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Entre dois continentes: literatura e narrativas humanizando


médicos e pacientes
Between two continents: literature and narratives for humanizing doctors and patients
Entre dos continentes: la literatura y las narrativas que humanizan médicos y pacientes

Maria Auxiliadora Craice De Benedetto*

Resumo: O ensino baseado exclusivamente em um modelo biomecânico tem se mostrado insuficiente para a formação de bons pro-
fissionais na área da Medicina. Com o desenvolvimento da especialidade Medicina de Família (MF) e seu estabelecimento como espe-
cialidade acadêmica foi possível uma ampliação desse modelo para a construção de um modelo biopsicossocial. Temas como reflexão,
autoconhecimento, sentimentos, crenças, sofrimento, morte, compaixão e empatia, os quais têm a ver com as dimensões imponderáveis
do ser humano, passaram a ser valorizados e enfocados em educação médica graças à introdução do ensino das Humanidades nos
currículos de diversas universidades em todo o mundo. Este artigo mostra os benefícios de se incluir textos e métodos literários, assim
como a metodologia denominada Medicina baseada em Narrativas, como instrumentos educacionais em cenários teórico-práticos de
ensino da MF.
Palavras-chave: Humanidades. Literatura. Medicina.
Abstract: Teaching based exclusively on a biomechanical model has shown to be insufficient for educating good professionals in the
area of medicine. With the development of the specialty named Family Medicine (FM) and its establishment in the academic setting,
it was possible to go beyond this model for constructing a biopsychosocial model. Themes such as reflection, self-knowledge, feelings,
beliefs, suffering, death, compassion and empathy, that have to do with the imponderable dimensions of human beings, began to be
valued and tackled in medical education thanks to the introduction of the teaching of Humanities in the programs of study of several
universities in the world. This article shows the benefits of including texts and literary methods, as well as the methodology called
Medicine based on Narratives, as education instruments in practical-theoretical settings for teaching FM.
Keywords: Humanities. Literature. Medicine.
Resumen: La enseñanza basada exclusivamente en un modelo biomecánico se muestra insuficiente para la formación de buenos pro-
fesionales en la área de la Medicina. Con el desarrollo de la especialidad académica, se hace posible una ampliación de ese modelo para
la construcción de un modelo biopsicosocial. Temas como reflexión, autoconocimiento, sentimientos, creencias, sufrimiento, muerte,
compasión y empatía, que se relacionan con las dimensiones imponderables del ser humano, pasaron a ser valorados y enfocados en la
área de la educación médica gracias a la introducción de la enseñanza de las Humanidades en los currículos de diversas universidades
en todo el mundo. Este artículo muestra los beneficios de la inclusión de textos y métodos literarios, así como la metodología nombrada
Medicina basada en Narrativas, como instrumentos educacionales en escenarios teórico-prácticos de enseñanza de la MF.
Palabras-llave: Humanidades. Literatura. Medicina.

Introdução Doctor: The Literature and Medicine conhecedor no assunto. O seu pri-
of Anton Chekhov” dirigido aos es- meiro contato com um professor de
Na primavera de 1985, Lawren- tudantes de Medicina. Tratava-se Literatura especialista em Chekhov
ce Schneiderman – professor do de sua primeira experiência neste foi desencorajador, pois este lhe
Departamento de Medicina de Fa- sentido, pois nunca havia sequer objetou: “eu não quero um médico
mília e Preventiva da Universidade participado de uma discussão em que conheça Chekhov, mas sim alguém
da Califórnia, San Diego – anun- grupo acerca de uma obra literá- que saiba extrair meu apêndice”. Fe-
ciou um curso eletivo de Literatura ria. Por isso, tratou de pedir ajuda lizmente, Schneiderman conseguiu
e Medicina denominado “The Good a quem considerou um grande encontrar outros dois professores

* Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, com Residência em Cirurgia Geral. Médica do Ministério da Saúde, tendo atuado no
Complexo Hospitalar Heliópolis, São Paulo, SP, nos seguintes serviços – Cirurgia Geral e do Trauma, Programa de Assistência ao Ostomizado e Comissão de Cuidados
Paliativos. Dedica-se à Medicina de Família na SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família, onde desenvolve atividades educacionais e a metodologia
denominada: Medicina Baseada em Narrativas (Narrative Medicine). Coordenadora do Departamento de Humanidades da SOBRAMFA. Participa de projetos de
pesquisa e educacionais do CeHFI – Centro de Estudos de História e Filosofia das Ciências da Saúde – UNIFESP – SP. E-mail: macbet@sobramfa.com.br

