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Introdução

Diante da exigência da Universidade Federal do Pará (UFPA), em se elaborar um


Trabalho para a conclusão de Curso, proponho nos escritos que se seguem fazer uma análise
da situação dos trabalhos realizados no interior dos castanhais compreendendo os anos, entre
1940 a 1982, com ênfase na Microrregião de Marabá, procurando, dentro das possibilidades,
abordar questionamentos como o dia-a-dia dos trabalhadores, a vida em família, os momentos
de descontração, a importância desses trabalhadores para o desenvolvimento da região, bem
como o relacionamento social desses, nos centros urbanos, próximos às matas nas quais
azafamavam.

No entanto, para compreendermos alguns aspectos do que está sendo proposto, haja
vista, ser esse um trabalho de cunho regional, é necessário que abordemos questionamentos
inerentes aos princípios teóricos que permeiam esta pesquisa. Diante disso, nos atentaremos
para discussões que norteiam a História Regional. A partir dessa situação, teremos que fazer
uma pequena análise das questões relacionadas às premissas do da teoria proposta, análise
essa que nos leva a uma apreensão dos debates existentes entre muitos geógrafos no que tange
a divisão do espaço geográfico para melhor compreendermos os aspectos sociais, culturais,
religiosos, políticos, enfim, compreendermos todas as relações existentes num espaço
delimitado geograficamente.

De início, antes que façamos uma análise mais aprofundada a respeito da História
Regional, é necessário comentarmos o que os geógrafos estão discutindo sobre o que é
divisão geográfica e de que maneiras são feitos os recortes espaciais para o estudo de uma
determinada região.

No discurso da Geografia Pragmática1 percebemos que são feitas críticas a respeito da


análise tradicional, sendo que essas são atribuídas à insuficiência de dados. Ainda observamos
que, de acordo com essa ótica trata-se, de certo modo, de uma corrente “intelectual” que
defende os interesses da burguesia e de um modo geral argumenta que esse pragmatismo
geográfico foge da realidade, ou seja, discorda do caráter não prático da Geografia
Tradicional. Busca criar uma tecnologia geográfica, mas não se afasta dos compromissos
sociais do pensamento tradicional. O planejamento é um instrumento das classes dominantes,
a serviço da burguesia. As propostas da Geografia Pragmática visam apenas redefinir a
1
ANDRADE, Manuel C. de. Geografia, Ciência da sociedade: uma introdução à análise do pensamento
geográfico. São Paulo: Atlas, 1987, p. 38-49.
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veiculação dos interesses do capital2. Por isso, critica discretamente a Geografia Tradicional,
procurando mudar a forma sem alterar o conteúdo social. O fato de manter a base social do
pensamento Geográfico Tradicional faz dela a via conservadora do movimento de renovação
dessa vertente.

Desta feita, podemos dizer que o discurso da Geografia Pragmática, demonstra em


linhas gerais, um mascaramento em defesa de uma determinada classe social, a burguesa. Isto
quer dizer então que esse pensamento científico mantido pelos estudiosos dessa corrente de
pensamento, serve de camuflagem para a difusão do capitalismo monopolista, deixando de
lado a observação “in loco” das transformações geográfico-sociais, considerando e
desenvolvendo um estudo analítico tecnicista, abstraindo-se das situações reais mais
presentes.

Sendo uma corrente que faz pesadas críticas às outras correntes geográficas, a
Geografia Crítica3, tenta mostrar a realidade, fundamentando-se não somente nos dados
estatísticos, bem como procurando enfatizar o lado social, analisando as transformações
geográficas concomitantes com a sociedade, para assim dessa forma, podermos tentar estudar
determinados fatos geográficos de uma região isoladamente, o que de certo modo,
inviabilizaria o entendimento das transformações ocorridas numa amplitude territorial.
Percebe-se, no entanto, a existência de alguns pensadores da Geografia Crítica que defendem
a tese de que para se entender a região alvo da análise, é necessário que se busque um
entendimento em âmbito de território, assim sendo, a Geografia Crítica procura explicar os
fatos geográficos partindo de uma análise “micro” reportando-a para o “macro”, procurando
relacioná-la com a realidade.

