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Victor O. Rivelles Unificação ma entidade, o campo eletromagnético.


Instituto de Física Além disso, com a descoberta de que a

S
Universidade de São Paulo e Newton vivesse em um país luz é uma onda eletromagnética, a
São Paulo, SP, Brasil católico, certamente seria óptica também passou a ser descrita
E-mail: rivelles@fma.if.usp.br condenado a morrer na foguei- pelas equações de Maxwell. Eletri-
http://fma.if.usp.br/~rivelles/ ra. No século XVII, corpos celestes, cidade, magnetismo e óptica foram
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como a Lua e os planetas, pareciam unificadas na teoria eletromagnética de
comportar-se de forma bastante dife- Maxwell.
rente dos corpos terrestres. Enquanto
na superfície da Terra os corpos em Partículas elementares
movimento tendem a parar, os astros Hoje em dia, o conceito de unifi-
celestes estão em movimento incessante cação tem-se mostrado extremamente
pelos céus. Afinal, como se acreditava útil quando tentamos compreender a
na época, a Terra era o local dos peca- estrutura última da matéria. Um gran-
dores e das coisas imperfeitas, enquanto de caminho foi percorrido desde quan-
o céu representava o paraíso e a perfei- do Demócrito propôs que tudo é com-
ção. E os astros assim o demonstra- posto de átomos. Sabemos que os
vam. Quando Newton descobriu que átomos são compostos por um núcleo
os corpos celestes e terrestres obedecem e por elétrons. Também sabemos que o
às mesmas leis do movimento, houve núcleo é formado por prótons e nêu-
uma unificação na descrição desses trons. Mais ainda, sabemos que os pró-
fenômenos. Isso gerou uma revolução tons e nêutrons são constituídos por
na ciência então incipiente. E se New- quarks.
ton não vivesse em um país protes- As partículas que não possuem es-
tante, certamente seria condenado à trutura interna e que não são com-
morte por aproximar o céu e a terra. postas por outras mais elementares,
Outra grande são apresentadas na
unificação ocorreu O conceito de unificação Fig. 1. Esses são os
no século XIX. tem-se mostrado verdadeiros átomos
Nossa experiência extremamente útil quando indivisíveis, no sen-
mostra que fenô- tentamos compreender a tido de Demócrito. O
menos elétricos são estrutura última da matéria que é importante
completamente ressaltar é que as
A Natureza, em toda sua exuberância e
complexidade, apresenta uma enorme varie- distintos dos fenômenos magnéticos. partículas dessa tabela estão divididas
dade de fenômenos. Um dos principais objetivos O comportamento de um pedaço de em dois grupos distintos. Um deles é
da física é tentar compreendê-los da forma mais plástico eletricamente carregado é formado exclusivamente por férmions
simples possível. Sempre que fenômenos
bastante diferente do comportamento (partículas de spin ½). São os quarks e
diferentes conseguem ser descritos de uma
maneira unificada, temos um salto qualitativo de uma bússola. Ao escrever suas léptons. Eles formam toda a matéria
em nosso corpo de conhecimento. É isso que famosas equações para o eletromag- que conhecemos, como os elétrons, os
gera os grandes avanços na física. Hoje em dia, netismo, Maxwell mostrou que o neutrinos, os prótons (formados por
o conceito de unificação é essencial para a
campo elétrico e o campo magnético dois quarks u e um quark d), os
compreensão das partículas elementares e do
próprio universo. E, como veremos, a teoria estão intimamente conectados e são nêutrons (formados por um quark u e
de cordas é a teoria unificada por excelência. diferentes manifestações de uma mes- dois quarks d), e assim por diante.

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que causa a transmutação dos elemen- entre os vários elementos só encontra-
tos químicos. ram uma explicação com o advento da
Para descrever o comportamento mecânica quântica. O mesmo deve
dessas partículas e de suas interações, acontecer com a tabela das partículas
foi construída uma teoria ao longo dos elementares conhecidas atualmente. O
anos 60 e 70. Tal teoria é denominada modelo padrão é incapaz de explicar a
modelo padrão das partículas estrutura dessa tabela e uma teoria
elementares. Nela, as forças eletromag- mais geral se faz necessária. Existem
nética e fraca são unificadas na cha- também várias outras evidências de
mada força eletro-fraca. A força forte que é necessário estender o modelo pa-
permanece separada das outras duas. drão.
