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Análise das causas da baixa penetração do microcrédito no Brasil

Análise das causas da baixa penetração do microcrédito no Brasil

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No Brasil, em 2002, em meio a um grande debate, apontava-se uma demanda de microcrédito de cerca de de 8,2 milhões de microempreendimentos, com acesso restrito ou sem acesso ao setor bancário. As Instituições Microfinanceiras (IMF), que tem como objetivo o fornecimento de crédito e de outros serviços financeiros, conseguiam obter somente 2% de penetração da demanda potencial estimada. Embora se apontasse uma conjuntura promissora para o desenvolvimento das microfinanças no Brasil, o que se revelou foram dificuldades de se estabelecer experiências bem sucedidas que indicassem mecanismos e práticas que resultassem numa maior cobertura. Por quê? Confira o texto e veja as respostas.
No Brasil, em 2002, em meio a um grande debate, apontava-se uma demanda de microcrédito de cerca de de 8,2 milhões de microempreendimentos, com acesso restrito ou sem acesso ao setor bancário. As Instituições Microfinanceiras (IMF), que tem como objetivo o fornecimento de crédito e de outros serviços financeiros, conseguiam obter somente 2% de penetração da demanda potencial estimada. Embora se apontasse uma conjuntura promissora para o desenvolvimento das microfinanças no Brasil, o que se revelou foram dificuldades de se estabelecer experiências bem sucedidas que indicassem mecanismos e práticas que resultassem numa maior cobertura. Por quê? Confira o texto e veja as respostas.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA MONOGRAFIA DE BACHARELADO

ANÁLISE DAS CAUSAS DA BAIXA PENETRAÇÃO DO MICROCRÉDITO NO BRASIL: UMA PROPOSTA EXPLICATIVA

ALEXANDER HERZOG CARDOSO matrícula nº: 097235599

ORIENTADOR(A): Prof. René Louis de Carvalho

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA MONOGRAFIA DE BACHARELADO

ANÁLISE DAS CAUSAS DA BAIXA PENETRAÇÃO DO MICROCRÉDITO NO BRASIL: UMA PROPOSTA EXPLICATIVA

__________________________________

ALEXANDER HERZOG CARDOSO matrícula nº: 097235599

ORIENTADOR(A): Prof. René Louis de Carvalho

MARÇO DE 2003

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As opiniões expressas neste trabalho são de exclusiva responsabilidade do(a) autor(a) 3

Dedico este trabalho a DEUS, cuja presença ocupou todos os meus espaços da existência, e aos meus pais e irmãos que são parte importante de minha esperança.

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AGRADECIMENTOS
Agradeço a DEUS, pois em várias ocasiões de minha vida senti sua intervenção benéfica, e ao Prof° René Louis de Carvalho, cuja paciência "bíblica" e espírito humano, permitiram sentir-me livre, isto é, pensar, ser responsável com o processo e buscar o rigor na elaboração das idéias. Agradeço também a Fagner Moura, cuja parceira se tornou em grande amizade e apreço pela sua pessoa por minha parte.

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RESUMO
O microcrédito é um importante instrumento na promoção de desenvolvimento, dentro do contexto maior das microfinanças, e objetiva fornecer crédito produtivo às camadas populares que desenvolvem atividades produtivas nos setores da indústria, comércio e serviços. Sua importância se expressa como elemento de combate as desigualdades e a pobreza, através uma proposta de financiamento da produção de microempreendedores de baixa renda, ou que possuem atividades que sobrevivem em estado de precariedade por não acessarem às vias tradicionais de financiamento. No Brasil, aponta-se que há uma demanda potencial de 8,2 milhões de microempreendimentos, com acesso restrito ou sem acesso ao setor bancário. As IMF's, que tem como objetivo o fornecimento de crédito e de outros serviços financeiros, conseguem obter somente 2% de penetração da demanda potencial estimada. Embora se aponte uma conjuntura promissora para o desenvolvimento das microfinanças no Brasil, o que se revela são dificuldades de se estabelecer experiências bem sucedidas que indiquem mecanismos e prática que resultem numa maior cobertura. O estudo das publicações sobre o assunto mostra que em grande parte as IMF's estão "fracas", isto é, funcionam com baixa escala de clientes e não conseguem funcionar com recursos gerados próprios, são dependentes de subsídios. Para explicar o fato, a literatura coloca cinco causas como as mais prováveis para explicar esse paradoxo entre um, aparente, quadro promissor e a demanda efetiva considerada muito baixa. Diante do fato da baixa penetração e das aparentes condições promissoras para o desenvolvimento do setor de microfinanças no Brasil, com ampla cobertura de uma demanda potencial e que muitas vezes escolhe outras vias de financiamento de suas atividades produtivas, vamos buscar na literatura existente sobre o assunto analisar o quadro ofertante e demandante das microfinanças no Brasil, a fim de entender como as possíveis causas interferiram no processo de desenvolvimento do setor ao longo dos anos, e que peso mostram ter no fato.

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SÍMBOLOS, ABREVIATURAS, SIGLAS E CONVENÇÕES

BNDES BDMG PDI-BNDES CUT DESEP-CUT CPP ONG SCM OSCIP PIB IBAM IMF SEBRAE MPE IETS

Banco nacional de desenvolvimento Econômico e Social Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais Programa de Desenvolvimento Institucional do BNDES Central Única dos Trabalhadores Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos da CUT Crédito Produtivo Popular Organização Não Governamental Sociedade de Crédito ao Microempreendedor Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Produto Interno Bruto Instituto Brasileiro de Administração Municipal Instituição Microfinanceira Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Micro e Pequenas Empresas Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO.........................................................................................................................................................................9 CAPÍTULO I - O MICROCRÉDITO E O BRASIL............................................................................................................11

I.1.1- O QUE É MICROCRÉDITO................................................................................................................. 11 I.1.2 - Seus caracteres fundamentais................................................................................................................. 12 I.1.3 Seus objetivos........................................................................................................................................... 15 I1.4 A quem se destina...................................................................................................................................... 17 I.1.5 Microconclusão ........................................................................................................................................ 19 I.2. QUAIS SÃO AS INSTITUIÇÕES E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS .................................. 20 I.2.1 Bases Institucionais do Microcrédito ....................................................................................................... 20 I.22 Tipos de Instituições de MIcrofinanceiras................................................................................................. 22 I.2.2.1Instituições financeiras quanto a sua formalidade .................................................................................. 22 I.2.2.2 Aleternativas Institucionais ................................................................................................................... 23 I.2.2.2.1 Instituições de "Retaguarda" .............................................................................................................. 24 I.2.2.2.2 Instituições de "Vanguarda" ............................................................................................................... 24 I.2.2.2.3 Instituições da Sociedade Civil........................................................................................................... 25 I.2.2.2.4 Instituições do Poder Público ............................................................................................................. 28 I.2.2.2.5 Instituições da Iniciativa Privada........................................................................................................ 29 I.2.2.3 As características minimalista e integrada............................................................................................. 31 I.2.2.4 Microconclusão ..................................................................................................................................... 33 I..3 ANÁLISE GEOQUANTITATIVA............................................................................................................ 34 I.3.1 Distribuição regional ................................................................................................................................ 35 I.3.2 Microconclusão ........................................................................................................................................ 44
CAPÍTULO II - AS CARACTERÍSTICAS DA DEMANDA...............................................................................................45

II.1 - AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS NO BRASIL .......................................................................... .45 II.1.1 - Microconclusão..................................................................................................................................... 47 II.2 - A DEMANDA QUANTIFICADA........................................................................................................... 48 II.2.1 - A metodologia utilizada........................................................................................................................ 49 II..2.2 - Os resultados obtidos .......................................................................................................................... .50 II..2.3 - Setor informal: ênfase no trabalho ...................................................................................................... .52 II.2.3.1 - Setor informal: discussão qualitativa ................................................................................................ .53 II.2.3.2 - Setor informal: discussão quantitativa .............................................................................................. .54 II.2.4 - O traço social da demanda: um conceito de pobreza e a situação dos microempreendimentos........... .59 II.2.4.1 - A necessidade por serviços financeiros: para onde aponta a demanda ............................................. .63 II.2.5 - Microconclusão.................................................................................................................................... .66
CAPÍTULO III - BAIXA PENETRAÇÃO: CAUSAS E NATUREZA................................................................................70

II.1 - A PENETRAÇÃO DO MICROCRÉDITO NO BRASIL ............................................................................... .71 II.1.1 - Comparação com o microcrédito em alguns páises da América Latina............................................... .72 II.1.2 - Que serviços financeiros são utilizados ................................................................................................ 74 II.1.3 - Microconclusão.................................................................................................................................... .80 II.2 - AS CAUSAS DA BAIXA PENETRAÇÃO: UMA ANÁLISE CRÍTICA ........................................................ .81 II..2.1 - Os argumentos mais aceitos................................................................................................................ .84 II.2.1.2 - Microconclusão: Uma análise crítica das causas .............................................................................. .95
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................................. ..........108 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................................................... ..........113

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I - INTRODUÇÃO
O microcrédito é instrumento financeiro (empréstimo) concedido em valor restrito a pequenos empreendedores informais e microempresas com restrições ou impossibilidades de acesso ao sistema financeiro tradicional. Esse crédito é caracteristicamente voltado a implantação, modernização, ampliação e/ou diversificação de atividade capazes de gerar ou manter negócios e atividades produtivos (emprego e renda), e é normalmente denominado de crédito produtivo popular (CPP). No Brasil o microcrédito é apontado como a semente das microfinanças, dado que é o serviço financeiro predominantemente utilizado entre as IMF's brasileiras. Segundo o BNDES, no Brasil há 122 instituições operando no país com microcrédito, as IMF's, com o total de 158.654 clientes ativos e um volume de carteira de mais de R$ 138 milhões. Regionalmente, a distribuição das instituições de microfinanças (IMF's) se dá com 42% do total no Sudeste, 26% no sul, 23% no Nordeste, 7% no Centro-Oeste e 2% no Norte. O número de clientes ativos concentra-se no Nordeste com 74% do total no Brasil, seguido de 11% no Sudeste, 9% no Sul, 6% no Centro-Oeste e 0,4% no Norte. O Nordeste ainda concentra 50% da carteira ativa total do país, seguida do Sudeste com 21%, Sul com 20%, 8% no Centro-Oeste e 1% no Norte. Os dados mostram ainda que o Nordeste tenha o menor valor per capta de empréstimo, com cerca de R$ 598. No Sul o empréstimo per capta é de R$ 2010, sendo a maior média do Brasil. O debate sobre a importância do microcrédito centra-se em medidas que se utilizem deste instrumento como combate à pobreza. Em economias às voltas com a pobreza, percebeu-se que havia, de um lado, as necessidades de crédito para dar suporte ao aparato produtivo do empreendedorismo presente entre os pobres e, de outro, um modo operacional do sistema tradicional bancário incapaz de suprir essa demanda. Nesse extrato da economia, é possível enxergar um grande número de atividades de pequeno porte, com baixos requisitos de capital, tecnologia e qualificação de mão-de-obra, que nessas condições agregam valor à economia e são boas oportunidades de investimento. O microcrédito não é uma solução para todos os males da pobreza, mas pode ser uma alternativa eficaz no combate à pobreza. Em um país como o Brasil que aparenta ter boas condições para o desenvolvimento do sistema de microfinanças, particularmente o microcrédito. Existe uma grande demanda 9

potencial, um sistema bancário que tem ignorado a necessidade dos microempreendimentos e instituições com experiência em microfinanciamento. Porém, embora haja uma conjuntura promissora para o setor, a taxa de penetração da indústria de microfinanças no Brasil é baixa, estando em 2% da demanda potencial. É uma questão que carece de respostas. Este estudo tem como objetivo analisar as possíveis causas da baixa penetração dos programas de microcrédito, destacando o fato de que o setor de microfinanças, principalmente o microcrédito, encontrar-se pouco desenvolvido, apesar de haver condições propícias um maior aprofundamento entre a oferta e a demanda potencial. As causas mais pertinentes que se comenta na literatura são: o contexto macroeconômico anterior (inflação), a existente tradição do crédito dirigido no país, a estrutura jurídica para o setor e as condições "frágeis" com que se encontram as instituições de microcrédito. O primeiro capítulo tratará da oferta, definindo o objeto de estudo, o microcrédito, apresentando uma classificação institucional quantos às iniciativas de intervenção com este serviço financeiro, e uma análise da distribuição geográfica dos recursos atualmente movimentados pelas IMF's e efetivados frente ao público demandante. O segundo capítulo tratará da demanda de microcrédito, ressaltando o contexto econômico e social onde se encontra predominantemente insertos os microempreendimentos. Serão apresentadas as metodologias de estimação, as características do estrato econômico em que está inserida a demanda potencial, a informalidade e formalidade das microempresas e microempreendimentos, as condições operacionais de suas atividades produtivas, e o que representam em termos de movimentação de renda para o país. No terceiro capítulo discutiremos as causas da baixa penetração das IMF's e analisaremos a importância dessas causas para o atual quadro das microfinanças no Brasil. Devemos observar que este trabalho se fundamenta na literatura publicada sobre o assunto, é uma resenha bibliográfica, e que o debate sobre o tema desenvolvido no Brasil, atualmente, é recente, carece de estudos mais aprofundados, tanto do quadro ofertante quanto das características da demanda, que dê respaldo empírico e conhecimento suficiente para que se busquem razões mais científicas sobre o atual quadro das microfinanças brasileiras. É uma análise que se propõe a aprofundar a discussão sobre as causas do baixo nível de penetração das microfinanças.

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CAPÍTULO I - O MICROCRÉDITO E O BRASIL
No Brasil, as IMF's oferecem basicamente microcrédito, onde este instrumento de financiamento é visto como a "semente" do setor de microfinanças. Portanto, ao utilizarmos o termo microfinanças em relação ao Brasil, estaremos nos remetendo ao microcrédito, porém microfinanças encerra num contexto mais amplo de serviços financeiros, que entre outros, estão a poupança e o seguro. A dimensão das microfinanças no Brasil é pequena (R$ 138,8 milhões), se comparado, por exemplo, com o montante movimentado de crédito pessoal no valor total de R$ 60 bilhões, em 2001 (segundo os dados do mercado geral de crédito pessoal, não imobiliário, do Boletim do Banco Central do Brasil, de julho de 2002). Vamos apresentar, neste capítulo, a definição do microcrédito dentro do que ele é, o quadro institucional de acordo com as diferenças de objetivo de cada IMF e como se distribuem regionalmente os recursos, atualmente, movimentados por este setor. I.1 - O que é o microcrédito. O microcrédito é um instrumento financeiro (empréstimo) concedido em pequeno valor a pequenos empreendedores, formais e informais, e microempresas com restrições ou impossibilidades de acesso ao sistema financeiro tradicional. Esse crédito é

caracteristicamente voltado à implantação, a modernização, a ampliação e/ou diversificação de atividades capazes de gerar ou manter negócios e atividades produtivas (trabalho e renda), e é normalmente denominado de crédito produtivo popular (CPP). No sentido estrito, o microcrédito é o crédito produtivo concedido em determinada faixa de valores que variam R$ 100,00 até R$ 10.000,00, geralmente, podendo chegar a valores superiores em casos especiais. O pagamento é efetuado no curtíssimo prazo, podendo ser renovado com valor crescente, sem que sua metodologia obedeça aos trâmites operacionais do sistema tradicional. Há o microcrédito em sentido mais amplo, em que o empréstimo também se volta para atividades produtivas, mas sua concessão fica condicionada à metodologia tradicional bancária, isto é, exigem-se garantias reais como base para análise e processo de sua aprovação e liberação. Seu valor máximo excede ao valor de crédito popular produtivo, chegando à R$ 50.000,00. Habitualmente o microcrédito é confundido com outros sistemas de atividades financeiras e conceitos mais abrangentes como as microfinanças. No entanto, segundo Joanna

