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NOTA INSTRUTIVA Nr 08 /86-CG

1. FINALIDADE

a. Alertar os componentes da Polícia Militar sobre o papel do


policiamento ostensivo.

b. Orientar procedimento subsidiário (e solidário) de oficiais e praças


em função de comando, quando da ocorrência de práticas delituosas que, pela
natureza e gravidade, possam provocar traumas ou situações de desespero na(s)
pessoa(s) da(s) vítima(s) ou de seus familiares.

2. PAPEL DO POLICIAMENTO OSTENSIVO

Já o sabemos, mas nunca é demais repetir: o policiamento ostensivo


é, antes de tudo, preventivo. Sua presença, disposta como uma malha protetora
da comunidade visa, principalmente:

- diminuir os aspectos da ação delinquencial;

- inibir o ânimo de delinquir.

Em resumo, o policiamento ostensivo tem por escopo evitar a


eclosão do delito. Seu papel é, predominantemente, preventivo.

Contudo, em havendo a ruptura da malha protetora, isto é eclodindo


o delito, o policiamento ostensivo deve constituir-se no primeiro elemento de
socorro e repressão, antecedendo a qualquer outro, com que conta a população.

Detectado, através da observação dinâmica do patrulhamento, ou


noticiado o delito por qualquer meio, o policiamento ostensivo acorrerá, de
imediato e incontinenti, ao local:

- socorrendo ou resgatando, se for o caso, as vítimas;

- prendendo em flagrante o(s) delinquente(s), ou, após medidas de


praxe no local do crime, cercando, rastreando ou capturando criminoso(s).

Por isto dizemos que a ação de presença do policiamento ostensivo


é real e potencial.

Se em determinada comunidade (bairro, vila ou cidade) onde haja a


presença de uma Unidade ou fração da Polícia Militar, os delitos vem aflorando de
forma assustadora, inquietante e intranquilizadora, é sinal evidente de que o
organismo policial não está sabendo cumprir o seu papel. Nessa situação, cabe
ao Cmt indagar, refletindo:

- Estou sabendo conceber táticas inteligentes para prevenir o crime?

- Minha malha protetora está bem disposta no tempo e no espaço?


- Meus patrulheiros estão bem imbuídos do papel do policiamento
ostensivo?

- Onde, quando e como estão ocorrendo as rupturas da malha


protetora?

- O que fazer para recompor a tranquilidade pública.

Refletindo, o Cmt, qualquer que seja o seu nível, deve reunir e


debater o problema com os seus comandados, buscando encontrar as melhores
respostas. O certo é que o policiamento ostensivo não pode ser inerte, omisso,
ineficiente e ineficaz.

Permitir que uma comunidade sob a nossa proteção viva inquietada


ou aterrorizada pelo domínio do crime e do delinquente, será atestar a nossa
incompetência para cumprir o papel que nos cabe. Assim, falhando, só nos resta
retirar.

3. O QUE O POVO ESPERA DA POLÍCIA

Há dias, uma anônima senhora do povo, entrevistada em programa


de televisão sobre Polícia Militar e Polícia Civil, deu a resposta que bem sintetiza
a aspiração popular:

"- Não me interessa se polícia é civil ou militar, o que eu quero é


uma polícia que dê segurança a mim e aos meus familiares".

Com efeito, o povo espera, e para isto paga os impostos, que a


polícia lhe proporcione segurança.

Ao povo não interessa que a polícia fique a lamuriar problemas


internos, falta de equipamento, etc. .. ou a alegar causas da criminalidade (menor
abandonado, miséria ...), para justificar suas falhas.

Ao povo interessa a polícia atuante na prevenção e repressão ao


crime. Ele quer ver o policiamento ostensivo presente e dinâmico, obstaculizando
e inibindo a delinquência.

Uma Polícia Militar eficiente e eficaz, que protege e socorre com


qualidade e objetividade, é fator fundamental da segurança subjetiva, isto é, a
sensação de tranquilidade coletiva que permite a trajetória de progresso da
comunidade.

4. ALERTAS E ORIENTAÇÕES

a. O Cmt é responsável e tem de dar respostas

Quem comanda tem de ser culto, inteligente, criativo e operoso. É


inadmissível que um Cmt (oficial, sargento ou cabo), vendo a sua polícia falhando,
permaneça contemplativo a espera da reação comunitária. Ou, quando a
comunidade reage, responde evasiva e irresponsavelmente que os seus meios
são insuficientes ou apela para outras desculpas inconsistentes.
O Cmt está sempre atento. Conhece profundamente os problemas
da comunidade sob a proteção da Polícia Militar. Vive em interação com a
comunidade. Visualiza as probabilidades delinquenciais. Sabe antepor-se, com
dispositivos inteligentes, aos riscos delinquenciais. Busca, numa ação contínua,
aperfeiçoar os seus meios.

b. Todo policial-militar conhece a missão e é responsável

Todo policial-militar, desde o soldado aos mais graduado patrulheiro,


deve conhecer a missão e os nossos objetivos.

