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Produto: ESTADO - ESPECIAL - 1 - 31/12/04 H1 - SÃO PAULO Composite

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O ESTADO DE S. PAULO H SEXTA-FEIRA


31 DE DEZEMBRO DE 2004

travessia
‘ 04/05
Tortura em Abu Ghraib (Michael Ignatieff)>
Bush, triunfal e acossado (Dorrit Harazim)> Ara-
fat (Anthony Lewis)> Arquivos da ditadura (Flá-
vio Tavares)> Falsidades do Código da Vinci (Ma-
rio Sergio Conti)> Definições de craque (Daniel Pi-
za)> Crescimento: agora vai? (Armando Caste-
lar Pinheiro)> Incertezas da prosperidade
(Albert Fishlow)> Violência: enigmas e avanços
(Alba Zaluar)> Dirigismo vulgar e tardio (Arnaldo
Jabor)> Soja, transgênica ou não, se alastra
(MarcosSáCorrêa)>Fome e miséria administrati-
va (Lena Lavinas)> Mercosul,
Haiti,China(Marcos Azambu-
ja)> Aborto e direitos huma-
nos (Débora Diniz) “Óculos para ver o futuro”. Rubem Grillo. Xilogravura 5.5 x11.5 cm.1995
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05

O ano em
AE–12/6/2004
❝ O Brasil
só não faz
fronteira com
Chile, Equador e
Bolívia❜❜
●●Lula, esquecendo da longa faixa
de fronteira com a Bolívia

DIDA SAMPAIO/AE–8/12/2004
❝ Privilegiados
são aqueles que
podem pagar
Imposto de Renda,
porque ganham
um pouco mais❜❜
●●Lula, em resposta a funcionários
de fábrica de automóvel no ABC

❝ Muitas vezes as
pessoas gritam até

DIDA SAMPAIO/AE–10/5/2204
sem saber por que
estão gritando❜❜
●●Lula, ao ser vaiado por estudantes
em Alagoas
12 DE JUNHO – Lula e a primeira-dama Marisa Letícia em arraiá na Granja do Torto, no qual comemoraram 30 anos de casamento – ao contrário das fotos à direita, nas quais posou
para a imprensa, divulgação de imagem feita por convidado da festa junina irritou presidente

JOSÉ LUIS DA CONCEIÇÃO/AE FILIPE ARAUJO/AE

❝ “O que tenho sentido de


preconceito e perseguição
é inacreditável. É muito
duro suportar o que estou
suportando❜❜
●●Marta Suplicy, chorando, durante
evento de campanha

❝ “É a autoconfiança.
Sem dúvida, ela se acha
uma grande administrado-
ra.❜❜
●●José Serra, respondendo a uma
repórter sobre qual era a maior virtude
de Marta Suplicy
23 DE OUTUBRO – Marta chora em encontro com idosos na Vila Prudente 15 DE OUTUBRO – Serra comemora a vitória na disputa pela Prefeitura

❝ O que é que eu tenho a ver com isso?


❝ Este é um governo ❝A virgindade ❝ Se eu fosse cientista, podem Nada! Eles têm uma visão, nós temos
que não rouba nem dei- do PT ter certeza, estaria bem perto de outra, eles podem estar certos, nós
podemos estar certos, ambos podemos es-
xa roubar❜❜ acabou❜❜ descobrir a cura do câncer❜❜ tar errados, há várias possibilidades ❜❜
●●José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, no auge ●●Jutahy Junior, líder tucano na Câmara dos ●●Paulo Maluf, durante a campanha ●●Gilberto Gil, ministro da Cultura, sobre a criação do Fórum
do escândalo com seu assessor Waldomiro Diniz Deputados, sobre o escândalo Waldomiro Diniz eleitoral em São Paulo pelo Desenvolvimento do Audiovisual e do Cinema (FAC)

EVILAZIO BEZERRA/AE J.F. DIORIO/AE TASSO MARCELO/AE

31 DE AGOSTO – Daniela e Ronaldo, casal do ano


11 DE FEVEREIRO – De estilingue a vidraça: ministro do Trabalho,
Ricardo Berzoini, leva torta na cara ❝ Um dia quero ficar grávida. Aí vão
JOEDSON ALVES/AE
dizer: ‘Consumou o
golpe.’ Por que eu não posso gostar
dele e ele de mim?❜❜
●●Daniela Cicarelli, sobre o namoro com Ronaldo

❝ Queria cumprimentar os gays, as


lésbicas e os transgênicos ❜❜
●●Gastão Wagner, secretário-executivo do Ministério
da Saúde, em evento oficial contra o precoceito em rela-
ção a homossexuais
AGLIBERTO LIMA/AE

30 DE AGOSTO – Incêndio na Favela do Buraco Quente, zona sul de São Paulo

❝ Sou melhor piloto do que o Schumacher ❜❜


9 DE JUNHO – Os senadores Heloisa Helena e Eduardo Suplicy se ●●Rubens Barrichello, em reportagem publicada no jornal alemão ‘Bild’.

beijam no plenário do Senado 27 DE OUTUBRO – Caso Serginho abala futebol


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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

TRAVESSIA ‘04/05

frases e fotos SERGEI KARPUKHIN/REUTERS–3/9/2004 ANDREA COMAS/REUTERS

11 DE MARÇO – Policial caminha ao lado de trem destruído em atentado na Estação de Atocha, Madri

❝ Ficamos com medo de um tigre ❝ A primeira onda era tão bonita que tira-
de papel! É preciso dizer claramente: va o fôlego❜❜
o rei está nu!❜❜ ●●Jochen Neumeyer, jornalista, descrevendo a chegada da
●●Fernando Henrique Cardoso, em crítica a Lula e ao PT onda provocada pelo terremoto na ilha de Ko Lanta, Tailândia

DEDDEDA STEMPER/AP

3 DE SETEMBRO – Mulher chora ao ver corpo do filho morto em operação de resgate de reféns em
escola na província russa de Beslan: terror checheno 28 DE DEZEMBRO – Ilha de Phuket, Tailândia, arrasada por tsunami que matou mais de 100 mil na Ásia

ATEF HASSAN/REUTERS REUTERS

❝Ela fala inglês melhor


do que eu❜❜
●●George W. Bush, durante a campanha eleitoral, ao brincar sobre a influência
da mulher, Laura, em sua vida

❝ Creio que, se falarmos com a filha de Dick


Cheney, que é lésbica, ela lhe dirá que é como
nasceu❜❜
●●John Kerry, candidato democrata, no último debate antes da eleição para a
presidência dos Estados Unidos, mencionando a filha do candidato a vice republi-
cano quando perguntado sobre homossexualismo

PEDRO ARMESTRE/AFP

6 DE MAIO – Imagem de soldado americana arrastando preso


iraquiano choca o mundo

❝ Eu errei. ❝ Pela primeira


É uma vez em muito
coisa tempo sinto que
que estou usando o
acontece❜❜ cérebro❜❜
●●Daiane dos Santos, ●●Victoria Beckham, ex-integrante
sobre a perda do grupo Spice Girls e mulher do joga-
da medalha dor inglês David Beckham, ao lançar
30 DE DEZEMBRO – Vanderlei Luxembugo desembarca na Espanha, 22 DE MARÇO – Soldado britânico atingido por coquetel molotov de ouro em Atenas linha de calça jeans
como o novo técnico do Real Madrid em Basra, no Iraque

KOJI SASAHARA/AP NICOLAS ASFOURI/AFP

❝ Da geração de 70
até hoje, eu sou o
mais importante
jogador que surgiu no
Brasil❜❜
●●Romário, sempre polêmico

❝ O jogador se
autoproclamar o
melhor é pretensão
demais❜❜
●●Ronaldo, o Fenômeno,
comentando a declaração
de Romário

29 DE AGOSTO – Ex-padre derruba Vanderlei Cordeiro de Lima durante a maratona, nas Olimpíadas 13 DE SETEMBRO – ‘Batman’ em protesto no Palácio de Buckingham
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05
EVELSON DE FREITAS–30/10/2004

MISSÃO HAITI – O Brasil agiu com acerto ao aceitar o convite da ONU para ir para o Haiti, isso reforça nosso perfil internacional. Mas temos de sinalizar que nossa missão tem prazo fixo e objetivos limitados e realistas

Um ano de vitórias no front externo


Brasil aproveita a conjuntura internacional para exportar mais e conquistar prestígio com ações como a no Haiti

Marcos Azambuja* nente foi um passo decisivo. Em Os grandes foros de negocia- e a uma avaliação prudente de sa crítica do Brasil e seu peso na interna, na proteção da Amazô-
volta do entendimento entre o ção passaram a ser utilizados riscos e oportunidades. sociedade internacional obriga- nia e no combate às drogas. Não
O ano de 2004 deixa um saldo Brasil e a Argentina arrumou-se com mais inteligência e maior Vai longe aquele período de rão a que tenhamos um lugar pri- enfrentamos, em nenhum desses
bastante expressivo para a polí- a América do Sul. pragmatismo. Passamos a conta- intensa e disparatada emociona- vilegiado e estável naquele foro, campos, uma crise. Mas em to-
tica externa brasileira. O qua- A Fernando Henrique Cardo- bilizar vitórias em disputas co- lidade que levou mesmo o nosso no qual, em princípio, as deci- dos os casos somos defensivos e
dro internacional – descartado so cabe a grande parcela de cré- merciais com alguns gigantes. Episcopado a propor um plebis- sões sobre a segurança interna- perdemos energia e credibilida-
o impasse em que se transfor- dito por ter colocado o Brasil fo- Passamos a explorar novas cito sobre um projeto comercial cional são tomadas. Estarmos de ao nos justificar.
mou a malfadada invasão do Ira- ra do ciclo caótico da inflação e oportunidades e continuamos a que simplesmente ainda não com Índia, Japão e Alemanha no Nos três casos, mas sobretu-
que e a intratabilidade crônica livre das ingenuidades volunta- nos distanciar dos sovados cha- existia. pequeno grupo de candidatos na- do quanto à Amazônia, alega-
das relações entre Israel e a Pa- ristas e ter mostrado que no Bra- vões do nosso discurso político. Avançamos naquilo que mais turais é evidência do caminho mos a nossa impotência para
lestina – foi marcado por um sil, com ele, se consolidava um Ainda há um longo caminho a nos importa: o acesso aos merca- percorrido. Já estivemos em mui- preservar uma medida de ino-
crescimento generalizado. A período marcado pela racionali- percorrer. Muitos atores públi- dos (a que já me referi, às con- to pior companhia. cência. É uma política perigosa.
economia internacional atraves- dade e civilidade. Homem do cos brasileiros ainda têm os há- quistas na OMC e à nossa nova A soberania é o oposto da impo-
sa um período de expansão e o mundo, exerceu, com naturalida- bitos do discurso ineficiente, e competente agressividade ex- HAITI tência. Ao alegarmos não ter os
resultado das eleições america- de, a diplomacia presidencial. dos apelos inócuos e da gesticu- portadora). Na busca de acesso No conjunto dos gestos e posi- meios para coibir malfeitorias,
nas teve um efeito positivo so- Mesmo do presidente Fernan- lação vazia. aos círculos mais fechados do ções que reforçam o nosso perfil reconhecemos que não pode-
bre os mercados. do Collor pode-se dizer que in- O País que já somos não po- poder internacional e às tecnolo- internacional, a presença no Hati mos ou não sabemos exercer
O Brasil – quase sempre em tuiu que um longo ciclo da vida de mais fazer apelos e exorta- gias de ponta. foi e é significativa. O Brasil plenamente a soberania que re-
descompasso com as tendên- ções altissonantes. Não pode, Soubemos resolver uma ques- clamamos. O Tratado de Coope-
cias mundiais – estava, desta por exemplo, reclamar – para tão com a Agência Internacional ração Amazônica deve ser forta-
vez, pronto para aproveitar o SEM DEMONOLOGIAS, que ninguém ouça e muitos sor- de Energia Atômica (AIEA) en- PROGREDIMOS POUCO lecido e sua sede transferida pa-
bom momento e expandir de for- O PAÍS ATUOU COM riam – um novo Plano Mar- volvendo nosso processo de enri- NA PROTEÇÃO À ra Belém ou Manaus. Estar em
ma notável suas exportações e shall. Acompanha o nosso quecimento de urânio que sal- Brasília não é boa sinalização.
valer-se de sua consolidação de- MAIS DESENVOLTURA maior peso a necessidade de ser- vou o projeto e a face das duas AMAZÔNIA E NO
mocrática e da racionalidade e NO FMI E NA OMC mos levados a sério. partes. COMBATE ÀS DROGAS SABATINAS
previsibilidade de seu comporta- No ano que vem, o Brasil de- Uma palavra final sobre o Ita-
mento macroeconômico para NEGOCIAÇÕES veria assinar o Protocolo Adicio- maraty. Continua a ser uma das
transmitir ao mundo a impres- internacional chegava ao fim e Nos nossos três grandes tabulei- nal de TNP e, sobretudo, acele- agiu com generosidade e solida- melhores diplomacias do mun-
são de que, finalmente, o país que o Brasil precisava rever to- ros de jogo – o do Mercosul, o rar o trabalho para o domínio do riedade e esses são traços com os do. Não vejo sinal de que deixe
do futuro estava preparado para da sua agenda externa. da construção da Área de Livre ciclo do enriquecimento do com- quais devemos nos identificar. de ocupar essa posição. Obser-
o presente. Ao presidente Luiz Inácio Lu- Comércio das Américas (Alca) bustível nuclear. O tempo não Agimos com acerto ao aceitar vo, pelo contrário, cada vez
O presidente da República e la da Silva, em primeiro lugar, e das negociações do Mercosul corre a nosso favor e, se demo- o convite do secretário-geral da maior qualificação intelectual
seu chanceler podem reclamar, pela surpreendente e corajosa com a União Européia (UE) – rarmos, vamos encontrar um mu- Organização das Nações Unidas dos que entram e, com novas
com justiça, uma parcela impor- adesão a políticas que nos trou- não houve muito progresso efeti- ro onde antes havia uma porta. (ONU) para irmos para o Haiti. roupagens, a mesma devoção
tante de crédito pelos resultados xeram tranqüilidade interna e vo em 2004. Atuamos, contudo, O tempo é da essência e, se qui- Temos, contudo, de ter, desde ao interesse nacional e à ética
alcançados e pelo fato de que o confiança externa e por ter con- com firmeza e com lúcida aten- sermos ser um dos países que do- já, uma estratégia de partida. Te- do serviço público.
Brasil continua a subir degraus seguido que suas preocupações ção aos nossos interesses nesses minam totalmente a tecnologia mo que o Haiti não se arrume e Não me parece bem desenha-
na hierarquia nacional. Amplo sociais não fossem perseguidas três exercícios associativos. do enriquecimento do urânio, te- devemos sinalizar que nossa da, na forma e no fundo, a exi-
reconhecimento é devido à equi- com o sacrifício de uma credibi- Quanto ao Mercosul, uma pa- mos de fazer duas coisas: garan- missão tem prazo fixo e objeti- gência para que os diplomatas
pe econômica, cujo comporta- lidade econômica e fiscal tão du- lavra apenas: é excessiva a irrita- tir a nossa transparência e boa fé vos limitados e realistas. que retornam a Brasília leiam,
mento sugeriu que a racionalida- ramente conquistadas. A perso- ção de setores da sociedade bra- e trabalhar muito e depressa. Há outros sinais positivos a re- em recinto designado, três
de talvez tenha vindo ao Brasil nalidade carismática e construti- sileira com os nossos parceiros, No que diz respeito ao nosso gistrar: o extraordinário número obras e sobre elas sejam, depois
para ficar. va de Lula é um ativo com que e com a Argentina em particu- acesso aos círculos mais privile- e peso das autoridades estrangei- , sabatinados. Afastados os ele-
Não se pretende sugerir aqui podemos contar. lar. A nossa diplomacia, ao per- giados do poder internacional, ras que nos visitaram. Não en- mentos anedóticos, deve-se evi-
qualquer tipo de milagre ou ima- Bem armado, assim, o jogo severar no rumo iniciado em As- em 2004 demos passos impor- contro precedente para tantas vi- tar tudo o que pareça excêntrico
ginar um coelho providencial ao longo dos últimos 15 anos, sunção e confirmado dez anos tantes. O G-20 é um bom clube. sitas bilaterais realizadas sem o ou autoritário.
que saltasse da cartola diplomáti- em 2004 assistimos ao poderoso depois em Ouro Preto, avança Melhor ainda é o G-8, ao qual o pretexto de qualquer evento con- A idéia de que profissionais
ca. Uma longa cadeia de acer- consórcio que se cria quando in- no caminho certo. Brasil deve aspirar para estar en- vocatório. Não só eles vieram que voltam à base se atualizem
tos, internos e externos, produ- teragem virtu e fortuna. O Mercosul não é uma con- tre aqueles poucos países que aqui como fomos lá fora encon- com aspectos dinâmicos da vida
ziu uma virtuosa sinergia que su- De novo – e talvez como nun- quista descartável. É um proces- participarão do próximo alarga- trá-los como era certo fazer. brasileira deve ser resgatada. Al-
gere que 2004 não foi um Anno ca desde os idos da década de so incompleto e imperfeito e te- mento. Seria uma pena se ape- Finalmente, o Brasil deixa terando-se sua roupagem atual.
Mirabilis, mas, possivelmente, 70 – a política externa desempe- mos também uma parcela de res- nas a China e a Índia fossem os seu chefe viajar sem patrulhá-lo Poder-se-ia recomendar uma lis-
o início de um ciclo em que o nhou um papel importante na vi- ponsabilidade por suas falhas, in- beneficiários exclusivos da pró- e desacreditá-lo. Os predecesso- ta de obras de atualização (tal-
País poderá crescer de forma da nacional. Foi motor do cresci- clusive ao resistir a qualquer ten- xima ampliação. A causa é boa. res do presidente Lula não tive- vez 10 ou 20 títulos), seleciona-
mais sustentável. mento através das exportações e tativa de institucionalização, Quanto ao assento permanen- ram esse privilégio e essa opor- das por qualquer colegiado aca-
Por resultados tão significati- da atração de investimentos e o mesmo tímida, que daria maior te no Conselho de Segurança, é tunidade. dêmico ou profissional qualifica-
vos pode-se distribuir crédito a nosso bom desempenho externo previsibilidade ao jogo e uma evidente o ganho em prestígio Em outras frentes, 2004 trou- do. Concluída a fase de leitura
vários atores, atuais e passados, nos ajudou muito a atravessar o utilização menos freqüente e me- se pudermos obtê-lo. Há, contu- xe poucos avanços ou, apenas, (acompanhada ou não de pales-
sem que a nenhum falte uma jus- áspero caminho de 2003. nos dramática da diplomacia mi- do, obstáculos que, no curto pra- desdobramentos. Em duas áreas tras e visitas), os participantes
ta parcela de reconhecimento. Afastadas as demonologias nisterial e presidencial. zo, talvez sejam insuperáveis. em que éramos particularmente apresentariam um papel com
Cabe ao presidente José Sar- do nosso relacionamento com o Sobre os projetos de associa- Chegaremos lá, acredito, pela vulneráveis – o da proteção ao suas observações.●
ney o crédito de ter renovado e Fundo Monetário Internacional ção hemisférica e com a UE, o própria natureza das coisas e, so- meio ambiente e dos direitos hu-
relançado a relação com a Ar- (FMI) e a Organização Mun- ano que vem deverá permitir o bretudo, se reforçarmos a nossa manos – não somos, de certo, * Embaixador Marcos
gentina e desmontado projetos dial do Comércio (OMC), o relançamento das negociações credibilidade. modelares, mas estamos do lado Azambuja é presidente da Casa
espaciais e nucleares suspeitos. Brasil passou a atuar nesses fo- que agora se circunscrevem à Menos que uma disputa eleito- certo e com as boas causas. Brasil-França e membro
Sua aposta no Mercosul e no re- ros com mais desenvoltura e identificação cautelosa e prelimi- ral, o que deve acontecer, mais Não fizemos suficiente pro- da Comissão de Armas de
forço da democracia no conti- tranqüilidade. nar de possíveis perdas e ganhos cedo ou mais tarde, é que a mas- gresso no combate à violência Destruição em Massa
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

TRAVESSIA ‘04/05
ARIVALDO CHAVES/RBS

Os arquivos
ainda
secretos da
ditadura
Não se trata de revisitar cadáveres,
mas de reencontrar a História