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Ledgerwood (1999, p. 239, edição em inglês), "microfinanças é a provisão de serviços financeiros a clientes de baixa renda, incluindo aqueles trabalhadores por conta própria1. Em adição à intermediação financeira, algumas instituições de microfinanças também provêem a intermediação de serviços sociais, incluindo a ajuda na formação de grupos e no desenvolvimento da autoconfiança, da aprendizagem, do linguajar financeiro e outros serviços". Portanto, microfinanças é a prestação de serviços financeiros (crédito, poupança, seguros, etc.) através de bancos, financeiras, SCM's, cooperativas, ONG's e OSCIPS, para indivíduos e empresas excluídas do sistema financeiro tradicional, enquanto que microcrédito é a concessão de empréstimos de relativamente pequeno valor, para atividade produtiva, no contexto das microfinanças. Há outras formas de microfinanciamento que operam com crédito de pequeno valor, porém o objetivo é distinto do crédito produtivo popular. Um exemplo é o crédito popular, cujo conceito é mais abrangente que o de microcrédito, compreendendo outras formas de oferta de crédito para população de baixa renda e diferentes fins, além das contempladas pelo microcrédito, como habitação popular e crédito educativo, entre outros. O crédito pessoal e o crédito parcelado são créditos em escala micro, mas voltados para o consumo (empréstimo da financeira, troca de cheque, cartão de crédito, crediário da loja, etc.) e não tem o objetivo específico de fornecer dinheiro para composição e aquisição de ativos para movimentação produtiva. I.1.2 Seus caracteres fundamentais O microcrédito possui aspectos que o caracterizam com uma metodologia própria. Alguns são fundamentais e indicam o modo diferencial desse instrumento quanto a sua constituição e finalidade. Reflete, também, algum contraste com as características intrínsecas no modelo tradicional (a maximização dos lucros e a dissolução, ao menos parcial, dos riscos diante de garantia reais de pagamento). São comentadas, abaixo, essas características:

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Estes trabalhadores estão caracterizados por exclusão do sistema formal de fornecimento de crédito

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O crédito produtivo O microcrédito se destina a fomentar os microempreendimentos formais e informais geridos por pessoas de baixa renda2. É um crédito voltado para o investimento produtivo em unidades econômicas de pequeno porte, e não para bens de consumo. A ausência de garantias reais Essa característica foi incorporada ao microcrédito como a forma mais clara de um esforço de adequação da oferta ao caráter da população potencialmente demandante. O microempreendedor precisa elaborar um plano de negócios e especificar os ativos em que vai investir. Normalmente o indivíduo já possui experiência anterior com o que deseja trabalhar. É comum, no Brasil, utilizar o aval solidário3 ou de um avalista (ou fiador) que seja compatível com as exigências das instituições ofertantes como formas de mecanismos de minimização de riscos quanto à efetivação dos pagamentos. Crédito adequado ao ciclo de negócios O objetivo do microcrédito é adequar suas operações às necessidades futuras de financiamento e aos prazos de realização de receitas em relação aos tipos de negócios. Alguns elementos de operação são comuns às instituições: • Empréstimos de baixos valores. No Brasil a média está em torno de R$ 900,00. • Prazos de pagamento curtos. Normalmente mensal, mas há pagamentos semanais e quinzenais. • Caracterização como linha de crédito e possibilidades de renovação em valores crescentes (de acordo com o teto de cada instituição), conforme a assiduidade do tomador em relação aos pagamentos e responsabilidades com a instituição.

Vamos caracterizar como baixa renda a faixa de rendimento de 2 a 3 salários mínimos, de acordo com a medida apresentada em "Brusky, Bonnie e Fortuna, João Paulo. 2002 . Entendendo a Demanda para as Microfinancas no Brasil: um Estudo Qualitativo de Duas Cidades, PDI/BNDES", em relação às cidades Recife e São Paulo. 3 O aval solidário se constitui na formação de grupos de três a cinco pessoas, em geral, com pequenos negócios e necessidade de crédito. Normalmente há uma relação de confiança entre os integrantes do grupo, onde eles assumem as responsabilidades mutuamente pelo crédito tomado por todos os integrantes. Vide: Yunus, Muhammad. 2000. O Banqueiro dos Pobres.

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São medidas que visam estimular o tomador a cumprir seus prazos, podendo gozar do benefício de renovar o empréstimo e tomar valores maiores de acordo com sua capacidade de pagamento e com a política de crédito da instituição. Podem também disciplinar o tomador em relação à condução de seu negócio, quanto à gerência eficaz e a possibilidade de crescimento. Para a instituição microcreditícia, pode significar aumento da escala de operações e sustentabilidade. A orientação ao tomador Frente ao caráter informal do tomador, a sua formação sócio-cultural, ao valor reduzido do empréstimo e à ausência de garantias reais; as instituições de microcrédito requerem certas medidas específicas para o processo de concessão do crédito produtivo. O tomador pode ter receio de endividar-se ou desviar o empréstimo para outras finalidades que não as produtivas. Portanto, o crédito é concedido sob observação do agente de crédito4. O agente de crédito é o ator institucional responsável pelo elo entre o tomador do empréstimo e a instituição concedente. Ele dirige-se até o cliente e é responsável pelo acompanhamento do empreendedor, diagnosticando sua situação financeira e os aspectos gerenciais de seu negócio. Ele está envolvido em todo o processo. Do pedido ao recebimento do empréstimo, na aplicação do capital concedido, no andamento do negócio e nas amortizações da dívida. Não é responsável pelos pagamentos. Ele visa o êxito do negócio entre a instituição fornecedora e o tomador do empréstimo. O baixo custo de transação e o elevado custo operacional Os clientes atribuem dificuldades para se deixar o local de trabalho e levantar documentos necessários para apresentar garantias. Assim, pode ser custoso, do ponto de vista do demandante, realizar uma transação. Algumas condições são necessárias para baixar o custo de transação, como a proximidade entre a instituição e o local de trabalho dos clientes, a minimização de medidas burocráticas e a rapidez entre solicitação e liberação do crédito. Pelo lado da instituição, os custos para operar nessas condições não são baixos, dados a necessidade de acompanhamento dos clientes no local e os riscos de que os pagamentos dos empréstimos não se efetivem. Requer eficiência administrativa e taxas de juros apropriadas.

As funções e procedimentos dos agentes de crédito são, em síntese, entrevistar no local do negócio, diagnosticar a situação financeira do demandante e as condições de administração do negócio. Dimensiona a viabilidade do crédito a ser concedido. Vide: Bruett, Tillman. 2002. Técnicas de Gestão Microfinanceira, PDI/BNDES.

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Ação econômica com impacto social Há uma relação positiva entre o acesso continuado ao crédito e o fortalecimento econômico e financeiro dos empreendimentos5. Esse fato leva ao aumento da renda dos empreendedores e ao aumento do bem-estar de suas famílias. Os impactos irradiados no ambiente familiar se traduzem, muitas vezes, em melhoria na nutrição diária, aumento da escolaridade das crianças e das condições de moradia6. I.1.3 Seus objetivos Há duas discussões substanciais sobre os objetivos a que se propõe o microcrédito: em termos econômicos e sociais. Economicamente é um instrumento que visa o crescimento de unidades produtivas nos setores da indústria, comércio e serviços, inseridos em determinado estrato da economia, cuja principal característica é a baixa renda e exclusão do sistema financeiro tradicional, através do investimento e em pró da elevação da produtividade, da modernização, ampliação, diversificação e formalização dos microempreendimentos. Ao mesmo tempo em que se dirige às atividades produtivas desenvolvidas por empreendedores de baixa renda, ele se relaciona com um estrato social que está assinalado pela pobreza, ou baixo poder aquisitivo, com as funções de gerar oportunidades de trabalho e renda como uma forma de combatê-la. Ambos os aspectos contemplam a questão da sustentabilidade. Os objetivos do microcrédito divergem da visão sistêmica de moldes puramente mercadológicos, onde o lucro é a principal meta, e pretende o desenvolvimento das camadas sociais pouco favorecidas economicamente, através de um modelo apropriado de fornecimento de crédito7. Nessa perspectiva, o microcrédito é focado como instrumento de promoção do desenvolvimento de atividades produtivas e melhoria das condições de vida das pessoas de baixa renda. O microcrédito é uma forma de se combater a pobreza e desenvolver atividades microempreendedoras, na medida em que dispõe serviços financeiros e de apoio técnico gerencial, através das instituições ofertantes, às populações pobres e/ou que estejam na

Tem-se a idéia de que se há a continuidade na tomada de empréstimos, possivelmente há investimento no negócio para sua manutenção e/ou ampliação, aumentando seus ativos e possibilitando vias de fomento financeiro ao seu capital de giro. 6 Yunus, Muhammad. O Banqueiro dos Pobres. 2000. 7 Para saber os objetivos sociais previstos em lei, vide BRASIL. Lei Nº 9.790 de 23/03/99.

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iminência de se tornarem pobres8, aumentando suas oportunidades e possibilidades de melhoria da renda e da qualidade de vida. É um meio apropriado para dar impulso a "experimentação, não lucrativa, de novos modelos sócio-produtivos e de sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito"
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que sejam suficientemente adequados às características e necessidades das

populações de baixa renda. É facultar o estabelecimento de atividades capazes de gerar e/ou manter trabalho e renda, assim como seu aperfeiçoamento técnico, ampliação e diversificação, a fim de que se atinja a auto-sustentabilidade dessas pequenas economias10. Cria-se uma via, assim, para melhoria das condições de sobrevivência, auto-sustentabilidade, crescimento e formalização dos pequenos negócios11. Diante dos objetivos apresentados acima, pretende-se oferecer uma forma de investimento fixo para microunidades produtivas, ou negócios, e capacitação técnicogerencial aos empreendedores dessas microunidades. Estas medidas visam a redução de riscos associados ao negócio, assim como privilegiam seu crescimento e futura formalização12. O aumento das facilidades econômicas13, desde que os indivíduos tenham acesso aos recursos econômicos, através dos seus negócios, pode perfeitamente se constituir em oportunidades de melhorias das condições de vida, como acesso aos serviços de saúde e educação, e à aquisição de determinados bens de consumo. I.1.4 A quem se destina O microcrédito é um sistema de crédito diferenciado, compromissado com setores econômicos característicos de escassez de recursos e excluídos dos sistemas tradicionais de

Cabe aqui notar que o conceito de linha de pobreza é que faz o corte entre quem está na iminência de estar na pobreza e que se encontra nesta faixa. No entanto, para efeito de objetivar o combate à pobreza com o instrumento de microcrédito, deve-se escolher um indicador que seja mais adequado a cada análise, pois há várias formas para se definir pobreza em relação a um mínimo de renda (1/4 de salário mínimo mês, 1 salário mínimo/mês, etc) ou a um mínimo de atendimento de necessidades básicas. Para definições sobre linha de pobreza Vide: Lustosa et al. 1989. 9 Vide: BRASIL. Lei Nº 9.790 de 23/03/99, art. 3 alínea IX. 10 Sugere-se que o crédito apropriado às unidades produtivas de pequenas escala seja um elemento de importância para sua inserção competitiva na economia quando aplicado em melhoria do seu capital e em bases tecnológicas de forma suficiente para lhe garantir sustentabilidade e crescimento, com reflexo na geração de renda e emprego na economia. 11 Esse ponto objetivado através do instrumento de microcrédito visa o desenvolvimento dos pequenos negócios de forma escalonada, desde a fase incipinte até atingir condições de entrar e competir no mercado formal . 12 BRASIL. BNDES. Programa de Crédito Produtivo Popular. Rio de janeiro, 1996, pág. 3. Cartilha. 13 Com facilidades econômicas refiro-me às oportunidades que os indivíduos tem de utilizar recursos econômicos com propósito de consumo, produção e troca. Vide: Sem, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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crédito. O público a que se destina essa modalidade de financiamento é composto de indivíduos que exercem alguma atividade produtiva que gere renda familiar e, geralmente, são trabalhadores dispensados e/ou aqueles sem chances de serem absorvidos pelo mercado formal de trabalho. São os microempreendedores formais ou informais, individuais ou coletivos, situados nos meios urbanos e rural sem acesso ao sistema financeiro tradicional. Segundo o Programa de Desenvolvimento Institucional do BNDES, o número de microempreendimentos14 no Brasil é de cerca de 16,4 milhões. Deste total, cerca de 76% é composto de empresas informais, enquanto a parcela formal tem cerca de 24%. A evolução do número de microempreendimentos mostra que de 1998 até 2002, segundo a estimativa do PDI -BNDES, houve um incremento no total de mais de 15% (Gráfico 1), e que "os microempreendimentos estão crescendo a uma taxa de 3,7% ao ano"15, com uma população potencial demandante, de microempreendimentos, no Brasil de 8,2 milhões em 2002. O crescimento estimado das vias microempreendedoras indica o aumento da necessidade do desenvolvimento do setor de microfinanças, particularmente o de microcrédito, no país. No Brasil, considerando o conceito de microempresas (empresas com até 19 empregados no setor industrial com até 9 empregados nos setores de serviços e comércio, segundo o SEBRAE), observa-se que 90,7% do total de empresas são de ordem micro, sendo ainda responsável por 35% dos empregos16. O gráfico 1 refere-se ao total de microempreendedores estimados pelo PDI-BNDES, cujo conceito se restringe a empresas com 5 empregados, ou eventualmente 10 empegados17, e o seu crescimento entre 1998 e 2002.

O conceito de microempreendimento considera o empreendimento com até 5 empregados. Essa concepção e os dados se aproximam com a nota nº 13. 15 Nichter et al. “Entendendo as microfinanças no contexto brasileiro”, 2002. Este ponto será discutido no Capítulo II. 16 Schonberger. Microfinance Prospective in Brazil. 2001. vide: Capítulo II desta monografia. 17 Nichter et al. 2002. Pág 29.

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Gráfico 1:
Microempreendimentos no Brasil, formais e informais (1998-2002) 18 16 14 12 Total (milhões) 10 8 6 4 2 0
1998 1999 2000(Est.) 2001(Est.) 2002(Est.)

3,1

3,2

3,4

3,6

3,9

Formal Informal
11,1 11,4 11,8 12,2 12,5

Fonte: Adaptado de Nichter et al. “Entendendo as microfinanças no contexto brasileiro”, 2002.

Portanto, o microcrédito possui um universo de cerca de 17 milhões de microempreendimentos, dos quais 12,5 milhões são trabalhadores informais (4,3 milhões de pessoas ocupadas e 8,6 milhões trabalhando por conta própria), e que o setor informal movimenta cerca de 8% no PIB18. Muitas das pessoas, inseridas na informalidade, investem recursos de que não dispõe: assumem dívidas com agiotas, procuram ajuda entre amigos e parentes, ou procuram outras fontes; a fim de angariar recursos para capitalizar seus negócios. Há a intenção de que empreendendo uma atividade econômica qualquer, possa melhorar suas condições de vida, e de sua família, frente à ausência de oportunidades de emprego e renda no mercado formal de trabalho19. Elas não dispõem de conhecimento técnico e administrativo e recursos financeiros adequados ao desenvolvimento de seu negócio. Ao recorrerem ao setor tradicional de crédito, encontram várias barreiras operacionais que os impedem de conseguir um empréstimo, principalmente por não terem como oferecer garantias reais às instituições financeiras. Segundo o IBAM: "o trabalho de pesquisa junto às instituições operadoras de microcrédito revelou que este público chega a estas instituições com queixas sobre as dificuldades de se conseguir créditos oficiais, as taxas de juros

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Economia Informal Urbana – 1997 - Volume 4; Rio de Janeiro, 1999. 19 Segundo o SEBRAE 2002: "O setor informal, que também faz parte da complexidade da economia real, abriga maioria dos empreendedores brasileiros. Muitos estão nessa condição por motivo de sobrevivência. Outros, por estratégias fiscais. Mas há os que estão lá porque forma simplesmente excluídos dos mecanismos de acesso à economia formal".

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aplicadas, a burocracia que cerca o atendimento de concessão de crédito e as garantias exigidas." 21 Uma característica importante deste estrato econômico é a sua heterogeneidade. São diversificadas as atividades, os tamanhos de cada unidade produtiva e a forma como se estruturam. Atuam nos setores de indústria, comércio e serviços. A maioria das pessoas aprendeu de forma empírica alguma profissão, não dispondo de conhecimento sobre negócios. Isso pode se traduzir em surgimento de formas muito peculiares de lhe dar com a realidade econômica que cerca esses pequenos empreendimentos. I.1.5 Microconclusão. O microcrédito é um importante instrumento através do qual se pode gerar impactos em nível macroeconômico, microeconômico e institucional. No entanto, a sustentabilidade e a eficiência dos programas são objetivos fundamentais que tornam possíveis o sucesso e a expansão dessa prática. Em nível macroeconômico, o microcrédito pode contribuir para o crescimento econômico sustentável e eqüitativo. Institucionalmente, é uma partícula da estrutura financeira necessária para o desenvolvimento das vias produtivas locais, capaz de levar às camadas mais desfavorecidas as benesses do crescimento econômico. Com relação ao aspecto microeconômico, os sistemas de crédito produtivo popular criam oportunidades para a melhoria do bem-estar dos seus tomadores e propiciam melhor aproveitamento das oportunidades econômicas no nível das firmas e das economias externas geradas pelo desenvolvimento dos sistemas produtivos locais. Socialmente, quer dizer dar aparato financeiro a uma camada da sociedade que através de uma relação estrutural se encontra em condições de pouca mobilidade. Outro ponto importante é que os instrumentos de microfinanças, aliados ao microcrédito, compõem o aumento das possibilidades de mudança do status quo da sociedade, pois o elemento poupança e seguros são práticas pouco difundidas entre os indivíduos que se reproduzem economicamente nas camadas mais empobrecidas22, e pode significar maior consistência no crescimento do negócio e aumento de suas rendas.

