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PRIMEIRO PASSO Nas manhãs geladas da minha pré-adolescência, enquanto esperava a água descongelar-se para lavar a louça, eu costumava perder o olhar através da janela e conjeturar sem meus botões que aquele momento era único. Perfeitamente esquecível, desnecessário, sem nenhuma importância, entretanto, era um momento vivido e eu sentia raiva em saber que um dia ele se perderia nas malhas da memória. De tanto perseguir este pensamento, acabou sendo quase uma idéia fixa. No final do dia, eu tentava voltar atrás e ver tudo que tinha feito, visto, pensado, e mais uma vez me escapava. Daquele treino de memória, que resultou em lembranças espalhadas disto ou daquilo, nasceu a necessidade de reavaliar o pouco que ficou. No máximo de esforço, volto à Pedreira de 1931. Nada. Não lembro de nada daquela época, pcrque foi quando nasci. É injusto a gente esquecer o primeiro momento importante da vida, e assim será com o segundo: a morte. Quando ela acontecer, não haverá tempo para analisar a importância do instante único. A partir dos três anos, as imagens começam a se reconstituir naturalmente. Com um pouquinho de concentração, é possível visualizar a menina que eu lembro ter sido. A vida consistia em brincar no lixeiro ao lado de casa, catando maravilhas, inexplicavelmente jogadas fora por pessoas sem imaginação, ou em dias de chuva revolver e organizar as descobertas em cima do acolchoado de retalhos da cama da sala.

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Bonecas eram seres nunca sequer imaginados. Nem eu as possuía, nem qualquer outra menina da rua, por conseguinte não faziam falta. Algumas meninas mais crescidas fabricavam uns monstros de panos velhos e sobras de tecidos, que só serviam de motivo para brigas, porque os garotos adoravam jogar bola, ou melhor, bonecas de pano no meio da rua. Conforme mais tarde pude observar, Pedreira fica a uns cinco dias de viagem da fronteira Brasil-Uruguai, isto em viagem de carreta, o que significa pouca distância; lugarzinho como qualquer outro do Rio Grande do Sul: a igreja, a prefeitura, a praça, alguns armazéns, as ruas do centro calçadas de pedras, e as demais ruas de barro vermelho. As casas, todas de tijolos, mesmo as mais pobres, se bem que estas ao nível e poder aquisitivo do povo das adjacências. Pedreira, apesar de cidade, não passava duma estação de comércio. Ali eram feitas as compras para as estâncias de criação de gado egranjas de arroz, principais fontes de renda do município. Ricas herdeiras passeavam depois da missa, granjeiros arrotavam os lucros, ao acariciar as barrigas satisfeitas. Peões em camisas quadriculadas e bombachas enfeitadas com botões e casas de abelha apeiavam para a farra do sábado. E circundando herdeiras, estancieiros e peões, como urubus nas carniças, o povo aguardava as sobras. Viviam nas promíscuas casas de tijolos de torrões, sem asseio nem futuro. A lei é viver, do jeito que der ou puder. Era assim a Pedreira que conheci, lá se vão tantos anos e garanto que continua igualzinha, apesar do progresso do resto do país. Descendo sempre a rua da igreja, em frente a um fechado matagal, já na periferia da cidade, várias casas foram construídas num só bloco. Janela, porta, janela — uma casa. E assim por diante, num total de seis casas. A primeira, de esquina, servia de venda, bar, farmácia e açougue.

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O dono, seu Maneco da Esquina, revezava com a mulher e os filhos no atendimento à pequena clientela, em geral de caderno. A segunda casa, a mais bem tratada, tinha as janelas e a porta pintadas de vermelho. Já foram de outras cores antes, mas a dona, num claro de sabedoria, achou inútil lutar contra a lama que acabava com sua estabilidade emocional e mania de beleza. Espiar pela janela era um prazer aos nossos olhos de crianças pouco acostumados à ordem e limpeza. Tudo pobre, mas arrumadinho. A casa de dona Bina era a imagem da proprietária, solteirona, sozinha e sem defeitos. Com sua bondade e rigor, nunca foi alvo de nenhum boato maledicente. O mesmo já não se poderia dizer de seus vizinhos da esquerda. Pedrão e Mercedes, amigados há tanto tempo que o povo os supunha casados, como tal viviam, brigando e quebrando os poucos cacarecos que sobravam da última briga; as crianças eram as mais sujas e barrigudas, e todo ano, entre uma disputa e outra, nascia mais uma. A quarta casa geralmente estava vazia, o dono pedia um aluguel muito caro e inquilino nenhum ficava mais que um mês sem pagá-lo, pois o velho vinha e, apesar da idade, pessoalmente jogava tudo no meioda rua. Era muito divertido. A casa seguinte pertencia a uma viúva, pelo menos era o que dona Geni dizia ser. Cinco filhos pequenos, gorda, alegre, cozinheira renomada, era a responsável pela cozinha do único hotel da cidade, o Grand Hotel. À noitinha ela chegava carregando as sobras "das panelas, viu, minha gente? Sou pobre, mas não como resto". A sexta e última casa do conjunto era, senão a menos tratada, igual às outras. Depois dela havia um terreno baldio, onde o lixo era colocado e mais tarde selecionado pelas crianças da rua, principalmente eu, que considerava o lixeiro propriedade particular minha, já que ficava ao lado da minha casa e não do lado da casa delas. Este lixeiro separava prudentemente minha casa da outra

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na esquina, uma mansão, comparadas às anteriores. Uma casa de perdição, diria dona Bina. Esta sexta casa, a minha, oferecia ao transeunte a imagem de uma mulher costurando, sentada no banquinho de três pés, apoiada na porta. Sem cerimônia, conversava com uns e outros, geralmente homens. Eu bem que observava, apesar de ter somente uns cinco anos. As mulheres viravam o rosto e cuspiam no chão, desprezo absoluto pelas maneiras pouco decorosas de Rosa Aparecida Castilhos, a Rosinha, esposa do "coitado do Antenor, homem bom, comadre, não merece aquilo". "Aquilo" ou “Vadia”, plena nos seus vinte e seis anos, mãe de quatro filhos, inclusive eu, conversava com o carteiro, sem se incomodar com os olhares curiosos e acusadores. — Bom dia, dona Rosinha. Como vai a vida? — Ah, seu Getúlio, não vai nem vem. Tudo na mesma, ou por outra, pior. Seu Maneco cortou o fiado da venda e agora. . . — fez um gesto de desalento e baixou o olhar, melancólica. O carteiro, apoiado com a mão direita na parede e a outra arrastando a sacola vazia, baixou o tom de voz. — Tudo tem solução, dona Rosinha. Às vezes a gente chega a uma encruzilhada. Ou escolhe o caminho da concorda? — Eu sei, — um sorriso malicioso transfigurava o olhar — eu sei que é só querer, mas não é fácil romper assim. Pedreira é uma cidade pequena, e eu tenho filhos. Não sei porque os tive, mas eles estão aí e com tanta fome quanto eu. Bom, a prosa está boa, mas eu tenho que entrar. À tardinha vou visitar a velha Benedita, sabe, ela anda adoentada. A velha Benedita morava do outro lado da cidade, atrás do cemitério. Ninguém a visitava, muito menos ao entardecer, mas Rosinha não ligava para
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tranqüilidade e barriga cheia, ou

continua pela estrada esburacada da pobreza, fome e falta de amor. Não

almas de outro mundo. O que a interessava era viver alguns momentos de aventuras inconseqüentes, como intervalos na luta pela sobrevivência. Enquanto preparava o feijão mexido com farinha de mandioca, suspirava: — Ainda bem que o nenê mama. Por enquanto é menos um a me pedir comida. À tarde, deixou o pequenino aos cuidados de Pedro, meu irmão de nove anos, e saiu faceira com Elvira, um ano mais velha que Pedro. Eu tinha apenas cinco anos, mas já sabia que nem deveria pedir para ir junto, estava acostumada aos passeios de Rosinha, sempre ao fim da tarde. Sempre para visitar a velha Benedita. Sempre bem disposta, nestas ocasiões. *** — Mulher, já é noite, onde andavas? Lá da minha cama, na sala, eu escutava os gritos desesperados do nenê nos braços desajeitados de papai. Pedro, depois de entregar o pequeno fardo ao velho, enrolara-se no catre ao lado do fogão e dormia, ou fingia dormir. Elvira entrou correndo e tratou de deitar logo na nossa cama. Antes que eu tivesse tempo de perguntar qualquer coisa, ela foi logo prevenindo: — Cala a boca e me deixa dormir. Fica aqui. Não pude obedecer. Desci da cama e fiquei espiando. Papai era um homem alto, porém encurvado, magro e carrancudo. Balançava o menino como se ele fosse culpado de alguma coisa. Ou como gostaria de sacudir a mulher. Percebi seu olhar, estava cheio de raiva, ciúme impotente e amor não correspondido. Estavam casados havia onze anos. Naquela época Rosa Aparecida era como o nome: uma delicada flor que de surpresa apareceu na sua vida solitária. Eram outros tempos. Papai trabalhava nos arrozais, com as canelas imersas na água. Os invernos extremamente rigorosos roubaram-lhe a saúde e a energia. Além de tudo, era dezessete anos mais velho que Rosinha. Segundo tia Chica, irmã de papai, eles se conheceram
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numa festa comemorativa ao sucesso da colheita, e aí a diferença de idade marcou ponto a favor. Mas naquela noite, com quatro filhos para alimentar e vestir, Rosa o via com outros olhos, um estranho, um inimigo. E papai percebia que, aos quarenta e três anos, era um velho. Velho demais para o romance, para a segurança, para o futuro. Rosa Aparecida ainda era uma flor, só que ele não podia mais aspirá-la. Então ele repetiu, mais alto, acima dos gritos do menino: — Mulher, onde estavas? Rosinha tornou-lhe o bebê e respondeu: — As crianças não te disseram? Fui com Elvira visitar a velha Benedita. — Outra vez? Cheguei em casa e as crianças não tinham jantado ainda. Ela sentou-se, abriu a blusa e expôs um peito à criança, que o sugou vigorosamente. Levantou bem o rosto, contraído de ódio. —Jantado o quê, podes me dizer? O Maneco da Esquina cortou o fiado e eu não sei fazer sopa de pedras! Antenor sentou na caixa de lenha, vazia a um canto, enfiou os dedos entre os cabelos grisalhos e murmurou, acho que mais para si mesmo: — Meus Deus, meu Deus! Para que tudo isto? Para que a gente nasce, cresce, passa a vida lutando contra a correnteza, se um dia vai morrer afogado mesmo? Tanto sacrifício, lutas, sofrimento, lágrimas, e de repente. . . — deixa os braços caírem, cobre os olhos para não ver o desprezo nos olhos da mulher e pena nos meus. *** O mau cheiro do quintal sufocava a casa. Mamãe balançava o nenê. Ia da sala — a minha cama, duas cadeiras e um baú – para seu quarto e deste para a cozinha, voltava e cada vez o menino gritava mais.

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Aquilo não era normal, ele nem o peito queria. A princípio nervosa, depois irritada, Rosinha explodia. — Elvira! Cadê esta guria? Vem cá, toma esta criança que eu não aguento mais. Vocês todos querem me enlouquecer. Pestinha, tu não me inventa de ficar doente. Pobre não pode ter este luxo. Eu tratei de sumir da sua vista. Deixei Elvira percorrendo o mesmo trajeto e cantando as mesmas cantigas, e fui arrancar os espinhos da roseira do quintal. Coitada da roseira, conseguia vicejar naquela imundície e botava as rosas mais cheirosas, creio que numa tentativa de compensação. Vi quando Rosinha saiu, com o xale preto jogado sobre os ombros. Ela provavelmente fora na venda do Maneco ver se ele, boticário por necessidade, poderia dar um conselho ou remédio, qualquer coisa que fizesse o menino calar a boca. Na volta vinha comida em reflexões, nem percebeu a presença do carteiro, nem a minha. — Que houve, dona Rosinha? Vinha no mundo da lua. — Ui, que susto! É, seu Getúlio, sinceramente eu não sei o que fazer. Não precisa dizer nada, eu sei o que o senhor vai falar. Ah, se não fosse pelas crianças... Eu não sabia nem imaginava o que ele teria falado, mesmo assim tive um arrepio de nojo quando ele aproximou-se dela e tocou-lhe o braço. Ele sussurou algo que captei como: — Pensa, mas não demais. Cada dia que passa é um a menos para se viver. *** — Antenor, quero falar contigo. O rosto dela estava tenso. As palavras saiam como tiros. Parecia um ultimato.

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— Fala — respondeu ele, cabisbaixo. Nós catávamos feijões no caldo ralo que havia no prato. — Eu hoje levei o nenê na Santa Casa. O médico examinou-o e... — Que foi? — perguntou papai e nós três repetimos a pergunta com os olhos. — Bom, ele disse que o garoto está sub não sei o quê. Falou que meu leite não adianta nada, ele precisa é de vitaminas e um monte de remédios. Falou também em alimentação sadia, leite de vaca, sopas e frutas. Vê só, ele deve comer papinhas! De onde eu vou tirar? — Calma, Rosinha. Eu vou dar um jeito. — Jeito? — gritou entre lágrimas — Que jeito tu vais dar? Teu filho morre e tu vais continuar na mesma droga, sentado a catar feijão nesta lavagem de porco! Correu para a cama e soluçou alto. Papai juntou os pratos na bacia e nos mandou dormir. Abracei as pernas de Elvira e adormeci, certa de que algo muito ruim estava para acontecer. Poucas horas depois acordei. O silêncio era quebrado apenas pelo coaxar dos sapos a pedir chuva. Continuei acordada. Na madrugada romperam trovões e relâmpagos e uma violenta chuva abafou os passos dela na estrada barrenta. Apenas a porta da cozinha a bater tresloucada denunciou sua fuga sem retorno. — Mãe. Mãe! Manhê! Tô cum medo. Mãe, vem cá ! A noite era trevas e trovões. Sentada na cama de ferro, chamei e chamei. Silêncio. Elvira dormia nos pés da cama, sem nada escutar. O medo virou terror. A luz intensa do relâmpago desenhava figuras monstruosas nas paredes e teto. Goteiras derramavam chuva por todo canto. Eu tinha horror à chuva, trovões e coriscos, sem saber o porque do medo. Queria a proteção da mão nos meus cabelos e a voz acalmando: — Dorme, filhinha. Mamãe está aqui.
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Um trovão fez tremer cada bloco de torrão, como se quisesse derrubar a casa. No meu pavor, "senti" a parede em cima de mim. As figuras pareciam monstros que vinham devorar-me. — Mãe! Cadê a senhora? Ouvi passos. Alegrei-me. Ë a mãe que vem proteger-me. Não. É papai, levantando-se para o trabalho. Com voz grave, chamou: — Pedro, acorda. Hoje vais comigo para me ajudar. Elvira, ó Elvira, daqui a pouco faz um café prá ti e tua irmã. Tonta de sono, Elvira estranhou. — Ué, e a mãe? Ela está doente? Papai respondeu abruptamente, para evitar novas perguntas. — Tua mãe saiu. Não sei quando volta. Faz o café e cuida da tua irmã. Vou falar com o Maneco, mais tarde tu passa lá e pega um pão e um pedaço de lingüiça, mas só comam na hora do almoço, viu? Anda, Pedro. Meus olhos deveriam estar arregalados em muda interrogação. Não entendi nada. Percebi que a mãe não estava, o café descia quentinho pela garganta e os trovões diminuíam. Quando o sol enfim espantou a chuva, fomos brincar de fabricar bonecos com a lama vermelha da estrada. — Vira, cadê a mãe? — Não sei. — Ela morreu? — Deixa de ser boba. Ela deve ter saído e já volta. Ei, não senta ai no chão! Vem prá dentro. — Tu vais sair? Onde tu vais? Vou ficar aqui sozinha? Todo mundo vai embora e o trovão vai me pegar de noite. Agarrei-me à saia de minha irmã. Elvira afastou-me, entrando em casa. — Me larga, guria. Vou ao Grupo, daqui a pouco eu volto. Toma, come este pão com linguiça, é gostoso.
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Chorando, comi o pão. Elvira era uma menina alta, morena, toda a minha segurança estava nela. Eu era franzina, loura, completamente diferente dela, totalmente dependente, insegura, cheia de medos. — Todo mundo vai embora. Eu não quero ficar sozinha! — Fica brincando em cima da cama, e pára de chorar. Eu preciso estudar, não é? Para não me sentir tão solitária, sentei à porta, onde Rosinha costumava costurar. As vizinhas passavam e conversavam, comigo. — Olá, menina bonita. Porque estás chorando? Moça não chora. Onde está a mamãe? Eu então me aproveitava, explorava ao máximo a pena de mim mesma. Fungava, armava o beicinho. — Não sei. Ela saiu de noite e não voltou. Acho que o trovão roubou ela. As vizinhas me acariciavam, se entreolhavam e prosseguiam o caminho. Nos rostos a expressão do "eu não disse?" A tarde custou a passar. Enfim, chegou Elvira e até esqueci a ausência da mãe. — Vira, o que tu fez na escola? Deixa eu desenhar com teu lápis? Oia, tô cum fome, não tem mais pão. — Não tem mais nada para comer. Vamos esperar o pai e tira já a mão do meu lápis. Só tenho este. Papai conseguira vender grande parte da lenha que passara o dia cortando e transformando em achas. Apesar de molhadas, o povo comprava, tanto por precisar de lenha como por caridade. A lenha virou dinheiro que virou feijão cozinhando em gordura da linguiça e muita água, para render. Os grãos semi-crus, servidos nos pratos de folha, foram engulidos inteiros, com farinha de mandioca e muita, muita fome.

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A mesa sem toalha, vela em cima duma lata, o silêncio quebrado pelo tinir das colheres contra os pratos e o mastigar ruidoso. Como num mudo acordo, ninguém falou em Rosa Aparecida. Ela era a lembrança de uma flor que o minuano desfolhou. SEGUNDO PASSO O ser humano tem a característica de se adaptar às circunstâncias como o camaleão de mudar de cor, conforme a superfície onde se encontra. Ser camaleão na vida é fator de sobrevivência, isto aprendi aos cinco anos de idade cronológica. Solidão e necessidade ensinam a dura lição da autodisciplina e convivência consigo mesma. No inverno seguinte, entendeu Antenor que Elvira era suficiente mocinha para trabalhar em casa de família como babá. Seria uma boca a menos para comer e um dinheirinho bem recebido em casa. Sob protestos, ela não teve outra alternativa senão obedecer. Elvira era uma criança rebelde, voluntariosa, porém muito sensível ao ambiente. Sempre sonhara com uma casa linda, belas roupas, comida farta, ao contrário de mim, para quem tudo isso era um direito dos outros, sem jamais questionar a possibilidade de vir a possuir. Entretanto, seus sonhos me fascinavam. A mudança de vida operou uma grande metamorfose em Elvira. A fantasia distorceu a verdade. Ela era rica, andava bem vestida, comia o melhor. Não se importava se a casa não lhe pertencia, as roupas eram usadas e a comida, sobras. Pela primeira vez eu a via feliz. As crianças aos seus cuidados eram choronas, admitia, mas que importa? Passava o inverno brincando em frente à lareira, onde grossos toros queimavam. Brilho de magia nos brinquedos e no mundo do faz de conta sobre o tapete colorido... Se a mulher a

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beliscava, que importa? Dormia aquecida por acolchoados de penas de ganso e um braseiro ao pé da cama. Era tão fácil esquecer. . . O inverno do Sul costuma matar de frio tanto quanto a desidratação no verão. Ao anoitecer, o vento empurra levemente as nuvens, o céu pontilha-se de luzinhas. A lua cavalga a trote manso, envolvida num manto amarelado. Fazia frio. Os pés não esquentavam, a menos que papai se lembrasse de colocar previamente na cama um tijolo quente enrolado em trapos. Naquela época eu desconhecia o que fosse trocar de roupa para domir. Ao cair a noite, deitava-me sem ter o corpo de minha irmã para dar segurança e calor ao meu corpo franzino, apenas um tijolo quente para os pés. Nunca mais chamei por minha mãe. A expressão que via nos olhos de papai assegurava-me que "ela" não voltaria. Pedro, calado como o pai, nada comentava. Só uma vez, quando se considerava sozinho na cozinha deixou escapar: — Ela é que estava certa. O próximo sou eu. Elvira, absorvida na nova vida, raramente pensava na mãe, creio eu. Eu sentia ciúme do irmão que ela levara. Desejava sua morte, imaginava cenas em que eu trocava de lugar com ele, depois me arrependia, porque dona Geni me aconselhava a perdoar. Fosse lá o que fosse perdoar, eu deveria ter bons sentimentos. Então adormecia com o cobertor puído tapando-me a cabeça. O ar ficava quente e o cheiro exalado pelo colchão era horrível, mas pelo menos não via as sombras que vinham me pegar. Durante a madrugada o vento cessou. A geada cobria os campos. Miragem de neve na noite extraordinariamente clara. Quando os galos estufaram o peito e tocaram a alvorada, a lua cedeu o reinado argênteo ao dourado sol, que atrás da serra ensaiava seus passos.