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ligados à Literatura e ao Teatro que mente incorporada”. Evidências mento, métodos e desenvolvimen-
concordaram em colaborar em têm demonstrado a influência das to de habilidades, a qual pode ser
seu curso, o qual vem se repetindo emoções sobre o funcionamento obtida a partir do ensino das bio-
anualmente desde então1. do sistema imune, fornecendo um ciências. Mas este não é suficiente
Certamente, a iniciativa de link fisiológico entre experiências para propiciar o desenvolvimento
Schneiderman não foi uma ati- de vida e o curso e evolução das de profissionalismo, o qual tam-
tude isolada, pois desde há algum enfermidades. A essência do mé- bém requer o ensino de um co-
tempo cursos similares vêm sendo todo centrado no paciente é que o nhecimento particular, métodos e
oferecidos em muitas escolas médi- médico tanto preste atenção a sen- habilidades que vão além do domí-
cas de países da Europa e América timentos e emoções quanto cate- nio das biociências. Outros corpos
do Norte. Os principais objetivos da gorize a enfermidade do paciente. de conhecimentos – provenientes
utilização da Literatura como ins- Uma escuta atenta ao paciente e o do estudo das Humanidades e in-
trumento didático na formação de exercício de autoconhecimento são cluindo disciplinas como Filosofia,
estudantes de Medicina vêm sendo essenciais neste processo3. Literatura, Sociologia, Espiritua-
estabelecidos ao longo das últimas Certamente, o principal obje- lidade e Artes em geral – deverão
décadas e são os seguintes: pro- tivo buscado pelos educadores da ser abordados. Estes são os domí-
porcionar aos estudantes de Me- área de Medicina é a formação de nios em que compaixão, empatia,
dicina um melhor entendimento bons profissionais. No entanto, comunicação e responsabilidade
acerca das experiências e vidas de a definição de profissionalismo social são clarificadas, praticadas e
seus pacientes, ou seja, fomentar a médico não é fácil e a total com- ensinadas4. Essas ideias, certamen-
empatia; dar aos estudantes a opor- preensão acerca do significado da te, guardam concordâncias com os
tunidade de crescer em autoconhe- palavra não poderia ser fruto de ensinamentos transmitidos por
cimento e prover a conscientização busca em um dicionário. Segundo idealizadores da MF tais como Ian
de que a reflexão pode aprofundar Hebert Swick, o profissionalismo McWhinney.
sua capacidade de compaixão; re- médico deve ser fundamentado na As humanidades, especialmen-
conhecer a dimensão humana na natureza da profissão e na natureza te a Literatura, têm sido conside-
saúde e na doença; discutir acerca do trabalho médico. O profissiona- radas instrumentos efetivos para
das dimensões morais (ética e legal) lismo médico é caracterizado por promoção do aumento da empa-
das vidas dos pacientes; discutir as comportamentos pelos quais os tia, cuja presença é considerada
confrontações, ambiguidades e su- médicos demonstram ser merece- essencial para o desenvolvimento
tilizas das diferentes perspectivas dores da confiança que recebem do profissionalismo5. A inclusão
(pacientes, familiares, profissionais dos pacientes por estarem traba- de textos e métodos literários em
e sociedade)2. lhando para o seu bem. O autor ambientes didáticos pode propiciar
Temas como reflexão, autoco- identifica nove comportamentos a reflexão acerca de temas difíceis,
nhecimento, sentimentos, crenças, que caracterizam profissionalis- tais como dor, sofrimento e morte,
compaixão e empatia certamente mo, entre os quais citamos: busca os quais fazem parte do dia-a-dia
têm a ver com as dimensões im- de altos padrões éticos e morais; do médico, mas que muitos estu-
ponderáveis do ser humano e estas compromisso contínuo com busca dantes de Medicina e até mesmo
não têm sido valorizadas quando de excelência; busca de excelência alguns médicos têm dificuldades
se atua exclusivamente dentro do graças à constante aquisição de co- em enfrentar, achando mais fácil
modelo biomecânico de ensino e nhecimentos e desenvolvimento ignorá-los. Esse contato prévio com
prática da Medicina, o qual ainda de novas habilidades; capacidade tais temas, ainda que na ficção, au-
domina em alguns cenários. Com para lidar com altos graus de com- xiliaria a melhor enfrentá-los na
o desenvolvimento da especiali- plexidade e incerteza; manifestação vida real6.
dade Medicina de Família (MF) e de valores humanísticos, incluindo Em cenários de prática e ensino
seu estabelecimento como espe- honestidade e integridade, cuidado da Medicina emergem muitas nar-
cialidade acadêmica ficou clara a e compaixão, altruísmo e empatia, rativas reais – histórias vivenciadas
necessidade de se transcender esse respeito pelos outros e lealdade; re- por médicos, estudantes, pacientes
modelo. A adoção de um modelo flexão sobre decisões e ações4. e familiares, histórias que adqui-
biopsicossocial, focado na pessoa e Assim, para a aquisição de pro- rem um significado especial por
não na doença, levou à substitui- fissionalismo é necessário um trei- serem portadoras de ensinamentos
ção da metáfora – o corpo como namento específico que forneça ou lições de vida. Essas narrativas
máquina – para a metáfora – “a uma base necessária de conheci- evocam textos literários e, quando