O modelo padrão é então uma teoria Uma possibilidade bastante natu-
parcialmente unificada. Ele é extrema- ral seria unificar as forças eletro-fraca
mente bem sucedido em explicar o com as forças fortes. Isso foi feito na
comportamento das partículas elemen- década de 80, e as teorias resultantes
Figura 1. Tabela das partículas elemen- tares. Testes do modelo padrão podem são genericamente conhecidas como
tares. ser feitos com uma precisão impres- teorias de grande unificação. Uma pre-
sionante. É uma das teorias mais bem visão comum a elas é que o próton deve
O outro grupo é formado por bó- verificadas da física. Os grandes acele- ser instável, com uma vida média
sons (partículas de spin 1) e são co- radores de partículas elementares bastante elevada. Experiências foram
nhecidos como bósons de calibre. Eles produzem colisões montadas para se
representam as partículas que trans- entre elétrons, pósi- A força forte é a responsável observar o decai-
portam as forças de interação entre os trons (a antipartí- pela estabilidade dos mento do próton,
quarks e léptons. Os elétrons, por cula do elétron), núcleos, já que os prótons porém nada foi de-
exemplo, possuem carga elétrica e so- prótons, antipró- tendem a se repelir devido à tectado. Tais mode-
frem repulsão eletrostática. A partícu- tons, etc, e estudan- força eletromagnética. A los tiveram então
la que transporta a força eletromag- do o resultado desses força fraca é responsável que ser abandona-
nética responsável pela repulsão entre choques de altíssi- pelo decaimento beta do dos. Hoje em dia,
os elétrons é o fóton. Os glúons, por mas energias pode- nêutron, um processo que entretanto, a grande
sua vez, transportam um novo tipo de se investigar em de- causa a transmutação dos motivação para a
força entre os quarks, a força forte. Já talhe o modelo pa- elementos químicos extensão do modelo
os W e Z transportam a força fraca drão. Atualmente, o padrão não está
entre quarks e léptons. maior acelerador em operação é o Teva- vindo dos aceleradores de partículas,
Essas partículas que transportam tron, localizado nos Estados Unidos. mas da cosmologia.
as forças mostram que na Natureza Está em construção, na Suíça, o Large
existem três forças fundamentais. A Hadron Collider (LHC), o grande colisor Cosmologia
força eletromagnética transportada de hádrons, que deverá iniciar suas ope- É impressionante o que sabemos
pelos fótons, a força forte transportada rações no final de 2007. Sua inaugu- sobre o nosso universo. Ele foi criado
pelos glúons e a força fraca trans- ração é aguardada ansiosamente, pois há cerca de 13,7 bilhões de anos em
portada pelos W e Z. Qualquer outra ele certamente fornecerá informações uma grande explosão conhecida como
força pode ser compreendida como valiosas para compreendermos melhor big bang. Temos uma descrição
uma combinação dessas forças funda- o modelo padrão e descobrirmos se ele bastante precisa da evolução do
mentais, à exceção da força gravita- requer modificações. universo fornecida pela teoria cosmo-
cional que é considerada em separado. Apesar do sucesso do modelo pa- lógica baseada na relatividade geral.
Apesar das forças forte e fraca se- drão, existem vários indícios de que ele Apesar do grande sucesso da teoria
rem menos conhecidas do que a força não representa toda a verdade sobre as cosmológica ao explicar a formação dos
eletromagnética, elas são extremamen- partículas elementares. Por exemplo, foi elementos no universo primordial, a
te importantes. A força forte é a res- descoberto recentemente que os neu- formação das galáxias, a radiação cós-
ponsável pela estabilidade dos núcleos. trinos possuem uma massa muito mica de fundo e vários outros fenô-
Como em um núcleo existem prótons pequena. No modelo padrão, entretan- menos cosmológicos, ela não permite
e nêutrons, os prótons sentem uma to, assume-se que os neutrinos não compreender o que aconteceu perto do
força de repulsão eletrostática por te- possuem massa. Quando olhamos instante inicial, quando ocorreu o big
rem a mesma carga elétrica. É neces- detalhadamente a Fig. 1, temos, bang. Isso significa que se existia algo
sária uma força mais forte que a força provavelmente, o mesmo sentimento antes do big bang não temos como
eletromagnética para manter o núcleo que os físicos e químicos do final do obter essa informação. A razão para
coeso. Essa é a força forte. A força fraca, século XIX tinham quando contempla- isso é que logo após o big bang, nos
por sua vez, é responsável pelo decai- vam a tabela periódica dos elementos instantes iniciais do universo, a energia
mento beta do nêutron, um processo químicos. As regularidades e diferenças era tão grande que todas as forças

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devem ser tratadas quanticamente, in-
clusive a força gravitacional.