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Naquela hora, semi-noite, quase dia, três pessoas caminhavam depressa, molhando os sapatos ao contato com o pasto úmido.O homem e dois filhos. O velho tronco e dois ramos verdes. No meio do mato, sob uma grande paineira, papai tirava o casaco, com ele me envolvia, quieta, tiritante, tonta de sono. Pedro e ele cortavam eucaliptos cheirosos não muito velhos, podavam a galharia, transformavam em paus, colocados em pilhas. Mais tarde os partiam e transformavam em lenha. O problema era cortar tantas árvores quanto fosse possível arrastar até a beira do rio, antes que o movimento atraísse a atenção do dono da propriedade. Era a hora de maior frio, quando a geada levantava. Com as mãozinhas roxas eu puxava mais a gola do enorme casaco surrado. O cabelo ficava todo molhado. Eu esperava ansiosamente que papai desse o sinal para poder correr até o rio, onde me aguardavam os amigos imaginários. Lá pelas sete horas, papai e Pedro descansavam, enquanto o café esquentava na trempe. Aquele dia revelara-se luminoso, apesar de frio. Liberta do casaco, pude enfim correr pelo mato, catar sininhos de eucalipto espalhados no chão, subir em velhos troncos aprodecidos, colher orquídeas nos galhos mais altos, espantar coelhos e preás, desabar em loucas correrias barranco abaixo. O chilrear dos pássaros confundia-se com minhas risadas. Liberdade! Havia três meses eu completara seis anos. Ninguém, nem mesmo eu, lembrou o aniversário. Para quê? Aniversário é data para quem pode comemorar. Um ano mais velha e muito mais vivida, aprendi a reprimir as lágrimas e o medo da solidão. Conhecia a vida pelo que a vida, de palmatória na mão, obrigou-me a aprender. A alegria geralmente vinha pelas mãos de Elvira, no último domingo do mês, quando ela entregava ao pai o dinheirinho do pagamento.
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Era a forma de contar o tempo. Quando chegava o grande dia, a esperança começava cedo. Ela chegava, carregando a velha sacola de lonita listrada. — Olha, maninha, o que eu trouxe para ti, vem ver. Este vestidinho serve em ti. — Vira, me dá este sapato também? Mas não serve.. . é grande. — Grande, nada, boba. O pé logo cresce. — Que roupas bonitas! — É, gente rica usa só um pouquinho e não quer mais. Um dia eu vou ser rica também. — Tu? — incrédula, eu ouvia fascinada os planos da irmã. — Eu vou andar de vestidos floreados como a patroa, vou calçar sapatos de salto alto e usar uma flor de ouro no peito. Ah! E um colar de três voltas! — E eu, Vira? A imaginação, armazenada pelo longo período de isolamento, borbulhava em colorações mágicas. Elvira dava as respostas ao sonho como já estivesse tudo determinado. — Tu vais estudar e ser professora. Vou te levar comigo. E tu sabes o que vou te dar? — O quê, Vira? — Meus olhos brilhavam. — Luvas — revela exultante. — O que é "luvas"? — Burra! Luva é aquilo que a gente cobre os dedos e aquece as mãos no inverno. — Ah! Nunca vi. . . Naquele instante, a porta abriu-se e Pedro entrou, de cara fechada, como sempre. Corri para ele. — Pedro! A Vira vai me dar luvas quando for rica.

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— Bah! Ficar rica7 Quem é que vai ficar rica limpando bunda de criança, heim? Meio desapontada, voltei para a cama e continuei a examinar as roupas velhas que para mim eram luxuosas. Pedro continuou, num de seus raros momentos de loquacidade. — Eu sim, vou sair desta droga de vida. Nunca se consegue nem comida suficiente. — Não fala assim, Pedro, — acudiu Elvira. — Papai se mata trabalhando. — Ele, não, eu me mato trabalhando. O velho não consegue nem segurar mais o machado. Olha, — disse enquanto sentava à cavalo numa cadeira, como via os homens fazendo na venda, — olha, quando chegar a safra do arroz, eu vou trabalhar numa granja. Aí, sim, vou ser gente. Passamos a tarde do domingo sonhando de olhos abertos. A revolta de meus irmãos era um sentimento desconhecido e inquietante para mim. Quando mamãe estava com a gente, ela reclamava tanto, que não era novidade, apenas a constatação de fatos. Faltava feijão, açúcar, arroz, roupas, mas sempre fora assim e nem Pedro nem Elvira jamais contestaram nada. "Ela" falava por todos. Depois de sua fuga, eu tinha a impressão de que ambos a apoiavam. Mas eu não. A noite desceu e mais uma vez fiquei só. Pedro acompanhara Elvira e papai, com o dinheiro do pagamento dela a fazer cócegas no bolso, recuperou um pouco o orgulho. Pedro me contou mais tarde os detalhes. Papai entrara na venda do Maneco com as costas menos encurvadas. A luz do lampião, a fumaça dos palheiros dançava voluptuosa em espirais. Os homens bebiam encostados no balcão, ou sentados sobre latas de querosene, ou recostados em sacos de batatas. Aos aplausos, Zé da Mula, nas horas vagas seresteiro, dedilhava a viola, oferecendo uma canção a cada um dos presentes. A música sempre encaixava com o ponto fraco do alvo do
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deboche. O homenageado ora ficava bebendo calado, enquanto os outros riam e batiam palmas, ora fuzilava o violeiro com um olhar de advertência. Seu Maneco esperava pacientemente que a turma acabasse a brincadeira e voltasse para casa. Papai, a quem a bebida deixava levemente eufórico, acompanhava fora do ritmo a cadência da música. — Agora, lá vai pro meu amigo Antenor! Surpreso, papai aguardava o mote. — Meu amigo Antenor Uma carta recebeu O carteiro lhe entregou Os chifres do Zé Bedeu! Os risos foram abafados pela ação rápida e inesperada de papai. Numa passada, tomou a viola pelo braço e, com um movimento brusco, bateu com ela na cabeça do violeiro. Zé da Mula, menos desmaiado que surpreso, arriou no chão, levando na queda a mesa em que se encostava. Quebraram-se copos e garrafas, alguns dos homens correram para o agressor, outros para a vítima. Papai espumava pelos cantos da boca. — Me deixa enfiar os chifres no traseiro deste cretino! Seu Maneco empurrou o seresteiro e os demais para fora. Trancou a porta, ficou só papai, com o rosto entre as mãos. Num canto, o braço da viola com as cordas arrebentadas em caracóis. O velho Antenor colocou a mão no bolso, tirou o dinheiro e entregou a seu Maneco. A conta dos meses atrasados, os copos e garrafas, a bebida consumida, deixavam ainda saldo devedor. Seu Maneco acariciava o ombro do freguês, dando pancadinhas leves. — Antenor, eu sempre lhe tive consideração, mas agora chega. Enquanto eu não receber o que ficou devendo, nada de fiado. — Vá-se embora e crie juízo. Abriu a porta e aguardou o velho sair.
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Nos degraus da porta, um cachorro sarnoso fez Antenor tropeçar e levou um chute. A frieza da noite refrescava o pensamento em ebulição. Quando se jogou na cama, eu o vi como ele era: um velho, abandonado pela mulher, com três filhos para criar. Um verme que desperdiça o pagamento do trabalho da própria filha. Um fracassado. Tão fraco que nem a coragem para acabar com tudo ele admitia. No domingo seguinte, Pedro e eu acompanhamos o pai à igreja. Pedro ia à contragosto, atrasando-se de propósito. Para mim, no entanto, a novidade era bem vinda. Papai tinha recomendado que eu ficasse nos bancos à esquerda, bem atenta e quieta. — Faz o que as outras fizerem, menos ir comungar. Tu não podes ainda. Timidamente, eu volvia os olhos na direção das mulheres, admirandolhes os véus bordados, terços de madrepérola e missais negros. Nos bancos da direita, os homem circunspectos, bigodes retorcidos e pigarros disfarçados. Por entre as cabeças das outras meninas, eu observava, misto de curiosidade e espanto, o padre entrar de leve, seguido por um padrezinhocriança. Subiu os degraus do altar, onde velas derretiam em castiçais dourados, falando uma língua que não entendi. Procurei meu pai, lá estava, no fundo da igreja, em pé, parecia chorar. Voltei os olhos para o padre. Ele abria os braços, como se quisesse abraçar alguém. Impressionante. Na saída, as pessoas se cumprimentavam, mas papai não se deteve, arrastou-nos, cada filho por uma mão. Estava decidido a corrigir o erro da semana anterior. Comprou arroz tão branco quanto os copos de leite que enfeitavam a igreja, preparou-o com charque, e pela primeira vez eu consegui fazê-lo rir das minhas graças. — Amanhã vou entregar a lenha da padaria. Seu Antônio é um homem bom, vai pagar na hora. Minha guriazinha ganhará um par de sapatos, está certo, palhacinha?

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E cumpriu aquela promessa. Desfilei pela casa silenciosa como uma pavoa, admirando minhas alpargatas, mais lindas que os sapatos de salto alto sonhados por Elvira. *** Passaram-se os meses sem registro na minha memória. Poucas mudanças na nossa rotina. Papai entregara-se totalmente à bebida, já não brigava pela honra ferida. O importante era calar os pensamentos derrotistas. A bebida inclusive o fazia rir de si mesmo. Pedro fugira de casa. Eu cresci mais, meus cabelos escureceram. Seriam lisos, se fossem lavados e penteados mais freqüentemente. Ampliou-se o mundo fantasioso, onde as flores eram amigas, o campo era tapete e as árvores, castelos. A solidão ainda tinha fantasmas, o escuro ainda provocava medo. Lágrimas de vez em quando escapuliam dos olhos apertados para não ver a noite. Era março. Dia ventoso, fim de verão, cintilantes raios de sol filtravamse através das copas verde-empoeiradas das árvores. O riso alegre das crianças a caminho da escola conferia vida nova às ruas de Pedreira. Uma criança não compartilhava da alegria geral, mas a emoção que fazia bater mais forte o coraçãozinho era talvez maior do que a das outras crianças. Era eu, que também ia a escola. Na semana anterior, dona Geni, a gorda cozinheira do Grand Hotel, chamara papai e passara um sermão. — Seu Antenor, dê cá uma chegadinha, faz favor. Desconfiado, papai se aproximara. — Que foi, comadre? — É sobre Rosalina. Quero lhe falar sobre ela. — Ela andou aprontando alguma?
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— Não, que é isto? Ela é um anjo. Eu quero lhe dizer que ontem à tarde ela estava brincando aqui na frente e as vizinhas da esquina, o senhor sabe, as "moças" da dona Esméria, pois é, elas chamaram a menina oferecendo doces. Rosalina entrou, eu achei um desaforo muito grande e fui buscá-la. Fiquei com medo que a inocente tomasse gosto, sabe como são estas coisas. Aparentemente eu olhava muito interessada o trabalho das formigas pretas andando pela parede, mas meus ouvidos estavam atentos à conversa. Papai nunca me batera, mas eu o respeitava porque apesar da aparente indiferença com que me tratava, eu sabia que me queria muito. Afinal, ele só tinha a mim. Por isto a conversa me interessava, ora pois. A casa de dona Eméria possuía uma atraçSo magnética para todos nós crianças. Os meninos mais velhos subiam na velha figueira para espiar o movimento por trás dos muros. Os menores, entre eles, eu, contentávamo-nos em espichar o olho quando a porta estava aberta. As moças eram tão bonitas, tão delicadas! Especulávamos sobre suas maneiras e atividades tão condenadas por dona Bina e dona Geni, sem atinar com o motivo. A filha de seu Maneco, Zizinha, da minha idade, concluiu: — É inveja da beleza delas. Isto nos satisfez. As moças me ofereceram doce de abóbora e a oportunidade de conhecer o interior do castelo. Seria a glória, se dona Geni não fosse tão intrometida. E agora me acusava. Retomei o fio da conversa. Ela dizia, toda sorridente: - Ah, não se preocupe. Dona Quinquinha arruma todo o material, que no início é quase nada, e quanto ao uniforme, eu dou um de Maria da Glória que não serve mais. Assim, resolvemos seu problema e desviamos a inocente das más convivências. — Vou pensar, disse papai, coçando a barba já grisalha.

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— Pense e me diga logo. Eu dou um jeito em tudo, pode ficar descansado. A inocente, no caso eu, pagou pela curiosidade um preço baixíssimo. Acabou com lucro, pois ganhei um mundo novo. Uniforme tipo vestidinho branco, de punhos e colarinho gastos, dois cadernos e um lápis. No início era apenas uma lousa onde rabiscava e apagava. Depois que aprendi meu próprio nome, conheci as letras e os numerais e passei ao caderno. Nos primeiros dias o medo impedia-me de dizer sequer boa tarde à professora. Dona Quinquinha, conhecedora do meu problema através de dona Geni, tratava-me com carinho, senão proteção. Eu adorava este tratamento, mas não os outros alunos, filhos de pai e mãe casados e respeitáveis. O olhar de pena que a professora jorrava sobre mim, longe de me humilhar, fazia aumentar a minha expressão de pobrezinha. Eu não sentia pena de mim, não havia motivo, eu achava. Mas se a opinião dela era outra, porque desiludi-la? E porque acabar um tratamento tão especial? No recreio eu não representava. Era o momento em que não podia contar com a proteção da professora. As crianças corriam, numa barafunda sem sentido para mim. Procurava um canto isolado e dali observava as brincadeiras, ao mesmo tempo em que evitava as maldades dos meninos maiores. Incrível como, para quem está de fora, podem ser ridículas e grosseiras as brincadeiras infantis. Puxar, pegar, fugir, rodar. Havia uma gordinha cujo prazer maior era rodopiar; quando não tinha companhia, rodava sozinha até cair no chão, com cara de boba, sob as risadas dos guris. Estranhos e fantásticos, seres de outro mundo. Vendo que o tempo passava e eu não enturmava, dona Quinquinha resolveu tomar providências. "Criança não tem preconceito", costumava repetir. Convocou os alunos para uma grande roda.
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— Venham, crianças. Vamos, dêem as mãos. Ciranda, cirandinha. . . Rosalina, vem, é uma brincadeira bonita. Quem dá a mão a Rosalina? Os rostinhos ficaram sérios. Houve um silêncio constrangedor. Eu só ouvia o tunc-tunc do meu coração. Queria desaparecer, fugir dos olhares acusadores dos colegas. — Ninguém me ouviu? Quem dá a mão a Rosalina? Nem um som. Olhares furtivos. — Bom, já que ninguém se oferece, eu vou chamar. Elizabete, dá a mão a Rosalina. A menina recuou. — Eu, não, professora. — E por que não? — Minha mãe disse para não brincar com ela. — Ora esta! E por qual motivo? — É que. . . que. . . a mãe dela não presta. Corri o mais que pude para a sala de aula. Dona Quinquinha desistiu da brincadeira. Tentou consolar-me, mas sabia que palavras pouco valiam contra o estigma da rejeição. Não era necessário fingir, a dor que senti foi verdadeira e uma revelação. Havia motivo, e a culpa era "dela". As novidades aprendidas no Grupo Escolar, avivadas pela imaginação criadora da menina solitária, enriqueceram meu mundo interior. Padre Augusto – surpreendi-me ouvindo-o falar português — ministrava as aulas de catecismo, dramatizando a história do Menino Jesus. Por empatia eu me comovia em saber de alguém mais sofrido que eu. Não tinha noção do próprio sofrimento, aceitava a vida sem rebeldia, mas tinha certeza de que só dona Quinquinha gostava de mim. Nem a mãe, nem o pai. As vezes eu achava que ele me considerava um peso. Tinha sete anos e descobria a autocompaixão.
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Num dos domingos, Elvira trouxe, entre os costumeiros trastes, uma boneca. Era uma bruxa de pano, toda esfarrapada, caolha, as pernas presas literalmente por um fio. Nunca me importara com bonecas, jamais tivera uma, mas a menina da cartilha tinha uma boneca chamada Lili, então eu a adotei com este nome. Lili comia à mesa, passeava em meus braços e, ao dormir, eu cantava a canção que o padre ensinara. — Com minha mãe/ estarei na santa glória um dia/ ao lado de Maria/ no Céu triunfarei. *** O crescente apego a Padre Augusto conduziu-me aos livros, os quais ele fornecia, geralmente biografias de santos e mártires. Depois que aprendi ler, tudo que me caía nas mãos era fonte de prazer. E chorava, não por mim, mas pelo sofrimento dos santos e santas, por motivos que nem eu entendia. Acreditava em tudo aquilo, mais uma vez sem contestar. Dona Quinquinha enfrentava a opinião das mães, revoltadas com a proteção dispensada à filha daquela. . . A palavra ficava sempre no ar. Havia uns tempos que eu andava me sentindo triste, propensa ás lágrimas, sem coragem para nada. Dona Quinquinha percebeu. — Rosalina, estás doente? — Não, professora. — Fala, meu anjo. Diz o que é e eu te ajudo. O tom carinhoso desencavou um suspiro lá do fundo do peito. — Acho que dói aqui — e apontei o estômago. — Estás com fome, minha filha? Não tive coragem de admitir. Seria uma acusação direta a papai. — Não trouxeste merenda? Envergonhada, consegui murmurar: — Eu não trago merenda.
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— E almoçaste bem hoje? Novo silêncio, muito mais evidente. Dona Quinquinha rapidamente foi ao refeitório e voltou com um pedaço de pão com queijo. — Toma, anjinho. Eu sempre disse que as escolas deveriam fornecer merenda aos alunos. Afinal, o governo vai precisar destas cabecinhas e destes braços. A partir de hoje, eu forneço tua merenda, certo? E em muitos dias, o lanche dado pela professora era o único alimento que eu ingeria. O mundo exterior também crescia. O limite ia até a praça da Igreja, onde eu assistia missa todo domingo. Não entendia nada do que o padre falava, porém sentia que ele gostava de me ver no primeiro banco da esquerda. O ambiente me agradava, também. Dentro da igreja nenhum dedo me era apontado, como na rua. Pelo contrário, as expressões fechadas eram uma prova de que todos possuíam algum tipo de culpa, também. Papai acabou por desistir da lenha. Sem Pedro, era impossível para ele sozinho cortar a árvore, desgalhar, transformar em achas e depois distribuir nas casas. Com a inauguração da rodoviária surgiu a oportunidade de um bico, variavelmente remunerado. Com isto acabaram-se também os passeios pelo mato e beira-rio. Em compensação descobri o prazer de vagar pela cidade. Pedreira fora uma grande estância, dois séculos atrás. Tão grande que virou cidade. Porém outras estâncias também se transformaram em cidades, em localizações mais convenientes, e Pedreira parou no tempo. Pouco progresso, pequenas mudanças. Para mim, no entanto, era a maior cidade do mundo, porque era a única que eu conhecia. O centro da cidade, de paralelepípedos perfeitamente encaixados, calçadas estreitas, casas geminadas, a praça, com seus bancos de madeira sobre armações de ferro e a fonte, cuja água jorrava do pote que uma bela moça carregava ao peito – tudo representava um prazer e um convite.
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Poucas lojas havia. A melhor vendia de roupas e sapatos a relhos e cinchas; de pintura feminina a sacos de cimento. E tinha a grande atração: de cada lado da porta os janelões foram aumentados e transformados em vitrines. Através do vidro, com o nariz colado à vitrine, eu engolia com os olhos as guloseimas expostas em grandes potes. Por entre pilhas de chapéus descobri uma silhueta familiar. Na hora senti o choque do reconhecimento e a ação precedeu ao raciocínio. Antes que me apercebesse, entrei na loja e ergui o rostinho, prestes a romper em lágrimas. — Mamãe! A mulher, visivelmente grávida, baixou o olhar para mim tranqïila, como num encontro social qualquer. Rosa Aparecida sorriu. — Como vais, Rosalina? E a Elvira, vai bem? Soube que o Pedro anda pelas granjas, aquele cigano ! Que foi, o rato roeu a tua língua? — Ma. . . mamãe! — era só o que eu sabia dizer. — Anda, guria! Continuas a mesma bichinha do mato. Quanto tempo faz? Dois anos... Bom, já vou indo. Dá um beijo na Elvira, tá? Permaneci no mesmo lugar, vazia de emoções ou pensamentos. Súbito, percebi o ar penalizado da vendedora e me voltei em direção à porta. Sem parar nem para respirar, corri até em casa, joguei-me na cama, soluçando histericamente. Papai, impressionado, tentava coordenar as palavras em sentido lógico. — Sim, diz, filha. Tu vistes tua mãe. Sim, na loja. E ela? Nem te ligou? Foi mesmo? Está bem, agora estás em casa. Pára de chorar, filha! Nervoso, conseguia efeito contrário com as palavras de consolo. Impossibilitado de me acalmar, procurou dona Geni. Os filhos dela gritaram, do lado de dentro da porta: — A mãe não chegou ainda! Desorientado, passava a mão entre os cabelos, seu gesto caracterfstico de impotência.
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— Já sei, dona Bina. Tão calma, tão segura, de certo me ajudará. Solicitamente, dona Bina ouviu-o e resolveu o caso. — Pode deixar, seu Antenor. Se fosse por "ela", aquela mulher, eu não ia, mas como a pobre criança está sofrendo, eu vou lá. Rapidamente, fechando com cuidado a porta e as janelas vermelhas, já estava a caminho da casa onde "ela" morava com o carteiro. Demorou cerca de uma hora. Voltou derrotada e profundamente indignada. Revelou a um Antenor ansioso o resultado da entrevista. — Aquilo, compadre, não é mãe. É uma cruzeira. Eu cheguei e disse prá ela: Dona Rosa, eu não estou aqui por minha conta. Seu marido (frisei bem a palavra) pede-lhe que vá ver Rosalina. A menina está com febre do choque de revê-la hoje. Não pára de chorar. Então ela tomou conta da porta da casa, mãos na cintura, queixo erguido em desafio e falou: — Pois não é da sua conta mesmo, está entendendo? Pode voltar e dizer àquele velho defunto vivo que se ele quiser, fico com a Elvira, que já está grandinha e pode me ajudar. E é para fazer favor a ele, por que vivo muito bem como estou. Licença, vou fechar a porta para não entrar mosquitos. Ora, febre de chorar... Escutei tudo. Parei de chorar, apenas uns soluços incontroláveis me sacudiam na cama. Papai desesperou-se. — E agora, o que eu digo, o que eu faço? — Põe uns gravetos no fogão e esquenta água. Ela preparou um chá de erva cidreira e obrigou-me a beber. Depois sentou-se na beira da cama, apoiou minha cabeça nos joelhos, e anelando as mechas dos meus cabelos, ora cantava, ora falava: — Dorme, meu anjo. Tua mãe vem te buscar, qualquer dia destes. Dorme, filhinha do meu coração, não tenhas medo do vento, não.