Para tanto o autor Manuel Andrade, em seu comentário final, argumenta que a
Geografia Crítica, na pessoa de Milton Santos, é uma vertente que busca um melhor
entendimento do pensamento geográfico, livre das correntes da burguesia, dando assim um
aspecto mais humanista à Geografia, comprometida com a realidade do povo, em busca de
uma sociedade mais justa.

Observando essas questões, a respeito dos debates existentes entre as correntes


geográficas, percebemos que, mesmo discordando em alguns pontos, as várias correntes
procuram delimitar seu especo de estudo, e é nesse ponto – cito esse, por considerá-lo mais
importante para a fundamentação desta análise - que podemos relacionar a divisão geográfica

2
Idem, p. 52-55.
3
Ibidem, p. 63-70.
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com o estudo de História Regional, pois para que se possa delimitar o espaço para se fazer um
estudo histórico da região, é inegável que temos que considerar sua divisão geográfica.

Se por um lado as correntes geográficas discutem sobre o que evidenciar num estudo
regional, não é muito diferente de alguns autores que pesquisam a respeito do estudo de
História Regional.

Podemos dizer a priori, que a História Regional pode ser estudada sem deixar de lado
um contexto mais amplo. Segundo a autora Jandira Amado, o pesquisador ao se deparar com
o espaço a ser analisado, deve apreender as razões sociais pelas quais aquela região está
passando, observando todas suas nuances para não trilhar em argumentos que darão à sua
pesquisa tons de xenofobismo, nem comparar com uma outra região, tornando assim inócuo o
seu trabalho.

A arraigada idéia, introjetada pelo Estado, de que as classes sociais “menos


favorecidas” são incapazes de efetuarem mudanças históricas e geográficas, é criticada por
alguns estudiosos, que sustentam a tese de que é praticamente impossível se “fazer” História
Regional sem se analisar com profundidade as relações socioeconômicas, políticas e
ideológicas. Contudo, essa análise obviamente deverá constar no seu bojo um aspecto espacial
bem definido, já que o fato histórico não acontece no ar, no vácuo e sim em um espaço
geograficamente delimitado.

A partir da necessidade de melhor se organizar no espaço, o homem dividiu esse


espaço em regiões. Partindo desse pressuposto, alguns estudiosos sentiram também a
necessidade de se fazer um estudo histórico dessas regiões, uma vez que tentar apreender as
transformações regionais partindo de uma visão territorial, traria ao trabalho alto grau de
complexidade, podendo dar à pesquisa interpretações várias, seja de xenofobismo, ufanismo,
etnocentrismo e até mesmo da inocente definição de se falar muito e não explicar nada, dando
ao trabalho aspecto desprezível, com pouco ou nenhum valor acadêmico.

Notamos, no entanto, que à medida que fazemos uma “redução” do território, isto é,
do campo de pesquisa, seguramente podemos tentar elaborar uma análise maus aprofundada
dos assuntos a serem pesquisados.

Ressaltamos então, a importância de “fazermos” História Regional/Local, pois essa de


certo modo, nos permite apreensões mais curtas e aprofundadas – no que se refere às
singularidades regionais – redundando num trabalho, por que não dizer, mais interessante,
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sendo que esse fato, possivelmente, nos levará a um melhor discernimento de alguns aspectos
obscuros, constantes na História Total.

Para exemplificar tal explanação, podemos nos reportar a dois momentos da História
do Brasil. O primeiro, a respeito da crescente importância que teve o Estado de São Paulo, nas
últimas décadas do século XIX até os anos de 1930, por conta da produção e exportação de
café. O segundo momento, ocorrido na região Amazônica, especialmente entre os anos de
1870 a 1914, quando da extração e também exportação da borracha.

Se procurarmos fazer uma abordagem de maneira global desses dois momentos da


economia brasileira, o trabalho fatalmente irá se estender demasiadamente, sem, contudo,
demonstrar com maior profundidade as questões menores que permeiam ambas as atividades,
ou seja, a análise de certa forma ficará confusa, longa e sem objetividade. Assim sendo nesse
trabalho será considerado mais as questões locais na extração da castanha-do-pará, porém não
deixaremos de fazer ralações dentro de um contexto regional.

Para que fosse possível a realização desta pesquisa, utilizei-me de relatos orais, através
de entrevistas com castanheiros, donos de castanhais e outras pessoas envolvidas nos
trabalhos ligados a extração da castanha-do-pará, bem como de trabalhosa acadêmicos ou não,
que tratam do assunto. Vale ressaltar que a pesquisa de campo foi um dos pontos
fundamentais para o bom desenvolvimento dessa Monografia, mesmo porque foi esse o
momento que me trouxe o “verdadeiro” fundamento e a ligação direta entre pesquisa e
pesquisador.

