história

——>>>>

Sal com cinema

TRADIÇÃO: Menina de 13 anos da etnia apinajé pinta o corpo no dia de seu casamento

MARIANA MESQUITA

66 GOOUTSIDE.COM.BR

FOTOS GUSTAVO BAXTER

Equipe de filmagem decide refazer a antiga rota do sal, de Goiás ao Pará, para contar em um documentário as aventuras vividas pelos quilombolas kalunga séculos atrás

A PARTIR DOS ANOS 1700, um trajeto de 5 mil quilômetros pelo então isoladíssimo interior do Brasil começou a ganhar fama entre os habitantes do sertão goiano. Negros quilombolas percorriam, em embarcações a remo, o rio Tocantins e seus afluentes em uma jornada de cerca de um ano, da Chapada dos Veadeiros (GO) até Belém do Pará. Enfrentavam perigos e doenças devastadoras em busca de um artigo essencial naquela época: o sal. Item raríssimo por aquelas bandas, o sal ajudava a conservar os alimentos e, por isso, valia todo e qualquer sacrifício. Parte das histórias envolvendo a chamada rota do sal ficou guardada com os descendentes do povo kalunga, o maior remanescente quilombola do Brasil, que hoje habita a região norte de Goiás. Fascinado pela saga desses primeiros aventureiros brasileiros, um grupo de produtores de cinema e vídeo decidiram refazer parte da rota para realizar o documentário A Rota do Sal Kalunga. O filme mostrará os melhores momentos de uma expedição que está percorrendo cerca de 2.400 quilômetros do histórico caminho, atravessando quatro estados brasileiros (Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará). As filmagens começaram em 16 de maio e têm previsão de terminar em 17 de setembro. O projeto revelou-se uma verdadeira odisseia pelos rincões do país, em que 11 pessoas, entre diretores, fotógrafos, assistentes e pessoal de segurança e apoio desdobraram-se para remar, filmar e entrevistar personagens marcantes ao longo do trajeto.

protegido por sacos estanques à prova d’água. E a parte técnica de se filmar em um rio? Muito complicada? Optamos por levar conosco duas câmeras Canon 5D. BRASILZÃO: Fotos feitas pela equipe de (a partir do alto) Vão de Almas. Tripés. índias traira dançando. “menos é mais”. e quebramos a cabeça para equacionar a qualidade de gravação com o espaço para o transporte dos equipamentos.Após concluído. a maior remanescente de quilombo do Brasil. rebatedores. o que deve acontecer em janeiro de 2012. Ao ouvirmos suas histórias. ajuda a formar o rio Tocantins]. GO OUTSIDE Como surgiu a ideia de A Rota do Sal Kalunga? ANDRÉ PORTUGAL Foi há seis anos. para vencer a correnteza. no entanto. quando estávamos pesquisando algumas histórias sobre rios e raízes brasileiras. para saber mais sobre as filmagens. O conjunto dos equipamentos é coerente com nosso estilo de filmagem. nosso guia. também kalunga. diretores da produtora mineira Avesso Filmes e coordenadores da expedição. pois o rio possuía perigosas corredeiras e cachoeiras. a maior preparação precisa ser mental. Quanto às técnicas de caiaque. em Tocantins. mais tarde.. que geralmente vai com alguém nos caiaques e garante as imagens subjetivas da aventura.indd 67 8/29/11 5:53 PM . Já tínhamos vontade de fazer um “river movie” quando ouvimos falar pela primeira vez dos antigos moradores da comunidade kalunga. Ter conhecido seu Epifânio. Eles contaram que seus avôs navegavam até Belém do Pará em uma viagem que durava um ano descendo e subindo o Tocantins e percorrendo a remo quase 5 mil quilômetros do território. Todo o set é transportado em um barco a motor. Como foi a preparação para a viagem? Tiveram de treinar muito remo antes de partir? CARDES AMÂNCIO Todos os envolvidos na remada sempre tiveram uma ligação com esportes de aventura. nossa iniciação básica se deu no rio Paranã a poucos dias do início da expedição [o Paranã nasce no Planalto Central e. pois ele trazia na memória o que lhe relatou seu bisavô sobre a formação do quilombo. uma das lideranças dos kalungas. Sabíamos que o rio seria nosso “personal trainer” e a determinação. principalmente escalada. a não ser seguir com nossa rotina de esportes. utilizavam ganchos e forquilhas laçadas nas árvores das margens. o documentário participará de festivais de cinema pelo Brasil e será exibido em escolas de povoados ribeirinhos do rio Tocantins. Quais foram os momentos mais marcantes da viagem? Um dos momentos mais emocionantes foi quando dona Procópia. em Goiás. item importantíssimo para a alimentação do povo e para a criação de animais. O rio até hoje liga as pessoas. A viagem era feita nas cheias. versáteis pelo tamanho e com impressionante qualidade de gravação. Batemos um papo com André Portugal Braga e Cardes Amâncio. gravadores de som. comparável à beleza das câmeras cinematográficas de 35 milímetros. Numa expedição desse tipo. Toda a viagem era realizada com o objetivo de se conseguir o sal. e locais dando um look no computador da produtora GO OUTSIDE 67 Radar_SalB. Na volta. também começamos a fazer parte dela. Por isso não houve nenhum tipo de treinamento especial. de muita câmera na mão. no futuro. pediu ao final da entrevista que gravássemos uma reza sua e lhe mandássemos a fita depois para que. Temos também uma GoPro [câmera à prova d’água que pode ser acoplada à cabeça ou a outros suportes].. seus filhos e netos pudessem vê-la. Para concretizar uma aventura do porte da rota do sal. aproveitando as melhores condições de navegabilidade. microfones. mais livre. foi revelador. monopés. barquinho em Aguiarnópolis.

