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Uso da terra na bacia hidrográfica

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USO DA TERRA NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIBEIRÃO PARAÍSO – CHARQUEADA/SP

Daniela Cristina Aparecida CAPPAROL Sandra Elisa Contri PITTON

Introdução
É crescente nesse início de século a preocupação com o meio ambiente e com a degradação dos recursos naturais, colocando em questionamento o futuro do planeta e também da humanidade. Assim, as conseqüências dos efeitos globais dos grandes desmatamentos, queimadas, poluição do ar e da água em grande escala, exigem a proposição de medidas fundamentadas no binômio desenvolvimento e meio ambiente. Nessas circunstâncias, os problemas ambientais destacaram-se nos meios de comunicação, incorporando-se ao cotidiano de cientistas, pesquisadores, professores, políticos e ambientalistas, pois é impossível viver sem os recursos naturais, especialmente sem os recursos hídricos, os quais são utilizados para o consumo humano, irrigação dos solos, dessedentação de animais, abastecimento urbano e, também, produção industrial. Dessa forma, apresentam-se como indispensáveis os estudos relacionados às bacias hidrográficas, já que o uso adequado e planejado dos recursos naturais e, mais especificamente, dos recursos hídricos, faz-se com o gerenciamento de uma bacia hidrográfica. Com relação a estudos em bacias hidrográficas, Prochnow (1990, p. 10) lembra que estas pesquisas são de natureza complexa, pois seus elementos estão intimamente relacionados, existindo a integração de variáveis físicas e sócio-econômicas. No que concerne, ainda, às pesquisas em bacias hidrográficas, Marinho (1999, p. 9) afirma que estas avançaram de ações de projetos urbanísticos e passaram a nortear interesses ambientalistas como planos de manejo e sistematização de leis. Bueno (1994) e Fuchs (2002) lembram, também, a importância da compreensão das características físicas e humanas de uma bacia, com relação ao manejo de recursos naturais e levantamento de problemas ambientais, afirmando que esta é a melhor unidade para tais atividades, pois oferece uma abordagem holística no tratamento dos mesmos. Del Prette et. al. (2002) relacionam os estudos em bacias hidrográficas à busca pelo desenvolvimento sustentável, visto que este se verifica com o cumprimento de três metas essenciais, que são o desenvolvimento econômico aliado à eqüidade sócio-econômica e ambiental, resultando em sustentabilidade ambiental. Com base nessas idéias, foi considerado como objeto deste estudo a Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso, localizada no município de Charqueada/SP (Figura 1), que mesmo sendo de pequeno porte, insere-se na região de Piracicaba, altamente desenvolvida no setor sucroalcooleiro no Estado. Isso vem acarretando à bacia diversos impactos ambientais negativos, como a degradação da mata ciliar, a erosão e o assoreamento, gerados pela desmedida prática desta cultura.

64 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org.) Figura 1 – Localização da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso no Município de Charqueada/SP .

climáticas e geomorfológicas favoráveis e. instalada no município vizinho (Piracicaba). 1991. foram estabelecidos os seguintes objetivos: . para a realização de um trabalho com estas características buscou-se essencialmente informações em outros estudos (principalmente teses e dissertações) com objetivos semelhantes.elaborar propostas para a recuperação desta bacia. As características sócio-econômicas da área foram obtidas a partir de dados gerados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (1960. evitando. visando favorecer o poder público local e a sociedade. principalmente. aproximadamente 61% de suas terras ocupadas pela produção canavieira. .estudar os processos sócio-econômicos que influenciaram a expansão urbana e as práticas agrícolas na área. Num âmbito mais específico.analisar o uso da terra nesta bacia nos anos de 1964. 1970. bem como o desenvolvimento de novas investigações. entende-se que o presente estudo buscou auxiliar a identificação. uma avaliação da degradação ambiental na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso.entrevistar moradores da área estudada para analisar a compreensão destes sobre as transformações ocorridas na bacia. . portanto. uma vez que dispõe de condições pedológicas. 1985. por ficar próxima a uma grande usina produtora de açúcar e álcool. tem. principalmente para a conservação e gerenciamento dos recursos hídricos desta bacia. .Geografia: ações e reflexões 65 A bacia hidrográfica pesquisada. buscou-se realizar por meio da análise do uso da terra e de controles de campo. além de direcionar sua expansão industrial. Assim. Diante do exposto. 1995. que reúne a cidade de Charqueada e o bairro Paraisolândia. a degradação do meio ambiente. minimização e prevenção de impactos ambientais negativos aos recursos naturais desta área. urbana e agrícola. Procedimentos metodológicos Levantamento de dados A avaliação da degradação ambiental de uma bacia hidrográfica é de fundamental importância para a recuperação e o manejo adequado de seus recursos naturais. na atualidade. além da análise dos usos da terra na área encontrados em fotografias aéreas (1964) e no Atlas Ambiental da bacia do Rio Corumbataí (1990 e 2000). no que tange à conservação da área. . 1996 e 2000). Partindo do exposto. 1980. 1990 e 2000.