Ocorre que a gravitação, descrita
pela relatividade geral, não pode ser
quantizada. Isso acontece porque em
algumas teorias as flutuações quân-
ticas tornam-se infinitas e não podem
ser tratadas por nenhum método
matemático convencional e, portanto,
essas flutuações fogem de nosso
controle. Teorias em que isto acontece
são chamadas de teorias não-renorma-
lisáveis, isto é, não são passíveis de ser
quantizadas. Esse é um fato impres-
sionante. Duas das maiores teorias da
física do século XX, a mecânica quân-
tica e a relatividade geral, são incom-
patíveis entre si. Podemos estudar os
efeitos da gravitação a longas distân-
cias, onde os efeitos quânticos são
desprezíveis. Também podemos com- Figura 2. A colisão de dois aglomerados de galáxias revela a matéria escura. A região
preender os processos quânticos des- colorizada em vermelho representa o gás das galáxias emitindo raio-X e a região em
azul representa a matéria escura. Fonte: http://chandra.harvard.edu/photo/2006/
prezando-se a força gravitacional, já
1e0657/.
que ela é muito fraca. Porém, se qui-
sermos estudar os efeitos de uma teoria padrão; temos que incorporar a força galáxias possuem uma massa muito
de gravitação quântica, não há como gravitacional na descrição quântica de maior do que aquela medida através
fazê-lo. Não existe uma teoria de gravi- forma consistente. da luz que elas emitem. Essa massa
tação quântica baseada na relatividade extra é composta por algum tipo de
geral.
Quando se pensava que matéria que não absorve e nem emite
Esse conflito foi bem caracterizado sabíamos tudo... luz. Ela não interage com o campo
a partir da década de 50, e muitos físi- No final do milênio, quando se eletromagnético e só pode ser detectada
cos famosos trabalharam nesse proble- acreditava que conhecíamos todos os através de seus efeitos gravitacionais.
ma. Modifica-se ou a mecânica quân- constituintes básicos da natureza, nos- É chamada, de forma bastante apro-
tica ou a relatividade geral. Não há so quadro mudou radicalmente. Saté- priada, de matéria escura (ver Fig. 2).
saída. Como veremos, a teoria de cordas lites que foram lançados para buscar Os dados cosmológicos indicam que ela
apresenta uma solução para esse informações sobre a radiação cósmica representa 22% do conteúdo do uni-
dilema. Uma saída surpreendente. de fundo mostraram que as partículas verso. Hoje em dia, há vários experi-
Apesar da inexistência de uma teo- da Fig. 1 representam muito pouco mentos tentando detectar a matéria
ria de gravitação quântica antes do daquilo que existe na natureza. Na escura presente na Terra e nas suas vizi-
advento da teoria de cordas, foi cunha- verdade, elas representam apenas 4% nhanças. São detectores extremamen-
do um nome para o quantum do campo do conteúdo do nos- te sensíveis coloca-
gravitacional; a partícula responsável so universo. Podemos estudar os efeitos da dos em minas bas-
por essa interação foi batizada de Já há vários gravitação a longas distân- tante profundas.
gráviton. Diferentemente dos outros anos sabia-se que as cias, onde os efeitos quânticos Até agora, nenhum
bósons de calibre, o gráviton possui galáxias possuíam são desprezíveis. Podemos desses experimentos
spin 2. A busca de uma teoria de gravi- muito mais massa compreender processos teve sucesso. Entre-
tação quântica deve resultar em uma do que aquela que quânticos desprezando-se a tanto, os efeitos da
teoria que seja capaz de descrever os era vista através dos força gravitacional, pois ela é matéria escura con-
grávitons e sua interação com as outras telescópios. Aglome- muito fraca. Porém, se quiser- tinuam sendo en-
partículas elementares. rados de galáxias e mos estudar os efeitos de contrados através
Devido ao fato de não existir uma estrelas na borda das uma teoria de gravitação de medidas astronô-
gravitação quântica com base na rela- galáxias tinham um quântica, não há como fazê- micas cada vez mais
tividade geral, a força gravitacional não comportamento lo. A teoria de cordas apre- precisas.