Flávio Tavares* sem atas das sessões de tortu-


ra? Ou dos “excessos” que le-
Nos arquivos secretos da dita- vavam à morte? Nos quartéis,
dura, não se trata de buscar ca- só a minoria de oficiais ou sar-
dáveres, mas de reencontrar a gentos dedicada a esses miste-
História. Assim, por que não re- res tinha acesso aos locais dos
velar tudo o que for realmente mistérios secretos. As ordens
documental dos diferentes ór- e atos dos “porões”, ao serem
gãos ou ministérios, não ape- “secretos”, podem não estar
nas das Forças Armadas? documentados.
O Itamaraty, por exemplo,
concentrou uma rede de es- RUBENS PAIVA
piões no estrangeiro, a partir Só os nazistas arquivavam tudo
dos “setores políticos” das Em- (nem Stalin se preocupou com
baixadas do Brasil, que vigia- isso) e nada simulavam. Mes-
vam não só os exilados, mas to- mo assim, na fachada dos cam-
do brasileiro “importante” - pos de concentração de Hitler,
cientistas, intelectuais, artistas, os prisioneiros liam O Traba-
jornalistas e estudantes em via- lho Vos Libertará, quando, de
gem pelas Américas e pela Eu- fato, ali estava a morte. Entre
ropa. Onde estão esses docu- nós, a simulação tentou tapar tu-
mentos? Foram destruídos, tal do: em 1971, o engenheiro e ex-
a ignomínia que continham? deputado Rubens Paiva morreu
Ou dormem no Ministério das sob tortura, no Rio, e o governo
Relações Exteriores, ou no anti- engendrou a farsa de que fora
go SNI ou nas S-2 militares? “resgatado por guerrilheiros”,
Ou as “operações sujas”, co- na rua, quando era levado para
mo o seqüestro do pianista de uma delegacia no Alto da Tiju-
Vinícius de Moraes, em 18 de ca. O cadáver nunca apareceu.
março de 1976, em Buenos Ai- O que revelarão, então, os
res, estão protegidas por lingua- documentos que os chefes mili-
gem em código? Francisco Te- tares dizem que não existem,
nório, o Tenório Jr., o “Tenori- como se temessem divulgá-
nho do piano”, detido à porta los? Talvez só as mesquinhas
do hotel por gente que falava perseguições e vinditas políti-
perfeito “carioquês”, na véspe- cas, as infindáveis fichas do
ra da estréia de Vinícius na Ar- Dops e SNI, similares às dos
gentina, foi levado para o Rio documentos incinerados às
(confundido com um “subversi- pressas na Base Aérea de Sal-
vo” de sobrenome igual) e “su- vador, ou achados no Sul, no sí-
miu”: foi morto para apagar os tio do ex-ministro da Educa-
vestígios do horror, já que não ção Tarso Dutra. Neles, po-
podia ser devolvido com vida. rém, o Estado policial mostra- REVELAÇÃO – Documentos e fotografias encontrados no sítio do falecido ministro da Educação Tarso Dutra, em Eldorado do Sul (RS)
Antes, outros oito brasileiros fo- se de corpo inteiro, persegui-
ram seqüestrados na Argentina dor, como se cada cidadão fos- volta por ter presenciado feitos de ministro do Tribunal Supe- testemunho do fuzilamento de seu helicóptero os cadáveres
e “sumiram”: as pistas indica- se suspeito de algum crime só sobre os quais não tinha qual- rior Militar, em Brasília, teste- Dinalva Oliveira Teixeira, a Di- já putrefatos dos guerrilhei-
vam que os seqüestradores fala- por ser um cidadão. quer poder para modificar-lhes munhou, de público, as mui- na, feita pelo seu executor: cap- ros, desenterrados para serem
vam português! Aparecerão as ordens de cen- o curso. Vergonha por ter assis- tas vezes em que impediu tor- turada e torturada durante 15 levados para o meio da selva
No Chile, antes ainda do gol- sura ditada aos jornais? Consta- tido, completamente impoten- turas e maus-tratos nas pri- dias na base de Xambioá, foi le- “e despistar a imprensa, no fu-
pe militar de 1973, o setor polí- rão dos arquivos que alguns jor- te, à tortura e ao assassinato de sões navais. Ainda há docu- vada à selva num helicóptero. turo”. Há meses sob a terra, só
tico da embaixada brasileira vi- nais (como o Estado) insistiam jovens brasileiros, levados a ca- mentos sobre isso? Ao desembarcar, indagou se o corpo da nissei Suely Yumi-
giava e ameaçava os exilados. em que os censores explicitas- bo por outros brasileiros, numa iriam fuzilá-la “agora”. “Daqui ko Kaneyama estava intacto,
No golpe de Pinochet, brasilei- sem por escrito as imposições nojenta carnificina de irmãos NO ARAGUAIA a pouco!”, respondeu o tenen- “como se tivesse morrido na-
ros presos no Estádio Nacional verbais? Ou tudo foi oral para contra irmãos.” A decisão judicial que mandou te. Seguiram caminhando e, ao quele instante”.
de Santiago foram interroga- não ficar documentado? Em setembro de 1969, no abrir os arquivos sobre a “guer- pararem, ela percebeu tudo e
dos por outros brasileiros. Há Para definir o horror da re- quartel da Polícia do Exército, rilha do Araguaia” atende aos gritou: “Quero morrer de fren- ONDE ESTÃO OS CORPOS?
indícios de que alguns dos “de- pressão ilegal (a tortura e a no Rio, o coronel Élber Mello reclamos dos familiares dos te!”. “Vira, então, para este la- O coronel descreve minúcias
saparecidos” dessa época fo- morte de presos são ilegais!) Henriques proibiu a tortura de mortos, que querem dar-lhes se- do!”, disse o tenente. E Dina re- da região e frisa: “À guisa de le-
ram enviados para o Brasil. Ha- basta, porém, os testemunhos presos políticos e denunciou ao pultura. O Araguaia foi, de fa- cebeu seis tiros. nitivo às almas dos desapareci-
verá documentos? de três oficiais superiores das comando do 1.º Exército a mor- to, a única operação de guerra Oficialmente, não se sabe dos e às feridas não cicatriza-
O ex-ministro da Defesa Jo- Forças Armadas. Primeiro, o te de um deles, sob sevícias: aberta da resistência nos anos onde estão os 75 mortos, se- das dos familiares, indiquei a
sé Viegas pode esclarecer essa do coronel Pedro Corrêa Ca- em seguida, foi afastado da che- da ditadura militar. Como tal, gundo o PC do B, ou 85, segun- localização exata do lugar on-
situação, além de qualquer do- fia dos inquéritos sobre subver- teve todos os horrores da guer- de se encontram os restos mor-
cumento: no posto de “secretá- são e permaneceu sem função ra em si, com o agravante de tais, senão de todos, pelo me-
rio”, ele dirigiu o setor político O EX-MINISTRO DA até ser reformado. ser travada na selva, sem acom- RESTA SABER DE nos, de grande parte dos guerri-
da embaixada brasileira no Chi- DEFESA JOSÉ VIEGAS Mesmo sendo herói da FEB panhamento da imprensa. PAPÉIS COMO OS DA lheiros do Araguaia.”
le ainda bem antes do golpe de na 2.ª Guerra, além de um dos Foi uma guerra “sem prisio- Resta, ainda, saber de ou-
Pinochet e também depois, por PODE ESCLARECER primeiros oficiais a apoiar, neiros”. Só no início alguns pre- RESERVA DE MERCADO tros documentos, menos maca-
longos anos. BEM ESSA SITUAÇÃO em São Paulo, o movimento sos foram poupados, entre eles NA INFORMÁTICA bros, mas essenciais: os arqui-
Em julho de 1977, quando militar de 1964, o coronel Él- José Genoino. Nesse contexto, vos das decisões da SEI (o ra-
correspondente do Estado, eu ber – reconhecido no Exército o historiador e velho militante mo “técnico” do SNI) sobre a
próprio fui seqüestrado pelo bral, da FAB, que relatou em li- como “intelectual e estrategis- comunista Jacó Gorender, no li- do os militares. As ossadas des- chamada “reserva de merca-
exército uruguaio, em Monte- vro o fuzilamento de prisionei- ta militar”, com todos os cur- vro Combate nas Trevas, dá a cobertas e identificadas são a do” na informática, que alijou
vidéu, numa operação “asso- ros capturados no Araguaia, de sos de Estado-Maior – nunca entender que o atual presidente exceção. Diz-se que a alguns o Brasil da grande revolução
prada” a partir da Embaixada 1972 a 74. Piloto de helicópte- chegou a general. do PT pode ter delatado seus “cortaram as cabeças” para le- tecnológica do Século 20 e nos
do Brasil, que só não chegou à ro, lá transportou soldados e “Cumpri com meu dever de antigos companheiros, salvan- vá-las a Brasília e comparar condenou a ser uma simples
eliminação física pela pronta presos durante 16 meses e viu justiça e não me arrependo de do-se da morte por isso. com fichas dentárias de deser- colônia cibernética. E sem ne-
denúncia da Imprensa. Eram horrores que guardou “como ter denunciado o horror da- Os membros da guerrilha tores do Exército. nhum documento.●
tempos da Operação Condor, dor no fundo da alma por qua- queles que não souberam hon- que o PC do B organizou no Entre o rumor e a fantasia,
mas já se esboçava a “abertu- se 20 anos”. Em 1993, contou rar a farda!”, disse-me ele, Araguaia, no entanto, entre- enquanto não surgem os docu- *Flávio Tavares é autor de O
ra” no Brasil. tudo em Xambioá – Guerrilha tempos atrás, aos 87 anos, gues por inteiro àquela missão, mentos oficiais, vale o depoi- Dia em que Getúlio Matou Allen-
Haverá documentos sobre o no Araguaia. doente, mas lúcido. sabiam que a morte era uma mento do coronel Corrêa Ca- de e Memórias do Esquecimen-
lado perverso e ilegal da repres- No livro, o coronel Cabral Na Marinha, o almirante Jú- das alternativas da luta que ha- bral. Em seu livro, ele conta o to, livro sobre a prisão, e foi edi-
são? Pode-se pensar que lavras- diz o que sente ainda hoje: “Re- lio Bierrenbach, nos tempos viam abraçado. Eloqüente é o horror de ter transportado em torialista do Estado.

fATOS do ANo

JANEIRO 18 – Terrorista suicida explode de 38, o Diamante Negro populari- FEVEREIRO te da Rússia, Vladimir Putin, atri-
9 – Morre em São Paulo, aos 57 caminhonete com 500 kg de ex- zou a bicicleta e brilhou no Ban- bui o atentado a chechenos.
anos, o cineasta Rogério Sganzer- plosivos na entrada do quartel-ge- gu, Peñarol, Vasco, Botafogo, 2 – Economia começa o ano com 20 – Lula anuncia o fechamento
la, autor de O Bandido da Luz Ver- neral das forças de coalizão em Flamengo e São Paulo. a quebra de vários recordes. As de todos os bingos do País para
melha. Bagdá, matando 23 pessoas e 25 – A seleção de futebol fica fora exportações atingiram patamar superar a crise desencadeada
ferindo uma centena. A explosão da Olimpíada ao perder de 1 a 0 histórico de US$ 5,8 bilhões. O pelo caso Waldomiro Diniz, maior
14 – O comandante da American foi a mais letal desde a prisão de do Paraguai no último jogo do superávit da balança comercial escândalo do seu governo. Uma
Airlines Dale Robbin Hersh, de 52 Saddam Hussein, em dezembro. Pré-Olímpico, no Chile. foi de US$ 1,588 bilhão, também semana antes, ele já mandara
anos, é preso no Aeroporto Inter- 23 – Lula anuncia reforma ministe- 28 – Três fiscais e um motorista recorde para o mês. Outra marca demitir Diniz, subchefe de Assun-
nacional de São Paulo (foto). Her- rial. Indica Amir Lando (PMDB) do Ministério do Trabalho são batida foi a do superávit em 12 tos Parlamentares da presidên-
sh fez um gesto obsceno ao ser para a Previdência no lugar de assassinados em Unaí (MG), com meses: US$ 25,257 bilhões. cia, por causa da divulgação de
fotografado pela PF, exigência do Ricardo Berzoini (PT), que substi- tiros na cabeça, durante fiscaliza- 4 – Morre aos 73 anos, em Campi- um vídeo que mostra o assessor
novo sistema de identificação de tui Jaques Wagner (PT) no Traba- de Desenvolvimento Social e ção de rotina em fazendas. nas, a escritora Hilda Hilst, autora pedindo doações de campanha e
estrangeiros. Por ordem judicial, lho. Aldo Rebelo (PC do B) assu- Combate à Fome. 30 – Robô Opportunity descobre de mais de 40 obras de ficção, propina ao bicheiro Carlos Augus-
eles são fotografados e têm as me a Secretaria de Coordenação 24 – Morre aos 90 anos, em Co- óxido de ferro em planície marcia- poesia e dramaturgia. to Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
impressões digitais colhidas, tra- Política, Eduardo Campos (PSB), tia, Leônidas da Silva, considera- na, possível sinal da presença de 6 – Explosão destrói vagão no 26 – Cinqüenta e seis animais
tamento recíproco ao dispensado o Ministério da Ciência e Tecnolo- do o maior jogador brasileiro an- água no planeta no passado re- metrô de Moscou, deixando 39 morrem envenenados no Zoológi-
a brasileiros nos Estados Unidos. gia, e Patrus Ananias (PT), a pasta tes da era Pelé. Artilheiro da Copa moto. mortos e 130 feridos. O presiden- co de São Paulo entre janeiro e
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05

Asojachegoulá
Transgênicaounão, a cada colheita elase alastraagressivamente e játomouo rumo da Amazônia
SEBASTIÃO MOREIRA/AE–3/12/2004
Marcos Sá Corrêa* gênica? Então tente dizer por prensa a conta do que o Brasil
que numa linha de 50 toques. ganhou com mais um recorde
Uma coisa em 2005 já podemos Os testes que detectaram trans- de produção. A conta do que ele
dar como certa: com lei de bios- tornos no fígado de cobaias eu- está perdendo com isso fica en-
segurança ou sem lei de biosse- ropéias alimentadas exclusiva- tregue aos sites ambientalistas.
gurança, com medida provisó- mente com soja transgênica po- Segundo a Companhia Nacio-
ria ou sem medida provisória, dem ser um mau sinal, mas são nal de Abastecimento, a área
lá pela metade do ano estare- inconclusivos. A sentença da ocupada pela soja cresceu de
mos falando de soja transgênica Suprema Corte do Canadá, con- um ano para outro 2,2 milhões
como se fosse novidade. Há pe- denando por apropriação indébi- de hectares, para colher os 52,2
lo menos oito safras ela puxa no ta um fazendeiro que teve suas milhões de toneladas de 2003.
campo o cordão da engenharia cercas invadidas à revelia por O sucesso é tamanho que che-
genética, desde que as sementes sementes patenteadas de cano- gou à reserva dos parecis. Ani-
da Monsanto começaram a en- la, outro monstrinho vegetal da mados pelo que estão vendo à
trar clandestinamente no Rio Monsanto, daria um conto de sua volta no resto do Estado,
Grande do Sul. Não tanto pelo Kafka, mas não dá manchete. E eles protestam na Fundação Na-
pioneirismo técnico. Mas por- a conversa de que não podemos cional do Índio para abrir às
que a soja em geral é um dos ne- mexer impunemente nos planos plantações de soja 17.500 hecta-
gócios mais agressivos da eco- divinos para a natureza parece res de suas terras. Num Estado
nomia brasileira. mais um preconceito do que onde o governador Blairo Mag-
Atrás delas se alinham ou- uma advertência. Essa, franca- gi, que na vida real é o maior
tros filhos de laboratório pron- mente, Galileu já ouviu. produtor desses grãos no Brasil
tos para pular a cerca, como o Os partidários da soja transgê- e na administração pública ex-
algodão que se associou ao Ba- nica descendem de uma espécie tinguiu parques estatuais para
cillus thuringienis, um artefato com tanta experiência em mani- permitir a expansão da fronteira
antilagartas gerado no Instituto pulação genética que provavel- agrícola, os parecis têm toda a
de Biologia Molecular da Uni- mente jamais passou pelo cargo razão de achar que foram barra-
versidade de Edimburgo. Ele um ministro da Agricultura ca- dos na grande liquidação do cer-
também chegou aqui de contra- paz de reconhecer a espiga fós- rado, com queima total dos esto-
bando. Cavou informalmente sil de onde vieram os milharais ques de vegetação nativa.
um lugar ao sol nesta terra on- modernos. Em compensação, Onde é que isso vai parar?
de, como dizem que disse Ca- da China aos Andes, todos os lu- Adivinhe. Em 1997, a econo-
minha, plantando tudo dá. E gares onde nasceu a agricultura mista Ana Célia Castro, que
agora espera sua vez de entrar nos últimos 10 mil anos são ho- não é militante de ONG ecológi-
no debate nacional. je desertos, a começar pelo cha- ca, mas catedrática do centro de
O governo, como sempre, mado Crescente Fértil. pós-graduação da Universidade
vem depois, bufando leis feitas Não é à toa que o paraíso ter- Federal do Rio de Janeiro, fez
sob medida para cobrir as par- restre foi parar no Gênese co- para o WWF uma avaliação dos
tes mais escabrosas do fato con- mo um lugar onde não era preci- riscos de que essa frente de colo-
sumado. Quem quiser saber on- so plantar porque as coisas nização agrícola invadisse de
de isso vai acabar não precisa caíam do céu. O homem não uma vez a Amazônia. Fez um
se dar ao trabalho de viajar pe- foi expulso do paraíso. Tirou-o relatório de 99 páginas, numa
lo interior. Basta circular nas de seu roçado, para que não época em que 20% da safra na-
grandes cidades brasileiras. É atravancasse o caminho do de- cional de soja já era colhida na
mais ou menos assim que as au- senvolvimento. Como os brasi- região, onde os grandes exporta-
toridades controlam a planta- leiros andam fazendo neste mo- dores como o grupo Maggi, a
ção de favelas. mento com a transformação do Bunge e a Cargill começavam a
Por fim, fechando a fila, co- País inteiro numa imensa e uni- instalar silos e portos. Conside-
mo costuma acontecer com os forme plantação de soja. rou improvável que ela varasse
percussionistas de uma banda, O pior da discussão sobre a as bordas da floresta para con-
marcham os ambientalistas. soja transgênica é que, concen- quistar o coração da Amazônia
Sob o exemplo inspirador da mi- trando-se no bate-boca com a Ocidental, onde o solo é impró-
nistra Marina Silva, eles entra- Monsanto, ela faz a soja co- prio e as complicações ambien-
ram nessa briga para perder. A mum parecer inocente. Fingin- tais são gigantescas. Meses
soja é maior do que eles. E seus do que nada tem a ver com os atrás, ela mesma tomou a inicia-
argumentos têm sido até agora problemas ambientais do País, tiva de rever suas previsões pa-
grandes demais para caber nos ela se alastra como praga atra- ra o WWF. A soja chegou lá.●
títulos de uma notícia no jornal. vés do cerrado, rumo à Amazô-
Se não acredita, pode fazer o nia. A cada colheita, as edito- *Marcos Sá Corrêa
teste. Você é contra a soja trans- rias de economia fazem na im- é jornalista MADE IN BRAZIL – Terminal do Porto de Santos: negócio da soja já bate às portas da reserva dos parecis

Anozerodapolíticasocialaindanãocomeçou
Programasambíguose semmetas clarasainda confundempobreza e fomee não atacama desigualdade

SERGIO DUTTI/AE–26/5/2004
Lena Lavinas* por restrições no grau e qualidade reconhece ser essencial garantir
do acesso aos alimentos). “serviços continuados” a todo ci-
Final de ano, balanços tornam-se Rupturas, portanto, não hou- dadão em situação de vulnerabili-
indispensáveis. Rigueur oblige. E ve, tampouco na área social, que dade, contrapondo-se ao assisten-
é bom que assim seja. Quando se pudessem contribuir para lapidar cialismo episódico. Mas há que la-
é gestor público, há que informar e dar unicidade a sistema de pro- mentar a impossibilidade de instru-
o que foi feito, o quanto foi feito, teção social que segue inacaba- mentalização da política por não
inferir resultados, ajustar trajetó- do, premido, por um lado, pela dispor ainda de orçamento pró-
rias ou antes corrigir rotas e mais onda da securitização (agora tam- prio, como sugerido desde a cria-
uma vez fundamentar decisões, bém via expansão dos seguros ção da Seguridade Social em 88
novas ou que se impõem quase de vida nas camadas mais caren- (5% do OSS vinculado constitu-
que automaticamente dado o bom tes da população, com mensalida- cionalmente, bem como igual por-
desempenho alcançado. des de até R$ 5,00!) e, por outro, centual dos orçamentos do gover-
Para isso, é essencial dispor de pela informalidade desenfreada, no federal, Estados e municípios).
meios consistentes para proceder a represar chances de financia- Da mesma maneira, os per capita
a avaliações qualificadas, meios mento sustentável de sistema pú- para remuneração dos serviços
esses que para serem acionados blico de bem-estar. permanecem em níveis extrema-
em tempo e de forma eficaz deve- Como novidade, muito pouco. mente baixos, revelando que a
rão ter já sido formulados, testa- Vale recordar que o Fome Zero re- qualidade do atendimento ainda
dos, comprovados e aprovados. toma práticas que foram paulatina- importa pouco, pois não há pa-
Essas coisas andam juntas: dese- mente abandonadas pelo governo drão de referência para normatiza-
nhar, implementar e executar polí- FHC, por se mostrarem inócuas ção. Outro aspecto positivo, mas
ticas públicas implica forçosa e no combate à pobreza, caso da dis- igualmente cerceado pelas restri-
concomitantemente monitorar o tribuição de alimentos, por muitos ções orçamentárias, é a aprovação
que se faz, princípio elementar de anos programa carro-chefe do Co- da lei de criação da renda básica
transparência e accountability em munidade Solidária. Não por aca- de cidadania, que passa a vigorar
Estados democráticos. so, na segunda metade do seu se- já em janeiro. Dado o teor da lei,
Nem tudo sempre dá certo. Em IMAGENS – Lula em conferência de James Wolfensohn, presidente do Bird, sobre combate à pobreza gundo mandato, o governo tucano entretanto, que troca o princípio da
qualquer circunstância, porém, julgou mais adequado migrar do incondicionalidade pelo da “fila”
existe o compromisso tácito e ab- de atuação do governo federal, ex- No entanto, o debate fortemente bíguos nos seus objetivos ao con- Prodea para o Bolsa-Escola, que dos mais necessitados, pondo em
solutamente incontornável de pres- presso na ausência de balanços polarizado perpassa todos os dias fundir pobreza e fome, sem metas aos poucos, por força dos resulta- xeque o conceito elementar da ren-
tar contas do que se fez, revelando conseqüentes sobre o impacto de a grande imprensa, gerando mais claras, senão as de cobertura (por- dos positivos obtidos em nível lo- da cidadã, riscos há de que perma-
as falhas, a pesar no passivo, já sua própria intervenção regulado- desinformação e descrédito que es- centual do público-alvo a ser con- cal, notadamente nas prefeituras neça letra morta. Finalmente, o go-
que os acertos transmutam-se em ra nos últimos dois anos. Desco- clarecimentos por parte do gover- templado). Programas que não se do PT, ganha centralidade no âm- verno manifestou-se sem ambigüi-
ativos. Tudo isso parece incomo- nhece-se o real alcance, o saldo lí- no. A conseqüência mais imediata mostram capazes de vertebrar polí- bito da política compensatória sob dades no desejo de avançar na des-
damente óbvio e, de fato, o é. En- quido da sua ação social no que e danosa é debilitar desnecessaria- tica social nacional, abrangente e comando do MEC. O Bolsa-Famí- criminalização do aborto, reivindi-
tretanto, ainda não foi dessa vez, tange o número de pessoas que mente nossas instituições. integral, formatando padrão de re- lia do governo Lula é a extensão cação feminista de longa data, e
com a eleição de um presidente do conseguiram escapar à pobreza Mas talvez o déficit maior dos ferência universal para todos os do antigo Bolsa-Escola, aumentan- vai pôr a questão em debate para o
campo democrático-popular, que porque passaram a integrar seu dois anos de gestão Lula resida na brasileiros, o que aliás muito con- do significativamente o valor mé- conjunto da sociedade em 2005.
o País se reencontrou consigo mes- programa de transferência de ren- incapacidade de instituir novo de- tribuiria para superar o anacronis- dio do benefício e o número de fa- Um pouco mais do mesmo, al-
mo na institucionalização de uma da, o impacto provocado em ter- nominador comum a todos os bra- mo do debate sobre a linha de po- mílias atendidas, é bem verdade, e guns progressos contraditórios
nova forma de fazer política so- mos de aumento da massa salarial sileiros em matéria de proteção so- breza absoluta, deslocando-o para buscando levar a cabo a unifica- marcam os dois últimos anos. O
cial, ou seja, de redistribuir bem- e geração de empregos, ou na retra- cial e bem-estar. Como o governo o campo das desigualdades (logo, ção já iniciada na gestão anterior, ano zero da nova política social
estar e promover justiça social, ção do patamar de desigualdade que o precedeu, faz sintomatica- permitindo adotar linha de pobre- necessária para reduzir ineficiên- brasileira, fundada na redistribui-
alerta para os efeitos das suas esco- que nos assola. Informações todas mente a “opção pelos pobres”, re- za relativa até porque, como reve- cias inerentes à seletividade. ção e na justiça social, ainda não
lhas no combate à pobreza e na re- elas estratégicas para que possa- produzindo programas paliativos, lou a polêmica recente sobre fome Nas bordas, todavia, registra- começou.●
dução efetiva do hiato social. mos, como Nação, deliberar se residuais e de curto prazo, para os versus sobrepeso, o problema ram-se conquistas importantes co-
Uma primeira constatação, por- tais avanços são suficientes, o que que conseguem comprovar graus maior não é de indigência absolu- mo a estruturação da Política Na- *Lena Lavinas é professora
tanto, indica um primeiro déficit desejamos e o que merecemos. de carência aguda. Programas am- ta senão de insegurança alimentar cional de Assistência Social que de Economia da UFRJ
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