A escolha deste material se deve porque esta fonte de informação foi produzida pelo Centro de Análise e Planejamento Ambiental (CEAPLA) da Universidade Estadual Paulista (Campus de Rio Claro). encontrados no Atlas Ambiental da bacia do Rio Corumbataí.) Escolha dos marcos temporais apresentados Tendo conhecimento da existência dos mapas do uso da terra para os anos de 1990 e 2000 da bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso.000 Ano: 1964. foi utilizado o Atlas Ambiental da bacia do Rio Corumbataí. IBGE. Escala: 1: 50. Itirapina SF 23 M I 3.Computador Pentium 166.66 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org. Confecção da carta de uso da terra para o ano de 1964 Para atingir a premissa desta pesquisa foram utilizados: a) Equipamentos: . monitor de 15 polegadas.Fotografias aéreas: Obra: s/ dados. considerou-se necessário um marco temporal anterior.000. do qual foram retirados os mapas de uso da terra da bacia estudada.Scanner Hewlett Packard Scanjet 4C.Cartas Topográficas: Nomenclatura: São Pedro SF 23 M III 1. . com memória de 64 MB e HD de 40 GB. . Piracicaba SF 23 M III 2. Rio Claro SF 23 M I 4. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. já que a este pertencem os registros fotográficos disponíveis utilizados nesta investigação.Universidade de São Paulo (IGEOG – USP). Faixa 04: Números 9469 a 9471. b) Materiais: . Faixa 06: Números 9750 a 9752 Escala: 1: 25. Faixa 05: Números 9620 a 9622 . 1974. Por isso foi determinado o ano de 1964. Análise comparativa com os anos de 1990 e 2000 Para a análise comparativa com os marcos de 1990 e 2000. além de Windows 95 e CorelDraw 9. Fonte: Instituto de Geografia . .

No que diz respeito à escolha dos sujeitos. Nome: Sexo: Idade: Ocupação: Escolaridade: . . nessa faixa etária. bem como suas conseqüências para a área e para a população. os controles dividiram-se em oito etapas.Geografia: ações e reflexões 67 Avaliação dos impactos ambientais negativos A identificação e a avaliação dos impactos ambientais negativos foram realizadas em duas etapas: análise das cartas de uso da terra (1964. entre 41 e 69 anos de idade. indagava. para saber qual a principal mudança observada. além da relação do entrevistado com a área. auxiliando na verificação da degradação ambiental. vivenciaram as transformações ocorridas na área entre os anos de 1964 e 2000. 1990 e 2000) e controles de campo. ou seja. Realização de entrevistas Para acrescentar algumas experiências individuais a esta investigação. Atendendo aos objetivos deste estudo. foram feitas as seguintes exigências: . com variadas ocupações e graus de escolaridade) no mês de janeiro de 2005. quais as transformações nela ocorridas e suas conseqüências. foram realizadas 35 entrevistas estruturadas junto aos moradores da cidade de Charqueada e do bairro Paraisolândia (homens e mulheres. nos finais de semana dos meses de novembro de 2004 e janeiro de 2005. ou seja. bem como na elaboração das propostas para a recuperação e o manejo da bacia pesquisada. uma vez que a diferença temporal das cartas é de 36 anos. para examinar a destruição causada ao meio ambiente. a área foi percorrida após a análise das cartas.morador da bacia pesquisada. Cumpre destacar que todos os entrevistados foram informados sobre os objetivos da pesquisa. Controles de campo Realizados para observar em campo as informações levantadas nas cartas de uso da terra. Essas exigências ocorreram porque as pessoas.idade superior a 40 anos. A entrevista estruturada era composta por duas partes distintas: a primeira delas continha perguntas para a identificação e caracterização dos sujeitos e a segunda. com o objetivo de analisar a relação estabelecida entre os moradores e a bacia hidrográfica pesquisada. além de moradoras. ou seja.