pode ser incorporada ao modelo estranho. O movi- senta uma solução para esse E os 74% res-
padrão, onde as outras três forças são mento desses obje- dilema tantes? Não são
tratadas quanticamente. Esse é um ou- tos, que é de origem compostos nem de
tro grande motivo que nos leva a crer puramente gravitacional, só pode ser matéria comum e nem de matéria
que é necessário modificar o modelo explicado se assumirmos que as escura. Estão na forma de energia

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escura, um tipo de energia que faz o levados em conta, o valor da constante tos fundamentais como sendo pon-
universo expandir-se de forma acele- cosmológica deveria ser de 1 mP4, isto tuais, como é feito com os quarks ou
rada. Sabemos que o big bang gerou a é, um erro de 120 ordens de grandeza. os fótons no modelo padrão, assu-
expansão do universo, e essa expansão Mais um exemplo de como a gravitação mimos, ao invés disso, que os objetos
é detectada na forma de um desloca- e a mecânica quântica não conseguem básicos são estendidos. Podem ser cor-
mento para o vermelho das linhas andar juntas. Essa discrepância é das, membranas ou superfícies de di-
espectrais das galáxias mais distantes. conhecida como o problema da mensões maiores. Historicamente, a
No final do milênio, descobriu-se que constante cosmológica, talvez a maior teoria foi descoberta como uma teoria
tais galáxias estão em expansão discrepância já encontrada em toda his- de cordas, objetos estendidos unidimen-
acelerada, algo não esperado pela cos- tória da física. sionais, mas, hoje em dia, membranas
mologia padrão. Existem outros problemas, de ca- e outros objetos extensos foram
Para explicar essa aceleração, é ráter mais técnico, que também não incorporados à teoria de cordas. Por ra-
necessária uma forma de energia que encontram solução dentro do modelo zões históricas, o mesmo nome foi
produza uma pressão negativa. Uma padrão. Um deles é o motivo pelo qual mantido.
forma de incorporar esse efeito na rela- existe mais matéria do que antimaté- A quantização da corda permite
tividade geral é acrescentar a famosa ria no universo. Se associar seus modos
constante cosmológica nas equações de nada existia antes Há um consenso geral de de vibração quan-
Einstein. Na época em que Einstein dele, o big bang deve que o modelo padrão deva tizados às partículas
propôs sua teoria da relatividade geral, ter criado uma ser estendido e que a força conhecidas (Fig. 3).
acreditava-se que o universo fosse qua- quantidade igual de gravitacional deva ser Uma corda aberta
se estático. Entretanto, a relatividade matéria e antimaté- incluída no nível quântico vibrando no estado
geral previa que o universo estaria em ria. O que se espe- de energia mais baixa
expansão. Para corrigir isso, Einstein raria é que à medida que o universo pode descrever um fóton ou um dos
inseriu uma constante cosmológica na fosse se expandindo a matéria e a anti- bósons de calibre do modelo padrão.
relatividade geral. Ela contrabalançava matéria iriam se aniquilar mutuamen- Se for uma corda fechada, pode des-
a expansão do universo com uma desa- te, deixando um universo apenas com crever um gráviton (Fig. 4). As cordas
celeração, de forma que a relatividade radiação e sem nenhuma matéria ou podem interagir entre si. Existe um
geral pudesse gerar soluções estáticas. antimatéria. Sabemos que as interações processo de cálculo análogo ao dos
Depois de alguns anos, quando foi fracas violam essa simetria entre diagramas de Feynman das teorias de
descoberto que o universo estava em matéria e antimatéria, e que alguns campo convencionais, onde amplitudes
expansão, Einstein rapidamente processos podem gerar mais matéria de espalhamento podem ser obtidas.
eliminou a constante cosmológica de ou mais antimatéria. Se esse processo Com isso, podemos calcular o espalha-
suas equações e afirmou que ela cons- conhecido das interações fracas for mento de grávitons, algo impossível na
tituía o maior erro de sua vida. Talvez utilizado, podemos prever a quantidade relatividade geral. Obtemos, portanto,
Einstein não estivesse tão errado assim. de matéria que restaria depois da ani- uma teoria quântica da gravitação. Esse
Talvez a energia escura tenha sua quilação. Estima-se que no nosso uni- é o maior sucesso da teoria de cordas,
origem em uma constante cosmológica verso visível deveríamos ter matéria pois não há nenhuma outra teoria que
como indicam resultados recentes de equivalente a apenas uma galáxia! permita realizar esses cálculos. Infeliz-
análise de galáxias distantes. Novamente, outra flagrante contra- mente, não é possível montar uma
Se quisermos usar essa explicação dição com a natureza quando gravita- experiência que confirme essa previsão
para a energia escura, vamos encon- ção e mecânica quântica estão presentes da teoria de cordas. O espalhamento
trar algo surpreendente. Os dados simultaneamente. de grávitons só pode ser detectado em
cosmológicos mostram que a constan- energias extremamente altas e não há
te cosmológica deve ser muito peque- Teoria de cordas nenhum acelerador de partículas em
na. Em unidades de massa de Planck, Há, portanto, um consenso geral funcionamento ou projetado que atinja
de que o modelo padrão deva ser es- essas energias. Nem em um futuro pró-
(onde é a constante de
tendido e que a força gravitacional de- ximo seria possível construí-lo.