Não mais se entende e se tolera, no atual estágio da Polícia Militar,


aquele policial bisonho e irresponsável, mera figura decorativa no contexto da
Segurança Pública.

Ser soldado é exercitar uma profissão altamente qualificada.

Para ser soldado existe uma criteriosa seleção e uma substanciosa


e longa formação.

O soldado tem que ler, estudar, praticar e internalizar as regras


técnicas de sua profissão.

O soldado, conhecendo o papel do policiamento ostensivo, tem de


ser responsável perante a comunidade.

É inadmissível o soldado que só trabalha e atua debaixo de


fiscalização cerrada dos superiores. Para este não mais existe lugar na
Corporação. Precisamos, e a comunidade necessita, de policiais-militares
responsáveis e cultuadores da disciplina consciente.

c. A valorização profissional depende do desempenho de cada um

Valorização profissional implica em melhores meios (viaturas,


comunicações, armamentos e equipamentos) para o trabalho.

Valorização profissional implica em melhor remuneração.

Valorização profissional implica em reconhecimento da comunidade.

Como se adquire a valorização profissional?

A valorização profissional se adquire através do desempenho de alta


qualidade. A Polícia que, como um todo, cumpre o seu dever, alcança a
valorização.

A valorização é da instituição.

A valorização é individual pelos benefícios dela decorrente.

A Polícia que falha no seus objetivo de proporcionar segurança


comunitária, é uma corporação desvalorizada.
A Polícia cujos membros, mesmo em minoria, praticam violências e
corrupção, é uma corporação desacreditada.

A instituição desacreditada e desvalorizada não pode pleitear


melhores meios e remuneração condizente.

Impõe-se que cada servidor - do Soldado ao Coronel - se


conscientize de sua responsabilidade individual na valorização profissional.

d. Visita tranquilizadora

Existem certos crimes que, pela sua natureza ou gravidade,


acarretam traumas, desesperos ou revolta na(s) vítima(s) ou em seus familiares.

Imagine o que ocorre frequentemente em cidades maiores:

1º) O assaltante drogado penetra na residência, domina a família,


pratica violências físicas, estupra e foge levando bens preciosos.

2º) O cidadão ausenta-se e, quando retorna, tem o desprazer de ver


a sua casa arrombada, e os bens adquiridos com sacrifício subtraídos pelos
marginais.

3º) A jovem voltando da escola é sequestrada e estuprada.

4º) O cidadão é assaltado e perde todos os seus bens.

Dezenas de outros exemplo poderíamos alinhavar.

Ora, a vítima normalmente se sente impotente ou arrasada quando


cai na realidade de sua desdita.

Todo crime constitui, pelo menos em tese, uma falha do mecanismo


de segurança preventiva do Estado.

Via de regra, a vítima volta a sua ira contra quem devia protegê-la e
teria falhado: A POLÍCIA.

Portanto, é hora de restaurar a confiança. A Polícia deve chegar


solidariamente junto à vítima. Deve mostrar a ela que está empenhada em
solucionar o seu caso, que se empenhará em descobrir o delinquente (ou que
ajudará e colaborará nas investigações da Polícia Civil).

É salutar para a vítima e seus parentes, nos momentos de trauma e


desespero, receber a VISITA TRANQUILIZADORA do Cmt Policial-Militar da área,
subárea ou setor. Certamente, eles se sentirão reconfortados com a presença
solidária e afetiva do representante da Força Pública do Estado. Certamente, a
confiança será restabelecida, irradiando este sentimento à vizinhança e à
comunidade.

Em suma, a Polícia Militar não pode e não deve ser insensível ao


sofrimento das vítimas.
e. Oferecer apoio, pelo menos psicológico

Normalmente, as pessoas ameaçadas ou vítimas ficam inseguras


temendo a ação delituosa. O mesmo ocorre com a população de determinada
área onde ocorreu crime de repercussão. Nessas horas a polícia não pode estar
ausente ou negacear apoio.

Ao contrário, deve remanejar o policiamento ostensivo, coloca-lo


bem visível de forma a restabelecer o clima de tranquilidade pública.

5. CONCLUSÃO

Eis, o meu alerta final.

À Polícia Militar só resta uma via sem alternativa, ou seja, a


compreensão plena, por todos os seus segmentos, de sua missão. E isto quer
dizer uma só coisa: PROFISSIONALIZAÇÃO.

CG, em Belo Horizonte, 04 de agosto de 1986.

Leonel Archanjo Affonso, Coronel PM


Comandante-Geral