teve parte de suas terras destinadas à cafeicultura. representando o maior uso. com relação ao desenvolvimento de suas principais atividades econômicas. demonstrando os primeiros sinais de devastação. fatos marcantes. visualiza-se que a canavicultura nesse ano (1964). as áreas de mata e mata ciliar perfaziam 25. .79%. pedologia e clima. No mesmo ano. em detrimento da expansão do café. pois o desenvolvimento econômico e industrial na área igualmente se caracterizava (Figuras 2 e 3). ocupando aproximadamente 3.82% da paisagem local. 1. localizada na Média Depressão Periférica Paulista. com 45. ocupando. conforme visualizado.73% da bacia. a área urbana é pouco expressiva. é necessário considerar. aproveitando as condições ambientais oferecidas pelas suas formas de relevo.) Procedência: 1) Qual a sua relação com a área? 2) É de seu conhecimento uma ou mais mudanças ocorridas na bacia do Ribeirão Paraíso? Qual ou quais? 3) Esta(s) mudança(s) foi(ram) boa(s) ou ruim(ins)? Por quê? Algumas considerações sobre o uso da terra na bacia hidrográfica do Ribeirão Paraíso Para a compreensão das alterações no uso da terra na bacia hidrográfica do Ribeirão Paraíso. caracterizada por terrenos férteis e levemente ondulados. compondo 13. demonstrava sinais de expansão e.25% da área em 1964. De acordo com as figuras citadas.73% da bacia. Todavia. A bacia estudada. possuía 9.68% da bacia analisada. As atividades econômicas também se ligam ao crescimento e ao adensamento urbano e. também. aproximadamente. As áreas destinadas ao reflorestamento também são características da bacia hidrográfica nesse marco temporal.68 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org. em meados do século XIX. ocorrida anteriormente (Figuras 2 e 3). Essa atividade perdurou na área até o final da década de 1960. o que realmente se destacava até então era a área destinada à pastagem. fornecendo a idéia de existência de interesses de recuperação vegetacional na bacia em questão. em 1964.

Geografia: ações e reflexões 69 Figura 2 – Uso da Terra em 1964 na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP .

00% 20.45% desta bacia (Figuras 4 e 5). perfazendo 1.00% 25. também. somente 15. é de claro entendimento a consolidação da prática canavieira na área nesse ano (1990). milho e mandioca era empregada em apenas 6.70 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org. a cultura anual representada pelo cultivo de melancia. são atraídos para a cidade. . D. foi a sericicultura. em 1990. nesse ano.00% 10. A área destinada à silvicultura (não constatada em 1964) era ainda menos expressiva. Ocupando 40.) Figura 3 – Uso da terra em 1964 na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP 50. em função do avanço canavieiro.. durante a década de 1970. conforme já detalhado anteriormente.00% Área urbana Café Reflorestamento Cana-de-açúcar Áreas de mata Pastagem Organização: Capparol. Com isso. reduzem-se a 29. a qual tem sua área expandida para 4. que no marco anterior (1964). C.00% 30. nas décadas seguintes. na considerável redução das áreas de mata. em 1990.00% 5.02% segundo as figuras anteriormente referidas.35%. Entretanto. mas substituída totalmente pela prática canavieira desde o início da década de 1980.71% da bacia (Figuras 4 e 5). a situação apresenta mudanças significativas e novas atividades econômicas ganham destaque na área: a primeira delas.00% 35. 2005.00% 40. que possuíam.00% 45. As áreas de pastagem. batata-doce.87% em 1990. novos trabalhadores que posteriormente acabam se tornando habitantes.60% do total da área investigada. Isso graças aos incentivos governamentais instituídos pelo Proálcool. ocupavam mais de 45% da bacia. Assim. A.00% 15.00% 0. influenciando. a paisagem da bacia pesquisada sofre intensas alterações e.