Planck, c a velocidade da luz e G a va ser incluída no nível quântico. Portanto, não é possível verificar expe-
constante da gravitação Newtoniana), Várias propostas foram feitas ao lon- rimentalmente a teoria de cordas dessa
seu valor é de aproximadamente 10-120 go dos anos mas a única que sobrevive
mP4. Por outro lado, a constante cos- até hoje é a teoria de cordas.
mológica está associada às flutuações Trata-se da extensão mais conser-
quânticas do vácuo, que usualmente vadora possível. Nela, a relatividade
são desprezadas na teoria quântica de especial e a mecânica quântica não são
campos, o tipo de teoria que descreve o modificadas. Afinal, não há nenhum
modelo padrão. Tais flutuações são indício de que estas duas teorias devam
ignoradas porque os efeitos gravitacio- ser reformuladas. O que há de novo é Figura 3. As partículas elementares corres-
nais são muito pequenos. Se fossem que ao invés de considerarmos os obje- pondem a modos de vibração de cordas.

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a existência de seis dimensões extras, para essas dimensões extras, o que da-
além das quatro que vivenciamos. Note ria a impressão de que em quatro di-
que as quatro dimensões que conhece- mensões a lei da conservação da ener-
mos referem-se às três dimensões es- gia foi violada. O LHC está preparado
paciais mais uma dimensão temporal. para detectar eventos desse tipo e
Estamos tão acostumados em nos- descobrir as dimensões extras.
so dia a dia com as três dimensões es-
paciais que nunca foi questionada a Branas
existência de outras dimensões. Inicial- Como a teoria de cordas também
mente, muita gente zombava da teoria envolve outros objetos extensos, po-
Figura 4. Cordas abertas e cordas fechadas. de cordas devido a esse resultado. Mas demos considerar membranas ou, em
aos poucos se começou a perceber que geral, hipersuperfícies espaciais de p
maneira. de fato o número de dimensões imersas
dimensões em que A teoria de cordas requer a no espaço-tempo de
Supersimetria vivemos deve ser existência de outras simetrias dez dimensões. Tais
Um outro fato surpreendente é que questionado de ma- na Natureza, além daquelas objetos são gene-
a teoria de cordas requer a existência de neira científica. do modelo padrão. Uma ricamente chamados
outras simetrias na Natureza, além Afinal, se queremos delas é a supersimetria, que de p-branas. Uma
daquelas do modelo padrão. Uma delas saber em quantas prevê a existência de um corda seria uma 1-
é a supersimetria, uma simetria entre dimensões vivemos, companheiro supersimétrico brana enquanto
bósons e férmions. Ela prevê a existên- devemos fazer uma para toda partícula uma membrana
cia de um companheiro supersimétrico experiência para elementar seria uma 2-brana,
para toda partícula elementar. Como determiná-las. por exemplo (Fig. 5)
exemplo, o companheiro supersimétrico A lei da gravitação universal de Isso significa que talvez nosso universo
do elétron é chamado de selétron, e Newton prevê que a força de atração quadrimensional possa ser um 3-brana
possui todas as características do elé- entre duas massas diminui com o in- dentro do universo em dez dimensões
tron, exceto seu spin, que agora é zero. verso do quadrado da distância. Porém, da teoria de cordas. Tais modelos cos-
Já o companheiro supersimétrico do isso é válido se existirem três dimensões mológicos são conhecidos como m-
fóton é o fotino, e possui spin ½. Exis- espaciais. Se o número de dimensões odelo de branas. Eles fornecem uma
tem experimentos montados no LHC espaciais for d então a lei da gravitação descrição alternativa para o big bang.
para detectar partículas supersimétricas é modificada e a força comporta-se Podemos imaginar uma situação em
e nos próximos anos teremos dados como 1/r d - 1. Portanto, basta fazer que alguma outra p-brana colide com
experimentais a nos revelar se partículas experiências de balança de torção, como a 3-brana que constitui nosso universo.
supersimétricas existem ou não. a de Cavendish, para determinar o Essa colisão produziria muitos dos
Infelizmente a teoria de cordas não número de dimensões. A lei de New- efeitos que são atribuídos ao big bang.