TRAVESSIA ‘04/05
MONICA ZARATTINI/AE

Enigmas da
mentalidade que não encontra
obstáculos intransponíveis no
mundo cada vez mais competiti-
vo e menos solidário. Não tem si-
do fácil reunir os entes mais queri-

violência e
dos por cada um de nós no enfren-
tamento de tantos e tão difíceis de-
safios. E não é a família de pais di-
vorciados ou a chefiada por mu-
lheres a mais atingida por essa he-

avanços
catombe afetiva e ética. É a famí-
lia que não consegue se organizar
nas muitas dificuldades encontra-
das por todas.
No caso do parricídio, pior tam-

promissores
bém quando se encobre o crime
cometido pelos jovens, nutrindo a
impunidade que faz dos dados es-
tatísticos sobre o homicídio no
Brasil um escândalo internacio-
nal. Na nova concepção de edu-
Polícia não sabe quem matou car, ainda mais estimulada pela
idéia de que põe os jovens na cate-
mendigos, mas combate corrupção goria de vítimas e os adultos co-
mo algozes, cria uma falsa autono-
mia que não considera o outro em
sua autonomia e reproduz a lógi-
Alba Zaluar* nheiro fácil, sem importar como. ca do senhor/escravo na qual nin-
Mas seria um erro imaginar que guém é verdadeiramente autôno-
O ano de 2004 não trouxe novida- todos os que assim agem o fazem mo. Uma independência perversa
des nos crimes em São Paulo. por iniciativa própria. Esse crime, do indivíduo faz do outro um ins-
Mas um desses, o perpetrado con- como roubos e furtos, pode estar trumento do domínio e da mani-
tra os mendigos, finalmente adqui- ligado a esquemas mais organiza- pulação. Esse é o terreno fértil da
riu a visibilidade necessária para dos dos vários tráficos como for- criminalidade e da violência.
que se discutissem seus porquês. ma de conseguir rapidamente ca- Por fim, grandes passos têm si-
No mais, a mesma variedade que pital de giro. A investigação em do dados no combate à corrupção
não permite o uso de um esquema rede é a resposta apropriada aos e aos excessos dos policiais. Nos
teórico para compreendê-los nem crimes cometidos em redes. últimos cinco anos, foram 11.089
a sua redução ao quadro de pobre- Ainda sem solução judicial, as denúncias contra homens da PM
za e desigualdades do País. Do la- ações contra os mendigos, ocorri- e 6.117 da Polícia Civil, tendo si-
do da segurança pública, a trans- das em agosto em São Paulo, in- do punidos 189 oficiais, 322 sar-
formação nos procedimentos in- duziram à reflexão sobre os cri- gentos, 1.733 cabos, 2.433 solda-
vestigativos da Polícia Federal e mes do ódio no Brasil. As duas sé- dos e 10 subtenentes. Na Polícia
da Polícia Civil do Estado de São ries de ataques naquele mês deixa- Civil, 77 delegados, 310 investiga-
Paulo permitiu o desmonte de vá- ram sete mendigos mortos e oito dores, 77 carcereiros, 36 escri-
rias máfias e quadrilhas que co- feridos. Mas já vinham acontecen- ÓDIO – Assassinato de moradores de rua tem a mesma origem dos crimes de neonazistas vães, 65 agentes policiais, 6 peri-
mandam o crime organizado no do sem o destaque na imprensa ad- tos, 3 agentes de telecomunica-
Estado e no Brasil. Há muito por quirido então, por terem sido co- Seus efeitos são similares aos do vida e da morte, a paixão de matar proteger e que jogam os filhos ções, 3 papiloscopistas e 1 legista
fazer, mas o caminho eficaz foi fi- metidos no coração da cidade. Os terrorismo. Por isso mesmo, os cri- por matar, como os neonazistas contra seus pais a ponto de querer foram punidos. Triste quadro de
nalmente acertado. ataques aos mendigos no Municí- mes do ódio têm efeitos psicológi- que chacinam mexicanos, negros, eliminá-los. É a evidência cabal uma polícia ainda muito contami-
O crime menos enigmático é o pio já fizeram 58 vítimas, das cos mais sérios na medida em que brancos, homossexuais, judeus, de que os controles sociais estão nada, que só no ano passado demi-
do seqüestro relâmpago, que tem quais 24 morreram. Embora te- não é mais possível prever o com- muçulmanos, bêbados e mendi- desmoronando dentro da institui- tiu 39% dos seus policiais por cor-
feito mais e mais vítimas na Gran- nha sido aventada a hipótese de portamento alheio, deixando de gos nas cidades americanas. ção básica da sociedade: a famí- rupção, mas promissor para que
de São Paulo: cerca de mil pes- que policiais envolvidos com o funcionar os parâmetros que ga- Enigma ainda mais duro de re- lia. Transformações no casamen- no futuro mais policiais bem for-
soas apenas no primeiro semestre tráfico de drogas seriam os auto- rantem as trocas e os laços sociais solver, já que envolve sentimen- to, cada vez mais facilmente des- mados, tanto nas técnicas quanto
de 2004. Trata-se do crime oportu- res, o que viria a provar as teorias positivos. Entra-se no terreno da tos profundos e os liames sociais feito, e no mundo do trabalho, na ética do trabalho, ocupem es-
nista que se espalha como febre que venho defendendo há mais de irracionalidade, onde o medo sem mais fortes, é o dos assassinatos que obriga os pais (e os filhos) a ses lugares vagos.
depois que mostra ser bem-sucedi- 20 anos para explicar a onda de direção prevalece. Seus alvos são dos pais cometidos pelos próprios competir crescentemente; a emi- Na ação preventiva, notícias
do. Quando os valores eram carre- criminalidade no País, a falta de sempre determinadas categorias filhos, uma das faces da violência nência adquirida pelo mercado alvissareiras sobre o uso do espa-
gados em carruagens por estradas provas definitivas corrobora a te- de pessoas e suas ações são plane- familiar. Em 2004, como nos que invade áreas antes preserva- ço escolar para atividades desti-
pouco ou nada controladas, os la- se de que se trata de crime impeli- jadas por pequenos grupos de fa- anos anteriores, a notícia de mais das por valores morais e pela soli- nadas aos jovens de bairros po-
drões ficavam à espreita. Hoje, do pelo ódio. Este é, como já afir- náticos que escolhem afirmar a parricídios, crime que se tornou dariedade; a crise na autoridade bres. Se essas atividades forem
com tanto valor contido num pe- mei no calor da hora, fruto de pre- sua superioridade racial, étnica ou emblemático de São Paulo, dei- paterna decorrente de mudanças pensadas para socializar os jo-
queno cartão, chave para o acesso conceito contra uma categoria de religiosa pela ação direta da vio- xou a população outra vez perple- na maneira de conceber a educa- vens no respeito ao outro e no
aos terminais, o alvo também é fá- pessoas e erige no corpo da víti- lência. Aponta outra dimensão da xa. Processos sociais complexos ção de filhos. Todos esses fatores uso conseqüente de sua liberda-
cil: as pessoas que os carregam pe- ma a mensagem dirigida aos de- violência que não impulsiona a estão criando os alheamentos e conspiraram para tornar uma fon- de, haverá muitos motivos para
las ruas da cidade pouco policiada mais membros do mesmo grupo ação apenas pelo dinheiro: a do desconcertos dentro da família te de incertezas e inseguranças comemorar os baixos índices de
em várias áreas. É um crime que para dizer que desapareçam. Pre- poder, a do simbólico e a da pai- em que as figuras paternas e ma- aquela que deveria ser uma orga- criminalidade.●
se entende na racionalidade instru- tende intimidar, coagir e apavorar xão destrutivos: o triunfo sobre o ternas passam a praticar a violên- nização protetora e resguardada
mental dos que querem ganhar di- os que escaparam dos ataques. outro, o prazer de ser o senhor da cia contra aqueles que deveriam do interesse pecuniário e da instru- *Alba Zaluar é antropóloga

Anencefalia, à luz da ciência e do Estado laico as ricas contam com a solidarieda-


de de seus médicos e interrom-
pem a gestação sem nenhum re-
curso judicial. Não há clínicas ile-
No aborto ainda há a discussão sobre o início da vida; o feto anencéfalo jamais sobreviverá gais de aborto para interromper
uma gestação de feto com anence-
falia: na medicina privada, a inter-
rupção da gestação é realizada pe-
Débora Diniz* bate político e ético nacional. Pe- possibilidade de sobrevida. Não mente poderá ser enfrentada em ção da gestação como um tema lo médico responsável pelo pré-
la primeira vez, uma questão de há crianças ou adultos com anen- termos laicos, isto é, livre de dog- de direitos humanos e não mais natal como um ato de cuidado
De 1.º de julho a 20 de outubro, direitos reprodutivos deslocou-se cefalia, sendo um equívoco com- mas e valores religiosos particula- como matéria religiosa. Esse des- com a mulher grávida.
uma liminar concedida pelo mi- do terreno religioso e dos movi- parar anencefalia com deficiên- res, dado o caráter plural e toleran- locamento da religião para a ra- Enquanto vigorou, a liminar
nistro Marco Aurélio Mello, do mentos sociais e foi seriamente cia. Incompatibilidade com a vi- te de nossa sociedade em matéria zão pública levará, em 2005, os do STF amparou principalmente
Supremo Tribunal Federal enfrentada como um tema de di- da não é deficiência e quem afir- religiosa. Nossos julgadores te- julgadores à grande questão ética mulheres pobres e profissionais
(STF), autorizava mulheres grá- reitos humanos. As mais impor- ma isso é a ciência professada pe- rão de enfrentar a certeza científi- trazida pela anencefalia: obrigar de saúde pública. Uma amostra
vidas de fetos com anencefalia a tantes entidades científicas, políti- lo Estado brasileiro em suas uni- ca da morte do feto em termos uma mulher a manter uma gesta- de oito capitais levantou o núme-
interromper a gestação. A anen- cas, sociais e religiosas se pronun- versidades e hospitais públicos. também científicos e argumentos ção contra a sua vontade pode ser ro de 58 mulheres beneficiadas
cefalia, uma malformação popu- ciaram sobre o assunto, sendo a Segundo o último censo, 14,5% religiosos sobre a santidade da vi- considerado um ato de tortura. Se- durante a vigência da liminar. A
larmente conhecida como “au- larga maioria favorável ao direito da população brasileira apresen- da do feto não serão suficientes gundo recente pesquisa do Ibope, concentração entre mulheres po-
sência de cérebro”, leva à morte da mulher de interromper a gesta- ta alguma forma de deficiência, para justificar o dever da gesta- da Universidade de Brasília e da bres e usuárias da saúde pública
em 100% dos casos, não haven- ção. De um tema árido, restrito à mas não há nenhum anencéfalo ção de um feto morto. Ao contrá- ONG Católicas Pelo Direito de não significa que a pobreza seja
do relatos de sobrevivência além medicina e ao direito, a anencefa- nesse grupo. É também a ciência rio do debate tradicional sobre a Decidir, 80% da população brasi- o determinante da anencefalia fe-
de minutos ou horas após o par- lia é, hoje, uma questão política quem afirma que um ser humano moralidade do aborto, em que leira considera uma tortura obri- tal ou que somente mulheres po-
to. O diagnóstico da anencefalia da maior importância. Sua impor- sem atividade cerebral está mor- controvérsias sobre o início da gar uma mulher a manter uma bres tenham carência de ácido fó-
é facilmente realizado por eco- tância não se justifica apenas por to, não importando se “corre san- vida impedem o diálogo razoá- gestação de feto com anencefalia. lico, uma das causas dos distúr-
grafia, sendo a imagem do acha- ser o Brasil o quarto país do mun- gue nas veias ou se o coração pul- vel, a anencefalia prescinde de Hoje, mulheres grávidas de fetos bios de fechamento de tubo neu-
tamento da cabeça e da ausência do em partos de fetos com anence- sa”. Um feto sem cérebro é, por- um consenso sobre o estatuto do com anencefalia são formalmen- ral. O quadro é ainda mais per-
dos ossos do crânio nítida até falia, mas principalmente porque tanto, um feto morto, ou um “na- embrião. Basta reconhecer que te proibidas de interromper a ges- verso: a liminar do STF era mar-
mesmo para leigos. De perfil, questões fundamentais de nosso timorto cerebral”, como prefere a lei brasileira se pauta por certe- tação, sendo preciso autorização cadamente um ato de justiça so-
um feto com anencefalia assume ordenamento social serão enfren- o Conselho Federal de Medici- zas científicas e que a ciência re- do Judiciário ou do Ministério Pú- cial. As mulheres pobres foram
a imagem de um sapo, dado o de- tadas por ocasião do julgamento na. Essa é a definição de morte conhece como morto um ser hu- blico para cada caso. Além do ris- as mais diretamente beneficiadas
cepamento de toda a parte supe- da ação no STF em 2005. adotada para a lei brasileira de mano sem atividade cerebral. co de ter o pedido negado, há ca- pela liminar não apenas porque
rior da cabeça pelo não fecha- O primeiro desafio será garan- transplantes, por exemplo. Ao contrário do debate sobre o sos de mulheres que esperaram se- elas são a maioria da população,
mento do tubo neural. O dado tir que esse tema será julgado em Reconhecer as premissas cien- início da vida, a morte é um fato manas e até meses pelo resultado mas porque são as mais vulnerá-
mais dramático é que não há ne- termos estritamente científicos. tíficas da ação sobre a anencefa- físico inexorável quanto ao seu do julgamento, o que transforma veis à exigência judicial porque
nhum tratamento ou cura. O consenso da comunidade cien- lia levará o julgamento para outro sentido: um feto com anencefa- a peregrinação judicial noutra fon- elas dependem dos serviços pú-
Com a cassação da liminar do tífica é que a anencefalia é in- desafio: o de garantir e promover lia é um feto morto. te de sofrimento. Na verdade, a blicos de saúde.●
STF, a anencefalia ascendeu a compatível com a vida extra-ute- o caráter laico do Estado brasilei- Esse duplo desafio permitirá tortura do Estado é essencialmen-
uma das questões centrais do de- rina, ou seja, não há nenhuma ro. Essa é uma matéria que so- compreender o direito à interrup- te contra as mulheres pobres, pois *Débora Diniz é antropóloga

fAtos DO ANO

21 de fevereiro. A administração po basco ETA, mas recuou de- de 20 cidades, deixaram 2 mortos 15 – Governo acaba com o Pro- artista plástica Lygia Pape.
anuncia que em todos foi encon- pois que a polícia encontrou deto- e mais de 60 feridos. vão e cria o Exame Nacional de 9 – O presidente da Chechênia,
trado fluoracetato de sódio, vene- nadores e um cassete em árabe 28 – Morre na Suíça, aos 82 anos, Desempenho dos Estudantes. Akhmad Kadyrov, é morto em um
no para ratos proibido no País. com versos do Alcorão num fur- o ator inglês Peter Ustinov. 16 – Achados corpos de 29 garim- atentado a bomba no Estádio Dí-
29 – O Senhor dos Anéis-O Retorno gão perto da cidade de onde saí- ABRIL peiros assassinados por índios namo, centro de Grozny.
do Rei ganha 11 dos 24 Oscars ram os trens. O atentado deixou 4 – Morre aos 77 anos, em São cintas-largas na Reserva Roose- 11 – Cenas do assassinato do
entregues pela Academia de Cine- uma vítima brasileira: o paranaen- Paulo, Octavio Ianni, um dos prin- velt na Semana Santa. A chacina americano Nicholas Berg, degola-
ma em Los Angeles. se Sérgio dos Santos Silva. cipais sociólogos brasileiros. está ligada ao garimpo de diaman- do com um facão, são veiculadas
MARÇO 14 – José Luís Zapatero (foto) 9 – Traficantes saídos do Morro tes na reserva. pela internet.
5 – Morre aos 88 anos Jorginho vence eleição na Espanha e pro- do Vidigal invadem a Rocinha, 19 – Nove presos são mortos e 14 – Governo revoga a cassação
Guinle, o homem que encarnou mete tirar tropas do país do Ira- maior favela do Rio, dando início 170 pessoas feitas reféns durante do visto do jornalista americano
como ninguém no Brasil a ima- que. a uma guerra pela disputa de pon- rebelião no presídio Urso Branco, Larry Rohter, autor de texto publi-
gem do playboy. 22 – O líder espiritual do grupo tante dirigente palestino, depois tos-de-venda de drogas. Cinco em Porto Velho (RO). cado no The New York Times
11 – Duzentas pessoas morrem e radical islâmico Hamas, xeque de Yasser Arafat. pessoas morrem. 30 – Governo anuncia o reajuste segundo o qual Lula exagera no
mais de 1.200 ficam feridas na Ahmed Yassin, morre em Gaza, 28 – O furacão Catarina provoca 14 – Copom reduz em 0,25 ponto do salário mínimo, que passa de consumo de bebidas. O governo
explosão de dez bombas em três atingido por um míssil disparado destruição em Santa Catarina e porcentual a taxa Selic, que pas- R$ 240,00 para R$ 260,00. definiu a reportagem como “ofen-
estações ferroviárias de Madri e por um helicóptero israelense. no Rio Grande do Sul. Ventos de sa a 16% por ano – a menor des- MAIO siva à honra do presidente”.
periferia. O governo acusou o gru- Yassin era o segundo mais impor- até 150 km/h levaram caos a mais de abril de 2001. 3 – Morre no Rio, aos 75 anos, a 19 – PF prende 14 acusados de-
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05

2005: Será que agora a coisa vai?


Sonho do Brasil potência freqüenta o imaginário popular desde muito antes do milagre dos anos 70
NILTON FUKUDA/AE–25/11/2004