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O sono venceu a consciência. Adormeci naquela noite, na esperança de minha mãe vir me buscar. Dormi naquela e noutras tantas noites. Esperei. Em vão.

TERCE l RO PASSO — Padre, o senhor gosta de mim? Na sacristia, depois da missa, enquanto tirava cuidadosamente as peças bordadas, padre Augusto interrompeu a operação de dobrar e guardar para olhar a menininha atrás de si. — Gosto, Rosalina. Tu és uma menina muito inteligente e sensível. Sinto em ti uma grande potencialidade, esperando ser bem orientada. Agora, por que a pergunta? — É que o senhor me dá santinhos, livros de santos, conversa comigo, mas não deixa eu comungar como os outros. Eu sou pecadora? O padre sorriu e voltou às tarefas. — Rosalina, não é assim. Eu estou preparando a turminha de vocês, nós não temos aulas de catecismo toda a semana para isto mesmo? No mês de Maria... qual é o mês de Maria? — Maio. — Então, em maio, no mês de Maria, uma porção de crianças vai fazer a primeira comunhão. É uma cerimônia bonita, que exige preparação espiritual e um certo ensaio. Depois disto, toda a vez que te confessares, eu te darei a hóstia. — E é ruim? — O que, a hóstia? — É. As pessoas saem do altar com uma cara tão séria, parece que tomaram remédio!
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O padre riu tanto que não conseguia falar. — Ah, Rosalina, fazer bem em desenvolver o senso de humor É a única arma contra as amarguras da vida. Em maio, vestida como uma noivinha, roupa emprestada pelas freiras, no fim da fila das meninas, recebi pela primeira vez o pedacinho de pão tão simbólico. Quando chegou minha vez, abri bem a boca, estendi um palmo de língua, que retornou carregando um peso bem leve, mas imenso. De longe não parecia tão grande assim. Era durinho, mas no contato com a saliva, ficou derretendo. E como juntou saliva! E agora? "Não mastigue, é o corpo de Deus", o padre falara. Mas se eu ao engulir ficasse engasgada ou vomitasse ali mesmo, na frente de Pedreira toda? Foi com alívio que consegui engulir o último pedaço. Juntei minha voz ao grupo e cantei orgulhosa da nova condição. Porteira aberta, toda a vez que quisesse, poderia receber a massa sem gosto, perigosa, engasgadora, mas cobiçada. Era horrível não participar do momento geral, e por fim eu me incluía dentro do círculo. O segundo ano de escola chegou ao fim. Os dias tornaram-se maiores e mais quentes. Os exames finais foram prestados em novembro. O boletim foi guardado junto ao do ano anterior, com o registro de nascimento, únicos documentos a provar que a menina pálida, loura, magricela e suja existia. Abaixo da palavra "APTA", em caligrafia graúda e bem feita, dona Quinquinha acrescentara: "Parabéns. Primeiro lugar do segundo ano primário. Continua assim". Férias, tédio, mormaço, solidão, fantasia. As crianças da cidade procuravam retiro nas estâncias e granjas dos pais, enquanto eu via passar os dias entre as paredes de torrão, ou à sombra do pé de mamona. O pai, quase nunca o via. De vez em quando ele chegava com arroz, charque, feijão ou lingüiça, então eu percebia que o velho estava sóbrio e acometido por um ataque de remorso, o que já era uma constante. Na maior
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parte das vezes era dona Geni que passava um prato sobre o muro do quintal, quando se lembrava, também. Custou, mas chegou março novamente Com um par de alpargatas novas, era impossível deixar de me considerar ao nível dos colegas. Mas os meninos acabaram com a ilusão. Olha a pavona! Olha a pavona! — Não vai cair, Rosalina. Cuidado com a poça d'água! — Como estou bela, pareço Cinderela! Acuada pelos risos e chacotas, encolhi-me toda. Inesperadamente, alguém apareceu em minha defesa. — Deixem a Rosalina em paz. Vocês estão é com inveja O sapato de você é caro, mas faz bolha nos pés. O dela não é de verniz, mas é bem mais confortável. Os meninos se afastaram, tão surpresos quanto eu. A menina salvadora se apresentou. — Eu sou a Bete. Meus pais compraram uma casa aqui em Pedreira, pertinho da escola. Papai é o novo Juiz. Eu sou filha única e detesto ficar sozinha. Tu és Rosalina, eu ouvi o menino chamar. Queres ser minha amiga? Eu não conheço ninguém na cidade. Aturdida e maravilhada com a inesperada amizade oferecida, estendi a mão. Minha primeira amiga. A nova amiga abriu-se em confidências. — Eu gosto muito de conversar, e tu? — Eu também, respondi. — Eu vou fazer nove anos, e tu? — Eu também. — Meu pai não me bate, nem minha mãe. Quando eu sou reprovada numa sabatina, eles ficam tristes. Meu pai é muito inteligente, mamãe também. Eu escuto eles falarem: "não sei a quem ela saiu tão burrinha", mas quando eu chego perto, eles me dizem: "vamos estudar mais para ganhar tal presente".

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Tenho um quarto cheio de brinquedos e livros, mas é tão sem graça brincar sozinha. Não gosto de ler, e tu? — Ah, eu adoro! — Eu queria ter um monte de irmãos, mas mamãe não pode ter mais filhos. Acho que papai queria que eu fosse homem, para ser juiz feito ele. Mulher pode ser juiz? — Acho que não. — Pois é. — Pois é. Silêncio. Nós nos subentendemos. A amizade preenchia as lacunas. No dia do meu nono aniversário, Bete me presenteou com uma fotografia dedicada "a nosa amisadi. Rozalina". Foi um período muito feliz. Tinha uma boneca, sabia ler e ganhara uma amiga. O mundo lá fora estava de cabeça para baixo, a guerra era assunto em todos os lares, mas a minha vida estava maravilhosa Até que num domingo em que Elvira deveria trazer o pagamento, tudo desabou novamente. Papai esperava sentado à mesa da cozinha. Eu lutava para desembaraçar meu cabelo. O velho nem me enxergava. A sua frente havia uma garrafa de cachaça e uma caneca amassada. Lá fora fazia um sol radiante, mas na cozinha parecia noite. Um cheiro de mofo e cinzas superava o da bebida, ele nem percebia. Só se deu conta que era tarde quando não enxergou o conteúdo da garrafa, que secara. Levantou-se, esbarrando na cadeira, abriu a porta dos fundos e recebeu uma lufada de brisa vespertina. — Rosalina, vou ver por que Elvira não trouxe o dinheiro. Adormeci. Parecia que eu tinha acabado de pegar no sono quando ele voltou, enfurecido e mais bêbado. — Aquela ordinária! É igualzinha à mãe. Foi só ficar mocinha e já se enrabichou com algum safado. E por cima levou o dinheiro!

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Percebi que Elvira fora atrás dos sonhos dourados de casa bonita, roupas boas e sapatos de salto alto. Isto era previsto. O que eu não esperava era a decisão de papai. — Mas isto não fica assim. O doutor Felisberto é gente muito direita e não pode ficar sem empregada. Amanhã mesmo tu vais para lá ocupar o lugar daquela sem-vergonha. — Mas pai, o Grupo. .. — Chega de estudar. Bah! Estudar não dá dinheiro a ninguém, muito menos a mulher. Tu vais e acabou o assunto. Os olhos dele saltavam das órbitas e a boca espumava. Fugi para a casa de dona Geni. — Minha filha, faz o que teu pai manda. Mais dia, menos dia, isto teria de acontecer mesmo. O doutor é bom, vai te fazer muito bem trabalhar na casa dele. — Mas eu quero ir à escola, chorei. — Nem sempre as coisas são como a gente gostaria. Tu és uma menina ajuizada, vai, obedece teu pai, No fim das contas, é melhor assim. Na segunda-feira, sem poder sequer despedir-me da professora e de Bete, mudei-me para a nova casa, elegante e cheia de novidades. Energia elétrica, água encanada nas torneiras, banheira, tapetes, sala disto, sala daquilo, coisas que eu nunca ouvira falar. Papai entregou-me à cozinheira sem uma palavra de adeus. A mulher puxou-me para dentro e fechou a porta. Fechou-se o mundo. A cozinheira era uma alemã já de certa idade, talvez cinqüenta anos, encurvada pelo peso do calombo que carregava às costas. O cabelo castanho agrisalhado estava repuxado para a nuca e enrolado num coque fixo por grampos comprados, do tamanho de um dedo. Sua voz áspera mais me intimidou.

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— Acht, como fedes! A patroa exige muita higiene. Vou começar te dando um bom banho, depois tu falas com ela. De certo tem até pulga nesta roupa. "Ë verdade", pensei, sem coragem de admitir em voz alta. Durante a noite, as pulgas enlouquecidas pelo calor das cobertas faziam orgias com meu sangue. Devagarinho, com muita prática, eu pum! Catava uma e mesmo no escuro rodava o bicho entre o polegar e o indicador, e depois, juntando os dois polegares, estalava a pulga com um ruído familiar. Ora, pulgas sempre existiram, por que tanto nojo? A cozinheira sabia manejar a bucha até remover a primeira camada da epiderme. Os cabelos foram tratados com menos carinho ainda. — Quando este banho acabar, tu vais te sentir mais leve. Nunca te lavaram as orelhas? Mein Got, que cascão nestes pés! Vou fazer tranças no teu cabelo que até bonito é, apesar da sujeira. Que horror! Fica quieta, guria! Realmente, depois do banho, com um vestido que fora de Elvira, os cabelos entrançados, senti-me bem melhor. A alemoa até que não era ruim, afinal. Banho tomado, pele vermelha e corpo coçando, fui levada à presença da patroa, na sala de visitas. Elvira vivia comentando as roupas da patroa, mesmo assim eu não estava preparada para o que vi. — Muito bem, Hilda. Podes voltar a cozinha. Eu explico tudo a ela. Helena Sarros de Mendonça, na casa dos trinta anos, cruzou as longas pernas vestidas de meias finas, costuras rigorosamente no meio da batata da perna, ajeitou um fio desalinhado do cabelo curto eriçado no alto da cabeça. Vestia uma blusa branca e saia estampada, colar de pérolas e brincos em conjunto, sapatos fechados, parecia pronta para sair. Mais tarde aprendi que a dona da casa tinha o hábito de andar elegante a qualquer hora do dia. Naquele momento a admiração calava o medo.
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Em rápidas e concisas palavras jorradas daquela boca impecavelmente vermelha, dona Helena resumiu minhas tarefas. Mentalmente, resumi ainda mais: devo, de todos os modos, impedir que as crianças estraguem qualquer móvel ou objeto e, principalmente, evitar que chorem. O menino, sardento, gorducho e violento, tinha quatro anos. A menina, de três anos, era mais ladina. Bastava eu virar as costas para ela aprontar alguma. O dia parecia ter quarenta e oito horas e as crianças as absorviam todinhas. Na primeira noite, quando os anjinhos dormiam serenos, suspirei de saudade da liberdade perdida. Quando o doutor Felisberto estava em casa eu podia contar com sua ajuda e defesa, as crianças o respeitavam. Os dias, no entanto, que ele passava fora, eram uma cruz pesada demais para meus nove anos Quando eu conseguia entretê-los numa brincadeira era maravilhoso porque, afinal, eu também era criança e a quantidade de bonecos, carros e acessórios eram coisas que eu jamais vira. Infelizmente eram crianças que não sabiam brincar e não davam o menor valor ao que tinham. Usei todos os meus recursos e falhei. Tapas, puxões de cabelo, brinquedos atirados no rosto, tanto pelas crianças como pela mãe destas. A madame sabia como dói um beliscão com aquelas unhas longas pintadas. E ai se um menino chorasse quando tinha visita! A justiça de dona Helena era infalível para comigo e complacente para com os filhos. Senti-me traída por minha irmã, sempre a elogiar apenas os detalhes materiais, que pouco me atraíram, esquecendo de contar o que realmente acontecia naquela casa tão linda. A alimentação era boa. Hilda era excelente cozinheira. Para agradar o marido, que se tomara de zelos pela gralha de pernas finas - eu - dona Helena todo dia inventava um remédio. Um dia era para vermes, noutro para engordar, noutro para estimular o apetite, e perversamente me despejava o remédio goela abaixo.
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— Já que ele quer que ela tome remédios, eu dou, ora se dou! Depois de uma eternidade, no primeiro dia de folga, após a missa, encontrei-me com padre Augusto, na sacristia. — Padre, lá é pior do que eu pensei. Sinto tanta saudade do grupo escolar! Da Bete, do senhor, da minha casa. . . Ela me maltrata tanto! —Paciência, filha — aconselhou o padre. — Eu só não entendo porque Vira mentia prá mim. — Ela não mentia: omitia. Era mais fácil contar o agradável, esquecendo deliberadamente o que poderia atrapalhar sua fantasia. Dona Helena é uma senhora bondosa, sob certos aspectos. Lembras quando Elvira chegava carregada de roupas e brinquedos? — Tudo o que não prestava. — Mas ajudava. Este é teu primeiro desafio profissional, se podemos dizer assim. Deves superar as mesquinharias e te concentrar num bem maior, rezar para que não te faltem forças, ser paciente e ter muita, muita fé. Agradeci, beijei a mão do padre e corri para casa, orgulhosa de poder contribuir com dinheiro para a sobrevivência de papai. Ao entregar o fruto de tantos maus tratos, senti uma pontada de dor. Para quê? Para ser consumido em garrafas e garrafas de cachaça. Bem que eu entendia Elvira. Passou-se meio ano. Acostumei-me ao trabalho, de vez em quando percebia até uma pontinha de carinho nas atitudes das crianças. O doutor conversava comigo como se eu fosse adulta. Hilda me deixava tomar banho sozinha, não havia mais pulgas e o meu corpo se enchia com um pouco de gordura. Só a madame insistia em torturar minha vida. Um dia, aconteceu o que eu mais temia. O menino, angelicalmente, atirou o vaso mais bonito, o de cristal da Alemanha, pela janela afora.

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-Meu vaso! Rosalina, onde estás, demônio? Como ousaste permitir que o menino brincasse com meu vaso? Foi mamãe quem me deu, ela o trouxe especialmente para mim! Irresponsável, agora tu me pagas! Sacudiu-me pelas tranças, indiferente aos apelos de misericórdia. O menino, que a princípio dera boas risadas, agora chorava comigo e pedia perdão. A ira da madame aumentou mais ainda, nem Hilda podiacontêla. Parece um destino inevitável para as pessoas da famíliaCastilhos a fuga durante a noite. Com o corpo coberto de equimoses, fugi. Sem medo de escuro, de cobra ou qualquer outro terror noturno, fugi. Papai, sem dinheiro nem crédito, estava sóbrio. Tomou a decisão que eu necessitava: saiu imediatamente para tomar satisfação. Mas se levava intenção de conseguir algum dinheiro, deu-se mal, porque do salário dona Helena descontou o valor do vaso e acabou com papai devendo a ela. *** Finalmente de volta à casa de torrão e chão batido, tentei voltar à escola. Papai, acostumado à fonte de renda segura do meu emprego, falou com dona Quinquinha, sim, mas para ela me conseguir outro emprego. Minha primeira e única professora conseguiu uma colocação na casa de dona Eugênia, professora aposentada e quase cega de catarata. E sem tempo para aproveitar um dia sequer de liberdade, recomecei. Tantas vezes eu tinha passado em frente daquela casa e nunca tinha reparado. Pudera, a casa era idêntica às outras. Geminada, elevada em relação à calçada, ao nível desta havia uma janelinha de porão. Uma janela e uma porta. Papai bateu. Dentro, um rumor de passos e chaves entrechocalhando-se. A porta foi aberta e uma velha, de chambre, cabelos em desalinho, pés calçados em chinelas de pano, piscou para a claridade da rua. — Quem é? — perguntou em voz rouca. Papai adiantou-se.
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— Dona Quinquinha falou que a senhora está precisando de empregada. Eu trouxe minha filha Rosalina. A velha piscou ainda mais, tentando enxergar o vulto pequeno atrás das pernas do pai. — Cadê a moça? Parece uma criança. — Ela só tem nove anos, mas é muito esperta. Aprende logo o serviço. — Então, pode entrar. O senhor aceita uma xícara de chá? — Não, obrigado. Eu trabalho na Rodoviária e já, já chega o ônibus de Santa Lúcia. Anda, Rosalina, vê se trabalha direito. Assim que a porta se bateu atrás de mim, pisquei, como a velha, para acostumar os olhos à semi-escuridão do interior. — Cuidado com o degrau. Está meio carunchado. Sobe até aqui. Depois de uma pequena escada de seis degraus havia um corredor. À direita, uma parede dividia a casa ao meio, do outro lado outra família morava. A esquerda, uma porta fechada. À minha frente, no fim do corredor, a sala de visitas e ao mesmo tempo sala de jantar. A mobília era antiga, pesada e modesta. No centro, apenas a mesa e quatro cadeiras, de madeira escura como a cristaleira entupida de livros, bichos empalhados, bibelôs, copos, pratos pintados a mão e até uma boneca de porcelana, careca e pelada. A velha indicou o sofá, sob a janela que dava para um quintal minúsculo. — Senta aí, vamos conversar. Rosalina, hum? Quantos anos, mesmo? — Nove, respondi baixinho. Outro interrogatório, suspirei. — Esta é a melhor idade para se aprender a viver. Seja na escola, ou trabalhando, a gente nunca esquece as coisas boas que se faz nesta idade. As coisas ruins costumam se apagar, mas a vantagem dos nove anos é justamente estas: só as boas ficam. Sabes ler, pois não? — Sei, sim senhora.