está suficientemente desenvolvida para ton foi testada na Terra e no sistema
prever que tipo de supersimetria deve solar e mostra-se que d = 3. Entretan-
existir em quatro dimensões. Devido à to, por mais incrível que pareça, ela
existência de outros modelos super- nunca foi testada em distâncias submi-
simétricos, que não correspondem a limétricas. A pequenas distâncias, as
nenhuma teoria de cordas, a descoberta forças eletromagnéticas atrapalham a
da supersimetria não confirmará a detecção da força gravitacional porque
teoria de cordas; apenas fornecerá uma esta última é extremamente fraca. A
evidência bastante forte de que ela en- força de van der Walls, por exemplo,
contra-se no caminho certo. apesar de pequena, é de várias ordens
A supersimetria também deu de grandeza superior à força gravita-
origem ao nome supercordas. Quando cional e mascara os efeitos gravitacio-
se fala em teoria de cordas, na verdade nais. Hoje em dia estão sendo feitos
quer-se dizer teoria de supercordas, já experimentos de balança de torção
que a supersimetria é um ingrediente extremamente sofisticados para isolar
essencial na construção da teoria. Por apenas o efeito gravitacional e descobrir
isso, ambos os nomes são utilizados se existe algum desvio da lei Newto-
para se designar a mesma teoria. niana. Por enquanto, nenhuma
anormalidade foi encontrada.
Dimensões extras Outra maneira de se detectar
Uma outra conseqüência bastante dimensões extras é através da colisão
notável da teoria de cordas é que ela só de partículas elementares. É possível
pode existir em dez dimensões. Ela prevê que no LHC algumas partículas fujam Figura 5. Uma 2-brana com cordas.

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A cosmologia das branas é uma buraco negro, que possui um campo o conceito de dimensionalidade do espa-
área bastante fértil. O fato de a força gravitacional forte nas suas vizinhan- ço-tempo não é absoluto. Ele depende
gravitacional ser tão fraca quando ças, em uma determinada p-brana que das variáveis escolhidas para descrever
comparada às outras forças da natu- está fracamente acoplada. Dessa forma, o sistema. Às vezes é melhor descrevê-
reza talvez tenha sua explicação no fato é possível computar o número de lo como uma teoria em dez dimensões
de vivermos em estados da p-brana e e outras vezes a melhor descrição é em
uma 3-brana. Nes- Cinco(!) teorias de cordas por conseguinte a onze dimensões.
se caso, as outras descobertas nos anos 80 entropia do buraco A teoria-M ainda não está comple-
forças fundamen- inicialmente desencorajaram negro. O resultado tamente formulada. Sabemos apenas
tais, a eletromagné- os físicos. Mas aos poucos desse cálculo é que os limites em que ela reduz-se à teoria
tica, a fraca e a forte, foram sendo descobertas ele confirma que a de cordas em 10 dimensões ou à teoria
estariam confinadas relações entre essas teorias, entropia é propor- em 11 dimensões. As branas possuem
à 3-brana e não e nos anos 90 sabia-se que cional à área. Sem um papel essencial tanto na teoria-M
poderiam afetar todas elas eram conectadas dúvida um grande quanto nas dualidades. A construção
qualquer coisa fora entre si por dualidades sucesso para a teoria dessa teoria é um dos grandes desafios
de nossa brana. Por de cordas. atuais.
outro lado, a teoria de cordas permite
que a gravitação saia da nossa brana e Dualidade Correspondência entre
afete o que está fora dela. Isso implicaria Na década de 80 foram descober- gravitação e teorias de calibre
que a força gravitacional sentida na tas cinco teorias de cordas diferentes. Uma descoberta extremamente
brana seria muita mais fraca que as Isso foi algo desencorajador, pois se a interessante ocorreu na década de 90.
outras forças. É uma possibilidade teoria de cordas é a teoria unificada que O conceito de dualidade entre cordas
muito interessante. descreve o universo, ela deveria ser levou à conclusão que existe uma rela-
única. Aos poucos, foram sendo ção muito íntima entre teorias de gra-
A entropia de buracos negros descobertas relações entre essas cinco vitação e teorias de calibre, as teorias
Um outro sucesso da teoria de cor- teorias. Em meados da década de 90, o que descrevem os bósons de calibre.