Armando Castelar Pinheiro* curtou os horizontes das empre-


sas e as desestimulou a investir
Brasil, País do Futuro, de Stefan mais agressivamente na expan-
Zweig, é um desses livros que mar- são da sua capacidade produtiva,
cam época. Publicado em 1941, a despeito dos seus ganhos de pro-
ele pareceu a certa altura fadado a dutividade. Pelo menos quatro fa-
tornar-se uma correta profecia do tores contribuíram para isso: a vul-
destino do País. Embalado pelas al- nerabilidade do País a choques ex-
tas taxas de crescimento do Plano ternos; as dúvidas quanto à sol-
de Metas e do milagre brasileiro, o vência da dívida pública; a possi-
sonho do Brasil potência mundial bilidade de o crescimento ser
freqüentou o imaginário popular abortado pela falta de infra-estru-
brasileiro durante décadas. tura, como em 2001; e o discurso
Não sem razão ou benefícios. ambíguo das autoridades quanto
Pela primeira vez em séculos, a ao rumo da política econômica.
renda per capita brasileira aumen- Um aspecto importante desse
tou como proporção da america- problema é a relação bidirecional
na, subindo de 18% desta em 1929 que existe entre esses riscos e o
para 30% em 1980, a despeito de desempenho da economia. De fa-
os EUA também terem se expandi- to, tanto o investimento depende
do significativamente nesse perío- da percepção de que a economia
do. A percepção de que o Brasil es- continuará crescendo, como esta
tava destinado a crescer rapida- depende do investimento para po-
mente impulsionou os investimen- der se expandir. Isso ilustra a exis-
tos, estimulou o acúmulo de capi- tência de equilíbrios múltiplos no
tal humano e melhorou a qualida- processo de desenvolvimento,
de da política econômica, focan- particularmente no que tange ao
do-a em criar condições favorá- investimento.
veis à expansão econômica. Pelos Essa é uma diferença funda-
cânones da época, o Brasil tornou- mental entre as estratégias de
se um caso espetacular de desen- 1930-80 e 1994-2004. Naquele
volvimento, combinando indus- período, o Estado foi capaz de
trialização, crescente sofisticação coordenar as expectativas e ações
tecnológica e crescimento sustenta- dos agentes privados, de forma a
do, independente dos ciclos que colocar o País em um equilíbrio
marcam a demanda mundial por de alto nível, em que o investi-
matérias primas. mento e o crescimento eram ele-
Uma combinação de choques vados. Já no passado recente, a
externos, falhas de política e a combinação de mais competição
própria exaustão do modelo eco- com uma elevada incerteza sobre
nômico pôs um fim a esse longo o futuro da economia levou as em-
ciclo de expansão. A partir de presas a investir muito em moder-
1981, o Brasil mergulhou na fa- nização, para defender seus mar-
se das “décadas perdidas”, com ket shares, mas pouco em expan-
o PIB per capita crescendo mero são de capacidade.
0,3% ao ano em 1981-2004, ape- Superar a vulnerabilidade fiscal,
nas uma sombra dos 3,9% a.a. externa e regulatória da economia
registrados nas cinco décadas an- brasileira demandará muitos anos
teriores. Relativamente aos de reformas e disciplina macroeco-
EUA, andamos para trás outra
vez, fechando 2003 com uma
renda per capita equivalente a HOUVE AVANÇO
apenas 20% da americana. Foi INSTITUCIONAL
um período difícil, de inchaço
das grandes metrópoles, aumen- NAS CHAMADAS
to da criminalidade e deteriora- ‘DÉCADAS PERDIDAS’
ção de valores. Para os muitos
brasileiros que emigraram nes-
ses anos, o sonho de Zweig vi- nômica. Mas é possível começar já
rou um pesadelo: o Brasil se tor- a ampliar os horizontes empresa-
nou um “país sem futuro”. riais se o governo também alongar
Porém, em que pese o fraco de- o horizonte das suas políticas.
sempenho da economia, é um erro A principal barreira a que isso
ver esse período como “perdido”, aconteça é a divergência que exis-
por pelo menos três razões. te no governo, e em menor escala
Primeiro, porque nele o Bra- na própria sociedade, sobre que
sil progrediu muito institucio- mecanismos de coordenação utili-
nalmente. Em 2005 serão co- zar. Em 1930-80, o Estado se va-
memoradas duas décadas de re- leu para isso do investimento públi-
torno à democracia, que vem co e de subsídios fiscais e credití-
se aprofundando e consolidan- cios. A grande autonomia com
do, em forte contraste com os que o Executivo administrou esses
regimes de exceção que marca- instrumentos e o foco quase exclu-
ram o País entre 1930-80. O sivo no crescimento, na expectati-
Brasil tem hoje um Judiciário va de que este trouxesse o desen-
independente, uma imprensa volvimento social a reboque, tam-
atuante -- que soube resistir às bém foram importantes.
tentativas de cercearem sua li- Muitos continuam acreditando
berdade -- e uma sociedade que para se desenvolver o País pre-
muito mais participativa. cisa primeiro recuperar o controle
Segundo, porque houve uma PREGÃO DA BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS – 2004 foi a época de a sociedade colher os frutos da disciplina fiscal do ano anterior sobre esses instrumentos, para de-
melhoria sensível nos indicado- pois repetir a estratégia adotada
res sociais. A proporção de po- le e Votorantim, entre outras. O sis- bém foi mais bem distribuído que dial. Além disso, o inevitável ajus- do que em 1980. em 1930-80. Mas essa visão igno-
bres na população caiu de 41% tema financeiro também se adap- nos anos anteriores, com a expan- te das contas externas americanas O baixo nível de investimento ra as transformações por que o
em 1981 (42% em 1990) para tou ao fim da alta inflação, reestru- são simultânea do consumo priva- pode precipitar um desaquecimen- das duas últimas décadas explica País passou nos últimos 20 anos,
31% em 2002. A taxa de cresci- turando-se, sem afundar no tipo de do, das exportações e do investi- to mais brusco e significativo da porque o estoque de capital cres- incluindo a instauração da demo-
mento demográfico diminuiu de crise em que mergulharam os ban- mento. Outros indicadores tam- economia mundial e uma forte de- ceu apenas 2% a.a. em 1994-2003. cracia, a prioridade dada à questão
2,9% a.a. em 1950-80 para 1,5% cos no Japão. bém tiveram uma evolução favorá- terioração das condições de finan- Combinando essa taxa com expan- social, a maior integração à econo-
a.a em 1993-2003. A mortalida- Em 2003 o País deu outro passo vel, com a queda da inflação, dos ciamento externo, dos quais o Bra- sões de 2% a.a. da população eco- mia mundial e a menor interven-
de infantil caiu a menos da meta- importante no sentido de melhorar juros reais, do déficit fiscal e da dí- sil certamente não sairia ileso. nomicamente ativa e 1,5% a.a. da ção do Estado na economia.
de, a taxa de escolarização de jo- seus fundamentos econômicos, vida pública. Também contribuiu para viabi- produtividade total de fatores, che- O grande desafio da política eco-
vens de 7 a 14 anos subiu para com a manutenção da política eco- O otimismo em relação à econo- lizar a forte expansão de 2004 a ga-se aos 3,5% de crescimento nômica nos próximos anos será,
97%, a proporção de domicílios nômica pelo novo governo, a des- mia brasileira é evidente, ainda baixa taxa de utilização da capaci- anual do PIB que o mercado acre- portanto, criar um ambiente que es-
com acesso a água potável e sa- peito da sua histórica oposição a tu- que comedido. As previsões me- dade da indústria em 2003. O es- dita ser o máximo que a economia timule o investimento privado, uti-
neamento aumentou considera- do que havia sido feito na década dianas de mercado, por exemplo, paço para crescer ocupando capa- brasileira comporta atualmente. lizando instrumentos modernos de
velmente, e assim por diante. anterior. Não houve ruptura, nem apontam para uma expansão anual cidade ociosa será menor nos pró- Isso não significa, de forma al- coordenação de expectativas. Para
Terceiro, ainda que lentamente, calote na dívida, nem reestatiza- do PIB de 3,5% em 2005-08, me- ximos anos. Isso já começou a fi- guma, que o Brasil não pode cres- isso seria importante se adotar
o País está conseguindo fazer as ção de empresas privatizadas, nem nos, portanto, do que em 2004. Is- car evidente na subida dos preços cer a um ritmo mais acelerado do uma agenda mínima com metas
necessárias correções de rumo na fechamento da economia, nem re- so equivale a um crescimento da industriais no atacado e no com- que esse. Apenas que para isso é de curto, médio e longo prazos pa-
sua estratégia de desenvolvimen- renda per capita de 2% a.a., mais portamento das exportações líqui- necessário aumentar a taxa de in- ra pelo menos quatro áreas:
to. As mudanças foram muitas pa- do que nas duas últimas décadas, das. A indústria de transforma- vestimento. Por exemplo, para 1. As contas públicas, prevendo-
ra citá-las todas. Mas vale destacar PIB PER CAPITA ANUAL ainda que insuficiente para come- ção termina o ano com um dos que o crescimento potencial do se uma significativa redução da dí-
a abertura da economia às importa- CRESCEU 0,3% DE 1981 çarmos a fechar o hiato em relação mais altos níveis de utilização de PIB suba gradativamente dos vida pública e da carga tributária
ções e aos investimentos estrangei- à renda dos países ricos. capacidade desde os anos 1970, atuais 3,5% para 5% em 2010, o in- com proporções do PIB;
ros, reduzindo o viés antiagrícola e A 2004 E 3,9% NAS 5 Há razões conjunturais e de similar ao atingido no Plano Cru- vestimento teria de aumentar 9% 2. As contas externas, buscan-
antiexportador que caracterizara o DÉCADAS ANTERIORES médio prazo por trás desse oti- zado e no primeiro trimestre de a.a. nos próximos seis anos. Essa do-se a ampliação da corrente
País nas décadas anteriores; a redu- mismo apenas moderado em re- 1995, quando a economia brasi- meta contrasta com uma expansão de comércio e das reservas inter-
ção do Estado empresário, que se lação às perspectivas da econo- leira estava super aquecida. média da formação bruta de capi- nacionais;
tornara disfuncional na nova reali- negociação das dívidas de Estados mia brasileira. Para crescer mais rápido, o País tal fixo de apenas 1,1% a.a. nos úl- 3. Direitos de propriedade, forta-
dade do Brasil e do mundo; o fim e municípios. Pelo contrário, a Lei É inegável que nosso bom de- precisará expandir mais acelerada- timos 15 anos. lecendo-se as agências regulado-
da alta inflação; e, mais recente- de Responsabilidade Fiscal foi res- sempenho em 2004 se deveu em mente sua capacidade de produ- Não ter criado um ambiente ras e melhorando a regulação cor-
mente, o ajuste fiscal. peitada, o superávit primário eleva- parte às condições externas muito ção, e para isso necessitará elevar mais propício ao investimento foi porativa; e
Ao contrário do que muitos pre- do, o acordo com o FMI renova- favoráveis: forte crescimento do a sua taxa de investimento. Foi po- o principal fracasso das reformas 4. A educação básica, com a uni-
viam, o setor privado mostrou do, e as metas de inflação e o câm- comércio internacional, aumento sitivo, portanto, que em 2004 o in- dos anos 1990. As empresas rea- versalização da pré-escola ao ensi-
grande capacidade de reação a es- bio flutuante mantidos, sem con- do preço das commodities, juros vestimento tenha se recuperado giram a elas defensivamente, sen- no médio.
sas mudanças. A indústria moder- troles sobre o fluxo de capitais. reais negativos nos países ricos, fortemente, depois de quedas su- do bem-sucedidas em elevar a Irá 2005 marcar a volta do cres-
nizou-se, ganhou competitividade Os frutos das reformas e da dis- elevada liquidez e grande apetite cessivas em 2001-03. Mas é forço- produtividade, mas aumentando cimento sustentado? É cedo para
e não apenas foi capaz de compe- ciplina fiscal começaram a ser co- pelo risco nos mercados financei- so reconhecer que essa expansão modestamente o investimento e, dizer. Mas com certeza não faltam
tir com o produto importado, co- lhidos em 2004. Com uma expan- ros. Nos próximos anos, o ambien- se deu sobre uma base muito depri- portanto, o potencial de cresci- motivos para os brasileiros volta-
mo também de conquistar novos são de 5% do PIB, a mais alta em te externo deve se tornar gradual- mida. Estima-se que, a preços mento econômico. rem a sonhar grande. ●
mercados, seja exportando, seja in- uma década, a renda per capita vol- mente mais hostil, com a elevação constantes de 1980, a taxa de inves- A percepção de que a econo- * Armando Castelar Pinheiro
vestindo no exterior, como vêm fa- tou a crescer, depois de seis anos dos juros nos EUA e a natural desa- timento em 2004 foi de apenas mia ainda apresenta um risco ele- é economista
zendo CSN, Gerdau, Embraer, Va- de estagnação. O crescimento tam- celeração do crescimento mun- 14% do PIB, 10% do PIB a menos vado foi provavelmente o que en-
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

TRAVESSIA ‘04/05

Osriscosdaprosperidademundial
Emmeio àsincertezas provocadaspela queda dodólar, Brasil precisaampliar investimentos
CELSO JUNIOR/AE

Albert Fishlow*

O mundo tem vivido um ano ex-


cepcionalmente positivo – ao me-
nos na economia. Houve um au-
mento real de cerca de 5% no
crescimento em 2004, a primeira
vez em duas décadas que esse re-
sultado geral foi obtido. Virtual-
mente todos os países participa-
ram e a expansão do comércio
mundial (depois de ajustada aos
aumentos de preço) tem sido esti-
mado na ordem de 10%, restau-
rando dessa forma a relação do
pós-guerra entre expansão inter-
nacional e doméstica.
Para 2005, está prevista uma
expansão menor, mas ainda signi-
ficativa, de talvez 4,2%. As ex-
pectativas para o comércio inter-
nacional baixaram proporcional-
mente para em torno de 8%.
Mais uma vez, essas perspectivas
incluem todas as regiões, apesar
de um êxito global ligeiramente
menor. A expectativa é de que os
preços do petróleo, a principal
praga da segunda metade de
2004, continuem em movimento
descendente, mas apenas gradual-
mente. Presume-se que os preços
de outras commodities permane-
çam razoavelmente estáveis, de-
pois de grande aumento no decor-
rer do ano passado.
Mas por trás dessa visão geral
positiva se esconde uma série de
temores não expressos e talvez
meramente fantasmagóricos. Um
grupo deles diz respeito à China;
o outro aos Estados Unidos. Es-
sas preocupações estão inter-rela-
cionadas. A China apareceu co- ENTRANDO NO CLUBE – Lula e o presidente chinês, Hu Jintao: Brasil precisa continuar perseguindo objetivos globais, sejam eles na ONU, no Haiti ou na liderança do Mercosul
mo o grande produtor global e os
Estados Unidos como o grande PIB, apesar das baixas taxas de ju- damento dos consumidores, pois o crescimento real das expor- também contribui para coibir as do as despesas com investimen-
consumidor global. Juntos, os ros que está pagando sobre sua além de precipitar um grande de- tações superior a 17% ajudou a expectativas de exportação. tos em programas sociais.
dois sustentaram a expansão no florescente dívida externa. A pou- clínio no preço dos imóveis, cuja produzir uma expansão geral que A esta altura, a maioria dos Tal transformação econômica,
fim da década de 90 e subscreve- pança pessoal caiu para o nível cotação recente ajudou muito a tende a superar os 5%. Os preços analistas está projetando um cres- juntamente com a manutenção
ram a recuperação global desde a de cerca de 2% dos rendimentos apoiar o contínuo hábito de con- das exportações estiveram quase cimento para 2005 entre 3% e da preocupação com a quantida-
recessão americana de 2001. disponíveis. Com a recente reces- sumo. A desvalorização do dólar no mesmo nível. Há um substan- 4%. Obviamente é menos do que de e a qualidade do ensino, pode
A China emergiu como conse- são, impostos mais baixos e a resultará numa alta da inflação cial superávit em conta corrente, o resultado estelar do ano passa- fazer voltar o crescimento que
qüência da sua profunda adesão à guerra no Iraque, ressurgiu um doméstica nos Estados Unidos e que ultrapassa os US$ 10 bi- do pelo simples motivo que, en- chegou a um fim súbito no fim da
globalização no decorrer da últi- déficit fiscal interno nos últimos num ajuste menor do desequilí- lhões. O real foi valorizado a tão, o País estava se expandindo década de 1980. Mas desta vez
ma década. Sua rápida expansão anos, agora chegando a cerca de brio comercial quando este é uma cotação de 2,7 frente ao dó- a partir de um ano de crescimen- baseado na participação ativa na
econômica de cerca de 10% ao 4%. Em resposta a tudo isso, as- mais necessário. E, subitamente, lar. Os ministros Furlan e Palocci to zero, virtualmente, usando o economia global e com um setor
ano no decorrer desse período sim como aos planos do reeleito as felizes perspectivas da conti- podem desfrutar de seu champa- excesso de capacidade e se bene- privado revitalizado e capaz de
agora deixou-a em segundo lu- presidente Bush de privatizar a nuidade do crescimento global a nhe agora que o spread sobre os ficiando do mercado externo. gerar progressos na produtivida-
gar, perdendo apenas para os Es- previdência social e tornar perma- altos índices em 2005 começam valores mobiliários do governo Agora chegamos ao âmago da de, o que deve tornar suas conse-
tados Unidos, em porcentagem a se desintegrar. caiu para menos de 400 pontos. qüências sustentáveis.
da produção mundial. A China Essa má notícia não é uma pos- A melhoria correspondente E, para assegurar o necessário
sozinha respondeu por cerca de PALOCCI E FURLAN sibilidade imediata, mas está de apareceu no front doméstico. Foi O PRÓPRIO MERCADO apoio popular a uma pauta econô-
um terço do crescimento global TÊM DIREITO A tocaia, como uma probabilidade obtido um superávit primário de PODE EXIGIR UMA mica rigorosa como esta – sem
nos últimos anos. E fez isso co- diretamente proporcional à dura- mais de 4,5%; as taxas de juros subsídios, sem aumento de em-
mo conseqüência de grandes pou- CHAMPANHE APÓS ção do desequilíbrio. Com o de- domésticas reais, apesar da eleva- REAÇÃO POLÍTICA DOS pregos no governo ou favores es-
panças e investimentos domésti- QUEDA DO RISCO PAÍS sinteresse dos chineses em valori- ção na Selic no final do ano, esti- BANCOS CENTRAIS peciais –, o presidente Lula e o
cos, da ordem de 40% do Produ- zar o yuan e o ônus transferido pa- veram em torno de 10%; a rela- chancelar Amorim devem conti-
to Interno Bruto. Há ineficiências ra o euro e para o iene, essas eco- ção entre a dívida e o PIB caiu pe- nuar a enfatizar o surgimento do
significativas, que não se limitam nentes as reduções tributárias an- nomias têm de arcar com uma la primeira vez em uma década; o questão. Para que este padrão se- Brasil no cenário internacional
às do setor financeiro doméstico: teriores, o dólar despencou nos úl- parcela maior do ajuste imediato, desemprego cresceu menos; e os ja sustentável e para que os ga- como um participante importan-
a seguir vêm a corrupção, a am- timos meses frente ao euro e o ie- a conseqüente recessão logo assu- salários reais tiveram aumento. nhos continuem nos anos subse- te. O Brasil é. Por favor, usem a
pliação da desigualdade, a degra- ne (mas não em relação ao yuan, me uma dinâmica própria e se ge- Os índices de investimento pare- qüentes, as taxas de investimento Rodada de Doha das negocia-
dação do ambiente, sem falar na que os chineses mantêm fixo em neraliza. A ausência de uma coor- ce que se elevaram no decorrer bruto terão de aumentar muito ções da OMC como uma forma
falta de democracia. Mas um se- relação ao dólar). Geralmente, es- denação econômica internacio- do ano à medida que a utilização mais. Há a necessidade de novas de restringir os substanciais subsí-
tor rural ainda grande e instruído se tipo de desempenho indicaria nal eficaz volta a causar proble- da capacidade cresceu firmemen- fábricas e equipamentos, assim dios agrícolas da União Euro-
é uma fonte contínua de supri- a necessidade de uma interven- mas e o cenário mundial fica som- te. como de melhorias significativas péia, dos Estados Unidos e dos
mento de mão-de-obra barata du- ção imediata do FMI – o tradicio- brio. O próximo ano é crucial. Ago- na infra-estrutura. O atual nível países asiáticos. Utilizem as
rante muitos e muitos anos. E es- nal problema da América Latina. O mundo em desenvolvimen- ra que a revista The Economist de investimento do Brasil, de me- atuais discussões sobre a amplia-
se é um fator importante. Mas, como o dólar ainda é a to, agora finalmente começando classifica o Brasil, juntamente nos de 20% do PIB, é ainda mui- ção do Conselho de Segurança
Uma característica especial principal moeda internacional, os a emergir economicamente, me- com Rússia, Índia e China, como to abaixo do requerido para sus- da ONU para enfatizar a capaci-
dessa expansão tem sido o enor- Estados Unidos até agora têm rece mais do que isso. Portanto, uma das principais economias tentar uma taxa de crescimento dade do Brasil de participar efeti-
me crescimento das exportações conseguido financiar seus dese- vamos ter esperança de que pre- em desenvolvimento, o País está anual de 5%. vamente, seja a questão o Haiti
e importações, as quais, em con- quilíbrios por meio da emissão valeça o bom senso – antes tarde em outra categoria. Será realmen- Igualmente, os índices de pou- ou o Iraque ou qualquer outra.
junto, agora atingem 75% do maciça de valores mobiliários ab- do que nunca – e esse quadro in- te este o caso? pança terão de se manter e dessa Comprometam-se com a pauta
PIB, uma porcentagem muito sorvidos principalmente pela Chi- ternacional assustador seja evita- Internacionalmente, as exporta- forma evitar depender demais de de uma América do Sul mais uni-
maior do que a obtida por outras na e pelo Japão, que juntos detêm do pela retomada de tentativas sé- ções tendem a se expandir com acréscimos externos. Essa é uma da e mais comunicativa sob a lide-
grandes economias. As tarifas algo da ordem de US$ 1,3 tri- rias de harmonização, como aque- menos rapidez, tanto em quanti- lição do passado facilmente igno- rança do Brasil, como foi feito
chinesas caíram drasticamente pa- lhão. O dólar em queda represen- las que ocorreram duas décadas dade quanto no preço. O ano pas- rada. Controlar os influxos de ca- em Cuzco. Promovam a necessi-
ra algo em torno de 4% e seu re- ta uma perda de capital sobre es- atrás no Plaza Hotel de Nova sado não se repetirá. O crescimen- pital não vai resolver o problema dade de maior coerência política
cente ingresso na Organização sa dívida, assim os bancos cen- York. Há a esperança de que os to da China terá de ser moderado na ausência de poupança domésti- dentro do Mercosul, como foi ar-
Mundial do Comércio confirma trais devem exigir taxas de juros mercados estejam começando a significativamente para se man- ca sustentável. Nem acréscimos gumentado em Ouro Preto. Mas,
seu desejo de tirar pleno proveito mais altas se pretendem conti- exigir uma reação política preco- ter nos trilhos. O superávit comer- muito grandes ao salário mínimo acima de tudo, assegurem que os
de uma economia internacional nuar comprando. As taxas ameri- ce, veja os recentes preços das cial encolherá à medida que as ex- conseguirão fazer muito mais do objetivos brasileiros continuem
em expansão. canas, apesar dos aumentos regu- moedas. portações aumentam mais depres- que incentivar o consumo, ao globais. Esta é a verdadeira lição,
Aqui entram os Estados Uni- lares do Federal Reserve nos últi- Tudo isso é especialmente rele- sa e as exportações crescem me- mesmo tempo que impõem mais não somente para 2005, mas tam-
dos, cuja grande predileção pelo mos meses, ainda estão negativas vante para o Brasil. Diferente- nos. O superávit em conta corren- pressão sobre o sistema de previ- bém para os muitos anos vindou-
consumo tem ajudado a sustentar em termos reais. A elevação rápi- mente de antes, o País precisa te, conseqüentemente, decresce- dência social. O governo pode fa- ros.
a economia mundial há muitos da dos juros quase certamente vai muito de um ambiente global po- rá. As taxas de câmbio não vão zer uma contribuição positiva evi-
anos. Seu déficit em conta corren- refrear a expansão dos Estados sitivo para continuar a crescer. O cair significativamente porque o tando aumentos nos dispêndios * Albert Fishlow é economista
te agora chegou perto de 6% do Unidos, por causa do alto endivi- ano que passou foi excepcional, declínio do dólar vai ajudar. Isso de consumo público e enfatizan- e brasilianista

FATOS DO ANO

fraudes na compra de hemoderi- 31 – Termina, com 30 mortos e transfere soberania do Iraque pa- da e remessa de lucros e dividen- 3 – Tribunal Superior Eleitoral cas-
vados para o Ministério da Saú- 14 feridos, rebelião na Casa de ra governo interino. dos) da história em um semestre. sa o mandato do governador de
de, na Operação Vampiro. Custódia de Benfica, no Rio. O País obteve no período superá- Roraima, Flamarion Portela (afas-
25 – Denúncias de torturas em
JULHO vit de US$ 4,415 bilhões (1,6% do tado do PT). Ele era acusado de
prisões no Iraque levam o Pentá-
JUNHO 5 – Ministro da Economia da Ar- PIB) em conta corrente, superior envolvimento no “escândalo dos
gono a promover mudanças nas 16 – Comissão bipartidária que gentina, Roberto Lavagna (foto), ao acumulado em 2003 (US$ gafanhotos”, esquema de desvio
suas tropas no país. Entre os afas- investiga os atentados de 11 de anuncia medidas para reduzir a 4,016 bilhões). de recursos por meio da contrata-
tados estão o general Ricardo setembro de 2001 nos EUA diz importação de produtos brasilei- 25 – Brasil conquista a Copa Amé- ção de servidores fantasmas.
Sanchez, militar de mais alta pa- que “não há nenhuma evidência” ros. É a guerra das geladeiras. rica, batendo a Argentina. 18 – Supremo considera constitu-
tente no Iraque, e a general Janis de que o ex-ditador iraquiano Sa- 18 – Seleção brasileira masculina 28 – Alvo de denúncias de sone- cional a contribuição previdenciá-
Karpinski, responsável por 16 cen- ddam Hussein tenha ajudado a de vôlei é tetracampeã da Liga gação, o diretor de Política Mone- ria dos servidores inativos.
tros de detenção – fotografias Al-Qaeda a atacar o país. Mundial. O Brasil venceu a Itália tária do BC, Luiz Augusto Candio- 19 – Três moradores de rua são
tiradas num deles, Abu Ghraib, 20 – Morre aos 67 anos o coreó- liação positiva do governo caiu por 3 sets a 1 na decisão. ta, pede demissão. mortos e pelo menos sete ficam
mostram iraquianos submetidos grafo espanhol Antonio Gades, de 34% em março para 29% em 22 – Consecutivos recordes da feridos na região central de São
a torturas e humilhações. maior nome do flamenco. junho, empatando tecnicamente balança comercial garantiram ao
AGOSTO Paulo. O primeiro sem-teto foi
28 – Grupo de 161 militares brasi- 29 – Popularidade do governo com a avaliação negativa (26%), País o maior superávit em transa- 1 – Mais de 440 pessoas morrem encontrado por policiais na Rua
leiros embarca para o Haiti para Lula atinge o pior patamar da ges- que subiu 3 pontos. ções correntes (soma do comér- em incêndio em supermercado São Bento. Em menos de três
integrar missão da ONU. tão na pesquisa CNI/Ibope. A ava- 30 – Coalizão liderada pelos EUA cio exterior, viagens, juros da dívi- de Assunção, Paraguai. horas, a polícia localizou nove
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05
TIMOTHY A. CLARY/AFP– 3/11/2004