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— Ainda bem. Livros são as melhores companhias, principalmente quando se fica velho. Acho que gastei meus olhos de tanto ler. Um a um, os parentes foram morrendo. Como não casei, não tive filhos. Hoje minha família está reduzida a um sobrinho-neto, que me sustenta por caridade. Sabes que idade eu tenho? Tentei adivinhar. Olhei a senhora ao meu lado avaliadoramente. Magra, ágil, rosto vincado de rugas, expressão serena, porte ereto, apesar do desalinho das roupas e do cabelo, percebi um quê de magestade, de classe, algo que faltava na minha patroa anterior, apesar das roupas caras e jóias. Possivelmente fora uma boa professora, alternando disciplina com carinho. Quanto à idade, era difícil decifrar. — Não sei. Uns cinqüenta. A velha sorriu, exibindo dentes perfeitos. — Ah, meus cinqüentas anos! Naquele tempo eu dava aula a moleques do teu tamanho. Lá se foram setenta e nove, criança! Sei que não foi tentando me agradar que falaste cinqüenta. Eu ainda tenho muita saúde, apesar da catarata e um certo desequilíbrio da audição. É por isto que eu preciso manter alguém comigo, alguém que leia para mim e me ajude nas tarefas domésticas, que eu detesto. O segredo de conviver bem comigo é muito simples: apenas paciência. Isto resume tudo. Agora vou te mostrar o resto da casa. Ela mostrou-me a cozinha, atulhadas de panelas sujas, restos de comida e dois gatos dormindo sob o fogão, na caixa de lenha. Abriu a porta do quintal, apontou a tina de lavar roupas e o banheiro. Não era propriamente luxuosa a casa, nem miserável como a minha. Foi o meio termo que me agradou. Luxo em excesso intimida e dá um bocado de trabalho. Pobreza demais gera indolência e fraqueza. Combinamos que eu dormiria no sofá. Não fosse o cheiro de urina, seria uma cama tão boa quanto a da casa do doutor. A velha dormiria no quarto da frente, com os gatos.
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Com espontâneo entusiasmo, abri janelas, limpei, arejei o que pude, porque me senti segura. Em compensação aos trabalhos braçais, dona Eugênia me proporcionava o maravilhoso mundo das letras. Eu corria a manhã toda, ligeira, ansiosa para acabar o serviço logo. As tardes eram reservadas aos livros, os quais eu lia bem alto. Mesmo sem entender totalmente o sentido às vezes, eu gostava de manusear os exemplares gastos. Tinha certeza que a velha já os lera e escutara dezenas de vezes. Shakespeare, Flaubert, Aluízio de Azevedo, Camões, Dickens, Casimiro de Abreu, amigos, a cada livro, mais amigos. A velha cochilava, o inverno passava. E eu não parava, pois quando menos esperava, ela, de olhos fechados, me interrompia para uma reflexão. — A vida é sempre a mesma. Aos homens é dado o direito de serem poetas, bêbados, dissipadores, como este Campos Lara do livro. Agora, quem é que segurou a família, quem sobreviveu e garantiu a sobrevivência do próprio poeta? Quem economizou, guardou, multiplicou e criou os filhos? Ele, o sonho, ela, o feijão. Ah, os homens! Presta atenção, guria, os homens só querem tirar de nós, mulheres, e não dão nada em troca, só filhos. Nos meus quase oitenta anos, jamais me arrependi de não ter casado. Não gosto das tarefas domésticas, aprecio o sossego, a paz. Casar para ter um homem na cama? Meus gatos fazem efeito melhor. Encabulada pelo rumo da conversa, ousei um palpite. — Mas os livros sempre falam do amor. — Amor realmente é muito bonito. Amor pela humanidade, amor pelos animais, pela natureza, pela harmonia do universo, sim. Amor faz a poesia, faz o namoro, o sonho. Eu quero ver depois de vinte anos se aturando, onde vai parar o amor. Escuta o que te digo, não te deixes levar pelas emoções. Pensa no teu futuro.

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Eu bem que gostaria de replicar, mas faltavam coragem e argumentos. Os livros davam conselhos opostos. Transmitiam a presença de algo mais do que só tirar ou receber. Guardei comigo minhas dúvidas e conclusões. Nas noites chuvosas, a leitura se estendia até às nove horas. Quando o tempo permitia, ligávamos a máquina falante — um enorme rádio — e ficávamos escutando as notícias da guerra e músicas fanhosas, transmitidas por estações castelhanas. Dona Eugênia desenvolveu em mim o trabalho começado pela alemã Hilda, exigindo que eu cuidasse da minha aparência. — Ser pobre não é vergonha. O que importa é ter higiene e educação. Banho e boas maneiras fazem uma dama. Claro que ela simplicava demais. Na verdade, ela parecia moralista, mas era uma pessoa que aceitava o outro como ele era e procurava me ensinar a agir assim. — Por exemplo, a tua mãe — dizia ela —. Não precisas ficar vermelha. Todos sabem o que ela fez e já é tempo de superar isto. Ela errou, ou não, depende do ponto de vista, porque agiu pensando na própria sobrevivência. Deves te colocar no lugar dela e viver toda a sua vida para entendê-la. Como isto é impossível, aceita o que aconteceu e esquece. — E eu? — Tu estás bem, a vida te protege. Já o mesmo não aconteceu ao filho que ela levou. — O que houve? — Ora, ela abandonou três crianças e levou uma. Pois justo esta que ela levou é paralítica em consequência de uma febre que teve quando pequenina. Podes chamar vingança, mas talvez seja a chamada "justiça divina". Foi seu preço e ela pagou e pagará até o fim dos dias.

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Até a idade de onze anos, convivi e absorvi parte daquela personalidade tranqüila e sábia. Um dia acabou o sonho. Eu lia "As aventuras do sr. Pickwick" de Dickens, tão absorvida, que nem reparei na sua morte. Fui fazer um comentário sobre a estranha maneira de falar do Desconhecido, levantei os olhos para ela, ainda sorrindo. Seu corpo tombara sobre o sofá e os olhos estavam abertos. Corri, chamei os vizinhos, que tomaram todas as providências. Foi meu primeiro encontro com Dona Morte e eu nem a vi passar. Levou dona Eugênia para o desconhecido e a mim, levara de volta à casa de torrão e chão batido. Nunca eu tivera tanta percepção de como pode ser suja e deprimente a pobreza quanto naquele dia que voltei. Dois anos fizeram muito por mim. Transformaram-me num ser humano consciente do mundo e com menos pena de mim mesma.

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QUARTO PASSO No fim do primeiro mês em casa, descobri que Pedreira era implacável. Não consegui emprego e não aguentava mais as impertinências do velho Antenor. Mesmo gostando dele, o respeito acabara. Além disto, eu já me acostumara a manter várias atividades e a preguiça não conseguia me atrair. Decidi então procurar tia Chica. Na estância eu trabalharia e ganharia algum dinheiro para manter vivo meu pai, agora transformado no palhaço da rodoviária, sempre bêbado. Comuniquei minha decisão a papai, creio que ele não entendeu nada. Quando um peão de Soledade - a estância - veio fazer as compras mensais, subi à boleia da carreta puxada por dois bois imensos. Nunca tinha deixado Pedreira antes, mas já havia acontecido tantas coisas pela primeira vez, que mais uma não foi novidade. Na estrada poeirenta voltei-me para um adeus ao lugar que eu amava, mesmo na injustiça. No luscofusco avermelhado do entardecer foi ficando pequenina a cidade que fora minha prisão, minha escola, meu juiz e meu mundo. Fui recebida com um entusiasmo que me surpreendeu. Já era noite.
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— Eu resolvi trabalhar aqui com vocês. Da outra vez que a tia foi a Pedreira falou que eu podia ganhar um dinheiro aqui... Tia Chica nem deixou tio Flor abrir a boca. — Claro, claro. Bom, assim no início eles vão observar se tu sabes fazer as coisas direitinho. Depois a gente combina o teu salário com o patrão. Mas fizeste muito bem em vir. Amanhã cedinho vou te mostrar como se cuida do galinheiro. *** Mal rompeu o dia o silêncio me acordou. Sentei-me na beira do catre e procurei pensar com clareza. Praticamente era tudo igual à casa de papai. As paredes de torrão, a pobreza do mobiliário, o chão de terra batida, tudo idêntico, com excessão do pessoal da casa grande, que não conhecia, nem tardei a conhecer. Coloquei milho e água no galinheiro, varri com folhas de piaçava amarradas na extremidade de um pau e sai pelos campos. O ar era puro, o silêncio chegava a ser sonoro. Um joão de barro construía sua cabana sobre a estaca da cerca. A vegetação rasteira e o terreno pedregoso só prestavam para a criação de gado mesmo. Ao longe, sombras de morros distantes entre as nuvens. Lugar perdido e esquecido. A sensação de solidão era presença quase física, como eu nunca sentira antes. Voltei em direção à casa grande e suas dependências. Como abelhas em atividade, uma pequena multidão cuidava das tarefas diárias. Do curral emanava o cheiro bom de leite recém-tirado, uma tentação, àquela hora da manhã. Timidamente me aproximei da figura humana sentada num banquinho baixo, a ordenhar rapidamente uma vaca impressionante de tão gorda. Em cada
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uma das divisões do estábulo havia uma vaca, pronta para ser ordenhada. A medida que fosse despachada, era encaminhada por outro peão ao campo. O homem que ordenhava percebeu-me. — Ora, gente nova por estas bandas! Quem és tu, vivente? — Sou Rosalina, sobrinha do Floriano. Vim trabalhar na estância. — Pois sejas bem vinda. Aceitas um copo de leite quentinho? — Sim, senhor. — Apanha a caneca em cima daquele barril; é para isto mesmo que ela está ali. O velhote era ligeiro. Quando voltei com a caneca, a vaca já era outra. O balde vazio recebia o leite espumante com um ruído de chuva. — A vida aqui é boa, desde que se trabalhe. Já falaste com o patrão? — Ainda não. —É bom que fales logo. Ele não gosta de gente estranha rondando pela casa. — Eu não sou estranha. Sou a só... — Sei, sobrinha do Flor e da Chica. Mas é ele quem dá a palavra final aqui. Uma voz trovejou atrás de mim. — E dou, mesmo. Como é que é, a mocinha da cidade veio passear na fazenda? Surpreendida e corando violentamente, a ponto de doer o rosto, baixei os olhos. — Aqui ninguém fica se coçando, ouviu? Todos trabalham para merecer pelo menos a comida. Os teus tios estão velhos e incapazes, pelo bem deles é bom que tu dês conta do galinheiro. O pedido de ovos está aumentando e a sujeira campeia nos ninhos. Trata de trabalhar direitinho por eles. Arrisquei um olhar das botas à cintura do homem de voz grossa. As bombachas de tecido riscado, seguras por um cinturão cheio de enfeites; de um
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lado pendia um revólver, de outro a guaiaca recheada de pratas. O chicote batia impaciente no canto alto das botas. — Aqui não se bate em ninguém. Se não prestar, cai fora. Olha para mim quando falo. Obedeci. Da camisa branca ao rosto corado de barba bem aparada, o velho era todo autoridade e imponência. Apesar das rugas, ainda era uma bonita figura. — Teu tio já te ensinou a alimentar as galinhas? — Já, sim senhor. — Então, vem conhecer a patroa. Ela deve ter um serviço para ti. Não gosto de moleques desocupados perambulando pelas redondezas. Segui o patrão uns três passos atrás. Atravessamos o quintal e subimos a escadinha da cozinha. Entramos. Registrei rapidamente cada detalhe, sem perder de vista as costas longas que me precediam. Um cheiro de doce de abóbora perfumava a cozinha, ampla, quase do tamanho da casa dos tios. O fogão a lenha, em plena atividade, comportava a chaleirona preta, dois calderões fumegantes e ainda sobrava muito espaço. No centro uma mesa enorme, coberta por toalha alvíssima de crochê e várias qualidades de verduras recém-colhidas da horta. Na frente do fogão, mexendo um dos caldeirões com uma colher de pau, estava a cozinheira preta de avental lambuzado e cuia de chimarrão na outra mão. Outro detalhe que não me escapou foi a despensa num canto da cozinha. Estava escura, mas a claridade que entrava pela porta delineava sacos e vidros de conservas nas prateleiras. O dono da casa não tinha intenção social de apresentar ninguém a ninguém, já reclamava minha demora e me apressei em segui-lo. Percorremos um corredor cheio de portas fechadas, que desembocou na sala de jantar. — Aqui é a varanda - disse ele. Na casa do doutor chamavam sala de jantar, aqui é varanda, anotei mentalmente. Pisando com cuidado no tapete de flores, desviei da poltrona
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coberta por um pelego meio gasto. Combinação estranha de biblioteca, sala de estar e jantar era a varanda da estância. Este aposento era o coração da casa, onde a família se reunia para comer, conversar, resolver negócios, jogar truco ou apresentar a nova criada aos seus membros. A varanda continha uma mesa com doze cadeiras estofadas de veludo vermelho, uma cristaleira de fundo espelhado entesourando copos de cristal de vários feitios, um sofá de três lugares, a cadeira de balanço a um canto e a poltrona de pelego. Na parede, fotografias amareladas de homens engravatados e bigodes retorcidos e mulheres de chapéus quase a cobrir os olhos. — Senta ai, vou chamar a senhora. Sem saber qual lugar deveria o ocupar, preferi ficar em pé. Tive medo de encontrar uma outra dona Helena, elegante, fria e sádica, por outro lado, queria agradar a nova patroa e o vestido que eu usava certamente seria um ponto negativo no julgamento. Quem se agradaria duma magricela de pernas finas com aquele vestido costurado por suas próprias mãos? O franzido da cintura se desfizera e eu tentara imitar a costura original, sem bom resultado. Para piorar, eu estava crescendo e a saia mostrava os joelhos ossudos. Precisava urgentemente de sapatos, a corda das eternas alpargatas puída. No momento não havia nada a fazer. O grupo entrou e parou do outro lado da mesa. O rigoroso dono da casa levantou a mão e fez as apresentações. —Esta é a sobrinha do Floriano. Veio morar com os tios e ajudá-los. Isto resolve muita coisa, já que os velhos não servem para mais nada. Aqui, guria, é a minha família, só falta o filho mais velho que estuda em Santa Lúcia. E apontando a mulher que parecia mais velha que ele, prosseguiu: — A mãe dos meus filhos — dona Vitória. Esta moça aqui é a Zeni, está noiva de casamento marcado. A pretinha atrás dela é a Odete, irmã de leite de
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que

eu

usava

estava

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Zeni. Cuidado com ela, é muito namoradeira. O garoto é o Tonico, o caçula. Bom, já chega de conversa fiada. Tu agora te entendes com dona Vitória. Depois das obrigações no galinheiro, corre para cá e vê se ela tem algum serviço. Vou andando. Até. O grupo atrás da mesa parecia constrangido com a súbita ausência do líder. A tarefa de quebrar o silêncio e comandar a situação caberia à dona casa, mas esta parecia mais nervosa do que eu. Foi o menino, impaciente com tanta conversa e depois com o silêncio, quem provocou uma reação. — Ah, eu não vou ficar aqui com cara de bobo, eu não. Vou é pescar. Ô guria, tu sabes pescar? Odete, com voz esganiçada, respondeu por mim: — É capaz que ela vai saber pescar! Não vê que a mocinha está chegando da cidade? Onde ela teria aprendido? A moça apresentada como Zeni acudiu em meu favor. — Cala a boca, Odete. Cuida da vida, anda, o sol já vai alto e hoje é dia de lavar roupa. O menino e a negrinha saíram correndo da sala. A moça contornou a mesa e pôs a mão na minha cabeça. — Sejas bem vinda a esta casa. Não liga para a gente, não estamos acostumados com novidades, não é mamãe? Olhou para a mulher, imóvel junto à cadeira na cabeceira da mesa. — É, sim, filha — respondeu com ar cansado. — Mamãe é muito doente. Uma das tuas tarefas certamente será procurar marcela para o chá que ela toma às refeições. E continuou falando, com agradável tom de condescendência e meiguice A mãe se arrastou até a cadeira de balanço, que ocupou com um suspiro fundo. Surpreendi-me contando resumidamente minha vida, o menos dramático que pude. Percebi simpatia nos rostos a minha frente e perdi um pouco a timidez.
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As pessoas colocam ou tiram barreiras com um breve olhar. Com João Menezes, o velho forte e dominador, havia mais que uma barreira a separá-lo dos outros. O orgulho de controlar a vida de todas aquelas pessoas criou as barreiras da vaidade, da prepotência, do egocentrismo e do medo. Medo de se expor a quem quer que fosse. Nem a própria esposa poderia garantir que o conhecia. A filha, no entanto, era transparente como os vidros da cristaleira. Moça prendada, simples, inocente. A negrinha Odete, como cria da casa, que tinha ampla liberdade com ela, mesmo assim não conseguira romper a aura de inocência daquele rostinho. Zeni fora criada como flor delicada, presa às saias da mãe, recebendo diretamente desta as impressões sobre a vida. Se dona Vitória sempre fora medrosa ou se tornara assim na convivência com o marido, pouca diferença fazia. Zeni adquiriu as mesmas maneiras suaves, o temor aos homens e o dom de calar os pensamentos, exatamente como a mãe. *** Logo a rotina da estância me envolveu. No fim tudo não passa de rotinas das quais guardamos uma ou outra lembrança vaga. Antes do que imaginara já atravessava a cozinha e o corredor, abria portas fechadas, limpava os cristais, batia o pó do sofá, preparava a trouxa de roupa suja da família e com Odete descia o barranco em direção ao arroio, cantarolando em paz comigo mesma. O milagre do campo operava em mim a mutação de bicho da cidade para gente da campanha. Voltei a sentir vontade de rir, falar, correr, como qualquer outra menina de onze anos. Só que as meninas de onze anos já tiveram dez anos, nove anos, oito, sete, seis. . . e eu não tinha idade. Como se eu fosse eterna e imutável, um ser diferente, observando o mundo em derredor crescer e envelhecer, e eu ali, onipresente, expectadora, isenta de cronologia.
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Tanta idade e tão pouco conhecimento. . . Odete ria-se da minha ignorância. Quando nos dirigíamos ao arroio com as trouxas do dia, lançou de chofre mais uma. — No Natal o patrão sempre dá um fandango para a peonada. Vem gente de todo canto. É homem que a gente pode escolher. Surpreendi-me com o termo novo. — O que é fandango? — Ora, não acredito. Quem no mundo nunca foi a um fandango? Eu nasci num. Depois é a gente da campanha que não sabe das coisas. Fandango é uma festa onde a gente dança, bebe e come, e retoça muito. O patrão contrata um ou dois sanfoneiros, espalha a notícia e na noite da festa a gente coloca as melhores roupas e se prepara pros arretos. Entendeu? — Mais ou menos. Deve ser bom. Por que não é de dia a festa? A negrinha largou a trouxa na beira do arroio e ria com gosto. — Tu és boba mesmo. O fandango é de noite por dois motivos. Um deles é que de dia a família oferece um churrasco só para a peonada da estância, e o outro, o principal, é o escuro. Se fandango fosse de dia, todo mundo ia enxergar a gente nas macegas, ah! ah! ah! — Eu não tinha pensado nisto. Tudo é tão estranho para mim, parece que há tanta coisa a conhecer que eu nunca havia sonhando! Minha irmã Elvira é que ia adorar. — E cadê ela? — Fugiu, há três anos. Ela, sim, sabia de muita coisa. Eu só sei o que li, mas é bem diferente quando se trata de viver. Enquanto conversávamos íamos ensaboando as peças de roupa e estendendo ao sol para quarar. Depois sentávamo-nos para vigiar e esperar. O verão trouxera a sirene da cigarra e a terra parecia que já, já racharia com tanta quentura. As árvores nem se mexiam, ao longe a boiada procurava a sombra
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das mangueiras de pedra para cochilar. Cheiro forte de terra e capim queimado. A água gelada do arroio refrescava os pés como uma amostra do que poderia fazer ao corpo todo. Senti vontade de falar. — Quando eu era pequena, meu pai me levava com ele para cortar lenha no mato. Havia um rio onde eu brincava enquanto o velho partia as árvores. Mas era diferente, o rio tinha correnteza braba e eu morria de medo de entrar nele. Ficava só na beirada, que era cheia de árvores, subia nelas e me balançava até tocar os pés na água. Mesmo com medo, era tão bom que eu ria alto. Ninguém me escutava. . . Odete começou a recolher a roupa para enxaguar. — Tu és uma criatura engraçada. Tens o corpo de criança, mas quando abres a boca, pareces uma velha lembrando o passado. — Vai ver que já vivi muito. — Por outro lado, és a inocência em pessoa. Garanto que tu nem sabes o que fazem um homem e uma mulher quando estão sozinhos. — Ora, eles se amam. A negrinha me enviezou um olhar malicioso. — Amam, como? — Sei lá, eles seguram as mãos, olham nos olhos, falam coisas bonitas... Deve ser assim. — Só isto? — Acho que é. Tem mais? Odete entrou no arroio com a água até a cintura, em busca da camisa que pretendia ser levada pela correnteza. Sua risada assustou as cigarras que se calaram, surpresas com a concorrência. — Eu não sei se conto ou deixo que tu descubras sozinha a verdade. Fiquei com a curiosidade atiçada. — Qual verdade? Existe mais alguma coisa que eu não sei ?