das tem a ver com a entropia de buracos quadro estava mais claro: todas as Essas duas teorias descrevem forças
negros. Já há vários anos, sabe-se que cinco teorias estavam conectadas en- completamente diferentes, como a for-
os buracos negros podem ser tratados tre si através de dualidades (Fig. 6). ça gravitacional e a força eletromag-
do ponto de vista termodinâmico. Isso A dualidade é um conceito deriva- nética, por exemplo. Em geral, essas
significa que eles possuem atributos co- do do fato que um dado sistema físico teorias são estudadas no regime per-
mo temperatura e entropia. Pode-se poder ser descrito de diversas maneiras. turbativo, isto é, quando é possível
mostrar que a entropia de um buraco Sob certas condições, podemos usar um encontrar um parâmetro pequeno e
negro é proporcional à sua área. Isto é determinado conjunto de variáveis para aplicar a teoria de perturbações fa-
surpreendente, pois sendo a entropia descrevê-lo. Noutro regime, outro con- zendo-se expansões nesse parâmetro.
uma grandeza extensiva, deveria ser junto de variáveis pode ser mais Quando o parâmetro é grande, diz-se
proporcional ao volume do buraco conveniente. Um exemplo típico é a que se está no regime não-perturba-
negro, e não à sua área. Tal resultado é mecânica quântica. Em determinadas tivo. Em tal regime, obter informações
tão surpreendente que levou físicos condições, um elétron pode ser descrito sobre a teoria é muito difícil, já que não
famosos a proporem um novo princí- como uma partícula e noutras é melhor é possível utilizar técnicas perturbati-
pio que justificasse esse resultado. É o descrevê-lo como vas.
chamado princípio holográfico. Ele uma onda. Essa é a O modelo de branas fornece O que foi des-
afirma que em um sistema gravitacio- famosa dualidade uma descrição alternativa coberto é que existe
nal como um buraco negro, toda infor- onda-partícula da para o big bang: uma p- uma dualidade entre
mação contida em seu interior estaria mecânica quântica. brana colide com uma 3- teorias de gravitação
codificada em sua superfície, de ma- O que se desco- brana que constitui nosso e teorias de calibre,
neira análoga a um holograma que briu na década de 90 universo. Essa colisão mas a dualidade é tal
contém em sua superfície a informa- é que existe apenas produziria muitos dos que relaciona uma
ção tridimensional do objeto que foi uma única teoria, efeitos que são atribuídos teoria no regime
holografado. batizada de teoria- ao big bang perturbativo com a
A única maneira de verificar se a M, que pode ser outra no regime
entropia é realmente proporcional à descrita pelas cinco teorias de cordas não-perturbativo. Com isso, podemos
área é tratar o buraco negro quantica- em dez dimensões então conhecidas, ou estudar o regime não-perturbativo das
mente e calcular sua entropia contan- por uma teoria em 11 dimensões. Todas teorias de calibre, um sonho dos que
do-se o número de estados disponíveis essas teorias são duais entre si e trabalham nessa área, utilizando uma
no buraco negro. Para isso, é necessário descrevem o mesmo objeto, a teoria- teoria gravitacional perturbativa.
uma teoria quântica da gravitação. A M. Como foi possível incorporar uma A relação mais famosa é a corres-
teoria de cordas permite mapear um teoria em 11 dimensões, isso indica que pondência AdS/CFT que trata de uma

Física na Escola, v. 8, n. 1, 2007 Teoria de cordas e unificação 15


teoria gravitacional em um espaço de Corda Heterótica E8 X E8 e SO(32): duas
Glossário
anti-de Sitter (AdS), que é um espaço das cinco teorias de cordas existentes em 10
Bósons de calibre: as partículas bosônicas, dimensões. É formada por uma mistura pe-
com curvatura negativa, e um teoria
com spin 1, que transportam as forças fun- culiar de cordas fechadas e abertas com grupo
de campos conforme (em inglês, con- damentais da natureza. O fóton é o responsá- de calibre E8 X E8 e SO(32).
formal field theory, CFT), uma teoria vel pelas forças eletromagnéticas, os W e Z Corda Tipo IIA e IIB: duas das cinco teorias
de campos que possui simetria por pelas forças fracas, e os glúons pelas forças de cordas existentes em 10 dimensões. É for-
fortes. Os bósons de calibre são descritos pelas mada por cordas fechadas que apresentam si-
transformações de escala. Essa foi uma
teorias de calibre. metria esquerda-direita (tipo A) e não apre-
das descobertas mais espetaculares da Teorias de calibre: formam uma classe da sentam tal simetria (tipo B).
teoria de cordas e que atraiu muita teoria quântica de campos que é fundamen- p-brana ou D-p-brana: objeto estendido com
atenção. Essa correspondência também tada na idéia de transformações de simetria p dimensões espaciais onde as extremidades das
que podem ser aplicadas localmente, isto é, em cordas abertas estão fixas. Nesta situação a
é uma realização do princípio holo-
cada ponto do espaço-tempo. As trans- corda obedece condições de contorno de
gráfico mencionado anteriormente. A formações de simetria formam o grupo de cali- Dirichlet, daí o nome D-branas.