IBAM. 2001. Relatório Final. A poupança, principalmente, é um mecanismo importantíssimo. Simplificando, um negócio que gere algum lucro em determinado período pode dividi-lo em partes segundo as necessidades de empreendedor. Se no caso, a cada período, e após satisfazer suas necessidades básicas, o indivíduo consegue poupar 20% (uma expectativa otimista) de seus lucros, e não houver emergências neste período, ele pode criar um pecúlio que, se conseguir
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O microcrédito, no Brasil, é o elemento fundamental das microfinanças. Ele tem potencialidades para auxiliar no desenvolvimento dos sistemas locais de produção. A par de toda discussão filosófica sobre o significado do microcrédito, deve-se atentar para os aspectos técnicos relacionados à sua utilização, levando em consideração a natureza dos seus problemas e suas causas, para que se proponham medidas que eficientize a atuação das instituições microcreditícias, e que seja conduzido de forma sustentável. Isto quer dizer aumentar sua penetração, já que no Brasil só se consegue que 2% da população potencialmente demandante efetive a utilização dos serviços de microfinanças, enquanto na Bolívia, por exemplo, chega a uma taxa de penetração no mercado de 163%23. Aumentar o acesso da população potencialmente demandante é um primeiro passo para o desenvolvimento do microcrédito no Brasil e das potencialidades produtivas das camadas mais pobres da população24. I.2 Quais são as instituições e suas principais características As IMF's no Brasil estão inseridas em vários setores quanto a formalidade, estão classificadas de acordo com a relação direta com o cliente ou com a relação de apoio financeiro e técnico às instituições que atuam nos locais onde trabalham os microempreendedores, e dispostas segundo os setores da vida econômico como iniciativas Privada, da Sociedade Civil ou do Poder Público. Eles são especializados na oferta de serviços financeiros ou complementam esta oferta com intervenções sociais, na comunidade, nos grupos de microempreendedores ou individualmente a cada negociante de baixa renda. Esse corte encerra a tipologia de instituições que atuam no setor microfinanceiro. Porém, seja qual for a inserção da IMF's ou objetivo de intervenção, há bases que são características gerais das instituições e buscam a solidez institucional de uma iniciativa de oferta de microcrédito. I.2.1 - Bases das Instituições de Microcrédito. Instituição microfinanceira é um conjunto de ativos - humanos, financeiros e outros combinados para desempenhar atividades tais como conceder empréstimos e receber
realizar o mesmo a cada ciclo operacional de sua microempresa, lhe dará segurança cumulativa, diminuindo os risco relacionados ao seu negócio. 23 Ver: Nichter et al. “Entendendo as microfinanças no contexto brasileiro”, 2002. 24 O artigo de Otaviano Canuto publicado pelo jornal "Valor Econômico" em 02/01/2001, o autor chama a atenção para o aumento de estoques de ativos dos quais os pobres participem como forma única de erradicar a pobreza, e coloca o microcrédito como um meio para incrementar os ditos ativos. Conclui dizendo que o microcrédito não é uma panacéia contra a pobreza. A respeito dos limites do microcrédito como instrumento de

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depósitos a prazo fixo25. Sua natureza peculiar indica a existência de uma função e certa permanência no seu campo de atuação. A definição de sua função é muito importante e tem que estar bem clara. O grau em que as instituições estão estabelecidas e capacitadas para desempenhar suas funções de forma permanente reflete sua estabilidade e é de grande importância para eficiência e eficácia de seus programas, pois as populações demandantes de microcrédito necessitam de continuidade ao acesso de vias ofertantes adequadas. Uma instituição microfinanceira eficaz possui três atributos básicos. Elas proporcionam serviços financeiros adequados ao público relevante, deve proporcionar impacto positivo e identificável nos negócios e vida dos clientes e ser uma instituição estável e financeiramente sólida. Quando adequadas, as instituições de microcrédito26 oferecem seus serviços de forma que ajuste a oferta de microcrédito à demanda de seus clientes. Elas adotam tecnologia creditícia apropriada27 e determinam parâmetros importantes, como os requisitos de garantias, valor e o prazo de pagamento dos empréstimos, mecanismos contra atraso e inadimplência e outros, de acordo com as características e necessidades dos negócios e dos clientes. A gestão de IMF's deve dispor de técnicas que permitam arquitetar e distribuir serviços de alta qualidade, de modo que sejam atrativos e acessíveis ao público demandante. O microcrédito é voltado aos pequenos empreendedores e microempresários, com pouco ou nenhum acesso ao sistema formal de crédito, e que, geralmente, não desfrutam de boas condições de vida. Assim, economicamente, o microcrédito visa um impacto positivo nos negócios, melhorando suas condições de reprodução, permitindo seu crescimento e desenvolvimento. Os usuários dos serviços financeiros (microcrédito) podem aumentar sua renda através do crescimento de suas atividades produtivas, aumentar seu poder aquisitivo e utilizar recursos para promover melhorias em sua vida como melhorar sua alimentação, comprar medicamentos, eletrodomésticos, investir em sua moradia, etc. O acesso a esses bens, refletiria positivamente em sua auto-estima, estimulando-o a um convívio social mais participativo e sadio.
desenvolvimento sócio-econômico ver Cláudio González-Vega in Seminário BNDES sobre Microfinanças, 2 e 3 de maio. 2001. 25 Ledgerwood. 1999. Pág. 107 26 Deve-se lembrar que, dado que no Brasil as IMF's oferecem predominantemente microcrédito, o conceito de microcrédito é intercambiável ao de microfinanças. 27 Uma proposição detalhada sobre tecnologia e gestão de instituições que lidam com microfinanças (microcrédito), vide: Bruett, Tilmam; Reuben, Sumerllin; Sharon D'Onofrio. 2002. Técnicas de Gestão Microfinanceira. PDI-BNDES. (pág. 25 à 38)

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A estabilidade e a sustentabilidade da instituição tem uma dimensão financeira. Ela deve prover fundos suficientemente para fomentar suas operações e realizar seus objetivos de intervenção. Devem operar com tecnologia eficiente e em escala significativamente grande de clientes para que todos os seus custos sejam minimizados e cobertos, obtendo graus sucessivamente reduzidos da dependência de doações e subsídios. A maioria das IMF's no mundo não é auto-suficiente28. Porém, a capacidade de se auto-gerar financeiramente é um atributo importante para a IMF que vise ser contínua e sólida, já que se pressupõe uma tendência crescente da demanda por serviços de microcrédtio e uma decrescente dos recursos doados. I.2.2. Tipos de Instituições Microfinanceiras Os tipos de IMF's serão apresentadas em três escalas. No primeiro item será considerada a sua existência num sentido mais amplo (instituições financeiras) e quanto à formalidade: formais, semiformais e informais. Posteriormente serão consideradas as alternativas institucionais de programas de microcrédito, classificando-as quanto a sua relação, direta ou n com o cliente final (chamadas instituições de "vanguarda" e "retaguarda") e quanto ao setor da vida econômica em que atuam, de acordo com sua finalidade e seu formato jurídico. E finalmente, as IMF's serão caracterizadas como minimalistas ou integradas. Para efeito de análise desenvolvida neste texto será enfatizada a relação que diz respeito às alternativas institucionais de programas de microcrédito com relação aos setores da vida econômica. I.2.2.1 As instituições financeiras quanto à sua formalidade Ao analisar as instituições financeiras quanto a sua formalidade, pode-se dividi-la em instituições formais, semiformais e provedores informais. O grau de formalidade diz respeito às ordens legais a que obedecem as instituições, quanto ao circuito geral jurídico e às regulamentações específicas do setor bancário. Instituições formais As instituições formais são aquelas que estão sujeitas às prescrições do poder legislativo, às regulações gerais e a supervisão e regulação específicas do setor bancário. Seus

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ver Ledgerwood, 1999. Pág 108

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tipos mais usuais são os bancos de desenvolvimento público (de âmbito nacional e regional), os bancos de desenvolvimento privado, os bancos comerciais e as financeiras. No Brasil, o BNDES, um banco de desenvolvimento público federal, se dedica à capacitação, apoio técnico e provimento de recursos financeiros, sob a forma de empréstimos, às IMF's que trabalham diretamente com o público demandante. Em síntese, se dedicam à formação do funding, ao desenvolvimento institucional e a capacitação técnica dos recursos humanos das IMF's29. Instituições semiformais As instituições semiformais são aquelas definidas por uma delimitação entre o formal e o informal no que diz respeito à sua atuação e obrigações. Por um lado, estão sujeitas às leis gerais mais relevantes, incluindo as leis comerciais. Por outro lado, são informais, pois geralmente estão fora de sujeição às leis, às regulamentações e à supervisão próprias do setor bancário. São principalmente as ONG's financeiras, as OSCIP's, as cooperativas de crédito e cooperativas de múltiplos propósitos. Provedores informais São as fontes de fornecimento de crédito em que não se aplicam leis comerciais gerais nem leis bancárias específicas, tampouco estão sujeitos a alguma regulamentação formal. Em lugares pobres sua difusão como provedor de recursos financeiros é grande. Estão circunscritos nesse ramo os agiotas, os amigos familiares, fornecedores, associações de poupança e crédito rotativo, entre outros; que fornecem crédito sob a forma de dinheiro ou de tempo entre recebimentos e pagamentos. I.2.2.2 As alternativas institucionais de programas de microcrédito Dois blocos de instituições atuam complementarmente no setor de microfinanças. Eles atuam de formas diferentes quanto as suas finalidades em relação aos clientes. Há instituições de microcrédito que atuam diretamente com o cliente final, fornecendo-lhe o empréstimo e outros serviços complementares. São as instituições da Sociedade Civil, do Poder Público e da Iniciativa Privada. Chamaremos essas instituições de "vanguarda". Outras instituições

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oferecem capacitação, apoio técnico e recursos financeiros, em condição de empréstimo, às instituições que trabalham diretamente com o público alvo. Denominaremos essas outras instituições de "retaguarda" 30. I.2.2.2.1 Instituições de "Retaguarda" As instituições de "retaguarda" se propõem atuar em pró da constituição dos fundos, no desenvolvimento institucional e na capacitação do corpo técnico das instituições de "vanguarda". Em relação aos fundos, elas emprestam recursos financeiros para sua constituição ou ampliação. Busca o desenvolvimento institucional das IMF's de "vanguarda" custeando a sua implantação e modernização tecnológica com o objetivo de contribuir para sua consolidação. Oferece capacitação técnica aos agentes de crédito, aos gestores das instituições de "vanguarda" e lideres locais. O SEBRAE criou o Programa SEBRAE de Microcrédito com o objetivo de dar suporte técnico às instituições que trabalham diretamente com o cliente final. O BNDES através do Programa de Crédito Produtivo Popular (PCPP) e do Programa de Desenvolvimento Institucional promove eventos técnicos sobre o assunto, fornece recursos financeiros para o desenvolvimento institucional e para a composição do funding das instituições de "vanguarda" além de apoio técnico administrativo aos programas. I.2.2.2.2 Instituições de "Vanguarda" 31 As instituições de "vanguarda" são aquelas que trabalham diretamente com o cliente final. Elas representam as Organizações Não Governamentais, as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, as Sociedades de Crédito ao Microempreendedor, os "Bancos do Povo" e demais agências do governo. Nesta seção elas serão divididas em instituições da

O BNDES criou o Programa de Crédito Produtivo Popular e o Programa de Desenvolvimento Institucional que se dedicam ao aprimoramento técnico das IMF's e ao provimento financeiro para os programas que desenvolvem atividades de microfinanças. Ver o site: http://www.bndes.gov.br 30 Os termos "retaguarda" e "vanguarda" são utilizado para designar uma oposição em termos de atuação em relação ao tomador potencial e efetivo de microcrédito. Vanguarda refere-se às instituições que atuam na frente dos programas com relação direta com o público tomador de microcrédito no local, analisando os pedidos, liberando os empréstimo e acompanhando-o. Retaguarda denomina as instituições que desempenham papel de apoio ao grupo que atua diretamente com o cliente final. É, apenas, uma relação de oposição entre o papel que cada instituição definida nesta linha assume frente ao público: se atua diretamente ou se atuam indiretamente. 31 Esta caracterização é a mais importante para efeito deste trabalho, pois visaremos as instituições que trabalham diretamente com o cliente final na elaboração da proposição explicativa sobre a questão da baixa penetração do microcrédito no Brasil.

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sociedade civil, do poder público e da iniciativa privada, conforme sua origem e delimitação legal. I.2.2.2.3 As Instituições da Sociedade Civil O microcrédito no Brasil, diante de seu limiar histórico, confunde-se com iniciativas próprias da sociedade civil. Sua forma institucional se constituiu, primeiramente, de organizações não governamentais. Essas instituições atuam, em geral, exclusivamente na intermediação financeira (minimalistas), oferecendo crédito com fins produtivos ao pequeno empreendedor, ou outros serviços de intermediação social e de desenvolvimento dos negócios atrelados ao crédito32 (integradas). Hoje essa iniciativa se dá principalmente pelas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP's) e pelas Organizações Não Governamentais (ONG's). Essas instituições são constituídas sob a forma de pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos. Dada essas características, os lucros apurados após o resultado operacional de sua atividade fim é completamente revertido para instituição. Portanto, não há distribuição de lucro na forma de apropriação, mas um redirecionamento na forma de capitalização, contribuindo para a sustentabilidade econômico-financeira da instituição. Organizações Não Governamentais (ONG's) O setor de microfinanças no Brasil teve início com o trabalho desenvolvido por algumas ONG's33. Estas instituições muito concorreram para a multiplicação das iniciativas de microcrédito, estruturando as primeiras redes e prestando grande contribuição para a difusão desta atividade no país. A designação de ONG agrega uma grande diversidade de instituições, cujas características em comum são apenas a de serem de direito privado e sem fins lucrativos. O termo ONG é impreciso e análogo a várias instituições definidas sob a mesma sigla, porém de natureza e prática bastante distintas. Tratamos neste texto de ONG's que prestam serviços

A diferenciação entre as instituições que oferecem apenas a intermediação financeira (crédito), chamadas minimalistas, e as que oferecem além de crédito outros serviços de acompanhamento e desenvolvimento dos negócios, além de iniciativas sociais, chamadas integradas, será realizada na seção 2.3 deste texto. 33 A primeira experiência com microcrédito no Brasil foi desenvolvida pelo Programa Uno, em 1973, nos municípios de Recife e Salvador. Esse programa foi criado pela iniciativa da ONG ACCION International, a qual ainda fornecia assistência técnica.

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microfinanceiros, especializadas na concessão de crédito produtivo ou que ofertam outros serviços além do microcrédito. São ONG's de crédito, do tipo popular e produtivo, aquelas instituições que se dedicam ao financiamento de microempreendimentos, como objetivo maior, podendo oferecer outros serviços complementares aos clientes. Esses serviços complementares são oferecidos eventualmente e trata-se de capacitação e assessoria técnica aos microempreendedores, como forma indireta de minimizar os riscos do empréstimo, desenvolvendo o microempreendedor profissionalmente na relação com o crédito e com seu mercado. As ONG's com esse perfil são minimalistas. As ONG's podem ser não especializadas, desenvolvendo serviços sociais, apoiando movimentos e populações marginalizadas, serviços de apoio ao desenvolvimento dos negócio e buscam o desenvolvimento do capital social34 do local em que atuam , além da praticarem a intermediação financeira. A forma como oferecem todo esse aparato de serviços é feito de forma independente, aglutinando as todas as atividades. O grau em que uma ONG's é especializada ou não está relacionado com o nível de intermediação financeira. A maior capacidade de intermediação financeira está determinada pelas possibilidades de oferecer uma variedade de serviços à microempresa e alcançar a massificação dos serviços de crédito, inversão, poupança e operações à vista35. O parâmetro de comparação é o sistema financeiro tradicional. A capacidade de intermediação financeira é um ponto fundamental do debate sobre que estratégias institucionais são viáveis para o fortalecimento das ONG's de crédito ou se é mais apropriado deixar que os setores financeiros atuarem, de forma eficaz, na oferta de microcrédito. Se tratarmos o marco legal das ONG's, e seu desdobramento, há uma tendência de que estas instituições sejam reguladas pelo setor bancário. Os caminhos sugerem um conjunto de desenhos institucionais, com a transformação das ONG's de crédito em entidades reguladas pelos bancos centrais36. A idéia é buscar a sustentabilidade dos sistemas de fornecimento de serviços financeiros através dessas instituições para que o processo implantação do microcrédito tenha um desempenho eficiente, garantindo continuidade às intervenções que visam o desenvolvimento do setor de microfinanças e dos negócios de baixa renda.

vide: Abramovay, Ricardo. O Capital Social dos Territórios: repensando o desenvolvimento rural. Economia Aplicada, volume 4, n° 2, abril/junho, São Paulo, 2000.