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— Os teus livros nunca me fizeram falta. Meus mestres foram os peões das estâncias e te garanto que nesta matéria eles foram os melhores. Ah! Rosalina, és mais inocente do que eu pensava. Vamos colocar esta roupa para enxugar e depois procurar uma sombra, senão viro carvãozinho. Este sol está me torrando por dentro. *** A chegada do Natal trouxe tantas novidades que mal eu digeria uma, lá vinha outra acontecendo. A azáfama na cozinha começava cedo. Com a cesta carregada de ovos eu subia os degraus da cozinha com a língua meio palmo de fora, depositava-a sobre a mesa e corria ao galinheiro para apanhar novo carregamento. Tia Chica nunca mais alimentara as galinhas, perus, patos e marrecos. Sua vida agora era mais na cozinha, sob pretexto de ajudar, e comia tudo que sobrava ou estava de maneira que ninguém ia dar falta. A obesidade não a deixava passar normalmente na porta, tinha que entrar de lado. Quando sentava, metade do traseiro cabia na cadeira, a outra metade escorregava para os lados. Já o tio Flor arrastava a perna dura pelo quintal. Se era hora de tirar o leite, fazia de conta que ia ajudar, mas só carregava os baldes vazios. Se era hora do almoço fazia companhia à peonada no galpão e enquanto os outros comiam, ele chupava a bomba do chimarrão, pensativamente. À noite ficava até altas horas com os homens sentados em pelegos a fumar e contar causos enquanto o sono não vinha. Nos intervalos ninguém o achava. Eu morria de medo que seu João Menezes resolvesse mandar os velhos procurar a estrada. Estrada que fascinava tio Flor. Tonico, o caçula, me contara que várias vezes observara tio Flor perto da porteira e que um dia criou coragem para indagar. — Está esperando alguém, tio Flor?
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O velho se assustou e deu meia volta, depressa. — Não, não. Fico só olhando e me lembrando de quando eu era moço e percorria esta estrada à pé. Naquele tempo eu não tinha a perna entrevada nem era casado. Tonico ria muito da própria resposta. — Quer dizer que nenhuma desgraça o segurava, não é? O velho sorriu, meio amarelado. — A gente faz cada besteira nesta vida ! Acha que dá tempo para tudo, só que o tempo passa e quando a gente se dá conta, chegou ao fim e não fez nada. A velha a comer, o velho a lamentar e eu segurando o emprego dos dois. De dinheiro ninguém nunca falou. Eu bem que tinha vontade de ajudar papai, mas a verdade é que ultimamente eu o esquecia com uma freqüência que me causava até remorso. *** Não havia tempo para nada com a aproximação do Natal e da chegada do filho mais velho dos Menezes. Dona Vitória parecia mais encolhida de pavor do que normalmente, Zeni tentava dar as ordens por ela, Odete pretextava qualquer serviço fora e só sobrava quem? Eu, claro, só sobrava eu para arejar os quartos, lavar, polir, bater merengues e encher potes de compotas que a cozinheira, mãe de Odete, ia preparando nos tachos de metal. Compota de figo era a pior, acho que de tanto despelar figo acabei detestando a fruta. Os figos cozinhavam na rua no tacho sobre brasas. Etelvina, a cozinheira, jogava cinza do fogão sobre os figos, como alquimia acima da minha compreensão. Depois de cozidos, cabia a mim tirar a pele fina, o liqüido escorrendo pelo antebraço e pingando nos cotovelos. No fim da tarefa, os braços estavam empolados de tanta coceira, mas bem que dava orgulho ver aquela dúzia de potes enfileirados em cima do armário.

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Tia Chica ajudava, sentada, por causa da gordura que a impedia de ficar muito tempo em pé. Batia as claras até ficarem como cimento de reboco para Etelvina cobrir os bolos que eram guardados na despensa. Zeni entrava e saia, o cabelo fugindo do laço, as faces coradas e o avental sujo de sangue de galinha. Era a primeira vez que eu participava de uma festa de Natal; apesar do cansaço, parecia justa a trabalhadeira. Na manhã do Natal, ele chegou. Até então o filho dos Menezes não passava de um retrato amarelado na parede da varanda. Zeni e eu estávamos dando os últimos retoques na arrumação da mesa do churrasco, sob a parreira ao lado da casa. Fora instalada uma mesa comprida sobre cavaletes e dois bancos completavam o conjunto, um de cada lado. Colocávamos a toalha, que o vento insistia em levantar, quando Zeni gritou: — Joca! Eu levei um baita susto. Zeni correu para o irmão e o abraçou, rindo alto. — Hum, que festa! Será que mereço tanto? — Seu moleque, a gente te esperava antes. — Não deu, tive de fazer os exames finais. — E foste aprovado? — Na tangente, mas deu para passar. Cadê o pessoal? — Mamãe está lá dentro, descansando. Papai foi escolher uma novilha com os peões. Tonico foi junto. — E quem é a princesinha? Zeni soltou-se do abraço e voltou para junto de mim que timidamente olhava para o chão recém-varrido, ainda com as marcas da piaçava. — Ela é Rosalina, sobrinha da tia Chica. Está trabalhando aqui. O olhar do rapaz fez meu sangue subir todinho para o rosto.
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— Ainda é pequena, mas promete muito. Quantos anos tens? —- Doze. — Ah, ela fala! Zeni apartou, impaciente. — Tu não te emendas mesmo. Vamos avisar mamãe, ela está ansiosa para te ver. Fiquei só, com o coração batendo tresloucado e os pensamentos confusos como formigas que perderam o rumo. Que loucura, só com a presença e o olhar aquele moço conseguia tudo aquilo dentro de mim. . . *** O churrasco foi servido ao meio-dia. Ao lado do galpão os peões fizeram uma vala, atearam fogo e deixaram virar brasa. As costelas pingavam gordura que fazia erguer labaredas, logo controladas pelo capataz da estância. Odete e sua mãe, Etelvina, ajudadas por alguns piás, levavam os pedaços assados para a mesa. A maioria dos peões certamente preferiria comer em pé mesmo, perto do fogo, mas naquele dia de festa o patrão fazia questão de vêlos à mesa com ele. João Menezes, de bigodes lambuzados de gordura, estava contente. Tinha sido um bom ano, sem grandes geadas e o verão não prometia seca. O filho sentado à direita, promessa de que depois dele, a fazenda continuaria. A filha à esquerda, ao lado do noivo, era seu orgulho secreto. Criara uma moça como tinha que ser, apesar da influência da mãe. Tonico lhe escapava um pouco, mas quando crescesse mais, entraria na linha. A sombra triste no almoço era a figura enrugada na outra extremidade da mesa. Dona Vitória odiava festas por causa da confusão que geravam antes, durante e depois na sua rotina pacata. Tinha horror a barulhos, agitação, gente estranha e bebedeira.
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Com o gostinho do vinho a me travar a língua, comi e assim que pude, fugi para a casa da tia. Zeni já tinha me prevenido para dormir à tarde, a fim de aguentar o fandango, e mesmo sem o aviso, eu dormiria de qualquer maneira, tudo por causa do vinho. Deixei para Odete a tarefa de lavar a louça e tia Chica que enxugasse os pratos. O vinho me deixava bravamente egoísta. Acordei ao escurecer. O mormaço da tarde passara, mas ainda fazia calor. Tomei um banho frio na tina atrás da casa, igual ao que a alemoa Hilda me dera, anos atrás, de ficar cheia de coceira; lavei os cabelos e deixei-os soltos, apenas uma fita, retalho do tecido do vestido novo, amarrada no alto da cabeça, para evitar que me caíssem sobre os olhos. O vestido era uma beleza. Zeni o fizera, de pano estampado e preguinhas na cintura, decote rente ao pescoço, mangas balão, abotoado nas costas. A tia conseguira entrar num vestido com cheiro de naftalina, e, do fundo do saco de guardados, tirou um leque de figuras japonesas. O tio usava bombachas enfeitadas e lenço vermelho sobre a gola da camisa que um dia fora branca. "É bom demais" pensava eu, "parece um sonho". O galpão todo iluminado atraía as gentes que chegavam. Todos riam muito e se desejavam Feliz Natal. Sobre o trablado improvisado, dois sanfoneiros afinavam os instrumentos e se entreolhavam, concordando com a cabeça. As moças andavam de lá para cá, de braços dados; as crianças tomavam posse do salão, em correrias loucas; os rapazes conversavam do lado de fora, fumando palheiros fedorentos e bebendo aguardente por conta dos Menezes. Os velhos se agachavam nos calcanhares, a cuia de mão em mão, e as velhas procuravam cadeiras para passar a noite entre fuxicos e cochilos.

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Os sanfoneiros fizeram uma pausa propositadamente, e de repente, ao mesmo tempo, abriram o fole e os oitos baixos de cada um inundaram o salão com o som da rancheira sacudida. As moças soltaram gritinhos histéricos e os rapazes apagaram os cigarros com a ponta da bota. Afastando as crianças, os pares foram tomando conta do espaço reservado para as danças. Os lampiões pendurados na vigas lançavam nuvens de fumaça e cheiro de querosene misturava-se ao de poeira agitada. Eu estava em pé, atrás da cadeira da tia. Com os olhos imensamente abertos, queria ver toda aquela novidade: os homens abraçando as mulheres e pulando sem errar o passo, tão certinho e bonito! As saias se enchiam de ar nos rodopios e as botas marcavam o ritmo, e todos riam felizes. Um peão mirim, lá pelos quinze anos, cheio de espinhas e um ameaço de bigode, aproximou-se de mim, inclinou a cabeça e ficou esperando que eu fosse até ele para dançar. Atônita, olhei para a tia, como a pedir ajuda para me livrar do convite, mas tia Chica me estimulou a aceitar. —Vai, guria, é dançando que se aprende a dançar. Se eu fosse menos gorda, não perdia uma marca. Olha como os piazitos dançam e faz igual. Faltou coragem e apenas sacudi a cabeça em negativa. O rapazote ficou vermelho e virou as costas na mesma hora. Tocavam um vanerão. As crianças recusavam-se a ceder espaço, moças dançavam com moças, velhas com velhas, a melodia era mais que um convite, era uma intimação. Mesmo desejando participar do grupo alegre, sempre sentia medo de ser apontada, ridicularizada, desprezada. Nunca vira tanta gente junta. Na igreja talvez coubesse mais, porém ali, pela constante mudança de lugar, parecia um formigueiro. De vez em quando Odete passava por mim, rindo acima da música, e tornava a se perder na multidão. Zeni dançara um pouco, só para abrir a festa; dona Vitória nem aparecera; seu João proseava no pátio com os capatazes das outras estâncias; Joca entrara, olhara divertido e superior em redor e sumira.

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Fora os peões de Soledade, todos os outros eram estranhos, por isso levei um baita susto quando alguém bateu nas minhas costas. — Alas puchas! Olha quem anda por estas bandas! O que hai, vivente, não me conheces mais? — Pedro! Tu por aqui? — Ora, se não! Mas tu estás uma prenda mui linda! Pareceres até estancieira. Como le vai, tia Chica? Tia Chica torceu o corpanzil para ver melhor o rapaz forte que a ela se dirigia. — Pedro, que figura me saiste, heím? Nem pareces filho do teu pai, ou melhor, pareces, sim, no tempo que ele era moço e forte como tu agora. Como vai a vida? — Vai se levando como o Patrão lá de riba permite. A tia dança esta marca comigo? — Ah! Ah! Ah! Eu dançaria todas, vontade não me falta, até o pé está coçando de saudade. Mas ensina esta potranca aí que ainda está muito xucra. — Ah, com o Pedro eu vou! A música era uma guarânia mais acessível aos primeiros passos de uma adolescente num baile. Pedro, como bom irmão, até que tinha paciência comigo e eu, uma vontade louca de saber dançar, apesar da tentação de olhar os pés, mas logo superei e me entreguei à invejada carreira pelo salão. Quando acabou a música, Pedro, ofegante, levou-me de volta à tia. — Para quem não sabia dançar, está mais que bom. Quase fico sem a ponta das botas. Agora eu vou dar uns bordejos por ai, ver se apanho alguma chinoca no meu laço. Até já. Murchei como uma flor sem água. Só me restava observar os outros. Já estava na metade do baile, a tia roncava sem cerimônia, e resolvi ir sozinha até o quarto dos fundos do galpão, onde as moças se pintavam, se

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cheiravam, trocavam segredos e ajeitavam as saias. Na porta, uma cortina de chita evitava os olhares compridos para o interior. Afastei a cortina, procurei a privada para aliviar a bexiga. Numa das paredes havia um grande espelho e o grupo de moças o ocupava todo. Meio de longe, vi meu próprio rostinho miúdo, corado, sendo logo afastado para o lado. Na cama várias crianças dormiam tranqüilamente, como se estivessem nas próprias casas. Eu já ia saindo, quando fui forçada a retroceder por causa de nova leva de caturritas faceiras. Acabei caindo sentada na cama, por isso não fui notada pela senhora que penteava as melenas da filha moça. — Tu viste aquela guriazinha que saiu agora7 Ela está mudada, mas a reconheci. — Nem reparei, é bonita7 — Ainda é pequena, deve ter onze ou doze anos. Eu conheço bem a mãe dela, tu deves conhecer também, a Rosa Aparecida, aquela amigada com o carteiro de Pedreira. Foi uma pouca vergonha, ela abandonou três filhos pequenos e saiu pelo mundo, daquele jeito. Pela cara da filha, posso até dar um palpite quanto ao futuro que a espera: no mínimo vai andar com meio mundo para depois achar um coitado que case com ela. Estremeci, uma onda de náusea contraiu meu estômago. Coloquei a mão na boca e sai correndo. Passei por tia Chica, que ainda ressonava, pelo irmão que dançava com uma moreninha de trança, e abrindo caminho na multidão que vinha em sentido contrário, consegui atingir a porta da rua. Esbarrei em alguém conhecido, na hora nem percebi que era. — Ei, princesinha, que bicho te mordeu? Volta aqui, vamos dançar esta valsa. Nada me faria parar, nem mesmo o filho do patrão, com ou sem olhares de fogo. A vergonha era o meu estigma. O pensamento martelava repetidamente:
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A letra escarlate. A letra escarlate. A letra escarlate. As imagens da infância voltaram nitidamente Correndo pelo campo, voltei a ser a menininha que fugira dos colegas que não me queriam na roda da ciranda. Correndo, era a menininha que, quando o sol esquentava, liberta do casaco do pai, conhecia cada árvore, cada passarinho, cada pedaço de chão do mato. Fugir era um alívio. Estar só na solidão do campo, chorar com os sapos do arroio, havia certo consolo no carinho do vento embaraçando meus cabelos, como afagos que nunca recebi. No campo aberto não havia ninguém para tocar com o dedo na ferida do meu peito. A personagem do livro que eu lera para dona Eugênia me descrevia rigorosamente no momento, só que eu era a filha, não a mãe. Rosalina Silva Castilhos, doze anos, corpo em mutação, coração sofrido, deixou de ser criança, se é que algum dia já fora. Naquele instante, no meio da madrugada, o fruto vermelho dentro de meu ventre amadureceu e escorreu quente pelas pernas finas, manchando o vestido novo da festa de Natal. O corpo se rebelava à infância. A lua começava a decadência, na serra as nuvens adquiriam o tom violáceo do nascente. Na semi-obscuridade, eu menina-moça estremeci de susto, ao perceber a mancha no vestido. Pensei que tivesse me machucado ao cair na cama, mas não me lembrava de ter sentido dor alguma. Também, o choque pelo que ouvira tinha sido tão grande, no mínimo esbarrara em algum objeto. Por algum tempo esqueci meu drama interior. Voltei para casa, preocupada com o sangue que continuava a escorrer, troquei de roupa, coloquei um trapo dobrado entre as pernas e deitei-me fingindo dormir quando os tios chegaram. Pela manhã, lavava o vestido na tina quando Odete me assustou. — Rosalina, fujona! Não gostaste da festa?
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— Mais ou menos. — Pois para mim estava maravilhosa. Eu nem sabia que tu tinhas um irmão tão bonito, pena que ainda é muito piazito. Quer parecer homem feito, mas falta um pouco de prática. Dancei com ele, sabes? — Foi? — Não me pareceres interessada. O que aconteceu ontem? — Nada. — Quem nada é peixe. Que mancha é esta? Enfiei o vestido dentro da tina, escondendo a parte manchada. — Acho que derramei vinho. — Mas na hora da festa não estava assim. — É, foi depois que eu vi. — Não serão as comadres? — O que é isto? — Ah, bobona, não sabes nada mesmo! Comadres, doença de rnês, sangue que vem quando a gente não está prenha, entendeu? Esbugalhei os olhos. Então era normal aquele sangue. Não me ferira, nem fora o vinho, como chegara a pensar. — Isto acontece com todo mundo? — Não, só às moças e mulheres até uns quarenta e poucos anos. Deve ter sido a primeira vez para ti. —Foi mesmo.

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— Então, filha, toma cuidado. A partir de agora, toma cuidado para não embarrigar. Tu és mulher. Todo mês vais ter este incômodo, não pegues sereno, nem deves lavar a cabeça, nem bater bolo, que abatuma. *** Depois do Natal, a rotina voltou á estância Soledade, para o sossego de dona Vitória. Uma certa tristeza de fim de festa tomou conta de seus moradores Pretextando curso extras, Joca voltou à cidade, sem ligar para o desespero de dona Vitória. Zeni bordava lençóis e toalhas. Tonico sumia no mato e Odete era figura inconstante na casa grande.Na falta de outros pensamentos, a lembrança de papai ocupou novamente minhas dúvidas. — Tia Chica, eu quero ver o pai, saber se ele está bem. — Já te enfadaste da vida na campanha? — Não, senhora. É que fico preocupada, nunca mais tive notícias. Será que seu João se incomada de eu ir na carreta com seu Bento? Ele vai apanhar umas encomendas em Pedreira. Enquanto ele carrega, eu dou uma fugida até em casa. — Acho que ele não se importa, mas eu por mím, penso que não vale a pena ver tudo aquilo de novo. — Eu volto, não tem perigo. Só quero ter certeza. De madrugada parti , na companhia do capataz. Já era dia claro quando cheguei a Pedreira que parecia uma cidade desconhecida aos meus olhos já acostumados à amplidão do horizonte. Procurei o velho na rodoviária, sem encontrá-lo. Sai andando pelas ruas, reconhecendo cada detalhe, e sem querer, percebi que meus pés me levaram à igreja, silenciosa, escura, quase sinistra. Encontrei o padre Augusto na sacristia, lendo.