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compartilhadas em ambiente didá- Métodos rem necessidade, narrativas a que


tico, teriam função similar à aplica- atribuíram um significado especial,
ção de métodos literários. Auxiliam Durante quatro anos a autora mesmo que elas tenham surgido em
na busca do conhecimento do ser tem participado da supervisão de qualquer outro cenário de prática.
humano em sua totalidade e esti- atividades didáticas teórico-práti- Durante todo o processo, a au-
mulam a reflexão acerca de temas cas destinadas ao ensino da MF a tora atua como observadora parti-
difíceis, propiciando uma base mais residentes de MF e estudantes de cipante, registrando em um diário
sólida para seu enfrentamento. Mas diversas escolas médicas do país em tudo o que tenha lhe atraído a
as narrativas propiciam muito mais estágio na SOBRAMFA. Tais ativi- atenção. Dessa forma, coleta frases
que isso. A sua utilização como fer- dades têm sido desenvolvidas nos de impacto dos estagiários e cria
ramenta terapêutica e didática está seguintes cenários: ambulatórios também suas próprias narrativas.
relacionada ao desenvolvimento da de MF, visitas domiciliares, ambu- Assim são produzidos textos para
Medicina baseada em Narrativas latórios de Cuidados Paliativos e posterior análise.
ou Narrative Medicine7 ou Narrative- Casas de Longa Permanência para Tais textos, juntamente com as
based Medicine8 – como preferem os Idosos. narrativas elaboradas pelos estagi-
autores britânicos. Esta metodolo- Além de receberem o suporte ários nas sessões de escrita refle-
gia nos auxilia a utilizar as narra- técnico imprescindível ao desenvol- xiva, foram analisados de acordo
tivas emergentes em cenários de vimento de um bom atendimento, com uma ótica fenomenológica. A
os estagiários são introduzidos à aplicação de técnicas de imersão/
prática e ensino da Medicina, nar-
metodologia denominada Medicina cristalização 10 permitiu a identifi-
rativas que muitas vezes não apa-
baseada em Narrativas e são cons- cação de alguns temas os quais são
rentam nada ter a ver com histórias
tantemente encorajados a ouvir os apresentados em seguida. Tais te-
clínicas, em benefício de estudantes
pacientes com atenção e empatia e mas são ilustrados por frases.
e profissionais de saúde.
ser receptivos ao que eles tenham
A Sociedade Brasileira de Me-
necessidades de expressar: senti-
dicina de Família (SOBRAMFA)
mentos, dores, alegrias, sistemas
Resultados
– www.sobramfa.com.br – é uma
de crenças e histórias, mesmo que Desconhecimento inicial acerca
sociedade acadêmica comprome-
estas aparentemente nada tenham da metodologia
tida com o desenvolvimento da
a ver com suas histórias clínicas.
especialidade MF em nosso meio. Durante a graduação, estudan-
Também é recomendada a leitu-
Conduz um programa de residên- tes e residentes não haviam rece-
ra de algumas obras literárias cujos
cia em MF e é frequentada por bido nenhuma orientação formal
enredos sejam de alguma forma re-
estudantes do primeiro ao sexto acerca da aplicação de narrativas e
lacionados a temas médicos.
ano de Medicina de diversas facul- Literatura em contextos de ensino
Em cada cenário de prática,
dades do país, os quais buscam a e prática da Medicina. Por isso, em
após o estabelecimento da condu-
sociedade para estágios opcionais. um primeiro momento, demons-
ta adequada e a liberação dos pa-
A preocupação de se oferecer um traram dúvidas e apresentaram
cientes, uma discussão em grupo é
ensino técnico complementado pe- questionamentos:
estabelecida. Nestas, são comparti-
la adoção de recursos humanísticos “Isto de ouvir os pacientes parece
lhadas as narrativas dos pacientes
têm sido uma constante para os in- ser mais adequado a psicólogos e
e as narrativas dos estagiários que
tegrantes da SOBRAMFA desde a psiquiatras do que a médicos gene-
tenham porventura emergido da
sua criação, em 1993. ralistas”.
prática. Questões relacionadas às
esferas emocional, cultural, social e “Não consigo perceber como as
espiritual são abordadas e, quando narrativas podem contribuir com
Objetivo a prática clínica”.
há a necessidade de se aprofundar
O objetivo deste trabalho é de- acerca de determinado tema, uma “Com o escasso tempo para a rea-
monstrar os benefícios de se incluir sessão de escrita reflexiva9 é estabe- lização das atividades requeridas
a utilização da Literatura e da Me- lecida. As narrativas criadas nessa para o aprendizado e prática da
dicina baseada em Narrativas como atividade são correlacionadas com Medicina, a orientação para se
ferramentas de ensino em cenários narrativas literárias presentes nos prestar atenção aos pacientes e ouvi-
teórico-práticos dirigidos a residen- livros recomendados. Os estagiá- los com atenção e empatia não seria
tes de MF e estudantes de Medicina rios ainda são orientados a escrever uma perda de tempo e uma tarefa a
em estágio na SOBRAMFA. em suas casas, sempre que senti- mais a nos sobrecarregar?”

