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A hora do lobo

Olavo de Carvalho
No lusco-fusco moral, o país vacila e teme

Poucas imagens me impressionaram tanto, nos últimos tempos, quanto a de Silvio Santos, prisioneiro
em sua própria casa, sorrindo diante das câmeras. Todo um condensado de tensões contraditórias
transparecia nessa máscara enigmática: o ríctus de pavor do condenado que antevê o próprio cadáver, a
ânsia de camuflar o sofrimento sob a figura estereotipada do eterno garoto jovial dos programas de
auditório, a revolta impotente de um cidadão e pai que, vítima da desordem e da maldade, tenta
dissipar a má impressão deixada por uma filha afetada de síndrome de Estocolmo, que dois dias antes
glamourizava seus algozes diante do público estupefato.

Essa imagem resume, para mim, a situação existencial de nossa classe dominante acuada, inerme,
desorientada, prendendo entre os dentes uma prótese de sorriso num último e desesperado esforço de
persuadir-se de que está tudo sob controle.

O Brasil, na verdade, já não tem classe dominante nenhuma. Está numa transição entre duas classes
dominantes. A antiga, de empresários e políticos tradicionais, já não domina nada. A nova, de
intelectuais enragés, ainda não se sente segura o bastante para agarrar de vez a máquina cujo domínio
ambicionou e cuja posse, longamente negada, agora se lhe oferece diante dos olhos como uma
promessa e um risco.

Nesse interregno, o país agita-se num vazio atormentado e sombrio, o lusco-fusco das transições
revolucionárias. É a hora do lobo, o momento indeciso entre uma longa noite de espreita e uma aurora
sangrenta. A hora em que o predador esfaimado, ansioso para saltar sobre suas vítimas, hesita ainda
em sair da toca porque não tem a certeza de que vai caçar ou ser caçado.

É natural que a essa nebulosa indefinição do poder correspondam, na esfera moral, psicológica e até
lingüística, o completo embotamento da sensibilidade, a dissolução de todos os critérios, a abolição do
certo e do errado. Também é natural que cada um busque camuflar sua incerteza e perplexidade
mediante afetações de indignação moral inflamada, ersatzretórico da lucidez moral. A moral é função da
inteligência, da escolha racional. Quando essa capacidade desaparece, a ênfase verbal histriônica do
moralismo acusatório é a última tábua de salvação para a alma que naufraga.

O que não é natural de maneira alguma é que os autores e inspiradores da situação, os promotores da
mutação revolucionária, nem de longe reconheçam nela o resultado de suas próprias ações, mas se
finjam e até se creiam observadores isentos, capazes de enunciar diagnósticos e prescrever remédios.

Chego a duvidar de meus olhos quando vejo um desses apóstolos da liberação da delinqüência, algum
velho leitor e discípulo devoto dos teóricos do potencial revolucionário do banditismo, Marcuse e
Hobsbawm, aparecer em programas de TV para analisar, com ares professorais de neutralidade
científica, os efeitos de sua longa militância em favor da desordem e atribuí-los, com o ar mais inocente
do mundo, à maldade do capitalismo. É o lobo convocado a dar seu parecer médico sobre a saúde das
ovelhas.

Entre a hipótese do fingimento cínico e a da dupla sinceridade de uma cisão esquizofrênica, fico com
ambas. O sujeito começa fingindo, depois ele todo se transmuta em fingimento. “Mentir em prol da
verdade”, afinal, é um clássico lema comunista. Não há como praticá-lo sem acabar apagando todas as
distinções entre o sincerismo cândido e a farsa maquiavélica. No fim o cidadão se sente tanto mais
bondoso e confiável quanto menos sabe discernir o bem do mal.
Mas como impedir que, na nebulização geral dos critérios, o encargo do guiamento moral da nação
acabe ficando nas mãos dos homens mais desorientados se justamente eles são os únicos que estão
desorientados o bastante para se sentir orientados?

(Publicado na edição de 8 de Setembro de 2001 da revista Época)

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