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— Surpresa! — Quem está ai? — Não me conhece mais7 — Minha memória anda me falhando... ei, é Rosalina, sim senhor! — Puxa, pensei que o senhor tinha me esquecido. — Estou ficando velho, não liga. Mas tu estás muito bem! Mais alta, mais gordinha, o ar do campo te foi benfazejo. — Eu gosto de Soledade, a gente trabalha bastante, mas comida não falta. — Estás feliz7 — Feliz, feliz, não. Apenas satisfeita. Acho que nunca vou me sentir totalmente feliz. — Aí está o engano, Rosalina. Felicidade não é um estado permanente de euforia. Felicidade são os momentos que se vive no dia a dia, em paz conosco e com o mundo. Pigarreou e continuou: — Felicidade é ter o espírito sossegado e o coração aquecido. Teus tios te tratam bem? — O tio mais parece alma doutro mundo, quase não fala e a tia fala pelos dois. Me tratam bem, sim, mas sem carinho. — Sei, sei. Tens rezado? — Para falar a verdade, não. Até me esqueci como se reza o terço. — Isto é mau. Nunca deves te afastar de Deus. Ele é teu melhor amigo. — Tantas coisas aconteceram...Vou lhe contar o que disseram de mim na festa.
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Relatei a conversa que involuntariamente ouvira. O padre escutou atentamente, de olhos fechados, remexendo as contas do rosário que pendia na cintura. Por fim, quando conclui, ele comentou: — Pois é isto, filha. A maior vítima ainda sofre, mas isto não deve te esmorecer, pelo contrário, deve ser tua força. Vivendo com dignidade conseguirás passar por cima destas mesquinharias. Tua meta será superar as iniqüidades e tirar o máximo de proveito das vicissitudes da vida. O sofrimento é o melhor mestre. Quem passou fome, sabe o valor de um pedaço de pão. — Muito obrigada, padre, — disse enquanto beijei-lhe a mão. — Eu já vou indo, quero ver o pai antes de voltar. —Vai com Deus, filha, e não esqueças de rezar. A conversa me deixou mais leve, pronta para enfrentar o mundo. As moças de dona Esméria tentaram puxar conversa, mas delicadamente me afastei, tinha urgência em saber do velho Antenor, por isto entrei na velha casa de torrão. Parecia que séculos se passaram desde que deixara Pedreira, e a casa continuava do mesmo jeito. Sobre minha cama, a velha cama de ferro onde dormira com Elvira, depois sozinha enfrentara as tempestades, a massa de ossos e pele parecia um cadáver, não fosse o ronco sinistro e a baba escorrendo no queixo. Sacudi o pai, que só fez mudar de posição. O velho parecia mais velho, mas estava vivo. Afaguei seus cabelos brancos, depositei um beijo desajeitado em sua fronte e fui embora. Já vira tudo que queria ver. Corri ao ponto de encontro com o capataz, que já estava com a carreta cheia de caixas e sacos, acomodei-me e mais uma vez deixei Pedreira para trás. ***

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O inverno voltou, mais um aniversário comemorado solitariamente, mais galinhas, mais ovos, mais frio, mais bailes. Tia Chica aproveitava a desculpa de me levar às festas de inverno para se enrolar no enorme xale preto e cochilar entre uma marca e outra. Para mim, era reconfortante ser enlaçada por um braço forte e sair cavalgando pelo salão ao compasso de loucas rancheiras. Nas primeiras festas, eu só dançava se fosse com Pedro, mas nem sempre coincidia de encontrá-lo, e os convites eram tantos, e a vontade de dançar tão forte, que a inibição cedeu. Aos treze anos, o corpo já adquiria certa semelhança ao da mãe, que a maternidade apenas retocara. Os rapazes mais velhos me davam mais idade e o meu jeito tímido só confirmava a impressão. Odete tinha apenas um assunto: homens. Para ela a semana custava a passar e após cada domingo, as conversas eram constantemente sobre fandangos, carreiras e churrascos. — Oh! Rosalina, como é que aguentas pôr a mão nesta água tão fria? Não sei cormo esta gente consegue sujar tanta roupa. Eu mesma passo a semana com o mesmo vestido e calça só uso quando preciso forrar. Estou sempre preparada para o que der e vier, ah, ah! — Tu devias deixar de lombeira e me ajudar que vai chover. — Ah, nem ligo. Eu sou uma vaca no cio, o resto é besteira. Tu não gostas de homem? — Gosto de dançar e prefiro que seja com um rapaz. Dançar com outra mulher é tão... —Sem graça, não é? É perda de tempo. Mas eu sei por que elas fazem isto, é para atiçar os menos corajosos. Aí se juntam dois rapazes e vão apartá-las, por que é uma vergonha para eles.

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— Quando é que Zeni vai para a cidade? — Diz ela que é no fim do ano. Vai comprar o que falta para o enxoval, e cá entre nós, o que falta ela não pode comprar. — Como assim? — Ela é do teu tipo, só que tu tens curiosidade e ela não. Botou na cabeça que casar é só cuidar da casa e do marido, que os nenês a cegonha traz. Dona Vitória por certo está esperando a véspera do casório para contar tudo, se é que vai ter coragem. — Tu fazes tanto mistério! —Não há mistério nenhum. Apesar de morar na campanha, duvido que ela tenha sequer olhado um touro cobrir a vaca, o nascimento de um bezerro, ou uma piroca de homem. —Odete! —É isto mesmo. Dizem que sou assanhada, mas eu é que sei aproveitar a vida. *** Naquele ano não houve nem churrasco nem festa de Natal em Soledade, porque Zeni a a mãe foram passar uns tempos em Santa Lúcia para as compras finais. A fazenda modorrava o verão interminável, mas sempre havia a esperança de bailes nas outras estâncias vizinhas. Os Gutierrez ofereceram um fandango animado e havia tanta gente que para entrar no galpão, tinha se que fazer fila. Tia Chica ocupou logo uma cadeira perto da janela, abriu o leque pseudojaponês e ia mostrando os rapazes que conhecia. — Aquele ali não presta. Roubou a guaiaca do seu Romão e apanhou que nem boi fugido. Se ele te convidar, diz que teu calo está doendo. Já estás uma

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moça, nem parece que tens só treze anos. Se inventares de te enrabichar, que seja pelo menos com alguém que te possa melhorar a vida. Os teus tios são velhos, seu João também, a qualquer hora pode morrer e o louco do filho vende a fazenda por qualquer tostão. Aí, quem vai querer dar trabalho a um velho capenga e tantã, e uma velha gorda? Tens que pensar nisto. Olha, se aquele de camisa azul se chegar, dança, mas nada de conversinha, ele é somente um peão. Que planos e sonhos a velha tecia, eu só percebia de longe, sem muito me importar. Gostava de dançar, gostava do cheiro dos rapazes e gostava de que me achassem bonita. A tia cutucou: — Aquele que vem para cá eu não conheço. Se ele te tirar, vê se descobres quem é. O rapaz alto, louro e bem apessoado, lançou-me um breve olhar. Decepcionada por ele ter passado direto, voltei me para a janela. A noite estava linda, a lua clareava os campos quase como de dia. Senti um puxão da tia. — Filha, olha o moço. De fato, o louro estava na minha frente, convidando-me com a cabeça e os olhos. Quase tropecei nos próprios pés. Tomei a dianteira e procurei lugar no salão apinhado. Coloquei a mão esquerda no ombro do rapaz e quando estendi a mão direita para que ele a segurasse, percebi horrizada que não havia mão, só o toco do pulso. O rapaz sorriu, acostumado à reação. Falou com voz grave e sotaque diferente, parecido com o de Hilda. — Segura o punho da manga. Falta a mão, mas ficou o resto do braço e do corpo. Daqui a pouco tu acostumas.

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Passados os primeiros minutos de medo, senti pena daquele rapaz tão bonito e já deformado. Como se tivesse lido meus pensamentos, ele falou: — Não há necessidade de ficar chocada. Eu realmente me sinto feliz por ter ainda a outra mão para sentir o teu corpo junto a mim. Embaraçada com a pressão firme em minha cintura, procurei mudar o rumo da conversa. —O senhor não é daqui, não? — Pode me chamar de Ernesto. Sou alemão, melhor, filho de alemães, morava em Santa Lúcia e agora estou indo para o Uruguai. O amigo que me hospedou veio à festa e me convidou. — Vais passear no Uruguai? — Estou indo de vez, pretendo me fixar por lá. A vida de um alemão aqui no Brasil atualmente não vale nada, mesmo que ele tenha nascido e sido educado como brasileiro, mesmo que seus pais tenham servido o povo sem preconceitos ou diferenças. — Eu não entendo por quê. — Nunca ouviste falar de Hitler? — Acho que não. Aqui na serra não tem muitos alemães. —Aí está a raiz do problema. Hitler é um alemão que está acabando com a Europa, infermizando a vida de milhares ou milhões de pessoas lá no Velho Mundo. Só que eu não tenho nada a ver com ele, nem com as idéias dele, ou qualquer outra relação com a Alemanha. Considero-me tão brasileiro quanto quem nasceu aqui, filhos de italianos ou portugueses. Eu e minha família pagamos pelos erros deste fanático. Olha, a música acabou. Vamos dar uma voltinha lá fora?

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De fato, os gaiteiros descansavam os instrumentos no chão e os pares abandonavam a pista em direção à porta. Era agradável acompanhar o grupo alegre, ao invés de voltar para junto da tia. Mais do que agradável, era como receber de volta algo que me tinha sido recusado. Ernesto, firme, porém delicadamente, empurrou-me entre os casais. Encontramos um canto vago, entre duas velhas figueiras que enfeitavam a entrada da casa grande. Estávamos distantes dos demais, o barulho de vozes e risos chegava até nós misturado e confuso. Sentei num pedaço de raiz que aflorara à terra, ajeitei a saia rodada e num gesto faceiro, alisei os cabelos que o vento teimava em jogar ao rosto O rapaz ficou em pé, a mão normal apoiada ao velho tronco. A lua ora sumia, ora reaparecia atrás de nuvens pesadas e escuras, criando a impressão de dia e noite, alternadamente. As folhagens desenhavam finos arabescos de sombra no chão de terra pisada. Sob a árvore não nascia capim, por causa do uso constante do recanto como refúgio ao sol, ou porque as plantinhas queriam seu próprio espaço. Um rapaz e uma mocinha, entre nós estava nascendo uma forte energia, como uma corrente de eletricidade. O alemão inspirava piedade, ternura e uma vontade quase maternal de acariciar os anéis louros de sua cabeça. Parecia tão injustiçado, sofrido, e ao mesmo tempo confiante e equilibrado, que senti ímpetos de tocá-lo, mas foi ele quem me tocou, de leve, com a ponta dos dedos desenhando o perfil do meu rosto. — Desde muitos meses, tu fostes a coisa mais bonita que me aconteceu. Fala um pouco de ti para eu te conhecer melhor. Encabulada, abaixei o olhar. —Não tem nada de interessante para contar.

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—Sendo assim tão bonita, não acredito que não tenhas nada para contar. Aquele senhora é tua mãe? — Não, é a tia Chica. Moro com ela. —Não tens mãe? "Pronto, estragou tudo", pensei. "Agora vai sentir desprezo de mim, como todo mundo. O que faço, conto ou finjo? Padre Augusto mandaria dizer a verdade. Ora, para que mentir, ele vai embora mesmo, seja o que Deus quiser". — Como é, não sabes se tens mãe? — Sei, sim. Estava só pensando. Minha mãe abandonou nossa casa quando eu tinha cinco anos. Ela nos deixou para morar com outro homem. — E teu pai7 — Papai vive eternamente embriagado, sozinho, sem vontade de melhorar. Eu vim trabalhar com meus tios na estância Soledade, na esperança de conseguir algum dinheiro para ajudá-lo, mas os tios também têm seus problemas, já estão velhos, e até agora só fiz trabalhar por eles, sem receber nenhum tostão. —E teus irmãos? —Elvira fugiu, há anos, deve morar em Santa Lúcia, nem sei. Pedro trabalha nas granjas, mas também não é um emprego fixo, depende da época do ano. Ernesto sentou ao meu lado, tomou-me ambas as mãos na sua mão grande e compacta. Olhando o céu, deu um suspiro. —Nossa vida é como esta noite. Às vezes é escura, assustadora, cheia de fantasmas e horrores. De repente, as nuvens se afastam para o luar surgir, clareando a estrada.

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Por alguns minutos ficamos os dois a olhar o céu, onde as nuvens, impelidas pelo vento, formavam desenhos medonhos. A noite era um convite à recordação. — Quando a igreja que meu pai construiu foi incendiada pelos que nos julgavam nazistas, nós estávamos dormindo. Acordei, sufocado pela fumaça, procurei os velhos no seu quarto, lá não estavam. Corri para a igreja em chamas, desesperado, e encontrei os dois. Minha mãe tentava convencer o velho Fritz a sair dali. Tudo na volta deles estava ardendo em chamas enormes, mas o velho ajoelhado estava, em frente ao altar, e ajoelhado ficou, mesmo quando o fogo começou a derrubar as vigas do teto. Tomei minha mãe nos braços, corri com ela para a rua e voltei, resolvido a tirar o pai de qualquer maneira, mesmo à força, mas na entrada uma viga caiu sobre mim e desmaiei. O pesado tronco incendiado carbonizou a minha mão, eu nem percebi quando alguém me arrastou para fora. Olhava o toco do pulso, enfaixado. — Quando dei por mim, não sei qual foi a dor maior, se a da mão perdida, ou a de ver as cinzas fumegantes da igreja e as de meu pai, misturadas. A mãe ficou em choque, depois daquela noite nunca mais falou uma palavra. Aos poucos foi morrendo também. Eu me curei, mas ela tinha perdido tudo, principalmente a razão de viver. Faz um mês que eu a enterrei, no cemitério protestante. Nada mais me prende aqui. Calou-se. Ao longe, recomeçava a música e a gritaria selvagem dos moços. Ernesto largou minhas mãos. . . Apertara tanto que elas estavam brancas. Enxuguei as lágrimas, normalizei a voz e comentei, baixinho: — Tu me mostraste um sofrimento maior, muito maior do que o meu.

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—Não, aí tu te enganas. Nosso sofrimento sempre é maior que o dos outros, porque acontece na nossa pele. O dos outros acaba sendo esquecido, mas o nosso, nunca. — Eu não perdi nada. — Perdeste a infância, queres perda maior? Eu tive uma boa infância, com tudo a que tinha direito, por isto estou mais preparado para enfrentar o futuro. — Meu futuro é tão obscuro. . . — O futuro é uma incógnita. Podemos construí-lo agora, juntos. Levantei me, as pernas estavam dormentes e o coração em disparada. Para evitar que ele visse o rubor de minhas faces, fiquei de costas. — Como assim? O rapaz também se ergueu, aproximou-se de mim e colocou o braço sobre meus ombros. — Nós dois temos muitas coisas em comum. Embora tenhamos nos conhecido somente hoje, sinto como se te conhecesse deste sempre. Podemos construir uma vida boa para ambos, no Uruguai. Eu estava espantada. — Tu. . . tu. . estás me pedindo em casamento? — Estou. — Assim, sem mais nem menos? — Há minutos que valem pela vida toda. Procurei pensar, mas os pensamentos não me obedeciam. — Eu sou católica, declarei, certa de que achava um bom motivo.

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— E daí? Ambas as religiões acreditam no mesmo Deus. — Eu só tenho treze anos. — Tanto no corpo quanto no espírito, tu és uma mulher. A mulher que serve para mim, pela coragem e vivência, por tudo, enfim. — É melhor a gente voltar para o salão. O baile vai acabar daqui a pouco. — Então vamos dançar. Tens tempo até o fim do baile para me dar uma resposta. Se for sim, daqui mesmo partiremos os dois. Se for não, nós nos despediremos e nunca mais nos veremos. De repente, uma nova perspectiva de vida. Podia ir embora com alemão, começar tudo a partir desta noite. Casaríamos, teríamos filhos, ninguém nunca mais me apontaria o dedo. Deixaria de ser "a filha de" para ser "esposa de". Teria minha casa, minha rotina, segurança e paz. Não era o que queria? Mas. . . e o pai? E os tios? O que seria deles, se partisse? E de mim, o que seria, longe das primitivas raízes? Tinha certeza absoluta de que Ernesto seria o homem que parecia ser, quanto a isto não havia dúvida alguma. Mas poderia ser feliz abandonando a todos, como a mãe fizera? Poderia repetir o fato, sumir com um homem, enquanto pelo menos três pessoas dependiam de mim? A última marca foi tocada. Todos aplaudiram, despediram-se e procuraram o caminho de suas casas. No salão ficaram apenas os namorados, prolongando os últimos momentos enquanto os outros se retiravam. Lá fora o dia nascia. Tia Chica acordou, toda entrevada,

ergueu se e ficou me esperando, impaciente. Se perdêssemos a carona na carroça do pai de Odete, teríamos de ir à pé. Ernesto, olhando em derredor, confirmou o óbvio.

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— O baile acabou. — É mesmo. — Tua tia está fazendo sinais. — Já vou, tia. — Isto significa. . . — Eu não posso, Ernesto. Eu não posso abandonar ninguém, só por que fui abandonada. — Não se trata disto. É da tua vida que estamos falando, não do que passou. — É a mesma coisa. O que fui estará sempre presente em mim. — Embora me cause muita tristeza, tenho de aceitar. Espero que nunca te arrependas do que não chegaste a fazer. Este é o pior dos arrependimentos. — Boa sorte. — Obrigado. A propósito, como é teu nome? — Rosalina. — Felicidades, Rosalina. Ou melhor, felicidade, toda a felicidade do mundo eu te desejo. Tocando me suavemente o rosto, ergueu o e depositou nos meus lábios tímidos um beijo delicado. Olhou me profundamente e foi embora. Com lágrimas nos olhos, corri para junto da tia. — O que foi, que cara é esta? — Nada não. — Vamos logo, nesta altura, a carroça já está lotada. Que demora!

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Acabou o baile e acabou o sonho. Teria saudade daquela noite, a primeira vez que me senti mulher para um homem.

QUINTO PASSO — Sai daqui, guria! Criança por perto só atrapalha. O capataz estava acocorado junto à cabeça da vaca que jazia sobre palhas de milho no canto do estábulo. O animal gemia dolorosamente, parecia que desciam lágrimas de seus olhos normalmente tristes. O bezerro devia ser grande ou outro imprevisto qualquer. Seu Bento, certo de que fora obedecido, esqueceume e concentrou-se na tarefa de medir a dilatação, a mão desaparecendo— dentro da vaca, que tentou um protesto cansado. Desde piazito que seu Bento ajudava as vacas a parir; retirou a mão, satisfeito, e sorriu. — Ah, Mocinha, se eu fosse agora o menino que fui, subiria no teu bucho e pularia tanto que o bezerro seria cuspido fora num ai ! Coisas de guri. . . Agora, jeito eu sempre tive e ainda tenho. É um empurrão aqui, assim, um puxão lá em baixo, zum, o bichinho já está saindo, mais um pouco, é igual à mãe, força. Mocinha, só falta a trazeira, agora, assim ! Pronto. O bezerrinho já estava tentando ficar em pé, mal nascera. Como que reanimada, a vaca lambia-o, sob o olhar enternecido do capataz. — Mui bom, estavas maravilhosa. Mocinha. Agora é contigo. Sempre me admiro das vacas, como são diferentes das mulheres. Tu sozinha darias contas, mas já que eu estava aqui, bem que dei uma mãozinha, não foi? Eu assisti ao espetáculo, ora penalizada, ora encantada. Uma parte da resposta estava ali, como uma figura rasgada em pedaços, e mais uma peça conseguia ser encaixada.