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Com o decorrer da prática co- doença, um órgão ou um sistema reais necessidades dos pacientes,
meçaram a compreender que a que não funciona bem.” de seus recursos internos para o
utilização de tais recursos pode “As histórias dos pacientes me per- enfrentamento da enfermidade e
transformá-los em profissionais mitem tratar, de forma especial, de seus sistemas de crenças. Graças
mais completos. cada diabético ou hipertenso e não à identificação das reais necessida-
“Durante a graduação, a principal simplesmente tratar diabetes ou hi- des do paciente é possível a insti-
preocupação é o ensino dos aspectos pertensão.” tuição da terapia mais adequada a
técnicos ligados ao diagnóstico e à cada situação. Nem sempre o que
Quando se adota uma perspec-
terapêutica das doenças. Não há o médico julga ser o melhor para
tiva narrativa, a atenção às emo-
muito tempo para se pensar em te- o paciente é o que ele realmente
ções e aos sentimentos é totalmente
mas de fundamental importância, necessita. O reconhecimento dos
procedente. Em uma profissão cuja
os quais envolvem o conhecimen- recursos internos que um pacien-
base é o relacionamento entre seres
to dos aspectos mais sutis dos seres te pode adotar para o enfrenta-
humanos, sentimentos e emoções
humanos e tão intensamente in- mento da enfermidade permite o
usualmente emergem. Através
fluenciam no estabelecimento das direcionamento e estímulo para a
das narrativas, podemos organizar
doenças e do processo de cura.” aplicação desses recursos, o que,
e integrar melhor nossas próprias
“Nas escolas médicas começou-se a certamente, contribui para a efeti-
emoções e sentimentos e, assim,
falar bastante sobre Humanismo, vidade das demais modalidades te-
lidar melhor com as emoções e
mas ainda não se estabeleceu uma rapêuticas. As causas de abandono
sentimentos dos pacientes e não
conexão com a prática. A utilização e não adesão ao tratamento mui-
tentar ignorá-las quando estes têm
das narrativas e dos recursos literá- tas vezes provêm dos sistemas de
necessidade de expressá-los.
rios pode fazer tal conexão.” crenças equivocados dos pacientes
“Alguém nos disse: ‘não se envolva,
– decorrentes de seu contexto cul-
mantenha uma distância confor-
Totalidade – Narrativas e tural e social – os quais podem ser
tável.’ Mas isso é impossível. Sem a
recursos literários conduzindo adentrados graças à atenção a suas
integração das emoções e dos senti-
a uma visão holística do ser histórias de vida. Dessa forma, as
mentos na prática,é impossível um
humano atitudes necessárias para a correção
bom exercício da Medicina. Estes são
Assim como para a obtenção de dos sistemas de crenças que inter-
um guia para nos mostrar quem é
conhecimento sistemático é neces- ferem negativamente na adesão ao
a pessoa que temos diante de nós,
sário se recorrer à fragmentação, tratamento poderão ser assumidas.
conhecimento necessário para que
esta também é natural quando se As narrativas assim se transformam
possamos ajudá-la. É por isso que
busca informações acerca do pa- em instrumento capaz de aumen-
nem o computador melhor progra-
ciente. Elementos referentes às di- tar a eficiência do médico.
mado seria suficiente para efetuar o
ferentes dimensões do ser humano “O Sr ECS era diabético e hiper-
cuidado aos pacientes.”
– física, mental, emocional, cultu- tenso. Sofreu um AVCI e teve uma
ral, social e espiritual – certamente Não é possível entender o ser excelente evolução. Não apresentou
influenciam na forma como cada humano em sua totalidade me- depressão e retornava sempre mui-
um vivencia sua doença e como a diante a aplicação exclusiva de re- to animado, querendo continuar
cura pode ser estabelecida em um cursos tecnológicos. com as sessões de Fisioterapia. No
sentido mais amplo. A atenção às “A tecnologia nos permite fazer entanto, não aderia ao tratamento
narrativas do paciente representa diagnósticos acurados e estabelecer do diabetes. Recusava-se a tomar
um recurso que permite a identifi- a terapia mais apropriada a cada metformina, mesmo afirmando
cação desses diversos elementos, de caso. Mas isso não é tudo. Exames não apresentar efeitos colaterais
tal forma que os mesmos possam ser subsidiários e máquinas não podem desagradáveis e nem dificuldade
hierarquizados e integrados, o que sentir a dor, o medo e a solidão da de acesso ao medicamento. Após
contribui para a obtenção de uma pessoa, elementos que certamente algumas consultas e percebendo
visão holística do paciente, uma am- influenciam nos processos de cura minha disposição em ajudá-lo e
pliação do entendimento acerca da ou paliação.” meu esforço em compreendê-lo,
enfermidade e uma melhor adequa- confessou: ‘prefiro morrer a parar
ção dos recursos terapêuticos. Aumento da eficiência de tomar cerveja diariamente. To-
“Prestar atenção às histórias dos A utilização das narrativas – li- da a tarde me reúno com os amigos
pacientes ajuda-me a não esque- terárias ou da vida real – em prática para jogar dominó e tomar uma
cer que há muito mais que uma clínica permite a identificação das cervejinha. Como sei que esta corta