Quais as expectativas de vocês em relação ao documentário? Queremos fazer disso tudo um filme capaz de unir aventura contemporânea à identidade e cultura brasileiras. mas deu tudo certo e fizemos boas fotos e imagens. a localização da equipe e os diários de bordo dos integrantes. Ela é famosa pela dificuldade de ser atravessada por embarcações e pelos acidentes (muitos deles fatais) sofridos por aqueles que antigamente eram obrigados a navegar por ali.BR Radar_SalB. Vários moradores nos aconselharam a evitar o local. Essa era praticamente a única forma de locomoção na região até a construção da rodovia Belém-Brasília. Quando chegamos das remadas.com. Nele. pois ainda hoje ocorrem mortes e naufrágios. 68 GOOUTSIDE. na seção “mapa da expedição”. comer e nos locomover nas cidades. DESCANSO MERECIDO: A galera da produtora pernoita em Goiás Como é possível saber mais sobre a expedição de vocês? O projeto possui um site oficial (rotadosal. ainda temos de produzir o filme. É das poucas cachoeiras que não foram submersas por barragens.história NA REMADA: Documentaristas durante travessia de caiaque entre Tocantins e Maranhão ———>>>> Teve algum trecho mais difícil de ser transposto? Um ponto complicado do trajeto foi a cachoeira do Funil. Depois vamos levar esse trabalho para as escolas públicas como material didático. Desejamos passar para o espectador a sensação do que é estar em movimento em um “river movie”. por si só a aventura já demandaria um bom esforço.indd 68 8/29/11 5:54 PM . Resolvemos fazer uma visita por terra para avaliar os riscos. no município de Lajeado. em Tocantins. entre eles o clássico orçamento reduzido. As dimensões de nossa rota do sal são continentais. estão todos os obstáculos de se produzir um filme no Brasil. Foi um dos dias mais tensos da expedição. checar locações e resolver onde iremos dormir.br) com vídeos e algumas das mais de 3 mil fotos tiradas por Gustavo Baxter. contando a ocupação do Centro e Norte do país a partir da memória de seus povos originários. Aliado a isso. é possível também acompanhar. quais outras dificuldades foram enfrentadas pela equipe até agora? A longa duração da expedição e a permanência da equipe em campo começam a se revelar uma de nossas maiores dificuldades. EM CENA: Equipe documenta o dia a dia dos kalungas Além do rio. agendar entrevistas.COM.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful