEMENTAR DA VIOLÊNCIA
ordenar as instituições. Quando uma pes-
soa está grávida, logo surge uma enorme As categorias de masculino e feminino
expectativa para saber “qual é o lóbulo da não são apenas diferentes, mas opostas,
20 Módulo 2: Desnaturalizando o Sexoe

excludentes e hierárquicas. Quando um mento e falar “bom dia a todas”, prova-


menino ouve que deve se tornar homem velmente fará com que estudantes ho-
através de um incisivo e violento “vira mens se sintam incomodados, perceben-
homem!”, estão lhe dizendo também que do-se excluídos de um cumprimento, ou
ele deve se afastar do que é feminino. incluídos em um cumprimento destinado a
Afinal, no espaço de construção da mas- mulheres. Agimos como se o masculino
culinidade, ser feminino, ser “mulherzi- pudesse significar universalidade, mas o
nha”, é xingamento. Isso faz com que o feminino não, pois ele atua como uma
processo de construção desse menino marca da diferença e uma diferença que
dentro dos padrões ditados pelo gênero implica perda de prestígio. Wittig alerta
se estabeleça por dois processos: um de sobre o significado político da construção
identificação e outro de diferenciação. O cultural que define “universais” e “diferen-
primeiro dita que, para ser homem, ele tes”, a qual resulta na construção de posi-
tem que ser como os outros homens, e o ções de prestígio. A diferença aparece
segundo diz que para ser como os outros como uma marca e o “neutro” ou o “uni-
homens ele não pode se identificar com versal” aparecem como não-marcados.
as mulheres. Assim, concebe-se que homens são o
universal e as mulheres são o diferente,
Esses processos se conectam e dependem
pessoas brancas são o universal e as pes-
um do outro. O menino, para ser identifi-
soas negras são o diferente, pessoas hete-
cado como másculo e viril e ser aceito
rossexuais são o universal e pessoas lésbi-
num grupo de meninos, normalmente terá
cas, gays, bissexuais, travestis e transexu-
que se afirmar o tempo todo como dife-
ais são o diferente etc. Em suas palavras:
rente do que é considerado feminino (sen-
“o conceito de diferença entre os sexos
sibilidade, emotividade, fragilidade...). Não
constitui ontologicamente as mulheres em
se trata de um processo qualquer de dife-
diferentes/outras. Os homens não são
renciação e afirmação da singularidade,
diferentes, os brancos não são diferentes,
mas um processo que se funda em uma
nem o são os mestres. Mas sim as pesso-
hierarquia e ensina posições de prestígio:
as negras, tanto quanto as pessoas escra-
ser homem é algo que ele tem que ser,
vizadas.”11
ser feminino é xingamento.
Segundo a antropóloga Rita Laura Sega-
Essas posições de prestígio são construí-
to, é através da inserção em uma socie-
das, fortalecidas e amparadas em grande
dade marcada pelo gênero que, primei-
parte dos espaços e das instituições de
ramente, nos localizamos em relações de
nossa sociedade. Pensemos novamente
status que constituem o mundo hierarqui-
na linguagem, que foi um dos temas do
camente. Para Segato, o gênero é a “es-
módulo anterior. Como vimos, normal-
trutura elementar da violência”12, a matriz
mente fazemos uso de termos no mascu-
com a qual aprendemos e fazemos parte
lino de forma “universal”, por exemplo:
dos processos que produzem violência.
um professor chega à sala de aula e diz:
Para a antropóloga, é primeiramente o
“bom dia a todos”. Compreende-se a
gênero que nos apresenta uma sociedade
princípio que ele está se referindo tanto
aos alunos como às alunas; no entanto se
11 WITTIG, 1992, p. 29.
ele um dia inverter o gênero do cumpri- 12 SEGATO, 2003.
Vidas Plurais: Guia Docente 21

onde o valor das pessoas é desigual e o instrumento de agressão metafórica, ou,


gênero se torna não apenas uma violência (...) de violência simbólica”13. O ato sexu-
particular, mas a principal e mais frequen- al também é significado como ato violen-
te linguagem da própria violência. to, é só lembrar dos termos utilizados
para se referir a ele: fuder, trepar, rangar,
É só lembrar como muitos dos xingamen-
tos e ofensas de nossa cultura se referem comer, meter, arrombar são apenas al-
guns dos vocábulos que mostram como as
a posições de gênero. Como exemplo,
relações sexuais são revestidas de signifi-
podemos citar uma situação de conflito
cações que fazem com que elas sejam
no trânsito, na qual motoristas homens
lidas como atos de domínio e submissão.
passam a se xingar. Eles gritam um ao
outro: “viado!”, “corno!”, “vai tomar no
cu!”, ou ainda “parece uma mulher diri-
gindo”. Todas as ofensas utilizadas, co- “Somente no século passado houve pelo menos
muns em situações como essa e muitas seis casos documentados de abuso sexual massivo
outras, buscam agredir a outra pessoa ao de mulheres em várias guerras: as Violações de
colocar em cheque sua posição de “ho- Nanking, em 1937; com mulheres escravizadas
mem”. A princípio não se trata de uma nos campos japoneses na II Guerra Mundial; o es-
situação onde o motivo da violência é o tupro de alemãs no final da II Guerra; os estupros
gênero, mas o gênero aparece como a na guerra de Bangladesh-Paquistão no início dos
linguagem da violência. anos 1970; os estupros massivos durante os confli-
tos étnicos da Bósnia e Ruanda nos anos 1990. As
Uma situação na qual a força do gênero cifras de todos estes casos têm sido muito disputa-
ganha proporções terríveis é nas guerras, das e variam segundo a fonte ou o contexto da
onde uma das principais formas de domi- discussão. Um comunicado do Ministério do Inte-
nação territorial de um povo sobre outro rior da Bósnia, em outubro de 1992, diz que os
é o estupro das mulheres que vivem nesse militares e paramilitares sérvios estupraram 60 mil
território. A violência contra as mulheres mulheres, muitos deles com o propósito de engra-
busca afirmar a força de um povo e seu vidá-las. A Comissão de Peritos da ONU publicou
domínio sobre outro. um informe, em 1994, que fala de 4.500 casos
documentados. Ao mesmo tempo, a Comissão dá
Em nossa sociedade, a violência se ex- credibilidade ao cálculo de 20 mil estupradas na
pressa através do gênero até na significa- Bósnia e Croácia.”
ção dos corpos e das relações eróticas. O Fonte: “O estupro como crime de guerra e o direito
antropólogo estadunidense Richard Par- internacional” de Vesna Kesic, publicado em Folha
ker, que realizou longo trabalho de campo Feminista, abril de 2003 nº 41.
estudando a cultura sexual no Brasil, ana-
lisa algo que para nós é óbvio, mas sobre
O gênero não deve ser concebido como
o qual talvez não refletimos e questiona-
um possível causador de uma violência
mos: os termos que são utilizados em
ocasional e isolada, fruto de extremismo e
nossa cultura para se referir ao órgão
da patologia de um agressor, mas deve-
sexual masculino remetem a instrumentos
mos ver como o gênero atua na nossa
de agressão (pau, madeira, cacete, pica,
socialização, nas nossas relações (até as
mastro, vara, faca, ferro...). Nesse jogo de
palavras, o pênis torna-se, “figurativamen-
te, se não literalmente, uma arma, um 13 PARKER, 1992, p. 65.
22 Módulo 2: Desnaturalizando o Sexoe

mais íntimas delas) e como organiza posi- cas e violentas. No último parágrafo do
ções de prestígio e status em nossa socie- livro em que analisa esses povos, ela afir-
dade. A violência do gênero se expressa ma:
tanto em casos extremos, como estupro “Historicamente, nossa própria cultura
de guerra, quanto em situações que jul- apoiou-se, para a criação de valores con-
gamos inofensivas: o jeito que falamos, as trastantes, em muitas distinções artificiais
expectativas que temos das pessoas e os das quais a mais impressionante é o sexo.
termos que usamos para falar de nosso Não será pela mera abolição dessas dis-
corpo e de nossas relações. tinções que a sociedade desenvolverá
padrões em que os dons individuais hão
de receber o seu lugar, em vez de serem
O vocabulário que usamos para se referir às nossas rela- forçados a um molde mal-ajustado. Se
ções também constroem a forma que essas relações se quisermos alcançar uma cultura mais rica
dão. A força desses termos não deve ser ignorada e é em valores contrastantes, cumpre reco-
importante que, ao ouvirmos estudantes utilizando ter- nhecer toda a gama das potencialidades
mos violentos para significar seu corpo e suas práticas, humanas e tecer assim uma estrutura
façamos uma crítica que não seja somente moral – do
social menos arbitrária, na qual cada dote
tipo: “não fale palavrões” –, mas que debata sobre o que
humano diferente encontrará um lugar
seu uso representa.
adequado”14
Mead sugere que numa cultura em que o
processo educacional se alicerçasse sobre
2.5- UMA EDUCAÇÃO VOLTADA a diversidade as pessoas não seriam for-
PARA DIVERSIDADE. çadas a encenar padrões aprisionantes de
comportamento. Uma cultura assim per-
Sem dúvida o sexo/gênero está extrema-
mitiria que as potencialidades de cada
mente enraizado em nossa cultura, mas
indivíduo emergissem e fossem valoriza-
isso não quer dizer que ela não pode ser
das em sua singularidade. Construir uma
transformada. A desnaturalização é a pri-
cultura assim é uma tarefa diária de todas
meira etapa, pois ela nos ensina algo mui-
as pessoas, numa crítica cotidiana das
to importante: é possível fazer diferente.
violências que perpassam nosso cotidiano.
Margareth Mead, ao se deparar com a
O próximo módulo tratará justamente
forma em que as categorias mulheres e
sobre as formas e expressões da violência
homens se construíam entre o povo Ara-
de gênero. Saber identificá-las é central
pesh, Mundugumor e Tchambuli, come-
para atuar em sua desconstrução e en-
çou a pensar justamente sobre como era
frentamento.
o gênero em sua cultura. Esse é um exer-
cício de desnaturalização! Frente à multi-
plicidade de formas como uma cultura
pode se construir, a antropóloga se per-
guntou se não seria muito mais interes-
sante viver em uma sociedade que se edi-
ficasse sobre padrões de diversidade e
não sobre diferenças arbitrárias, hierárqui-
14 MEAD, 2000, p. 303.
Vidas Plurais: Guia Docente 23

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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lidade e Educação. Uma perspectiva pós-
estruturalista. Petrópolis, RJ: Vozes, WITTIG, Monique. The Straight Mind and
1997. other essays. Boston: Beacon Press,
1992.
24 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

MÓDULO 03: EXPRESSÕES DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Violência de gênero é geralmente enten- bem como quais são seus contextos e em
dida como sinônimo de violência contra que consistem essas diferentes expressões
as mulheres, „gênero‟ aparecendo como de violência de gênero. Entender para
outra forma de falar sobre „questões de detectar. Detectar para intervir, para mo-
mulheres‟. Porém, já vimos nos módulos dificar.
anteriores que gênero é um sistema que
classifica os diferentes corpos, afetos e
modos de ser no mundo. Classificação 3.1- SEXISMO E HETEROSSEXISMO
tem a ver com valoração – as várias loca- Você já ouviu falar em „sexismo‟? Se não
lizações neste sistema dão valores diferen- ouviu, com certeza já escutou e até usou
tes e organizam hierarquicamente os cor- o termo „machismo‟. O machismo apare-
pos/seres aí inscritos. O sistema classifi- ce quando alguém afirma uma hierarquia
catório do gênero se apóia em dois con- social, política, econômica ou até cultural
juntos de crenças intimamente relaciona- entre homens e mulheres. É machista
das: o sexismo e o heterossexismo, que aquela afirmação comum no trânsito,
servem para legitimar as diferentes ex- perante uma barbeiragem de uma moto-
pressões de violência de gênero – misogi- rista: “tinha que ser mulher!”, e é também
nia, homofobia, lesbofobia, travestifobia, machista a pressuposição de que meninas
transfobia e bifobia. A aproximação ou não são boas em matemática. Muitas ve-
distanciamento do modelo normativo de zes entendidas como sinônimos, „ma-
gênero implicam em maior ou menor chismo‟ e „sexismo‟ são aparentadas, mas
vulnerabilidade à violência. diferentes: machismo é um tipo de sexis-
A violência de gênero na escola aparece mo.
não apenas em ações e atitudes de dis- Chamamos de sexismo o conjunto de
criminação a pessoas LGBT (lésbicas, crenças que sustenta a separação e a su-
gays, bissexuais, travestis e transexuais) perioridade de um grupo sexual frente a
ou mulheres heterossexuais, mas também outros, isto é, que institui uma diferencia-
se manifesta no reforço de crenças na ção sexual entre, pelo menos, homens e
naturalidade da heterossexualidade ou da mulheres, porque de fato esses dois gru-
divisão hierárquica entre homens e mulhe- pos não esgotam as possibilidades exis-
res, por exemplo. Por causa da possibili- tentes de grupos sexuais. O sexismo é,
dade de reverter o ciclo de reprodução portanto, um sistema de crenças que fun-
desses conjuntos de crenças, a escola ciona instaurando grupos sexuais (poderí-
pode ser uma peça chave no desmonte da amos listar rapidamente como exemplos
violência de gênero. Porém, para poder- de outros grupos sexuais: homens hetero,
mos nos aprofundar nas discussões sobre mulheres hetero, homens gays, mulheres
diversidade sexual e afetiva no contexto lésbicas, transexuais, travestis, trangê-
escolar, precisamos entender melhor os nerxs) e reforçando um esquema de hie-
conceitos de heterossexismo e sexismo, rarquia entre eles.
Vidas Plurais: Guia Docente 25

morado com que toda mulher sonha!”, há


a pressuposição de que toda e qualquer
O sufixo „-ismo‟ é usado em português para indicar um con-
junto de crenças ou de regras, ou o pertencimento a uma mulher possui um desejo ou orientação
escola de pensamento, religião ou movimento político (por sexual hetero.
exemplo: marxismo, islamismo, feminismo); na palavra se-
xismo o sufixo tem essa finalidade, significar um conjunto de O heterossexismo também “atribui vanta-
crenças a respeito do sexo. Já no contexto médico, o sufixo gens à heterossexualidade, privilegia os
„ismo‟ sugere uma patologia: reumatismo, autismo etc. Por direitos de heterossexuais em detrimento
isso a militância LGBT tem batalhado para substituir no uso aos direitos de homossexuais”1. No Brasil,
corrente o termo „homossexualismo‟ por „homossexualidade‟,
que denota qualidade, característica, e não doença. casais compostos por pessoas do mesmo
sexo não gozam dos mesmos direitos de
casais compostos heterossexuais: não têm
a sua união reconhecida pelo Estado e,
Um desdobramento do sexismo é o hete-
por isso mesmo, não podem inscrever
rossexismo, ou seja, a crença de que um
a/o cônjuge como dependente em plano
tipo de orientação sexual, a heterossexua-
de saúde, por exemplo, nem adotar uma
lidade, é mais natural, correta ou normal
criança em conjunto, não têm garantia de
do que outras manifestações afetivo-
pensão, direito à herança e nem mesmo a
sexuais e que, portanto, outras manifesta-
garantia de permanência no lar quando
ções e expressões afetivo/sexuais são
a(o) parceira(o) morre; e esses são apenas
desvios, doenças, pecados ou simples-
alguns dos vários direitos civis que o Brasil
mente erradas. A essa postulação da he-
nega a pessoas homossexuais2.
terossexualidade como uma norma de
conduta afetiva, sexual, mas também mo-
ral, chamamos de heteronormatividade. 3.2- HIERARQUIA DE GÊNERO
Podemos ver a seguir um exemplo do
Anteriormente vimos como sexismo e
status diferenciado que damos às diferen-
heterossexismo são dois conjuntos de
tes orientações sexuais: uma garota anun-
crenças que se relacionam de acordo com
cia a sua mãe que é lésbica, e a mãe res-
uma hierarquia de gênero. Já falamos que
ponde: “tem certeza, minha filha? Não se
o gênero classifica e organiza de maneira
trata apenas de uma fase passageira?”. A
hierárquica as diferentes identidades, cor-
lesbiandade aparece com um status me-
pos e afetos, agora vamos olhar com mais
nor do que a sexualidade hetero, conside-
calma essa disposição de poderes. Pode-
rada como normal. O status desprivilegia-
mos entender a hierarquia de gênero com
do da lesbiandade fica mais evidente se
apoio no seguinte esquema:
invertemos o exemplo: se a filha “anunci-
asse” sua heterossexualidade, provavel-
mente a mãe não pensaria ser uma fase,
mas a própria anunciação já pareceria
absurda.
Também é heterossexista a pressuposição
de que todas ou a maior parte das pesso-
as é heterossexual, uma pressuposição 1KOTLINSKY, 2007, p. 41.
bastante cotidiana. Na frase: “ele é o na- 2Veja o Box completo com os direitos negados a
LGBT no módulo 6.
26 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

Nesse gráfico1 vemos como algumas ca- Já no lado da feminilidade, percebemos


tegorias sexuais se posicionam ao longo que não há nenhuma feminilidade que
do eixo de poder: na posição privilegiada não seja subordinada – como é o caso da
temos a masculinidade hegemônica, que é masculinidade cúmplice. Dentro da cate-
aquela que atende a um ideal de masculi- goria feminilidade subordinada temos dois
nidade presente em nossa sociedade; logo tipos que valem ser destacados: as femini-
abaixo dela, no lado direito, está a mascu- lidades resistentes – que recusam ou re-
linidade cúmplice, aquela que apesar de criam modelos de feminilidade – e a femi-
rejeitar alguns elementos da masculinidade nilidade enfática, que reforça um modelo
hegemônica ainda corrobora com sua de unívoco de feminilidade, algo como o
manutenção no eixo de poder (por essa oposto complementar da masculinidade
relação de cumplicidade com a hegemo- hegemônica, uma vez que reforça ou a-
nia ela goza de uma posição na parte tende suas exigências. Muito conectada a
superior escala de poder); ainda no lado um ideal de feminilidade não apenas hete-
masculino (uma vez que o gráfico se ba- rossexual, mas servil e disponível sexual-
seia na diferença sexual) temos outra ca- mente, a feminilidade enfática goza alguns
tegoria que engloba as masculinidades privilégios pela conexão estabelecida com
subordinadas, aquelas que estão ainda a hegemonia. Assim, não apenas são
mais distantes do modelo de masculinida- hierarquizadas masculinidades e feminili-
de – aí inclui-se a masculinidade homos- dades, mas também as diferentes sexuali-
sexual. dades entram nesse jogo.

1 O esquema foi proposto por CONNEL, 1987


Vidas Plurais: Guia Docente 27

e/ou psicológico a alguém2. Em casos


extremos e infelizmente corriqueiros, a
Sugestão de Atividade
violência de gênero pode resultar em mor-
Discuta com sua turma quais são os modelos de feminilidade te. As vítimas desse tipo de violência são
e masculinidade que vocês conhecem pelas novelas, progra- LGBT e mulheres heterossexuais – ou
mas de tv, quadrinhos etc. Comparem com experiências seja, aquelas pessoas que correspondem à
pessoais, modelos familiares, círculos de amizades... Reflitam:
parte inferior daquele gráfico de hierar-
em que medida os estereótipos constroem nossas próprias
quia de gênero.
feminilidades e masculinidades? Tenham o cuidado de não
expor pessoas próximas – nem vocês mesm@s – a julgamen- Destacam-se como expressões dessa vio-
tos indelicados e situações de constrangimento. lência a misoginia, a homofobia, a lesbo-
fobia, a bifobia, travestifobia e a transfo-
bia, cada uma com suas devidas peculiari-
A violência aparece como um mecanismo
dades e sua vulnerabilidade a contextos
de manutenção do próprio poder, mas
diferentes de violência.
também instaura a diferença entre a cate-
goria de masculinidade hegemônica das a) Misoginia é uma palavra de origem grega
demais categorias subordinadas. É dessa formada pelos radicais misein (ódio) e
forma que a constituição de uma identi- gyne (mulher), e pode ser entendida de
dade masculina e hegemônica passa pela maneira ampla como ódio ou aversão às
violência dirigida a homossexuais (de fato mulheres ou ao feminino, que muitas ve-
ou „percebidos como‟) e a mulheres. Co- zes toma a forma de um tratamento brutal
mo se quisessem exorcizar de si a femini- e violento destinado a mulheres. A miso-
lidade ou o espectro da homossexualida- ginia é o efeito material de uma desvalori-
de, garotos usam da violência para marcar zação do feminino, numa ideologia sexista
a distância. Não é difícil perceber em gru- que apresenta mulheres como proprieda-
pos de garotos que a masculinidade tem des de outrem (geralmente um homem).
de ser reforçada a todo momento: as de- O conceito de „misoginia‟ encontra o de
monstrações de afeto devem ser contidas „sexismo‟: sexismo aparece como a „ideo-
e o único toque permitido é o violento logia‟ ou um conjunto de crenças que
(socos e tapas como forma de cumpri- legitima a relação de poder assimétrica
mento etc), todo e qualquer comporta- entre homens e mulheres, enquanto a
mento que se aproxime de um compor- misoginia é própria manifestação dessa
tamento dito feminino deve ser evitado, assimetria. E é tal assimetria de poderes e
sob pena de ser alvo de chacota dos de- direitos entre mulheres e homens que
mais. A masculinidade pode, a qualquer favorece práticas violentas contra mulhe-
momento, ser posta em cheque. res e meninas, seja no espaço privado ou
público. Uma convenção internacional
importante para o enfrentamento a vio-
3.3- QUAIS AS FACES DA
lência contra mulheres, a Convenção de
VIOLÊNCIA DE GÊNERO?
Violência de Gênero será aqui entendida 2 Tal definição é uma variação ou ampliação da
como qualquer ação baseada no gênero definição dada na Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a
que resulte em dano ou sofrimento físico Mulher, adotada pela OEA em 1994 (também
conhecida como Convenção do Belém do Pará).
28 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

Belém do Pará, distingue diferentes for-


mas de violência contra mulheres: 14/09/09 – Parceiros íntimos são os maiores res-
ponsáveis por violência contra mulheres
 Violência doméstica: compreende,
entre outras, as violências física, psico- Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São
lógica, sexual, moral e patrimonial (Lei Paulo analisou 1.286 casos de violência em pessoas
Maria da Penha); de 20 a 39 anos atendidas em serviços públicos de
saúde entre janeiro e maio deste ano (2009). Do total
 Violência ocorrida na comunidade, de agredidos, 75% são mulheres.
cometida por qualquer pessoa, com- Das notificações que apontaram a relação entre vítima
preendendo, entre outras, a violação; e agressor, 68% identificaram o parceiro como o
 O abuso sexual, a tortura, o tráfico de agressor; em 13% dos casos os agressores são
mulheres, a prostituição forçada, o se- pessoas conhecidas das vítimas; e em 19% são
qüestro e o assédio sexual; desconhecidos.

 Violência institucional cometida pelo Em relação ao tipo de agressão, 59% dos casos
Estado ou seus agentes. analisados envolvem violência física, em 18%
houve violência psicológica (agressão verbal), em
A noção de propriedade está bastante
13% a agressão foi auto-infligida e em 5% ocor-
presente em nossos valores, como pano
reu violência sexual.
de fundo sobre família e relações afeti-
vas/familiares, uma vez que vivemos num Fonte: G1
regime patriarcal – tipo de organização
social cujo átomo é a família nuclear cen-
Mas a violência no espaço público tam-
trada na figura paterna3, que detém a
bém opera largamente amparada nessa
autoridade sobre mulheres e crianças.
ideologia patriarcal que vê mulheres como
Como reflexo dessa organização social, a
posse de um sujeito masculino. Judith
violência contra mulheres é ainda mais
Butler4 discute a noção da rua como um
recorrente no espaço privado, onde tem
espaço ameaçador para mulheres sendo
seu ponto mais alto de incidência (ver Box
complementar a essa noção da mulher
a seguir). Os agentes desse tipo de abuso
como propriedade doméstica. Butler nos
são, na maioria dos casos, maridos, com-
conta de um caso de estupro na cidade de
panheiros, pais, padrastos, tios, irmãos,
New Bradford (EUA) que foi parar no
namorados ou demais membros da famí-
tribunal; a base de sua análise é uma frase
lia.
do advogado de defesa que faz à ré a
seguinte pergunta: “se você de fato vive
3
com um homem, o que estava fazendo
Curioso pensar que mesmo que boa parte das
famílias brasileiras sejam chefiadas por mulheres a correndo por aí e sendo estuprada?”. A
organização e a ideologia patriarcal continua pre- atitude de culpabilizar a agredida5 é muito
sente. Algumas pessoas chegam a classificar tal comum em casos de violência sexual, e
esquema de um „patriarcado sem pais‟. O patriar-
cado possui uma estrutura complexa “no sentido
de que não é preciso a presença masculina para 4BUTLER, 1998.
vê-lo „em ação‟. É um sistema que permeia as 5Outros exemplos de jogar a culpa da violência
relações humanas por adentrar na esfera da cultu- na mulher que a sofreu são os questionamentos
ra e gerar implicações nos hábitos e costumes da quanto a vestimenta da mulher que sofreu estupro,
grande maioria dos indivíduos.”. ou frases do tipo “ele não sabe porque está baten-
Ver: MEDEIROS, 2009. do mas ela sabe porque está apanhando”.
Vidas Plurais: Guia Docente 29

nos mostra o poder do sistema de privilé- É o sexismo enquanto sistema de crenças


gios que o sexismo estabelece: às mulhe- que perpetua a noção de que mulheres
res é geralmente imposto o descrédito de são objetos da posse masculina; essa no-
suas versões da história da violência sexu- ção, associada à crença também sexista
al. que iguala “mulher” a “corpo” (ou sexo),
está no centro de boa parte das violências
Butler nos alerta que falta alguma cone-
cometidas contra esse grupo social, seja
xão entre “correr por aí” e “ser estupra-
dentro ou fora do âmbito doméstico ou
da”, uma vez que as duas coisas não po-
familiar. Dessa forma, a sujeição das mu-
dem acontecer juntas. Ela sugere que o
lheres implica quase sempre em violência
que está implícito na fala do advogado é
sexual ou “prestação de serviços sexuais
que a mulher corria por aí procurando ser
aos seus dominadores”7.
estuprada. Daí a frase do advogado ter
dois significados: primeiro questiona o A definição de misoginia como „aversão
pertencimento dessa mulher a um ho- ou ódio a mulheres‟ precisa ser discutida
mem, e então coloca em questão a boa com mais afinco. Primeiro porque é muito
índole da ré. A casa e a rua aparecem fácil passar de uma acusação de misoginia
numa dicotomia que lembra a classifica- para um questionamento da heterossexua-
ção moralista e misógina de santa/puta. lidade do agressor – e pressuposição de
Mas, além disso, essa frase também impli- uma suposta homossexualidade. Por e-
ca que o objetivo das mulheres não é na- xemplo, quando assume-se que um ho-
da além do que tornar-se a propriedade mem que maltrata sua esposa é, na ver-
de um homem, sugerindo: se você já é dade, homossexual enrustido ou alguém
propriedade de um homem, o que fazia que na verdade „não gosta de mulher‟. No
procurando ser propriedade de outro? recente caso acontecido na Uniban em
São Bernardo, São Paulo, no dia 22 de
Quer dizer, a rua não é espaço para uma
outubro de 2009, uma aluna foi agredida
mulher que já “tem dono”. Se ela sai de
por uma turba de colegas de faculdade, e
casa, está consentindo ser violada – e,
a análise de muitas pessoas ligava as hu-
como é vista como propriedade, a viola-
milhações sofridas pela aluna a uma pos-
ção se estende a seu “dono”; assim, em
sível homossexualidade de seus colegas:
alguns casos acontece de o marido rejeitar
a esposa que foi estuprada. A rua torna-se unibambi foi o termo espalhado pela in-
ternet.
o espaço da violência sexual, entendida
torpemente como violação de proprieda- Tais afirmações implicam que só alguém
de, e isso implica numa compreensão que de fato não estivesse interessado se-
sexista de que o estupro marital não con- xualmente em mulheres poderia cometer
sistiria exatamente num estupro, mas na
materialização de uma obrigação do ma-
que implica que o estupro está para o casamento
trimônio: estar sexualmente disponível ao assim como a rua para o lar, isto é, que o “estu-
cônjuge sempre que solicitada6. pro” é o casamento das ruas, um casamento sem
lar, um casamento para garotas sem lar, e que o
casamento é estupro domesticado], então “estu-
6 “Uma vez que se tornar propriedade de um pro” é a conseqüência lógica da realização de seu
homem é o objetivo de seu “sexo”, articulado em sexo e sua sexualidade fora da domesticidade.”
e por seu desejo sexual, e o estupro é o meio pelo BUTLER, 1998, p. 27.
qual essa apropriação ocorre “na rua” [uma lógica 7 MEDEIROS, 2009, p. 4.
30 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

tais violações. Ou seja, a única forma de


homens gostarem de mulheres é tendo
“Se você denunciar para a polícia, eu te mato”. Essa é
interesse sexual por elas, e a homossexua-
a realidade cotidiana de muitas mulheres. Xingamentos,
lidade masculina seria uma aversão às ameaças e agressões físicas fazem parte da rotina. Dois
mulheres porque não pressupõe interesse milhões de casos de violência são registrados anualmen-
sexual nelas. Esse salto conceitual entre te contra a mulher no Brasil, segundo uma pesquisa
“não se sentir atraído por mulheres” e realizada pela Fundação Perseu Abramo. Em Brasília, a
“odiá-las e/ou violentá-las” é bastante média é de 10 ocorrências por dia. Somente neste ano,
ingênuo e perigoso ao mesmo tempo. até o momento, 2.975 ocorrências foram registradas e
Ingênuo porque, como vimos, a violência 2.598 inquéritos instaurados. (...)
contra mulheres é um mecanismo que Para 28% das mulheres agredidas, a violência domésti-
serve para a manutenção de uma mascu- ca é uma prática de repetição. Mais de 30% apontam o
linidade hegemônica e da subordinação abuso físico dentro e fora de casa como o problema
como lugar das mulheres. que mais preocupa a brasileira na atualidade e 75%
consideram que as penas aplicadas em casos de agres-
Então, longe de fazer parte do modo de são contra a mulher são irrelevantes. Outro fato grave é
ser de quem não deseja se relacionar se- o abuso sexual de jovens. Estima-se que uma em cada
xualmente com mulheres, a misoginia faz três ou quatro meninas jovens é abusada sexualmente
parte do projeto de ser um tipo específico antes de completar 18 anos. O Ministério da Justiça
de homem – já que é a violência que mar- registra, anualmente, cerca de 50 mil casos de violência
ca a distância da feminilidade. Mas esse sexual contra crianças e adolescentes.
salto também é perigoso, porque está
recheado de uma pressuposição heteros- Fonte: Violência contra a mulher: 10 casos por dia em
sexista de que há algo errado – física, Brasília - Contas Abertas (DF) 03/11/08 – disponível
mental ou moralmente – com um homem em http://www.violenciamulher.org.br/
que não se sente sexualmente atraído por
mulheres. Na contramão disso, sabemos
que, de fato, algumas pessoas que se a- cionada a pessoas que se relacionam se-
nunciam como amantes de mulheres po- xual e afetivamente com pessoas do
dem apresentar atitudes ou posicionamen- mesmo sexo. A homofobia se manifesta
tos misóginos: boa parte da violência co- na qualificação do outro, a/o homossexu-
metida contra mulheres é perpetrada por al, como estranha/o, desviante, inferior
seus maridos, companheiros ou namora- ou anormal – isso desempenha um papel
dos, homens heterossexuais que juram fundamental na manutenção da hierarquia
amar suas companheiras, esposas, namo- de gêneros. Devemos lembrar que a ho-
radas. Dessa maneira, existe um vínculo mofobia está em funcionamento também
perverso entre ser um „homem de verda- na discriminação daquelas pessoas que
de‟ e abusar física, emocional e sexual- não se adéquam a uma imagem hegemô-
mente de mulheres. nica de seu gênero: não apenas gays,
b) A homofobia, que de acordo com sua lésbicas, travestis, transexuais, bissexuais,
etimologia é o medo ou repulsa causada mas também mulheres heterossexuais que
por pessoas ou atividades/sentimentos recusam o que foi chamado acima de
homossexuais, é o preconceito e a violên- „feminilidade enfática‟, homens hetero
cia física, simbólica ou psicológica dire- sensíveis ou delicados. Assim, a homofo-
Vidas Plurais: Guia Docente 31

bia aparece como uma prática violenta família, bem como maus-tratos e abusos
que policia os limites dos gêneros. no ambiente familiar. Motiva também
demissões no ambiente de trabalho (não é
O que o sexismo é para misoginia o hete-
incomum na área de educação, por e-
rossexismo é para a homofobia. Ela apa-
xemplo, que professoras/es sejam demiti-
rece como a manifestação material do
dos por assumirem sua orientação afetivo-
sistema de pensamento heterossexista,
sexual publicamente). Além disso, a ho-
impedindo a liberdade de se envolver com
mofobia representa um desafio à forma-
alguém do mesmo sexo. De acordo com a
ção educacional de estudantes LGBT: a
poetisa lesbiana, negra e feminista Audre
evasão escolar entre a população LGBT é
Lorde, a "homofobia é um terror que cir-
bastante alta e de fato as agressões, insul-
cunda os sentimentos de amor entre
tos, piadas ofensivas, ameaças, abusos
membros do mesmo sexo e, portanto, um
verbais e exclusões do convívio dirigidas a
ódio desses sentimentos em outras pesso-
el@s são banalizadas no ambiente escolar.
as"8. Muitas vezes a homofobia se mani-
Em muitos casos a homofobia (dentro e
festa como um medo desses mesmos sen-
fora da escola) chega ao cúmulo da vio-
timentos se mostrarem dentro de si: é a
lência física e ao assassinato de homosse-
homofobia internalizada. A homofobia é
xuais. O Brasil é atualmente considerado
muitas vezes uma ação de manter distân-
o país mais homofóbico do mundo, cam-
cia, porque a homossexualidade represen-
peão no assassinato de lésbicas, gays,
taria constante ameaça de contágio. Des-
bissexuais, transexuais e travestis -
sa forma, esse preconceito também man-
LGBT10.
tém pessoas homossexuais isoladas de
uma sociedade onde o heterossexismo é Porém, se homofobia é o nome geral que
dominante, com pouca esperança de em- identifica o preconceito contra homosse-
patia. xuais, existem termos específicos para o
preconceito contra lésbicas, travestis,
Uma pesquisa feita pela UNESCO9 en-
transexuais e bissexuais. Você se lembra
volvendo estudantes brasileiras/os do
da discussão sobre linguagem inclusi-
ensino fundamental, seus pais e professo-
va/não-discriminatória? Pois bem, lá fa-
ras/es, “revelou que as/os professoras/es
lamos um pouco sobre os mecanismos
não apenas tendem a se silenciar frente à
que fazem o masculino aparecer como
homofobia, mas, muitas vezes, colaboram
referência primeira de mundo, de forma
ativamente na reprodução de tal violên-
que „homem‟ e „humanidade‟ se tornem
cia”.
sinônimos. Aqui funciona um mecanismo
A homofobia se expressa de diferentes parecido, e „homofobia‟ acaba servindo
formas: impede a expressão afetiva de ao mesmo tempo para designar a descri-
casais em ambientes públicos – motivando
expulsão de bares, lojas, restaurantes, 10 Uma pesquisa feita pelo Grupo Gay da Bahia
escolas, praças etc –, leva a maus-tratos e fez o levantamento de mais de 2700 assassinatos
violência nas ruas e parques, motiva ex- e mais de 5 mil relatos de outras formas de violên-
cia contra LGBT registradas no período de o
pulsões de casa e rompimento com a período de 1980-2007 em veículos diversos de
informações: jornais, revistas, noticiários de rádio
e televisão, assim como informações prestadas
8 LORDE, 1984, p. 225. diretamente na sede da entidade
9 Brasil sem Homofobia.
32 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

minação específica sofrida por gays (ho- ca entre os homens), que tem a audácia
mens homossexuais) e a descriminação de afirmar a primazia das suas próprias
geral sofrida por pessoas LGBT, como se, necessidades. Ter esta etiqueta aplicada a
novamente, a experiência masculina fosse pessoas que estão ativas no movimento
a medida de todas as coisas, o que ofusca de libertação das mulheres é apenas o
a especificidade das experiências lésbicas, episódio mais recente de uma longa histó-
travestis, transexuais e bissexuais. Para ria; as mulheres mais velhas lembrar-se-ão
que possamos entender a especificidade que não há muito tempo, qualquer mulher
do preconceito contra cada uma dessas independente que tivesse sucesso e não
experiências é preciso nomeá-los. orientasse toda a sua vida à volta de um
homem ouviria esta palavra12.
c) Lesbofobia é o termo que designa especi-
ficamente a repulsa que algumas pessoas Nesse sentido, a lesbofobia está conecta-
sentem em relação às lésbicas e às práti- da com um regime sexista que entende
cas sexuais e afetivas entre mulheres. Por que o afeto feminino deva estar direcio-
extensão, chama-se lesbofobia todo e nado para um homem. O homem (seja o
qualquer tratamento discriminatório dirigi- marido, o filho, o pai ou o irmão) é o
do a mulheres lésbicas ou que são supos- objeto de afeto número um de cada mu-
tas lésbicas. É um conceito necessário lher dentro de um ideal patriarcal – por
uma vez que o preconceito sofrido por isso que um dos desafios mais importan-
lésbicas carrega de maneira específica as tes do feminismo foi (e continua sendo)
marcas do cruzamento entre misoginia e retomar os laços de amizade, afeto e a-
homofobia. mor entre as mulheres. A idéia de filogini-
a, ou amor pelo feminino, é, então, opos-
A lesbofobia é, entre outras coisas, um
ta à de misoginia e significa “solidariedade
mecanismo bastante eficiente de desmon-
entre mulheres” como uma proposta polí-
te das articulações políticas e afetivas en-
tica e afetiva.
tre mulheres. Isso foi bem explorado por
um manifesto lesbiano feminista escrito na Além disso, a lesbofobia é marcada parti-
década de 1970 por um grupo dos EUA cularmente por uma invisibilidade da se-
que se auto-denominava Radical Lesbi- xualidade das mulheres; vivemos num
ans11. Nesse manifesto, A mulher que se regime sexual que está centrado na sexua-
identifica com mulheres, as autoras de- lidade masculina, a própria noção de ato
fendem que a palavra “lésbica” tem sido sexual predominante em nossa cultura
usada historicamente como um insulto está centrada na penetração (seja pênis-
para desagregar as organizações e desfa- vagina, a cópula entendida como „natu-
zer os laços afetivos entre mulheres: ral‟, ou no sexo anal, que não é centrado
na procriação13) e os corpos femininos
Lésbica é uma etiqueta inventada pelo
ainda são vistos majoritariamente como
homem para atirar a qualquer mulher que
posses potenciais de homens ou objetos
queira ser sua igual, que tenha a audácia
de desafiar as prerrogativas dos homens
(incluindo a prerrogativa de todas as mu- 12 RADICAL LESBIAN, 1973.
13 Muitos sistemas de pensamento, especialmente
lheres serem usadas como moeda de tro-
os religiosos, entendem que a finalidade do sexo é
a reprodução, por causa disso algumas práticas
11 Em inglês, “Lésbicas Radicais”. sexuais são vistas como desvios.
Vidas Plurais: Guia Docente 33

para o desfrute masculino. Nesse sentido,


não só torna-se impensável o sexo entre
Cheia de coragem ao tornar pública a agressão sofri-
mulheres (e daí as perguntas do tipo:
da, a técnica em informática Ana Paula Lima, 29
„como vocês fazem?‟, „quem é o homem
anos, paulista, uma das fundadoras do setorial
da relação?‟), mas a experiência lésbica é LGBTT do PT de Salvador, foi explícita: “se eu me
lotada de situações violentas perpetradas calar, se eu não reagir, se aceitar passivamente que
por homens que se sentem no direito de me agridam e que me humilhem por causa do meu
abordar, importunar e até mesmo violen- amor lésbico, então não serei digna de mim mesma e
tar essas mulheres que se recusam a estar nem da mulher que amo, não serei verdadeira aos
numa relação que orbita a sexualidade olhos da minha companheira e não farei valer a con-
masculina. No caso das violações, são os dição divina de ser uma mulher que ama outra mu-
chamados “estupros corretivos”, que pais, lher. Defendo uma causa, a do amor lésbico como
amigos, irmãos, tios, vizinhos ou mesmo sendo um sentimento natural, normal e de livre arbí-
trio”. E tem sentido o desabafo da Ana Paula. É que
desconhecidos cometem contra lésbicas,
no último dia 10/03, quando a mesma ao lado de
para “ensiná-las” a serem “mulheres de
outros militantes petistas comemoravam num barzi-
verdade”. O filme Meninos não choram
nho a vitória da oficialização estatutária da agremia-
(Boys dont cry, dirigido por Kimberly Pri- ção que ajudou a criar, ela afirma que foi violentamen-
ce em 1999) fala sobre isso. te esmurrada em razão de uma revolta machista; para
d) Transfobia e travestifobia são termos que se livrar de uma tentativa de assédio, Ana revelou ao
designam especificamente o ódio, a dis- seu agressor gostar de mulher, ser lésbica e “casada”
com alguém do mesmo sexo. O homem violento não
criminação e a repulsa que algumas pes-
gostou do que ouviu e espancou-a covardemente.
soas sentem em relação a pessoas trans-
gênero, bem como a intolerância e o da- Segundo a vítima, o fato lastimável ocorreu num bar
no que essa repulsa gera. „Transgênero‟ é na Praça dos Veteranos próximo à Casa de Angola e
foi registrado na 1ª. DP dos Barris em Salvador. A-
usado por algumas autoras como um ter-
pontado como o autor do soco no rosto de Ana Pau-
mo abrangente (termo guarda-chuva) para
la, deixando-a desacordada no chão e fugindo em
designar aquelas pessoas que transpõem a seguida sem prestar socorro, figura o comerciante
barreira de seu sexo, ou cujo gênero está „Chiquinho‟, casado, com loja à Barroquinha frente à
em desacordo com o sexo atribuído no qual, no dia de hoje, 15/03, militantes de algumas
nascimento; nesse sentido, travestis, tran- entidades defensoras dos LGBTT e dos Direitos Hu-
sexuais, drag-queens e drag-kings, cross- manos, fizeram uma manifestação de protesto por-
dressers são transgêneros. No entanto, o tando bandeiras do arco-íris e gritando palavras de
termo tem sido usado também para se ordem em favor da Mulher, pelo direito de ser Lésbica
referir àquelas pessoas que estão em e contra todo tipo de violência e de segregação às
constante trânsito entre os gêneros, por minorias sexuais.
isso muitas vezes encontramos a sigla Fonte: Violência contra militante lésbica resulta em
LGBTTT com os “t” triplicados para se protesto na Barroquinha. Disponível em:
referir a e nomear travestis, transexuais e http://www.espacogls.com/noticias/?noticia=1989
transgêneros. Nessa diferenciação, traves-
tis aparecem como pessoas que se identi-
ficam com a feminilidade, se apropriando aplicação de silicone industrial), tomando
de adereços e muitas vezes modificando hormônios etc; transexuais são aquelas
seus corpos com próteses de silicone (ou pessoas que pertencem a uma identidade
34 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

de gênero oposta ao sexo designado a um primeiro passo em direção a questio-


elas no momento do nascimento. Traves- nar sua normalidade ou naturalidade.
tis e transexuais podem ter demandas de
cirurgia de redesignação sexual e de iden-
tidade civil; transgênerxs normalmente Uma Lista de Privilégios Cisgêneros
são pessoas que, diferentemente das tra-
.1. Minha identidade de gênero pode ser facilmente dedu-
vestis e transexuais, não apresentam uma zida a partir da minha simples aparência física.
identificação fixa, são as drag-queens e
2. Nunca tive que me incomodar se eu estou “passando”
kings, crossdressers etc. É importante
satisfatoriamente para outras pessoas como membro do
entendermos que esses termos não devem
meu próprio gênero.
ser utilizados como rótulos fixos na cate-
gorização de pessoas, pois o processo de 3. Para todos os efeitos legais, sociais, políticos, econô-
construção de identidade é um processo micos e até afetivos, sei que pertenço ao gênero que todo
mundo acredita que eu pertenço.
complexo e muitas vezes fluido, onde
cada pessoa se relaciona de um modo 4. Nunca fui obrigada/o a me comportar de maneira
particular com cada termo na percepção contrária ao gênero ao qual pertenço e com o qual eu me
de sua identidade. É sempre importante identifico plenamente.
que perguntemos de forma não invasiva 5. Todo mundo usa o pronome adequado quando se
como cada pessoa gostaria de ser chama- dirige a mim. Ninguém teima em me chamar por um
da e identificada. nome diferente daquele que corresponde ao meu gênero.

Por causa da transfobia, pessoas transgê- 6. É improvável que alguém me pergunte sobre meus
nero são muitas vezes entendidas como genitais ou queira saber coisas a respeito das minhas
características sexuais secundárias, ou me pedir para vê-
doentes, com transtornos psicológicos ou
las como seu eu fosse atração de circo.
simplesmente degeneradas – como se
houvesse algo intrinsecamente errado em 7. É totalmente improvável que eu seja afastada/o do
seu modo de ser no mundo. Isso acontece convívio com minha família, isolada/o das minhas amigas
porque sua identificação de gênero desafia e amigos, separada/o de minhas filhas e/ou meus filhos,
dispensada/o do meu emprego, desalojada/o da minha
a norma heterossexista dominante em
casa, ou que receba assistência médica de qualidade infe-
nossa sociedade. Por causa da transfobia,
rior, sofra abuso ou violência sexual, seja ridicularizada/o
travestis e mulheres transexuais não são pelos meios de comunicação ou humilhada/o e repudia-
vistas como mulheres “de verdade”, e da/o por organizações religiosas simplesmente por assu-
homens transexuais não são vistos como mir meu gênero publicamente.
homens “de verdade”. Assim, essa dis-
8. Nunca foi uma preocupação minha que o meu gênero
criminação se manifesta fortemente nos transformasse pessoas que sempre disseram me amar em
privilégios que as pessoas cisgênero po- pessoas completamente iradas e violentas.
dem exercer. Cisgênero é o termo inven-
9. Meu sono infantil jamais foi perturbado com desespe-
tado pela militância transexual dos EUA
radas orações à divindade para que no outro dia eu acor-
para nomear pessoas cuja identidade de
dasse no sexo oposto ao meu.
gênero está em consonância com o gêne-
ro atribuído a elas ao nascer. É de extre- 10. Na minha adolescência não tive que pensar que o
meu corpo estava se transformando em algo que eu não
ma importância que pessoas transgênero
definitivamente não queria.
dêem um nome ao que é vulgarmente
entendido como a „norma‟, porque esse é Fonte: Definição de Cisgênero no site da ativista transe-
xual Letícia Lanz (com adaptações). Disponível em:
http://www.leticialanz.org/
Vidas Plurais: Guia Docente 35

e) Bifobia é o termo usado para designar sexismo e do heterossexismo é um exem-


especificamente o ódio, a discriminação e plo evidente dessa contraposição; enquan-
a repulsa que algumas pessoas sentem em to a reprodução desses sistemas de pen-
relação a pessoas bissexuais, bem como a samento faz parte de uma vontade de
intolerância e o dano que essa repulsa manutenção de um estado específico de
gera. Há uma noção no senso comum de coisas, está na contramão do direito à
que pessoas bissexuais são promíscuas, cidadania das mulheres e pessoas LGBT.
porque entende-se que, como a bissexua- Apesar de não constarem explicitamente
lidade é uma orientação afetivo-sexual que no currículo escolar, o sexismo e o hete-
abraça atração afetivo-sexual por pessoas rossexismo aparecem como subtexto de
do mesmo sexo e do sexo oposto, pesso- boa parte das práticas escolares: tanto
as bissexuais se relacionam com todo nos livros didáticos quanto nas interações
mundo o tempo todo. Essa noção está entre professoras/es e alunas/os.
relacionada uma rígida moral social que De acordo com uma recém lançada pes-
exerce controle sobre as sexualidades, e quisa Revelando Tramas14, feita pela
que quer impor uma regra monogâmica a RITLA em parceria com a Secretaria de
qualquer relação afetivo-sexual. E porque Educação do GDF, a discriminação homo-
a monogamia é, por sua vez, uma noção fóbica é uma das violências mais recorren-
que tem muito a ver com a idéia atomiza- tes e banais no universo escolar do Distri-
da de família nuclear, heterossexual e to Federal. Mais da metade das/os alu-
procriativa, pressupõe-se que pessoas nas/os entrevistadas/os alegou ter pre-
bissexuais, por exercerem trânsito mais senciado pelo menos uma situação de
livre entre algumas formas de afetividade discriminação de alguém que era (ou apa-
e sexualidade, não são capazes de se rela- rentava ser) homossexual dentro do ambi-
cionar monogamicamente. Além de esta- ente escolar; dentre o que é considerado
belecer que a monogamia é uma forma como discriminação por essas/es estudan-
mais correta de relação, essa assunção tes estão: insultos, agressões físicas e até
cola heterossexualidade e monogamia mesmo exclusões do convívio escolar.
como se fossem necessárias uma à outra.
As violências de gênero podem se materi-
alizar em diferentes contextos:
3.4- VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA a. nos conteúdos dos livros didáticos:
ESCOLA
Os livros didáticos não apenas transmitem
Uma das funções da escola é formar pes- um conteúdo, mas ensinam os códigos
soas para o pleno exercício de sua cida- sociais e, algumas vezes, os modelos de
dania numa sociedade que se pretende ser no mundo. Isso é mais visível nos li-
democrática; outra função é reproduzir vros das séries iniciais da educação fun-
conceitos, crenças e práticas sociais, de damental, especialmente nos livros de
modo a adequar aquelas pessoas a um português (apesar de estar presente de
padrão de comportamento espera- maneiras e graus diferentes e todos os
do/valorizado socialmente. Mas o que livros didáticos): além de ensinar a ler e a
acontece quando essas duas coisas estão interpretar textos eles ensinam valores, e
em contraposição? O papel que a escola
tem desempenhado na manutenção do 14 ABRAMOVAY, 2009.
36 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

muitas vezes tais valores incluem modelos ção sexual, essas crianças e adolescentes
de masculinidade e feminilidade – que acabam por perceber-se como desviantes,
ocupações, qualidades e comportamentos doentes ou até mesmo anormais. Muitas
são adequados para cada um dos sexos, se suicidam.
que tipo de divisão sexual do trabalho c. nas relações pedagógicas:
ocorre dentro de uma família, e que tipo
específico de organização afetiva constitui Quando um/uma professor/a de matemá-
uma família „de verdade‟ (iinvisibilizando tica endereça suas perguntas unicamente
outras organizações possíveis e que exis- a alunos, ele está reproduzindo uma no-
tem de fato, como a homoparentalidade). ção de que mulheres e matemática não se
Quando livros didáticos e os exemplos em relacionam: um pressuposto sexista de
sala somente mostram somente um tipo como são todas as mulheres está operan-
de prática sexual/afetiva ou de organiza- do. As pessoas costumam reproduzir
ção familiar, reforça-se a normalidade de comportamentos assim sem pestanejar;
um único tipo de relação possível: a hete- entende-se que existem atividades, práti-
rossexualidade. cas e assuntos que naturalmente interes-
sam mais a meninas do que a meninos, e
b. nos currículos: vice versa. Esse tratamento diferenciado é
Um exemplo bem fácil de visualizar a bem mais evidente nas séries iniciais, on-
ação do heterossexismo nos currículos é o de parecem ser bem aceitos e, por isso
que acontece nas aulas de educação sexu- mesmo, reproduzidos os pressupostos de
al, por exemplo. As aulas são ministradas gênero – por exemplo, que os meninos
tendo como pressuposto que as relações sejam “naturalmente” mais agitados, curi-
sexuais possíveis são relações hetero. osos ou assertivos e que as meninas sejam
Pode-se ler isso como uma tentativa de mais carinhosas, cuidadosas e caprichosas
eliminar a diversidade sexual – muitas – porém os ecos dessas velhas melodias
vezes em nome da “manutenção de uma permanecem até o ensino médio.
inocência” da criança ou adolescente na Se a divisão entre tarefas e comportamen-
escola. Tal noção confunde inocência tos típicos de meninos e meninas marca
com ignorância e por isso mesmo com as primeiras séries do ensino fundamen-
intolerância, uma vez que o silêncio incô- tal, um dos problemas graves no ensino
modo sobre questões de diversidade se- médio é o assédio sexual. O assédio sexu-
xual no ambiente escolar deixa de intervir al é um tipo de coação de caráter sexual
na prática discriminatória que entende praticada por uma pessoa em posição
pessoas lésbicas, gays, bissexuais, traves-
hierárquica superior em relação à outra
tis e transexuais como desviantes, estra- pessoa a ela subordinada, normalmente
nhas, exóticas e, principalmente, distan- em local de trabalho ou ambiente escolar.
tes. Isso contribui para a manutenção do O assédio sexual caracteriza-se por algu-
preconceito, mas também para um tipo ma ameaça ou hostilidade contra a subor-
de homofobia internalizada ou sentimento dinada, com fundamento no sexo. São
de solidão profunda entre aquelas alunas exemplos de assédio sexual: a) a aproxi-
e alunos LGBT. Na ausência de exem- mação sexual não desejada nem bem-
plos, referências e amparos que lhes fa- vinda; b) os comentários sugestivos (sobre
çam sentir confortáveis com sua orienta- roupas, o corpo das e dos estudantes etc);
Vidas Plurais: Guia Docente 37

c) os abraços, toques ou beijos não dese- As piadas e brincadeiras são muitas vezes
jados; d) a solicitação de favores sexuais; vistas como um modo eficaz de quebrar o
e) a retaliação e a ameaça de retaliação gelo e conectar professoras/es e alu-
no caso do assédio ser denunciado; f) os nas/os, mas muitas vezes elas são ofensi-
desenhos pornográficos. vas. Piadas homofóbicas, sexistas e racis-
tas são amplamente difundidas no senso
d. nas chamadas:
comum e acontecem em profusão dentro
A evasão escolar entre transexuais e tra- da sala de aula, muitas vezes entre os/as
vestis é bastante acentuada e muitas vezes próprios/as alunos/as, porém, muitas
o estopim do preconceito é a prática coti- vezes são repetidas por professores/as
diana da chamada. O descompasso entre (que de fato deveriam intervir nessas prá-
o nome de registro civil da aluna na cha- ticas para coibi-las) sem muita reflexão.
mada – aquele que lhe foi atribuído ao
As violências de gênero também apare-
nascer – e o modo como ela se apresenta
cem em bilhetes que circulam, em dese-
para o mundo, com seu nome social que
nhos e escritos nas carteiras e quadros,
é como de fato se nomeia e deseja ser
chamada, anuncia a não-aceitação de sua nas portas e paredes dos banheiros (com
suas acusações direcionadas a certos/as
travestilidade, causando desconforto e
estudantes), nas brigas entre alunos/as,
permitindo abusos físicos e psicológicos
nas ameaças e humilhações, nas agres-
pela turma. Devido a reivindicação de
sões físicas e na exclusão do convívio. É
pessoas transexuais e travestis, alguns
importante lembrar que nem sempre a
estados no Brasil já permitem a inclusão
vitimada pela violência é a/o aluno/a,
do nome social de travesti na lista de
frequentemente essas práticas de intimi-
chamada das escolas.
dação baseada no gênero atinge professo-
No dia 10 de fevereiro de 2010 foi publi- ras/es e funcionárias/os. Muitas vezes
cada no Diário Oficial do DF a portaria nº acontece de professores/as e funcioná-
13 da Secretaria de Educação do Distrito rias/os serem demitidas/os ou não pro-
Federal, determinando a inclusão no no- gredirem em seu emprego devido a sua
me social de travestis e transexuais (aque- orientação sexual ou a sua identidade de
le nome pelo qual el@s são conhecidas gênero – ou terem que de fato esconder
socialmente) nas listas de chamada da sua orientação sexual para permanecer no
rede pública do DF. Esse é um passo im- emprego.
portante para a inclusão e acolhimento de
Intervindo nas relações opressoras de
travestis e transexuais no ambiente esco-
gênero entre alunos/as, questionando as
lar: quando a escola atende à demanda de
dinâmicas de esteriotipação e poder em
estudantes travestis ou transexuais de que
atuação nas relações escolares, exami-
sejam chamad@s por seu nome social,
nando o material didático empregado e,
não só está respeitando-lhes como são,
caso seja necessário, trabalhando o con-
mas mostrando o respeito a sua auto-
teúdo em sala de aula de maneira a des-
identificação e anunciação.
construir as mensagens sexis-
e. nas brincadeiras e piadas “inofen- tas/heterossexistas nele contidas, ou seja,
sivas”: repensando suas práticas em sala de aula,
as/os professoras/es estarão contribuindo
38 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

para quebrar a reprodução dos mecanis- tenção, que a pornografia "abra novos
mos de violência de gênero no contexto horizontes, dê-lhe lições sobre sexo e so-
escolar. Se a escola é, de fato, o lugar bre como deve responder a ele, propicie-
privilegiado de construção de subjetivida- lhe meios para aliviar-se, para fantasiar
des, de transmissão de valores para uma em torno de oportunidades eróticas"15.
nova geração e de negociação de valores Na ausência de conversas francas sobre
entre as pessoas, atuar neste ambiente é sexualidade e/ou aulas sobre o tema, a
o primeiro passo no projeto de construir pornografia se manifesta como a pedago-
uma sociedade respeitosa, justa e plural, gia sexual por excelência, mas haja vista a
que acolha a diversidade sexual. profundidade da ideologia sexista em nos-
sas representações do sexo, ela é também
uma pedagogia da violência de gênero. É
3.5- REVISITAR A PORNOGRAFIA:
muito importante que estejamos aten-
OLHARES CRÍTICOS SOBRE UM
tas/os ao que se ensina na pornografia,
INSTRUMENTO PEDAGÓGICO.
pois esses ensinamentos, em sua absoluta
O acesso à pornografia é muito facilitado maioria, são elementos concorrentes ao
a estudantes atualmente, sobretudo com a que discutimos aqui. Os papéis das/os
internet, além da rotineira oferta em ban- parceiras/os são fixamente apresentados
cas de jornais e locadoras. Mas o que tem na pornografia, além de ela ser ao mesmo
a ver a pornografia com conversar sobre tempo uma reprodução e um manual de
educação? comportamento de mulheres e homens
Além do fato de que a pornografia circula em relação a sua sexualidade.
na escola, nos encontros entre estudantes, Muito do que vemos na pornografia é
o material pornográfico tem uma função expressão da objetificação e da violência
pedagógica. Além da função erótica de contra mulheres e alguns homossexuais.
excitação, no material pornográfico mui- Dificilmente se vê na pornografia uma
tas coisas são aprendidas. A pornografia é relação entre duas pessoas: normalmente,
uma linguagem, e como vimos antes, a vemos UMA das pessoas que se oferece
linguagem não é apenas uma expressão como objeto de prazer de outra, e não na
de alguma coisa. A pornografia, como partilha de um encontro sexual. Para além
qualquer linguagem, expressa, mas tam- das fantasias, a pornografia mostra um
bém informa, ensina, performa, cria. sujeito do prazer e seu objeto. Normal-
A pornografia não apenas expressa um mente não vemos dois sujeitos em uma
certo modo de exercer a sexualidade, mas relação, mas um sujeito e um objeto. E
também ensina seu exercício. E o que se normalmente o objeto é desconsiderado
vê na pornografia não é apenas um con- como "algo" que precise ter prazer. Nor-
junto de atos sexuais, mas expressões malmente o sujeito é um: o homem na
daquilo que seriam desejos e modos de pornografia heterossexual, ou o "ativo"
tratar as/os parceiras/os sexuais. Os de- (aquele que penetra) na pornografia ho-
sejos e os modos de tratamento são práti- mossexual masculina.
cas aprendidas. E as imagens têm um
forte poder educativo. Além da diversão,
muitas pessoas buscam, mesmo sem in- 15 Paul, 2006, p. 21
Vidas Plurais: Guia Docente 39

A mulher, em grande parte da pornogra- olhar de aprovação do outro masculino –


fia heterossexual, é "o objeto" do prazer consumidor) do que uma para a outra, e a
masculino, e não podemos esquecer que experiência sexual representada ali parece
a maioria dessa pornografia é destinada mais um convite ao voyeurismo desse
para o público masculino. O gozo mascu- outro que a representação de um encon-
lino é representado normalmente pela tro entre duas mulheres sujeitas de seu
ejaculação, que marca o final do ato sexu- prazer. A lição que isso ensina a alunas e
al, enquanto o suposto momento de pra- alunos (mesmo sabendo que os garotos
zer feminino é mostrado pelos gritos e são mais incentivados a consumir porno-
gemidos, que soam assustadoramente grafia, as garotas também têm acesso e
parecidos em situações de prazer e de muitas gostam) é que as mulheres não são
dor. O que isso pode ensinar a um jovem sujeitas de seu prazer nem quando estão
heterossexual sobre o significado do en- numa relação sexual “lésbica”, mas sim
contro sexual com sua parceira? Basica- são dois objetos para o prazer masculino,
mente, às jovens heterossexuais essa por- ou seja, a sexualidade das mulheres é
nografia ensina comportamentos de sub- tratada como se não existisse por si só.
missão ao prazer do outro e desconheci- Há um ramo de pornografia lésbica feita
mento do próprio gozo, e a identificação para e por mulheres; bem como há um de
imediata com as personagens a remete ao pornografia feminista, homo ou heteros-
feminino como “objeto”. sexual, feito por diretoras e produtoras
Na pornografia homossexual masculina, que estão preocupadas em aproveitar
os papéis normalmente são fixos. Há esse potencial pedagógico da pornografia
comumente um parceiro que penetra (ati- para ampliar o acesso de mulheres ao
vo) e um que é penetrado (passivo), a conhecimento de sua sexualidade e possi-
representação do prazer é daquele que bilidades de prazer. Grande parte dessa
penetra, e o ato culmina com a ejaculação produção acontece em países europeus e
do ativo da relação. Como as "persona- da América do Norte, e uma discussão
gens" da pornografia gay masculina são intelectual/teórica tem sido travada de
homens, é possível ver concessões ao forma sólida desde a década de 1970
prazer do outro, quando este não é objeti- para denunciar e propor alternativas ao
ficado, mas a objetificação ocorre na mai- caráter violento e falocentrado da porno-
oria das vezes. Também nota-se a repro- grafia hegemônica heterossexista, seja ela
dução de papéis hetero-imaginados nas homossexual ou heterossexual.
relações entre dois homens, onde um Não devemos nos furtar à tarefa de discu-
ocuparia o mesmo lugar que uma mulher tir sobre a pornografia, não para incenti-
ocuparia na pornografia heterossexual, e var seu consumo por parte de estudantes,
a rigidez dos papéis de ativo e passivo é, mas com o objetivo de problematizar uma
assim, garantida. prática corrente, que é a de educar-se
Na pornografia “lésbica” produzida por e sexualmente por meio dela. Com ou sem
para homens, a objetificação é quase nossas intervenções e discussões, estudan-
sempre a norma. Geralmente, as duas tes observam e aprendem com a porno-
parceiras passam mais tempo olhando grafia. E, nesse contexto, nossa função
para a câmera (confirmando, assim, o enquanto educadoras(es) é advertir sobre
40 Módulo 3: Expressões da Violência de Gênero

os efeitos das imagens produzidas na vação de práticas que corroboram e cons-


pornografia – e não simplesmente proibir tituem o imaginário opressivo em torno
sua exibição ou consumo, mas alertar do exercício da sexualidade.
para a conseqüência educativa da obser-

Sugestão de Atividade
Analise com suas/seus estudantes algum funk proibidão. De que forma algumas correntes dessa vertente musical banali-
zam a violência sexual? De que forma as mulheres produtoras e cantoras de funk estão mudando essa situação, fazendo
letras em que surgem como protagonistas de seu prazer? Reflita e instigue a produção textual acerca da dupla-moral se-
xual que vigora em nossa socidade: de um lado, há um super-incentivo à sexualização (através da mídia, de filmes e mú-
sicas etc), enquanto de outro lado há toda uma proibição e censura sobre o sexo entre adolescentes. De que forma isso
cria grandes expectativas em torno da experiência sexual sem oferecer construções coletivas de conhecimentos e apren-
dizados positivos sobre o sexo prazeroso, consensual e protegido?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOVAY, M. (coord.) Revelan- matizações sobre a homofobia nas
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42 Módulo 4: Desconstruindo Estigmas

MÓDULO 4: DESCONSTRUINDO OS ESTIGMAS

A estigmatização é uma das principais construídos socialmente, alicerçados em


formas de violência que atingem lésbicas, ideologias discriminatórias. No entanto o
gays, bissexuais, travestis, transexuais e processo de estigmatização muitas vezes
se afirma a partir características ditas co-
outras pessoas cuja vivência e expressão
mo “naturais”, em um processo de natu-
do gênero e da sexualidade não condizem ralização da opressão. A estigmatização
com os padrões heteronormativos. A es- imobiliza a pessoa que é estigmatizada,
tigmatização não se trata de uma violência afirmando que a razão de sua opressão
isolada, mas de um processo que alicerça está em um local que está além de sua
outras violências e se conecta com outras reparação.1
formas de opressão, intimamente ligada à
forma que conceitos de normalidade x
anormalidade e de semelhança x diferen- Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman: “A essência
ça aparecem em nosso cotidiano e orga- do estigma é enfatizar a diferença; e uma diferença
nizando a forma como nos relacionamos que está em princípio além do conserto e que justifi-
ca portanto uma permanente exclusão.” 1
com as pessoas e conosco.
O termo estigma é utilizado para se referir
a marcas que não se apagam, não so- 4.1- DIFERENTES FACES DO ESTIGMA
mem, não se dissipam; a cicatrizes e
O estigma é um fenômeno complexo e,
manchas perduráveis nos corpos; a mar-
como tal, apresenta de forma conectada
cas produzidas por ferrete no corpo de
várias dimensões e formas de opressão: a
pessoas escravizadas e de pessoas acusa-
desumanização, inferiorização e desquali-
das de crimes; a manchas morais na repu-
ficação da pessoa estigmatizada; a cone-
tação de alguém; a algo que marca al-
xão entre diferentes processos de estigma-
guém como indigno/a, imoral, indecente,
tização; a tendência de tomar a parte pelo
desonroso/a. A estigmatização se refere
todo; a tendência a julgar todo o grupo
ao processo de construção generalizante
por algumas pessoas; a percepção do
de marcas sociais que atuam na desuma-
estigma como contagiante; os discursos
nização, tornando aquele ou aquela es-
de eliminação das pessoas estigmatizadas
tigmatizada desabilitada para uma plena
e violência como forma de limpeza; a
aceitação social e para uma inserção não-
criação de locais de isolamento e exclu-
violenta nos espaços de socialização. O
são; entre outros.
estigma faz com que nos relacionemos
com uma pessoa concebendo-a já desde o A) A desumanização impede a inserção
início como alguém diferente de nós e social plena deaquele ou daquela que é
cuja diferença a torna menos humana, estigmatizada. É fácil perceber que quem
inferior e anormal. se afasta das normas hegemônicas de
vivência e expressão do gênero passa a
A produção do estigma é sempre contex-
ser desumanizada/o. Monique Wittig a-
tual, não se trata de um fenômeno que é
resultado de valores absolutos e nem de firmou que há uma regra nas nossas soci-
uma realidade em si mesma. O estigma é
sempre resultado de conceitos e valores 1 BAUMAN, 1999, p. 77.
Vidas Plurais: Guia Docente 43

edades que dita: “Serás hetero ou não monstrar afeição está relacionada a nossa
existirás!” (WITTIG, 1992, p. 28). Quem percepção de quem concebemos como
não é heterossexual nem mesmo É. Um semelhante e diferente de nós. Nesse
exemplo bem cotidiano dessa desumani- sentido é bastante provável que nos com-
zação está nos xingamentos utilizados padeçamos muito menos do assassinato
contra homossexuais que associam as de uma travesti noticiado em um canto de
práticas homoeróticas à animalidade, é jornal do que da morte de um jovem
muito comum no Brasil e em vários ou- branco da classe média. Por não se consi-
tros países que se usem nomes de animais derar uma travesti nem mesmo humana
para ofender homossexuais. 2 (ou tão humana quanto heterossexuais),
não se percebe a travesti como alguém
com quem deve se compadecer ou sentir
É bastante comum o uso de nomes de animais para xin- empatia, nem se revoltar com sua morte.
gar homossexuais, como forma de afirmar a não- Por isso, o esforço para desconstruir os
humanidade dessas pessoas. No Brasil é comum o uso processos de estigmatização não é uma
do termo “viado/veado”, “frango” ou “bicha”. Esse tarefa apenas externa, mas implica prin-
processo ocorre de forma semelhante em outros países: cipalmente em desconstruir nossos valo-
pájaro ou pássaro, pato e mariposa ou borboleta no Ca- res e nossos afetos e em perceber que,
ribe hispânico; duck nos Estados Unidos da América; muitas vezes inconscientemente, damos
duckie, na Inglaterra; fiegele (derivado de pássaro) no ií- diferentes valores a diferentes vidas.
diche. O termo “bicha” talvez seja um dos mais signifi-
cativos, pois reúne a idéia de não-humanidade com a de
sujeira. 2
Em 2008 foram noticiados no Brasil os assassinatos
Dentro desse mesmo mecanismo de de- de 190 de pessoas, mortas por serem homossexuais
sumanização, inferiorização e desqualifi- e travestis, a grande maioria com absurda crueldade.
cação, as práticas homoeróticas masculi- Provavelmente uma grande parte dos assassinatos
nas, assim como as pessoas nelas envol- ocorridos nem chegou a ser noticiado na mídia. E
vidas, foram e têm sido consideradas co- provavelmente esses 190 que foram noticiados des-
pertaram o compadecimento de quase ninguém. Veja
mo aberração, anomalia, ato imoral, cri-
o relatório anual do Grupo Gay da Bahia de assassi-
me, degenerescência sexual, delito sexual,
natos de homossexuais no Brasil em 2008 em
desqualificação social, desvio moral e se- http://www.ggb.org.br/assassinatosHomossexuaisBr
xual, disfunção orgânica, doença, inversão asil_2008_pressRelease.html.
sexual, loucura, neuropatia, patologia
psíquico-somática, perigo social, perver-
são e transtorno sexual, vício, anormali- B) Muitas vezes há uma conexão entre
dade e mesmo problema de saúde públi- diferentes estigmas. É bastante comum,
ca.3 por exemplo, a ligação dos estigmas que
Esse processo de desumanização implica recaem sobre a população LGBT e às
em como nos relacionamos com as pes- pessoas vivendo com HIV/Aids.
soas e na empatia com seu sofrimento.
Nossa capacidade de sentir afeto e de-

2 FOUNTAIN-STROKES, 2004.
3 TREVISAN, 2002, passim.
44 Módulo 4: Desconstruindo Estigmas

No Brasil, a Aids foi oficialmente noticia- diferente, o opressor e quem deve ser
da em 1983. A partir desse ano, as popu- oprimido.6
lações LGBT passaram a ter a sua ima-
gem cada vez mais associada à Aids –
chamada, então, de Peste Gay. Como Em 1985, por exemplo, apenas dois anos depois da
aponta Susan Sontag, as doenças desco- primeira morte por essa síndrome oficialmente anunciada
nhecidas costumam ser usadas “como no Brasil, um farmacêutico paulistano negava-se a aplicar
metáfora para o que se considera social injeções em efeminados, justificando-se: “E se eu me
ou moralmente errado”4; nesse caso, a contaminar? Lá em casa ninguém ia querer saber da
Aids tornou-se metáfora da impureza, do história. Todo mundo ia achar que eu „virei a mão‟” 6 .
temor e do risco de contaminação que Ele tinha medo de contaminar-se não do vírus da síndro-
me da imunodeficiência adquirida, mas de uma marca da
eram parte da população LGBT. João
homossexualidade – e a Aids era considerada uma dessas
Silvério Trevisan narra uma cena emble-
marcas.
mática, acontecida há poucos anos em
um ônibus em São Paulo: “recusando-se a
se sentar num banco, de onde dois deli- As estigmatizações sofridas pela popula-
cados rapazes tinham acabado de se le- ção LGBT e por pessoas vivendo com
vantar, um homem alertou a outro: „Não HIV/Aids se conectam e se retroalimen-
senta aí que você pega Aids‟”5. Mais que tam. Ao conhecer uma pessoa homosse-
um medo resultante de um desconheci- xual, muitas pessoas já supõem de início
mento das formas de contaminação do que se trata de uma pessoa vivendo com
vírus do HIV, a associação entre a Aids e HIV/Aids e, inversamente, ao conhecer
a homossexualidade através das idéias de uma pessoa vivendo com HIV/Aids, já
impureza e contaminação faz uma popu- supõem que se trata de uma pessoa ho-
lação aparecer não só como desumana e mossexual.7
perigosa, mas como instauradora de ur-
gente necessidade de controle, vigilância e
eliminação. Como afirma João Silvério Trevisan: “(...) salvo prova em
Nos anos 90 havia um grande número de contrário, o doente de Aids é culpado[a] de sua doença.
piadas que ligavam a homossexualidade à Se diante da fatalidade do câncer as pessoas sadias sen-
Aids. As piadas são formas centrais atra- tem pena, diante da Aids elas tendem a sentir raiva, a
partir do julgamento moral que a vê como doença do
vés das quais os processos de estigmati-
corpo resultante de uma alma conspurcada”. 7
zação aparecem e se fortalecem, são em
si mesmas violentas e funcionam como
uma pedagogia da opressão. A piada, C) Há no processo do estigma a tendência
expressando o que é risível e o que não, de se tomar a parte pelo todo. Por exem-
quem pode fazer rir e de quem se deve plo, é bastante comum que pessoas vi-
rir, marca posições, hierarquiza pessoas e vendo com HIV/Aids sejam chamadas
ajuda a delinear o certo e o errado, o pejorativamente de “aidéticas”. A doença,
normal e o anormal, o semelhante e o nesse caso, passa a significar toda a tota-

6 FOLHA DE SÃO PAULO, 1985, p. 33 apud


4 SONTAG, 1989, p. 79. TREVISAN, op. cit., p. 42.
5 TREVISAN, 2002, p. 444. 7 TREVISAN, op. cit, p.437.
Vidas Plurais: Guia Docente 45

lidade da pessoa. O mesmo não ocorre sexual constante. Esse estigma impede
com outras doenças, não nos referimos a uma plena inserção social e a livre expres-
uma pessoa com câncer de “cancerígena” são de todas as potencialidades de uma
ou a uma pessoa com problema no cora- pessoa.8
ção de “cardiopata”.