Geografia: ações e reflexões 71 Figura 4 – Uso da Terra em 1990 na Bacia do Ribeirão Paraíso – Charqueda/SP .

00% Áreas de mata 15.54% da bacia em questão e de capoeira.00% Silvicultura 0. mas também do município de Charqueada.00% Cana-de-açúcar 40. A. ocupando 2. A principal diferença diz respeito à presença de áreas destinadas ao eucalipto.00% Pastagem 30. Ambas as reduções ocorreram para que a prática canavieira atingisse 61.00% 25.72 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org.Uso da terra em 1990 na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP 45. A diversificação dos usos não é significativa em 2000 (Figuras 6 e 7).08% da bacia pesquisada neste último marco temporal. perfazendo 10. C.00% Organização: Capparol. .00% 35.12% neste ano. Paralelamente a essas alterações está a expansão da área urbana. confirmando sua supremacia e se apresentando como a principal atividade econômica não somente da área estudada.35% em 1990 para apenas 10. D.00% 20. O mesmo ocorre com a categoria pastagem.87% em 1990 para 5. que passa de 4.71% em1990 para 10.39% em 2000. A porcentagem da área destinada às matas também apresenta redução: de 15.00% 10. favorecida pelo aumento populacional (Figuras 6 e 7).70% neste ano.17% em 2000. com redução muito expressiva: de 29. Ambas não foram constatadas no marco temporal anterior (1990).) Figura 5 .. 2005.00% Área urbana Cultura anual 5.

Geografia: ações e reflexões 73 Figura 6 – Uso da Terra no ano 2000 na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP .

D.) Figura 7 – Uso da terra no ano 2000 na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP 70.00% 20.o assoreamento hídrico causado pelo desmatamento leva à diminuição do volume d’água dos corpos hídricos desta bacia.como resultado do forte desmatamento ciliar. na bacia estudada.00% Cana-de-açúcar 60.00% Organização: Capparol. espelha a mínima preocupação destinada à preservação do meio ambiente e dos recursos naturais na bacia investigada. . foi desencadeada.00% 40. a presença de mata ciliar. uma série de processos erosivos e assoreamento hídrico. . mesmo existindo leis atinentes contra tal fato.00% Áreas de mata 10.A. configuram uma situação preocupante.00% Área urbana Pastagem Capoeira Eucalipto 0. que mesmo sendo estes de pequeno porte. reduzindo drasticamente as áreas de mata ciliar e de pastagem.00% 30. representada pela expansão do cultivo canavieiro entre os anos de 1964 e 2000. Sobre essa análise. 2005.C. conforme já destacado.. pois. contribui para a conservação de rios e ribeirões.00% 50. é válido ressaltar ainda os seguintes aspectos: . além de evitar ocorrências erosivas e assoreamento. evitando o contato destes com substâncias poluentes e contaminantes.baseando-se nas figuras apresentadas e nos controles de campo.74 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org. o que prejudica os fenômenos de . constatou-se que existe forte interferência humana na área. .a diminuição das áreas de mata.