Triunfal em 2004,
Bush chega
acossado a 2005
Republicano larga com menor taxa de aprovação para um
segundo mandato em 80 anos, efeito da guerra no Iraque

Dorrit Harazim* nhecidas, a começar pelo desgaste Vietnã 35 anos atrás. Dado que o
natural dos materiais. Outros fato- serviço militar nos EUA não é
Nem parece que se passaram só res, mais pontuais e dramáticos, mais obrigatório como naquela
dois meses desde o grito de vitória deixam manchas indeléveis na bio- guerra – ou seja, só veste uniforme
da América conservadora. Oito se- grafia que todo presidente se esme- quem fez essa opção –, cada deser-
manas após triunfar nas urnas so- ra em deixar para a História no últi- ção adquire significado maior.
bre o democrata John Kerry, o pre- mo mandato. No caso de Clinton, George W. Bush jamais escon-
sidente reeleito dos Estados Uni- o episódio Mônica Lewinski se deu que considerava inacabada a
dos, George W. Bush, adentra abateu sobre a Casa Branca como investida militar desencadeada
2005 com estatura encolhida. um tsunami. Reagan, em 1986, fi- contra o Iraque por seu pai, o en-
A menos que ocorra um fato po- cou paralisado pelas investigações tão presidente George H. Bush.
lítico de impacto capaz de alterar o do caso Irã-Contras. Richard Ni- No início dos anos 90, tropas dos
cenário até a manhã de 20 de janei- xon foi simplesmente ejetado do EUA derrotaram a maciça invasão
ro, Bush iniciará o segundo manda- Salão Oval pelo Watergate. do Kuwait por forças de Saddam
to com o menor índice de aprova- Bush saberá em 30 de janeiro – Hussein e os puseram para correr.
ção dos últimos 80 anos de Histó- dez dias após prestar novo jura- Com o Kuwait libertado, Bush sê-
ria americana. A euforia que tin- mento – o que 2005 lhe reserva no nior deu-se por satisfeito e decidiu
giu de vermelho republicano o ma- flanco onde está mais vulnerável. não ser necessário invadir o país in-
pa eleitoral parece ter desbotado. vasor. Não foi reeleito. Hoje, quan-
Embora desacreditados pela fa- do comparados, pai e filho rece-
lência múltipla sofrida na eleição IRAQUE PODE bem avaliação bastante diferencia-
de 2 de novembro, os sete maio- REPRESENTAR O QUE O da. Segundo pesquisa divulgada
res institutos de pesquisa de opi- pela revista Time, Bush pai é visto
nião dos EUA apontam para uma CASO IRÃ-CONTRAS como mais confiável e honesto do
mesma singularidade. Ao contrá- FOI PARA REAGAN que o filho (37% a 19%), com me-
rio dos presidentes de dois manda- lhor compreensão dos problemas
tos que o precederam, George (43% a 25%) e mais ponderado
Bush deve assumir com acanha- Se as eleições no Iraque marcadas (43% a 21%).
dos 53% de aprovação, enquanto para esse dia se realizarem em con- Bush júnior venceu justamente
Bill Clinton, à sua época, tinha dições mínimas de aceitabilidade, na categoria que pode lhe sair
60%, Ronald Reagan, 61%, Ri- ele terá folga para respirar. Caso mais cara: “Não arreda pé de suas
chard Nixon, 62%, Lyndon John- contrário, a sangria política de seu posições, mesmo que sejam impo- BONS TEMPOS – Discurso da vitória, em 3 de novembro: desde então, 200 soldados americanos morreram
son, 70%, Dwight Eisenhower, governo será difícil de estancar. pulares” (56% a 16%).
75% e Harry Truman, 69%. Pela primeira vez em 19 meses O 43.º presidente dos EUA inau- do de prisão relacionado a uma tempos de Franklin Delano Roose- a capacidade de escolher a hora, o
Na raiz dessa implosão de con- de guerra, uma sólida maioria de gura o segundo mandato com algu- ação civil, foi processado por agen- velt. Em 1941 a América de Roo- local e a forma de combater o ini-
fiança está, por ironia, a guerra no americanos acha que a ocupação mas arranhaduras recentes. A de- tes penitenciários e recebeu propi- sevelt teve de responder ao ataque migo”, sustenta Goff. Com um fi-
Iraque, único elemento de fabrica- do Iraque foi um erro. Segundo re- sastrosa indicação do ex-chefe da na milionária de uma empresa con- de Pearl Harbor. Em 2001 a Amé- lho recém-retornado da guerra, ele
ção própria na tríade que sustentou cente pesquisa Washington Post- Polícia de Nova York Bernard Ke- tratada pelo Departamento de Se- rica de Bush precisou repensar o não se conforma com a escalada
a reeleição. Do pacote vitorioso ABC, 70% dos entrevistados con- rik para um dos cargos mais impor- gurança Interna. Segundo David mundo à luz do ataque terrorista às de barbárie que se tornou rotina no
“God, guns and gays” – para sideram “inaceitáveis” as baixas tantes do gabinete – o de secretário Corn, do Los Angeles Times, a sor- torres gêmeas. Só que ainda é ce- país ocupado. “Conclamo George
abranger os temas da fé religiosa, militares sofridas até agora. E elas de Segurança Interna – teve de ser te de Kerik, ao ser defenestrado, do para analisar a dimensão dessa W. Bush, Dick Cheney, Donald
segurança nacional e valores mo- só fazem aumentar. Desde o dia abortada às pressas. Qualquer con- foi ter podido se esconder atrás do empreitada inicial, visto que o seu Rumsfeld, Colin Powell, Karl Ro-
rais que garantiram a Bush o voto em que Bush triunfou sobre Kerry sulta na internet poderia ter infor- pecadillo oficial de ter empregado curso não se concluiu. ve e todos os membros do Con-
da América profunda –, o atoleiro oito semanas atrás, outros 200 sol- mado o presidente de que a biogra- uma babá sem registro. É agora que começa a corrida gresso que votaram a favor desta
no Iraque tem potencial para engo- dados americanos morreram em fia de Kerik era um cipoal de irre- Houve outras derrapadas meno- contra o relógio da História. E são guerra a irem até lá. Vistam seus
lir como uma grande sombra boa combate sem saber exatamente gularidades. Esteve ligado a uma res, mas Bush sabe que cravou vozes como as do veterano Stan coletes de combate e saiam andan-
parte do segundo mandato do ocu- por que e para quê. Uma primeira empreiteira suspeita de pertencer à uma marca registrada nos primei- Goff, ex-sargento das Forças Espe- do pelas ruas de Bagdá. Saiam de
pante da Casa Branca. leva de desertores e opositores de máfia, desviou parte da venda de ros quatro anos de poder: presidiu ciais especializado em operações suas redomas e entrem no mundo
O exercício do poder, ensina a consciência já achou o caminho cigarros nos presídios de Nova o que talvez venha a ser estudado de contra-insurreição, que come- que vocês criaram.” ●
História, não melhora com o tem- do Canadá, refazendo a trilha aber- York para uma obscura fundação como a mais profunda reestrutura- çam a fazer ruído. “Os EUA perde-
po. As razões são múltiplas e co- ta pelos que fugiam da Guerra do sob seu controle, teve um manda- ção estratégica dos EUA desde os ram a iniciativa no Iraque – isto é, * Dorrit Harazim é jornalista

Maisdevastadordoquebombas
TorturasemAbuGhraibequiparamocupaçãoamericananoIraqueàsdeantigaspotênciascoloniais
REUTERS

Michael Ignatieff* de soldados dos Estados Unidos mau-mau no Quênia colonial, os M. Darby, membro da unidade
na prisão de Abu Ghraib, revela- EUA enfrentam uma insurgência da Guarda Nacional responsá-
As fotos de Abu Ghraib não desa- das ao mundo pela primeira vez no Iraque insignificante em ter- vel pelos abusos fotografados,
parecem com o tempo. O homem em 28 de abril no programa de TV mos militares, mas devastadora na quem decidiu passar um CD
encapuzado na caixa, a figura ten- 60 Minutes, marcaram uma formi- capacidade de minar a determina- com as fotos por baixo da porta
tando se proteger das presas de dável reviravolta do destino. ção da potência de ocupação. de seus superiores. A partir da-
um cão, a mulher olhando para o Um general americano obser- Numa guerra assimétrica onde quele momento, o segredo va-
lado e apontando para os genitais vou que a divulgação mundial das um lado tem todas as vantagens zaria para o mundo todo.
de um prisioneiro – todas essas fotografias foi o equivalente mili- militares, o lado mais fraco pode Para um otimista, Abu
imagens se tornaram ícones indelé- tar, em termos estratégicos, de vencer provocando o mais forte a Ghraib é uma mensagem de es-
veis de horror e vergonha. uma grande derrota das forças dos tomar iniciativas que invalidem perança. A verdade virá à tona.
Para os oponentes da guerra no EUA no campo de batalha. Foi sua superioridade moral e abalem Numa era digital marcada pela
Iraque, Abu Ghraib marcou o mo- um ferimento auto-infligido, além sua autoconfiança. presença da mídia, está fican-
mento em que a invasão que eles do mais, e numa guerra contra o Perdendo soldados diariamente do mais difícil manter segre-
sempre qualificaram de ato de in- por causa de explosivos e embos- dos sujos. O fato de a história
sensatez repentinamente se tornou cadas amadoras, mas mortais, ven- ter sido revelada por um solda-
um crime. Para os defensores da TESE QUE ATRIBUI do o apoio iraquiano à ocupação do comum sugere que as reser-
guerra, Abu Ghraib foi, no míni- EPISÓDIO A diminuir, o secretário dr Defesa, vas de decência elementar en-
mo, ainda mais dolorosa. Donald Rumsfeld, e seus coman- tre os militares dos EUA ainda
À medida que os meses se pas- ‘MAÇÃS PODRES’ É dantes sabiam que precisavam au- não se esgotaram.
saram e as supostas armas de des- FICÇÃO INTERESSEIRA mentar a confiabilidade da inteli- Para um pessimista, no entan-
truição em massa de Saddam Hus- gência e, ao mesmo tempo, ame- to, ou para alguém que quer aju-
sein não apareceram, a libertação drontar os iraquianos que pode- dar os iraquianos a percorrer o
do povo iraquiano tornou-se a es- terror tais ferimentos são os mais riam sentir-se tentados a unir-se à caminho para a democracia, o
perança que justificava todos os custosos de todos. insurgência. NA PELEDO ALGOZ – Humilhação de presos acabou por humilhar os EUA quadro é desolador. Como to-
riscos e perigos da ocupação. As O registro histórico mostra que De cima, vieram ordens para au- das as ocupações coloniais do
fotografias de americanos tolos e poucas – se alguma – democracias mentar o número de detidos em teresseira. O rastro em papel, ex- cionaria, mas também esquecer passado, a dos EUA no Iraque
sorridentes desfrutando a humilha- maduras foram derrotadas por ter- Abu Ghraib e “amaciá-los” com posto por investigadores militares um simples fato sobre os solda- está sendo forçada, por uma in-
ção e o terror de seus prisioneiros, roristas. Os britânicos na Irlanda uma série de técnicas que in- e dois grupos de inquérito, é claro dos modernos: todos têm câme- surgência brutal, a adotar uma
no próprio local onde os torturado- do Norte, os espanhóis na região cluíam explicitamente o uso de o bastante: Abu Ghraib, como o ras digitais e acesso à internet. política de brutalidade que trai
res de Saddam haviam feito seu basca, os alemães contra o grupo cães, a privação do sono e a humi- assassinato de dois detentos na ba- Uma guerra contra o terror é a honra dos militares e contra-
pior durante anos, foram um golpe Baader-Meinhoff – todos prevale- lhação. “De cima” significa que a se aérea de Bagram, no Afeganis- uma guerra de mídia. Os terro- diz a justificativa moral que le-
devastador contra o argumento ceram contra campanhas de vio- luz verde foi mostrada, mesmo tão, surgiu diretamente de deci- ristas que decapitaram o repór- vou à guerra originalmente.
moral da guerra. lência. Mas as democracias po- que ordens explícitas não tenham sões presidenciais de destruir a lon- ter do Wall Street Journal Da- Qualquer um que tenha fica-
Se uma das peças centrais da dem ser prejudicadas pela reação sido emitidas, pelo próprio presi- ga tradição americana de respeito niel Pearl no Paquistão e os res- do horrorizado com as ima-
guerra ao terror é uma luta de opi- exagerada: a polícia que mata ino- dente George W. Bush. No início à lei humanitária internacional. ponsáveis pela decapitação de gens de Abu Ghraib quer acre-
nião pública para convencer as eli- centes, por exemplo, ou a legisla- de 2002, agora sabemos, o presi- Rumsfeld e sua equipe solta- empreiteiros estrangeiros traba- ditar que um limite foi estabele-
tes árabes a apoiar – ou pelo me- ção draconiana que restringe as li- dente aprovou um parecer secreto ram os cachorros – literalmente lhando no Iraque demonstra- cido, medidas foram tomadas
nos não combater – a democratiza- berdades civis sem necessidade. concluindo que os EUA não se- – em cima de detentos que se ram melhor percepção do po- e o pior já passou. No cada vez
ção do Iraque, aliada a uma mobili- Abu Ghraib deixou claro como riam limitados pela Convenção de mostraram, na maioria dos ca- der da imagem do que seus opo- mais turvo ambiente de segu-
zação para evitar que jovens de- é difícil realmente vencer uma Genebra no tratamento dos prisio- sos, de pouco ou nenhum valor nentes americanos. rança do Iraque, só nos resta es-
sempregados e descontentes en- guerra contra uma insurgência do- neiros de Guantánamo. para a inteligência, mas pode- O Pentágono simplesmente perar que isto não seja uma ilu-
grossem as fileiras dos terroristas, méstica apoiada por uma popula- A alegação de altos funcioná- riam ser intimidados para que nunca considerou a possibilida- são. ● New York Times
então as fotos devastadoras dos de- ção sob ocupação. Como os fran- rios do Pentágono de que Abu não se unissem à insurgência. de de seu desagradável segredo
tentos iraquianos sofrendo abusos ceses diante do levante na Argélia Ghraib fora obra de “algumas pou- O erro aqui não foi apenas su- ser revelado ao mundo por seus * Michael Ignatieff é historia-
e humilhações sexuais nas mãos colonial ou os britânicos contra os cas maçãs podres” é uma ficção in- por que a pura intimidação fun- próprios soldados. Foi Joseph dor na Universidade de Harvard
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

TRAVESSIA ‘04/05

Depois de Arafat, novos horizontes


Liderarviradanoconflitoisraelense-palestinoseriamarcapositivaparaBushdeixarnoOrienteMédio
JAMES HILL/THE NEW YORK TIMES 12/12/2004

Anthony Lewis* tos judaicos nos territórios palesti-


nos. Preferiu o uso da força militar
Em vida, Yasser Arafat foi o foco à negociação política como cami-
das esperanças e temores de dois nho para a segurança de Israel.
povos. Para os palestinos, foi o pai Agora Sharon propõe remover
da nação, o velho homem que in- os poucos milhares de colonos ju-
troduziu um povo quase esqueci- deus da Faixa de Gaza. Isto sinali-
do na consciência do mundo. Para za mudança essencial? Os céticos
os israelenses, foi o pai do terror, o duvidam. Observam que, em outu-
parceiro de negociações que fala- bro, o principal conselheiro de Sha-
va de paz mas nunca abdicou do ron, Dov Weisglass, afirmou que
objetivo de destruir Israel. a retirada israelense de Gaza desti-
Na morte, Arafat fez com que nava-se a bloquear processo de
se voltasse a falar de paz entre Is- paz real e a permitir que Israel con-
rael e Palestina. O governo direitis- tinuasse dividindo a Cisjordânia
ta de Israel, que se recusou a se reu- em enclaves inadequados a um Es-
nir com palestinos nos últimos tado palestino viável.
anos de Arafat, agora se aproxima No lado palestino, há Mahmud
da Autoridade Palestina. Os pales- Abbas, o provável próximo presi-
tinos, preparando-se para eleger o dente da AP. É um moderado,
sucessor de Arafat como presiden- oposto à violência. Mas como po-
te, discutem a possibilidade de pro- derá controlar os muitos que consi-
cesso político rumo à paz. deram a violência a única resposta
A morte de um líder pode real- ao domínio israelense?
mente abrir caminho para uma vi- Controle é o que o israelense
rada nessa estrada sangrenta? Sim, médio mais quer ver no lado pales-
creio que pode. tino: controle sobre os extremistas
A razão é que os israelenses ao violentos e, internamente, o fim da
longo do espectro político haviam corrupção e da pequena tirania.
passado a considerar Arafat uma Controle e o fim do incitamento
barreira à negociação. Para o cam- contra os judeus nas escolas e fó-
po pacifista de Israel, ele era causa runs públicos.
de frustração. Entre os que se opu- Se há chance de paz negociada,
nham a qualquer conciliação com a opinião pública israelense é cru-
os palestinos, ele era pretexto para cial. Um Mandela palestino teria
a recusa da negociação. acalmado os temores israelenses.
Mas o novo senso de possibili- Mas Arafat nunca faria a transição
dade não significa otimismo. Dian- de líder guerrilheiro a estadista. En-
te das realidades – a história dolo- trevistei Arafat várias vezes nos
rosa, a dificuldade da conciliação seus anos de exílio, em Beirute e DIVISOR – Caixão de Arafat em Ramallah. Pai da nação, para palestinos, e pai do terror, para israelenses, líder morto abre caminho para a paz
dos sonhos desses dois povos num Túnis. Sempre o achei elusivo, ten-
pequeno território –, só um tolo se- tando marcar pontos retóricos em em ambos os lados que fazem da qualquer plano de remoção. ta empreitada de oferecer seu pró- quiser deixar marca construtiva
ria otimista sobre a obtenção da vez de dizer claramente que aceita- conciliação uma remota esperan- Estas são algumas das razões pa- prio plano de paz. no Oriente Médio depois da misé-
verdadeira paz no futuro próximo. va Israel e assumia o compromis- ça. Os palestinos insistem no “di- ra se evitar o otimismo. Para que Seria necessariamente algo pró- ria do Iraque, este é o lugar e o
Por muitos anos, fui um otimis- so de viver a seu lado em paz. reito do retorno” de milhões de re- elas sejam superadas, a liderança ximo do que o presidente Bill Clin- modo de fazê-lo.
ta em relação a esse conflito. A fór- Os palestinos incluem porcenta- fugiados expulsos no nascimento terá de vir de fora. Em termos práti- ton apresentou depois de Camp E, afinal, há razão para se insis-
mula para sua solução era óbvia e, gem de profissionais de classe mé- de Israel, em 1948, de voltar para cos, dos Estados Unidos. George David, uma versão modificada da tir na esperança. Tanto palestinos
pensava, inevitável: Israel se retira- dia – médicos, advogados, jornalis- suas casas. Seu retorno, na prática, W. Bush, em seu primeiro manda- oferta de Barak para garantir aos quanto israelenses, exaustos de-
ria da Cisjordânia e de Gaza, ocu- tas – maior do que qualquer outra acabaria com a idéia de Israel co- to, rebaixou o interesse americano palestinos um Estado contíguo e pois de gerações de conflito, an-
pados na guerra de 1967, e lá os pa- nação árabe. Conheço muitos com- mo Estado judeu. no conflito israelense-palestino. A viável. seiam pela paz. Com orientação
lestinos teriam um Estado – com prometidos com uma solução de No lado israelense, o desafio morte de Arafat trouxe expressões Bush bem pode estar relutante externa, podem estar prontos para
capital em Jerusalém Oriental, de dois Estados, assim como conhe- são os colonos. Um punhado deles renovadas de interesse de Wa- em mexer com os elementos da trocar suas visões maximalistas pe-
maioria árabe. ço muitos israelenses. Mas não es- na Faixa de Gaza rejeita a transfe- shington. Mas será preciso mais comunidade judaica americana la segurança do repouso.●
Israel tem um primeiro-minis- tá claro se o tipo de liderança ne- rência, representando grande difi- que a atividade diplomática inten- que se opõem a concessões aos
tro, Ariel Sharon, que passou a vi- cessário pode surgir da miséria e culdade política para Sharon. Os sificada para fazer uma diferença palestinos. Condoleezza Rice, *Anthony Lewis, duas vezes
da política rejeitando a visão pales- do caos da vida palestina nos terri- 240 mil colonos na Cisjordânia decisiva – muito mais. Creio que sua nova secretária de Estado, ganhador do Prêmio Pulitzer, foi
tina. Foi o mais forte defensor no tórios ocupados. têm poder político maior, e alguns será necessária, no fim, uma deci- não tem experiência no conflito is- colunista do ‘New York Times’
país da construção de assentamen- Além disso, há forças políticas ameaçam opor-se pela força a são dos EUA e seus parceiros nes- raelense-palestino. Mas, se Bush por 32 anos