No ano 2000, em uma escola estadual em Arara


Existem grupos de risco na contaminação do HIV? (SP), um estudante de 17 anos do 3º ano do
ensino médio foi convidado a participar de um
No começo da epidemia do HIV (vírus da imunodefici- “amigo oculto” com seus/suas colegas. Recebeu
ência adquirida), era comum se referir a homens ho- de presente um pênis de borracha e foi alvo de
mossexuais, travestis, usuários/as de drogas injetáveis e risos e humilhações pelos colegas e 4 professores
hemofílicas/os como grupos de risco. Esse termo era u- que estavam ali presente rindo da situação. Um
tilizado para se referir à maior incidência do vírus nessas dos professores disse: “Esse foi o melhor presen-
populações – o que acontecia na época. No entanto, a te que você poderia ter recebido!”
idéia de grupos de risco estigmatizava tanto as pessoas
vivendo com HIV/Aids como as pessoas pertencentes Nesse mesmo ano, a diretora de uma escola
aos chamados “grupos de risco”, em especial homens municipal em Jundiaí (SP) obrigou um garoto
homossexuais e travestis. Isso não ocorria simplesmente de 10 anos a desfilar em toda a escola com um
por uma comprovação de dados estatísticos, mas pela cartaz com os dizeres “Eu sou Gay!”. 8
influência de discursos homofóbicos que apresentavam
o HIV como um vírus gay.
Hoje não se usa mais esse termo; primeiro, porque o ví- D) De forma semelhante, há a tendência de
rus tem se espalhado cada vez mais e não se concentra se julgar todo o grupo a partir da atitude
mais nesses grupos específicos e, segundo, para evitar a
de algumas pessoas. As pessoas heteros-
estigmatização que ele provoca. Nos últimos anos, por
sexuais não são comumente julgadas pela
exemplo, tem aumentado muito o número de heteros-
sexuais infectadas/os com HIV, principalmente mulhe- atitude de alguma pessoa heterossexual,
res casadas (contaminadas, sem saber, pelos maridos). diferentemente do que ocorre com lésbi-
Utiliza-se hoje o termo “comportamento de risco”, refe- cas, gays, bissexuais, travestis, transexu-
rindo-se a atitudes que aumentam o risco de contágio ais. É comum que pessoas passem a jul-
para uma pessoa, independente de sua orientação. Por gar todo um grupo pela atitude de uma
exemplo, transar sem camisinha é um “comportamento pessoa. Por exemplo: “eu conheço um
de risco”, seja em uma relação hetero, seja em uma re- gay que usa substâncias químicas, logo
lação homo. todos os gays são drogados”; “eu li uma
Ou seja, não há grupos de risco. notícia de uma travesti cometendo um
assalto, logo todas as travestis são crimi-
É muito comum que se trate pessoas nosas” etc. Esse é um processo de violên-
LGBT como se a sexualidade represen- cia que a partir de um preconceito, emba-
tasse todo seu ser, todas as suas formas sado supostamente em atitudes concretas,
de expressão e de relação – como se elas leva à estigmatização de todo um grupo e
fossem apenas sexo. Muitas pessoas in- a exclusão e discriminação de pessoas a
clusive têm dificuldade de se relacionar partir de um pré-julgamento.
com pessoas homossexuais, com travestis
e transexuais por temerem um assédio
8 Conf. MOTT & CERQUEIRA, 2001.
46 Módulo 4: Desconstruindo Estigmas

E) As pessoas estigmatizadas e as pessoas F) Aparecendo como contaminante e


que as violentam nunca são diferentes perigoso, o processo de estigmatização
radicalmente, como se houvesse uma leva ao aparecimento de discursos de total
diferença inata, indiscutível e indestrutível eliminação de quem é estigmatizado, dis-
entre essas pessoas; mas, pelo contrário, cursos de limpeza e práticas de extermí-
parece que as identidades das pessoas nio.
estigmatizam está sempre em risco, como Os conceitos de limpeza e sujeira são
se pudesse ser destruída pela presença da comumente associados a conceitos mo-
pessoa estigmatizada. Isso se expressa na rais. Pessoas limpas seriam pessoas dig-
percepção do estigma como algo conta- nas, decentes, morais; pessoas sujas seri-
minante. Se uma pessoa heterossexual am pessoas indignas, indecentes e imo-
for vista próxima, for amiga, apoiar ou rais. É comum, então, que pessoas estig-
mesmo se recusar a agir com violência matizadas sejam tratadas como pessoas
com uma pessoa que é notadamente ho- sujas e, pior, como pessoas que devem
mossexual, travesti ou transexual, ela po- ser exterminadas para limpar a sociedade.
de ter sua identidade heterossexual ques- Como o estigma aparece como uma mar-
tionada. ca de sujeira (física e moral), a violência
que busca a eliminação das pessoas es-
tigmatizadas se justifica para os/as violen-
Quando alguém diz “Não tenho preconceito contra tadores/as como ato de limpeza e restau-
homossexuais, desde que não cheguem perto de ração da ordem perante uma ameaça à
mim”, isso revela o risco que a identidade homosse- moralidade.9
xual representa para a identidade heterossexual. A
identidade heterossexual se revela como frágil peran-
te o risco de contágio da homossexualidade.
Paulo Francisco de Oliveira Filho, 35 anos, e Rau-
lhei Fernandes Mangabeiro, 26, foram assassinados
As violências homofóbica, lesbofóbica, em Brasília com tiros na cabeça no dia 19 de janeiro
bifóbica, travestifóbica e transfóbica não de 2009. Segundo o que foi informado pela mídia9,
são o resultado da diferença, mas buscam o assassino queria “limpar eles de lá”, pois tinha visto
produzi-la. A diferença é mais resultado os dois homens, ambos moradores de rua, trocando
da violência do que o motivo que leva a carícias na tarde do domingo anterior. Os dois ho-
ela. Se a identidade do outro me coloca mens eram, ou aparentaram aos olhos de seu assassi-
em risco, a reação violenta me faz dife- no, homossexuais e ele não podia aceitar isso. Ligou
para polícia e prometeu: "Se vocês não fizerem nada
rente dele. Além disso, esse caráter con-
para tirar eles de lá eu vou fazer". No dia seguinte ele
taminante do estigma faz com que aquela
foi até a parada onde os moradores estavam e cum-
ou aquele que é estigmatizada dificilmente priu a sua promessa, “limpou” eles de lá.
receba o apoio público de alguém – al-
guém que mesmo discordando da violên-
cia sofrida por essa pessoa terá medo de
se manifestar e ser “confundido” com a/o
estigmatizado.
9JORNAL DE BRASÍLIA, 2009; CORREIO
BRAZILIENSE, 2009.
Vidas Plurais: Guia Docente 47

G) Esse mesmo movimento aparece nas que é agredida/o, assassinada/o, exter-


tentativas de isolamento, exclusão de es- minada/o?
paços públicos e discursos de criação de
espaços isolados para pessoas estigmati-
zadas. Muitas pessoas afirmam que já que 4.3- COMBATENDO A
as pessoas LGBT sofrem nas escolas, ESTIGMATIZAÇÃO: UMA TAREFA
deveriam ter escolas só para elas. Esse é DIÁRIA
um discurso que reflete um processo de Os processos de estigmatização aparecem
exclusão, e não abertura da escola à di- de muitas formas no ambiente escolar:
versidade. Muitas pessoas LGBT também nos xingamentos, nas exclusões de pes-
encontram dificuldades em se matricular soas de grupos, na omissão perante a
em escolas.10 violência, na construção de estereótipos,
na prática de apelidos ofensivos, nas hu-
milhações, nas piadas (inclusive naquelas
que ocorrem na sala de professoras e
No ano 2000, em Alagoas, um estudante negro professoras) etc.
teve seu pedido de matrícula recusado pela direto-
ra de uma escola estadual no bairro de Pajuaçara Assim como é cotidiana a construção dos
em Maceió, após varias tentativas de inscrição. A estigmas, sua desconstrução também deve
diretora solicitava diversos documentos desneces- ser. Devemos estar sempre atentos e a-
sários, dificultando o processo de inscrição. De- tentas ao nosso papel perante esses atos
pois chegou a admitir que “não queria nenhum de violência: estamos contribuindo com
viado preto na sua escola”. 10 eles?
Como na nossa prática escolar contribuímos
4.2 - A INTROJEÇÃO DO ESTIGMA com a construção de estigmas?
Um dos principais efeitos desse conjunto Que concepções eu tenho sobre lésbicas,
de violências que decorrem do processo gays, bissexuais, travestis e transexuais?
de estigmatização é a introjeção do estig- Como reajo perante a presença e o contato
ma por quem é violentada/o. Isso faz com lésbicas, gays, travestis, transexuais e
com que essa pessoa passe a se ver a bissexuais?
partir dos conceitos e valores negativos O que faço quando ouço piadas com pessoas
atribuídos por outros, entrando em um LGBT?
processo de auto-desvalorização e baixa
O que faço quando um estudante meu chama
auto-estima. Afinal, quem quer ser identi-
outro de viado, bicha?
ficado com o que é socialmente conside-
rado tão negativo? Quem quer ser identi- O que faço quando um/a estudante LGBT é
ficada com o que é constantemente utili- alvo de humilhações e piadas na escola?
zado como xingamento? Quem quer ser o O que faço para promover a auto-estima de
que é sempre alvo de riso, humilhações e meus/minhas estudantes LGBT?
piadas? Quem quer ser o que é conside- Seja por nossa ação, seja por nossa omis-
rado menos humano/a? Quem quer ser o são, contribuímos – muitas vezes sem
perceber – com a construção e perpetua-
ção de processos violentos de estigmati-
10 Conf. MOTT & CERQUEIRA, 2001.
48 Módulo 4: Desconstruindo Estigmas

zação em sala de aula. A tarefa de cons- agente educacional e cada ator e atriz
trução de uma escola não excludente e dentro do espaço escolar de rever e ques-
que contribua com a diminuição de pro- tionar seus atos e concepções cotidiana-
cessos de opressão não deve ser apenas mente, de não se omitir perante atos de
um lema vazio ou um slogan panfletário, violência e de contribuir com a valo-
mas deve ser o compromisso de cada rização e promoção da diversidade.

Saiba mais...
O sociólogo Erving Goffman (1922-1982) foi o principal responsável por apresentar o estigma como
um processo social. Para conhecer mais sobre o processo de produção dos estigmas vale a pena co-
nhecer seu livro “Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1983.
Na internet...
O sítio virtual do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde
(http://www.aids.gov.br/) traz um conjunto de informações muito úteis sobre HIV/Aids e outras doen-
ças sexualmente transmissíveis, bem como informações sobre os direitos das pessoas vivendo com HIV
e Aids. Essas informações podem subsidiar atividades em sala de aula. É importante que atividades que
envolvam uma discussão sobre Aids e HIV não se restrinjam apenas em informações sobre prevenção,
mas que abram um espaço para a crítica de processos de discriminação e estigmatização sofridos por
pessoas vivendo com HIV e Aids e por grupos historicamente associados a essas doenças.
Sugestões de filmes...
O filme “Filadélfia” de Ron Nyswaner (1993) pode ser um interessante instrumento para levantar a dis-
cussão sobre os estigmas que recaem sobre a população LGBT e sobre pessoas vivendo com HIV/Aids.
O filme conta a história de um advogado, interpretado por Tom Hanks, que é despedido de uma grande
empresa quando os empresário descobrem que ele está com o vírus da Aids. O filme apresenta sua luta
para ter seus direitos garantidos frente a todos os estigmas, preconceitos e discriminações da sociedade.
No filme Garota Positiva, de Peter Werner (2007), uma adolescente do ensino médio é contaminada pe-
lo HIV mas se recusa a fazer o exame. O surgimento de uma professora vivendo com o vírus e o encon-
tro da história dessas duas personagens tem impacto na comunidade escolar, e na forma como as e os
adolescentes discutem e vivem suas vidas sexuais. O filme aponta o aumento da contaminação de jo-
vens pelo HIV nos EUA, uma vez que, por não acreditarem que estão suscetíveis ao vírus, adotam
comportamentos sexuais de risco.
O filme “A letra escarlate”, de Roland Joffé (1995), narra uma história de opressão social pela estigma-
tização. Conta a história de uma mulher que em 1666, por ser acusada de adultério, é obrigada a portar
um “A” bordado em cores vermelha em suas roupas. Esse “A”, um estigma, é o símbolo de seu crime
perante a sociedade local. Trata-se de um bom filme para discutir a história dos processos de estigmati-
zação e da opressão das mulheres.
Vidas Plurais: Guia Docente 49

.
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50 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

MÓDULO 05: VULNERABILIDADES E INTERSECCIONALIDADES

O conceito de Vulnerabilidade é recente A) Vulnerabilidade Individual – o grau de


nas Ciências Sociais, tendo surgido em comprometimento ou recepção individual
meados dos anos 90 nas discussões sobre de cada pessoa em contextos de opressão
Direitos Humanos; mais especificamente, que violam seus direitos humanos; tem a
sobre como a violação dos Direitos Hu- ver com percepções e experiências vividas
manos cria um contexto de vulnerabilida- ante situações de racismo, lesbofobia,
de, ou seja, deixa as pessoas mais ou classismo, intolerância religiosa, precon-
menos expostas às conseqüências dessas ceito contra pessoa com deficiência etc.
violações de acordo com o tipo de expe- Ou seja, a forma que essas violências são
riência social, econômica, ambiental, cul- percebidas, vivenciadas e enfrentadas pela
tural, de gênero, de orientação afetivo- pessoa, que se sente ou percebe mais ou
sexual e étnico-racial, entre outras, que menos atingida por tais fatores.1
forma sua identidade. Um dos resultados
dessa violação é a escassez ou ausência
de acesso a bens sócio-culturais, materiais
e coletivos e na supressão da possibilidade “Eu sou bissexual e sofro preconceito. Mas não me
importo porque eu não me importo com essa escola.
de viver em segurança, com tranqüilidade
Eu não mantenho laços com ninguém aqui, pois
e felicidade. meus amigos e minha vida estão em outra cidade.”
Portanto, é a percepção de tais traços (Depoimento de aluno à pesquisa Revelando Tra-
identitários (expressão e identidade de mas1)
gênero, orientação afetivo-sexual, perten-
ça étnico-racial, classe social, deficiência
etc) por sistemas de opressão, que os
entende como desvalorizáveis, o que viola B) Vulnerabilidade Social – essa suscetibili-
os direitos humanos. Assim definimos que dade se relaciona com os contextos soci-
um contexto de vulnerabilidade é a expo- ais vivenciados pela pessoa, e a interfe-
sição de determinados grupos, de acordo rência dos mesmos no maior ou menor
com suas características sociais, a mais ou agravo às opressões e violências. Contex-
menos violações e acessibilidades. tos como pobreza e condições econômi-
co-sociais; tipo de moradia (rural ou urba-
O conceito de vulnerabilidade foi desdo- na?); raça; identidade de gênero; idade;
brado em 3 eixos referenciais a partir de escolaridade, grau de letramento e acesso
sua adoção pela área da saúde, especial- à informação; situação de migração ou
mente quanto ao enfrentamento do êxodo; religiosidade; situação política de
HIV/Aids. Aproximando tal desdobra- sua região (há conflitos militares? Confli-
mento de uma discussão mais ampla so- tos étnicos?) etc são os que vão delinear
bre direitos humanos e suas violações, uma vulnerabilidade maior ou menor a
podemos articular os 3 eixos ou aborda- situações de violação dos direitos huma-
gens da seguinte forma: nos, bem como sugerir que aparatos soci-

1 ABRAMOVAY, 2009, p. 203


Vidas Plurais: Guia Docente 51

ais devem ser incrementados ou reformu- institucional, da falta de acessibilidade


lados para ampliar o acesso aos bens ma- física em edifícios às pessoas com defici-
teriais e imateriais da sociedade ou cultura ências etc. 3
em que a pessoa se encontra. 2

Deputado acusa PM-SP de racismo3


Diretora nega matrícula a homossexuais em O coordenador da Frente Parlamentar pela Igual-
Pernambuco2 dade Racial da Assembléia Legislativa de São Pau-
lo, deputado estadual Sebastião Arcanjo, denun-
ciou nesta quarta-feira à Comissão de Direitos
Os cabeleireiros Sidcley Rodrigues da Silva, 24, e Humanos e Minorias uma série de arbitrariedades
Eduardo José dos Santos, 20, acusaram a diretora cometidas pelo 5° Batalhão da Polícia Militar de
da Escola Estadual Murilo Braga, Mércia de Almei- São Paulo contra os moradores dos conjuntos
da Brito, de discriminação, impedido que ambos se Chácara Bela Vista e Tenente Amaro, ambos do
matriculassem na escola por serem homossexuais. bairro Parque Novo Mundo, na periferia da capital
“Ficamos esperando e quando chegou nossa vez ela paulista. Os negros, segundo o deputado, são as
nos olhou e disse: Na minha escola eu não matricu- principais vítimas - em especial os que têm entre
lo gente anormal. Isso diante de um monte de gen- 16 e 24 anos de idade -, o que configura a exis-
te; e nós saímos de lá humilhados e arrasados”. A tência de racismo policial. (Trecho de reportagem
diretora não foi localizada para depor na delegacia, do Boletim Eletrônico da Câmara dos Deputados,
e Eduardo e Sidcley irão encaminhar dossiês ao Mi- 12/05/2004)
nistério da Justiça e à Secretaria Estadual de Educa-
ção, em Jaboatão dos Guararapes/PE [Jornal de
Brasília/DF, Jornal do Comércio, 28-1-2000] Como as diversas categorias de identidade
se combinam, formando sujeitos sociais
ao mesmo tempo ímpares e agrupáveis
(“quilombolas”; “latifundiários”; “mulheres
C) Vulnerabilidade Programática ou Institu- lésbicas”; “pessoa com deficiência”; “tra-
cional – aqui, a vulnerabilidade vem de vestis”; “indígenas”; “homem cristão”;
como os aparatos políticos e governa- etc), é interessante pensar a intersecciona-
mentais (políticas públicas, instrumentos lidade como uma ferramenta útil ao estu-
de gestão, serviços e sistemas, progra- do dos direitos humanos numa ótica da
mas, pactos e projetos de governo, enfim) vulnerabilidade. A conjunção de duas ou
estão preparados e/ou são desenvolvidos mais categorias sociais (mulheres + lésbi-
para o enfrentamento das opressões e cas; surdo + negro; branco + empresário)
violações de direitos humanos, ou se são tem sido o crivo que determina como será
“míopes” a essas violações e funcionam a distribuição dos benefícios sociais, tra-
como seus reprodutores, dificultando ou duzindo a própria tensão social que a
agravando o quadro de cidadania plena e hierarquização dessas categorias causa.
exercício efetivo dos direitos civis. É o Interseccionalidade pode ser aqui com-
caso do racismo institucional, do sexismo preendida, então, como um conceito que

2 Nota disponível em 3A notícia completa está disponível em


<http://www.dhnet.org.br/dados/livros/dht/br/m <http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/5
ott_homofob/i_05_discfamiliar.htm> 0150.html>
52 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

se propõe a pensar como as relações de e que o faça a partir de um compromisso


opressão se articulam (sexismo ao racis- ético com a promoção dos direitos huma-
mo; lesbofobia à intolerância religiosa; nos e o trato respeitoso e acolhedor com
classismo ao etarismo e ambos à transfo- as diversidades – étnico-raciais, religiosas,
bia etc) para aumentar a vulnerabilidade da pessoa com deficiência, e tantas outras
de determinados sujeitos sociais. 4 – em resposta aos estereótipos e estig-
mas.
Neste módulo, vamos dialogar um pouco
Segundo Jurema Werneck, pesquisadora negra da sobre os direitos humanos de alguns dos
ONG Criola, a interseccionalidade “trata-se de um segmentos aqui mencionados; como se
conceito que afirma a coexistência de diferentes fatores estruturam as violações a esses DDHH,
(vulnerabilidades, violências, discriminações), também na forma de diferentes preconceitos; al-
chamados de eixos de subordinação, que acontecem gumas conseqüências da discriminação e
de modo simultâneo na vida das pessoas. Desse modo,
possibilidades de enfrentamento a partir
é um conceito que ajuda a compreender a complexi-
das práticas educacionais do ambiente
dade da situação de indivíduos e grupos, como tam-
bém a desenhar soluções mais adequadas.”4 escolar.

5.1- RAÇA E RACISMO NO BRASIL:


Como veremos no módulo 07, a garantia
EDUCAÇÃO QUE VEM DE BERÇO
dos direitos humanos tem sido uma luta
constante, em que sujeitos sociais histori-
camente excluídos dos sistemas de benefí- AS HERANÇAS COLONIAIS E O
cios demandam sua inclusão na distribui- RACISMO À BRASILEIRA
ção e na partilha de bens materiais e ima-
teriais da humanidade, e para que os pró- Apesar da drástica experiência de 300
prios conceitos de “pessoa cidadã” e anos de escravização negra, a presença
“humanidade” efetivamente os abracem e dos povos afro-descendentes no Brasil
representem. Conforme discutido no mó- deixou um legado cultural e sócio-
dulo 04, “Desconstruindo o estigma”, “A econômico de muitas facetas. Uma delas
estigmatização se refere ao processo de é a importante herança deixada em várias
construção generalizante de marcas soci- musicalidades, culinárias, festejos, influên-
ais que atuam na desumanização, tornan- cias lingüísticas e religiosidades, para citar
do aquele ou aquela estigmatizada desabi- algumas. Além da parte positiva, os danos
litada para uma plena aceitação social e causados pela exploração e escravização
para uma inserção não-violenta nos espa- da população negra inicialmente oriunda
ços de socialização”. de África também marcam de forma con-
tundente nossos modos de viver.
A educação e os espaços escolares for-
mais, como lugar privilegiado de aprendi- A abolição oficial da escravidão, em
zagens e trocas, pode ser vista de maneira 1888, não formalizou projetos inclusivos
instrumental: ferramenta que dê conta de à população recém liberta, o que se tra-
pautar esse conjunto de disputas políticas, duziu em desigualdade entre os povos
brancos e não-brancos (especialmente
4
negros e indígenas) e continua fortemente
WERNECK, 2007.
Vidas Plurais: Guia Docente 53

alastrado num país culturalmente diverso


e formado por muitas raças e etnias, mas Para refletir...
socialmente forjado na segregação simbó-
lica e física de grande parte de sua popu- Num curso de capacitação sobre a Lei
10.639/03, a diretora de uma escola disse que
lação, notadamente não-branca.
em sua escola não havia racismo porque ela “tra-
Física porque, no Brasil, o sistema de tava todos os alunos como brancos”.
segregação oficializado em lei chegou ao
século XX como em outros países – Áfri-
ca do Sul e EUA são os exemplos mais
citados –, mas com o projeto político do O MITO DA MORENICE:
embranquecimento populacional em voga DEMOCRACIA OU DEMAGOGIA
nos anos 1800, o legado de discriminação RACIAL?
racial que vem até os dias atuais se conso- Essa negação, que não é exclusivamente
lidou. Ele deixou suas marcas nas práticas uma declaração de outra pessoa a respei-
sociais e costumes cotidianos como parte to da pessoa negra, também parte da
do sistema de valores brasileiro, como internalização do racismo, que impede as
exemplificam a violência policial dirigida pessoas negras de se enxergarem como
ao contingente negro, a preferência do tal por não quererem ser comparadas a
sistema penal pelo mesmo e os graves traços historicamente depreciados. Por
quadros de pobreza e analfabetismo em isso é que o mito da democracia racial, ou
que a população negra é majoritária. a idéia de que no Brasil somos um povo
Já a segregação simbólica, herdeira dos moreno e que vive em harmonia, tem
assassinatos, êxodos e estupros coloniais, ainda tanta força, mesmo após sua des-
está pautada também na violência contra construção como ideologia da dominação:
os valores estéticos, culturais, imateriais, a pessoa dita morena, que fenotipicamen-
simbólicos que se relacionam à cultura te se aproxima da branquitude e se afasta
negra, como cabelo crespo, musicalidade, da negritude, é mais bem aceita social-
pigmentação da pele, religiosidade (de mente porque “passa” como branca. A
matriz africana) etc. Várias pesquisas fo- “morenice” ou “mulatice” cria então um
ram feitas desde o ano 2000 – que foi um limbo racial de negação da negritude e
marco no reconhecimento legal da exis- tentativa de afirmação de uma quase
tência do racismo no Brasil –, relacionan- branquitude, ou dessa mais bem aceita
do a evasão ou mau desempenho escolar mestiçagem.
ao trato que professorxs e equipes técni- Uma das conseqüências desse limbo é que
cas das escolas dispensavam a estudantes impede a articulação política de um gran-
negrxs, com relação a estudantes não- de contingente de pessoas negras (soma
negrxs: menos contato físico, mais me- das populações pretas e pardas afro-
nosprezo ou mesmo invisibilização, falta descendentes, de acordo com a classifica-
de acolhimento às denúncias de racismo ção que o IBGE adotou a partir de de-
sofrido, e mesmo a negação da negritude mandas do movimento negro) que não se
da/o estudante. percebem como negras. Esse reconheci-
mento permitiria, entre outras coisas, a
ampliação das demandas por políticas
54 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

públicas de reparação dos danos da es- conta da diversidade de grupos ali repre-
cravização passada mas não superada, e sentados, e quando cria-se um nicho de
de combate às mazelas do racismo atuali- profissionais negras e negros nas mais
zado e cotidiano, que traz um sistema de diversas áreas, não estando mais restrit@s
benefícios para parte da população (não- a subrepresentações ou funções de pouco
negra) em detrimento de outra parte (ne- prestígio social (serventes, sub-empregos,
gra). postos informais ou associados a margina-
lização etc).