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o efeito dos remédios para diabetes, -paciente satisfatório, o qual é capaz que as narrativas exercem um pa-
deixei de tomar esses remédios.’ de clarificar inúmeras situações que pel terapêutico também para eles.
Sem criticar sua crença, negociei usualmente interferem nos proces- “Era minha segunda participação
com o paciente afirmando que ele so de cura ou paliação. A receptivi- no ambulatório de Cuidados Pa-
até poderia continuar com sua cer- dade em relação às narrativas dos liativos e eu estava muito cansada
veja desde que não deixasse de to- pacientes e a reflexão acerca de ao final da última consulta, louca
mar a metformina. Assim, acabou narrativas reais e literárias são ins- para chegar logo em casa. Mas, a
aderindo ao tratamento e teve sua trumentos úteis que facilitam essa oportunidade compartilhar dores e
glicemia regularizada.” compreensão mais profunda acerca sofrimentos com meus colegas e ex-
do ser humano. pressar minha própria dor em uma
Efeito paliativo ou curativo das “Narrativas proporcionam o de- sessão de escrita reflexiva deu-me
narrativas senvolvimento das habilidades um alívio inesperado. Se não tivesse
É comum que os pacientes necessárias para a construção de feito isso, certamente não dormiria
saiam aparentemente melhor de pontes entre o nosso mundo inter- bem naquela noite.”
uma consulta médica pelo simples no e o mundo ao nosso redor, in-
cluindo tudo aquilo que queremos Papel didático
fato de terem sido ouvidos com
atenção e empatia e por terem tido compreender em nossos pacientes. Textos literários, histórias pes-
a oportunidade de exteriorizar suas O melhor entendimento acerca da soais e de pacientes podem trans-
dinâmica do ser humano facilita o mitir lições de vida ou adquirir um
dores. Muitas vezes, o paciente não
relacionamento médico-paciente.” significado especial, conduzindo a
necessita de uma intervenção far-
macológica e, sim, simplesmente profundas reflexões. Quando com-
Lidando melhor com a dor, o
de alguém que seja um testemu- partilhadas, essas narrativas adqui-
sofrimento e a morte
nho compassivo de seu sofrimen- rem uma função didática.
Um primeiro contato com te- “Aplicar as narrativas como me-
to. Com a repetição de consultas
mas que estudantes de Medicina todologia nos faz refletir sempre.
em que se pratica a escuta atenta
consideram difíceis pode ser efe- Com reflexão, cada encontro com
e empática, os efeitos vão se con-
tivado em espaços destinados ao os pacientes se transforma em um
solidando.
estudo de obras literárias, os quais aprendizado.”
“Quando entrou, a Sra. NG estava
representam um ambiente propí-
pálida, magra e abatida. Era por- “Compartilhar histórias nos ajuda
cio à reflexão. Esse contato prévio
tadora de um tumor avançado de a construir nossa profissão e nossas
desenvolvido em um contexto
laringe e não podia falar ou comer próprias vidas.”
reflexivo confere certo preparo
normalmente há meses. Estava so- aos estudantes para enfrentar tais “Aprendi muito sobre vida e morte
frendo em decorrência de uma dor temas em circunstâncias da vida ao ouvir os meus pacientes. Alguns
intensa, mas quando notou nosso real. É fácil compreender que as deles têm uma sabedoria inata,”
interesse, tomou uma caderneta e narrativas que emergem na prática “A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi,
começou a escrever rapidamente tu- também podem ser vistas como um cuja leitura foi recomendada du-
do aquilo que gostaria de dizer; fez recurso humanístico com funções rante meu treinamento em MF, foi
uma emocionante narrativa sobre similares à Literatura um livro que muito apreciei. Me-
sua vida e sua doença. Quando dei- Quando estudantes e residen- diante a discussão acerca da obra,
xou o consultório, parecia aliviada. tes interagem com pacientes que pudemos elucidar muitas questões
Não demonstrava nenhuma dor e se encontram em situação de dor que surgiram em nossa prática
eu estava certa de que havíamos es- e sofrimento, acabam criando su- clínica, em especial nos cenários de
tabelecido uma relação terapêutica.” as próprias histórias de caos e dor. Cuidados Paliativos.”
A prática da escrita reflexiva – um
Melhora do relacionamento dos elementos da metodologia das
médico-paciente narrativas – permite que estudantes
Discussão
Ao perceber que tem diante de escrevam, reflitam e compartilhem
si alguém que o compreende e se suas narrativas, o que os auxilia a Medicina centrada na pessoa
interessa por tudo que lhe diz res- lidar melhor com os sentimentos e O modelo biomecânico de en-
peito, o paciente se entrega com as dores que emergem do relacio- sino e prática da Medicina tem rei-
confiança e está aberto à criação namento com os pacientes. Com a nado todo-poderoso já há algumas
de um relacionamento médico- prática, os estudantes apreendem décadas. Este modelo se baseia