Um11deMarçoquedividiuaEspanhaesuaalma
AtentadoemMadrifez mais queamplificaro medode um paísatormentadopeloterror basco
REUTERS-EL PAIS 11/3/2004
Paulo Eduardo Nogueira* já no período de trégua de campa- ções. “Se as eleições fossem no camente fora de combate. Desde
nha, num golpe baixo para capitali- dia 7, o atentado teria ocorrido no de 2000, mais de 500 militantes fo-
Os sangrentos atentados de 11 de zar a tragédia e reverter o resulta- dia 4.” E que as ligações entre os ram presos – mais de 100 somente
março em Madri – 191 mortos e do. O PP, embora favorito nas pes- militantes da Al-Qaeda responsá- neste ano. Seu braço político, o Ba-
mais de 1.500 feridos – fizeram quisas, acabou derrotado. veis pelos ataques com a ETA não tasuna, foi proscrito em 2003.
mais que dilacerar a alma espanho- Esse bate-boca se amplificou podem ser descartadas, como faz Um mês antes das explosões
la e acrescentar mais um compo- após a criação de uma comissão o PSOE. em série de dezembro, um grupo
nente de medo a um povo já ator- parlamentar de inquérito, com 18 Zapatero falou à CPI alguns de etarras históricos presos havia
mentado pelo terror basco. Dividi- deputados, de maioria governista, dias depois e acusou Aznar de “en- lançado um manifesto propondo o
ram politicamente o país de manei- para apurar se houve falhas na pre- ganação em massa” do povo espa- fim da luta armada. “Esse tipo de
ra profunda, sem horizonte próxi- venção dos atentados e estabele- nhol e de ter destruído, antes de ação não serve mais hoje, é uma
mo de reconciliação. cer medidas que tentem evitar no- passar o poder, documentos e ma- morte em fogo lento”, dizia a car-
A unidade nacional obtida no vas tragédias. A investigação poli- teriais que comprovariam as fa- ta. “Nunca na história de nossa or-
combate ao terrorismo da ETA cial-judicial propriamente dita se- lhas do governo. ganização nos encontramos em
(Pátria Basca e Liberdade), mate- gue curso paralelo sem contesta- A divisão extrapolou os limites uma situação tão ruim.” Seriam as
rializado em um pacto antiterroris- ções maiores e já produziu deze- do Parlamento e chegou a outros 12 bombas uma resposta da atual
ta entre os principais partidos do nas de prisões e extradições de sus- setores. Os dois principais jornais cúpula etarra, mais jovem (média
país, da direita à esquerda, foi uma peitos. Como era de se esperar, po- do país mantêm linhas editoriais de idade: 22 anos) e mais sangui-
das vítimas ainda hoje gravemen- rém, as sessões da CPI viraram pal- distintas. El Pais acredita que não nária, aos “velhos” dirigentes, ho-
te feridas pelas bombas do 11-M. co de embate político, tendo como há ligações entre a Al-Qaeda e a je possivelmente preocupados em
O Partido Socialista Operário principais atores o ex-primeiro-mi- ETA, seguindo a linha governista. negociar a redução de suas penas?
Espanhol (PSOE), hoje no poder, nistro espanhol, José María Az- El Mundo considera que a história Em 2005, algumas respostas e
acusa o Partido Popular (PP), do nar, e o atual, José Luiz Rodríguez tem muitos pontos obscuros e mo- TERROR – Vítimas da explosão na hora de rush na estação de Atocha quase certamente mais dúvidas de-
governo anterior, de ter cometido Zapatero, do PSOE, cujos depoi- bilizou um time permanente de vem emergir nessa Espanha racha-
uma “enganação em massa” nas mentos foram os pontos altos da quatro repórteres para explorar a gum tipo de pacto contra o inimi- ETA explode 12 bombas de baixa da ao meio.●
horas e dias subseqüentes ao programação. hipótese dessa associação, lem- go comum. potência nos mais diversos locais * Paulo Eduardo Nogueira, jor-
11-M ao insistir que a ETA estava Aznar falou durante 11 longas brando que etarras e militantes islâ- No início de dezembro, um ines- do país, depois de um longo perío- nalista, esteve na Espanha em
envolvida. E o PP revida, acusan- horas e cravou a teoria conspirató- micos mantiveram longos e livres perado protagonista volta à cena: do de inatividade. “Estamos vi- novembro a convite da Funda-
do o PSOE de ter orquestrado ma- ria de que o 11-M tinha como obje- contatos em prisões espanholas, com um intervalo de apenas três vos”, foi o inequívoco recado dos ção Carolina, ligada ao gover-
nifestações na véspera da eleição, tivo mudar o resultado das elei- onde poderia ter sido selado al- dias entre os atentados em série, a terroristas que eram julgados prati- no espanhol

FATOS DO ANO
sem-teto, todos desfigurados. conquista o bicampeonato olímpi- extremistas chechenos armados Todos (ProUni), que prevê a con- 29 – Space Ship One pousa no
22 – O iatista Robert Scheidt con- co. País fecha a Olimpíada com de metralhadoras e com explosi- cessão de bolsas em instituições deserto de Mojave (EUA) depois
quista a primeira medalha de ou- seu melhor desempenho: com 4 vos atados ao corpo. Cerca de privadas em troca da isenção de de superar os 100 km de altura na
ro para o Brasil nos Jogos de Ate- medalhas de ouro, 3 de prata e 3 350 reféns – dos quais 150 crian- impostos. fronteira do espaço. Com isso,
nas, na classe Laser. de bronze, terminou em 18.º lugar ças – morrem e 700 ficam feridos 15 – Copom decide aumentar a abre a era dos vôos espaciais
23 – Favorita ao ouro, Daiane dos nos Jogos de Atenas. depois que tropas de elite russas taxa básica de juros, a Selic, em bancados por investidores priva-
Santos terminou em 5.º lugar a – Na cena mais inusitada dos Jo- invadem o prédio. A Rússia infor- 0,25 ponto percentual, para dos.
final da ginástica olímpica. gos de Atenas, o brasileiro Van- mou que 27 terroristas foram mor- 16,25% ao ano, na primeira eleva-
26 – Torben Grael e Marcelo Fer- derlei Cordeiro de Lima, de 35 tos e há 3 capturados. ção desde fevereiro de 2003.
OUTUBRO
reira ganham o título da classe anos, é agarrado e derrubado no 13 – Putin anuncia um pacote de 24 – Morre na Normandia, aos 69 3 – PT sai do primeiro turno das
Star no iatismo. Grael, de 44 chão pelo ex-padre irlandês Cor- medidas para fortalecer a segu- anos, a escritora Françoise Sa- eleições municipais com um patri-
anos, torna-se o maior atleta olím- nelius Horan quando liderava a rança do país. Entre as propostas gan, autora de Bom Dia, Tristeza. mônio político sem precedentes
pico brasileiro e o único iatista do maratona, última competição da está a eliminação da eleição por 27 – Os servidores do Judiciário na sua história. Teve 16,3 milhões
mundo com cinco medalhas olím- Olimpíada. Vanderlei perdeu 12 SETEMBRO voto direto dos líderes das 89 ins- de São Paulo decidem voltar ao de votos, o suficiente para ganhar
picas – duas medalhas de ouro, segundos, mas conquistou a me- 3 – Acaba em tragédia o cerco à tâncias de poder em que se divi- trabalho após 91 dias de greve e 398 prefeituras e entrar na dispu-
uma de prata e duas de bronze. dalha de bronze. escola de Beslan (foto), na repúbli- de a Federação Russa. 12 milhões de processos para- ta de outras 23 no segundo turno.
29 – Vôlei masculino do Brasil – Schumacher conquista na Bélgi- ca russa da Ossétia do Norte, in- – MP editada pelo governo institui dos. Foi a maior greve da história A seguir vem o PSDB, que con-
derrota a Itália por 3 sets a 1 s e ca o sétimo título na Fórmula 1. vadida no dia 1.º por mais de 30 o Programa Universidade para da Justiça paulista. quistou 15,6 milhões de votos e
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05
FOTOS: JONNE RORIZ/AE

ANFÍBIO – Com braços que na piscina se transformam em hélices, um torso anormalmente aerodinâmico e um par de pernas mais potente na água que no chão, Michael Phelps será para sempre o ícone dos Jogos de 2004

PerigosentreAtenasePequim
Contradiçõesentreosdoispaísesmostramqueolimpismosóéameaçadopordopingecorrupção

Dorrit Harazim* que chegou em segundo lugar


em Atenas pode recorrer do re-
Não houve atentados. Nenhum sultado e, se comprovado o do-
teto ruiu. Estádios e ginásios fi- ping do vencedor, receber a sua
caram prontos a tempo e o trânsi- medalha de ouro em... 2012.
to fluiu melhor do que nas ruas Os Jogos de Atenas espelha-
do Rio ou de São Paulo. Com ram de forma inequívoca esse
instalações supimpas, organiza- universo coalhado de processos,
ção invejável e astral só compa- denúncias e acusações de do-
rável ao de Sydney quatro anos ping generalizado. Quem lem-
antes, Atenas foi a surpresa bra o nome do vencedor da pro-
olímpica de 2004. Menor país va mais cintilante e aguardada
da União Européia, com sua po- de uma Olimpíada – a corrida
pulação de apenas 11 milhões de 100 metros rasos masculino
de habitantes, a Grécia conse- –, aquela que arrepia e melhor
guiu sediar o maior espetáculo define os limites do corpo huma-
esportivo do mundo. Só mesmo no? Poucos, certamente. E pou-
os deuses e o povo grego para sa- co importa, tantas são as levas
ber como essa empreitada de de competidores dos 100 metros
Hércules acabou dando certo. já flagrados com doping. Mas
Nem o bafo escaldante vindo Atenas será lembrada como a
do Saara, que todo verão afugen- primeira Olimpíada em que o
ta qualquer vida inteligente de combate ao uso de drogas foi
Atenas, impediu que alguns re- frontal e maciço, não poupando
cordes mundiais lendários fos- DESTAQUE – Mesmo sem medalhas, Brasil teve bom desempenho ninguém. Atletas emblemáticos
sem batidos nesta 28.ª edição nos saltos ornamentais como Kostas Kederis, o herói
dos Jogos. E mesmo a marca his- nacional grego dos 200 metros,
tórica que permaneceu intrans- foi banido no dia da abertura
ponível – as 7 medalhas de ouro dos Jogos; 22 outros atletas fo-
conquistadas numa mesma olim- ram expulsos da competição.
píada pelo americano Mark A própria estrela maior do
Spitz, em 1972 – sofreu em Ate- atletismo feminino, a velocista
nas o ataque mais ameaçador americana Marion Jones, pode-
dos últimos 32 anos. rá ter de devolver as cinco me-
O perigo veio a bordo de um dalhas conquistadas em Syd-
espigão anfíbio de 19 anos, equi- ney (três ouros, duas pratas) se
pado com braços que na piscina as acusações de doping que pe-
viram hélices, um torso anormal- sam contra ela ficarem prova-
mente aerodinâmico e um par das. Ironia final: se isso ocor-
de pernas mais potente na água rer, uma das medalhas conquis-
do que no chão. Michael tadas por Marion – justamente
Phelps, claro. Ele chegou a Ate- a da prova dos 100 metros –
nas precedido de uma aposta de passará para o pescoço da se-
marketing que eletrizou os Jo- PRIMEIRA MEDALHA – Scheidt deu início às 4 medalhas de ouro SOB SUSPEITA – Estrela máxima de Sydney, a velocista americana gunda colocada daquele ano de
gos: embolsaria US$ 1 milhão conquistadas pelo Brasil; foram mais 3 de prata e 3 de bronze Marion Jones poderá ter de devolver as 5 medalhas que ganhou 2000. Ela é grega e se chama
da Adidas se conseguisse igua- Ekaterina Thanou. O nome soa
lar o feito de Spitz. Faltou pou- considerá-los uma antiguidade memoráveis continua fazendo porte brasileiro em Atenas – sejam abertos sem que se conhe- familiar? É a velocista punida
co. Phelps competiu 17 vezes grega. Sabidamente, o que al- parte do nosso dia-a-dia. Impos- 18.º lugar entre 201 participan- çam os vencedores de todas as em 2004 por ter fugido de for-
em sete dias, levou seis ouros e guns especialistas chamam de sível não lembrar do maratonis- tes – só contam a parte mais vi- provas da edição de 2004. É que ma cinematográfica dos agen-
dois bronzes e será para sempre depressão pós-olímpica pode ta Vanderlei Cordeiro da Silva, sível da história. não basta mais chegar na frente, tes antidoping que a caçavam.
o ícone maior dos Jogos Olímpi- afetar tanto o atleta que colheu o brasileirinho miúdo que con- Uma maneira menos charmo- subir no pódio e receber uma Os Jogos de 2004 demonstra-
cos de 2004. todos os louros que cobiçou – e quistou o mundo com sua bono- sa porém mais sólida de medir a medalha para ter o lugar garanti- ram mais uma vez que o olimpis-
“Não dá para acreditar que a subitamente se sentir vazio – mia e vontade, diante da adver- evolução esportiva de uma so- do nos anais do esporte. É preci- mo só tem dois adversários capa-
Olimpíada tenha acabado”, co- quanto o competidor que fracas- sidade. Medalha de bronze ape- ciedade consiste em olhar para zes de derrotá-lo: o doping e a
mentou no dia do encerramento. sou e não consegue sair da letar- sar de ter sido brutalmente em- os lados e não só para o alto do corrupção. Todo o resto panta-
O tempo voara. Quatro anos an- gia. Para ambos, a perspectiva purrado para fora da pista, Van- pódio. É mais difícil para um SUBIR AO PÓDIO NÃO gruélico – infra-estrutura, segu-
tes, ele era um anônimo adoles- da retomada do ciclo de treinos derlei injetou humanidade no país que ainda engatinha como GARANTE VITÓRIA: rança, comunicações, transporte
cente de 15 anos maravilhado que jamais tem fim é particular- panteão olímpico e dali nin- o Brasil conseguir chegar a cin- – é resolvível. Que o diga a Gré-
por estar em Sydney. E nos pró- mente acachapante. Não espan- guém mais o tira – foi, simples- co finais e oito semifinais olím- PRAZO PARA cia, menor país a sediar uma
ximos quatro anos outros tuba- ta que Michael Phelps tenha si- mente, o maior. picas de natação, como ocorreu RECURSO É DE 8 ANOS Olimpíada nos últimos 52 anos.
rões adolescentes emergirão. Di- A depender do torcedor brasi- em Atenas, do que ter a dádiva Que o diga a China, 125 vezes
ficilmente algum com o seu ta- leiro, a festa do vôlei masculi- de contar com um talento cinti- maior. A determinação do colos-
lento múltiplo, que pode ser con- PARA ATLETAS no não deveria acabar nunca, lante porém solitário como o de so sair vencedor da prova defini- so asiático em se tornar a primei-
siderado uma categoria à parte DE PONTA, Torben Grael e Robert Scheidt um Gustavo Borges. Mesmo tiva, posterior à competição: o ra potência olímpica mundial se
na história da natação. Mas a bo- se deixariam embalar para sem- sem medalhas no pescoço, a in- exame antidoping. Segundo o sustenta em duas pernas. Com
lada de US$ 1 milhão continua ATENAS JÁ pre no Mar Egeu, o talento, gar- cursão brasileira em saltos orna- novo código de combate ao uso uma quer chegar ao topo do
valendo até a próxima olimpía- É PÁGINA VIRADA ra e alegria das meninas do fute- mentais, handebol feminino ou de substâncias proibidas, existe cômputo de medalhas – em Ate-
da e Phelps sabe que o tempo bol compensaram largamente a tae kwon do é indicativa de que uma janela de tempo de oito nas já arranhou a supremacia
voa mais rápido para atletas de ausência da equipe masculina e o nosso perfil olímpico está se anos para se retestar amostras dos Estados Unidos abocanhan-
ponta do que para mortais co- do multado por dirigir embriaga- Daiane dos Santos merecia ampliando. Mas Pequim está a de sangue ou urina colhidos du- do 32 medalhas de ouro contra
muns. do numa estrada de Salisbury, uma segunda chance – aqueles meros quatro anos de distância e rante uma olimpíada. Desta for- as 35 dos americanos. Com a ou-
Para o país ou atleta que pre- Estado de Maryland, menos de 30 segundos de apresentação qualquer vacilo nessa fase ini- ma, na acirrada corrida que tra- tra quer tornar os Jogos de 2008
tenda deixar uma marca em Pe- três semanas após sua consagra- no solo que lhe renderam a cial do inter-reino custará caro vam há quase um século, even- o marco zero de uma nova era.
quim, sede dos próximos Jogos, ção na Grécia. quinta colocação simplesmente mais adiante. tuais avanços da ciência labora- Pelo adiantado das obras, essa
o primeiro passo consiste em vi- Para as pessoas comuns, em não valem. Mas as quatro meda- Na barafunda olímpica dos torial podem vir a detectar frau- perna anda a passos largos.●
rar rápido a página dos 16 dias contrapartida, Atenas foi on- lhas de ouro, três de prata e três tempos modernos, é possível des antigas que escaparam de
olímpicos de agosto de 2004 e tem e sua cota de momentos de bronze conquistadas pelo es- que os próximos Jogos de 2008 seu radar. Em tese, um atleta *Dorrit Harazim é jornalista
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TRAVESSIA ‘04/05

Definições de craque
Ele combina técnica, tática e fibra à altura dos grandes momentos
PAULO WHITAKER/REUTERS
Daniel Piza* landesa, a tensão argentina, a des-
contração brasileira), e tanto no
No dia 2 de novembro, aos 43 mi- clube como na seleção, que envol-
nutos do segundo tempo, no está- vem desafios distintos. O craque é
dio Camp Nou, Barcelona e Milan expressão e ciência da complexida-
estão em 1 a 1. Ronaldinho, apaga- de do futebol.
do até ali, recebe a bola nos arredo- 4. Bem-dotado e criativo em ter-
res da meia-lua, diante do zaguei- mos físicos, técnicos e táticos,
ro italiano Nesta, um dos melho- além de competente (ou cercado
res do mundo. A torcida solta um de gente que lhe dê bons conse-
oooh de expectativa. Ronaldinho lhos) e sortudo em sua carreira (pa-
encosta o lado externo do pé direi- ra jogar em grandes times, para tor-
to na bola e, assim que começa a cidas que saibam dar valor às suas
empurrá-la para a direita, reverte especificidades), o craque tam-
sua direção sem descolá-la do pei- bém precisa ter um dom ainda
to da chuteira e então a lança al- mais escasso: consistência psicoló-
guns metros para a esquerda. Na gica. Não se deixar abalar demais
manobra, um drible conhecido co- pelas cobranças, que são mais in-
mo elástico e tornado famoso por tensas com os melhores; e tam-
outro brasileiro, Rivellino, Nesta bém não se deixar empolgar pela
tem o reflexo de sair para sua es- sua própria habilidade, o que é ou-
querda e perde o tempo suficiente tro pecado comum.
para voltar para sua direita. Ronal- Pode ser de um tipo mais tempe-
dinho, favorecido por sua muscula- ramental ou mais introspectivo,
tura, parte veloz atrás da bola e, na mais rebelde ou mais frio; só não
entrada da grande área, dispara o pode ser frouxo nem destempera-
que os espanhóis chamam de um do, o que em geral acaba reverten-
“zurdazo”, um canhão com a ca- do contra si próprio. E deve ter au-
nhota. E a bola decola para um tocrítica, para seguir melhorando,
vôo diagonal até o ângulo direito olhando sempre para a parte do co-
do gol de Dida, que com seu 1,90 po que ainda não encheu, sem dei-
metro não pode alcançá-la. xar de se alimentar da certeza do
A seqüência ilustra o que define que já acumulou.
um craque: a percepção do mo-
mento-chave para resolver uma HISTÓRICOS
partida importante; a habilidade Como se vê, portanto, ser craque
manifestada no controle da bola, não é fácil. É por isso que há outra
no uso das duas pernas, no jogo de categoria, a dos craques históricos
cintura, no sentido de tempo; e a ou supercraques, na qual pouquís-
combinação dessa habilidade com simos entram. Pelé, primeiro, e
a força e a precisão, criando uma Maradona, segundo, ocupam o to-
solução inesperada para ludibriar po. Marcaram centenas de gols, ga-
o oponente e alegrar a torcida. A nharam títulos nacionais e interna-
fusão do guerreiro com o artista. A cionais, foram o melhor do plane-
prosa enriquecida pela poesia. ta em diversos anos, brilharam de
Outros bons jogadores pode- forma triunfante em Copas.
riam ter desatado o problema táti- É claro que tiveram fases ruins,
co e marcado esse gol determinan- não atingiram algumas metas, tro-
te. Raros, porém, o fariam dessa peçaram mais de uma vez na bola.
maneira, com essa riqueza de deta- É claro que têm defeitos pessoais,
lhes técnicos. Outros bons jogado- éticos, etc. E é claro que depen-
res seriam capazes de realizar tais diam da equipe em que atuavam,
movimentos. Raros, novamente, o pois nenhum craque consegue rea-
fariam naquele momento, sob a lizar façanhas se acompanhado de
pressão caseira de uma torcida an- pernas-de-pau; não existe “ganhar
siosa, num torneio como a Liga sozinho” no futebol. Mas, da se-
dos Campeões da Uefa, o maior gunda metade do século 20 para
embate dos clubes europeus. E cá, os dois estiveram muito acima
mais raros ainda o fariam numero- dos outros, por mais que os euro-
sas vezes no mesmo ano. E é isso peus queiram que Cruyff, Di Stéfa-
que distingue Ronaldinho de um no (o argentino à frente do Real
Crespo (no primeiro caso) ou De- Madrid que era o único rival do
nílson (no segundo) e o fez ser elei- FENÔMENOS – Ronaldinho, eleito melhor do mundo pela Fifa, comemora gol contra a Bolívia, observado por Ronaldo, dono de três títulos Santos histórico), Beckenbauer ou
to o melhor do mundo em 2004 – Platini habitem o mesmo panteão.
ainda que no primeiro semestre te- ques. Adriano e Kaká, dois brasi- sinuosos e se posicionava como lentes requisitos técnicos, como pode se revelar um produtivo acer- Eles habitam. Mas sentados al-
nha feito número maior de lances leiros de 21 anos apenas, também ninguém para a execução do gol. um Djalminha, e ter carreira me- to. O craque é quem sente isso; é a guns degraus abaixo.
como esse, talvez mais empolga- já merecem o qualificativo. Deco, Não só sabem malabarismos com diana, por uma soma de motivos “antena da raça”. Entre os jogadores em atividade,
do e menos conhecido em sua pri- 27 anos, é um craque tardio, que a bola, mas a hora ideal de usá-los. psicológicos e circunstanciais. Zico tinha tal entendimento por enquanto só há dois supercra-
meira temporada no time catalão. só agora atingiu uma maturidade Em outras palavras, o repertório Uma carreira vitoriosa exige um com os centroavantes e pontas do ques, Ronaldo (que fez oito gols na
A palavra “craque” é usada co- que lhe permite exibir um repertó- de técnicas nada é sem a criativida- perfil vitorioso. Flamengo que os instruía a esperá- Copa de 2002, inclusive os dois da
mo vírgula nas transmissões e crô- rio completo (desarma, arma, mar- de. Ronaldo não cabeceia bem, O craque precisa estar afinado lo para lhe devolver a bola na con- final) e Zidane (que fez dois gols
nicas de futebol. Em geral, signifi- ca, dribla). E há Nedved, Totti, Fi- mas é capaz de dar dribles curtos e com a equipe, como Ronaldinho dição de marcar o gol. Sócrates, na final da Copa de 1998). Ambos
ca apenas um bom jogador, um go, Owen, Van Nistelrooy, Maldi- chutar em alta velocidade com com Deco (que divide responsabi- igualmente. A falta de um atacan- foram eleitos três vezes pela Fifa;
atleta acima da média em recursos ni, Roberto Carlos, Cafu. O que, qualquer uma das pernas. Ou in- lidade de criação) e Etoo (que fina- te entrosado com eles na Copa de Ronaldo, 28 anos, tem duas Bolas
técnicos e lances acertados. Ou en- afinal, define o craque? ventar um voleio de frente, com a liza para o gol), e saber o melhor 82, por sinal, explica muito. de Ouro (o principal título indivi-
tão um jovem talento que despon- perna esquerda, numa situação em momento para ousar (e errar, co- dual europeu), Zidane, 32 anos,
ta pela primeira vez e, na maioria que um jogador convencional ten- mo acontece na maioria das ve- uma; ambos têm títulos importan-
dos casos, desaparece um ou dois CRAQUE NÃO APENAS taria o cabeceio. Além disso, co- zes) e o melhor para tocar. Tem de CRAQUE É tes em mais de um país; e já estão
anos depois. Mas, como “amor” e SABE MALABARISMOS mo nas artes, o virtuose como Zi- saber jogar com e sem a bola. Às EXPRESSÃO E CIÊNCIA entre os maiores craques de suas
“liberdade”, essa palavra merece dane e Ronaldinho, que quase não vezes poderá até deixar de passar posições. Ronaldinho, aos 24 anos,
mais respeito. Quantos craques, COM A BOLA, MAS O têm deficiências técnicas (embora para um adversário em situação DA COMPLEXIDADE tem qualidade suficiente para alcan-
por exemplo, atuaram no futebol INSTANTE DE USÁ-LOS Zidane não tenha muita velocida- mais livre e arriscar um drible ou DO FUTEBOL çá-los. O craque histórico, porém,
brasileiro em 2004? Difícil esco- de e Ronaldinho não drible bem chute mais difíceis. Até para isso, não depende apenas de si mesmo;
lher outro além de Robinho, embo- com a esquerda), muitas vezes se a união do grupo é importante, depende muito dos lances da histó-
ra Washington tenha tido uma tem- 1. A primeira característica em aliena do jogo, concentrado em re- pois em algumas dessas situações Essa esperteza tática envolve, ria. Se se mantiver consciente do
porada de craque, facilitada pela comum é a habilidade técnica. solver equações exclusivas. Funda- o egoísmo se converte em altruís- cada vez mais, experiência interna- que o diferencia de verdade, os da-
mediocridade das defesas locais. Um craque tem, além de boa con- mentos, como diz o termo, são um mo, principalmente se resultar em cional. A Europa se tornou não dos jogarão em seu favor.
dição física, ótimo desempenho piso, não um teto. gol – a razão de ser do futebol. apenas um destino financeiro para O craque, como o músico, vive
CARACTERÍSTICAS na maioria dos fundamentos: pas- 2. Daí a importância da segun- 3. E essa é a terceira característi- os candidatos sul-americanos a cra- da presença de espírito. E essa pre-
Nem mesmo na lista dos 35 no- se, chute, drible, controle. Pode, da característica do craque: ele pre- ca: o craque sabe “ler” uma parti- ques, mas também um aprendiza- sença envolve tanto a intuição co-
meados para a Fifa como melho- porém, não ser tão bom em um de- cisa saber jogar para a equipe, cola- da e estar à altura dela. O futebol, do futebolístico – pela quantidade mo o treinamento, pois o improvi-
res do mundo são todos craques, les, desde que o compense em ou- borar para a vitória, mesmo quan- esporte mais popular do planeta e de grandes jogadores nas diversas so não é inimigo da consciência.
ou mais do que craques em poten- tro ou na combinação dos outros. do isso signifique ser individualis- não só do Brasil, fascina por ser ao posições, pela tradição de conheci- Na frase do poeta Fabrício Carpi-
cial. Henry, um artilheiro velocista Maradona não tinha perna direita ta. Em outras palavras, precisa ter mesmo tempo coletivo, como o mentos táticos, pela competitivida- nejar, “custa muito ensaio ser es-
que encontrou na Inglaterra a mol- muito confiável, mas tinha um hi- boas estatísticas: gols (no caso dos basquete ou o vôlei, e individual, de dos torneios, pelo teste da expo- pontâneo”. Se eu fosse religioso,
dura ideal para desenhar seus gols, percontrole na perna esquerda que jogadores de defesa, a ausência de- como o tênis ou o atletismo, numa sição para o mundo todo. O cra- resumiria: o craque é quem Deus
e Shevchenko, que há cinco tem- sabia usar em seu benefício, com les), assistências (passes que resul- dosagem combinada que lhe é úni- que moderno tem de estar prepara- deixa brincar de Deus. ●
poradas no duro futebol italiano cortes e embaixadas. Romário é tam em gols, pois nem todo passe ca, já que o uso dos pés abre mais do para jogar com diferentes “esco-
consegue vencer com sua leveza e baixinho e pouco resistente, mas tem o mesmo valor), participações espaço para o acaso e o improviso, las”, mesmo que hoje diluídas (a * Daniel Piza é jornalista e es-
esperteza, são obviamente cra- reservava a energia para arranques em geral. O jogador pode ter exce- de tal modo que um aparente erro retranca italiana, a versatilidade ho- critor