AÇÕES AFIRMATIVAS E COTAS


ÉTNICO-RACIAIS NA EDUCAÇÃO
Ao conjunto de políticas públicas destina-
Você sabe o que é a Lei 10.639/03?
das a reverter um quadro de desvantagem
social construída historicamente, ou am- É uma Lei Federal que alterou o artigo 26-A da
pliar as oportunidades de acesso a deter- LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação na-
cional, ao oficializar a inclusão do ensino de Histó-
minado grupo para certos bens e serviços
ria e Cultura Africana e Afro-Brasileira no currículo
que lhe venham sido negados ou dificulta-
da rede educacional, e o dia 20 de novembro co-
dos, dá-se o nome de Ações Afirmativas. mo Dia Nacional da Consciência Negra nos calen-
Atualmente elas têm sido usadas em prol dários escolares. Cinco anos depois de sua criação,
de populações historicamente marginali- ela foi ampliada pela Lei 11.645/08, que adiciona
zadas, como é o caso das mulheres (polí- ao texto o ensino de História e Cultura Indígena.
ticas de ação afirmativa em partidos polí- Sua escola cumpre essa lei? Você é um/a das/dos
ticos que visam ampliar a participação professoras/es que tem implementado o estudo
feminina nos espaços de decisão e poder, das histórias e culturas afro-brasileira e indígena
por exemplo) e, mais recentemente, da em suas aulas?
população negra – que viu pela primeira
vez um grande projeto de ações afirmati-
vas ser efetivado, em termos educacio-
nais, com a adoção de cotas étnico- 5.2.- ETNIAS E ETNICIDADE: A
raciais, combinadas ou não a critérios HISTÓRIA ESQUECIDA E
sócio-econômicos, no ingresso ao ensino CONTINUAMENTE SILENCIADA DOS
superior. POVOS INDÍGENAS
Tal medida cria um ambiente fisicamente TUTELA: UM NOVO MODELO DE
mais diverso, já que é notório o aumento COLONIZAÇÃO?
da população negra no ensino superior
As ações afirmativas na forma de cotas no
(de 2% em 1990, hoje os percentuais de
ensino superior também são destinadas a
reserva de vagas pra candidat@s afro-
indígenas, apesar de recebidas com me-
descendentes vão de 05% a 25%, depen-
nos alarde tanto pela mídia reacionária
dendo da UF). Além disso, incentiva tam-
quanto pelos defensores da falsa noção de
bém uma mudança epistemológica e no
que não existe racismo no Brasil. Uma
quadro das representações sociais, quan-
análise mais atenta dessa situação pode
do outras referências culturais são inseri-
nos levar à conclusão de que o sistema de
das nos currículos e conteúdos, para dar
tutela sob o qual vivem os povos indíge-
Vidas Plurais: Guia Docente 55

nas os coloca numa condição ainda mais primitivas e propensas ao aniquilamento.


desigual de disputa social por acesso aos Existe no contexto nacional uma diferença
meios de produção de conhecimento, se brutal entre a legislação que recusa e
comparada à dos povos negros. combate essa visão primitivista e integra-
cionista (ou seja, que a população indíge-
A questão indígena é marcada por uma
na deva se adequar e ser incluída na soci-
prática de tutela dessa população pelo
edade brasileira o que em outras palavras
Estado. A história de conquistas indígenas
significa ser dissolvida ou diluída – apa-
tem sido de desmantelamento lento e
gando suas especificidades) de aproxima-
gradual dessa situação de tuteladxs. Por
ção à questão indígena e a prática que
um bom tempo as pessoas indígenas fo-
permanece de desrespeito, descriminação
ram vistas como “relativamente incapa-
e marginalização das comunidades indíge-
zes” – e ainda há resquícios dessa ideolo-
nas.
gia sejam legislativos ou na prática – ,
mas foi a partir da chamada redemocrati- Esse sistema tutelar (na prática) que re-
zação brasileira na década de 1980 que a produz na atualidade uma colonização
questão indígena começou a tomar um revisitada, em que as doenças brancas
maior fôlego na política nacional. A Cons- (inclusive o alcoolismo e a depressão)
tituição de 1988 inaugurou no Brasil a ainda dizimam comunidades indígenas
possibilidade de novas relações entre o inteiras, aliadas a processos de acultura-
Estado, a sociedade civil e os povos indí- ção e esvaziamento das próprias referên-
genas, desafiando uma perspectiva de cias culturais, que são substituídas de ma-
tutela rumo a um reconhecimento do di- neira incompleta por elementos da cultura
reito à diferença, das especificidades étni- branca uma das características do etno-
co-culturais, cabendo à União protegê-las. centrismo (vide Glossário e Módulo 07).
A superação da tutela — na legislação — As etnias indígenas deparam-se com cons-
não significou, infelizmente, mudanças tantes violações de sua ancestralidade,
efetivas nas relações entre Estado e co- como roubo de terras e banalização de
munidades indígenas. sua cultura, ou ainda a imposição lingüís-
tica – o português é só mais uma das mui-
Apesar de a lei assegurar que todas as
tas línguas faladas no Brasil, e apesar de
pessoas nascidas no território nacional
ter sido oficializada não dá conta da vasta
são de fato cidadãs brasileiras, a questão
gama de línguas indígenas, que são mais
da cidadania indígena é delicada. A rela-
de 180.
ção que o estado tem com elas é de moni-
toramento, conduta que questiona sua
autonomia e soberania. Ou seja, se os EDUCAÇÃO INDÍGENA E COTAS
povos indígenas conseguiram que seus ÉTNICO-RACIAIS
direitos sejam reconhecidos por leis e
decretos, na prática sequer são considera- Conforme Meliá, “pressupõe-se que os[as]
dos como atores nas disputas sócio- índios[as] não têm educação, porque não
econômicas clivadas pelo viés racial desse têm a nossa educação”5. Esse tipo de
país, de economia capitalista – e portanto preconceito, que não leva em considera-
competitiva e hierarquizadora. São, ao ção os saberes, a cultura e nem mesmo as
contrário, invisibilizados como culturas 5 MELIÁ, 1979, p. 9.
56 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

línguas indígenas, tem gerado, desde os MITOS E NATURALIZAÇÕES 6


primeiros tempos coloniais, a idéia de que Você pode estar se perguntando por que
é necessário “fazer a educação da popula- este guia não adota o termo “raça” para
ção indígena”. os povos indígenas, como o faz com rela-
É com essa perspectiva que, historica- ção aos povos negros. Apesar da idéia de
mente, têm-se implantado os projetos raça como uma realidade genética ou
escolares para as populações indígenas. biológica estar sendo cada vez mais ques-
Porém, uma vez que não dão conta dessa tionada desde a publicação, no começo
diversidade, os sistemas formais de edu- dos anos 2000, dos resultados do projeto
cação escolarizada que adotam o portu- Genoma, os movimentos sociais identitá-
guês como língua oficial e única têm sido rios e as Ciências Humanas, em geral,
questionados e convidados a repensar adotam seu uso como uma construção
suas formas de construção do conheci- cultural e social, que é sim usada para
mento. Hoje, a educação indígena tem diferenciar indivíduos a partir de seu fenó-
sido uma demanda implementada pelas tipo – é por isso que a idéia de “racismo”
próprias comunidades indígenas, com ainda faz sentido, e precisa ser combatida.
apoio de instituições e ONGs, e a adoção Já etnia é o termo usado preferencialmen-
do bilingüismo nas escolas indígenas e te em relação a povos indígenas (no Bra-
cursos de formação docente voltados para sil) porque consegue abarcar melhor as
cada etnia já é uma realidade, ainda que centenas de experiências e formas de
ensaiando passos tímidos. expressão sócio-culturais dos diferentes
povos indígenas, divididos em troncos
lingüísticos e nações de acordo com crité-
No Brasil há 6 mil universitárias/os indígenas 6 rios como traços culturais (danças; alimen-
O caminho do aspirante a universitário começa a tação; vestuário; nomadismo ou sedenta-
ser traçado antes do vestibular. O estudante de rismo; divisão do trabalho e sexual; religi-
Engenharia Florestal, Olavo Batista, sabe o peso osidade etc) e geográficos. Da mesma
da responsabilidade que trouxe ao ser o escolhi- forma acontece no continente africano,
do para representar o povo Wapichana nas salas que em seus 53 países abriga centenas de
da UnB. Antes de disputar uma das vagas ofer- etnias, distribuídas por critérios semelhan-
tadas pelo convênio com a Fundação Nacional tes de pertencimento histórico, cultural e
do Índio (Funai), o roraimense de 40 anos preci- geográfico. São critérios imprescindíveis
sou pedir permissão ao cacique. E assumir a para se pensar as diversidades étnicas (e
promessa de que voltaria para ajudar a comuni-
por conseqüência as raciais) como cons-
dade. “Minha missão é qualificar a luta do meu
trutos sócio-históricos, culturais, e não
povo”, diz. A preocupação em trazer melhorias
para as aldeias é unanimidade. Pesquisa nacional naturalizações e essencialismos.
do Centro Indígena de Estudos e Pesquisas (Ci-
nep) revela que 80% dos alunos retornam após
receberem o diploma. Isso faz com que 90% dos
6 Trechos da reportagem “Confissões na aldeia do
professores que hoje lecionam nas aldeias do pa-
conhecimento”, sobre o cotidiano de estudantes
ís tenham origem indígena. Na década de 1980, indígenas na UnB. Disponível em
eram 10%. <http://www.revistadarcy.unb.br//wp-
con-
tent/uploads/2009/12/darcy03_reportagem.pdf>
Vidas Plurais: Guia Docente 57

Combater a naturalização que estereotipa mente. Até então, o debate pautava-se


certos grupos (por exemplo, nos famosos pela medicalização ou confinamento insti-
e cruéis mitos de que povos não-brancos, tucional, e sequer considerava a pessoa
como indígenas e negros, são preguiçosos com deficiência como sujeita plena e apta
enquanto os asiáticos são trabalhadores; ao exercício digno da cidadania.
ou povos brancos são racionais enquanto Foi na década de 70 do século passado
não-brancos são sentimentais e passivos que os estudos da deficiência se avoluma-
etc) é um exercício fundamental à forma- ram e originaram toda uma produção
ção de um mundo em que as diferenças científica e política em torno de si, reti-
sejam entendidas, respeitadas e acolhidas rando das famílias ou instituições médicas
de forma não hierarquizada. Ou seja, fora a responsabilidade única com o cuidado
da referência de um Um normalizado, das pessoas com deficiência e chamou à
entendido como modelo, contra um Ou- responsabilidade social os demais atores
tro que é desvalorizado e só existe em relacionados a elas – comunidade, estado,
função da comparação, por inferiorização, sociedade. Essa mudança de perspectiva
àquele modelo ou norma. foi possível porque mulheres e homens
Efetivamente, esse é o trabalho que a com deficiências, a partir de seu ingresso
educação para e pela diversidade deve nas universidades, conseguiram se organi-
assumir, sob o risco de continuar como zar não só como movimento social, mas
mais uma das ferramentas de opressão e obter reconhecimento da legitimidade de
subordinação da diferença, seja ela refe- suas demandas pela sociedade. A própria
rente a pessoas de raças consideradas idéia de “cuidado”, que por muito tempo
diferentes, etnias tidas como inferiores ou se articulou a uma de incapacidade da
condições motoras, físicas e cognitivas pessoa com deficiência gerir sua própria
entendidas como incapazes ou não- vida de forma autônoma, foi transformada
funcionais. na de responsabilidade social, uma vez
que constatou-se que a deficiência é uma
dinâmica de opressão sofrida pela pessoa
5.3.- DEFICIÊNCIA que vive alguma condição considerada
UM MOVIMENTO RETOMADO, UM desviante do padrão, da “normalidade”.
CONCEITO EM (RE)CONSTRUÇÃO
As discussões sobre acesso das pessoas O “NORMAL” COMO CATEGORIA DE
com deficiência (física, sensorial ou inte- EXCLUSÃO E ECONOMIA DE
lectual) ao mundo fora das instituições de RELAÇÕES
internação, hospitais e confinamento do-
Ao longo dos séculos, muitas sociedades
méstico – quando não o pleno abandono
criaram seus próprios conceitos de beleza,
–, ou seja, a inserção da pessoa com defi-
funcionalidade, retidão. Diferentes povos
ciência no mundo da cidadania e dos “su-
decidiram que tipo de mentes e corpos
jeitos de direito” se tornou mais politizada
eram importantes para o convívio com as
a partir dos anos 70 do século XX, quan-
demais pessoas de acordo com as funções
do protagonizadas pelas próprias pessoas
com condições motoras, físicas ou cogni- esperadas delas, e para manutenção das
estruturas sociais. Nas sociedades ociden-
tivas que as faziam ser segregadas social-
58 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

tais de economia capitalista, a idéia de soas organizadas em movimentos sociais.


normal tem muito a ver com o que o sis- Nesse sentido, inclusão não é um favor
tema produtivo espera que seja realizado. que se presta a alguém que se enxerga
Isso ajuda a compreender porque, durante com condescendência, não é um tipo de
muito tempo, foi associada uma idéia de caridade. É resultado das dinâmicas de-
improdutividade/inutilidade à vida de pes- mocráticas de ajuste da sociedade às pes-
soas com os mais diversos tipos de defici- soas que nela vivem. Torna-se, então,
ência, por se acreditar que não seriam indispensável que os sistemas que se a-
capazes de cumprir com o esperado em brem para receber quem era dali histori-
termos de produção e realização de traba- camente excluída(o) façam tal abertura a
lho, justificando, assim, sua exclusão. partir de readaptação. É a escola que tem
que se adequar às necessidades de cada
Tal postura, fortemente segregadora, pre-
estudante, especialmente aquelas(es) com
cisa ser analisada com bastante cuidado
deficiências, e não o contrário.
pelos sistemas de educação formal, que
têm sido marcados no Brasil pelo caráter Por isso que a formação docente, na atua-
tecnicista e de formação para o mercado lidade, tem se empenhado tanto em de-
de trabalho. A escola, já citada como o senvolver habilidades que permitam às
privilegiado palco de atuações de prota- professoras e professores ampliar as pos-
gonistas diversas que é, precisa reconhe- sibilidades de contato com o público dis-
cer seu papel de formadora para e pela cente: aulas de Libras (língua brasileira de
diversidade, mas também atentar para sinais), presença de intérpretes nas esco-
que economias, entendidas mais ampla- las, novos materiais audiovisuais, reformas
mente como sistemas de relações, tem físicas que permitam acesso a cadeirantes
servido. A escola que queremos é uma de e sinalização em Braile para cegas(os) etc.
reforçar espaços de segregação e exclu- Quanto às escolas de ensino “especial”,
são, de manter lógicas e padrões de nor- que foram duramente criticadas por ope-
malidade e eficiência, ou é uma em que rarem uma suposta segregação que não
muitos tipos de pessoas cabem, com to- atendia à necessidade de inclusão de es-
das as necessidades especiais educacio- tudantes com deficiência nas escolas de
nais que trazem? E como nós, professoras ensino “regular”, tem sido, agora, uma
e professores, temos nos movimentado demanda de parte do movimento das
entre uma, que é realidade, e outra, que é pessoas com deficiência (especialmente de
processo? surdas e surdos), uma vez que a inclusão
dessxs estudantes em escolas ditas regula-
res que não fizeram adaptações necessá-
INCLUSÃO, ACESSIBILIDADE E rias tem sido feita de maneira negligencia-
OUTROS CAMINHOS da, resultando em óbvio prejuízo para o
O foco da discussão se orienta, então, processo de aprendizagem de tais estu-
para as políticas de acessibilidade e inclu- dantes.
são. É preciso dar conta de perceber a “Para realizar a inclusão, é preciso uma
inclusão, no caso a de pessoas com defi- postura crítica dos educadores e das edu-
ciência nos sistemas de educação formal, cadoras em relação aos saberes escolares
como uma resposta a demandas de pes- e à forma como eles podem ser trabalha-
Vidas Plurais: Guia Docente 59

dos. Isso implica considerar que a escola verdade sobre o mundo. Como muitas
não é uma instituição pronta, acabada, vezes costumamos ligar a nossa noção de
inflexível, mas uma estrutura que deve verdade com o que é correto, com o que
acompanhar o ritmo dos educadores e é bom fazer, criamos sistemas de educa-
dos educandos, em um processo que re- ção, punição e condução ligados com
quer diálogo nos coletivos de trabalho, na nossas imagens do que é verdadeiro e,
relação com a comunidade escolar e com por isso, bom. Isso faz com que, muitas
os outros campos do conhecimento.”7 vezes, as pessoas criem vulnerabilidades e
opressões a outras pessoas que sustentem
crenças diferentes das nossas: e muitas
5.4.- DIVERSIDADE RELIGIOSA vezes o fazem com boas intenções, já que
As pessoas se relacionam com o sentido julgam que estão sendo guiadas pelo que
de suas próprias vidas de muitas manei- é verdadeiro, bom, justo. 8
ras. Um dos mais importantes modos de
lidar com a vida, com o modo como se
enxerga o mundo, com a maneira de en- Você sabia?
carar as experiências consigo mesmas,
Segundo o último senso do IBGE – de 2000 – há
com as outras pessoas e com o mundo é
30 nomes de denominações religiosas diferentes no
a religião. Brasil (sem contar que se agruparam as crenças
indígenas, as/os “espiritualistas”, diversas igrejas
Existem em nosso país muitas práticas
evangélicas e outras religiões)? Isso faz aparecer
religiosas e muitas pessoas envolvidas centenas de denominações quando desagrupadas.8
nelas, ao mesmo tempo em que encon-
tramos pessoas sem nenhum tipo de
crença ou prática religiosa. Esse fato cria
um rico ambiente de olhares sobre o
A busca do respeito pelas diversas cren-
mundo e também cria dificuldades, já que
ças religiosas (e ausência delas) deve ser
nem sempre essas visões são conciliáveis.
um tópico permanente nas nossas atua-
As diversas visões religiosas e as visões
ções enquanto educadoras/es. Devemos
não religiosas de mundo muitas vezes se
lembrar que a escola, enquanto institui-
negam entre si, gerando conflitos entre
ção, é parte de um Estado Laico, sendo
pessoas religiosas e não religiosas e, prin-
responsável, por isso, por cuidar para que
cipalmente, entre pessoas de diferentes
todas as expressões religiosas – mesmo a
visões, crenças e práticas religiosas.
expressão de ausência de crença – sejam
Um dos grandes desafios para a constru- possíveis sem silenciamento ou opressão
ção de um mundo menos opressivo é o das demais. Essa é uma tarefa difícil, mas
convívio entre as idéias e práticas que a proposição do diálogo respeitoso entre
temos em relação à percepção religiosa pessoas de diferentes perspectivas religio-
do mundo. E esse desafio se estrutura sas e não religiosas deve ser estimulada
exatamente porque normalmente as pes- na busca de um espaço de encontro não
soas pensam que suas visões religiosas violento.
(ou não religiosas) se conectam com a

7 DINIZ E RAHME, 2004, pp. 135-136 8 IBGE, 2003.


60 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

dos grandes vetores de vulnerabilidade em


nosso país, gerando violências de diversas
O que é um Estado Laico?
ordens. E se não tivermos bastante cuida-
É o tipo de Estado que não professa nenhuma religião do com esse tipo de vulnerabilidade, ela
oficial. No caso do Brasil, a Constituição garante que tende a aumentar, em vista do processo
todas as pessoas brasileiras têm o direito de expressar
de “diversificação religiosa” que ocorre
suas crenças religiosas (ou ausência delas) sem ferir as
em nosso país, fazendo com que pessoas
demais e determina que é dever do Estado garantir essa
expressão.
mudem de religião e tendam a combater
outras9.
E devemos estar bastante atentas/os a
Pensando na interseccionalidade, pode- este fato, pois um dos grandes mecanis-
mos ver entrecruzamentos entre a intole- mos de atuação de uma série de opres-
rância religiosa – e que aqui entendemos sões é a ocultação de suas estratégias de
como a ideia de que somente alguém ação, de modo que muitas vezes nem
afirme que apenas a sua religião está cor- conseguimos ver a opressão acontecendo
reta e que todas as outras não estão e e nem ver que nos mesmas/os agimos de
que, por isso, devem ser combatidas – e modo opressor.
racismo, misoginia, classismo, pelo me-
nos. Um exemplo evidente é o caso das
religiões de matrizes africanas ou afro- 5.5- CONSTRUÇÃO DO
brasileiras (como a Umbanda e o Can- PRECONCEITO
domblé), que por serem religiões histori-
camente mantidas e desenvolvidas por
mulheres negras e, em sua maioria, po- “Ninguém nasce odiando outra pessoa
bres são religiões que são perseguidas por pela cor de sua pele, ou por sua origem,
razões que articulam a intolerância religio- ou sua religião.
sa e outros tipos de opressões (sexismo, Para odiar, as pessoas precisam aprender,
racismo). e se elas aprendem a odiar, podem ser
É muito importante que tenhamos em ensinadas a amar.” Nelson Mandela
mente que a religiosidade é um marco Nossas crenças, valores, condutas, práti-
fundamental na vida da maioria das pes- cas sociais, e até mesmo nossos padrões
soas e que deve ser respeitada em sua estéticos (nosso “gosto”) são construídas
singularidade e diversidade. Por mais que coletivamente, de maneiras explícitas e
estejamos convictas/os de que estamos veladas, de acordo com os grupos sociais
fazendo o “bem” a outras pessoas ao de que fazemos parte. Podemos entender
atacarmos suas religiões, quando estas isso com mais nitidez ao ler a frase de
divergem das nossas, devemos lembrar Nelson Mandela no começo do tópico: o
que um preceito fundamental de pratica- preconceito, como é também um sistema
mente todas as religiões é a liberdade de de valores ou crenças, é uma construção
escolha e que não podemos decidir por social, coletiva, cultural. Fruto de determi-
alguém o seu caminho de “salvação”. Não
podemos também fingir que este não é
um problema a ser enfrentado, pois é um
9 JACOB et al. 2004.
Vidas Plurais: Guia Docente 61

nado modo de ver o mundo, e da adesão várias outras. O preconceito se alimenta


de pessoas a ele. 10 de estereótipos, ou seja, crenças e mitos
aceitos como verdades culturais sobre
alguns grupos/pessoas: “mulher não sabe
“O preconceito como atitude não é inato. Ele é aprendido dirigir”, “lésbica é a mulher que quer ser
socialmente. Nenhuma criança nasce preconceituosa. Ela homem”, “índio é preguiçoso”, “negro
aprende a sê-lo. Todos nós cumprimos uma longa trajetó- fede”, “europeus são inteligentes”, “japo-
ria de socialização que se inicia na família, vizinhança, es- neses são trabalhadores”. É importante
cola, igreja, círculo de amizades e se prolonga até a inser- perceber que os estereótipos negativos
ção em instituições enquanto profissionais ou atuando em estão geralmente associados a grupos
comunidades e movimentos sociais e políticos. Sendo as- com histórico de exclusão social ou situa-
sim, podemos considerar que os primeiros julgamentos
ção de dominação, enquanto estereótipos
raciais apresentados pelas crianças são frutos do seu con-
positivos se reservam àqueles grupos do-
tato com o mundo adulto.” 10
minantes ou com histórico de benefícios
sociais.
Assim como o falar, o escrever, o dançar,
É por ser percebido como uma dinâmica
o adquirir hábitos alimentares, o precon-
própria das interações sociais que o pre-
ceito também é aprendido. Didaticamen-
conceito, como a discriminação racial (ou
te, algumas pensadoras(es) têm articulado
outras), e o racismo, são sistemas de o-
os termos preconceito, discriminação e
pressão e poder que obedecem a uma
racismo como um conjunto contínuo de
hierarquia prévia. Por isso é que quando
atitudes segregacionistas, ou discriminató-
uma pessoa não-negra age de forma pre-
rias, se entendemos discriminação como
conceituosa contra uma negra ela está
um comportamento de diferenciação de
sendo racista, mas o racismo não é uma
tratamento, que, ao operar de forma raci-
prática que pessoas negras podem execu-
al – por exemplo, na discriminação racial
tar. Justamente porque a domina-
– pode ser usado como ferramenta do
ção/exploração de pessoas não-brancos
preconceito, ou “a efetivação do precon-
(negras e indígenas, especialmente) foi e
ceito”11. O preconceito, por sua vez, é
vem sendo majoritariamente (re)construída
uma expectativa, geralmente prévia e
e executada por pessoas brancas, o ra-
independente de confirmação, de caráter
cismo no Brasil é um sistema de hegemo-
negativo que se desenvolve frente a de-
nia branca, exercida das relações mais
terminado conjunto de fatores, ou ante
íntimas e privadas, domésticas mesmo
pessoas que agem de certas formas, ou
(trabalho doméstico, no Brasil, é herança
são assim e assado, consideradas erradas,
colonial), até as mais divulgadas ou públi-
desviantes, condenáveis.
cas, seja cultural, econômica, social e poli-
Pode ser de natureza étnica, racial, religi- ticamente.
osa, ou ainda com relação à orientação
Mais do que instaurar uma guerra racial, o
afetivo-sexual da/o outra/o, sua complei-
que se pretende, com essa análise, é des-
ção física, sua forma de entender o mun-
cortinar os mecanismos de benefí-
do, de se expressar, de falar, vestir, entre
cio/privilégio que atendem a determina-
dos grupos étnico-raciais em detrimento
10 GOMES, 2005, p. 54
11 de outros, e assim construir coletivamente
GOMES, 2005, p. 55
62 Módulo 5: Vulnerabilidades e Interseccionalidades

alternativas anti-racistas a que TODOS os quem é diretamente atingid@ por ele, mas
grupos raciais e étnicos devem aderir. O de toda a comunidade escolar e da socie-
racismo não é problema exclusivo de dade, uma vez que denun
cia o trato violento da diversidade como de várias instâncias do convívio social,
rotina. inclusive o escolar.
Sabe-se que a educação tem, por sua vez,
uma inegável relação com acesso a bens
5.6- CONSEQÜÊNCIAS DA
materiais, já que a escolarização é uma
DISCRIMINAÇÃO
das formas de ascensão social. Por isso, a
evasão escolar se reflete na precarização
“O conhecimento exige uma presença da situação econômica de muitas pessoas.
curiosa do sujeito em face do mundo. Sem escolaridade e capacitação profissio-
Requer uma ação transformadora sobre a nal, boa parte das travestis, por exemplo,
realidade. Demanda uma busca constante. não têm muitas alternativas de produção
Implica em invenção e em reinvenção.” de renda além da prostituição. O precon-
Paulo Freire ceito no mercado de trabalho, e a ausên-
cia de políticas públicas para acesso a
Em 2009, o Brasil ganhou o triste título
emprego desse segmento, também agra-
de país mais homofóbico do mundo, se-
vam o quadro.
gundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia,
que considerou os registros de assassina- É muito perverso que essa exclusão ocor-
tos de homossexuais e travestis noticiados ra no espaço por excelência dos aprendi-
pela mídia. A pesquisa Revelando Tramas zados. Se a escola não ensina algo além
(DF, 2009) aponta que nas escolas pes- de desrespeitar, excluir, segregar e maltra-
quisadas “os tipos de discriminação mais tar, então está falhando com seu objetivo
relatados foram a homofobia, com 63,1% de promover uma educação que participe
das respostas das/os alunas/os e 56,5% na construção, nos dizeres do mestre Pau-
das/os professoras/es ... e o racismo lo Freire, da “convivência com o diferen-
(55,7% d@s alun@s e 41,2% d@s profes- te”, está executando sua aniquilação pela
sor@s”.1 negação. Reverter essa situação é um
passo imprescindível na construção de
O racismo e a homofobia têm uma rela-
uma sociedade efetiva e amplamente de-
ção antiga com a evasão escolar; as atitu-
mocrática, para todxs, todas e todos que
des hostis em relação a pessoas conside-
ali queiram estar e permanecer.
radas negativamente diferentes são estru-
turais (sub-representação em materiais
didáticos, por exemplo) e também cotidi-
anas (professor que se nega a ler, durante
a chamada, o nome social da aluna tra-
vesti; piadas depreciativas a crianças gor-
das; vistas-grossas à violência contra ho-
mossexuais etc), e expulsam tais pessoas