Aqui analisarei o processo da relação existente entre castanheiros e patrões e está


inserida no campo dos estudos da História Social. Ela foi feita através de fontes escritas, que
serviram de base para a fundamentação teórica dessa pesquisa, foram utilizadas também as
fontes orais, pois esta abordagem alavancou novos fatos que até então eram tidos como de
menor importância.

A respeito da utilização das fontes orais, o autor Gwyn Prins4 afirma que muitos
estudiosos são contrários, pois existem desvantagens que não se adequam ao processo de
análise histórica, porque as fontes orais não identificam as hipóteses históricas, são imprecisas
e menos satisfatórias do que aquelas elaboradas com documentos escritos e só são praticadas
por gerações mais recentes (método novo, além de impreciso, gera apreensões), as

4
BURKE, Peter. A Escrita da História. In, Gwyn Prins. História Oral. São Paulo: UNESP, 1992, p. 172.
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dificuldades de conservação da memória, não tem precisão cronológica, e os historiadores


vivem em sociedade alfabetizadas que inconscientemente ou não, privilegiam a escrita.

Percebemos então – mesmo porque estas não são as únicas desvantagens no processo
analítico das fontes orais – que ao partir para o campo desse tipo de análise, devemos
considerar estes e os demais pontos negativos para que não haja uma interpretação de cunho
contraditório, isto porque os críticos das fontes orais argumentam que estas refletem dados
que poderão causar possíveis interpretações mal elaboradas. Prins defende que nem sempre
os resgates históricos com base em fontes escritas revelam o fato como ele realmente
aconteceu, visto que os documentos oficiais geralmente servem para validar fatos relevantes,
desconsiderando totalmente inúmeros aspectos históricos, que geralmente estão relacionados
a pessoas simples ou acontecimentos do cotidiano. Aliás, reside ai a grande vantagem da
história oral, que seria a possibilidade de ouvir as vozes marginalizadas pela história oficial.
Através dela é possível resgatar as vozes do passado, principalmente de pessoas simples que
sempre têm algo a nos dizer e a nos ensinar. O testemunho traz consigo memórias
impregnadas de uma carga de sentimento reveladas numa expressão facial, numa lágrima,
num sorriso, ou mesmo num silêncio, e que acabam por revelar a essência dos fatos 5. Que
documento expressaria tamanho sentimento? Nesse sentido, o resgate histórico através de
personagens que revelam, em suas lembranças, momentos marcantes de sua história pessoal,
transmite também uma grande carga emotiva. Aliás, essa é a grande vantagem dessa
metodologia, pois o que nos resta na memória é sempre o que nos marcou de alguma maneira.
Logo, ao ouvir testemunhos de pessoas, que no palco da vida foram protagonistas ou meros
coadjuvantes de momentos importantes de nossa história, é possível vislumbrar aspectos que
jamais um documento poderia revelar, pois essas lembranças são histórias de vida dos
verdadeiros atores dessa mesma história.

E, em busca de dar uma interpretação histórica coerente aos paradigmas


historiográficos, fizemos uso de fontes escritas e orais, primárias e secundárias, procurando
distanciarmos dos extremos. Mesmo porque as fontes orais não podem ser desprezadas pelo
pesquisador. Este trabalho, para efeito didático e de melhor compreensão do tema proposto,
está disposto em três capítulos.

No primeiro, “Castanha, Castanheiros e Patrões”, proponho analisar a endemia da


árvore, alguns aspectos dos seus frutos e as relações de trabalho existentes entre castanheiros
e patrões no início do processo de extração. A proposta do segundo capítulo, “Castanheiros
5
Idem, p. 174 – 198.
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em Extinção”, discorrerei a respeito de como tão raro encontrarmos pessoas que vivem
exclusivamente da extração da castanha. E ainda, num terceiro capítulo, “O Êxodo dos
Castanheiros”, será abordada a questão da migração dos castanheiros para áreas de
garimpagem, bem como madeireira e a dos patrões que transformam os castanhais em áreas
de pastagens.

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Castanha, Castanheiros e Patrões