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na fragmentação, especialização duo adoece e também os processos Michael Balint criou o termo
e avanços tecnológicos. Estes têm de cura. A questão é: como abordar medicina centrada na pessoa e seu
sido imensos, tendo modificado e essas dimensões sutis do ser huma- livro “O Médico, Seu Paciente e a
melhorado a qualidade de vida hu- no para integrá-las à prática clínica, Doença” (1957) tornou-se um clás-
mana em diferentes contextos. Na sem ferir o modelo biomecânico e sico que influenciou a reformula-
Medicina isto se deu em um grau os princípios da medicina baseada ção do método clínico15. Trabalhou
ainda mais evidente. A ideia de que em evidências? Essa conciliação é com “general practitioners” (médicos
todos os problemas médicos têm possível? de família) na Inglaterra, auxilian-
ou terão, dentro de um curto pra- Uma constatação sempre pre- do-os a lidar com os aspectos psi-
zo, uma solução que virá através sente em variados cenários de prá- cológicos ligados aos problemas
dos crescentes avanços científicos tica da Medicina é que médicos e de seus pacientes e a seus próprios
e tecnológicos é constantemen- pacientes não estão totalmente sa- problemas advindos da relação
te veiculada através dos meios de tisfeitos, pois sentem que alguma com pacientes. Deu grande impor-
comunicação, o que faz com que coisa está faltando. Talvez a visão tância ao significado do relaciona-
os leigos também valorizem e colo- das partes tenha obscurecido a to- mento médico-paciente, buscando
quem todas as suas esperanças nes- talidade do ser humano em todas determinar como este poderia ser
te modelo de prática da Medicina. as suas dimensões. Ou o enfoque utilizado em benefício do próprio
Se até mesmo aquele lado de magia unilateral atribuído à tecnologia paciente. Criou o conceito de o
que esteve por milênios associado ofuscou a necessidade do culti- “médico como medicamento” e
às artes da cura ainda é evocado vo de um bom relacionamento valorizou o papel das narrativas
nos ambientes em que ocorrem médico-paciente, o qual sempre como ferramenta terapêutica e
cirurgias complexas e exames por como um meio para o almejado
foi, é e sempre será a base de uma
imagem sofisticados, o que mais aprimoramento do relacionamento
boa prática da Medicina13. O esta-
haveremos de desejar11? médico-paciente.
belecimento de uma boa relação
Ainda podemos afirmar que, A Medicina centrada no pa-
médico-paciente é um ponto cru-
na atualidade, a atividade clínica é ciente é a pedra angular da espe-
cial, pois permite a adequação das
guiada pelos princípios da Medicina cialidade Medicina de Família e
evidências científicas obtidas nos
baseada em evidências, modelo em requer uma familiaridade com o
estudos populacionais a um con-
que a história do paciente se trans- ser humano em sua totalidade,
texto individual. Por outro lado,
forma em uma questão clínica cuja levando-se em conta seus aspectos
em situações em que a tecnologia
resposta provém das evidências de físico, mental, emocional, cultural,
maior relevância. É sabido também não seja mais capaz de prover so- social e espiritual. Médicos de fa-
que as melhores relevâncias se ori- luções, manifesta-se uma sensação mília de todo o mundo vêm utili-
ginam de estudos randomizados ou de incapacidade e frustração com a zando o método desenvolvido por
de coorte aplicados a populações. qual os profissionais de saúde têm Ian McWhinney e colaboradores,
Entretanto, na prática clínica, as demonstrado grande dificuldade os quais defendem a necessidade
evidências deverão ser empregadas em lidar. de expansão do modelo biomecâ-
em uma situação individual repleta Por esses motivos e também nico para um modelo biopsicos­-
de nuances as quais ultrapassam o porque, neste modelo em que se social16 ,17. As histórias contadas
âmbito em que se realizam tais es- enfatiza a especialização, a frag- pelos pacientes colaboram para a
tudos populacionais12. mentação e a tecnologia, os custos obtenção desse conhecimento mais
É certo que essa abordagem da medicina estão se tornando in- amplo e profundo acerca do ser hu-
oferece incontáveis vantagens e suportavelmente elevados, tanto mano, o qual é essencial ao profis-
foi a responsável pela supressão no setor público quanto no priva- sional de saúde que busca praticar a
ou diminuição de grande parte do do, o método clínico vem sendo re- Medicina centrada no paciente.
sofrimento humano decorrente de avaliado. Uma possível definição
enfermidades e traumatismos. Mas para o termo é a seguinte: método Empatia como uma das
não podemos nos esquecer que as clínico é um ato interpretativo que principais características de um
dimensões sutis e imponderáveis do se baseia em habilidades narrativas bom profissional
ser humano, as quais são relacio- e permite a integração dos pontos A ideia de que um bom pro-
nadas aos seus aspectos emocional, comuns das histórias contadas por fissional de saúde deva ser ne-
cultural, social, familiar e espiritual, médicos, pacientes e as provas de cessariamente empático tem sido
influenciam a forma como o indiví- laboratório14. incontestavelmente aceita na atua-