1 ABRAMOVAY, 2009, p. 188.


Vidas Plurais: Guia Docente 63

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ABRAMOVAY, M. (coord.) Revelando Formato, 2004 (Série Educador em For-
Tramas, descobrindo segredos: violência e mação)
convivência nas escolas. - RITLA, Secre- GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e
taria de Estado de Educação do Distrito conceitos presentes no debate sobre rela-
Federal - SEDF, 2009. ções raciais no Brasil: uma breve discus-
BRASIL. MEC. Secretaria de Educação são. Em “Educação anti-racista: caminhos
Fundamental. Parâmetros Curriculares abertos pela Lei Federal nº 10.639/03” –
Nacionais. Brasília: Secretaria de Educa- Secretaria de Educação Continuada, Alfa-
ção Fundamental, 1998. betização e Diversidade – Brasília: MEC,
2005. Disponível em:
BRASIL/IBGE, População residente, por
http://portal.mec.gov.br/index.php?optio
sexo e situação do domicílio, segundo a
n=com_docman&task=doc_download&gi
religião, Censo Demográfico 2000. Brasí-
d=658&Itemid=
lia: IBGE, 2003. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica JACOB, Cesar Romero et ali. A diversifi-
/populacao/censo2000/populacao/religi cação religiosa. Estudos Avançados, 18
ao_Censo2000.pdf (52), 2004, pp. 8-11.
DINIZ, Margareth, Monica Rahme. Da WERNECK, Jurema – Construindo a e-
educação especial à educação inclusiva. qüidade: estratégia para implementação
Em: Pluralidade cultural e inclusão na de políticas públicas para a superação das
formação de professoras e professores: desigualdades de gênero e raça para as
gênero, sexualidade, raça, educação espe- mulheres negras. Articulação de Mulheres
cial, educação indígena, educação de jo- Negras Brasileiras, RJ: 2007. Disponível
vens e adultos. Margareth Diniz e Renata em
Nunes Vasconcelos (org). Belo Horizonte: http://www.criola.org.br/Equidade.pdf
64 Módulo 6: Pequeno Inventário de Conquistas do Movimento de Mulheres e LGBT

MÓDULO 06: PEQUENO INVENTÁRIO DE CONQUISTAS DO MOVIMENTO DE


MULHERES E LGBT

As políticas públicas muitas vezes caem violência doméstica e a escola pode e


de pára-quedas no contexto escolar e, por deve funcionar como mais um nó numa
isso mesmo, nem sempre o panorama ampla rede de apoio às mulheres e meni-
social, histórico ou cultural no qual tais nas em situação de violência doméstica.
medidas se apresentam está explícito: a
que demandas da sociedade civil tais polí-
ticas respondem? Que problemas essas 6.1- MOVIMENTAÇÃO DE
políticas visam solucionar? Qual o contex- MULHERES NO BRASIL
to de sua proposição? Que benefícios as Costuma-se dizer que não há um femi-
diferentes cidadãs podem encontrar nelas? nismo, mas feminismos. Os feminismos
Sem que o pano de fundo, a motivação são correntes diferentes de pensamento
ou o motor dessas novas resoluções ou político, mas que têm em comum o ímpe-
legislações sejam minimamente explicita- to de questionar as relações de poder,
dos, tais medidas acabam parecendo arbi- exploração e opressão de grupos de pes-
trárias. soas sobre outros, contrapor-se ao regime
O presente módulo pretende apresentar patriarcal e propor uma mudança profun-
algumas recentes conquistas do Movimen- da na sociedade. Segundo bell hooks,
to de Mulheres e do Movimento LGBT feminismo é o movimento para acabar
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e tran- com todo tipo de sexismo e nesse movi-
sexuais) tentando mostrar um pouco do mento todxs são bem-vindxs1.
pano de fundo dessas conquistas, a que O movimento feminista consolidou de-
elas respondem e de que maneira são mandas de forma mais global no final do
fruto de luta e pressão política intensas. século XIX quando, em muitas partes do
Pensando no papel fundamental que a mundo e também no Brasil, as mulheres
escola pode ter no processo de espalhar o começaram a se organizar em campanha
conhecimento a respeito dos direitos de por seus direitos políticos: era o sufragis-
cada cidadão ou cidadã, outro propósito mo, que culminou com a vitória e a ga-
do módulo é apresentar as novas legisla- rantia do direito de votar/ser votada (para
ções e indicar outras fontes de informa- as mulheres brasileiras, em 1932). Nessa
ções para que cada professora ou profes- época o feminismo cresceu no país devido
sor esteja preparada/o para orientar seus à imprensa alternativa: muitos jornais
e/ou suas estudantes sobre seus direitos. mantidos por feministas surgiram. Não
Já foi afirmado em módulos anteriores podemos esquecer que as mulheres não
que a escola é um ambiente onde a vio- se articulavam somente na luta por direi-
lência de gênero acontece, mas sabemos tos políticos: enquanto o sufragismo era
também que é o lugar (por excelência) popular nas camadas mais favorecidas
onde a violência de gênero perpetrada no economicamente na sociedade brasileira,
seio familiar pode ser percebida ou detec- na classe operária, no seio do movimento
tada. Muitas/os professoras/es de fato
notam quando suas alunas são vítimas de 1 hooks, 2000.
Vidas Plurais: Guia Docente 65

anarquista, mulheres ganhavam espaço e feminista. Não havia até então um órgão
colocavam em pauta – juntamente com a governamental de caráter federal que to-
opressão de classe – as opressões especí- casse nessas questões. O CNDM “foi cri-
ficas das mulheres trabalhadoras2. ado junto ao Ministério da Justiça, com
orçamento próprio, tendo sua presidente
Porém, se as primeiras décadas do século
status de ministra”3; durante sua vigência
XX foram marcadas por uma organização
o conselho tratou de temas centrais para
jamais vista de mulheres, o golpe de 1937
a luta feminista no Brasil, porém sua vida
deu uma freada na organização da socie-
foi curta (1985-1990), pois o presidente
dade civil como um todo; a movimenta-
Fernando Collor de Melo, durante seu
ção das mulheres só foi retomar seu fôle-
mandato, cortou o orçamento do conse-
go por volta da década de 1970. Consi-
lho, através da Medida Provisória 150 de
dera-se 1975, decretado pela ONU como
15 de agosto de 1990.
o Ano Internacional da Mulher, o momen-
to que inaugura o novo movimento femi- A maior contribuição do CNDM foi a atu-
nista no Brasil, de caráter mais contesta- ação junto à Assembléia Nacional Consti-
dor e radical, no sentido de atento não tuinte de 1988. De acordo com Cynthia
apenas às manifestações do problema da Mara Miranda, o CNDM:
submissão feminina, mas tentando enten- ...trabalhou com eficiência para que as
der a raiz do problema; radical desde a reivindicações das mulheres fossem in-
raiz. Naquele ano também aconteceu a corporadas à Constituinte. Conduzindo
Conferência da Cidade do México – uma uma campanha nacional com o tema
das muitas conferências internacionais “Constituinte para valer tem que ter pa-
para avaliar a condição e tratar os obstá- lavra de mulher”, o movimento conse-
culos que impedem o avanço dos direitos guiu mobilizar muitas outras organiza-
humanos das mulheres. Tais conferências, ções de mulheres, possibilitando com is-
como a Convenção sobre a Eliminação de so a sistematização de suas propostas
em um único documento intitulado Carta
Todas as Formas de Discriminação contra
das Mulheres à Assembléia Constituinte.
a Mulher, também chamada de CEDAW,
Essa intensa mobilização dos movimen-
a Conferência de Belém do Pará, a Con- tos de mulheres, movimentos feministas,
ferência de Beijing etc estabeleceram al- CNDM e parlamentares da bancada fe-
guns eixos que acabaram por orientar as minina foi exitosa e a Constituição de
políticas públicas para mulheres no Brasil 1988 trouxe várias conquistas para as
e em vários outros países do mundo. brasileiras. Entre elas, destaca-se a ga-
rantia de igualdade a todos os brasileiros
A partir da década de 1980, o movimento
perante a lei, sem qualquer tipo de dis-
feminista no Brasil foi marcado por uma tinção; a ampliação da licença-
crescente institucionalização, com a cria- maternidade; a concessão de aposenta-
ção de conselhos que cuidassem das ques- doria para as trabalhadoras rurais e 13º
tões específicas das mulheres. Em 1985 salário e férias anuais de 30 dias para as
foi criado o Conselho Nacional de Direitos empregadas domésticas4
da Mulher (CNDM) para atender a de-
mandas do movimento de mulheres e
2Para saber mais sobre a história das mulheres no 3 PINTO, Regina Céli, 2003, pg 72
Brasil ver: PINTO, 2003. 4 MIRANDA, 2007, pg 10,
66 Módulo 6: Pequeno Inventário de Conquistas do Movimento de Mulheres e LGBT

Também na década de 1980 um impor- Junto à criação das DEAMs por pressão
tante passo na luta contra a violência mi- do movimento feminista, mobilizou-se um
sógina foi dado: a criação das Delegacias esforço crítico e uma vontade de reformu-
Especializadas de Atendimento à Mulher lar os Códigos Civil e Penal para retirar
(DEAM). Antes disso as mulheres sofriam ou alterar passagens que apresentavam
todo tipo de violações e abusos no âmbito uma linguagem retrógrada e destilavam
privado/particular silenciadas, com quase sexismo. Isso representou um passo em
nenhuma perspectiva de denúncia e puni- direção ao reconhecimento efetivo da
ção para seus perpetradores. Foi a partir cidadania feminina. As alterações incidi-
da década de 1970, com o crescimento ram em temas como:
da movimentação feminista no país ques- a organização da família; as regras de
tionando a distinção entre privado e polí- matrimônio; direitos iguais à administra-
tico, que as questões intra-familiares co- ção de bens e responsabilidades na soci-
meçaram a ser entendidas como parte de edade conjugal; o respeito à integridade
uma política sexual e, por isso mesmo, física e à vontade da mulher nos casos
passíveis de intervenção. Colocar em de violência sexual, precedendo os inte-
questão o velho dito de que “em briga de resses morais de quem quer que seja; a
marido e mulher não se mete a colher” eliminação de dispositivos abertamente
injustos como a virgindade da mulher
era (e continua sendo) extremamente im-
como qualidade essencial de pessoa, a
portante para salvar (e melhorar) vidas de
expressão mulher honesta, e de figuras
muitas mulheres. Em 1986 é criada, a-
criminais como o adultério e a sedução;
tendendo a pressões do movimento femi- a inclusão do assédio sexual como crime
nista, a primeira DEAM do Brasil, na ci- relativo ao uso de poder do agente sobre
dade de São Paulo. Tal implantação teve a vítima por cargo, profissão ou ativida-
o mérito de tornar visível a violência con- de religiosa, entre outros. As alterações
tra mulheres, abrir o debate sobre a ques- conquistadas vieram a reforçar a luta
tão, bem como o mérito óbvio de estimu- contra a discriminação5.
lar a denúncia de casos de violência. A A década de 1990 foi marcada por uma
criação da DEAM era necessária frente à mudança significativa no movimento fe-
grande discriminação que enfrentavam as minista. De articulações e grupos autô-
mulheres em situação de violência quando nomos, manifestação nas ruas e etc o
denunciavam seus agressores no sistema feminismo se volta para uma maior insti-
policial comum; isso se dava não apenas tucionalização com a criação de organiza-
pela noção já citada de que brigas conju- ções não governamentais, ONGs. Forma-
gais não são questões a serem publiciza- das por militantes ou por pesquisadoras
das, mas também pelo processo de cul- acadêmicas, essas ONGs atuam normal-
pabilização da vítima. Fato é que os a- mente junto ao governo e com o apoio de
gressores encontravam no sistema policial organismos internacionais, preenchendo
um aliado. Assim a DEAM surge como algumas lacunas na criação e manutenção
um serviço vital para o combate à violên- de políticas públicas para mulheres – em
cia contra mulheres: um espaço onde (ao uma terceirização de serviços e responsa-
menos teoricamente) as atingidas pela bilidades que deveriam ser do próprio
violência misógina receberiam o acolhi-
mento necessário. 5 CAMARGO e AQUINO, 2003, pg 41.
Vidas Plurais: Guia Docente 67

Estado, com controle social. Algumas Vinte anos após a criação da primeira
ONGs também atuam pressionando o DEAM no país, a Secretaria de Políticas
governo por mudanças legislativas (advo- para Mulheres (SPM) criou uma central de
cacy), e pelo cumprimento das políticas atendimento telefônico que funciona vinte
voltadas às mulheres. e quatro horas por dia recebendo denún-
cias de violência e maus tratos contra
Em 2003 foi criada, atendendo a pressão
mulheres: o Ligue 108. A central, que
política do movimento feminista e suprin-
fornece um serviço gratuito de utilidade
do o vácuo deixado pela extinção do
pública, recebe não apenas denúncias de
CNDM, a Secretaria Especial de Políticas
violência, mas também registra reclama-
para as Mulheres (SPM), vinculada ao
ções sobre o funcionamento da rede de
gabinete da presidência, e cuja Secretária
atendimento as mulheres, além de “orien-
goza do status de Ministra. A criação da
tar as mulheres sobre seus direitos, enca-
SPM acena para um reconhecimento por
minhando-as para os serviços da Rede de
parte do governo federal na urgência na
Atendimento à Mulher em Situação de
formulação de políticas públicas específi-
Violência, quando necessário”. Desde sua
cas para mulheres.
criação, foram efetuados mais de 700 mil
atendimentos a mulheres de todo o país.
Outra conquista importantíssima no senti-
É competência da SPM: do de combater a violência misógina foi a
 assessorar direta e imediatamente o Presidente da promulgação, em 2006, da Lei nº
República na formulação, coordenação e articulação 11.340, também conhecida como Lei
de políticas para as mulheres; Maria da Penha. A nova lei confere a
 elaborar e implementar campanhas educativas e não importância devida ao enfrentamento da
discriminatórias de caráter nacional;
violência doméstica e familiar contra mu-
 elaborar o planejamento de gênero que contribua na
lheres ao entender sua natureza específi-
ação do governo federal e das demais esferas de go-
ca, coibir e tipificá-la como um crime. Ela
verno;
veio preencher uma lacuna na legislação
 promover a igualdade de gênero; articular, promover
e executar programas de cooperação com organis- brasileira, que não tratava diretamente (e
mos nacionais e internacionais, públicos e privados, por isso mesmo adequadamente) da ques-
voltados à implementação de políticas para as mulhe- tão: a violência doméstica era tratada da
res; mesma forma que delitos de trânsito, por
 promover o acompanhamento da implementação de exemplo. Já havia uma pressão interna
legislação de ação afirmativa e definição de ações por melhorias legislativas (entre outras)
públicas que visem ao cumprimento dos acordos, ligadas a essas questões, mas a nova lei
convenções e planos de ação assinados pelo Brasil, também atende às recomendações de
nos aspectos relativos à igualdade entre mulheres e tratados e convenções internacionais assi-
homens e de combate à discriminação, tendo como nados pelo Brasil nas últimas décadas.
estrutura básica o Conselho Nacional dos Direitos da
Com sua promulgação, o Brasil passou a
Mulher, o Gabinete e três Subsecretarias.
ser o 18º país da América Latina e Caribe
Fonte:
a contar com uma lei de combate à vio-
http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia lência doméstica e familiar contra mulhe-
/sepm/ res.
68 Módulo 6: Pequeno Inventário de Conquistas do Movimento de Mulheres e LGBT

Principais avanços da Lei Maria da Penha

 Tipificação da violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral;
 Criação dos Juizados ou Varas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher para julgar os crimes, com atendi-
mento multidisciplinar;
 Criação de novas Defensorias Públicas da Mulher;
 Abertura de inquérito policial composto por depoimentos da vítima (sic), do agressor e de provas documentais e peri-
ciais;
 Prisão em flagrante do agressor;
 Medidas protetivas de urgência (suspensão do porte de armas, afastamento do agressor do lar, suspensão de visitas
aos filhos etc);
 Inclusão das mulheres em programas oficiais de assistência social;
 Atendimento à mulher em situação de violência por serviços articulados em rede, incluindo saúde, segurança, justiça,
assistência social, educação, habitação e cultura.

Além disso, as delegacias ganharam força, pois a Lei restabeleceu o papel da autoridade policial no enfrentamento à vio-
lência contra a mulher. Entre as inovações estão a obrigatoriedade de abertura de inquérito policial composto por depo-
imentos da vítima (sic), do agressor e de provas documentais e periciais e a solicitação das medidas protetivas para as
mulheres junto aos Juizados. O agressor também pode ser preso em flagrante ou ter a prisão preventiva decretada.
Fonte: http://200.130.7.5/spmu/docs/violencia_2007.pdf

É interessante notar que no texto da cita- III - em qualquer relação íntima de afeto,
da lei há o reconhecimento de organiza- na qual o agressor conviva ou tenha con-
ções familiares não heteronormativas, o vivido com a ofendida, independentemen-
que faz com que a Lei Maria da Penha te de coabitação.
Parágrafo único. As relações pessoais e-
seja aplicável também em relações homo-
nunciadas neste artigo independem de ori-
afetivas:
entação sexual”6.
“Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configu-
Segundo a Desembargadora do Tribunal
ra violência doméstica e familiar contra a
mulher qualquer ação ou omissão baseada
de Justiça do Rio Grande do Sul, Dra.
no gênero que lhe cause morte, lesão, so- Maria Berenice Dias, essa afirmação con-
frimento físico, sexual ou psicológico e da- tida no parágrafo único supracitado –
no moral ou patrimonial: caracterização de relação familiar inde-
I - no âmbito da unidade doméstica, com- pendentemente da orientação sexual da
preendida como o espaço de convívio ofendida e de seu agressor – faz com que
permanente de pessoas, com ou sem vín- a lei seja aplicável não apenas a mulheres
culo familiar, inclusive as esporadicamente em relações heterossexuais, mas também
agregadas; a lésbicas, travestis, transexuais e transgê-
II - no âmbito da família, compreendida
neros que mantenham “relação íntima de
como a comunidade formada por indiví-
duos que são ou se consideram aparenta-
dos, unidos por laços naturais, por afini- 6Texto da LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO
dade ou por vontade expressa; DE 2006. Grifos meus.
Vidas Plurais: Guia Docente 69

afeto em ambiente familiar ou de conví- cola etc, trouxemos a questão da homo-


vio”. fobia na dinâmica familiar para ser discu-
tida aqui.

6.2- LUTAS E CONQUISTAS: POR


UM BRASIL SEM HOMOFOBIA.
Conheça alguns dos direitos civis que o Brasil ne-
Diferentemente de uma série de outros ga a homossexuais:
países, as práticas homossexuais não são
01) Não podem casar;
consideradas crime no Brasil desde o Có- 02) Não tem reconhecida a união estável;
digo Penal de 1830. E, se a homossexua- 03) Não podem somar renda para aprovar finan-
lidade por muito tempo foi entendida co- ciamento ou alugar imóveis;
mo doença, no Brasil o Conselho Federal 04) Não inscrevem parceiro (a) como dependente
no plano de saúde ou da previdência
de Medicina decidiu em 1985 desconside- 05) Não participam de programas do Estado vin-
rar o artigo 302.0 da Classificação Inter- culados à família;
nacional de Doenças – que definia a ho- 06) Não podem acompanhar o (a) parceiro (a)
mossexualidade como doença, “homosse- servidor publico transferido;
07) Não podem assumir a guarda do(a) filho(a) do
xualismo” – antes mesmo de a Organiza- cônjuge;
ção Mundial de Saúde (OMS) fazê-lo, em 08) Não adotam filho(a) em conjunto;
1993. É preciso que seja dito que tais 09) Não podem adotar o(a) filho(a) do(a) parcei-
fatos não são suficientes para afirmarmos ro(a);
10) Não têm licença-maternidade para nascimento
que o Brasil é um país que acolhe melhor de filha(o) da parceira;
a diversidade sexual, já que sabemos que 11) Não tem licença-luto, para faltar ao trabalho
nosso país foi apontado como o mais na morte do (a) parceiro (a);
homofóbico do mundo (maiores índices 12) Não podem ser inventariantes do(a) parcei-
ro(a) falecido (a);
de crimes contra LGBT) de acordo com 13) Não têm direito à herança;
uma pesquisa realizada pelo Grupo Gay 14) Não têm garantia a permanência no lar quan-
da Bahia (GGB) no ano passado. do o (a) parceiro (a) morre;
15) Não têm direito à visita íntima na prisão;
Vimos num dos módulos anteriores a 16) Não acompanham a parceira no parto;
conceituação tríplice da violência contra 17) Não podem autorizar cirurgia de risco;
pessoas fora do modelo heteronormativo 18) Não podem ser curadores do (a) parceiro (a)
declarado judicialmente incapaz;
de relacionamento sexual e afetivo. Cabe 19) Não podem declarar parceiro (a) como de-
aqui discutir um pouco mais as manifesta- pendente do Imposto de Renda (IR);
ções da violência homo, lesbo e transfóbi- 20) Não fazem declaração conjunta do IR;
ca.
Uma lista bem mais ampla, 78 direitos negados a
A violência contra LGBT também se dá LGBT, feita pelo Grupo de defesa da cidadania
tanto no âmbito privado/familiar quanto LGBT Leões do Norte, de Pernambuco pode ser
vista em:
no espaço público, a rua. Se alguns e- http://mixbrasil.uol.com.br/pride/seus-
xemplos de violência no espaço público direitos/grupo-pernambucano-lista-direitos-
foram listados no módulo 02, sobre a negados-a-gays-no-brasil.html
violência de gênero: expulsão de bares ou
locais públicos devido a demonstração de
homoafetividade, espancamentos por Vimos na seção anterior como a lei Maria
grupos neonazistas, discriminação na es- da Penha pode ser estendida para alcan-
70 Módulo 6: Pequeno Inventário de Conquistas do Movimento de Mulheres e LGBT