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Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP's) As OSCIP's são instituições que se encontram sob em regime de controle e transparência intensivo, o que se deve, sobretudo, às determinações da Lei 9.790 que as obriga a publicar suas contas além de exigir que o patrimônio das OSCIP's esteja permanentemente sob o interesse público37. Conforme Ferrerazi et al, 2000: "O patrimônio de uma OSCIP também deve estar permanentemente no interesse público, devendo ser transferido a uma outra instituição, com a mesma qualificação, em caso de dissolução. Um outro fator a ser considerado é a obrigação de, após o transcurso de dois anos da lei, as instituições do 3º setor precisarem optar entre o título de OSCIP e a declaração de utilidade pública, o mesmo valendo para o certificado de fins filantrópicos que a partir de março de 2001 não poderá mais "coexistir" com o título de OSCIP em uma instituição" 38. O termo de parceria, detalhado no Decreto n° 3.100, de junho de 1999, é um outro instrumento voltado para garantir que as relações entre Estado e OSCIP's sejam estabelecidas do modo mais transparente possível. Como pontos frágeis para a atuação do Estado nas microfinanças, via participação em OSCIP, temos a lentidão do processo de criação de uma OSCIP, e a necessidade de distanciamento entre o poder público e as instituições regidas pela Lei n° 9.79039. A discussão sobre o modelo de estruturação para o terceiro setor vem sendo mediada pelo Governo Federal através da Comunidade Solidária. O objetivo principal é o fortalecimento da sociedade civil como um todo40. Como conseqüência do debate, constituiuse a Lei 9.790 de março de 1999 que, conjuntamente com o Decreto 3.100, de junho de 1999, estabeleceram a função social da OSCIP e sua parceria com o poder público. A Lei 9.790 serve como um divisor dentro do terceiro setor, ao determinar quais modalidades institucionais estariam aptas a se qualificarem como OSCIP. Segundo o artigo 2º da Lei 9.790, especificado das alíneas I à XIII, as associações criadas por órgão ou por fundação pública, cooperativas, sindicatos, partidos políticos e suas fundações, instituições religiosas, organizações sociais e organizações creditícias, que tenham quaisquer tipos de

IBAM. 2001. Relatório Final. IBAM. 2001. Relatório Final. 37 IBAM. 2001. Relatório Final. 38 Ferrarezi, Elisabete, Rezende, Valéria. 2000. OSCIP – organização da sociedade civil de interesse público: a lei 9.790/99 como alternativa para o terceiro setor. Brasília: Comunidade Solidária 39 IBAM. 2001. Relatório Final. 40 Ferrarezi et al. 2000.
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ligações com o Sistema Financeiro Nacional, entre outras, estão impedidas de obter a titulação de OSCIP. O chamado Termo de Parceria, criado pela Lei nº 9.790, é a relação contratual que pode ser estabelecida entre o Estado e as OSCIP's. Se por um lado as OSCIP's estão submetidas a requisitos legais rigorosos, por outro elas usufruem exclusividade nos concursos que forem estabelecidos na definição deste termo, o que pode propiciar às OSCIP's acesso à participação em programas dos quais estarão excluídas as demais organizações do terceiro setor41. O termo de parceria é um ponto que diferencia a OSCIP das ONG's. Ele é um instrumento exclusivo das OSCIP's e significa o mecanismo pelo qual a OSCIP se relaciona com o poder público. Havendo uma tendência cada vez maior da relação entre Estado e terceiro setor, esta será estabelecida preferencialmente pelo termo de parceria, o que levaria as ONG's sem título de OSCIP a serem excluídas de diversos programas do Governo. Segundo o Relatório Final do IBAM, 2001, "até o momento, no entanto, ainda são relativamente poucos os casos em que a preferência por OSCIP's tenha provocado um maior prejuízo às outras ONG's, muito embora esta tendência pareça vir se consolidando progressivamente". Com a criação das OSCIP's, dentro de seu marco legal, o setor de microfinanças recebe um grande impacto positivo devido à acessibilidade aos recursos destinados aos programas, à isenção da Lei da Usura42 e à possibilidade de efetivar o termo de parceria. Para instituições como as ONG's, tonar-se uma OSCIP's seria praticamente a única forma pela qual se poderia operar de forma sustentável. I.2.2.2.4 Instituições do Poder Público As iniciativas governamentais passaram a desempenhar um papel importante no desenvolvimento das intervenções centradas em microcrédito. Os governos estaduais e municipais estão implantando programas de microcrédito, centrados principalmente em "Bancos do Povo", como o Banco do Povo de São Paulo43, Banco do Povo de Santo André,

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IBAM. 2001. Relatório Final O Decreto 22.626, de 7 de abril de 1933, constitui a lei da usura e estipula juros máximos de 12% ao ano, consistindo a cobrança de juros usurários em crime contra a economia popular. Esta lei não se aplica a instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, Sociedades de Crédito ao Microempreendedor e Organizações da Sociedade Civil de Interesses Público.

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Banco do Povo de Juiz de Fora, etc. Na esfera Federal, têm-se a atuação do Banco do Nordeste, responsável pelo programa CrediAmigo, o maior do país44. Em alguns casos, essas iniciativas não respeitam parâmetros técnicos de sustentabilidade, ligando-se muitas vezes aos objetivos dos programas motivações políticas. Muitos desses programas oferecem crédito a taxas de juros baixas e incapazes de fazer frente aos custos operacionais. Cresce, então, a dependência desses programas do apoio do governo para dar continuidade as suas operações. As instituições de "retaguarda" têm participação importante, principalmente no fomento financeiro dos programas, nos âmbitos federal, estadual e municipal, muitas vezes através de linhas de empréstimo para esses fundos a taxas de juros de longo prazo, na elaboração de estudos sobre os principais problemas do microcrédito e de sugestões para gestões eficientes e na capacitação de técnicos administrativos das instituições de "vanguarda". Temos como exemplo no Brasil o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), O Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), A Agência Catarinense de fomento (BADESC), etc. As iniciativas do Poder Público são diversas atuando como instituições de "retaguarda" e de "vanguarda", fazendo parcerias com instituições da sociedade civil (ONG's e OSCIP's) e, há pouco tempo, com a iniciativa privada.

O Banco do Povo de São Paulo é uma parceria entre os governos estadual e de alguns municípios do Estado de São Paulo, formado em 1998. Essa entidade oferece empréstimos a microempreendedores locais a uma taxa altamente subsidiada, de 1% por mês. O programa está crescendo rapidamente, embora o modelo escolhido não permita sua continuidade num contexto de mercado. Em menos de quatro anos de operação ele já atende a 9.521 clientes ativos. O valor médio de empréstimo do Banco do Povo de São Paulo é de R$ 1.696. vide: Nichter et al. 2002. 44 Segundo Nichter et al (2002): "O Banco do Nordeste é uma instituição federal de desenvolvimento regional, sediada no Ceará, que fornece mais de 70% do financiamento bancário na região Nordeste. Por intermédio de seu programa Crediamigo, de rápido crescimento, lançado em 1998, o banco atende a 54% dos atuais clientes de microfinanças no Brasil. O programa Crediamigo é voltado para clientes de baixa renda (com um valor médio de empréstimo de R$ 584) em áreas urbanas, utilizando uma metodologia de grupos solidários. O banco tem uma estratégia de crescimento agressiva e toma decisões com base comercial, dentro da estrutura de uma instituição de desenvolvimento regional".

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I.2.2.2.5 As Instituições da Iniciativa Privada A iniciativa privada brasileira só recentemente vem atuando na área de microfinanças. Normalmente suas atividades nesse campo se dão através de doações para formação de capital próprio ou através de empréstimos às instituições de microcrédito da sociedade civil. A Lei 10.194 publicada em fevereiro de 2001 cria as Sociedades de Crédito ao Microempreendor (SCM), e confere novo formato jurídico a atuação da iniciativa privada. A Lei atribui perfil lucrativo às organizações que trabalhem no campo do microcrédito e resolvam tornar-se uma SCM45. Por outro lado, essas instituições, pessoas físicas ou jurídicas, ficam suscetíveis à supervisão do Banco Central do Brasil segundo as leis e regulamentações próprias do setor bancário. Seu caráter de instituição de microcrédito permanece o mesmo junto ao público demandante: é uma instituição financeira que oferta crédito de valor restrito junto ao público de baixa renda, adotando metodologia específica de microcrédito. Legalmente, ao se criar uma SCM, algumas condições são de destaque. Elas estão equiparadas às instituições financeiras, tendo sua "constituição, organização e funcionamento disciplinados pelo Conselho Monetário Nacional"
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. Seu objetivo social é conceder

financiamentos às pessoas físicas e jurídicas com fins produtivos47. Está sujeita à fiscalização do Banco Central do Brasil. Estão proibidas de realizar captação recursos junto ao público, sob de qualquer forma, inclusive emitir título mobiliários. O Conselho Monetário Federal editou e Resolução 2874/01, em julho de 2001, exigindo que na formação de uma SCM, esta tivesse patrimônio líquido mínimo de R$ 100.000,00 e realizasse cada operação com o limite de R$ 10.000,00. Na mesma resolução, proibiu a utilização do substantivo "banco", a concessão de crédito para fins de consumo e vedou a participação societária do Poder Público nesta instituição. Por outro lado, permitiu à SCM realizar empréstimos junto ao Sistema Financeiro Nacional e atuar em todo território nacional. Outro ponto importante é que as OSCIP's podem exercer controle sobre uma SCM, mantidos seus objetivos sociais e a independência quanto ao setor público de suas atividades e gestão.

A natureza financeira e lucrativa, no entanto, justifica as SCM's serem isentas da lei da usura, consistindo assim em instituições com boa sustentabilidade, já que estão habilitadas a cobrar juros de mercado. Vide: IBAM. 2001. Relatório Final. 46 vide: Lei 10.194, 14 de fevereiro de 2001, art. 1, alínea II. 47 Isto é, viabilização de empreendimentos de natureza profissional, comercial ou industrial. vide: Lei 10.194, 14 de fevereiro de 2001, art. 1, alínea I.

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Um avanço que trás a resolução é em relação à criação de Postos de Atendimento de Microcrédito. Objetivam exclusivamente a operações destinadas ao microcrédito. Esses postos podem ser instalados em qualquer instituição financeira, sem exigência adicional de capital. Não se exige o aporte mínimo de capital para instalação dos postos. Há flexibilidade quanto à permanência (tempo), ao horário de funcionamento e à estrutura física dos postos. O aspecto positivo dessa medida é que se abriu a possibilidade para alongar o atendimento até populações isoladas.

Quadro 1: Tipos de IMF's segundo formalidade, contato com o tomador e segundo os setores da economia
Setores da vida econômica: Instituições da Sociedade Civil: • OSCIP's • ONG's •Cooperativas de crédito •Cooperativas de
múltiplo propósito

Instituições Financeiras (formalidade): Instituições formais: • Bancos de Desenvolvimento Público (de âmbito nacional e regional) • Bancos de desenvolvimento privado • Bancos comerciais • SCM's • Financeiras Semiformal: • OSCIP's • ONG's •Cooperativas de crédito •Cooperativas de múltiplo propósito Informal: •Agiotas

(reformular)
Contato com o cliente final: Vanguarda: • SCM's • OSCIP's • ONG's •Cooperativas de crédito •Cooperativas de múltiplo propósito Retaguarda: • Bancos de desenvolvimento Público (ex: BNDES e BDMG) • Bancos de desenvolvimento privado • Bancos comerciais (ex: Unibanco)

Instituições do Poder Público: • Bancos do Povo • Bancos Comerciais (ex.
Banco do Nordeste)

• Bancos de Desenvolvimento

Instituições da Iniciativa Privada:

•Fornecedores

•Familiares e amigos • Associações de crédito e poupança rotativos

• Bancos de Desenvolvimento •Bancos Comerciais • SCM's

Fonte: elaboração própria à partir das informações contidas no texto

I.2.2.3 As características minimalista e integrada 48 A concepção de instituições microfinanceiras, particularmente de microcrédito no Brasil, é a de que prestam serviços financeiros para uma população caracterizada por baixa renda e exclusão do sistema financeiro formal. As IMF's podem oferecer outros serviços com

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A discussão sobre instituições minimalistas e integradas está baseada em Ledgerwood 1999.

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o objetivo de melhorar a capacidade de seus clientes em gerir seus negócios e utilizarem os serviços financeiros disponíveis. O contexto mais amplo de microfinanças, inclusive o microcrédito, permite que sejam identificados quatro grupos de serviços que podem ser oferecidos: (i) intermediação financeira, (ii) intermediação social, (iii) serviços de desenvolvimento dos negócios e (iv) serviços sociais. A intermediação financeira é a prestação de serviços financeiros como poupança, crédito, seguros, cartões de crédito e um sistema de pagamentos. Praticamente todas as IMF's, no mundo, oferecem microcrédito, porém algumas oferecem outros produtos de intermediação financeira. A intermediação social visa à construção e desenvolvimento do capital humano e social necessário para que a intermediação financeira tenha condições de se tornar autosustentável em camadas caracteristicamente mais pobres. Quando se trata de intermediação neste nível da sociedade requer um tempo mais prolongado, o quer dizer a necessidade de subsídio em tempo suficiente para se realizarem as mudanças de acordo com este objetivo. Quando os serviços oferecidos se propõem ao desenvolvimento dos negócios, não são serviços financeiros, mas capacitação empresarial aos microempreendedores. Incluem treinamento em gestão, em marketing, em desenvolvimento de habilidades, em tecnologias operacionais e análise de mercado. Os serviços sociais são serviços não financeiros que visam melhorar as condições de vida do microempreendedor. Esses tipos de serviços concentram-se em ampliar os acompanhamentos dos clientes nas áreas de saúde, educação, alimentação e alfabetização. Esses quatro tipos de serviços dão a dimensão de atuação da IMF. Ela pode se especializar em conceder unicamente serviços de intermediação financeira, ou englobar todos os serviços em sua carteira de atividades oferecidas às populações em que esteja intervindo. O grau em que cada instituição oferece cada um desses serviços define se sua abordagem é minimalista ou integrada. As IMF's que oferecem somente serviços de intermediação financeira, mas que oferecem ocasionalmente alguns serviços de intermediação social, são chamadas de 32

minimalista. As instituições minimalistas baseiam seu enfoque na premissa de que o crédito é a ferramenta capaz de alavancar os empreendimentos de baixa renda, fazendo-os crescer e seguir as vias do desenvolvimento. Estas instituições reconhecem sua vantagem comparativa ao se especializar somente na intermediação financeira. Assume-se que os outros serviços serão oferecidos por outras instituições de acordo com seu público alvo. Ao focalizar um único objetivo, as IMF's diminuem os custos e a dependência de subsídios, além de dar clareza quanto ao seu objetivo como instituição. A abordagem integrada adota uma visão que contempla, ou busca contemplar, todas as dimensões do seu cliente, e são próprias da IMF's que oferecem uma cesta diversificada de serviços que inclui intermediação financeira, intermediação social, serviços de

desenvolvimentos dos negócios e serviços sociais. Nem todas as instituições oferecem todos os serviços expostos nos quatros grupos acima mencionados, mas podem aproveitar a proximidade com os seus clientes, baseados em seus objetivos, para oferecer aqueles serviços que são mais necessários e cujos custos são comparativamente mais vantajosos. Com base em seus objetivos, considerando as circunstâncias da oferta e da demanda na qual operam, as IMF's decidem se adotarão uma abordagem minimalista ou integrada. Há algumas dificuldades, potencialmente expressa, diante de uma escolha de abordagem integrada. As intermediações financeiras e não financeiras são distintas em essência e podem gerar pouca clareza quanto aos objetivos da instituição, além de objetivos conflitantes. Ao optar em trabalhar com vários serviços criam-se dificuldades em identificar e controlar os custos envolvidos nas operações. Os serviços não financeiros são custosos, tem alta dependência de subsídios e dificilmente são sustentáveis. Ao focalizar vários objetivos, a IMF pode incorrer em perdas de eficiência na condução de um programa que lide com a complexidade dessas operações. I.2.2.4 Microconclusão O item 2 deste capítulo apresentou uma classificação das instituições financeira inclusive as de microfinanças. A estrutura básica está divida segundo a formalidade, o contato com o cliente final e os setores da vida econômica. Em uma outra etapa, o conjunto de IMF's é divida entre aquelas especializadas em intermediação financeira e as que oferecem outros serviços além dos serviços financeiros, como intermediação social, capacitação em gestão dos negócios e serviços sociais.