. Difusão representa a capacidade de o corpo receptor misturar a descarga poluente.mesmo sendo. indagando principalmente aos entrevistados sobre as mudanças observadas na área entre 1964 e 2000. rentável para todo o município. 1998. . o que exigirá o uso cada vez maior de produtos agroquímicos para o cumprimento da demanda e que. dispersão e autodepuração1. por sua vez. as entrevistas foram realizadas com o objetivo de analisar a relação da população com a bacia hidrográfica estudada. de 100% destes é de que são moradores: Autônomo. Segunda pergunta: É de seu conhecimento uma ou mais mudanças ocorridas na bacia do Ribeirão Paraíso? Qual ou quais? Esta segunda parte indagava os entrevistados sobre o que se alterou na bacia e. Dessa forma. pode desencadear o processo de poluição e contaminação do solo e dos corpos hídricos da bacia. As respostas obtidas de todos os entrevistados. bem como suas conseqüências para a bacia e para a população: Primeira pergunta: Qual sua relação com a área? Nessa primeira parte. 6). Desde que eu nasci”. possibilitando a recuperação ambiental das áreas degradadas. novamente. foi perguntado ao entrevistado qual a sua relação com a área. . a atividade canavieira. . com os limites naturais. pois emprega muitos trabalhadores. 55 anos: “Moro aqui faz 55 anos. Percepção ambiental dos moradores da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso Conforme aludido anteriormente.as propostas para o manejo desta bacia devem equilibrar as ações humanas. ou seja. difusão turbulenta. pode levar ao esgotamento do solo. em especial a cultura da cana-de-açúcar. 100% dos entrevistados (como moradores da bacia) apontaram a ocupação de áreas de mata e de pastagem pela cana-de-açúcar como a principal mudança ocorrida: 1 Diluição corresponde a relação entre o volume da descarga poluente e o corpo receptor. Serviços Gerais. a regeneração destes rios e ribeirões se torna deficiente e as atividades desenvolvidas ao longo desses apresentam-se comprometidas.. 47 anos: “Moro nesta área desde que eu nasci”. as medidas apresentadas devem ser entendidas como norteadoras de um ambiente saudável e sustentável e somente apresentarão sentido se forem aplicadas e fiscalizadas por uma equipe técnica capacitada em planejamento urbano e agrícola e recuperação de áreas degradadas.Geografia: ações e reflexões 75 diluição. p. A autodepuração representa a eficiência do corpo receptor em permitir a transferência de oxigênio dissolvido da atmosfera para a água (LEAL. Assim. A dispersão aumenta a eficiência nos processos de mistura.

entre outros mais”. 47 anos: “Foi a cana. ou seja. Figura 8 – Opinião dos entrevistados sobre as mudanças ocorridas na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Paraíso – Charqueada/SP 45% 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% Mudança boa Mudança ruim Mudança boa e ruim Organização: Capparol. principalmente porque vem muita gente de fora pra trabalhar aqui: mineiros. A. relacionando-se ao que apresentava maior relevância para os sujeitos.. ocorrendo a perda da biodiversidade local. se a mudança foi boa ou ruim para a bacia. pois registra a opinião das pessoas sobre a atividade canavieira na bacia hidrográfica estudada. Terceira pergunta: Esta(s) mudança(s) foi(ram) boa(s) ou ruim(ins)? Por quê? Esta última parte é possivelmente a mais importante.”.76 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org.) Motorista. D. O cultivo canavieiro é considerado bom para 29% dos entrevistados por conta da geração de empregos: Empresária. Professor. baianos.. assoreamento dos rios. 51 anos: “Eu acho que a cana foi boa sim porque empregou bastante gente e deu serviço pra um monte de pessoas”. C. porque deu bastante emprego. Mas agora não tá dando mais nada. 2005. 41 anos: “Nessa área. .. posso dizer que o ambiente foi modificado com a monocultura da cana-de-açúcar.