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lidade. A empatia encontra-se en- De acordo com estudo de Hojat espécie de processo de leitura e es-
tre as atitudes humanísticas mais et al. (2002), a empatia médica é crita da vida. Ambos os métodos –
estudadas e tem-se aventado a pos- conceituada de forma multidimen- Literatura e Medicina – envolvem
sibilidade de ensiná-la mediante a sional e envolve pelo menos três uma dimensão interpretativa. Uma
inclusão de recursos humanísticos componentes. Um dos componen- Medicina tecnicamente competen-
na Educação Médica. Trata-se de tes encontrado pelos autores é a to- te e narrativamente competente é
uma qualidade pessoal necessária mada de perspectiva. Este resultado capaz de fazer pelos pacientes o que
ao entendimento das experiên- é consistente com o reportado em era até então considerado impossí-
cias interiores e sentimentos dos estudos de empatia realizados para vel. Literatura e Medicina, em seus
pacientes. Representa a essência a população geral. Os outros dois níveis mais fundamentais, são re-
do relacionamento médico-pa- são: cuidado compassivo e “colo- lacionadas ás origens e destinos das
ciente. Relacionamentos huma- car-se “na pele” dos pacientes”19. pessoas21. O fato é que Medicina e
nos interpessoais significativos são Discute-se se a empatia po- Literatura têm uma longa histó-
fundamentais a uma existência sig- de ou não ser ensinada. Alguns ria juntas. Assim como Chekhov,
nificativa. Desenvolver relaciona- autores acreditam que a empatia são incontáveis os médicos que,
mentos interpessoais significativos representa um estado pessoal que sabendo ler e compreender em
entre pacientes e médicos é impor- pode declinar ao longo da gradua- profundidade as sutilizas dos seres
tante para o aperfeiçoamento dos ção médica, mas que também pode humanos, tornaram-se autores li-
resultados clínicos18. ser melhorada através de atitudes terários de renome. Autores não
Empatia tem sido considerada educacionais direcionadas. Outros médicos também têm comumente
como um conceito que envolve acreditam que seja uma caracterís- se apossado de temas relacionados
tanto o domínio cognitivo quanto tica pessoal difícil de ser ensinada. à prática da Medicina.
o afetivo ou emocional. O domínio 20
Talvez os dois grupos tenham ra- Ao encontrar um interlocutor
cognitivo da empatia envolve a ha- zão. No entanto, se alguma influ- (médico ou profissional de saúde)
bilidade de entender sentimentos ência durante a formação médica disposto a ouvi-los com atenção,
e experiências internas de outras é capaz de fazer com que a empatia os pacientes começam a construir
pessoas. No entanto, quando diz decline, esta também poderia ser uma narrativa pessoal, a qual pode
respeito ao seu domínio afetivo ou ensinada. Isto fica mais compre- enriquecer intensamente o relacio-
emocional, alguns autores prefe- ensível quando nos referimos ao namento entre ambas as partes. Os
rem empregar o termo simpatia. domínio cognitivo da empatia. De pacientes usualmente têm prazer
Os dois termos têm sido usados in- qualquer forma, podemos afirmar em relatar histórias de sua vida,
distintamente algumas vezes, pois que as pessoas têm diferentes graus expressar sentimentos e transmitir
ambos têm a ver com compartilhar. de dificuldade para apreender ati- suas crenças e visão de mundo. E
Empatia refere-se a compartilhar tudes humanísticas, incluindo a o que fazer com esses elementos
entendimento com os pacientes, empatia. que, aparentemente, nada têm a
enquanto simpatia refere-se a ver com histórias clínicas, com a
compartilhar emoções. A simpatia, Literatura e Medicina & nossa velha e conhecida história
quando excessiva, pode interferir Medicina baseada em narrativas da doença atual (HDA)? As nar-
com a objetividade do diagnósti- Desde a década de 1970, escolas rativas reais e literárias poderiam
co e tratamento e comprometer a médicas norte-americanas incluí- auxiliar na formação de melhores
neutralidade clínica e a estabilidade ram o estudo de textos e métodos profissionais e ser utilizadas real-
do médico. O termo “compassiona- literários em seus currículos. Lite- mente utilizadas como ferramenta
te detachment” tem sido emprega- ratura e Medicina é uma subdis- terapêutica?
do para descrever a preocupação ciplina dos estudos literários que Rita Charon criou o termo
empática do médico pelo paciente examina as muitas relações entre narrative medicine e afirma que a
enquanto mantém a simpatia em atos e textos literários e atos e textos prática da Medicina requer com-
um nível razoável e suficiente para médicos. A relação entre Literatura petência em narrativa, o que signi-
preservar o equilíbrio emocional19. e Medicina é duradoura porque é fica a capacidade para reconhecer,
Um possível sentido para empatia inerente. Métodos literários e da assimilar, interpretar e atuar de
talvez seja “sentir” o sofrimento do Medicina têm alguns pontos em acordo com as histórias e dificul-
paciente para ajudá-lo e não sofrer comum. Quando um médico se de- dades dos pacientes. Competência
junto com ele e ficar imobilizado fronta com um problema clínico de em narrativa permite aos médicos
pela dor. um paciente, ele se engaja em uma alcançar os pacientes e atuar junto