fAtos do ANO
854 prefeituras, além de creden- rio de mais de mil páginas segun- 21 – A Agência Brasileira de Inteli- ganda do governo Lula, é detido autoria dos ataques de 11 de se-
ciar-se ao segundo turno em 18 do o qual Saddam Hussein não gência (Abin) afirma que fotos por agentes da PF numa rinha de tembro de 2001.
municípios. O partido com maior tinha um arsenal desse tipo antes divulgadas pelo jornal Correio Bra- galos em Jacarepaguá (RJ). 31 – PSDB é o grande vitorioso
número de prefeitos eleitos é o da invasão do país, em março de ziliense não são do jornalista Vladi- 27 – O zagueiro Serginho, do São do segundo turno das eleições
PMDB: 1.041. Em duas capitais 2003. Duelfer chefiou 1.400 inspe- mir Herzog. A reportagem reavi- Caetano, de 30 anos, morre de- municipais, com a conquista de
importantes, a disputa foi decidi- tores que permaneceram 16 me- vou a polêmica sobre a morte de pois de sofrer uma parada cardior- cinco capitais – São Paulo, Curiti-
da no primeiro turno, com a reelei- ses em território iraquiano. Herzog no DOI-Codi, em São Pau- respiratória no segundo tempo ba, Florianópolis, Teresina e Cuia-
ção de César Maia (PFL) no Rio e 8 – Lula é multado em R$ 50 mil lo, em 1975. As imagens (foto) do jogo de seu time com o São bá. O segundo lugar ficou com o
de Fernando Pimentel (PT) em pelo juiz da 1.ª Zona Eleitoral de mostram um homem nu, com o Paulo, no Morumbi, pelo Campeo- PT, com três capitais – Vitória,
Belo Horizonte. São Paulo, José Joaquim dos rosto escondido, o que reforçaria nato Brasileiro. Ele tinha compro- Fortaleza e Porto Velho. Ao ga-
– Morre aos 77 anos Janet Leigh, Santos, por ter discursado em a tese de que Herzog foi tortura- metimento do músculo cardíaco, nhar capitais expressivas, o PS-
protagonista da clássica cena do favor da reeleição da prefeita Mar- do e humilhado antes de ser mor- como mostrou exame realizado DB estabeleceu um contraponto
assassinato no chuveiro em Psico- ta Suplicy (PT) durante inaugura- cos (com má formação cerebral) não to – ao contrário da versão oficial em fevereiro no Incor. ao sucesso dos petistas no pri-
se, de Alfred Hitchcock. ção em São Paulo. estão mais autorizadas a abortar. de suicídio. 29 – Bin Laden reaparece às vés- meiro turno, quando o partido
6 – O chefe da equipe de busca 9 – O sertanista Apoena Meireles, Supremo revoga liminar concedida – O publicitário Duda Mendonça, peras da eleição americana, em ganhou seis capitais e os tuca-
das armas de destruição em mas- de 55 anos, é morto ao reagir a em julho pelo ministro Marco Aurélio responsável pela campanha à imagem gravada mostrada pela nos, nenhuma. As duas derrotas
sa no Iraque, Charles Duelfer, en- assalto em Porto Velho (RO). Mello à Confederação Nacional dos reeleição de Marta Suplicy e do- emissora Al-Jazira, e assume pe- mais sentidas pelo PT são as de
trega ao Senado americano relató- 20 – Gestantes de fetos anencefáli- Trabalhadores da Saúde. no da empresa que faz a propa- la primeira vez explicitamente a Marta, batida por José Serra em
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TRAVESSIA ‘04/05

Leicultural:Gilseráresponsável
ProjetodoMincvisaaocontroledopensamento,poderparaseinfiltrarnasociedade
J.F. DIORIO/AE 25/10/2004

Arnaldo Jabor* dade de “maus e alienados, de ca- Gil, com a desculpa de sempre:
nalhas e oportunistas”. O extraor- “Calma... não se preocupem... a
O negócio é o seguinte: não se tra- dinário nesse projeto é que ele é lei é violenta, mas a gente é le-
ta de ser “a favor” ou “contra” o ingênuo e, ao mesmo tempo, ardi- gal...”
famigerado projeto da Ancinav. loso, sorrateiro. É ingênuo, por- Muitos acham que a lei da An-
O importante é analisar como es- que acha que as “velhas pira- cinav vai prejudicar o cinema; é
se aborto ideológico pôde surgir nhas” como eu não percebería- pior – já prejudicou, pois esse
no Brasil de hoje, no mundo de mos sua intenção real, e é sorratei- ano ninguém conseguiu captar di-
hoje, com um ministro da Cultu- ro, porque se aproveita das delon- nheiro algum, com as empresas
ra culto, artista importante e víti- gas burocráticas, das brechas do assustadas pelas notícias. Depois
ma da repressão política. tempo e das distrações dos inte- de 2003, quando todos os recor-
Existe dentro da cabeça de ve- ressados para passar no Congres- des de sucesso foram batidos,
lhos esquerdistas um tumor ino- so a intenção de usar o cinema co- 2004 foi uma retração terrível
perável: a idéia de revolução. mo boi de piranha, pois a finalida- por causa do absurdo comporta-
Não mais a própria revolução, de principal clara é colocar a TV mento desses caras.
historicamente impossível, mas Globo de joelhos, velho desejo to- Um item extraordinário do tal
sua “idéia”. O conceito revolucio- talitário. O projeto é paranoica- projeto de lei trata de sua fisiono-
nário continua como uma luz do mente minucioso, com itens, su- mia burocrática e seus poderes, ve-
passado, uma velha medalha, um bitens, parágrafos insidiosos, jam:
antigo heroísmo que absolveria meias palavras, frases nebulosas, “A natureza de autarquia espe-
as babaquices do presente, na ba- tudo astutamente armado para cial conferida à Ancinav é caracte-
se do “fulano é uma besta, mas é que, mesmo escoimado no Con- rizada por autonomia administrati-
de esquerda”. Como o PT não gresso por parlamentares racio- va e financeira, ausência de subor-
consegue resolver a equação de nais, mesmo assim o essencial da dinação hierárquica, mandato fixo
dez incógnitas entre estabilidade “ação”, da “tarefa” ficaria intoca- e estabilidade de seus dirigentes.”
monetária e desenvolvimento, co- do. Bela tática maoísta: “A pa- Nem o Lula tem tais poderes. Nem
mo o Brasil continua um enigma ciência é uma virtude revolucio- o José Dirceu, de onde, dizem,
programático, os bolchevistas de nária.” Como subproduto, o pro- emana essa ideologia. A Ancinav
carteirinha do PT desviam sua jeto também quer tirar poder dos aspira a ser um órgão livre, leve e
atenção para a cultura. A cultura cineastas “burgueses” que fazem solto, acima do Legislativo e Judi-
é um pretexto para a falta de saí- sucessos “imperdoáveis” de bi- ciário, invadindo atribuições de mi-
da política. Um “ersatz”, para fa- lheteria, que conseguem “sinistra- nistérios e autarquias. É inacreditá-
lar difícil. Sempre foi assim; e mente” participar do Oscar, que vel que, no ano de 2004, estejamos
quem vos fala foi um dos funda- “sordidamente” vão para Cannes a discutir assuntos ideológicos de
dores do CPC, do Centro Popu- e distribuem filmes brasileiros no 1935, como “realismo socialista”,
lar de Cultura da UNE, braço cul- exterior. No raciocínio tosco dos “zdanovismo” e “dirigismo”.
tural do PC, com a finalidade de velhos bolchevistas, “sucesso” é Será que o Lula tem consciên-
“conscientizar as massas” para o cia do projeto que estão tramando,
socialismo através da arte como usando seu governo pragmático e
instrumento de doutrinação; FINALIDADE PRINCIPAL decente como fachada para cor-
quem vos fala foi da “linha chine- É PÔR A GLOBO DE roer o “núcleo liberal” com medi-
sa” e vibrou quando, na revolu- das sorrateiras? Lula nunca se dei-
ção cultural, Mao Tsé-tung proi- JOELHOS, VELHO xou levar pelas tramas ideológicas
biu Beethoven na China, por ser DESEJO TOTALITÁRIO “uspianas”. Quando os militares
um burguês romântico; quem perguntaram se ele era comunista,
vos fala achou que seria bom pa- ele respondeu: “Sou torneiro me-
ra os intelectuais uma temporada igual a “riqueza”, logo, quem faz cânico...” Ele até fascinou profes-
na colheita de arroz (aliás, talvez sucesso é burguês e “de direita”. soras da USP com sua foice e mar-
fosse bom hoje em dia para os as- Já os fracassos são mecanicamen- telo, como uma alegoria operária,
sessores do Minc); quem vos fala te identificados com os proletá- mas nunca se deixou levar por
conhece bem o que é o “estatis- rios. Sucesso=direita. Fracasso= seus delírios ideológicos pequeno-
mo” na cultura, cinema ou TV. esquerda. Por decorrência “dialé- burgueses. Dizem que, quando os
Mas este projeto do Minc ambi- tica” (argghhh...), fraqueza seria intelectuais lhe mostraram o pro-
ciona muito mais do que regular força, ignorância seria saber, sim- grama original do PT, ele disse:
o cinema ou TV. O projeto que o plismo seria verdade e complexi- “Tudo bem... mas nesse partido eu
Ministério da Cultura criou, com dade, mentira. Também incrível não entro!...” Lula tem uma cons-
responsabilidade direta de Gilber- é a idéia que essa gente tem de ciência democrática clara, pois sa-
to Gil, visa a controlar o pensa- “poder”. Não se trata de poder be que o acaso, o mistério fazem
mento, visa a um poder puro, in- para fazer algum projeto. Não. parte da vida social, pois ele mes-
tocável, para uma infiltração na É o poder pelo poder, com a fina- mo é a prova disso. Ele sabe que
sociedade reflexiva, como uma lidade de constranger, fiscali- não adianta programar a vida “a
tática “revolucionária” (já que zar, controlar o fluxo “insuportá- REVOLUCIONÁRIO – Gil em anúncio de projeto: discussão assustou empresas e prejudicou captação priori”, que isso só leva a desastres
não há estratégia), de dominar a vel” da realidade que emana da como foram 64 e 68. Talvez ele
“superestrutura”, numa atitude sociedade. Eles não conseguem Também, como observo há marem seus produtos “alternati- tido dos Trabalhadores, o Estado não saiba que seu ministro Gilber-
baixamente “gramsciana”, um entender a impalpável força cria- uns 30 anos, muitos cineastas vos” – também na base da dialéti- “é” a esquerda e o mercado “é” a to Gil está deixando uma “troika”
“gramsci” vulgar e tardio. tiva da democracia, gerando no- que não conseguem filmar ou em- ca do consolo: “Ninguém gosta direita. Esses cineastas se trans- de rancorosos criar uma antítese
Esta demência parte da idéia vidades inesperadas do “incons- placar algum sucesso apóiam es- dos meus filmes, logo são ‘revo- formam na linha auxiliar, na mas- de tudo que ele pretende para sua
de que há homens melhores que ciente” da social. Para eles, as sas leis estatizantes e controlado- lucionários’.” Esses artistas pen- sa de manobra dos três leninistas administração. Desperta, Lula! ●
outros, que se intitulam “sujeitos coisas têm de ser programadas, ras, na esperança de que uma no- sam assim: o Estado é o Centro, é que tomaram o poder dentro do
da história”, cuja tarefa seria fa- criadas ideologicamente, com va Embrafilme surja para dar di- um lugar de classe e, como agora Minc, amparados pela ingenuida- *Arnaldo Jabor é cineasta,
zer o “parto do bem”, numa socie- um fim preconcebido. nheirinho no guichê para eles fil- o Estado está “ocupado” pelo Par- de ou desatenção do Gilberto esceitor e jornalista

Documentários revelam um país multifacetado la falta de inovação. A constru-


ção dos personagens também
não obedece a qualquer tentati-
va de ruptura com padrões for-
mais. E, no caso do cinema bra-
Gênero foi o que houve de melhor no cinema brasileiro deste ano sileiro, são essas narrativas e
personagens convencionais que
mais sucesso têm feito.
Luiz Zanin Oricchio* Paixão segundo Martins, de Ire- mas o filme o apresentou mesmo Lula à Presidência em 2002. íntimo e manejam a câmera co- De qualquer forma, indepen-
ne Langemann, Glauber – Labi- a quem não curte o surfe. E Ria- Esses filmes, lançados ao lon- mo usariam seu micro pessoal, dentemente dos resultados de bi-
2004 foi o ano do documentário rinto do Brasil, de Silvio Tend- chão é figurinha carimbada em go de um único ano, compõem ou uma simples caneta. Nesse lheteria, são os documentários
no cinema brasileiro. Não que es- ler, Rio de Jano, de Eduardo Sou- Salvador, mas nas outras regiões um painel multifacetado do Bra- despojamento confessional – po- que têm apresentado ao público
sa tendência tenha aparecido de za Lima, Anna Azevedo e Rena- pouco o associam às músicas sil. Retratos da sociedade brasi- rém isento de qualquer narcisis- os personagens mais fascinantes
repente, vinda do nada. Ela já se ta Baldi, e Raízes do Brasil, de que o fizeram famoso. leira, com seus contrastes e des- mo supérfluo – reside talvez seu – porque complexos. Muito mais
esboçava havia tempo. Agora se Nelson Pereira dos Santos. A atenção dos documentaris- níveis sociais, suas fraturas inter- encanto maior. E evitam a fórmu- multifacetados que os da ficção.
consolidou. Entre os 49 longas- A suposição dos cineastas, tas não se restringiu aos famosos nas e também sua energia, sua la das entrevistas seguidas, que Basta assistir a Entreatos para
metragens brasileiros lançados nesses casos, é que o público terá ou semifamosos. Pelo contrário. esperança, sua criatividade. Há pode dar muito certo para um conferir a riqueza de um persona-
no ano (50, se incluirmos Diá- todo o interesse em seguir a vida Alguns dos melhores retratos fo- outros títulos que participam mestre como Eduardo Coutinho, gem que veio de uma vida de po-
rios de Motocicleta), 17 são do- – e a obra – de figuras como o ram feitos com gente anônima, dessa figura em formação. Por mas pode também transformar- breza para se tornar líder sindical
cumentários. Número expressi- melhor jogador de futebol de to- às vezes habitantes do andar exemplo Língua, de Victor Lo- se em banalidade em mãos me- e depois presidente da Repúbli-
vo, ainda mais se levarmos em dos os tempos, o pianista João mais baixo da sociedade. Os mo- pes, que tem por tema e “perso- nos hábeis ou menos experientes ca. Ou os anônimos de Peões, os
conta o fato de que esses filmes, radores de rua de São Paulo ga- nagem” não um indivíduo, mas ex-companheiros de Lula nas lu-
com raras exceções, não produ- nharam visibilidade em À Mar- um conjunto deles, o universo tas sindicais e que abrem suas vi-
zem grandes filas nos cinemas. FILMES CONTARAM gem da Imagem, de Evaldo Mo- composto pelos falantes do idio- PREOCUPAÇÃO FOI das ao registro da câmera de Cou-
É a qualidade o que mais im- A VIDA DE PELÉ E carzel. Os habitantes da periferia ma português. PRESERVAR HISTÓRIA tinho. Aliás, se há alguma coisa
pressiona na produção documen- do Rio aparecem no inspirado E, indo ao outro extremo, da que o documentário ensina é
tal contemporânea. Esse boom SERGIO BUARQUE E A Fala Tu, de Guilherme Coelho. generalidade máxima à particula- E COMPLEXIDADE DAS que, bem observadas, não exis-
talvez tenha muito a ver com o DE ANÔNIMOS TAMBÉM O interior do Carandiru revela-se ridade mais extrema, temos o PESSOAS RETRATADAS tem pessoas simples, sejam ope-
próprio momento positivo da em todo o seu realismo em um exemplo de 33, de Kiko Goiff- rários aposentados ou um presi-
produção brasileira como um to- dos melhores filmes do ano, O man. Nele, o cineasta, que na oca- dente da República oriundo da
do. Mas há algo além disso no Carlos Martins, o cineasta Glau- Prisioneiro da Grade de Ferro, sião tinha a idade indicada pelo tí- na arte do diálogo. Esta técnica classe popular.
ar. O próprio governo já perce- ber Rocha, o cartunista Jano em de Paulo Sacramento. Maria Au- tulo, estabelece regras de pesqui- parece fácil, mas esse é um enga- A maneira como esses persona-
beu a importância desse gênero sua passagem pelo Rio de Janei- gusta Ramos investigou os basti- sa e sai em busca de sua mãe bio- no típico dos iniciantes. gens são construídos é que, a meu
cinematográfico e o tem apoiado ro e de Sérgio Buarque de Holan- dores da aplicação das leis aos po- lógica, que ele não conhece. Tra- Em literatura costuma-se di- ver, empresta ao documentário es-
com os programas chamados da, intelectual a quem tanto ain- bres no polêmico Justiça, filme ta-se de um curioso caso em que zer que as biografias vieram para sa riqueza contemporânea. Ao
Doc-TV – privilegiando o forma- da se deve em termos da com- que incomodou a muitos magis- o diretor se assume como perso- ocupar um lugar deixado pela ra- contrário do que em geral tem
to e duração próprias para a exibi- preensão do País. trados, mas estimulou a discus- nagem de si mesmo e faz um tra- refação do enredo pós-nouveau acontecido com os filmes de fic-
ção na tela pequena. Outros personagens foram re- são entre advogados lúcidos. balho radicalmente autobiográfi- roman. Como as pessoas têm ne- ção, em especial os mais comer-
Já na tela grande do cinema, a velados pelas lentes dos docu- A maior repercussão se deve a co. É o documentário em primei- cessidade atávica da narrativa, es- ciais, não existe nenhuma inten-
presença dos documentários tem mentaristas, como o surfista Fá- Entreatos e Peões, de João Morei- ra pessoa. Mesma inspiração de ta passou a ser fornecida pela des- ção dos documentaristas de simpli-
se tornado habitual porque, ao bio Gouveia, em Fábio Fabulo- ra Salles e Eduardo Coutinho, ver- Passaporte Húngaro, em que a crição das “vidas reais”, depois ficar, ou aplainar os personagens
que parece, o público começou a so, de Pedro César, Bocão e An- so e anverso de um mesmo proje- cineasta Sandra Kogut relata as que os personagens de ficção fo- para que eles se “comuniquem”
perceber que as vidas das pes- tonio Ricardo, ou o sambista baia- to, comovente e lúcido registro dificuldades para conseguir obter ram rareando, ou se tornando melhor com o público. São o que
soas “reais” dão excelentes histó- no Riachão, que ganha um cari- da história política brasileira nas a nacionalidade dos seus avós. aborrecidos. são – e revelam-se para uma câme-
rias, muitas vezes mais interes- nhoso retrato do seu conterrâneo últimas décadas. Peões dialoga São dois filmes inspirados, e Não creio que seja esse o ca- ra disposta a enxergá-los como
santes que as dos personagens de Jorge Alfredo em Samba Ria- com os metalúrgicos que partici- montados com leveza. O especta- so do cinema, pois neste a narra- pessoas, integrais e íntegras.●
ficção. Alguns são sobre persona- chão, vencedor do Festival de param das greves de 1979-1980 dor tem a sensação de que os di- tiva continua tradicional, li-
gens notáveis, como Pelé Eter- Brasília. Fábio é um atleta conhe- no ABC paulista. E Entreatos fil- retores falam de si como se esti- near, rotineira, às vezes até mui- * Luiz Zanin Oricchio é jorna-
no, de Aníbal Massaini Neto, A cido em seu meio específico, ma os bastidores da campanha de vessem escrevendo num diário to esquemática, justamente pe- lista e escritor
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O ESTADO DE S.PAULO ● SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004

OBITUÁRIO
REPRODUÇÃO RENZO GOSTOLI/AP

●●● CELSO FURTADO – Ministro


do Planejamento do presiden-
te João Goulart e da Educa-
ção e Cultura no governo Jo-
sé Sarney, foi mentor de uma
geração de economistas. O
paraibano que criou a Sudene
foi um dos maiores estudiosos
das disparidades regionais e do
subdesenvolvimento. Carregou
até o fim da vida a bandeira do
nacionalismo, apesar do espíri-
to afável que lhe garantia livre
trânsito entre defensores de
idéias antagônicas. Em 1964,
teve os direitos políticos cassa-
dos pela ditadura. O intelectual
refinado, professor da Sorbon-
ne, era admirador do MST. Sua
obra mais importante, entre qua-
se 40 livros, foi A Formação Eco-
nômica do Brasil, de 1956. Mor-
reu em 20 de novembro, aos 84
anos, no Rio. Teve um enfarte
enquanto conversava com a mu-
lher, Rosa, em casa, em Copaca-
bana.