33

Essa diferenciação coloca as IMF's atuantes no Brasil situadas, principalmente, entre as instituições formais e semiformais. Dessas instituições, parte opera diretamente com o cliente final concedendo microcrédito e outros serviços complementares. Outra porção trabalha concedendo recursos financeiros, sob a forma de doações ou empréstimos, e serviços de apoio técnico às instituições microfinanceiras em contato direto com o público demandante dos seus serviços. Denominamos instituições de "vanguarda" aquelas que lidam diretamente com o cliente final de microfinanças, e retaguarda aquelas que operam em pró da constituição dos fundos das instituições de "vanguarda" e do desenvolvimento de suas dimensões técnicas e institucionais. Circunscrito nas instituições de "vanguarda" e "retaguarda" estão as Instituições da Sociedade Civil, as Instituições do Poder Público e as Instituições da Iniciativa Privada. Essas categorias constituem o foco principal deste texto, em termos institucionais, pois especificam as instituições que operam com microcrédito de acordo com o setor da vida econômica nacional49 de que fazem parte. Entre as Instituições da Sociedade Civil destacamos principalmente as OSCIP's e as ONG's, como instituições de "vanguarda" sem fins lucrativos. As Instituições do Poder Público são de "vanguarda" e "retaguarda", e os principais atores são os "Bancos do Povo" e os bancos de desenvolvimento, como BNDES e BDMG. Não tem fins lucrativos e muitas vezes trabalham com programas subsidiados pelo governo local e federal. Quanto às

Instituições da Iniciativa Privada, sua participação é pequena e se concentra em empréstimos ou doações para constituição dos fundos das instituições de microcrédito, operando em parceria ou não. As SCM's criadas pela Lei 10.194 de fevereiro de 2002 são as principais operantes e possuem fins lucrativos. Por último, as IMF's podem ser minimalistas ou integradas, de acordo com sua especialização em intermediação financeira ou com o espectro de serviços ofertados aos clientes que vão desde intermediação financeira até serviços sociais, expressos no item 2.3. O marco institucional das IMF's no Brasil, de acordo com este texto, estabelece definições quanto a sua formalidade, a atuação direta ou indireta com o cliente final, de acordo com os setores da vida econômica nacional e segundo o espectro de serviços ofertados aos clientes. Os propósitos das instituições inseridas são diversificados e visam desde o

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desenvolvimento dos negócios de baixa renda até o de sistemas produtivos locais e do capital social. As instituições de microcrédito têm objetivos lucrativos, no caso das SCM's, e não lucrativos, quando OSCIP ou ONG. I.3 Análise geoquantitativa As IMF's no Brasil, segundo dados do PDI-BNDES, apresentam-se distribuídas em todas as regiões brasileiras com expressiva concentração nas regiões Sul e Sudeste (aproximadamente 70%). Porém, a região Nordeste agrega grande parte do volume de carteira de empréstimos e de clientes efetivamente tomadores de microcrédito (aproximadamente 50% da carteira ativa total do país e 73% de todos os clientes ativos). Mesmo havendo um total de 121 instituições operando no Brasil com microfinanças, especialmente microcrédito, apenas 9 IMF's possuem mais de 2.000 clientes ativos. Esses dados não refletem o sucesso desses nove programas, mas sim capacidade de, no longo prazo, obterem viabilidade e melhorar os seus resultados. Outra característica intrigante é que há uma grande disparidade entre o empréstimo médio tomado pelos clientes nas grandes regiões (o Sul tem um empréstimo médio de cerca de R$ 2.010, enquanto o Nordeste tem cerca de R$ 600). Este item do capítulo 1, pertencido a esta monografia, apresentará um panorama da distribuição geográfica dos recursos aplicados em programas do microcrédito, com uma breve análise desse quadro. I.3.1 A distribuição regional 50 Atualmente no Brasil o microcrédito está distribuído, de forma desigual, em todas as regiões. Há 121 instituições operando com microcrédito, um total de clientes ativos é de 158.654 e um volume de carteira em movimentação de R$ 138,8 milhões.

Com setor da vida econômica nacional quero me referir aos setores público, privado e da sociedade civil (3º setor). 50 O dados apresentados neste item são estimados pelo PDI-BNDES, expostos em Nichter et al. “Entendendo as microfinanças no contexto brasileiro”, 2002.

49

35

Figura 1: Mercado de IMF's no Brasil.
Norte N° de IMF's: 3 Clientes ativos: 653 Carteira ativa: R$ 0.9 milhões Nordeste N° de IMF's: 28 Clientes Ativos: 15.582 Carteira ativa: R$ 69.1 milhões

Centro-Oeste N° de IMF's: 8 Clientes ativos: 10.095 Carteira ativa: R$ 11.1

Sudestet N° de IMF's: 50 Clientes ativos: 18.197 Carteira ativa: R$ 29.2 milhões Sul N° de IMF's: 32 Clientes ativos: 14.127 Carteira ativa: R$ 28.4 milhões

Brasil N° de IMF's : 121 Clientes ativos: 158.654 Carteira ativa: R$ 138.8 milhões

Fonte: Nichter et al. 2002.

Analisando em termos percentuais, a região Sudeste é que concentra maior número de instituições operantes, com aproximadamente de 42%. A região Sul e Nordeste têm 26% e 23% das IMF's totais operantes no país, respectivamente. As regiões Centro-Oeste e Norte são as que, em grande diferença, menos agregam IMF's: são, respectivamente, cerca de 7% e 2% (ver Gráfico 2). Gráfico 2:

Distribuição das IM F's por Região no Brasil CO 7% N 2% NE 23%

S 26%

SE 42%
Fonte: elaboração própria á partir dos dados de Nichter et al. 2002.

A região Sudeste possui o maior número de instituições, porém a maior concentração de clientes ativos se encontra no Nordeste brasileiro (cerca de seis vezes mais que no Sudeste). A região Nordeste tem, segundo o PDI-BNDES, 115.582 cliente ativos, cerca de 36

73% do total de clientes estimados no Brasil. O Sudeste agrega 18.197 clientes, mais de 11% do público efetivamente tomador de microcrédito no Brasil. As demais regiões Sul, CentroOeste e Norte possuem respectivamente 14.127, 10.095 e 653 clientes participantes de seus programas, e somadas representam cerca de 15% do total no Brasil. Deve-se ressaltar que do total de clientes ativos no Nordeste 73,80% são clientes do programa Crediamigo do Banco do Nordeste, e que esse programa dispõe do uso da rede de agências do Banco distribuídas pela região Nordeste, certamente uma vantagem institucional para captação de clientes em relação às demais regiões. O Gráfico 3 apresenta os percentuais que cada região dispõe do total de clientes ativos no país. Gráfico 3:

Clie n te s a tivo s p o r re g iã o n o Bra sil

SE
11,5%

S 9%

CO N 6% 0,5%

NE 73%

Fonte: elaboração própria a partir dos dados de Nichter et al. 2002.

O Nordeste é a região onde está contida a maior carteira ativa, com R$ 69,1 milhões. As regiões Sudeste e Sul possuem respectivamente R$ 29,2 milhões e R$ 28,4 milhões, e as regiões Centro-Oeste e Norte possuem carteiras ativas respectivas de R$ 11,1 milhões e R$ 900 mil. Em termos percentuais, o Gráfico 4 ilustra qual a parcela de microcrédito movimentada em cada região do país.

37

Gráfico 4:

Carteira ativ a por região do Brasil

S 20%

CO 8%

N 1%

NE 50% SE 21%

Fonte: elaboração própria a partir dos dados de Nichter et al. 2002.

Há uma dimensão quanto à distribuição dos recursos envolvidos nos programas desenvolvidos por IMF's que diz respeito ao valor médio de empréstimos que a população de clientes ativos alocada em cada região demanda em termos de valor. Como apresentado no Gráfico 3, maior carteira ativa se encontra na região Nordeste, seguido das regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte. As populações regionais de clientes ativos obedecem à mesma escala (Gráfico 4). Porém, a relação entre a carteira ativa e os clientes ativos de cada região indica que o empréstimo médio das regiões Sul, Sudeste, Norte, Centro-Oeste e Nordeste se dão, nesta ordem, de forma decrescente. O Gráfico 5 ilustra o empréstimo médio em cada região.

38

Gráfico 5:

Empréstimo Médio
2.500,00 2.000,00

Valor (R$)

1.500,00 1.000,00 500,00 0,00

N

NE

SE

S

CO Brasil

Regiões
Fonte: elaboração própria a partir dos dados de Nichter et al. 2002.

No contexto brasileiro o empréstimo médio é cerca de R$ 875. A região Sul tem empréstimo médio de R$ 2010, o maior do país. As regiões Sudeste, Norte e Centro-Oeste possuem respectivamente R$ 1.604, R$ 1.378 e R$ 1099. E a região Nordeste, que possui a maior parcela de clientes e carteira ativos do país, possui o menor empréstimo médio entre as regiões com o valor de aproximadamente de R$ 598. Ao observar as Contas Regionais do Brasil de 2000, elaborado pelo IBGE, percebe-se que o Sul é o segundo maior PIB per capita do país, e que a proporção do empréstimo médio nessa região em relação ao PIB regional per capita corresponde a 26,14%. O Sudeste possui uma proporção de 18,29% de empréstimo médio em relação ao seu PIB regional per capita. O Centro-Oeste e Norte possuem a relação respectivamente de 16,76% e 35,28%. Porém a região Norte tem volume de carteira e clientes ativos, respectivamente, na proporção de 1% e 0,5% do total do país. Esse pequeno valor da região Norte teria pouca relevância para se considerar em uma análise da relação entre empréstimo médio e PIB regional per capita, dado seu estado muito incipiente. Por último, temos a região Nordeste que possui uma proporção de 19,84%.

39

Tabela 1 Proporção de Empréstimo Médio por Região do PIB Regional per capita (%)
Indicadores Empréstimo médio E (médio) PIB regional per capta E (médio)/PIB per capta N 1.378,25 3.907,00 35,28% NE 597,84 3.014,00 19,84% SE 1.604,66 8.774,00 18,29% S 2.010,33 7.692,00 26,14% CO 1.099,55 6.559,00 16,76% Brasil 874,23 6.473,00 13,51%

Fonte: Elaboração própria a partir das Contas Regionais do IBGE e dos dados de Nichter et al, 2002.

Há uma idéia por de trás destas relações entre empréstimo médio por região e PIB regional per capita. A distribuição de valores médios de empréstimo espelha as diferenças regionais51, e embora a renda média per capita não explique completamente a variação de valor dos empréstimos de microcrédito no território brasileiro, ela pode influenciar o montante de empréstimo demandado dadas as características intrínsecas da dinâmica dos mercados de maior renda. O Sul possui renda per capita de R$ 7692 e o Nordeste de R$ 3014, segundo as Contas Regionais do IBGE para o ano de 2000. O valor médio do empréstimo pode significar, em parte, o tipo de negócio, em termos de ativos movimentados, que estão sendo desenvolvidos em cada região. Ou melhor, a demanda por microcrédito, em valor, pode ter uma relação com o perfil econômico dos microempreendimentos e/ou microempresas que estão sendo supridos por este instrumento, no setor comercial, industrial ou de serviços, e o quanto de investimento demandam para sua manutenção e desenvolvimento dentro de seu mercado local52. O segmento do setor ofertante de microcrédito, via instituições microfinanceiras do setor formal e semiformal, obteve significativo crescimento se comparar-mos os valores da estimativa do total de atividades de microfinanças no Brasil de 1999 no estudo de Goldmark53 com os valores expressos neste item. Segundo Goldmark, em 1999 o número do IMF's no Brasil era de 47, a carteira de empréstimo estava estimada em R$ 43,40 milhões e o número de clientes ativos estava em 76.701. Recapitulando, o estudo mais atual de Nchter54 sobre o

Nichter et al. 2002. Esta análise está centrada no campo das possibilidades. Embora não seja o objetivo primeiro deste texto, talvez seja necessário uma análise da demanda por crédito produtivo popular no que diz respeito ao valor, relacionando-o ao mercado em que está inserido o negócio e qual a qualidade dos ativos que movimenta para sua manutenção e desenvolvimento. Os diferentes perfis de negócios podem demandar mais recursos ou menos, e tipos específicos de produtos microfinanceiros, de acordo com a região onde estão inseridos e à dinâmica do mercado onde competem. 53 vide: Goldmark et al. "As situações das microfinanças no Brasil", 2000. 54 Nichter et al. 2002
52

51

40

mercado de microfinanças no Brasil em 2001 indica 121 IMF's operantes no país, com 158.654 clientes ativos e carteira de empréstimos de R$ 138,80 milhões. A comparação entre esses dados revela que os clientes ativos aumentaram em mais de duas vezes, contabilizando um incremento de mais de 81 mil. Grande parte deste aumento se deve à penetração do Banco do Nordeste através do programa Crediamigo que de dezembro de 1999 a dezembro de 2001 aumentou o número de seus clientes de microcrédito de 35.332 para 85.309. A carteira ativa mais que triplicou, com um incremento de cerca de R$ 95,00 milhões, e que o número de IMF's operantes no Brasil passaram de 47 para o patamar de 121. O empréstimo médio passou de R$ 565 para R$ 875, em valores aproximados, que significa um aumento qualitativo para o setor. A este aumento dos empréstimos médios tem de ser computado a inflação para o calculo do aumento real do empréstimo médio, já que o Índice Geral de Preços da Fundação Getúlio Vargas (IGP-FGV) dos anos de 2000 e 2001 foi de 9,81% e 10,40%, respectivamente. Apesar do aumento quantitativo da oferta de intermediação financeira, observando o quadro geral das IMF's operantes, poucas alcançaram uma escala significativa em número de clientes ativos. Segundo os dados apresentados pelo estudo Nichter et al (2002), das 121 instituições distribuídas nas cinco regiões brasileiras, apenas 9 possuem mais de 2.000 clientes. Essas instituições reunidas atendem a 79% dos clientes ativos totais do país e movimentam 66% da carteira ativa de todos os programas. Observando o Quadro 2, das 9 instituições 6 estão situadas no Nordeste, uma no Sul , uma no Sudeste e uma no CentroOeste. A Portosol, situada no Sul, possui o maior empréstimo médio com R$ 1.866, seguida pelo Banco do Povo de São Paulo, com R$ 1.696 e Banco do Povo de Goiás, com R$ 1.113. A média dos empréstimos médios das 6 instituições situadas no Nordeste é de R$ 642, valor bem inferior às demais, e que reflete a tendência das diferenças regionais discutidas na página 37. O número de clientes e o volume de empréstimos em trânsito não indicam, necessariamente, que as instituições estejam gozando de sucesso em seus programas. Há outros indicadores que conjugados esclarecem melhor as bases em que estão estabelecidas estas instituições, como a qualidade da carteira, a sustentabilidade da instituição e a viabilidade a longo prazo do modelo de gestão utilizado em concretizar tais resultados. As iniciativas governamentais, como através dos "Bancos do Povo", poderiam colocar questões técnicas importantes em segundo plano, como a sustentabilidade, ao subsidiar a ampliação de 41

suas carteiras, comprometendo as intervenções a longo prazo. Portanto, mesmo reconhecendo esse aumento em termos quantitativos, a certeza a cerca da qualidade dos modelos de gestão das instituições ofertantes é uma análise à parte, onde podemos ter algumas informações a respeito, desagregando os dados globais por instituições atuantes:
"O programa Crediamigo do Banco do Nordeste, por exemplo, o maior programa de microfinanças do Brasil em termos de clientes ativos, deve ser visto dentro de seu contexto regional. Enquanto o CrediAmigo demonstrou um rápido crescimento nos seus primeiros anos de operação, isto tem se dado principalmente nas cidades secundárias onde opera. Esta expansão tem sido muito mais lenta nas áreas urbanas do litoral nordestino. Se dividida pelo número de agências (aproximadamente 70) a carteira do Banco do Nordeste, com uma média de 1.218 clientes ativos por agência, revela um perfil não tão diferente das IMF's especializadas". (Nichter et al, 2002)

Quadro 2: Instituições de microfinanças no Brasil com mais de 2.000 clientes ativos (2001).
Ranking por número de Tipo de IMF Clientes ativos clientes (Setor da vida econômica) Banco do Nordeste (CE) Banco do Povo de São Paulo (SP) Poder Público/banco comercial estatal. Poder Público/banco do povo Carteira ativa (R$) 49.847.600 Valor médio do empréstimo (R$) 584

85.309

9.521

16.148.660

1.696

Banco do Povo de Goiás Poder Público/banco do (GO) povo CEAPE (MA) Sociedade Civil/ OSCIP Sociedade Civil/ ONG Sociedade Civil/ OSCIP Sociedade Civil/ ONG Sociedade Civil/ OSCIP Sociedade Civil/ OSCIP

7.535

8.386.455

1.113

5.467

2.985.111

546

CEAPE (RN)

5.411

4.030.880 2.996.848

745

CEAPE (PE) Visão Mundial (BA/MG/PE/RN) CEAPE (SE)

4.527

662

2.583

1.591.880 1.826.593

616

2.543

718

Portosol (RS)

2.069

3.860.355

1.866

Fonte: adaptado de Nichter et al 2002.