teoria de campos vive na borda do bre. O modelo padrão das partículas elemen- Supersimetria: simetria de uma teoria
espaço descrito pela teoria gravitacional. tares é uma teoria deste tipo. quântica de campos que requer que a cada
Grupo de calibre: é o grupo formado pelas partícula bosônica exista uma companheira
Quando a teoria de calibre vive em um
transformações de simetria de uma teoria de supersimétrica fermiônica e vice-versa.
espaço de d dimensões, a teoria calibre. O grupo de calibre do modelo padrão Supergravitação: teoria de gravitação que é
gravitacional correspondente é definida das partículas elementares é SU(3) X SU(2) X supersimétrica. O companheiro supersimétrico
em um espaço de d + 1 dimensões. Por- U(1). do gráviton é o gravitino que possui spin 3/2.
Corda Tipo 1: uma das cinco teorias de cor- Espaço de anti-De Sitter ou AdS: é um espaço
tanto, através da correspondência,
das existentes em 10 dimensões. É formada que apresenta curvatura negativa. Pode ser
podemos estudar o interior de um es- por cordas abertas com grupo de calibre obtido a partir das equações de Einstein com
paço em d + 1 dimensões analisando a SO(32). uma constante cosmológica negativa.
teoria de campos em sua borda de d
dimensões. simplificados construídos em poucas mamente eficaz nessa tarefa e tem sido
Usualmente a correspondência é dimensões. testado exaustivamente. Infelizmente,
formulada para teorias altamente Recentemente, descobriu-se que a ele não incorpora a força gravitacional
supersimétricas. Recentemente, tem-se teoria de cordas na correspondência e começa a apresentar sinais de que deve
conseguido extrapolar a correspondên- AdS/CFT é um modelo desse tipo. Isso ser estendido. A única forma de incor-
cia para teorias menos supersimétricas. significa que a teoria de campos cor- porar a força gravitacional em uma teo-
O objetivo, é claro, é descrever o modelo respondente também deve ser integrá- ria quântica leva, necessariamente, à
padrão, que não possui nenhuma vel. Isto é surpreendente, pois nunca teoria de cordas. Ela faz diversas previ-
supersimetria. Será um grande feito se imaginou que teorias de calibre em sões, como a existência de dimensões ex-
quando conseguirmos descrever o mo- dimensões maiores que duas pudessem tras, supersimetria, dualidades, etc. Até
delo padrão através de uma teoria apresentar esse tipo de propriedade. o momento, porém, não há nenhuma
gravitacional. Nestes últimos anos, muita atividade forma de comprovar experimentalmen-
tem se desenvolvido em torno desse te que a teoria esteja correta. Por falta
Integrabilidade tópico, novamente levando a resultados de alternativas, e pela beleza intrínseca
Em geral, quando se estuda um bastante notáveis. que ela apresenta, é a teoria mais estu-
sistema físico, não é possível resolver dada atualmente. Por enquanto, só
as equações que o descrevem de forma Conclusão podemos torcer para que sejam encon-
exata. Como explicado acima, alguma Ao longo do século XX, descobriu- trados alguns indícios de que a Natureza
técnica perturbativa é necessária. se que o conceito de unificação é essen- realmente utiliza as cordas. Talvez os pri-
Entretanto, existem alguns poucos sis- cial na construção de teorias que des- meiros sinais apareçam no LHC. Vamos
temas que possuem soluções exatas. crevem o comportamento das partículas aguardar.
Tais sistemas são ditos integráveis e elementares. O modelo padrão, que deu
usualmente aparecem em modelos origem a vários prêmios Nobel, é extre-
Para saber mais
Existem vários livros e artigos que discutem
a teoria de cordas, o modelo padrão e
a relatividade geral. Dentre eles reco-
mendamos:
Brian Greene, O Universo Elegante (Cia. das
Letras, São Paulo, 2001).
L. Susskind, Physics World November
November, 29
(2003).
S. Hawking, O Universo Numa Casca de Noz
(Editora ARX, São Paulo, 2002).
S. Weinberg, Scientific American December
December,
36 (1999).
Victor O. Rivelles, Ciência Hoje 23
23:138, 46
Figura 6. Dualidades entre as 5 teorias de cordas e a teoria-M. A seta entre duas teorias (1998).
indica que elas estão relacionadas pela dualidade.

16 Teoria de cordas e unificação Física na Escola, v. 8, n. 1, 2007