çar mulheres lésbicas, transexuais, traves- violação (espancamentos, por exemplo),


tis e transgênero em situação de violência com o intuito de “ensiná-las” qual é o
doméstica. No caso de mulheres lésbicas, modo “certo” de se relacionar sexualmen-
pareceria redundante: se estamos falando te, e por modo certo entende-se heteros-
de violência contra mulheres, é óbvio que sexualmente.
mulheres lésbicas podem e devem ser Ainda não existe no âmbito federal legis-
incluídas. Mas além de existir, no imaginá- lação que trate especificamente da violên-
rio popular, a noção de que lésbicas não cia homo, lesbo, trans e travestifóbica. A
são ou não querem ser mulheres, a inclu- Constituição Federal de 1988 nem mes-
são de travestis e transexuais no amparo mo apresenta a orientação sexual como
da Lei Maria da Penha, que pode parecer eixo passível de discriminação (como faz
a princípio estranha, faz sentido quando com raça, etnia, religião e sexo, por e-
levamos em conta que a identificação com xemplo), porém as diferentes constitui-
o feminino e a vivência de um lugar social ções estaduais e legislações municipais
de mulher vulnerabiliza como violência de têm tentado contemplar esse tipo de dis-
gênero, tornando a lei aplicável. criminação.
Para além disso, temos que lembrar que Atualmente, a proibição de discrimina-
rapazes homossexuais, ou em processo ção por orientação sexual consta de três
de travestilização/transexualização, Constituições Estaduais (Mato Grosso,
principalmente adolescentes, também são Sergipe e Pará), há legislação específica
vitimados pela violência doméstica: abu- nesse sentido em mais cinco estados (RJ,
sos, castigos, maus tratos, ofensas e ame- SC, MG, SP, RS) e no Distrito Federal e
aças direcionados à “correção” da mais de oitenta municípios brasileiros
homossexualidade, muitas vezes enten- têm algum tipo de lei que contempla a
dida como doença ou mau moral pelos proteção dos direitos humanos de ho-
mossexuais e o combate à discriminação
pais ou responsáveis, são exemplos de
por orientação sexual7
violências sofridas por eles. É esse tipo de
coisa que faz com que muitos meninos O Programa Brasil Sem Homofobia vem
fujam de casa e se lancem no mundo da preencher uma lacuna no enfrentamento
prostituição. às violências contra população LGBT e
insistir que os direitos fundamentais dessa
É comum também entre jovens lésbicas
população sejam respeitados, responden-
(ou em processo de transexualização) esse
do à pressão do Movimento LGBT brasi-
quadro de maus tratos direcionados à
leiro, que tem militado durante as últimas
correção da lesbiandade, porém – por
duas décadas não apenas pela visibilidade,
uma superposição entre eixos de poder
mas também pela defesa de seus direitos
que envolvem não apenas orientação se-
– aliás, é devido a crescente organização e
xual, mas também gênero – no caso
visibilidade do movimento LGBT que a
del@s não é raro que ocorra o chamado
extensão da violação de seus direitos e
“estupro corretivo”. Esse tipo de violação
garantias fundamentais pode ser melhor
brutal ocorre quando homens (quer sejam
entendida, avaliada e enfrentada.
conhecidos, quer não) forçam mulheres
lésbicas a manter relações sexuais, geral-
mente com muita violência física além da 7 Brasil sem Homofobia, p. 16.
Vidas Plurais: Guia Docente 71

sociedade civil organizada quanto do go-


verno federal em reconhecer e expandir
Brasil Sem Homofobia os direitos LGBT – ao ler o texto do Pla-
Em 2004 o governo federal lançou um programa de no podemos sentir a influência de um
combate à violência e discriminação contra LGBT, documento internacional sobre os direitos
chamado Programa Brasil Sem Homofobia, coorde- humanos da população LGBT lançado
nado pela SEDH (Secretaria Especial de Direitos dois anos antes, os Princípios de Yogya-
Humanos). O Programa é constituído de diferentes
karta8. Dentre as diretrizes apresentadas
ações a nível federal voltadas para:
pelo plano destacam-se:
 apoio a projetos de fortalecimento de instituições
 A diferenciação dos conceitos de
públicas e não-governamentais que atuam na pro-
homofobia, lesbofobia e transfobia;
moção da cidadania LGBT e/ou no combate à ho-
mofobia;  Combate a violência doméstica e fa-
miliar contra gays, lésbicas, mulheres
 capacitação em Direitos Humanos para profis- bissexuais, travestis e transexuais;
sionais e representantes do movimento LGBT que  Ampliação dos conceitos de família,
atuam na defesa de direitos humanos; de modo a contemplar os arranjos
 disseminação de informações sobre direitos, de familiares LGBT e assegurar a inclu-
promoção da auto-estima LGBT; incentivo à denún- são do recorte de orientação sexual e
cia de violações dos direitos humanos da população identidade de gênero, observando a
LGTB; questão étnico-racial, nos programas
sociais do Governo Federal
 capacitação e disseminação de informação a ges-  Garantia de acessibilidade do/a cida-
tores das diversas esferas governamentais na temáti- dã/o LGBT a todos os ambientes, in-
ca de direitos humanos da população LGBT; clusive os que prestam serviços públi-
 atuar na troca de experiências de sucesso em ma- cos e privados;
téria de políticas públicas em vários países do mun-  Garantia, a estudantes LGBT, do a-
do, com foco nas relações do Mercosul. cesso e da permanência em todos os
níveis e modalidades de ensino, sem
Saiba mais:
qualquer discriminação por motivos
http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidenci de orientação sexual e identidade de
a/sedh/brasilsem/ gênero;

8
Em 2009, a SEDH lançou o Plano Na- Em novembro de 2006 reuniu-se na cidade de
Yogyakarta na Indonésia um grupo de especialis-
cional de Promoção da Cidadania e Direi- tas em direitos humanos e ratificaram uma carta
tos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexu- de princípios de aplicação da legislação de direitos
ais, Travestis e Transexuais respondendo humanos para as questões de orientação sexual e
identidade de gênero, tal documento ficou conhe-
a pressão e as demandas do Movimento cido como Princípios de Yogyakarta. Tais princí-
LGBT, e nele assumindo a responsabili- pios afirmam a obrigação primária dos Estados
dade de implementar políticas públicas implementarem os direitos humanos e acompanha
cada princípio uma lista de recomendações aos
que tenham como foco a população Estados. São 29 princípios dentre os quais cons-
LGBT, bem como fortalecer o programa tam o direito à vida, direito à igualdade, à não
discriminação, à educação, à segurança pessoal, à
Brasil Sem Homofobia. O Plano é fruto privacidade, à liberdade de opinião ou expressão
da I Conferência Nacional GLBT (2008) e (inclusive expressão de gênero), à constituição de
por isso representa o esforço tanto da família.
72 Módulo 6: Pequeno Inventário de Conquistas do Movimento de Mulheres e LGBT

 Educação e informação da sociedade propõe a caracterização como crime da


para o respeito e a defesa da diversi- discriminação ou preconceito de gênero,
dade de orientação sexual e identida- sexo, orientação sexual e identidade de
de de gênero; gênero. O PLC 122 está ainda em trâmi-
Sobre a ampliação do conceito de família, te, mas encontra forte oposição de seto-
é desde 1995, com o projeto de lei pro- res conservadores no Senado.
posto pela deputada Marta Suplicy sobre
a união civil entre pessoas de mesmo
sexo, que o debate sobre o “casamento Verdades e Mentiras sobre o PLC 122/06
entre pessoas do mesmo sexo” está em O projeto de lei da Câmara 122/2006 tem sido, desde sua
pauta. Porém, é notória a falta de interes- proposição, alvo de pesadas críticas de alguns setores mais
se na aprovação de projetos de lei desse conservadores de nossa sociedade, especialmente aqueles
tipo, que beneficiariam a população ligados às Igrejas. Boa parte dessas críticas se funda numa
tentativa de transpor para o espaço público argumentos
LGBT; sua aprovação enfrenta a oposi- religiosos e, dessa forma, não discutem o mérito do proje-
ção de segmentos reacionários não ape- to. Existem, entretanto, algumas críticas de cunho técni-
nas do governo, mas também da socieda- co/jurídico; à essas últimas tentamos dar resposta:
de civil. O citado projeto, PL 1151/1995, É verdade que o PLC 122/2006 restringe a liberdade de
tramita há mais de quatorze anos na Câ- expressão?
mara dos Deputados sem nunca passar Não. O projeto de lei apenas pune condutas e discursos
por uma votação conclusiva, tendo sido preconceituosos, torna mais abrangente a lei nº 7.716 (que
já previa crimes resultantes de discriminação ou preconcei-
alterado algumas vezes, perdendo, por
to de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional) de
exemplo o caráter familiar presente origi- maneira a incluir sanções à conduta homofóbica. É preciso
nalmente, que foi substituído por uma considerar também que a liberdade de expressão não é
noção mais comercial da relação. No ano absoluta ou ilimitada - ou seja, ela não pode servir de escu-
do para abrigar crimes, difamação, propaganda odiosa,
de 2009 foi proposta uma substituição ao
ataques à honra ou outras condutas ilícitas.
PL 1151/1995: trata-se do PL
É verdade que o PLC 122/2006 ataca a liberdade religio-
4914/2009 que, formulado em parceria sa?
entre a Frente Parlamentar pela Cidadania
Não. O projeto de lei não interfere na liberdade de culto ou
LGBT e a Associação Brasileira de Gays, de pregação religiosa. O que o projeto visa coibir são ma-
Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transe- nifestações notadamente discriminatórias, ofensivas ou de
xuais (ABGLT) – como representante do desprezo. Ser homossexual não é crime. E não é distúrbio
movimento LGBT –, trata de garantir nem doença, segundo a OMS. Portanto, religiões podem
manifestar livremente juízos de valor teológicos (como
direitos civis básicos como direito a he- considerar a homossexualidade "pecado"). Mas não podem
rança e a pensão a casais homoafetivos. propagar inverdades científicas, fortalecendo estigmas con-
Trata-se de garantir a equidade de direi- tra segmentos da população.
tos, em relação a união estável, entre Nenhuma pessoa ou instituição está acima da Constituição
heterossexuais e homossexuais. e do ordenamento legal do Brasil, que veda qualquer tipo
de discriminação. Concessões públicas (como rádios ou
Uma tentativa recente de enfrentamento TV's), manifestações públicas ou outros meios não podem
da violência homo, lesbo, travesti e trans- ser usados para incitar ódio ou divulgar manifestações
fóbica é o Projeto de Lei da Câmara discriminatórias – seja contra mulheres, negros, índios,
pessoas com deficiência ou homossexuais. A liberdade de
(PLC) nº 122/2006 que propõe a crimi- culto não pode servir de escudo para ataques a honra ou a
nalização da homofobia, alterando a Lei dignidade de qualquer pessoa ou grupo social.
nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Ele Fonte: ABGLT (texto levemente modificado)
Vidas Plurais: Guia Docente 73

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74 Módulo 7: Direitos Humanos

MÓDULO 07: DIREITOS HUMANOS

PANORAMA DOS DIREITOS não é um fato óbvio que tais direitos de-
HUMANOS – 60 ANOS DE DDHH vam ser reconhecidos por todos(as).”1
Os Direitos Humanos nasceram formal- É pela falta desse reconhecimento que,
mente em 1948, com a Declaração Uni- passados 60 anos de sua declaração, ain-
versal dos Direitos Humanos sendo ado- da assistimos violações rotineiras aos Di-
tada pela ONU – a Organização das Na- reitos Humanos por todo o planeta: gru-
ções Unidas – em um contexto social, pos de extermínio, trabalho escravo, ex-
político e econômico de muita tensão: sob ploração sexual de crianças e adolescen-
os escombros da Segunda Guerra Mundial tes, tráfico de mulheres e travestis para
e das atrocidades cometidas naquele perí- exploração sexual, assassinatos de ho-
odo principalmente pelo nazismo, mas mossexuais, desrespeito aos direitos das
também pela guerra e seus custos huma- comunidades tradicionais (extrativistas,
nos e ambientais de manutenção. indígenas, quilombolas...)...
É interessante notar, então, que os Direi- Mas por que os Direitos Humanos, que
tos Humanos como política mundial são são universais, não funcionam universal-
pensados e consolidados num contexto de mente para todas e todos?
extensa violação: assassinatos, políticas
eugenistas, ascensão do racismo, grandes
impactos socioambientais no planeta, a. A quem se destinam os DDHH e por
modificações econômicas e culturais ori- que as violações atingem a alguns gru-
undas das demandas de guerra... Ou seja, pos mais que a outros?
quando estavam ameaçados de forma Grupos humanos em situação de maior
massiva, foram demandados pela organi- vulnerabilidade2 social são os grandes
zação popular e universalmente declara- atingidos pelas violações dos Direitos
dos pelos Estados e suas organizações Humanos. Por vivermos em uma socieda-
internacionais. de patriarcal, as mulheres estão entre
Não podemos esquecer que os Direitos eles. Da mesma forma, grupos de minori-
Humanos não são, portanto, uma conces- as étnicas (como indígenas e cigan@s), ou
são dos Estados, mas sim conquistas po- ainda grandes grupos raciais atravessados
pulares, em especial pela luta dos movi- por processos históricos de exclusão e
mentos sociais atuantes à época: pacifis- exploração (como é o caso dos povos
tas, sindicalistas, movimento de mulheres, afro-descendentes nas Américas), tem
de direitos civis de minorias étnicas etc... enfrentado essas violações de forma coti-
“A prática de declarar direitos significa, diana, oriundas do racismo e de outras
em primeiro lugar, que não é um fato formas de preconceito e discriminação.
óbvio para todas as pessoas que elas são
portadoras de direitos e, por outro, que
1
CHAUÍ, 2006, p. 9.
2
No capítulo 05 fizemos uma discussão extensa
sobre situações de vulnerabilidade.
Vidas Plurais: Guia Docente 75

“A fragmentação e a divisão dos povos como única referência correta e legítima


têm sido o resultado de estreitas definições de modelo humano, o que se chama et-
nacionalistas, étnicas ou religiosas separa- nocentrismo.
tistas que demonizaram aos outros, que
são percebidos, então, como subhuma- Ir além do etnocentrismo faz parte do
nos.”3 processo de empatia que possibilita uma
cultura de solidariedade entre diversas
A própria idéia de “pessoa humana” teve
pessoas e grupos, e permite que lutemos
seu conceito aprimorado à luz do Ilumi-
pela garantia dos DDHH a grupos de
nismo, no século XVIII, que tinha um
pessoas muito diferentes do nosso, enten-
ideal de “pessoa humana” equivalente ao
dendo que os Direitos Humanos “se ba-
de um tipo específico de pessoa: homem,
seiam no princípio fundamental de que
europeu branco, de elite, capitalista, letra-
todas as pessoas possuem dignidade, ine-
do, cristão e heterossexual. Hoje, os gru-
rente à sua condição humana e que, in-
pos sociais que mais se organizam em
dependentemente do sexo, raça, cor,
movimentos para ampliar seu acesso aos
língua, nacionalidade, idade, convicções
DDHH têm algum ou alguns traços que
sociais, religiosas ou políticas, todos estão
os diferenciam desse ideal de humano
igualmente habilitados a gozar desses
iluminista, configurando os DDHH como
direitos, todos são titulares de direitos
um palco de disputas e avanços, de en-
humanos”4.
frentamentos sociais e redefinição de pa-
radigmas. Na Conferência Internacional de Direitos
Humanos, ocorrida em Viena no ano de
Essa redefinição de paradigmas pode am-
1993, ficou marcada a integralidade dos
pliar a idéia do que é ser uma pessoa hu-
DDHH: “Todos os direitos humanos são
mana plena de direitos, digna de exercer
universais, indivisíveis, interdependentes e
um papel cidadão em sociedade. Para
inter-relacionados”.5 Isso foi importante
ampliar a acepção de “humanidade” e
porque desde 1966, quando a ONU lan-
“direitos humanos” de forma a contem-
çou dois Pactos de Direitos Humanos,
plar pessoas que estão sendo histórica e
construiu-se uma percepção que dividia os
sistematicamente excluídas, alguns movi-
direitos humanos em duas gerações, a 1ª
mentos são necessários. Um deles é per-
sendo de direitos civis e políticos, e a 2ª,
ceber a diversidade cultural humana como
de direitos sociais, econômicos e culturais.
traço constitutivo de quem somos, ou
Direitos civis e políticos incluiriam o “di-
seja, aceitar que a diversidade existe e
reito à vida, à integridade física e psíquica,
sempre existiu e a partir dela participa-
à intimidade, à liberdade de expressão,
mos desse conjunto, a humanidade, muito
bem como aos direitos eleitorais e de par-
variado e amplo.
ticipação no governo”6.
Outro movimento é entender que cada
uma e cada um faz parte dessa amplitude
cultural, trazendo suas possibilidades e
4
limitações. Isso é fundamental para en- 5
CEPIA, 1999, p. 8.
Declaração de Viena, artigo 1ª inciso 5, dispo-
xergar além de si e de seu próprio grupo nível em
<http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/viena/v
iena.html>
3 6
BUNCH, 2000, p. 243. CARVALHO, 2004, p. 38.
76 Módulo 7: Direitos Humanos

Direitos sociais, econômicos e culturais, De qualquer forma, a sinalização dessa


ou os de 2ª geração, comportariam 3 divisão (que é aceita por muitas(os) mili-
direitos fundamentais: à saúde, à educa- tantes, intelectuais e organizações), pode
ção e ao trabalho em condições dignas e sinalizar o caráter dinâmico dos Direitos
justas, ou seja, são direitos básicos para o Humanos: “O conceito de direitos huma-
exercício da cidadania. Devemos lembrar nos, assim como suas leis, é dinâmico por
que, num país desigual como o Brasil, em natureza. (...) É esse dinamismo que torna
que o acesso qualitativo a educação, saú- os direitos humanos uma ferramenta po-
de e trabalho é privilégio de minorias e tencialmente poderosa para promover a
elites, o que explica uma fobia de alguns justiça social e a dignidade de todos (sic).
setores da sociedade com relação aos Desse modo, os direitos humanos ga-
Direitos Humanos. Para esses setores, nham novo significado e dimensão em
estimular uma cultura de DDHH “estimu- diferentes momentos da história, quando
laria a busca da eliminação de muitos grupos oprimidos exigem o reconheci-
privilégios e das enormes injustiças sociais mento de seus direitos e novas situações
existentes no mundo contemporâneo e de criam a necessidade de novas prote-
modo particularmente agudo no Brasil. É ções”8. p. 8
precisamente da parte daqueles que go-
zam de privilégios decorrentes das desi-
gualdades sociais que encontramos as b. Integralidade, interdependência e indi-
maiores resistências à discussão dessa visibilidade dos DDHH
temática; e essas resistências se manifes- O caráter de integralidade e indivisibilida-
tam principalmente por meio de uma de dos Direitos Humanos é uma ferra-
postura de desmoralização da própria menta conceitual muito importante para
expressão direitos humanos”.7 compreender o exposto anteriormente.
Haveria, ainda, uma terceira geração que Os DDHH são integrais porque formam
incluiria “direitos dos povos” ou “direitos um conjunto, um todo. Isso significa que a
de solidariedade”, abordando o direito ao violação de um deles compromete todos
desenvolvimento, o direito à paz e a um os outros, ou seja, são interdependentes.
meio-ambiente sadio e sustentável; uma Como se apresentam em várias dimen-
quarta geração, ligada ao direito à infor- sões – sociais, culturais, ambientais, políti-
mação, à memória e à história; e uma cos, econômicos, civis, sexuais e reprodu-
quinta geração abordando direitos sexuais tivos, entre outras –, sua efetivação adqui-
e direitos reprodutivos. Contudo, para re caráter de indivisibilidade: cada dimen-
certas(os) juristas e outras(os) intelectuais são é tão importante quanto qualquer
que têm pesquisado sobre Direitos Hu- outra.A compreensão dos direitos sexuais
manos, essa divisão em gerações é ato- e dos direitos reprodutivos (DS/DR) como
mista e fragmentária, comprometendo a direitos humanos é uma conquista mais
própria noção da integralidade dos recente, e ainda ameaçada por uma no-
DDHH ao estabelecer uma certa hierar- ção de que dizem respeito a aspectos
quia entre os mesmos. íntimos ou a grandes tabus culturais e,
portanto, não devem ser tratados como

7 8
CARVALHO, 2004, p. 21. CEPIA, 1999, p. 8.
Vidas Plurais: Guia Docente 77

questão política. O movimento de mulhe- sua livre expressão/identidade de gênero


res e o movimento LGBT (lésbicas, gays, efetiva o direito humano à “liberdade e à
bissexuais, travestis e transexuais) têm segurança pessoal” (Declaração Universal
atuado no sentido de trazer a público que dos Direitos Humanos, artigo 3º), “sem
a violação dos direitos sexuais e direitos distinção de qualquer espécie, seja de
reprodutivos é uma violação aos direitos raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
humanos, e que sem as mulheres os direi- política ou de outra natureza, origem na-
tos não são humanos9. cional ou social, riqueza, nascimento, ou
“A reação contra os direitos humanos das qualquer outra condição” (idem, artigo
mulheres é a ponta de lança dos ataques 2º). Sem lésbicas, gays, bissexuais, traves-
à universidade de todos os direitos huma- tis e transexuais, os direitos não são hu-
nos. De fato, se os direitos de metade da manos. 11
população mundial podem ser subordina-
dos, não existem então os direitos huma-
nos universais.”10
Em outras palavras, o direito humano à “Um dos desafios dos direitos humanos é encontrar as
maneiras de defender a universalidade dos direitos de
saúde vai estar seriamente comprometido todas as pessoas, ao mesmo tempo em que construí-
enquanto as mulheres e meninas vivencia- mos o respeito pela incrível diversidade multicultural
rem ausência de políticas de saúde sexual. que existe entre nós. Poderá haver variações na práti-
Viver sem violência é um direito humano ca dos direitos humanos, mas não se podem sacrificar
os direitos humanos de ninguém em nome da cultura
que dialoga com essa dimensão da saúde ou da diversidade. Nossa compreensão do que são os
como algo mais que o acesso a remédios direitos humanos fundamentais está em constante
e o tratamento de doenças, por exemplo, evolução e responde necessariamente às maneiras
com que as pessoas percebem suas necessidades e
uma vez que a violência doméstica, ou a
sua dignidade humana através do tempo. Isso requer
sexual praticada por desconhecidos, dei- tanto um processo de expansão do conceito, no sen-
xam as mulheres doentes, tristes, ou as tido de fazê-lo mais inclusivo, como um exercício dos
matam. O não-acesso a métodos contra- direitos humanos que não favoreça a dominação de
uns(umas) sobre outras(outros).” 11
ceptivos e as legislações punitivas com
relação à interrupção voluntária da gravi-
dez, por sua vez, configura violação de
seus direitos reprodutivos por restringir
O Programa Brasil Sem Homofobia apon-
sua autonomia reprodutiva.
ta que “a defesa, a garantia e a promoção
Para a população LGBT, viver sem ame- dos direitos humanos incluem o combate
aças contra sua orientação afetivo-sexual, a todas as formas de discriminação e de
violência e que, portanto, o combate à
9
O Comitê Latino-americano e do Caribe – homofobia e a promoção dos direitos
CLADEM, em 1988, lança a campanha “Sem as humanos de homossexuais é um com-
Mulheres, os Direitos não são Humanos”, em
ocasião ao cinqüentenário da Declaração Univer-
promisso do Estado e de toda a sociedade
sal dos Direitos Humanos e no Brasil lança-se a brasileira”12.
campanha “Viver sem Violência é um Direito
Nosso”. Fonte: “Direitos Humanos das mulheres
e seu reconhecimento”, disponível em
<http://jusvi.com/artigos/41932> Acesso em
11
30/01/2010. BUNCH, 2000, 244.
10 12
BUNCH, 2000, p. 243. Brasil sem Homofobia, 2004, p. 11.
78 Módulo 7: Direitos Humanos

c. Uma educação em Direitos Humanos turalismo que está presente em toda sala
pode desconstruir a homofobia e o se- de aula. Das várias religiões e origens às
xismo? várias expressões de sexualidade, passan-
“A educação deve orientar-se para o ple- do pelas muitas matrizes raciais e étnicas,
no desenvolvimento da personalidade a escola é um espaço multicultural, onde
humana e do sentido de sua dignidade, e coexistem sujeitos sociais em diversidade.
deve fortalecer o respeito pelos direitos Muitas vezes, essa diversidade é entendida
humanos e pelas liberdades fundamen- como algo a ser excluído. Cria-se um
tais”. Pacto Internacional de direitos eco- campo de conflitos violentos no lugar de
nômicos, sociais e culturais. Art. 13, § 1. haver um de coexistência e resolução
A educação é compreendida como uma dialógica de conflitos, e a escola torna-se
das dinamizadoras de “processos sociais, outro espaço de violações e exclusões.
políticos e educacionais que propiciem “Nossa maneira de nos situar em relação
uma internalização cada vez mais forte aos „outros‟ tende, „naturalmente‟, isto é,
dos direitos humanos e da dignidade hu- está construída, a partir de uma perspec-
mana, tanto por parte de cada cidadão e tiva etnocêntrica. Incluímos no „nós‟ todas
cidadã, como no imaginário coletivo”13. aquelas pessoas e grupos sociais que têm
Pesquisas locais e nacionais apontam para referenciais semelhantes aos nossos, que
têm hábitos de vida, valores, estilos, vi-
as relações entre evasão e fracasso esco-
sões de mundo que se aproximam dos
lar e a persistência de esterótipos e dis-
nossos e os reforçam. Os „outros‟ são os
criminações, conforme vimos nos módu-
que se confrontam com estas maneiras de
los anteriores. Isso nos leva à pergunta: a situar-nos no mundo por sua classe soci-
função de educar em direitos humanos al, etnia, religião, valores, tradições
tem sido realizada pela escola? etc.”14
É preciso definir o que entendemos por Na escola, nós também estamos em cons-
educar em direitos humanos. O Brasil tante formação. O processo de aprendi-
viveu mais de 20 anos sob um regime zagem é coletivo: implica adesão de to-
ditatorial militar, e os resquícios desse das(os) atrizes/atores presentes no pro-
período são amplamente vistos na educa- cesso. Então, como professoras e profes-
ção formal (escolar): distribuição de cartei- sores, precisamos reconhecer nosso papel
ras em sala de forma hierarquizada, con- de agentes na construção de uma cultura
teúdos voltados para o mercado de traba- de DDHH, mas sem esquecer que tam-
lho (tecnicismo), e até recentemente a bém reproduzimos valores. Se vemos
existência curricular de “Educação Moral e nossos valores como dominantes, esta-
Cívica” são algumas dessas marcas que mos agindo de forma etnocêntrica, e não
conformaram o que Paulo Freire definiu criando um espaço de acolhimento à di-
como uma “educação bancária” que for- versidade e à prática de respeito aos direi-
ma sujeitos autômatos ao invés de autô- tos humanos de todas e todos.
nomos, críticos, solidários.
Professoras e professores podemos dar
A empatia e a solidariedade são funda- “valiosa contribuição para a formação de
mentais para a compreensão do multicul- uma nova sociedade, em que a dignidade

13 14
CANDAU, 2009, p. 67. CANDAU, 2009, p. 73.
Vidas Plurais: Guia Docente 79

humana seja, de fato, o primeiro dos valo-


res e, a partir daí, as pessoas se respeitem
A idéia de “eqüidade” é mais ampla que a de “igual-
reciprocamente e sejam solidárias umas dade”, apesar de menos usada. “Igualdade” tornou-se
com as outras”15. um termo mais usado, mesmo sem dar conta de tra-
zer, em si, a dimensão da percepção da diferença que
Importa, então, pensar: como nossa prá- o termo “eqüidade” traz. Ao longo do Guia, usamos
tica profissional tem favorecido ou impe- os dois termos, mas evocando sempre essa inalienável
dido uma cultura de direitos humanos? dimensão da diferença na constituição da eqüidade
Em que medida temos atuado como agen- entre pessoas e grupos. A afirmação da igualdade não
pode servir como apagamento das diferenças!
tes de sua difusão, e em que medida te-
mos atuado em benefício de nossos pró-
prios interesses e valores que acabam por grupos sociais e culturais. Uma educação
discriminar e segregar? É uma discussão para a negociação cultural, que enfrenta
delicada e subjetiva, que perpassa nossas os conflitos provocados pela assimetria de
visões de mundo mais íntimas, e a neces- poder entre os diferentes grupos sócio-
sidade genuína de que as entendamos culturais nas nossas sociedades e é capaz
como uma entre muitas formas de ver, de favorecer a construção de um projeto
sentir e estar no mundo, mas é uma dis- comum, pelo qual as diferenças sejam
cussão fundamental e inadiável, porque a dialeticamente integradas”16.
escola tem sido um lugar de violências e
Reconhecer alunas e alunos como sujeitos
segregações.
plenos de direitos é um passo importante
E sendo ela um dos espaços sociais em para a Educação em Direitos Humanos.
que aprendemos a ser, urge que se cons- Outro é reconhecer a multiplicidade cultu-
trua como um em que se aprenda a ser a ral existente em sala, na escola, e com-
partir da não-violência, da não-exclusão, preender-se como mais uma personagem
do não-etnocentrismo. A Educação em nesse palco. A seguir, analisar práticas e
Direitos Humanos é um instrumental im- conteúdos, curriculares e extra-
portantíssimo para consolidarmos a re- curriculares, que reforçam a segregação
cente conquista da democracia brasileira. da alteridade ou favorecem a integração
Ela é um processo que pode referendar de diferentes perspectivas. E, enfim, é
uma prática efetiva de troca e construção necessário difundir as experiências bem-
de saberes que funcionem a serviço da sucedidas e fomentar as redes em prol de
justiça e da eqüidade social. Eqüidade uma educação desde e para os Direitos
significa propiciar oportunidades de aces- Humanos.
so equivalentes a sujeitos sociais diferen-
Ao longo desse Guia, você conheceu al-
tes, a partir de suas particularidades.
gumas das formas de violações de Direitos
A Educação em Direitos Humanos faz Humanos mais recorrentes que, reprodu-
parte de um amplo processo de formação zidas no ambiente escolar, têm profundo
escolar e não-escolar, permanente e impacto na vida de estudantes, mas tam-
compromissada com efetivas mudanças bém de professoras e professores e de-
sociais “para o reconhecimento do „ou- mais personagens da comunidade escolar.
tro‟, para o diálogo entre os diferentes Entre elas estão o sexismo; a lesbofobia, a
15 16
CARVALHO, 2004, p. 42 CANDAU, 2009, p. 78.
80 Módulo 7: Direitos Humanos

transfobia, a bifobia e a homofobia; o docente aos papéis da educação, mas a


racismo e a intolerância religiosa; o pre- que precisamos: para construção um
conceito contra pessoas com deficiência. mundo justo, democrático e plural. Essa
educação que tem existido para perpetuar
Esperamos que os conteúdos aqui apre-
segregações, violências, aniquilamentos e
sentados facilitem seu acesso a uma for-
fragmentação não tem auxiliado na elabo-
mação profissional pró-diversidade e em
ração de formas de convivências solidárias
defesa dos Direitos Humanos, e que sir-
entre as pessoas – “a partir” de nossas
vam de ponte para conectar sua atuação
muitas diversidades, e não “apesar” delas.