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a eles na enfermidade, reconhecer ções que não consegue visualizar popularidade. Mas com o decorrer
sua própria jornada pessoal através quando mergulhado em seu mar do tempo, adquiriu grande mestria
da medicina, reconhecer suas obri- de problemas25. As narrativas dos na arte de escrever contos. Compai-
gações junto a outros profissionais pacientes são muito mais que sim- xão e empatia são temas constantes
de saúde e introduzir a um discurso ples histórias em que os eventos são em sua obra28. Certamente estas fo-
sobre saúde. A leitura e discussão contados de forma linear. Nelas, os ram características inatas suas que
acerca de obras literárias e a escrita sentimentos existentes por trás dos se intensificaram ainda mais com
reflexiva complementam o méto- fatos são mais importantes que os a prática da Medicina no contexto
do e auxiliam a clarificar situações próprios fatos concretos. Para se em que viveu. Chekhov não pode-
difíceis7. entender o real significado de uma ria sequer imaginar que seus textos
Alguns autores como Arthur narrativa é necessário identificar o seriam utilizados, no século XXI, na
Frank usam os termos – narrativas que foi expresso nas entrelinhas e formação de estudantes de Medicina
e histórias – indiscriminadamente, compreender uma linguagem su- de países da América, tão diferentes,
uma vez que pacientes não costu- bliminar. As narrativas implicam cultural e historicamente, da sua
mam se apresentar dizendo: “quero em interpretação8. Uma mesma amada Rússia. Apesar de ao longo
fazer uma narrativa” e sim: “dou- história pode ser contada e com- da vida ter conseguido a liberdade
tor, quero contar uma história”22. preendida de formas diferentes por financeira graças à Literatura, o mé-
No entanto, quando, como pro- pessoas diferentes26. dico-autor praticou ambas as profis-
fissionais de saúde, utilizamos as Quando estudantes de Medici- sões durante quase todo o tempo.
histórias dos pacientes para apri- na e profissionais de saúde compar- É um exemplo vivo da inerente
morar nossa atuação, para melhor tilham as narrativas – próprias, dos relação que existe entre ambas as
interagir com os pacientes e para pacientes ou literárias – às quais disciplinas – Literatura e Medicina.
nos beneficiarmos do potencial te- tenham atribuído um significado As bases para a utilização das
rapêutico e didático das histórias, especial ou que lhes trouxeram Narrativas e da Literatura em cená-
ou seja, quando as utilizamos de algum ensinamento, estas passam rios de ensino e prática da Medicina
forma metodológica, é natural que a exercer seu papel didático. Em estão fortemente consolidadas, o
as denominemos narrativas. Assim, educação médica, a aplicação de que pode ser constatado ao se exa-
o termo “narrativas” refere-se às um enfoque narrativo permite ao minar a vasta literatura sobre o te-
próprias histórias e ao seu emprego estudante de medicina um maior ma e os currículos de grande parte
como metodologia. entendimento da enfermidade gra- das Escolas de Medicina da Amé-
Ouvir as histórias dos pacientes ças à combinação do conhecimento rica do Norte e países da Europa.
com atenção, mesmo que aparente- biomédico obtido através das abor- Narrativas reais e ficcionais, quan-
mente nada tenham a ver com suas dagens educacionais tradicionais do utilizadas de acordo com enfo-
histórias clínicas, promove um efei- com o conhecimento pessoal, afeti- ques similares aos descritos neste
to terapêutico ou curativo, o que vo e experiencial obtido através da texto, representam uma ponte en-
é facilmente constatado na prática inter-relação entre estudantes de tre a tecnologia e o inédito e sutil
clínica diária. A possibilidade de ex- medicina, pacientes e familiares27. mundo interior dos seres humanos
pressar sofrimentos, sentimentos, que povoam os domínios da Medi-
crenças e visão de mundo – através Conclusão cina – pacientes, médicos, profes-
da palavra falada – diante de um in- sores e estudantes de Medicina. E
terlocutor atento e compassivo – ou Anton Chekhov (1860 – 1904), este rico mundo interior somente
escrita – em poesia ou prosa – tem médico e escritor russo de renome, pode ser adentrado através do es-
por si só um efeito terapêutico23,24. iniciou sua carreira literária ainda tabelecimento de relacionamentos
Tal atitude permite ao paciente or- jovem. Este foi o recurso possível médico-paciente e professor-estu-
ganizar o caos que existe em sua para que pudesse sustentar sua dante satisfatórios. Para a prática
mente, o qual foi provocado pela família e a si próprio durante seus e o ensino Medicina em sua total
enfermidade ou situação difícil estudos na Escola de Medicina. Ini- magnitude, ou seja, como Ciência
que vivencia. Dessa forma acaba cialmente escreveu histórias hu- e Arte é necessário transitar livre-
por encontrar, por si só, as solu- morísticas que ganharam grande mente através dessa ponte11.

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Recebido em 28 de julho de 2010


Aprovado em 19 de agosto de 2010

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