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Se era assim com as vacas, não deveria ser muito diferente com as mulheres, pensei. Na idade em que já estava fisicamente preparada para ser mãe, percebi que um dado muito importante me escapava. O parto era o fim. Como começara tudo? Ridículo fazer perguntas, certamente seria recebida com risos e evasivas. Também, não havia uma pessoa com quem tivesse intimidade suficiente para entrar nestes detalhes. Sob muitos aspectos, tia Chica e tio Flor eram tão estranhos quanto os demais empregados da fazenda. E Odete. . . eu tinha certeza de que, fosse qual fosse a resposta, a mulatinha deturparia, transformando em algo impuro e pecaminoso. A intuição me garantia que a origem da vida tinha que ser bonita, como a concepção da Virgem, mas também me dizia que conosco, pobres mortais pecadores, seria de maneira diferente, posto que não merecíamos privilégios dos eleitos do Senhor. O padre sempre frisara no catecismo que Maria era virgem, jamais conhecera homem, no entanto, era noiva de José. Como, noiva, sem conhecer o rapaz? E se não o conhecia, de que jeito a criança fora concebida? O pouco que eu sabia era suficiente para estabelecer uma regra principal: homem mais mulher é igual a criança. Sem uma das parcelas, não podia exisitir a operação aritmética. — Um dia eu descubro, prometi a mim mesma. O cheiro de sangue e um mugido mais forte me despertaram das divagações. O bezerro mamava e a vaca lambia. Era um lindo quadro, pendurado para sempre na minha memória. Comecei a ficar impaciente com a solidão na estância, só a imaginação, que sempre me salvou nos momentos mais difíceis, não era suficiente para ocupar um espírito de certa forma inquieto. Com as mulheres da casa na cidade, havia pouco que fazer e onde o corpo não movimenta, a preguiça invade a mente.
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Fui visitar papai. Chovia muito, seu Bento encostou a carreta ao lado do armazém, desatrelou os bois e mandou me correr sem pressa. Correr por causa da chuva e sem pressa por que ele só ia carregar as mercadorias quando estiasse. Corri até ficar com dor do lado, escorreguei no barro vermelho, caí de todo comprimento, que vexame! Olhei para os iados, toda desconfiada, ainda bem que ninguém me vira, segui devagar, para que a chuva lavasse meu vestido. O frio fazia revelar os biquinhos dos meus peitos desenvolvidos e o vestido enredava nas pernas a cada passo. Entrei na velha casa. Chovia tanto lá dentro quanto fora. Por um instante pensei que o velho não estivesse, chamei e fui entrando, para encontra Io na cozinha, chupando um amargo abancado na frente do fogão. E não estava só. Recebeu me com um sorriso murcho. — Oh, Rosalina, com esta chuva! A mulher que estava com ele era horrorosa. Velha, daquelas velhas que se gastaram pelo uso, como um chinelo. Só não era totalmente banguela por que possuía os caninos. Magra, cabeleira teimosa, parecia uma bruxa. Ela bem que tentou se gentil, ofereceu me o único banco inteiro e um vestido seco. Contentei me em enxugar as mãos e o rosto no saco de estopa, e um chimarrão, para não parecer orgulhosa. Ela falava demais, eu não conseguia olhar nos seus olhos, que via a boca, aí me dava nojo e vontade de rir. Constatei que o velho estava bem, isto me tranquilizou o suficiente para me despedir, sob protestos: mas já, com esta chuva, fica até passar um pouco. Fui saindo: não posso, prometi voltar logo, quando puder eu volto. Mas a danada da chuva tinha era aumentado, a rua estava alagada dum lado ao outro. Bati na porta de dona Geni, há tanto tempo não a via. . . — Entra, minha filha, que pegas uma gripe daquelas. Vou fazer um cházinho... Glorinha, pega aí no armário um vestido para a Rosalina. Como o
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tempo passa! Quando saíste daqui eras deste tamanhinho, agora me vens já moça feita. . . Como é que a gente não vai ficar velha? Troquei de roupa e me senti aquecida por dento e por fora. Dona Geni estava cozinhando o almoço para o dia seguinte, o cheiro era a melhor recomendação da cozinheira do Gran Hotel. Tomávamos chá de erva cidreira com cuca alemã na cozinha, onde os meninos escreviam os deveres sobre a grande mesa. Estavam irreconhecíveis, grandes, as meninas me olhavam e fugiam para o quarto. Glorinha era um pouco mais velha do que eu, mas me senti mais para adulta do que para criança perto dela. Dona Geni enxugou as mãos e sentou-se perto de mim, falando baixinho, como se papai pudesse ouvir alguma coisa, com todo o barulho da chuva. — Que tal tua madrasta? — Se é a mulher que estava aí com o velho, não podia ser pior. — Conhecias a Jurema, antes? — Não, nunca a vi. De onde ela é? — De lá de perto do rio. Dizem que ela fazia a vida por lá, só que nunca se aventurou na cidade. Não sei como, mas ela conseguiu que o Antenor a recebesse em casa. De certo modo foi bom, não é, minha filha? Ele está velho, alguém tem que tomar conta dele. — A senhora tem notícias da minha. . . de Rosinha? — A gente se cruza na rua, mas eu nem olho para ela. Está gorda, rosada, faceira como sempre . — E a Elvira? — Esteve aqui, nos Finados. Casou, mora em Santa Lúcia, tenho até o endereço dela.. . deixa ver onde o coloquei.

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O endereço estava anotado no calendário cortesia da Farmácia Ideal, pendurado num prego enferrujado, junto com um casaco. Copiei num pedaço de papel de pão, com o coração doido de alegria. Como eu queria ver minha irmã! Será que tinha conseguido realizar aqueles sonhos maravilhosos? — Vou escrever para ela. Se eu der o endereço daqui, a senhora guarda a resposta para mim? — Pois claro! Podes ficar tranquila. — Então eu já vou. Prometo devolver o vestido assim que puder. Até mais, dona Geni. Até logo, Glorínha. Só vi os vultos atrás da cortina do quarto e escutei os risos às minhas costas. A chuva tinha passado, mas eu estava tão contente como se um sol brilhasse só para mim. Ajudei seu Bento a atrelar os bois e voltei à Soledade, ou melhor, à solidão, ou melhor, às duas ao mesmo tempo. Escrevi não uma carta, foi bem uma dúzia. Escolhi uma, que me pareceu mais otimista e agradável de ler. Sempre com minha mania, a de querer agradar os outros. Depois que a enviei, começou o processo da espera. Se eu pudesse, iria a Pedreira todos os dias para esperar a resposta. Passou-se mais de um mês e nada. Aí a família Menezes retornou à Soledade e na agitação da chegada, acabei esquecendo Elvira. O verão estava chegando novamente. Poderia senti-lo no aroma das folhas, no canto dos pássaros, no cricrilar dos grilos e no brilho das estrelas. Começamos a arrumação para o casamento, que seria no dia do Ano Novo, toda aquela azáfama novamente, mesmo assim tia Chica farejava um baile de longe. Não perdíamos fandango na vizinhança. Fiquei bem popular, eu e meu irmão Pedro éramos muito admirados. Os rapazes me tiraram para dançar e às vezes tentavam

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me beijar atrás dos galpões, mas eu esquivava sempre. Como eu poderia beijar um desconhecido, sem mais nem menos? Odete brigava comigo, dizia que eu era boba, estava perdendo tempo. No fundo eu sabia e esperava. Haveria de aparecer alguém que despertasse em mim algo mais do que somente alegria por estar dançando. Quanto mais chegava o dia do casamento, mais atarefada eu ficava. Os parentes foram chegando, mais trabalho. Uma semana antes da festa, eu estava lavando o chão da sala, ajoelhada, com a saía enrolada entre as pernas para não molhar. Senti a presença de alguém atrás de mim e me virei, assustada. Mais bonito do que eu lembrava, mais elegante, mais malicioso, Joca, o filho do patrão me observava calmamente. E eu, que escovava o chão, de trazeiro para cima, que belo quadro! — Então a princesinha ainda está aqui! Esperando por mim, Branca de Neve? Eu fiquei vermelha, roxa, verde, sei lá. — O senhor quer passar, seu Joca? — Não, vou dar uma volta por ai. Mais tarde a gente conversa mais de perto. Que loucura! O que poderia o filho do patrão querer comigo? Recomecei a escovar furiosamente e a imaginar que a noiva era eu, entrando na Igreja Matriz de Pedreira com o vestido de Zeni, lá no altar Joca me esperava com aquele sorriso especial. Os detalhes eram tão reais que custei a voltar do sonho. Á tardinha tomei um banho caprichado. Peguei uma bucha ainda verde e me enfreguei de tirar bem uma camada de epiderme. Já que não tinha perfume, coloquei um cravo vermelho, cheiroso; como quem não quer nada, caminhei para os lados do arroio, onde as pedras estavam mornas ainda ao crespúsculo. Algumas
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estrelas se atreviam a piscar, mesmo com o sol acima das cox ilhas ainda, como quem tem pena de ir embora. Eu sabia que ele viria. Era apenas uma questão de ter paciência Depois de Ernesto, eu me sentia muito feminina e adulta; esperei-o como se ele fosse o príncipe que me salvaria da solidão. Ele me estenderia as mãos e me convidaria para dançar sobre as águas imóveis do arroio, juntos cruzaríamos o arco-íris e seríamos felizes, sorrindo um para o outro. Começou a esfriar, quando o sol se pôs completamente. Arrepiei me toda e envolvi-me nos próprios braços, e ele chegou. O cabelo crespo e escuro caía nos olhos, ele displicentemente passava a mão para levá-lo ao lugar. Os olhos brilhavam como uma jaguatirica que vai dar o bote. Eu não o reconheci como o rapaz dos meus sonhos. — Esperaste muito, princesinha? Fiz que não, com a cabeça, e perdi toda a segurança. Ele sentou-se ao meu lado, colocou o braço sobre meus ombros, uma agradável sensação de calor e proteção enterneceu-me. A camisa fina exalava um perfume suave de água de cheiro. O exterior me impressionava, eu estava ansiosa para saber como ele era como gente, e o que pensaria de mim, se me aceitaria pobre e ignorante. Joca apertou-me mais e começou a beijar-me o rosto, o pescoço, enquanto acariciava-me as costas. Fiquei perturbada e chocada. Não era assim que eu queria namorá-lo. Empurrei-o de leve. — Não faz isto, Joca. Alguém pode ver. — Ora, neste escuro? E depois, eu sei bem que é disto que tu gostas. Vem cá, vamos nos divertir bastante.

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— Como é que tu sabes o que eu gosto ou não? Já perguntaste pelo menos o meu nome? — Todas as garotas são iguais e aqui na estância, o amor é brincado livremente. — Amor brincado livremente? Com amor não se brinca, é coisa muito séria. — Ora, deixa de sermões e vem, eu sei que estás louca por mim. Não sei se foi o convencimento dele ou a pressão da sua mão nas minhas pernas que me forçou a sair correndo. Disparei em direção às luzes da casa, mas ele não me seguiu. Durante o resto da semana evitei encontrá-lo a sós. Ele não parecia mais interessado, quando me via, dispensava no mínimo um olhar irônico e saía. O dia do casamento chegou. A família e os convidados foram a Pedreira e na hora do almoço estavam de volta, empoeirados e barulhentos. Houve dança, que começou à tardinha. Zeni dançou com o marido, dando início ao baile que durou até á madrugada. Eu servia uns e outros, quase sem ver quem estava na frente. Só mãos, milhares de mãos, eu estava tonta com tanta gente para servir. De repente, tudo clareou. Seu João mandou parar a música e declarou aos amigos que tinha o prazer de anunciar o próximo enlace matrimonial de seu filho Joca e a linda filha do Gutierrez, vizinho há tantos anos. Desta vez não corri. Simplesmente abandonei tudo e saí da festa e da alaúza que recomeçara. Caminhei bastante para cansar o corpo.

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Por dentro estava doida e decepcionada, traída e humilhada. Pelos sonhos desfeitos, pelo quase romance que não acontecera. Por ter subido para cair tão depressa. Voltei lentamente e ia passando pela janela de Zeni, quando um grito me fez parar. Zeni mandava o marido parar com não sei o quê e ele gritava para ela acabar com a palhaçada. Fiquei envergonhada e continuei andando, e ainda o ouvir dizer: — Qualquer petiçaa faz melhor o serviço que tu. Já começava a decepção para mais uma mulher. Depois da partida dos noivos e dos parentes, inclusive Joca, a estância voltou ao normal. Dona Vitória ficou, com seu João e Tonico, mas quase não se via ninguém, a não ser nas horas de refeição. Passaram-se uns dois meses e então voltei a sentir aquela ansiedade novamente, vontade de não sei o quê, não sei onde, não sei como. Fui a Pedreira. Primeiro visitei papai. Ele não estava, Jurema abriu a porta com muitas gentilezas e exibiu a barriga de gravidez, tão evidente quanto a verdade que pressenti logo: esta criança não é nada minha. Pobre papai, tão sem sorte com suas mulheres. . . Dona Geni não estava. Devolvi o vestido a Glorinha e ela em troca me entregou uma carta. A carta que eu tanto esperava e tinha até esquecido. Não quis dar o gostinho a Glorinha de saber o conteúdo, agradeci e saí normalmente, como quem recebe cartas todos os dias. Assim que entrei na igreja, descolei o envelope, desdobrei a carta e li, junto ao nicho de Santa Luzia.

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"Santa Lúcia, 26 de fevereiro de 1944 Querida irmã Rosalina Espero que esta te encontre ern perfeita saúde, junto aos tios. Escrevo para te mandar as notícias que pediste na tua amável caninha. Eu vou muito bem, casei-me com um viúvo sem filhos. Moramos numa casinha pequena, mas tem até luz elétrica. O Diogo é funcionário da Light, ganha pouco, mas dá para as necessidades. Espero que venhas nos visitar brevemente. Da tua saudosa irmã E/vira Santos" Li de novo, mais outra vez e uma quarta só para ter certeza de que fora Elvira quem me escrevera. Eu esperava mais dela. Com toda aquela imaginação e ambição, não ficaria surpresa se ela tivesse me escrito contando que casara com um rico industrial, ou então que estava cheia de pretendentes, frequentando a elite da sociedade, qualquer situação menos prosaica que esta da carta. Por outro lado era tranquilizador sabê-la em segurança. Quem me dera poder dizer o mesmo.Qualquer dia seu João viraria a mesa e todos nós botaríamos o pé na estrada. Tia Chica andava me olhando dum jeito que me deixava desconfiada. Achava defeito nos meus modos, começava frases que não terminava, brigava com tio Flor até ele fugir em retirada e vivia se lamuriando. — Ah, se eu tivesse uma filha para garantir o futuro! — Se Deus me tivesse dado uma filha, ela seria esperta e trataria de arranjar um marido bem rico.

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— Hoje estou tão amolada! Não tenho vontade de sair da cama. Minha filha, seja boazinha e me traz um chazinho de boldo. Ah, muito obrigada! Que os anjos te amparem pelo bem que fazes aos teus velhos tios sem ninguém que olhe por eles . . E assim por diante. Se na época eu tivesse um pouco mais de vivência perceberia a campanha que estava sendo preparada em cima da minha boa fé. Tia Chica estimulara em mim o senso de dever para com eles, fazia-me acreditar que somente eu poderia salvá-los da velhice na miséria. Sem um livro para ler nem uma pessoa sensata que me orientasse, era alvo certeiro para a velha. Procurava ficar só, depois das obrigações diárias, vendo ao longe o gado pastar imóvel como figura de presépio e me sentia como aqueles animais, levada sem vontade própria para um lugar desconhecido e assustador. Decidi tomar uma iniciativa, a de procurar Elvira assim que juntasse dinheiro para a passagem de ònibus ou mesmo o trem, que sabia ser mais barato. Em Santa Lúcia eu poderia arrumar emprego, talvez numa loja, quem sabe, sempre soube somar bem e tinha a caligrafia sem defeitos. Assim que tomei a decisão, fiquei aliviada. O problema era conseguir o dinheiro. Prometi a mim mesma falar com dona Vitória, ou em último caso, com seu João. Afinal, uma passagem não era tão cara. Fui ao fandago da Páscoa na casa dos Melo como para me despedir daquela vida. Tio Flor resmungou, mas foi junto; tia Chica conferiu meu vestido, alisou aqui, ajeitou acolá, sorriu e me empurrou salão adentro. Logo saí dançando com Pedro, meu querido irmão. Ele só gostava de dançar comigo para abrir o baile, por motivos fáceis de adivinhar: nós formávamos um bonito par, eu acompanhava bem seus passos e todos se

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animavam com nossa iniciativa. Depois que o salão se enchia bem, ia cada um para seu lado. Depois de dançar bastante, sentei ao lado de tia Chica, suada e esbaforida. Um senhor, de seus quarenta e poucos anos, aproximou-se de nós e dirigiu-se à tia. — A senhora me permite a honra de dançar com sua filha? Tia Chica aprumou-se na cadeira, arreganhou seu melhor sorriso, aquele que eu já estava conhecendo bem. — Embora ela não seja minha filha, é como se fosse. Vai, querida, dança com o moço tão educado. Ela sabia que eu não queria ir, mas também sabia que eu obedeceria. Cumpri meu dever e quando acabou a valsa, agradeci e dei as costas. Ele ficou parado, com um sorriso enviezado. Na pressa, esbarrei num rapaz, praticamente caí nos seus braços. A música recomeçou e quando percebi, estava dançando com o desconhecido. Firmemente ele enlaçou minha cintura e rodopiamos como pares antigos. — Tu danças muito bem. É como se eu tivesse dançando com minha sombra. — Obrigada. — E tens um cheirinho de cravo delicioso! Corei, encantada. Ele era moreno claro, magro, cara limpa, olhos brilhantes, boca pequena e sorriso encantador. Cativou-me naquele instante. Terminava uma música, começava outra e eu nem percebia. Como num sonho, ele me puxava para seus braços e eu me deixava levar, deslizando em estado de graça.

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No intervalo, quando os casais saíam para tomar um pouco de ar fresco e os gaiteiros sua aguardente, olhei rapidamente para ver se a tia estava me olhando. Ela estava estretida com o velho que dançara comigo, ria e batia nas coxas gordas. Deviam estar conversando coisas muito divertidas, mas não me interessava nem um pouco. Os dois eram velhos, que se entendessem. Virgílio e eu fomos para o outro lado do salão, perto de uma janelona. Leve ventinho frio balançava minha cabeleira; num gesto coquete eu afastava as mechas do rosto e absorvia cada palavra que ele dizia. — Nasci e me criei na serra, não aguento cidade por muito tempo. Quando monto num cavalo e saio pelos campos, esqueço o rumo das casas. Acho que foi por isto que ainda não casei, sou mais do tipo gaudério que não esquenta banco. Passo uns tempos numa querência, depois pego o pelego, cavalo e poncho e lá vou eu conhecer novas terras e novas gentes. Depois de um certo tempo, a gente chega à conclusão que é tudo igual: as coxilhas são parecidas, as pessoas pensam e falam as mesmas coisas, não há mais nada que eu não tenha visto neste mundo. E agora de repente me aparece esta coisinha tão delicada, como uma flor trazida pelo vento. . . Fala um pouco, coração. Falei de mim, da situação em relação aos tios, à papai, lavei a alma e ele enxugou-a com atenção e.carinho. Nunca me senti tão segura na vida. Dançamos mais, como se a noite não fosse acabar, só que acabou. Para não ouvir recriminação, despedi-me rapidamente de Virgílio, depois de convidá-lo para ir a Soledade no outro domingo, quando eu festejaria quatorze anos. Não era festa, só um bolinho para os de casa, não era para reparar, sabe como é, casa de pobre. . . — Claro que eu vou. Podes me esperar.

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A madrugada estava fria e meu coração aquecido. Eu estava tão feliz que iria dançando para casa, com ou sem cara feia de tia Chica. Não dava para esperar até o domingo. Toda a tarde, eu ia até a porteira, sentava no arame como se fosse um banco, ficava ali até entardecer, olhando a estrada, sonhando acordada todas as loucuras que o amor tornaria possível. Se Virgílio me amasse da mesma forma. . . Tia Chica me espreitava, resmungava, eu nem ligava. Fazia minhas tarefas e desaparecia. Na quarta-feira ele veio. Apeou, amarrou o cavalo na porteira e me envolveu nos seus braços. Beijou-me do jeito que eu queria ser beijada, meu coração não aguentava. Ele afastou-se um pouco e com um sorriso maroto falou: — Eu não resisti. Tinha de vir. Era como um chamado. — Era eu te chamando. Toda a tarde eu vinha para cá e ficava pensando em ti. — Oh, minha florzinha! Eu me apaixonei, estás sabendo? Cai no feitiço dos teus olhos. — Eu também me apaixonei. Se minha mãe fugiu porque sentia o que eu sinto, até posso compreendê-la. — Esquece o passado. Vamos pensar só no futuro, no nosso futuro. Ficamos arquitetando nossos sonhos até a noite chegar. Depois voltei para casa, guardando meu segredo até mesmo de Odete. Se bem que ela nem ligava para mim, a danada devia estar aprontando alguma. Andava tão esquisita. Tia Chica deve ter percebido alguma coisa. Perguntou se eu estava bem, ofereceu-se para fazer o meu bolo e até comentou que eu estava em idade de casar. Escapei do assunto, sem contrariá-la.

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— É, tia, acho que a senhora tem razão. Tia Chica animou-se e tratei de arrumar o que fazer lá fora. Devagar ela iria ser preparada. O resto da semana custou a passar. No sábado tomei um banho caprichado, lavei bem os cabelos, sentei ao sol para desenredá-los e deixá-los brilhantes. Preparei o bolo, ajeitei flores na mesinha da sala-cozinha, inventei mil coisas, entrava e saía, agoniada. Fui dormir cedo, para o tempo passar mais depressa. O domingo amanheceu nublado, para meu desespero. Nem chovia nem fazia sol, mas depois do meio-dia o tempo melhorou, um solzinho tímido surgiu para dar coragem. Primeiro eu falei pelos cotovelos, depois fiquei muda. Tia Chica me olhava enviezado, como quem vai dizer e não tem coragem. Tio Flor tomava seu chimarrão indiferente a tudo. Alguém bateu à porta. Com um "deixa que eu abro" corri e escancarei a porta. Era o velho. Tirou o chapéu, respeitosamente, cumprimentou-me e pediu licença para entrar. Tio Flor largou a cuia, apertou-lhe a mão; tia Chica desfez-se em obrigadas e faz-favores. Puxou-me pela mão. — Olha, Rosalina, que surpresa agradável! Seu Teófilo, tão ocupado, lembrou-se do teu aniversário! É muito honra para nossa humilde família recebêlo, seu Teófilo. Como eu lhe disse, moramos de favor aqui em Soledade. — Não se preocupe, dona Chica. Estou me sentindo em casa. Tomei a liberdade de trazer esta lembrancinha para sua adorável sobrinha. — Vamos, Rosalina. Mostra tua educação para o moço. — Obrigada.
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Agradece.