De acordo com o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, “a educação em direitos humanos é compreendi-
da como um processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos, articulando as se-
guintes dimensões:
a) apreensão de conhecimentos historicamente construídos sobre direitos humanos e a sua relação com os contextos
internacional, nacional e local;
b) afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos direitos humanos em todos os espa-
ços da sociedade;
c) formação de uma consciência cidadã capaz de se fazer presente em níveis cognitivo, social, ético e político;
d) desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva, utilizando linguagens e ma-
teriais didáticos contextualizados;
e) fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem ações e instrumentos em favor da promoção, da prote-
ção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das violações”.
Fonte: PNEDH, 2008, p. 25.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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de Combate à Violência e à Discrimina- ras, v.2, n. 1, p. 65-82, jan. / jun. 2009.
ção contra GLTB e de Promoção da Ci- CARVALHO, José Sérgio (org). Educa-
dadania Homossexual. 2 ed. Brasília: ção, Cidadania e Direitos Humanos. Pe-
Câmara dos Deputados, 2004. trópolis, RJ: Vozes, 2004.

BUNCH, Charlotte, Claudia Hinojosa, CEPIA, Brasil. Direitos Humanos das


Mulheres – Passo a Passo. Guia prático
Niamh Reilly (ed). Los Derechos de las
para o uso do Direito Internacional dos
Mujeres son Derechos Humanos – Cróni- Direitos Humanos e dos Mecanismos para
ca de uma movilización mundial. México: defender os Direitos Humanos das Mulhe-
Edamex, 2000. Os trechos citados foram res. Cepia (Cidadania, Estudo, Pesquisa,
traduzidos para este Guia. Informação e Ação); Woman, Law & De-
velopment International; Human Rights
CANDAU, Vera Maria. Educação em Watch Women‟s Rights Project, 1999.
Direitos Humanos e Diferenças Culturais:
Vidas Plurais: Guia Docente 81

CHAUÍ, Marilena. Direitos Humanos e http://www.aids.gov.br/legislacao/vol1_


Educação – Congresso sobre Direitos 3.htm. Acesso: 23/01/2010.
Humanos. Brasília, 2006. Disponível em PNEDH, BRASIL. Comitê nacional de
<http://www.dhnet.org.br/dados/textos/ Educação em Direitos Humanos. Plano
a_pdf/chaui_dh_educacao.pdf> Nacional de Educação em Direitos Hu-
Pacto Internacional de direitos econômi- manos. Brasília: 2008. Secretaria Especial
cos, sociais e culturais – disponível em dos Direitos Humanos/Presidência da
República.
82 Datas para se lembrar

DATAS PARA SE LEMBRAR

21 de janeiro – Dia Nacional de Combate 21 de setembro – Dia Nacional de luta


à Intolerância Religiosa das Pessoas com Deficiência

29 de janeiro – Dia da Visibilidade das 23 de setembro – Dia Internacional contra


Travestis e Transexuais a Exploração Sexual e o Tráfico de Mu-
lheres e Crianças
24 de fevereiro – Dia da conquista do
voto feminino no Brasil 28 de setembro – Dia pela Descriminali-
zação do aborto na América e Caribe
8 de março – Dia Internacional da Mulher
10 de outubro – Dia Nacional de Luta
21 de março – Dia Internacional pela contra a Violência à Mulher
Eliminação da Discriminação Racial
25 de outubro – Dia Internacional contra
30 de abril – Dia Nacional da Mulher a Exploração da Mulher

17 de maio – Dia Internacional contra a 20 de novembro – Dia Nacional da


Homofobia Consciência Negra

18 de maio – Dia Nacional de Combate 25 de novembro – Dia Internacional da


ao Abuso e à Exploração Sexual de Cri- Não-Violência contra a Mulher
anças e Adolescentes
1º de dezembro – Dia Mundial de Com-
28 de maio – Dia Internacional de Luta bate à Aids
pela Saúde da Mulher e Dia Nacional de
Redução da Morte Materna 03 de dezembro - Dia Internacional da
Pessoa com Deficiência
28 de junho – Dia do Orgulho de Lésbi-
cas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transe- 6 de dezembro – Dia Nacional de Mobili-
xuais zação dos Homens pelo Fim da Violência
contra as Mulheres
25 de julho – Dia Internacional da Mulher
Negra Latino-americana e Caribenha 10 de dezembro – Dia Mundial dos Direi-
tos Humanos
29 de agosto – Dia da Visibilidade Lésbica
no Brasil

Que tal utilizar essas datas para mobilizar debates e atividades culturais em sua escola? Elas
podem propiciar momentos muito interessantes para fazer discussões mais amplas de direi-
tos humanos e enfrentamento às violências e discriminações.
Vidas Plurais: Guia Docente 83

GLOSSÁRIO

Alteridade medida de todas as outras coisas. Assim, boa


parte dos binarismos estariam devidamente
É a condição, qualidade ou natureza do que
sexualizados, ou seriam sexualizáveis. Parte
é outro, distinto: outridade.
do esforço teórico feminista é no sentido de
A alteridade é o caráter do que é entendido desmontar esses binarismos rumo a um en-
como o outro nos pares binários; como a tendimento mais plural do mundo e de nós
oposição parece ser um mecanismo funda- mesmas.
mental do pensamento, e essa oposição
Outro termo muito usado com o sentido de
sempre vem acompanhada de um juízo de
"binarismo" é "dicotomia".
valor, alteridade tem um sentido de desvalo-
rização no sistema hierarquico de pensamen- CEDAW
to.
A CEDAW é a Convenção sobre a Elimina-
Ver: Binarismo.
ção de Todas as Formas de Discriminação
Binarismos contra a Mulher que foi adotada pela Resolu-
ção 34/180 da Assembléia Geral das Na-
Definir um termo quase sempre é diferenciar
ções Unidas em 18 de dezembro de 1979.
entre ele e outro termo. Temos o costume
Ratificada, com reservas, pelo Brasil em 1º
de pensar por oposição. Também costuma-
de fevereiro de 1984. Reservas que foram
mos construir taxonomias onde as divisões
retiradas em 20 de dezembro de 1994.
em duas categorias são recorrentes. Por
exemplo, quando se diz num contexto religi- Conferência de Belém do Pará
oso que somos compostas de corpo e men-
A Convenção de Belém do Pará é o nome
te, esse exemplo congrega as duas afirma-
normalmente dado à Convenção Interameri-
ções: as pessoas se dividem em duas 'partes',
cana para Prevenir, Punir e Erradicar a Vio-
que obviamente se complementam, e essas
lência contra a Mulher, adotada pela Assem-
partes são devidamente opostas. Ou na bio-
bléia Geral da Organização dos Estados A-
logia, quando a classificação mais relevante
mericanos em 6 de junho de 1994 e ratifica-
de um ser vivo é por espécie e gênero.
da pelo Brasil em 27 de novembro de 1995.
A essa idéia de que existe algo e seu oposto
Conferência de Beijing
ou de que todas as coisas se dividam em
duas partes damos o nome de binarismo. A A Declaração de Pequim (Beijing), 1995.
grande questão que envolve os binarismos é Adotada pela 4a Conferência Mundial sobre
que essa construção de oposições entre ter- a Mulher: Ação para Igualdade, Desenvolvi-
mos normalmente vem associada a uma mento e Paz (1995). Manifesta o reconheci-
atribuição diferente de valores a cada um dos mento pela luta das mulheres e o compro-
termos e, por isso mesmo, uma hierarquia misso com a igualdade de direitos entre mu-
entre eles. lheres e homens; ressalta a importância da
plena participação das mulheres em condi-
Você já reparou que temos o hábito de divi-
ção de igualdade com os homens em todas
dir todas as coisas em duas partes opostas
as esferas da sociedade (inclusive nas esferas
e/ou complementares? Algumas teóricas(os)
de poder e de decisão); e recomenda medi-
dizem que é porque a diferenciação dos se-
das para garantir que todas as suas políticas
res humanos em dois grupos sexuais eviden-
e programas de ação reflitam uma perspecti-
tes formaria uma mentalidade de binarização
va de gênero.
do mundo: a diferença sexual humana como
84 Glossário

Crossdressers Dispositivo
Crossdressers é um termo em inglês que Em português, dispositivo pode ser definido
também designa travestismo no sentido de se como: adj. Que contém disposição, ordem,
vestir como uma pessoa do outro gênero. preceito. / S.m. Regra, prescrição, artigo de
Porém o termo se aplica a homens (muitas lei: o dispositivo constitucional. / Aparelho
vezes heterossexuais) que gostam ou sentem ligado ou adaptado a instrumento ou máqui-
prazer em se vestir de mulher em sua intimi- na, que se destina a alguma função adicional
dade. ou especial.
drag queens e kings O uso que propomos aqui é derivado do uso
proposto por Michel Foucault. Em algum
„To drag‟ em inglês é algo como se travestir,
sentido a proposição de Foucault é inspirada
no sentido de se vestir como uma pessoa do
no uso corrente do termo 'dispositif' em
outro gênero. A nossa noção de travesti é
francês porque tem uma dimensão do que é
um pouco diferente, porque a travesti não
artificial ou maquínico de um lado, e a di-
apenas se veste de roupas que identificam-se
mensão da normatividade do outro. O dispo-
ao outro gênero, mas produz de fato mu-
sitivo é uma rede articulada entre certas
danças corporais (que são mais permanen-
normas, regras, práticas, eunciados científi-
tes). Drag Queen é um termo que se refere à
cos, instituições, que atende a uma urgência
homens que se vestem de mulher, normal-
e materializa uma certa realidade. O exemplo
mente para um show ou apresentação. A
que usamos no nosso guia é o da sexualida-
drag tem um caráter mais cômico e debo-
de. O dispositivo da sexualidade é a rede de
chado, é uma caricatura das normas de fe-
saberes (médicos, religiosos, morais, higienis-
minilidade. Já Drag King designa mulheres
tas, biológicos, fisiológicos, anatômicos, etc)
que se vestem de homens.
e poderes que estabelecem uma realidade do
Desconstruir, Desconstrução sexo e da sexualidade. A conexão desses
saberes cria a materialidade de um sexo que
A desconstrução é um esforço político de
passa a ser entendido como natural.
crítica da realidade social. Não se refere a
uma destruição, mas ao trabalho de identifi- Epistemologia, espistemológico
car e visibilizar fraturas na realidade social
Epistemologias num sentido amplo são sis-
que desmascaram a aparente estabilidade do
temas de conhecimento, ou modos de en-
mundo. Trata-se de um trabalho político de
tender e interpretar o mundo.
desmontar e remontar a realidade social
como se fosse uma máquina, para, ao fazer Estado Laico
isso, ver o que ele esconde e encontrar pos-
Estado Laico é o Estado que não prega ne-
sibilidades de transformação.
nhuma religião, não baseia suas leis em prin-
Desnaturalização cípios religiosos e não utiliza concepções
religiosas para beneficiar algumas pessoas
Desnaturalização é o esforço político de
em detrimento de outras. Não se trata de um
perceber os processos sociais e a relações de
Estado que negue a importância da religiosi-
poder que constroem nossa realidade, que
dade na vida das pessoas e desconsidere as
muitas vezes são mascaradas e percebidas
tradições religiosas na formulação de políti-
como "naturais", fazendo-nos acreditar que a
cas públicas, mas que justamente perceba a
realidade não pode ser diferente do que é
diversidade das tradições religiosas e não
hoje.
valorize uma em detrimento de outras, ga-
Ver: naturalização.
rantindo a liberdade de credo e, inclusive, os
direitos das pessoas que não professam ou
Vidas Plurais: Guia Docente 85

praticam nenhuma religião. O Brasil é for- malmente, do etnocentrismo decorre a hie-


malmente um Estado Laico desde a Procla- rarquização de povos, a naturalização de
mação da República em 1889. costumas e a dificuldade de compreender a
diferença.
Estereótipo, estereotipia
Falocentrado, Falocêntrico
É comum criarmos categorias para enqua-
drar e classificar as coisas que existem no Que está centralizado no falo; falo é a ima-
mundo. Porém, às vezes também queremos gem do órgão sexual masculino (pênis) ou a
enquadrar pessoas em categorias: dividimos função simbólica do mesmo. Diz-se também
as pessoas em certos grupos e atribuímos que são falocêntrica as noções de que o
características específicas a esses diferentes masculino seja a norma de humanidade.
grupos, ou pegamos algumas características
Fenótipo
que se destacam em um ou outro membro
desse grupo e atribuímos ao todo. O estereó- Fenótipo se refere às características observá-
tipo é uma generalização de características – veis de um organismo. Diferencia-se do ter-
a partir do estereótipo de um grupo pressu- mo "genótipo", que são as informações he-
pomos como é uma pessoa pertencente a reditárias contidas em seus genes. O fenóti-
esse grupo e como devemos nos relacionar po é da expressão do genes e de fatores
com ela. ambientais, bem como da cultura no meio da
qual uma pessoa está inserida que, a partir
Estigmas, estigmatização
de um sistema simbólico, torna certas carac-
A palavra estigma se refere às marcas e ca- terísticas relevantes e observáveis.
racterísticas negativas que são atribuídas às
Hegemonia, Hegemônico
pessoas e lidas como justificativas que fun-
damentam a sua exclusão. Essas marcas Supremacia, preponderância, domínio de
atuam na desumanização e inferiorização, uma coisa sobre outra. No nosso Guia nos
tornando aquele ou aquela estigmatizada referimos à Masculinidade Hegemônica que-
inabilitada para uma plena aceitação social e rendo entender não apenas as normas de
para uma inserção não-violenta nos espaços gênero que regulam os corpos e desejos
de socialização. Estigmatização se refere ao masculinos, mas também que a matriz de
processo de construção dos estigmas. Ainda gênero estabelece uma hierarquia na qual
que muitas vezes os estigmas apareçam co- esse as pessoas que mais se aproximam a
mo “naturais”, são resultados de processos essa norma de masculinidade exercem pode-
sociais de opressão e se baseiam em precon- res e desfrutam de certos privilégios.
ceitos, visões discriminatórias e atos de vio-
Heteronormativo, heteronormatividade
lência e segregação. (Veja módulo VI).
Heteronormatividade é o nome que se dá
Etnocentrismo aos mecanismos que instauram a heterosse-
Etnocentrismo é uma visão ou avaliação que xualidade como a norma sexual. Quando
toma os conceitos e as concepções do grupo acreditamos e agimos de acordo com a cren-
cultual em que se está inserido como medida ça segundo a qual a heterossexualidade é
de avaliação de um grupo diferente. Trata se mais natural ou correta que outras práticas
uma visão ou avaliação preconceituosa, feita sexuais estamos sendo heterossexistas, ou
a partir de valores, referências e padrões seja, exercendo um preconceito sexual ao
específicos mas que são concebidos como mesmo tempo estamos reforçando a hetero-
universais. A cultura em que estamos inseri- normatividade. Essas duas coisas estão co-
das/os é tomada como centro, como parâ- nectadas.
metro universal, na avaliação de todas. Nor-
86 Glossário

Homoafetividade Identidade de Gênero e Expressão de


O termo "homoafetividade" se refere ao Gênero
conjunto de relações afetivas, eróticas e se- Compreendemos identidade de gênero a
xuais possíveis entre pessoas do mesmo profundamente sentida experiência interna e
sexo. Esse termo busca ampliar o termo individual do gênero de cada pessoa, que
"homossexualidade", tirando a ênfase na pode ou não corresponder ao sexo atribuído
questão da sexualidade que faz com que no nascimento, incluindo o senso pessoal do
muitas vezes as relações entre pessoas do corpo (que pode envolver, por livre escolha,
mesmo sexo sejam pensadas como unica- modificação da aparência ou função corporal
mente sexuais e promíscuas. por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e
outras expressões de gênero, inclusive vesti-
Homoparentalidade
menta, modo de falar e maneirismos. (retira-
O termo "homoparentalidade" foi cunhado do dos Princípios de Yogyakarta)
por volta de 1996 pelo grupo de ativistas
franceses integrantes da Associação dos Pais Ideologia
e Futuros Pais Gays e Lésbicos (APGL). Esse Ideologia é um sistema de valores ou crenças
termo busca dar visibilidade às famílias com- específico a um sistema político e/ou eco-
postas por casais de mães lésbicas e de pais nômico e que serve a um propósito especifi-
gays e ser usado como vocabulário político co dentro desse sistema (fundamenta práticas
na luta pela garantia de direitos e reconhe- importantes, serve a propósitos específicos
cimento estatal dessas famílias. Recentemen- do grupo que a propõe/sustenta etc). A
te passou a significar, para além de casais ideologia dominante confunde-se com o
homossexuais, outras configurações familia- senso comum e instaura um horizonte de
res que fogem dos padrões heteronormati- inevitabilidade, isso porque um mecanismo
vos, como famílias com mães travestis, pais presente na dominância de uma ideologia é a
ou mães transexuais etc. naturalização dessas crenças.
Identidade Lugares sociais
Em termos gerais, identidade é uma relação Os lugares sociais são os espaços de relação
com aquilo que se é. Identidade é aquilo com determinados pelas práticas em sociedade.
o que nos identificamos e que faz com que Estes espaços determinam como devemos
nos reconheçamos como o que somos. A nos comportar com as/os outras/os, com o
identidade é um conjunto de signos, signifi- mundo e conosco mesmas/os. Esse compor-
cados e contextos que permitem que nos tamento está vinculado com o funcionamen-
identifiquemos: Em um exemplo simplifica- to de normas, códigos, crenças e sentidos
do, ter nascido no Brasil, gozar de direitos e sobre nossos modos de relacionamento de-
deveres ligados com esse país, partilhar de terminados pelas práticas sociais.
um conjunto de práticas culturais, linguísticas
Naturalização
(entre outras coisas), faz com que sejamos
brasileiras/os, isto é, a identidade de "brasi- Naturalização se refere ao processo em que
leira/o" é determinada por esses elementos, algo que é produzido culturalmente, através
assim como diversos elementos determinam das práticas sociais e relações de poder,
a identidade de estudante, de docente, de passa a ser visto como natural e como causa
criança, adulta/o, de homem, de mulher, de daquilo que na verdade é consequência.
heterossexual, lesbiana, bissexual, etc.
Ver: desnaturalização.
Vidas Plurais: Guia Docente 87

Nome social autoridade sobre os corpos e vontades das


demais familiares.
É o nome pelo qual a pessoa se identifica ou
é identificada em sua comunidade. Diferente Princípios de Yogyakarta
do nome de registro civil; no caso de traves-
Em novembro de 2006 reuniu-se na cidade
tis e transexuais o nome social é uma forma
de Yogyakarta na Indonésia um grupo de
de afirmação de identidade. especialistas em direitos humanos e ratifica-
Normatização ram uma carta de princípios de aplicação da
legislação de direitos humanos para as ques-
O processo por meio do qual as pessoas são
tões de orientação sexual e identidade de
enquadradas nas normas sociais e passam a
gênero, tal documento ficou conhecido como
ser vistas como normais. Muitas vezes en-
Princípios de Yogyakarta. Tais princípios
tendemos que o "normal" é o natural, o que
afirmam a obrigação primária dos Estados
não precisa de nenhum esforço para ser
implementarem os direitos humanos e a-
como é. Nessa visão, o que se desvia da
companha cada princípio uma lista de reco-
norma aparece como anti-natural. No entan-
mendações aos Estados. São 29 princípios
to, a normatização é resultado de forças
dentre os quais constam o direito à vida,
sociais que buscam adequar às pessoas, suas
direito à igualdade, à não discriminação, à
práticas, seus desejos, seus corpos e suas
educação, à segurança pessoal, à privacida-
relações em modelos que são vistos como
de, à liberdade de opinião ou expressão
corretos pela sociedade.
(inclusive expressão de gênero), à constitui-
Orientação Afetivo-Sexual, Orientação ção de família.
Sexual Redesignação Sexual
Compreendemos orientação sexual como Chama-se redesignação sexual a intervenção
uma referência à capacidade de cada pessoa cirúrgica que algumas transexuais buscam
de ter uma profunda atração emocional, para redesenhar sua genitália de acordo com
afetiva ou sexual por indivíduos de gênero sua identidade de gênero. Vulgarmente co-
diferente, do mesmo gênero ou de mais de nhecida como 'cirurgia de mudança de sexo',
um gênero, assim como ter relações íntimas tal procedimento já foi chamado de 'reade-
e sexuais com essas pessoas. ( retirado dos quação genital' o que é uma terminologia
Princípios de Yogyakarta) complicada porque assume que há uma ina-
Patriarcado e sociedade patriarcal dequação corporal ou um problema com o
corpo da pessoa transexual.
Chamamos de patriarcado a organização
social centrada na diferença de poder e, Ressignificar
portanto, na dominação das mulheres pelos Ressignificar é atribuir um significado novo a
homens. O regime patriarcal é uma expres- uma palavra. Um procedimento bastante
são das ideologias sexistas, nele mulheres e utilizado por grupos militantes, se dá geral-
homens tem papéis específicos e uma divi- mente quando a palavra tem um sentido
são sexual do trabalho está em operação, as pejorativo e um esforço de atribuir novo
mulheres aparecem como as cuidadoras e significado que seja mais interessante politi-
por isso a elas é reservado o espaço do lar, camente é empreendido.
enquanto os homens aparecem como traba-
lhadores ou provedores. Além disso, no Subjetivação, Subjetivar
patriarcado a figura masculina é central para Subjetivar e subjetivação se referem ao pro-
a organização familiar, o patriarca detém cesso sociocultural através do qual nós che-
gamos a ser aquilo que somos.
88 Glossário

Sexista, sexismo
Sexismo é um sistema de pensamento que
institui grupos sexuais e instaura uma hierar-
quia entre eles. Geralmente dizemos que
uma atitude, fala, pensamento ou ação é
sexista quando ela reforça essa diferença de
poderes entre os diferentes grupos sexuais.