ROBSON FERNANDJES/AE–4/6/2004

●●● MARLON BRAN- ●●● LEONEL BRIZOLA – Era agosto


DO – Ídolo de gera- de 1961 quando Brizola entrou
ção, símbolo da para a História do País. O presi-
rebeldia e eterno dente Jânio Quadros renunciara e
galã, o poderoso os ministros militares tentaram
Brando, duas ve- impedir a posse do vice, João
zes vencedor do Goulart. O então governador gaú-
Oscar – por ‘Sindi- cho resistiu, criando a cadeia de
cato de Ladrões’ e rádio da legalidade. Obteve o
‘O Poderoso Che- apoio do 3.º Exército e o impasse
fão’, em 1954 e garantiu a posse de Goulart. Três
1972 –, morreu na anos depois, deputado federal,
penúria, em Los tentou resistir ao golpe e foi cas-
Angeles, em 1.º de sado. Ficou no exílio até 1979.
julho, aos 80 anos. Anistiado, organizou o PDT. Brizo-
Temperamental e la se elegeria governador do Rio
polêmico, teve duas vezes, a primeira em 1982.
grandes papéis em Em 1989, saiu candidato à Presi-
grandes filmes, dência da República, mas ficou
mas o fim de sua em terceiro lugar. Desde então,
vida foi difícil, mar- viu seu cacife eleitoral e influên-
cado por tragédias cia minguarem. Morreu no Rio
familiares em 21 de junho, de enfarte.

SALK INSTITUTE–19/2/2003 NIR ELIAS/REUTERS–29/7/2003 JEFF CHRISTENSEN/REUTERS REUTERS

O cientis-
●●● FRANCIS H. C. CRICK – julho. Foi co-descobridor da ●●● CHRISTOPHER REEVE – O últi- ●●● RAY CHARLES – “The Ge-
ta inglês morreu aos 88 com estrutura do DNA e lançou os mo vôo do Superman foi em 10 nius”, pai da soul music, partiu
câncer, em San Diego, em 28 de pilares da biologia molecular de outubro, NY, aos 52 anos em 10 de junho aos 73 anos

TASSO MARCELO/AE–16/08/2004 MAURILO CLARETO/AE–26/6/99 CARLOS CHICARINO/AE–4/11/94 CHARLES PLATIAU/REUTERS

●●● RONALD REAGAN – O ex-presi- cessiva de impostos e aos dois


dente, ator medíocre e político grandes desastres dos EUA nos
subestimado, que desencadeou anos 70, Watergate e a derrota
em 1980 a revolução conserva- na guerra do Vietnã, no ano se-
dora ainda em curso nos EUA e guinte, Reagan tinha se despedi-
●●● JACQUES DERRIDA – A mor- ●●● SUSAN SONTAG – A arte de ●●● FERNANDO SABINO – Marcou ●●● CARTIER-BRESSON – O mes- ganhou a Guerra Fria, derrotan- do dos americanos dez anos
te do filósofo francês, aos 74 polemizar perdeu, em 28 de seu último encontro em 11 de tre da Leica morreu em 2 de do o império soviético, morreu antes, com uma carta na qual
anos, foi em 8 de outubro. Teó- dezembro, a festejada ensaísta. outubro, véspera de seus 81 agosto, pouco antes de chegar aos 93 anos, em 5 de junho, em anunciou que enfrentava os está-
rico da desconstrução, negou Sempre atacada, soube manter anos. Deixou o epitáfio: “Nas- aos 96 anos. Registrou ima- sua casa na Califórnia. Líder da gios iniciais do mal de Alzhei-
até o fim a verdade absoluta sua independência ideológica ceu homem, morreu menino.” gens que serão ícones eternos reação de direita à cobrança ex- mer, causa de sua morte

FATOS DO ANo

São Paulo, e de Raul Pont em Por- leezza Rice, para o posto de se- à casa dos 402 pontos, menor claras para proteger credores de gigantes) na Ásia. De até 10 me-
to Alegre, onde a eleição de José cretária de Estado, na vaga aber- patamar desde a crise asiática, empresas insolventes. tros de altura, elas varreram o lito-
Fogaça (PPS) põe fim a 16 anos ta pela renúncia de Colin Powell. em outubro de 1997. 17 – Libertada em São Paulo Mari- ral da Índia, Sri Lanka, Indonésia,
de domínio petista. – Cássio Casseb deixa presidên- 5 – O atacante brasileiro Cristiano na Silva de Souza, de 44 anos, Tailândia, Malásia e Ilhas Maldi-
cia do Banco do Brasil. de Lima Júnior, de 25 anos, morre mãe do atacante Robinho, do vas. Autoridades estimam que o
NOVEMBRO 17 – Reforma do Judiciário passa durante a final da Copa da Índia, Santos, depois de 41 dias de se- número de mortes deve superar a
3 – George W. Bush consegue a no Senado em segundo turno, disputada em Bangalore. qüestro e do pagamento de resga- casa dos 100 mil.
reeleição. O republicano bateu o após quase 13 anos de tramita- 8 – Governo consegue aprovar te de R$ 200 mil. 27 – O líder da oposição, Viktor
democrata John Kerry numa das ção. Entre as medidas aprovadas no Senado MP que dá status de 19 – Santos bate o Vasco por 2 a Yushchenko, vence o segundo
mais acirradas disputas pela Casa está o controle externo do Judiciá- ministro ao presidente do BC, 1 e conquista o Campeonato Bra- turno da eleição na Ucrânia.
Branca em décadas e com a maior rio e do Ministério Público. Henrique Meirelles, e seus ante- sileiro. Grêmio, Guarani, Criciúma – Depois de um ano e meio de
votação popular já alcançada por 18 – Lula demite da presidência do nados por grupo armado que in- cessores. Com isso, processos e Vitória são rebaixados. funcionamento, a CPI do Banesta-
um candidato à Presidência dos BNDES o economista Carlos Lessa, vadiu o acampamento Terra Pro- abertos contra eles só podem ser 22 – Em 24 horas, Senado e Câ- do termina sem votação de relató-
EUA – perto de 59 milhões de votos. expoente da ala nacionalista do gover- metida, em Felisburgo (MG). julgados no Supremo. mara aprovam projeto que institui rio que pedia o indiciamento de
4 – José Viegas deixa o cargo de no, substituindo-o pelo ministro do 30 – Justiça Federal acolhe de- 9 – Suprema Corte do Canadá de- a parceria público privada. As 91 pessoas. A CPI investigou
ministro da Defesa e Lula nomeia Planejamento, Guido Mantega. núncia do Ministério Público con- cide que o casamento entre ho- PPPs são o principal trunfo do uma esquema de lavagem de di-
o vice, José Alencar. – Médicos e pesquisadores do Hos- tra o ex-prefeito Paulo Maluf (fo- mossexuais é constitucional e po- governo para garantir investimen- nheiro por meio do qual deixaram
5 – Rússia adere ao Protocolo de pital Pró-Cardíaco e da Universidade to) e parentes, acusados de lava- de ser permitido em todo o país. tos em infra-estrutura no País. o País US$ 30 bilhões.
Kyoto. Federal do Rio de Janeiro realizam o gem de dinheiro, evasão de divi- 12 – Ala oposicionista do PMDB 26 – Tremor de 8,9 graus na esca- 29 – Morre em Araraquara, aos
12 – BC decreta intervenção no primeiro transplante do mundo de sas e formação de quadrilha. aprova em convenção rompimen- la Richter – o mais intenso em 40 78 anos, o empresário José Cutra-
Banco Santos. células-tronco adultas numa vítima DEZEMBRO to com governo Lula. anos –, com epicentro na costa le, o “Rei da Laranja”.
16 – Bush nomeia a conselheira de acidente vascular cerebral. 14 – Congresso aprova nova Lei oeste da Ilha de Sumatra, causa – Técnico Vanderlei Luxemburgo
de Segurança Nacional, Condo- 20 – Cinco sem-terra são assassi- 1 – Risco Brasil cai 2,43% e volta de Falências, com regras mais uma série de tsunamis (ondas anuncia ida para o Real Madrid.
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SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2004 ● O ESTADO DE S.PAULO

TRAVESSIA ‘04/05

Bush escreveu ‘Código Da Vinci’


Fenômeno editorial do ano tem tanta informação errada quanto os relatórios sobre armas no Iraque
JEAN AYISSI/AFP–2/5/2004

PIRÂMIDE DO LOUVRE – Ao contrário do que diz Brown, estrutura não tem 666 placas de vidro, por ordem de Mitterrand, mas 673; e quadro de Caravaggio, que personagem tira facilmente da parede, pesa quase 100 kg

Mario Sergio Conti* carregados do caso. Nesse aspec- suprimiu as mulheres da hierar- a operação. A neta de Saunière, So- O acúmulo de equívocos permi- em seitas semi-secretas como a Al-
to, O Código Da Vinci funciona quia vaticana e as colocou numa phie, ameaça rasgar o quadro A te a conclusão que Dan Brown Qaeda saudita, o Hamas palesti-
O romance do ano não trata de po- como uma máquina. O enredo é jo- posição subalterna no rebanho de Virgem dos Rochedos pressionan- não “errou”. Ele falsificou delibe- no, ou o Hizbollah libanês. Já o
lítica, economia, miséria, guerra gado para a frente o tempo todo, e fiéis. Contra essa conspiração do o joelho contra o verso da tela. radamente a realidade. Fez isso pa- Vaticano dá apoio tácito à Casa
ou devastação ecológica. Tam- prende o leitor. Mas quem diz má- triunfante se ergue a pequena e te- Ótimo. Só que o quadro foi pinta- ra mostrar que a interpretação da Branca e faz oposição retórica à
bém não há nele sinal das figuras quina também diz mecânico: o li- naz conspiração de organizações do por Leonardo da Vinci sobre realidade é mais importante que a ocupação do Iraque.
que marcam a vida contemporâ- vro tem muito de soluções manja- secretas que detêm a verdade últi- madeira, o que faria com que So- própria realidade. O núcleo ideoló- Tal como apresentada em O Có-
nea: congestionamentos, celebrida- das, de coincidências abusivas. ma de Cristo, o Santo Graal: que phie tivesse luxado o joelho ao ten- gico de O Código é esse: a realida- digo, a Igreja Católica não tem a di-
des, catástrofes, pornografia, polui- Brown tem horror a nuances. Jesus casou com Maria Madalena tar dobrá-lo. Brown diz que o pre- de deve ser manipulada simbolica- nâmica destrutiva dos fundamenta-
ção, multidões, escândalos, epide- Segundo: a descrição de institui- e deu origem a uma linhagem que, sidente Mitterrand determinou ex- mente, por meio da interpretação, listas evangélicos, muçulmanos e
mias, violência. E quem procurar ções pouco conhecidas, recurso protegida por seitas secretas, per- pressamente que a pirâmide de vi- para se obter mais poder. Bem-vin- judaicos. Ela é uma burocracia adi-
no romance os assuntos onipresen- utilizado à náusea por Arthur Hai- dura até hoje. dro na entrada do museu tivesse do ao misticismo do real. posa, controlada por cardeais fossi-
tes da literatura comercial não en- ley em Hospital e Aeroporto, e por Tanto a conspiração como a exatas 666 placas de vidro, para É um núcleo ideológico forte e lizados e um papa sinistramente
contrará nada. Tom Clancy na sua série sobre a contraconspiração se dão no plano aludir a um número demoníaco. A atual. O que Dan Brown faz em O ausente. A Igreja de Brown não ad-
Nada dos arroubos lascivos de CIA. Nessa linha, O Código se simbólico. É um vale-tudo. Signos pirâmide tem 673 placas. Código Da Vinci mimetiza o que mite misticismo nem crê em misté-
Judith Krantz. Nem sinal das pai- propõe a explicar como funcio- astrológicos, pirâmides egípcias, Ao descrever as peripécias de George W. Bush fez para invadir rios inefáveis. Não tem fé, é uma
xões transbordantes de Barbara nam tanto um museu, o Louvre, cartas de tarô, telas renascentistas, Robert Langdon em Paris, Brown o Iraque: substituir a realidade por instituição poderosa em si mesma.
Cartland. Nada de sagas familia- como uma prelazia do Vaticano, a códigos medievais, equações algé- comete em média dois erros por interpretações de informações for- Quer se perpetuar enquanto tal, e
res como a dos Catadores de Con- Opus Dei, e um departamento de bricas, anagramas cabalísticos, ri- página. É inverossímil que Lang- necidas por especialistas em con- para tanto preserva das vistas dos
chas, de Rosamund Pilcher. Da investigação criminal, a Polícia Ju- tuais bárbaros, seqüências numéri- don, um professor universitário, se tra-informação. Um parte de da- fiéis o seu pecado original, o ocul-
exaltação da tecnologia de destrui- diciária francesa. cas – tudo pode significar algo e o hospede no Ritz. O Ritz é um ho- dos da arquitetura, das obras de ar- tamento do feminino. Brown só
ção em massa de Tom Clancy. Da Terceiro: a erudição histórico- seu contrário. Essa mistura alopra- tel para xeques árabes, senadores te e da história do catolicismo para preserva uma facção do catolicis-
alquimia de misticismo com auto- religiosa. Brown relata episódios da lembra um desfile de escola de maranhenses, roqueiros ingleses, adulterá-los e produzir uma merca- mo da pasmaceira paralisante, a
ajuda de Paulo Coelho. Da recons- da história do catolicismo, seus cis- samba, no qual pequenos adereços executivos da Globo. Só milioná- doria literária. O outro usou o pa- Opus Dei, não por acaso uma das
tituição histórica do Umberto Eco mas e heresias, até a presente codi- adquirem significados babilôni- rios podem pagar mais de mil pelório da CIA para inventar um mais conservadoras e articuladas.
de O Nome da Rosa. Da iniciação ficação canônica, e os imbrica cos, mas no fim o que resta, mes- reais por noite. O trajeto do carro Saddam Hussein cheio de armas Como a Opus Dei, Dan Brown
feminina ao cosmopolitismo do com suas representações artísticas mo, é o rufar repetido da bateria e que leva Langdon do Ritz ao Lou- de destruição em massa, que lhe tem horror a sexo. Não há um bei-
Diário de Bridget Jones. Nada dos e arquitetônicas. Há, nesse aspec- rimas pobres, terminadas em “ão”. vre não pode ser feito na vida real. serviu de pretexto para ocupar o jo em O Código Da Vinci. A úni-
reinos fantásticos de Marion Zim- Houve muxoxos dos eruditos É impossível contemplar do Arco ca cena de sexo é apenas insinua-
mer Bradley ou dos mundos futu- em simbologia das religiões con- do Carrossel, simultaneamente, o da. Ela é tão repulsiva que por
ros de Isaac Asimov. BROWN PRATICA tra as interpretações abusivas fei- Museu d’Orsay, o Jeu de Paume, ESCRITOR DESCREVE causa dela uma moça de 22 anos
E no entanto O Código Da Vin- UM REALISMO tas em O Código. São críticas o Arco do Triunfo e a Igreja de Sa- IGREJA NA QUAL SÓ A rompe para sempre com seu úni-
ci foi o livro mais vendido do ano sem fundamento, ao menos para cre Coeur. Também não dá para ir co parente, o avô, que cuidara de-
em dezenas de países. É entrar PECULIAR: O os iluministas, essa gente démodé do Louvre à embaixada americana OPUS DEI SE SALVA la desde a infância.
num aeroporto em São Paulo ou REALISMO DO ERRO que, por se guiar pela racionalida- pelo caminho descrito pelo autor. DA PASMACEIRA Conservador é também o femi-
Paris e logo se topa com alguém de, parte de dois pressupostos ób- Brown escreve que a igreja de nismo de Brown, que reserva o
lendo o romance de Dan Brown. vios. Primeiro, que o Jesus divino Saint-Sulpice é semelhante e foi mesmo papel secundário das mu-
Na última contagem, foram mais to, semelhanças entre Código e O não existiu, pelo bom motivo que construída com a mesma concep- Iraque. Segredos inexistentes fo- lheres na Igreja às seitas que lhe
de 20 milhões de exemplares ven- Nome da Rosa. Semelhanças su- é impossível andar sobre as ção arquitetônica da catedral de ram revelados para justificar dão combate. E mais que conserva-
didos ao redor do planeta. E, o que perficiais. O romance de Eco se águas, transformar água em vi- Notre Dame de Paris. Ora, Saint- ações que visaram o poder políti- dor, abertamente regressivo, infan-
é mais espantoso, dois livros que passa na própria Idade Média, que nho, ressuscitar os mortos, etc. E, Sulpice é renascentista e Notre Da- co e econômico, no caso de Bush, tilóide mesmo, é o caudal de chara-
comentam o romance foram por é recriada com empenho e verve. segundo, porque a ficção é justa- me, gótica. Elas são tão parecidas e o enriquecimento comercial, no das carolas, de palavras cruzadas
ele arrastados para a outra lista dos O de Brown se passa na atualida- mente o terreno da invenção. Na quanto a Catedral da Sé e a Igreja de Brown. pias, de caça ao tesouro de acampa-
mais vendidos, de não-ficção. de, e a história da Igreja Católica é ficção, inclusive na realista, não de São Gabriel, em São Paulo. Irri- No romance, a política é substi- mento de coroinhas, de torneios
É fácil menosprezar os roman- contada por meio de prosa rasa e há nada de mais em que o Nazare- tados, os curas de Saint-Sulpice afi- tuída pela religião. Mas não pelas de missal e subcultura de catecis-
ces comerciais dizendo que eles re- diálogos prolixos. no case com Madalena. xaram um cartaz para explicar religiões que mais crescem e têm mo que empurram a trama simpló-
petem fórmulas. Fácil e errado. Se Como esses três recursos são as- É por meio do realismo que o que, “ao contrário de alegações maior peso político, a muçulmana ria e criminal de O Código.
houvesse receitas, todos escreve- tutamente comprimidos no tempo autor se aproxima do tema da atua- fantasiosas de um recente roman- e a evangélica. Ou mesmo pela ju- É com a mesma cara-de-pau
ríamos supersucessos e estaríamos da narrativa, a velocidade surge co- lidade que dá dinamismo ao ro- ce de sucesso”, o P e o S nos vi- daica, que, materializada no Esta- contrita com que Bush jurou que o
no bem-bom, hospedados no Ho- mo a maior força técnica de O Có- mance. Na abertura do livro, faz trais do transepto não querem di- do de Israel, é foco de todos os Iraque tinha armas de destruição
tel Ritz. Para um romance se tor- digo Da Vinci. O romance se pas- sua profissão de fé na reprodução zer Priorado do Sião (uma socieda- conflitos no Oriente Médio e adja- em massa que Brown sustenta que
nar um fenômeno mundial, ele pre- sa em menos de 24 horas, o que fiel do real: “Todas as descrições de secreta), mas se referem a dois cências há mais de meio século. A na Última Ceia, de Leonardo, é
cisa reciclar recursos populares lhe confere uma potência vertigi- de obras de arte, arquitetura, docu- santos, Pedro e Sulpice, padroei- religião flagrada em O Código Da uma mulher que está à direita de
consagrados. Mas necessita mais nosa: não há tempo para pausas, re- mentos e rituais secretos neste ro- ros da igreja. Os padres esclare- Vinci é a mais centralizada e está- Jesus, e não o apóstolo João. Os es-
que isso: ele tem que lidar com um flexão, ponderação, aprofunda- mance correspondem à realida- cem também que a igreja nunca vel: a católica. tratagemas mentais e a visão de
tema forte da atualidade. mento. A ação veloz derruba tudo. de.” Já no corpo do livro ele culti- foi um templo dedicado a Isis, di- O governo Bush tem algo de mundo de Brown e Bush são os
Os recursos reciclados por Dan Não é, pois, na técnica literária va um realismo peculiar, o realis- vindade egípcia. A linha rosa, de conspiração, de seita evangélica mesmos. Tanto que quem deduzir
Brown são de três ordens, e todas que se encontrará explicação para mo do erro. metal, que corta o chão, também radical. Um presidente crente se o número Phi da seqüência Fibo-
têm como primado o realismo. Pri- o sucesso do romance de Dan Bro- Como amostra, eis uma seleta está em desacordo com o meridia- cercou de ideólogos fanáticos, dis- nacci da leitura de trás para a fren-
meiro, a literatura policial e de sus- wn. A explicação se encontra no de erros em relação ao Louvre. A no descrito por Brown – e com postos a reconfigurar o mundo pa- te da tradução para o latim do ro-
pense: a trama começa com um as- material romanesco, no assunto planta do museu, onde ocorre o as- qualquer meridiano. E jamais Pa- ra espalhar a boa nova do capitalis- mance de Dan Brown descobrirá
sassinato e termina com a sua elu- do livro, que pode ser resumido a sassinato do curador Jacques Sau- ris sediou a linha de longitude ze- mo hiperfinanceiro, turbinado por o verdadeiro pentagrama do
cidação, e a ela são agregadas sub- uma palavra: conspiração. O códi- nière, não é a que existe na realida- ro. Em contrapartida, o livro não petrodólares. Esse pugilo de evan- Graal: Bush é o autor de O Código
tramas paralelas focalizando o as- go sustenta que o catolicismo é de. O quadro de Caravaggio, que tem nada a dizer sobre o maior gélicos enfrentou a oposição mili- Da Vinci.●
sassino, o mandante do crime, o produto de uma conspiração siste- ele tira facilmente da parede, pesa atrativo artístico de Saint-Sulpice, tante ou terrorista de setores radi-
suspeito inocente e os policiais en- mática que, ao longo dos séculos, quase 100 quilos, o que inviabiliza as pinturas de Delacroix. cais do islamismo, organizadas * Mario Sergio Conti é jornalista