— Abre, guria. O senhor vai desculpando, ela é muito tímida. — Assim devem ser as moças prendadas. Abri, relutante. Tudo o que eu queria era que ele fosse embora. O que Virgílio pensaria se o encontrasse ali, ocupando a única cadeira decente? O pacote era todo cheio de fitas, e mesmo contra a vontade não pude deixar de admirar o trabalho da embalagem e o conteúdo. Um belo corte de seda estampada, coisa que nem Zeni possuía igual. Seu Teófilo arrancava murmúrios de aprovação do tio Flor. Contava seu sucesso como comerciante em Santa Lúcia, da solidão de viúvo sem filhos, das viagens que era obrigado a fazer constantemente, para o desenvolvimento da firma, negócio da família há muitos anos. Tia Chica, boquiaberta, oferecia cafezinho, bolo, só faltava sentar no colo do homem. Também, se o fizesse, ele sairia correndo na hora. — O senhor que é homem me entende, seu Floriano. Preciso de uma esposa moça, que me dê os filhos que a falecida não pode me dar, para continuar o nome da família. Isto é muito importante para mim. Tio Flor concordava. Do meu canto pude observar bem este seu Teófilo. Devia ter uns quarenta e poucos anos, não muito alto, moreno, nem gordo nem magro, completamente insignificante. A minha vontade era empurrá-lo pela janela, como um gato que se pega pelo cangote. No momento mais importante da minha vida, o acontecimento que eu esperava a vida inteira, tinha de aparecer um velho para estragar. Prestei atenção à conversa da tia Chica. — Mas seu Teófilo, é muita honra, não é mesmo, minha filha? — Ah? O quê? — Seu Teófilo acaba de te pedir em casamento ao teu tio e tu nem escutas?
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— Casamento? Não, eu não posso! Bateram à porta. Tia Chica foi mais ligeira e abriu-a. Meu coração parou, creio que o sangue deixou de circular com o choque de encarar Virgílio naquela situação. Nunca ele me parecera tão bonito, tão jovem e forte. Antes que eu tivesse presença de espírito para explicar qualquer mal entendido, a tia Chica foi logo dizendo: — Entra, meu filho. Estávamos comemorando o contrato de casamento da nossa sobrinha com o senhor Teófilo, próspero comerciante de Santa Lúcia. Aceita uma fatia de bolo? — Não, muito obrigado. Felicidades aos noivos. Eu vim para... para me despedir de Rosalina. Neste exato momento estou deixando a terra, pretendo. . . seguir a vida e ver o que acontece. — Mas já, meu filho? Entonces, boa viagem, não se empate conosco. — Boas tardes. Como tia Chica tivera coragem de fazer isto comigo, eu não podia entender. Virgílio saiu rapidamente e eu corri atrás, sem escutar os chamados de tia Chica, alcancei-o quando montava em seu cavalo castanho. — Virgílio, me escuta, por favor. Não é verdade, eu não vou casar com aquele velho, é tudo invenção da tia Chica. Do alto do cavalo, ele me olhou com desprezo. — Um pouco de diversão antes de agarrar o velho rico, esta é antiga, mocinha inocente. E quase que eu me prestava para este papel! Escapei por pouco. Vai, teu "noivo" está esperando. E por mim me espera a estrada. Adeus! Não podia me conformar. O sonho transformara-se em pesadelo, como aqueles dos tempos de criança.

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Fugi para meu recanto na beira do arroio e chorei de pena de mim mesma. Tia Chica me traíra, me vendera, com aquele ar de santa, só por interesse próprio. Ela sempre me prevenira contra os peões sem futuro, claro que nem ligara para mim. Como eu fora cega e burra! Ninguém dá nada de graça. A caridade é a mais egoísta das formas de se auto-beneficiar. Mais uma lição aprendida, mais uma marca das chicotadas da vida nas costas. Só voltei por medo das cobras e porque não tinha para onde ir. O velho se fora, tio Flor nada disse, mas tia atormentou-me com aquela voz falsa que eu tentava não escutar. — Ë para o seu bem, querida. Nós temos o dever de zelar pelo teu futuro. Não é todo dia que aparece um pretendente como o seu Teófilo, tu fizeste muito mal em sair assim correndo. Ainda bem que ele entendeu quando eu expliquei que tu és uma mocinha muito tímida. Tímida e covarde, pensei comigo mesma. Qualquer outra estaria brigando, teria fugido, qualquer coisa, menos aquela passividade. Porque eu teria sempre de me deixar levar? Medo de tudo. Como me detestei! Enfim ela calou-se. Solucei tanto que dormi vencida pela exaustão das emoções. Eu nunca esquecerei este aniversário, meus quatorze anos. Bem poderia ter sido cento e quarenta anos.

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SEXTO PASSO

Entrei na Igreja Matriz de Pedreira apoiada ou apoiando tio Flor. Papai alegou falta de dinheiro para comprar uma muda de roupa, mesmo assim foi até a igreja, ficou na última fila, mais constrangido que emocionado. Saiu tudo como tia Chica engendrara. aniversário do meu noivo. As noivas costumam dizer que a emoção apaga os detalhes da cerimônia. Eu estava ausente de emoções, mesmo assim tudo se passou como se fosse com outra pessoa e não comigo. Padre Augusto, meu conselheiro de infância, não podia evitar um certo vislumbre de pena no olhar. No sermão, usou e abusou das palavras paciência, compreensão, boa vontade etc. Não houve convidados. Odete queria assistir o casamento, felizmente não foi, eu odiaria seu olhar debochado. A negrinha estava grávida, dizia que o pai da criança era o marido da Zeni, enfim , era outro drama em Soledade. Apenas tia Chica, tio Flor, seu João e dona Vitória, além de meu pai no fundo da igreja, mais ninguém assistiu à comédia do meu casamento com seu Teófilo, aliás, Teófilo. Chamá-lo de senhor seria ridículo, apesar de eu ter vontade. Nos momentos difíceis da vida, vêm à memória cenas de livros que li para dona Eugênia; na hora da bênção, lembrei "A noiva vendida". Que vontade de rir! Fazíamos um casal horrível, eu, com quatorze anos, o noivo com quarenta e três. Como não houve festa, saímos da igreja para a rodoviária. Papai carregou minha pequena mala de lona, presente de dona Vitória, e despediu-se de longe de mim, que queria tanto abraçá-lo e pedir ajuda. . . Entrei no ônibus para Santa
l

Casei com o vestido de seda, presente de

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Lúcia, como tantas vezes imaginara que faria, mas noutras circunstâncias. Teófilo tomou-me as mãos e beijou-as, mal o ònibus começou a se movimentar. — Vida nova, querida. Nos olhos a expressão era a mesma que eu vi no rosto de Joca, quando tentara me agarrar no arroio. Virei o rosto e tentei admirar a paisagem. Como uma folha levada pelo vento, deixei-me levar àquele ponto. Um mês depois do trágico domingo de aniversário, casei-me com o desconhecido que me acariciava as mãos. Uma parte de mim tomava conhecimento dos carinhos com certa recusa, outra parte tentava coordenar as idéias, a terceira se encantava com a limusine confortável e o cenário que velozmente passava ao meu lado. Os tufos de capim pareciam escalpos sacudidos pela brisa. Depois de algumas horas foram aparecendo agrupamentos de casas, o ruído das rodas do ônibus mudou de repente, quando passamos da estrada de terra para rua calçada de pedras. A caipira arregalava o olho e o marido divertia-se com tantos ohs! ahs! Entramos num bonde, máquina maravilhosa, experiência tão fascinante que momentaneamente esqueci meu drama interior. Tudo era tão estranho, aquela babel de gentes, automóveis, animais. . . Descemos do bonde e andamos um pedaço à pé, por uma ruazinha tranqüila. Teófilo pigarreou antes de começar. — Sabes, Rosalina, esta guerra lá na Europa causou muitos problemas para nós, comerciantes. Eu possuía urna casa enorme, que tive de vender, assim como vendi os depósitos. Fiquei com um armazém e a casa dos fundos, ainda assim a situação está difícil. Ainda bem que não estás acostumada com luxos.

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Os castelos de cartas que tia Chica ergueu foram caindo um a um, até restarem só as cartas em desordem. O rico comerciante não passava do gerente do armazém, o encarregado das compras, que morava na casa dos fundos na mesma situação que os tios. Saí de uma prisão para cair noutra. Enfim tive todas as respostas. Minha inocência, forçada, deixou de existir. O ciclo da vida continuou em mim, e quem me transformou em mulher foi um homem mentiroso, impaciente, luxurioso e inconstante. Compreendi todos os sub-entendidos de Odete, só não o prazer que ela demonstrava em amar fisicamente. O que para ela era motivo de alegria, para mim era tortura. Não sei se foi por causa do pouco entusiasmo ou talvez a ausência de emoções novas, o desgaste, o que fosse, em menos de três meses de casada a rotina, a velha rotina, tomou conta dos meus dias e noites. A mesma solidão de Soledade veio atrás de mim e nos abraçamos como velhas amigas que somos. Fiz amizade com Maria de Fátima, ou Fatuca, como gostava de ser chamada, a vizinha da casa ao lado, mãe dum garotinho recém-nascido, quando cheguei. Foi ela quem me levou a passear por Santa Lúcia, juntas visitamos Elvira. Minha irmã transformou-se numa mulher forte, tranqüila, acomodada. A única diferença entre nós era que ela gostava da vida que levava e eu não. Meu conforto foi descobrir que estava grávida. Teófilo passou a procurar outras mulheres abertamente, para meu sossego. Viajava muito, e os meses de espera foram até felizes, do tipo de felicidade que padre Augusto pregava. Sem ilusões, sem emoções, vazia de sentimentos que não fossem por meu filho. O ciclo da vida. A lei da natureza. *** Desde o nascer do sol que uma vontade constante de urinar me fazia ir e voltar à privada, nos fundos do quintal. Ao meio-dia, o sol projetava sombras
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direto nos meus pés, como poças d'água móveis. Senti uma dor diferente, que não era bem dor, mas incomodava. Como Teófilo estava fora, procurei apoio na vizinha, Fatuca. Entre uma casa e outra crescera uma cerca-viva de forte cheiro. Através da cerca avistei minha única amiga. — Como vais, Linda? — Ela sempre me chamava assim — Estás abatida hoje, não é? Alisei meu ventre e suspirei. — Estou sentido umas coisas esquisitas. Desde a madrugada é aquela vontade de urinar, e de vez em quando, a barriga endurece. . .Olha, agora! Viu só? Com uma risada de quem tem na memória o conhecimento recente do assunto, Fatuca, longe de consolar, apavorou-me mais. — Ih! É o nenê! — O que há com ele? Morreu? Mas ainda agora ele dava cambalhotas e mergulhos e chutes e. . . — Calma, mulher. O nené deve estar nascendo, só isto. — Não, não pode. Ainda falta um mês. — Se é um guri, deve estar louco para sair daí. Vamos tratar de dar uma olhada nisso, antes que ele resolva nascer aqui mesmo! — E caiu em novo acesso de riso. — Será que eu devo ir ao hospital agora? Vou ficar tão sem graça se me mandarem de volta. . . — Mais sem graça tu vais ficar se ele nascer aqui. É melhor ir logo. — Então eu vou. Num instante eu me apronto.

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— Eu vou contigo. No caminho deixamos meu guri na casa da Dindinha. Juntas, tomamos o bonde até a Santa Casa. O calor era sufocante. A subida da escada principal foi lenta e fui praticamente arrastada pela amiga. Entrar no prédio foi como fugir do inferno. Apoiei-me no balcão da recepção, ofegante, suada. Afastei os cabelos que teimavam em colar-se no nariz. Uma moça morena, magra e indiferente aproximou-se. — Sim?— Olhava as unhas impecáveis. Muda de pavor, cansaço e vergonha, implorei com o olhar para Fatuca me ajudar. — É minha amiga aqui que vai ter nenê. Nenhum olhar da recepcionista. Pegou um bloco escondido sob o balcão e começou a preencher. — Nome. Idade. Estado Civil. Endereço. Particular? Abaixei os olhos. Falei pela primeira vez: — Não, não tenho dinheiro. Tinha vontade de gritar: "Não tenho pai, nem mãe, meu marido não sei onde anda, não tenho nada nem ninguém. Não sou nada. Só tenho este filho e quero que nasça!" Mas nada falei. Deixei-me levar à enfermaria das indigentes, onde troquei o vestido de algodãozinho pela bata grosseira do hospital. Deitei-me calada, como me mandaram fazer, e calada suportei o exame da parteira, mulher robusta por fora e seca por dentro. Suportei tudo, como sempre o fizera. Sem queixas e em silêncio. Eu era apenas mais uma das quase trinta mulheres da enfermaria de indigentes. A cama, imensamente alta, ficava perto da janela e através dela eu via o céu muito azul, sem nuvens, e os fios do bonde e energia elétrica.
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Começava a sentir dores a cada endurecimento da barriga, que embolava num só lado do corpo. Nestes breves instantes, o suor porejava-me o rosto, os cabelos grudavam na cabeça. Eu nem sabia para onde olhar, em quem procurar apoio, de onde chamar forças. Tentei perguntar o que deveria fazer à enfermeira que entrava e saía, mas ela nem perto da cama chegava. O instinto me dizia para ficar bem quieta, até sem respirar. Uma veterena em partos, da cama ao lado, explicou-me a necessidade de oxigênio para o nenê, então forcei-me a respirar fundo. Algumas mulheres gemiam, outras gritavam. Calor, moscas, dores. Talvez morrer fosse melhor. Ou quem sabe devesse ter morrido antes, ao nascer. O médico começou a examinar as pacientes da enfermaria. Lia a papeleta que a enfermeira mostrava, apalpava, escutava, murmurava algo que a enfermeira ia anotando e passava à seguinte. Fui das últimas a ser examinada. — Primeiro filho? Teve algum aborto? Tomou a pressão e temperatura, murmurou o resultado à enfermeira, enquanto descobria minha barriga. Encostou um aparelho de madeira, mais parecido com uma corneta, e escutou os batimentos da criança. Flexionou meus joelhos, separou-os bem e enfiou-me dois dedos vagina adentro, olhando para o teto, como se sentisse nojo do que estava fazendo. Retirou a mão, murmurou algo que interpretei como "não é hora" e continuou a tarefa na próxima paciente. Senti uma espécie de torpor invadindo-me. Já não sabia se era ontem ou hoje.

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Na enfermaria, a aparente calma foi rompida por uma mulata pequena demais para a enorme barriga que segurava com ambas as mãos. No auge do desespero, a criatura fugiu, camisola aberta caindo no corredor. Gritava histericamente, duas enfermeiras foram necessárias para segurá-la. — Não quero! Tirem este filho de mim! Não aguento mais! As enfermeiras a levaram de volta à cama, aplicaram uma injeção e pouco a pouco os gemidos foram os únicos sons que se ouviu. Observei e pensei: "por que não tenho coragem de fazer como ela? Por que fico mordendo as mãos, triturando o corpo e a alma, passivamente?" O hospital, dirigido por irmãs de caridade, possuia uma capela para as freiras cumprirem suas obrigações e para invocações de auxílio ou agradecimentos de pacientes e familiares. Do campanário vinha o som dos sinos à hora do Angelus. Escutei os sinos e os ruídos de pratos na cozinha. O jantar fora servido, menos para mim e as outras em trabalho de parto, mas mesmo que pudesse, não conseguiria comer. Nem água a enfermeira queria dar, a boca estava seca e gretada. A noite não tardaria a envolver a cidade. Fazia quatro horas que dera entrada naquela enfermaria, mais parecia uma eternidade. O vento sumira por completo, no lusco-fusco do dia interminável. Se pelo menos chovesse. . . se a criança nascesse. . . se me dessem água. . . se. . . A noite caiu, completamente. Eu gemia, agoniada, transpassada de dores. A enfermeira da noite entrou, ainda com a touca por colocar. Parou bem perto de mim, abriu um grampo de cabelo entre os dentes e murmurou, perfeitamente audfvel.
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— Meu Deus, que noite me espera! Estas cadelas inventam de parir justo quando estou de plantão. . . Deu uma olhada rápida em geral e saiu. A parteira dirigiu-se a minha cama para confortar-me, primeiro gesto de solidariedade que recebi na Santa Casa. — Tens uma dilatação demorada, é normal para primeiro filho. Aguenta firme, é assim mesmo. Fechei os olhos, mais calma. Perdi a noção do tempo. As contrações cada vez mais violentas faziam com que me envergasse na cama. Eu gemia, chorava, rezava, já estava a ponto de gritar, quando me levaram para a sala de partos. A sala mais parecia uma garagem, luzes fracas, menos uma, bem em cima de mim. Amarraram meus tornozelos e pulsos, a cada contração eu me erguia, girava a cabeça para um lado e outro. Falei tantas bobagens quantas me passavam pela cabeça.

— Oh, meu Deus! Chega com isto. Eu não aguento mais esta vida. . . faze parar. . . eu quero minha mãe. . . mamãe, está chovendo olha o relâmpago eu tenho medo de trovão está molhando minha cama lá fora está escuro o pai mandou sair meus pés estão gelados o rio cuidado com o rio é fundo tu morres afogada como o Zeca do seu Manoel da esquina roxo e sem dedos pára Joca o Ernesto vem me salvar Pedro vamos dançar esta valsa tia Chica está olhando ela quer que eu case com um homem rico mamãe não deixa Virgílio foi embora o cavalo dele voa no céu do padre Augusto papai deixa de beber Eivira vai trazer um par de luvas não mais sentir frio nas mãos estou com medo o bicho papão quer me comer aí vem ele é o Teófilo não deixa! Mamãe!

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Como se estivessem me arrancando as entranhas, senti sair de dentro de mim algo grande. Estranhamente, no momento que a parteira gritou: "agora, faz toda força!", parou de doer. Todo o meu corpo forçava o nascimento, quase com prazer. Como uma rolha que destampa o garrafão do vinho, ele nasceu. Um cansaço imenso me envolveu e de longe escutei as vozes comentando que era um menino. A enfermeira aplicou uma injeção e nada mais vi, fui caindo numa dimensão tranquila, sem padrões, a paz infinita.

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SÉTIMO PASSO

Três dias depois tive alta. Fatuca levara uma muda de roupa limpa para mim, algumas para o nenê, e o recado do meu marido: já que aquele filho não era dele, porque nascera oito meses após o casamento, eu que me virasse sozinha ou procurasse o pai verdadeiro. O choque fora grande, mas depois de uma vida inteira de negações, nada mais poderia me atingir. Na idade em que muitas mocinhas brincavam ainda de bonecas, eu carregava nos braços um filho. Não um filho do amor que eu sonhara, mas o fruto de uma transação comercial malograda. Mesmo assim um filho, criatura nascida de mim, por quem eu dei minhas forças físicas e daria a vida, se preciso. Olhei o menino, cobri-lhe o rosto para não levar sol, inspirei fundo e enfrentei o mundo, sentindo-me poderosa, segura, acima das mentes prosaicas e corações mesquinhos. O resto não tinha importância. Nunca tive bonecas, conforto, segurança. Naquele momento, descendo as escadarias da Santa Casa, eu ainda não as possuia. Porém um força enorme invadiu-me o peito. Eu, Rosalina, sou uma vencedora. Sou uma mulher. Cheguei até aqui e chegarei a muito mais. Daniel piscou, espirrou, fez um jeitinho de que ia chorar. Apertei-o contra o peito e caminhamos, juntos, um precisando do outro, o caminho da luz.

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EM TEMPO: Rosalina encontrou seu companheiro, quatro anos mais tarde, e vive até hoje em paz e segurança, com o amor de seus filhos.

CONTRA-CAPA: Ilustração: Daiana Botelho Franco 5 ANOS

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