respectivamente. pois consideram os elementos naturais e humanos e sua constante interação na transformação do meio ambiente. o prefeito de Charqueada tá fazendo parte de um grupo que vai reflorestar todos os nossos rios. correspondendo. o povo reclama. evidenciando assim que a sociedade não deve considerada separada ou independente do meio ambiente. principalmente pelas queimadas”. mas é muito pouco praticado”. mencionaram tanto o lado positivo como o negativo dessa mudança. o que eu acho é que a cana. Relacionada a esta problemática está o alerta sobre a conservação qualitativa e quantitativa dos recursos hídricos. 55 anos: “Eu acho que foi boa sim. o que seria de nós aqui. os avanços tecnológicos prejudicam demais a natureza. o que. estragando tudo. pois ocorre a geração de empregos. vem degradando. somando os 42% restantes. O plantio da cana é considerado ruim para outros 29% dos entrevistados. porque tão prejudicando demais as futuras gerações. por sua vez. hein. plantada bem perto do rio. Se você não preservar hoje. que é pelo lado comercial. bem como os impactos negativos produzidos nos seus elementos naturais: Autônomo..Geografia: ações e reflexões 77 Autônoma. mas sim como parte integrante e altamente envolvida com seu uso e conservação. como o plantio em curvas de nível. Considerações finais Conforme destacado no início deste trabalho. pra amenizar esse problema. A gente sabe que isso vai demorar uns 30 anos pra dar algum resultado. pelo fato da poluição ambiental em todos os sentidos. Por exemplo. 56 anos: “Bom. porque se não fosse a cana. envolve-se diretamente com as propostas voltadas ao manejo de bacias hidrográficas. que os estudos realizados em bacias hidrográficas são altamente importantes. O lado bom posso dizer. 42 anos: “Eu só vejo o lado ruim da cana. o que vai ser dos nossos filhos amanhã. Existem técnicas. . no meu sítio. eu não posso mexer em menos de 30 metros lá. mas só tem isso mesmo”. Produtor Rural.. confirmada por esta pesquisa.. Despachante. cabe salientar. os quais destacam a degradação dos rios e matas como os principais impactos ambientais negativos gerados por esta cultura: Professor. Tendo por base estas idéias. porque a monocultura em si já é prejudicial e. uma nascente que tem lá. para o futuro.. não é mesmo?”. é cada vez maior a preocupação relacionada ao esgotamento ambiental. mas precisa começar a fazer alguma coisa. 47 anos: “Foram boas para o desenvolvimento. nossa foi ótima. Os demais sujeitos. eu acho que tem o lado bom e o lado ruim. 68 anos: “Olha. Mas é ruim. Agora. infelizmente. para o meio ambiente foram muito ruins. mas para a natureza. à geração de empregos e recursos para a área e para o município. Elas vão sobreviver como?”. além disso.

É de igual importância despertar o poder público local para esta vertente. pois. localizada no município de Charqueada/SP. residindo na importância da preservação dos recursos naturais da área estudada. Universidade Estadual Paulista. outros processos erosivos. 1-521. tomando como base os usos encontrados na área estudada. 1ª Parte. independente de sua ocupação ou escolaridade. Paralelamente ao manejo desta bacia podem ser desenvolvidos programas de educação ambiental. 1994. Instituto de Geociências e Ciências Exatas. também podendo servir como modelo para outros locais. que devem atingir todas as esferas sociais. Tomo XVIII. Cumpre mencionar. com vistas ao planejamento ambiental. . o processo erosivo será controlado através da recuperação vegetacional. . ainda. Considerando as características e as problemáticas da área estudada. 1 – 511. foi realizada uma avaliação da degradação ambiental ocorrida na bacia hidrográfica do ribeirão Paraíso. por exemplo. Zoneamento da susceptibilidade à erosão dos solos da alta e média bacia do rio Jacaré-Pepira – SP. Assim. devem ser estabelecidas as espécies vegetais a serem utilizadas nessa recomposição.) Dessa forma. a necessidade de estudar as outras bacias hidrográficas do município. Rio de Janeiro: IBGE. 1960. 1994. 1960.estabilização das feições erosivas nas margens fluviais: diretamente ligada ao item anterior. P. p. uma vez que nestas. p. Censo agropecuário. acredita-se que as propostas apresentadas oferecem condições para auxiliar na recuperação desta bacia. . Censo agrícola. R. 2ª Parte. Rio de Janeiro: IBGE.78 Lucia Helena de Oliveira Gerardi e Pompeu Figueiredo de Carvalho (Org. foram estabelecidas algumas propostas para o manejo da área: . Rio Claro. Volume II. IBGE. Referências BUENO. Tese (Doutorado em Geociências e Meio Ambiente). ______. sua participação para a solução destas problemáticas é única. 1970. 1970. a degradação de seus recursos naturais também é intensa. em que foram identificados os seguintes problemas a partir da intensa expansão canavieira entre 1964 e 2000: grave degradação das matas ciliares e intenso assoreamento de corpos hídricos.recuperação ciliar: através do estudo do solo e do clima local.controle da sedimentação hídrica: o material (solo). INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. os controles de campo e a importância da canavicultura para o município. É necessário destacar que a realização das entrevistas demonstrou principalmente que as preocupações com o meio ambiente fazem parte do cotidiano de todos. depositado ao longo dos corpos hídricos por conta das feições erosivas deve ser retirado e depositado em um outro local onde possam existir. Volume III. C. Tomo XI. 137 f.