Alguns dados de Nichter divergem em pequena proporção dos apresentados em "Levando os serviços de microcrédito às pessoas de baixa renda: o Crediamigo no Brasil", in "Em Breve", n° 7, Banco Mundial, agosto de 2002. A análise sobre o programa Crediamigo 42

apresenta a distribuição de seu produto por meio de 164 das 174 agências do Banco do Nordeste. Seu público é composto de microempresários já estabelecidos, fornecendo meios de financiamento de seu capital de giro e para ativos fixos necessários. Não se exigem garantias, utilizando-se de aval solidário para concessão dos empréstimos a grupos formados de 3 a 5 pessoas que garantem o empréstimo mutuamente. Seu prazo tem em média 3 meses de duração. Na primeira ocasião, os empréstimos restringem-se à faixa de R$ 300 à R$ 700, podendo chegar à R$ 4.000 por sucessivas renovações. A taxa de juros atualmente é de cerca de 3,5%. Há mecanismos de estímulo à adimplência, com abatimento de 15% sobre os juros, caso todas as parcelas sejam pagas em dia. O programa ainda cobre demandas individuais e de investimento. Entre 1998 e 2002 o Crediamigo apresenta expressiva penetração geográfica, número de clientes e extensão territorial ao seu alcance, com possuir cerca de 100.000 clientes ativos e uma carteira a receber de R$ 56 milhões distribuídos em 702 municípios do Nordeste. Sua estrutura permite reduzir significativamente os custos de transação aos clientes. É a maior instituição de microcrédito no Brasil. Essa análise revela o perfil estrutural que confere ao programa Crediamigo grande parte do seu sucesso em termo de penetração regional. Porém, se visto pelo número médio de clientes por agência, percebe-se que sua escala não difere muito das demais instituições. Se os dados são de Nichter et al; a escala por agência do programa é de 1218 clientes por agência, se os números são do artigo publicado pelo Banco Mundial, então sua escala fica em cerca de 600 clientes por agência. O importante é que o número de clientes por agência reflete na viabilidade econômica e financeira dos programas quando se tem em mente que os custos globais do programa serão cobertos, em objetivos restritos, se houver uma escala mínima de clientes que movimente o necessário em recursos financeiros, e sejam cobrados juros e taxas administrativas, para garantir a sustentabilidade da rede distribuidora55. Essa aparente vantagem do Crediamigo em usar as instalações do Banco do Nordeste para obter estes resultados, pode mascarar a real viabilidade do programa se pensássemos em obter esses resultados através de outras formas estruturais disponibilizadas. Em fim, segundo a pesquisa de Nichter et al, das 112 IMF's operantes atualmente no Brasil oito atendem a pelo menos 1.000 clientes, enquanto 88 atendem a menos de 500

vale lembrar que os empréstimos médios são baixos, o que quer dizer uma maior clientela para movimentar uma massa necessária de recursos que viabilize o programa no curto, médio e longo prazos.

55

43

indivíduos. Mais detalhadamente, o Gráfico 6 mostra que 38% das instituições operam com menos de 100 clientes, 32% tem entre 100 e 500 clientes em seus programas, 16% agregam tem 500 ou mais clientes e menos de 1.000 e as IMF's que possuem clientes ativos de 1.000 à 1.999 representa cerca de 7% do total do Brasil. O que prevalece no quadro institucional são as menores IMF's. Gráfico 6:
Distribuição de IMF's por n° de clientes

140 120 100 80 60 40 20 0

121

N° de IMF's

46

39 19 8 9

0-99

100499

500999

1000- 2000 ou Total 1999 +

Faixa por n° de clientes

Fonte: adaptado de Nichter et al 2002.

Se considerarmos as IMF's no Brasil com mais de 2.000 clientes ativos como "grandes", verificaremos que o segmento de microfinanças no Brasil se apresenta intensamente concentrado, com 9 instituições operando com 79% dos clientes ativos do país, e um parcela pulverizada com 112 instituições atendendo 21% da clientela ativa. No entanto, devemos ressaltar que o mais importante é saber se estas pequenas IMF's que prevalecem no quadro geral, em número, dispõem de condições para atender de forma sustentável e com tendência crescente uma parcela significativa da demanda potencial. Se elas trabalham atualmente com estratégias viáveis para, no médio e longo prazo, consolidarem uma porção de clientes ativos que signifique uma maior penetração na demanda potencial, hoje com 98% sem cobertura pelos programas de microcrédito, então significa uma desconcentração e desenvolvimento do setor de microfinanças no Brasil. I.3.2 Microconclusão Nos últimos dois anos o setor de microfinanças aumentou substancialmente no Brasil. Os clientes ativos aumentaram em 81 mil tomadores e a carteira de empréstimo total passou 44

de R$ 43,4 milhões para R$ 138,8 milhões. Esse aumento tem um reflexo qualitativo no empréstimo médio, aumentando seu valor estimado em 55%. As atividades de microfinanças variam substancialmente nas regiões brasileiras. O Sudeste concentra a maior parte das IMF's, e o Nordeste possui as maiores parcelas de clientes e carteira ativos no país, com mais de 6 vezes clientes e mais de 2 vezes a carteira ativa do Sudeste. O Sul possui o maior empréstimo médio, com mais de três vezes o empréstimo médio do Nordeste. A renda pode ser um componente que reforce a tendência sulista em ter maior empréstimo, embora não explique completamente essa questão.

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CAPÍTULO II - AS CARACTERÍSTICAS DA DEMANDA
O capítulo I apresentou uma visão sistêmica da oferta de microcrédito no Brasil, Primeiramente consideramos, com base nos dados apresentados em textos especializados, que o setor de microfinanças é predominantemente ofertante de microcrédito. Definimos o microcrédito de acordo com o seu significado, objetivo e destino, isto é, finalidade e público alvo. Apresentamos uma classificação dos meios institucionais que atuam no setor microfinanceiro e uma análise geoquantitativa da distribuição dos recursos envolvidos nos programas de microcrédito operantes no Brasil. Neste capítulo será apresentada uma contextualização da demanda de microcrédito com objetivo de especificar os demandantes potenciais em número, características econômicas, posição e peso na economia brasileira. Após será analisado a camada social em que está predominantemente inserta. Primeiro tratar-se-á dos micros e pequenos empreendimentos no Brasil, em termos das discussões conceituais e analíticas sobre o assunto. Na Segunda parte vamos tratar da quantificação da demanda, da metodologia utilizada no estudo que focalizamos para estimar a demanda potencial (PDI-BNDES), vamos especificar o setor informal numa discussão qualitativa e quantitativa, salientando a unidade produtiva informal e o trabalho que a compõe. Por último faremos uma breve apresentação do perfil social dos microempreendimentos, ressaltando a pobreza que é caracteristicamente presente entre aqueles que desenvolvem atividades microempreendedoras. Não dispensando, porém, os microempreendedores que, embora possuam algum tipo de precariedade em seus negócios, não são caracterizados dentro da faixa de pobreza. II.1 As Micro e pequenas empresas no Brasil Do ponto de vista legal, entende-se por microempresa a pessoa jurídica ou firma individual que tem receita bruta anual igual ou inferior a R$ 244.000,00 e por empresa de pequeno porte aquela que tem receita bruta anual superior a R$ 244.000,00 e inferior a R$ 1.200.000,00 (Lei 9.841 de outubro de 1999 que estabelece o Estatuto da Microempresa). Quando se trata de linhas especiais de crédito essa classificação pode ser adequada. Mas para fins tributários a classificação mais adequada coloca a microempresa como organização produtiva que tenha receita bruta anual de até R$120.000,00 e por pequena empresa aquela

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que possui receita bruta anual dentro dos limites R$ 120.000,00 (inferior) e de R$ 720.000,00 (superior), respectivamente (Lei 9.317 de dezembro de 1996). Considerando pela mão-de-obra empregada, as microempresas são definidas como aquelas que empregam até 19 trabalhadores quando situada no ramo industrial ou até 9 empregados quando situadas no setor de serviços ou de comércio. Pequenas empresas são aquelas que empregam de 20 até 99 trabalhadores, quando na indústria, ou de 10 a 49 trabalhadores nos setores de comércio e serviço. Esta é uma definição dada pelo IBGE. Analisando a participação das micro e pequenas empresas (MPE) nos setores produtivos da economia brasileira percebe-se que elas constituem 98,8% de todas as empresas operantes na economia. As MPE's se compõem em 51% do setor comercial, 35% do setor de serviços e 14% do setor comercial. Elas empregam cerca de 44% dos trabalhadores, dos quais 40% estão no comércio, 34% no setor de serviços e 26% estão empregados em atividades industriais. As MPE's empregam 78% de toda mão-de-obra do setor de comércio nacional. Pela ótica da distribuição dos salários e outras remunerações, as MPE's são responsáveis por 17,4% da massa de salários e outras remunerações despendidas no país, um volume de cerca de R$ 36 bilhões. O setor de serviços é o que mais despende salários e demais remunerações entre as MPE's, com 38% do total. Os setores da indústria e comércio despendem 36% e 26% do total de salários entre as MPE's. Fazendo o cálculo das remunerações médias1 das MPE's, verifica-se que o valor chega à R$ 2926. Segregando o valor das remunerações médias por setor, a indústria é que possui maior média com R$ 3972 por trabalhador ocupado neste setor. O setor de serviços possui uma remuneração média de R$ 3237 e o comércio é o que possui o menor valor com cerca de R$ 1963, ou seja, 2 vezes menor que a remuneração média do setor industrial2. A distribuição da receita e valor bruto da produção industrial revela que as microempresas têm 13,40% de participação e as pequenas empresas têm 14,82%. Juntas representam mais de 28% do total produzido no país. No setor de comércio a parcela movimentada pelas MPE's agrega 45% da receita bruta do setor. Tendo em vista os dados apresentados acima, as MPE's são predominantemente voltadas para o setor de comércio, e empregam parcela significativa da mão-de-obra nos 3 setores e na produção nacional (Elaboração própria à partir dos dados contidos no ANEXO I, SEBRAE).

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Remuneração média quer dizer, neste texto, o total de salários e outras remunerações das MPE's divididos pela população ocupada em atividades destas empresas. 2 Isso é explicado pelo fato dos setores de indústria e serviços empregarem trabalho mais qualificado em suas atividades.

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Segundo Schonberger, as microempresas são parte substancial de todas as empresas que operam na economia nacional reunidas em 9,5 milhões de firmas e representando a proporção de mais de 90% de todas as empresas3. O estudo do SEBRAE "Políticas de Pequeña e Mediana Empresa en Brasil", diz que essas empresas de ordem micro são responsáveis por 60% da força de trabalho, 48% da produção nacional, 21 % do PIB, tendo relação de dependência direta com elas 45 milhões de pessoas4. Se considerarmos as firmas com no máximo 4 empregados, as microempresas figuram dentro dos setores de indústria, comércio e serviços com 46%, 78% e 82%, respectivamente, do total de firmas operantes5. Luiz Eduardo Galvão, em artigo publicado na revista Rumos, cita os estudos da FIBGE em que "os microempreendimentos, na forma de iniciativas individuais familiares e cooperativas, rurais e urbanas, com ênfase no setor de comércio e serviços, eram, em 1995, perto de 75% dos estabelecimentos existentes no país, a maior parte na informalidade, que então abrigava 55% dos 68 milhões de trabalhadores brasileiros, estimando-se que 25% da população economicamente ativa (12,5 milhões) tinham, então, como fonte de trabalho e renda o pequeno empreendimento" 1. As estimativas sobre as MPE's no Brasil nem sempre convergem para um ponto em comum. Além disso, os conceitos sobre microempreendimentos e microempresas não estão bem delimitados, quando observamos os dados disponíveis sobre as firmas desse porte em atividade no país. Porém, ao considerar uma análise sobre as causas da baixa penetração do microcrédito no Brasil, temos que selecionar o indicador mais adequado dos possíveis tomadores do crédito popular produtivo, a fim de estimar a demanda potencial no país, e comparar com o número de clientes ativos totais cobertos pelas IMF's operantes no Brasil. II.1.1 Microconclusão A análise apresentada acima revela a diversidade dos focos adotados nas discussões acerca do público a que se destina o microcrédito. Há definições quanto aos empreendimentos objetivados pelo crédito produtivo popular quanto à lei, que define de acordo com a receita bruta, há uma conceituação de acordo com o número de trabalhadores utilizados pelas

SEBRAE, 1997. in: Schonberger, Steven. "Microfinance Prospects in Brazil". Banco Mundial. SEBRAE. Políticas de Pequeña e Mediana Empresa en Brasil. Documento apresentado à Mesa Redonda: POLÍTICAS Y PROGRAMAS PARA LA PEQUEÑA E MEDIANA EMPRESA. Washington, D.C, Banco Interamericano de Desenvolvimento, 1998. 5 Goldmark et al. 2000. 1 GALVÃO, Luís E. Crédito Popular: de grão em grão se faz o pão. Rumos, dezembro de 1998.
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unidades produtivas, como a do IBGE, e outras também representativas. O conceito quanto ao microempreendimento sofre variações que revelam sensíveis diferenças em relação ao objeto de estudo quando focado na demanda potencial das microfinanças. São os

microempreendedores, é certo, e eles compõem uma parcela significativa da economia brasileira, tanto na ótica da produção quanto na ótica do emprego. Porém, para clareza do que estamos procurando explicar, há a necessidade de estabelecer um conceito de demanda potencial que homogeneize o objeto em estudo neste capítulo, e de onde possa se determinar o que é essa demanda e quanto representa no Brasil, em número, e como está distribuída pelas grandes regiões. Diante dos dados apresentados e das estimativas existentes, dada a diversidade das discussões e pontos a que se referem, para efeito da análise a ser realizada neste texto vamos adotar as estimativas sobre o número de mcroempreendimentos no Brasil realizadas pelo PDIBNDES e através do estudo "Entendendo as Microfinanças no Brasil" de Nichter et al (2002). II.2 A demanda quantificada O PDI-BNDES desenvolveu um modelo abrangente para estimar o número de microempreendimentos no Brasil. Para isso utilizou diversos dados disponíveis através de publicações do IBGE sobre essas "populações", e determinou que a demanda potencial por serviços microfinanceiros partia inicialmente do fator "número de microempreendimentos". As pesquisas até então existentes utilizavam diferentes definições de microempreendimentos e metodologias pouco transparentes, com resultados que apresentavam alguma diferença entre si. Em relação às definições, há diferenças sutis entre microempresa e microempreendimento. O SEBRAE apresenta suas estatísticas com base no conceito de microempresa e considera como tal aquela unidade produtiva que na indústria possui no máximo 19 empregados, ou com 9 empregados ou menos no setor de serviços ou comércio. Porém, segundo a metodologia do PDI-BNDES será considerado microempreendimento a organização que desenvolve suas atividades econômicas empregando menos de 5 trabalhadores ou que possui eventualmente 10 empregados. Os dados que consideraremos na análise desenvolvida neste texto sobre a baixa penetração do microcrédito no Brasil, serão os obtidos segundo a metodologia utilizada pelo PDI-BNDES, e apresentada em Nichter et al 2002, para estimar os números de microempreendimentos e a demanda potencial de serviços microfinanceiros no Brasil.