Instituto de Geociências e Ciências Exatas. CAPPAROL. 2002. 330 f. 2002. 1970. 1991. F. M. p. 1995 – 1996. 2ª Parte. Série Regional.rc. H. R. Volume 1. Universidade de São Paulo. 1 – 520. Censo demográfico. 2003. Dissertação (Mestrado em Geografia). 185 f. 17 – 35. 1991. 135 f. 1985. ______. Volume I. Rio de Janeiro: IBGE. 113 f. et. al. pp. 1999. p. Censo demográfico. A. Atlas Ambiental da Bacia do Rio Corumbataí. p. Rio de Janeiro: IBGE. Acesso em: 20 ago. Instituto de Geociências e Ciências Exatas. 1 – 501.br/centros/igce/atlas/index. DEL PRETTE. 1980. 1999. D.unesp. . UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA.Geografia: ações e reflexões 79 ______. PROCHNOW. (Org. S.000. Rio Claro: Centro de Análise e Planejamento Ambiental. Dissertação (Mestrado em Geografia). 1-383. p. Zoneamento ambiental da bacia do Arroio Arenal – RS. Rio de Janeiro: CPRM. MARINHO. et. ______. Instituto de Geociências e Ciências Exatas. ______. In: CAMARGO. Censo agropecuário. Rio Claro. Rio Claro. E. Número 21: São Paulo. M. Gestão ambiental de recursos hídricos: princípios e aplicações. Censo demográfico. São Carlos. 1990. Conceitos de bacias hidrográficas: teorias e aplicações. 1980. Nº 19: São Paulo. LEAL. p. Escola de Engenharia de São Carlos. A. 2005. L. Escala: 1:250. 1998. Número 17. p. 2002. ______. Tomo XIII. R. Censo agropecuário. 1960. Rio Claro. F. S. Tomo 3. Rio de Janeiro: IBGE. Estudo ambiental na bacia do ribeirão das Furnas/Araras (SP). Ilhéus: Editus. Planejamento ambiental do turismo. 1985. Universidade Estadual Paulista. Análise ambiental da sub-bacia do rio Piracicaba: subsídios ao seu planejamento e manejo. 1 – 1332. Volume I. Rio Claro. Usos e abusos do território: avaliação ambiental da bacia hidrográfica do ribeirão Paraíso – Charqueada/SP. 14:30:30. 2000. Universidade Estadual Paulista. Dissertação (Mestrado em Ciências da Engenharia Ambiental). Universidade Estadual Paulista. Tese (Doutorado em Geografia). MORAES.). 114 f. 1 – 611. M. B. Rio de Janeiro: IBGE. 2005. Série Regional. 1996. 1990. B de. Dissertação (Mestrado em Geociências e Meio Ambiente). M. 2000. Rio de Janeiro: IBGE. Censo demográfico. Disponível em: <http://www. A utilização do conceito de bacia hidrográfica para a conservação dos recursos naturais. C.html>. Censo demográfico. 2002. C. p. 1 – 764. FUCHS. 1990. ______. 1 – 185. 176 p. Rio de Janeiro: IBGE. al. ______. 1970. V. Tomo XVIII. Número 21: São Paulo. Resultados do universo. C. Instituto de Geociências e Ciências Exatas. Rio de Janeiro: IBGE. 1960. Universidade Estadual Paulista. 2002.

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