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II.2.1 A metodologia utilizada Segunda a metodologia aplicada pelo PDI-BNDES, demanda potencial de microfinanças é a fração do número de microempreendimentos totais em operação num país que efetivamente demanda serviços microfinanceiros. Os microempreendimentos são definidos como unidades que desenvolvem atividades produtivas com menos de 5 empregados, ou eventualmente com 10 empregados. Quando se refere à "fração que efetivamente demanda serviços financeiros", quer dizer que 50% do universo total de microempreendimentos são assumidos como potencialmente demandante. Essa metodologia é arbitrada por Peck Christen no texto “Commercialization and Mission Drift: The Transformation of Microfinance in Latin America”, publicado em 20017. Não há elementos que fundamentem esta escolha de Christen, e simplesmente esse parâmetro é admitido. A estimativa da real demanda por serviços microfinanceiros necessita de uma abordagem mais cautelosa que considere em fatores sócio-econômicos das localidades, nas diferenças regionais, na idiossincrasia do consumidor e na preferência relativa por cada produto ofertado. Porém, tendo em vista o objetivo de comparar a taxa de penetração das IMF's no Brasil com as experiências atualmente em funcionamento em outros países da América Latina, para termos uma avaliação mais ampla entre os principais programas, adotaremos os resultados obtidos pela metodologia descrita em Nichter et al (2002). Definido o objeto a ser estimado, o fluxograma inscrito no Quadro 3 ilustra modelo utilizado pelo PID-BNDES:
Quadro 3: modelo de estimação de microempreendimentos no Brasil.
Formalidade:

.

Número de Microempreendimentos no Brasil

Empresas formais: 4 empregados ou menos (1)

Corte urbano/rural:

Empresas informais urbanas (2) Empresas informais Fazendas rurais de menos de 10 hectares (3)

Fonte: Retirado de Nichter et al, 2002. Christen, Peck R. “Commercialization and Mission Drift: The Transformation of Microfinance in Latin America”, 2001.
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Os dados utilizados para realização da estimativa através deste modelo são retirados de estudos publicados pelo IBGE, relacionados aos quadros numerados. O quadro (1) refere-se às empresas formais, com 4 ou menos empregados. Foi utilizado o Cadastro Central de Empresas do IBGE para reunir informações sobre empresas com este perfil e registradas em cada região brasileira. Elas representam 24% dos microempreendimentos em 2002. O quadro (2) diz respeito às empresas urbanas informais. Para sua quantificação foi utilizado o Estudo de Empreendimentos Informais Urbanos, publicado em 1997 pelo IBGE. A metodologia deste estudo consiste numa pesquisa estatística em grandes áreas metropolitanas em todo o Brasil, objetivando estimar o nível de informalidade das atividades econômicas urbanas. Extraiu-se deste estudo a porcentagem da população economicamente ativa de cada região que desenvolve atividades na informalidade. Com os dados da população economicamente ativa de cada região (dados encontrados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, de 1996 a 1999) determinou-se o número de pessoas trabalhando no setor informal urbano nos anos de 1996 a 1999. Dividiram-se esses últimos dados pelo tamanho médio das empresas informais para determinar o número de microempreendimentos urbanos informais, por região brasileira nos anos de 1996 a 1999. O resultado obtido foi de 58% de empreendimentos informais na área urbana, do total de microempreendimentos. O quadro (3) representa as fazendas rurais com menos de 10 hectares. Os dados foram obtidos do Censo Agrícola de 1995 do IBGE. Calculou-se a relação entre o número de fazendas de menos de 10 hectares e a população economicamente ativa em cada região. O valor percentual gerado foi aplicado à população economicamente ativa de cada região a fim de determinar o número de fazendas menores que 10 hectares por região ao longo dos anos de 1996 a 1999. Somando-se todos os dados gerados, calculou-se o número de microempreendimentos por região de 1996 a 1999. Calculando-se as taxas de crescimento compostas anuais de três anos, tomando como referência os dados de 1996 a 1999, estimamos os valores para os anos de 2000 a 2002. O resultado foi de 18% dos microempreendimentos em 2002. II.2.2 Os resultados obtidos O modelo utilizado pelo PDI-BNDES estimou a existência de 16,4 milhões de microempreendimentos atualmente no Brasil. Este universo estimado de

microempreendimentos conglomera tanto o setor formal, quando se refere às unidades registradas com 4 empregados ou menos registradas, quanto o setor informal, considerando as microempresas urbanas informais e fazendas rurais com menos 10m hectares (18% dos microempreendimentos em 2002, segundos os resultados dessa estimativa). O setor informal 51

agrega 12,5 milhões de microempreendimentos, o que representa 77% do total estimado. De acordo com a estimativa deslocada no tempo, entre os anos de 1998 a 2002, o crescimento do setor se dá a uma taxa de 3,7% ao ano8. O setor formal foi o que obteve maior taxa de crescimento, com uma taxa média de 6,7%, e o setor informal aumentou à taxa de 3% ao ano9. Porém em números absolutos, houve um acréscimo de 800 mil microempreendimentos formais, enquanto ao setor informal foi estimado um incremento de 1,4 milhão de microempreendimentos. Segregando os dados por regiões brasileiras, verificam-se novamente as diferenças. Na região Sudeste se encontra a maior parte dos microempreendimentos brasileiros, somando o total de 6,4 milhões (39%), dos quais 70% funcionam na informalidade. Na região Nordeste, estão 5,3 milhões de microempreendimentos (ou 32% do total no país). No Sul estão cerca de 17% e o norte e o centro-oeste juntos, e em igual parcela, possuem 12%. A região Nordeste é que possui o maior grau de informalidade, com 88% de microempreendimentos informais, enquanto no Brasil essa margem é de cerca de 76%. Na região Sudeste cerca de 70% dos microempreendimentos está na informalidade e na região Sul 63% são informais (Gráfico 7). Gráfico 7:
Microempreendimentos formais e informais por região (2002) 7 6 5
N° ME's (milhões)
1,9 0,7 Formal 1,0 4,5 4,6 0,2 1,7 0,8 0,1 0,9 Informal

4 3 2 1 0 SE NE S

CO

N

Fonte: Adaptado de Nichter et al. “Entendendo as microfinanças no contexto brasileiro”, 2002.

Baseado em Nichter et al, 2002. Ver Gráfico 1, desta monografia. Silva e Barbosa citam no texto "O sentido do trabalho Informal na construção de alternativas socioeconômicas e o seu perfil no Rio de Janeiro.", o estudo da PREALC que de 1986 a 1990 os trabalhadores na informalidade passaram de 24% para 29% da PEA.
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As regiões ainda revelam o aprofundamento da sua população economicamente ativa (PEA)10 com as atividades microempreendedoras. Embora a região Sudeste possua a maior parcela de microempreendimentos, a região Nordeste é a que possui a maior cota de microempreendimentos em relação a sua PEA. No Sudeste encontram-se 6,4 milhões de microempreendimentos, dos quais 4,5 milhões são informais, e uma PEA de mais de 34 milhões de pessoas. O Nordeste reúne 5,3 milhões de microempreendimentos, dos quais 4,6 milhões são informais, para uma PEA de mais de 22 milhões de pessoas. Essa proporção da população economicamente ativa por região que desenvolve atividades microempreendedoras indica em que tipo de trabalho parte significativa da população emprega seu tempo, dadas as opções de emprego de seu trabalho. De posse da estimativa do total de microempreendimentos, conforme a metodologia do PDI-BNDES, podemos calcular uma demanda potencial de 8,2 milhões

microempreendimentos, segundo o fator descontado de 50%, do total de 16,4 milhões, adotado com o fim de permitir a comparação da taxa de penetração das microfinanças no Brasil com outros países latino-americanos. II.2.3 O setor informal: ênfase no trabalho O setor informal representa 76% do total de microempreendimentos estimados pela metodologia construída e aplicada pelo PDI-BNDES aos dados obtidos pelo IBGE sobre certos aspectos da população e economia no Brasil11. Os empreendimentos do setor informal não possuem uma diferenciação clara entre capital e trabalho, não aplicam técnicas gerenciais aos seus negócios, tem frágil estrutura organizacional, produtiva e comercial,

conseqüentemente possuem baixos níveis de produtividade. Essas características refletem em muito a baixa qualificação do trabalho aplicado em suas atividades e determina a inserção dessas unidades produtivas no mercado como um todo. O perfil do trabalho informal, quanto a sua qualificação, reflete a estrutura organizacional dos microempreendimentos e a relação desse setor com opções de viabilização e capitalização de seus negócios existentes no mercado. Ele é caracteristicamente heterogêneo e seu modo de funcionalidade é pouco claro, possuindo riscos embutidos quanto à consecução de seus objetivos econômicos e à realização
A população economicamente ativa segue a definição adotada pelo IBGE: população com idade igual ou superior a quinze anos. Os dados relacionados à PEA foram tirados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, 1999. A PEA do Brasil é de 79.315.287. Na região Sudeste é de 34.422.715, no Nordeste 22.344.532, no Sul de 13.150.894 e no Centro-Oeste de 5.749.675. Na região norte foi calculada a PEA da zona urbana (3.533.532). Esses dados foram retirados de DIEESE/2000-2001-ANUÁRIO DOS TRABALHADORES, com base na PNAD.
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de possíveis obrigações com outras instituições. Explicitar algumas de suas características é necessário para entender a natureza microeconômica de uma parcela significativa da demanda potencial dos serviços financeiros especializados em microempreendimentos e as possibilidades de relação desses negócios com instrumento de financiamento de suas atividades. II.2.3.1 O setor informal: discussão qualitativa12 A natureza da informalidade é bastante complexa e engloba diferentes categorias de trabalhadores com desenvolvimento de atividades bastante particulares. Na literatura pode-se definir o tipo de trabalho realizado no setor informal por duas perspectivas básicas. Uma diz respeito à delimitação legal que qualifica o trabalho como informal quando as atividades a ele ligadas são realizadas fora da lei trabalhista. Nessa categoria reúne-se os trabalhadores por conta própria, os sem carteira assinada, os não remunerados e os que não contribuem para previdência pública. Essa perspectiva considera o trabalho como informal com base na sua ilegalidade/precariedade. A outra perspectiva o define de acordo com o a dinâmica econômica das unidades produtivas informais onde se realizam as atividades. São estabelecimentos de natureza atípica ao capitalismo, com emprego reduzido de técnicas; pouca diferenciação entre capital e trabalho; baixos níveis de produtividade e caracterizado pela fragilidade estrutural e desorganização. O setor em que estão empregados os trabalhadores informais possui um sistema simples de produção de mercadorias e serviços, predominantemente familiar, funcionando em condições precárias e com distribuição de renda sem base nos parâmetros de assalariamento. O empregador se confunde com empregado, e quando são autônomos utilizam ajudantes nãoassalariados, como familiares, ou quando formam microempresas possuem geralmente no máximo 5 empregados com ou sem carteira assinada. De acordo com a dinâmica econômica das unidades produtivas, a geração de renda do setor informal é definida pelos movimentos de expansão e contração da demanda do setor formal da economia, desde que esteja vinculado às cadeias produtivas das empresas de
Ver os itens I.2.1 e I.2.2 . Essa discussão se baseia nos textos: "O sentido do trabalho Informal na construção de alternativas socioeconômicas e o seu perfil no Rio de Janeiro.", de Silva e Barbosa, 200X; "Mapa do Trabalho Informal", de Jakobsen; Martins; Dombrowski; Paul e Pochmann, 1996 e "O Trabalho Informal no Brasil", publicado pelo DESEP/CAP - Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos/Centro de Apoio na web da CUT.
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mercado ou ao consumo dos trabalhadores formais. Por exemplo, um microempreendedor pode fornecer brincos, pulseiras e cordões para uma empresa de bijuterias, ou um desenhista que faz painel para festas de aniversário pode vender seus serviços a um buffet. Portanto, uma característica do setor informal é a sua dependência dos setores mais dinâmicos da economia (setores do sistema capitalista), tanto de seus níveis de investimento quanto dos salários despendidos. A heterogeneidade é um atributo do caráter da informalidade. São autônomos que trabalham como vendedores e ofertam seus produtos e serviços às empresas do setor formal, como aqueles que lidam diretamente com o público12. Há as empresas de pequeno porte e familiares como padarias, restaurantes, bares, etc; que sobrevivem por possuírem uma clientela consolidada, normalmente, no bairro onde operam, e que assalariam seus empregados. Porém nem sempre a jornada de trabalho é estabelecida segundo a lei. Não há parâmetros que separem o lucro do rendimento do empregador. São empreendimentos que reúnem elementos próprios do setor formal e do informal. Portanto, são empreendimentos e trabalhadores que estão no ramo da indústria, serviço e comércio, que desenvolvem múltiplas atividades de transformação, confecção, artesanato, consertos e reparações, revendas, etc. I.2.3.2 O setor informal: discussão quantitativa13 Dada a discussão anterior, a questão mais importante para analisar a relação dos demandantes de microcrédito, entre os serviços de microfinanças, com as instituições ofertantes é a natureza do microempreendimento quanto a sua estrutura, organização e diretriz capitalista. Os empreendimentos informais não são estritamente capitalistas, pois não há uma divisão clara entre trabalho e capital, são poucos estruturados, possuem baixa produtividade e dinamismo econômico. Os dados elaborados pelo DESEP/CPA, da CUT, nos fornecem um panorama geral sobre os trabalhadores no Brasil e uma visão de como se situa o setor informal, do ponto de vista do emprego da mão-de-obra. Comparando o número total de empregados com ou sem carteira assinada, nos anos de 1992 e 1997, verifica-se uma redução de sua participação conjunta no total do Brasil, passando de 52,61% para 51,91% respectivamente. Embora em
Os primeiros são produtores que oferecem seus produtos às empresas demandantes como peças de confecção, bijuterias e outros; e os segundos são camelôs, ambulantes, pedreiros, etc. 13 Essa discussão se baseia na elaboração dos dados sobre trabalho informal realizados pelo DESEP/CAPDepartamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos/Centro de Apoio, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, IBGE, 1997.
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termos absolutos o número de empregados tenha aumentado (carteira assinada aumentou em mais de 1 milhão, enquanto os sem carteira assinada em mais de 600 mil), a maior parcela do aumento líquido do total de trabalhadores se deu entre os trabalhadores doméstico, informal e empregadores. Com destaque para os trabalhadores informais14 (ver Tabela 2). Esses trabalhadores estão predominantemente situados nas grandes regiões metropolitanas, concentrando-se em áreas urbanas. Ao compararmos os dados divulgados no estudo do DESEP/CUT, verificaremos que aproximadamente 80% dos trabalhadores desenvolvem atividades não-agrícolas. Dado que nem todas as atividades que se desenvolvem na área rural são agrícolas, nem todos situados nesta margem de 80% são trabalhadores inseridos em áreas urbanas. Tabela 2
Distribuição dos Trabalhadores (agrícolas e não-agrícolas) Segundo Posição na Ocupação (Brasil - 1992 e 1997) Classificação Empregado (Total) Empregado C/Carteira Empregado S/Carteira Trabalhador Doméstico Trabalhador informal Empregador Não remunerado15 Sem declaração Total 1992 Nº 32.630.436 23.332.075 9.298.361 4.356.000 15.957.955 2.235.139 6.848.893 434 62.028.857 % 52,61 37,61 14,99 7,02 25,73 3,6 11,04 0 100 Nº 34.343.755 24.377.445 9.966.310 5.242.846 17.801.135 2.538.841 6.230.992 4.983 66.162.552 1997 % 51,91 36,84 15,1 7,92 26,91 3,84 9,42 0,01 100 Aumento Líquido 1.713.319 1.045.370 667.949 886.846 1.843.180 303.702 -617.901 4.549 4.133.695

Fonte: adaptado de DESEP/CPA/CUT a partir da PNAD/IBGE

Em 1997, os empregados totais estão situados, em sua maior parte, na indústria de transformação com 19,46%. Os serviços sociais têm 15,86% do total de empregados. O comércio de mercadorias e a atividade agrícola têm mais de 12% cada, a prestação de serviços diversos e a administração pública empregam 10,50% e 8,65%, respectivamente, dos considerados empregados com carteira assinada ou não (ver Tabela 3).
O aumento em número absoluto dos trabalhadores totais, segundo o DESEP/CPA/CUT, foi de mais de 4 milhões. Mais de 73% desse aumento foram distribuídos, principalmente, entre os trabalhadores domésticos, informais e empregadores. Dentre esses três tipos de trabalhadores, os informais tiveram a maior participação com mais de mais de 60%, e sobre o aumento total foi mais de 44%. 15 São basicamente ajudantes familiares de pequenas unidades produtivas.
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Os trabalhadores autônomos do setor informal estão distribuídos nas mais diversas atividades. Elas se concentram principalmente nas atividades agrícolas, na prestação de serviços diversos16, no comércio de mercadorias e na indústria de construção com as participações de 28,18%, 22,06%, 19,42% e 11,65%, respectivamente (ver Tabela 3). Tabela 3
Distribuição dos Trabalhadores (agrícolas e não-agrícolas) Segundo Atividade Econômica - 1997 Atividades Agrícola Indústria de transformação Indústria da construção Outras atividades industriais Comércio de mercadorias Prestação de serviços Serviços auxiliares da atividade econômica Serviços de transporte e comunicação Serviços sociais Administração pública Outras atividades mal-definidas ou não-declaradas Total (%) Fonte: DESEP/CPA/CUT a partir da PNAD/IBGE Empregado 12,26 19,46 6,43 1,99 12,83 10,5 4,12 5,22 15,86 8,65 2,68 100 Conta-própria 28,18 4,99 11,65 0,26 19,42 22,06 4,65 4,82 2,31 0,04 1,63 100

Observando a tabela, podemos perceber que os trabalhadores por conta-prórpia se concentram em atividades que exigem pouca qualificação, como o comércio de mercadorias, onde se encontram os camelôs, a prestação de "serviços diversos" (ver nota 14), e principalmente atividades agrícolas de baixa escala e rendimento. Ao contrário, grande parte dos trabalhadores classificados como empregados estão concentrados em atividades como a indústria de transformação, os serviços sociais e a administração pública, cujos postos de trabalho requerem qualidade e produtividade acima da média, geralmente. Um outro ângulo a ser explorado é o quanto está aprofundado o trabalho informal nas grandes regiões brasileiras, mais especificamente nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, onde se concentra a maior parte do microempreendimentos conforme a estimativa do PDI-BNDES. As regiões analisadas possuem características próprias, quando visto pela inserção do trabalho informal. As regiões Sudeste e Sul possuem maior participação de empregados com carteira assinada, se comparados com a Região Nordeste. Como pode ser observado na Tabela
Com serviços diversos quer se dizer que são basicamente os serviços pessoais, que, assim como o comércio e a construção civil, são caracterizados pela oferta de postos de trabalho de baixa qualidade e produtividade, nos aspectos referentes à remuneração, qualificação exigida, estabilidade do vínculo, entre outros.
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4, com dados de 1997, o Sudeste possui cerca de 45% de seus trabalhadores com carteira assinada, o Sul 39% e o Nordeste com aproximadamente 23%. O contraste com o aprofundamento do trabalho informal nas regiões indica que onde há maior dinamismo econômico e tendência em gerar maiores quantidades de emprego formais, o emprego informal da mão-de-obra tem menor participação. No Nordeste o trabalho informal representa 33,6% dos trabalhadores desta região. O Sudeste tem 23,4% e o Sul tem 25,1%. Quanto ao emprego considerado formal, porém, sem carteira assinada, característica de precariedade, o Nordeste ainda possui a maior parcela em relação a sua população de trabalhadores, com 17,9%. O Sul e o Sudeste possuem respectivamente 13,5% e 11,1%. Tabela 4:
Distribuição dos Trabalhadores (agrícolas e não-agrícolas) Segundo sua posição na Ocupação nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste - 1997. Região Sudeste Empregado (Total) Empregado C/Carteira Empregado S/Carteira Trabalhador doméstico Trabalhador informal Empregador Não-Remunerado Total Nº 17.201.373 13.271.021 3.930.352 2.557.630 6.797.484 1.261.561 1.208.710 29.030.948 % 59,3 45,7 13,5 8,8 23,4 4,4 4,2 100 Região Sul Nº 5.633.610 4.395.561 1.238.049 809.243 2.803.121 529.691 1.408.657 11.185.115 % 50,4 39,3 11,1 7,2 25,1 4,7 12,6 100 Região Nordeste Nº 7.411.454 4.136.311 3.275.143 1.160.666 6.145.813 451.970 3.116.648 18.286.551 % 40,5 22,6 17,9 6,4 33,6 2,5 17 100

Fonte: DESEP/CPA/CUT a partir da PNAD/IBGE

Quando visto pelo ângulo do rendimento, o trabalho informal em cada região revela diferenças. De acordo com O DESEP/CUT, 80% dos trabalhadores informais desenvolvem atividades econômicas por conta própria. Com base na Tabela 5, o rendimento médio dos trabalhadores por conta própria na região Sudeste excede os rendimentos dos empregados em 12,5%. No Sul essa diferença fica na casa dos 4%, porém no Nordeste a renda média dos autônomos é aproximadamente 29% menor que a renda média dos empregados (de carteira assinada ou não). As regiões Sudeste e Sul são regiões com maior dinamismo econômico e desenvolvimento do mercado formal, se comparada ao Nordeste, e tem o maior rendimento médio dos autônomos do setor informal. Possuem maior renda per capta e ainda gozam de 58

estrutura empresarial, logística e financeira bem desenvolvida, em especial o Sudeste, que suplanta as demais regiões do Brasil. Utilizando o pressuposto de que "quanto maior a geração de emprego e renda no setor formal, comandado pela lógica capitalista, maior é o rendimento médio do trabalho informal" 17, dado que os indivíduos e agentes do setor formal compõem parte significativa da demanda do setor informal, tem-se um componente que reforça as diferenças entre os rendimentos médios do trabalhador autônomo do setor informal nas regiões. Tabela 5:
Rendimento Médio dos Trabalhadores (agrícolas e não-agrícolas) por Categoria Ocupacional nas Regiões Sul, Sudeste e Nordeste - Setembro de 1997. Região Sudeste Rendimento médio (R$) 566 188 637 1.925,00 613 Região Sul Rendimento médio (R$) 480 156 501 1.697,00 527 Região Nordeste Rendimento médio (R$) 301 101 214 1.223,00 284 Brasil Rendimento médio (R$) 481 156 444 1.743,00 501

Empregado Doméstico Conta-própria Empregador Total

Fonte: DESEP/CPA/CUT a partir da PNAD/IBGE

O trabalho informal no Sudeste e Sul possui relação com um mercado consumidor de maior extensão e de relação de trocas mais intensa, e estão ligados, prioritariamente, às cadeias produtivas locais. No Nordeste, onde o mercado encontra-se menos dinâmico e de consumo mais limitado, o setor informal tende a se concentrar em serviços pessoais, de baixas produtividades e renda. II.2.3 O traço social da demanda: Uma conceituação da pobreza18 e a situação dos microempreendimentos O objetivo deste item é delinear a demanda de microcrédito considerando o contexto social em que se encontra predominantemente inserta, no que tange à pobreza. No entanto, este objetivo não visa tratar de forma pormenorizada o extrato social que guarda os microempreendedores. Mas considera alguns fatos que demonstrem a ligação entre
DESEP/CAP-Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos/Centro de Apoio, publicado na web da Central Única dos Trabalhadores (CUT). 18 Este item se baseia em LUSTOSA, T.Q. & FIGUEIREDO, J.B.B. Pobreza no Brasil: métodos de análise e resultados. Rio de Janeiro: UFRJ. Texto para discussão n° 205, 1989, e ROMÃO, M. C. Pobreza: conceito e mensuração. Brasília: IPEA, 1993. (Cadernos de economia, 13)
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microempreendimentos, informalidade e pobreza. No Brasil, em grande parte as discussões que envolvem a problemática do microcrédito estão diretamente relacionadas com o que este instrumento de financiamento alternativo tem com o problema da desigualdade social e com a pobreza, como forma de combatê-la. Devemos observar que os microempreendimentos não são somente aqueles geridos por indivíduos que se encontram abaixo da linha de pobreza ou na iminência de se encontrar abaixo desta linha. Há microempreendimentos que são mais dinamicamente econômicos, e são administrados por pessoas de determinado nível educacional um pouco mais elevado, chegando, às vezes, a ter 15 anos de estudo formal e que vive com renda individual ou familiar per capta acima de R$ 113 (No Brasil a linha de pobreza é estimada em R$ 113. Vide: Análise Sócio-Econômica in Conhecimento e desigualdade, Rio de Janeiro Trabalho e Sociedade, IETS, Número Especial 2002. Ministério do Trabalho e Emprego, página 33). Essa camada representa os microempreendimentos mais modernos, com organização mais apurada, potencial de crescimento maior e mais fácil inserção no mercado formal. Têm-se ainda aqueles microempreendedores que dispõem de condições relativamente boas de gerar renda, porém, não dispõem de um mínimo de recursos financeiros para adquirir equipamentos ou materiais para produção de mercadorias, ou para aquisição de mercadoria para revenda, ou capital de giro para transformar os recursos de que dispõe em produção e renda. Portanto, fora o corte em que se focaliza as condições materiais em que sobrevivem os microempreendedores, potencialmente demandantes de microcrédito, e que os caracterizam dentro da pobreza, outros microempreendimentos possuem boas condições de gerar renda, não possuindo dinheiro para tornar viável sua produção através da compra de insumos necessários, e há aqueles que são mais modernos e dinamicamente mais econômicos, constituindo-se em unidades mais organizadas e que utilizam a mão-de-obra mais qualificada, por vezes com nível superior de educação formal.
"No Brasil, em 2001, cerca de 14,6% da população pertencem às famílias com renda inferior à linha de extrema pobreza e 34% às famílias com renda inferior à linha de pobreza. Para uma população, pertencente a famílias em domicílios permanentes, de 165 milhões de pessoas, em 2001, o número de pessoas consideradas pobres é de cerca de 56 milhões enquanto que o de indigentes é de 23 milhões"19.

19

Conhecimento e Desigualdade, IETS, 2002.

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A pobreza é a condição de carência em que vivem determinados indivíduos ou população de uma sociedade de satisfazer suas necessidades básicas de alimentação, moradia, saúde, educação e vestuário, por viverem com uma renda insuficiente para aquisição, ou propiciar o acesso, desses bens ou por não haver uma oferta adequada de bens de consumo suficiente à saciedade das necessidades básicas. É a privação do indivíduo de participar do circuito de trocas em escala suficiente para que satisfaça não seus desejos de consumo mais amplo, mas de bens que conferem a ele a capacidade de sobreviver biologicamente, e de forma saudável, com acesso a oportunidades de obter conhecimento e preparo profissional e de um lugar em condições de habitação. Essa privação é conseqüência direta a escassez de meios de pagamento por parte dos classificados como pobres para realizar o circuito de trocas. A discussão acerca da natureza da pobreza realiza um corte conceitual em dois pontos básicos que a tratam como privação absoluta e privação relativa20. A privação absoluta referese ao estado de pobreza em que haja carência de elementos reconhecidamente indispensáveis à sobrevivência, em termos de suas continuidade e qualidade. Não há um consenso sobre as necessidades essenciais, porém podemos considerá-las como fundamentalmente a quantidade de fontes alimentares - em calorias, vitaminas, sais minerais, etc - necessárias ao equilíbrio biológico e manutenção da saúde de cada indivíduo e consumidas por dia, conferida pelo conhecimento médico, o acesso ao tratamento e acompanhamento médico no caso de doenças, as condições de moradia que o afastem de perigos relacionados a sua vida21, tanto de doenças quanto de desastres, e aos conhecimentos que o possibilitam do entendimento de seu papel e participação sociais. A pobreza vista pela privação relativa diferencia grupos sociais que não tem acesso aos meios de subsistência de que desfruta a maioria da população, e por isso são considerados como pobres. Uma situação em que os recursos destinados à manutenção da sobrevivência estão disponíveis para a maioria da população, mas há um grupo que não desfruta destes recursos então ocorre uma situação de desvantagem e o problema está na distribuição. A pobreza relativa aponta os grupos desfavorecidos por não acessarem os meios - determinado grau de consumo de bens pessoais, a qualidade dos serviços de educação e saúde ofertados, as oportunidades de emprego e condições de trabalho e as possibilidades de lazer, e a fração da

SEN, A. Three notes on the concept of poverty, world employment porgramme research Working. Genebra: I.L.O, 1978, citado por Lustosa et al, 1989. 21 Com isso quero dizer moradias em condições de saneamento básico adequadas e segundo os parâmetros aceitos de habitação no sentido físico-estrutural.

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população que tem acesso a esses produtos, o que ainda depende da natureza da sociedade em avaliação - utilizados na determinação do padrão de vida médio da população22.
“Para SEN (1978), a abordagem relativa complementa, em vez de competir com a noção absoluta. SZAL (1977) argumenta que desigualdade não necessariamente implica em pobreza: em uma distribuição de renda muito desigual, pode não haver privação absoluta, enquanto em uma região uniformemente pobre pode não haver desigualdade”. (LUSTOSA, 1989, p. 8)

Em seu texto, Lustosa (1989) propõe que o padrão absoluto deve prevalecer em situações, locais, onde a maioria da população é carente. Nesse caso os valores médios dos atributos selecionados para a medida do bem-estar/pobreza podem não ser satisfatórios, pelo baixo nível de bem-estar em relação às outras regiões mais ricas. No caso em que o padrão de vida é mais alto, as medidas de pobreza relativa, ou privação relativa, se tornam mais apropriadas, dado o nível de bem-estar em que se encontra a maioria da população. Romão diz em seu texto "Pobreza: conceito e mensuração", que as discussões teóricas tradicionais de economia, mais especificamente a teoria neoclássica, a Economia Política clássica e a análise marxista, não incorporam explicitamente a questão da pobreza como categoria analítica específica23. A distribuição é uma questão determinada nas relações de troca, e um caso especial da teoria dos preços. A renda é explicada pelo caráter limitado dos fatores de produção pertencentes aos agentes econômicos, não importando como se dá a repartição da propriedade dos fatores. Se há o desnivelamento na distribuição da renda, é porque há falta de capacitação e esforço de trabalho dos indivíduos, o que explicaria a pobreza. Assim coloca os neoclássicos. Mas o livre jogo das forças de mercado, relação entre oferta e demanda, mesmo que explicasse a dotação fatorial, não seria um referencial explicativo completo para a questão da pobreza24. A Economia Política clássica considera a produção, a troca, a distribuição e a acumulação com processos interdependentes e interrelacionados. Cada classe tem participação no produto da economia e assim se dá a forma como se agrupam o capital, trabalho e terra. No entanto, Romão aponta o conceito de pobreza, nesse contexto teórico, como a simples ausência de propriedade de meios de produção por alguns indivíduos, não
22 23

Lustosa et al, 1989. ROMÃO, M. C. Pobreza: conceito e mensuração. Brasília: IPEA, 1993. (Cadernos de Economia, 13) 24 Romão, 1993.

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havendo uma distinção clara da pobreza como um fenômeno originado dentro destas relações econômicas25. A análise marxista concebe a distribuição do produto como uma conseqüência intrínseca da estrutura de produção, das relações de propriedade de das relações de classe. Os capitalistas se apropriam do excedente gerado na produção pelo monopólio que possuem dos meios de produção, e, assim, seu controle sobre o uso do trabalho. A renda da propriedade é gerada pelo valor do excedente da produção. O autor argumenta que na perspectiva marxista os trabalhadores, explorados pelos meios de produção, são os mais desfavorecidos pelo sistema capitalista, mas não há uma menção direta aos pobres. Conclui dizendo que a pobreza não constitui argumento essencial na teoria marxista26. Segundo Romão, é a subjetividade sobre o conceito de pobreza que constitui o principal entrave ao desenvolvimento da discussão sobre a questão27. E que deve procurar apurar quais são os níveis mínimos de necessidade que determinados segmentos da sociedade estariam demandando para apontar qual o nível mínimo de bem estar adequado, considerando a importância que atribui a sociedade em questão a estas necessidades28. No entanto, frente a todas as discussões, considera-se nesta monografia, de forma geral, que a questão da pobreza como a privação de recursos necessários à subsistência está vinculado à dinâmica do sistema sócio-econômico no qual está inserido, considerando o fator estrutural da sociedade ao longo da história no que tange à distribuição da propriedade e da renda, e nas relações de poder político e econômico caracteristicamente concentrado nas mãos de determinados estratos da sociedade. Os microempreendimentos são unidades produtivas que funcionam com baixo estoque de ativo e são caracteristicamente geridos por pessoas de baixa renda. Canuto coloca que "a única forma de erradicação da pobreza consiste em ampliar os estoques de ativos com os quais os pobres participam, quando entram, do processo econômico, paralelamente criando-se condições e estímulos para seu uso sustentável."
29

Nossa discussão central não é sobre

formas de erradicação da pobreza, porém, o microcrédito, dentro do contexto das
Romão, 1993. Romão, 1993. 27 “Onde impera a subjetividade em graus variados não se pode esperar que a base conceitual do fenômeno seja tratada de forma incontroversa”. Romão, 1993. 28 Romão, 1993. 29 Canuto, Ottaviano in "Doses de Microcrédito Contra a Pobreza", publicado jornal VALOR ECONÔMICO em 02/01/2002.
26 25

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microfinanças, é uma das formas de combate à pobreza servindo como ponte entre as necessidades de crédito para constituição material dos microempreendimentos, "uma gama de atividades de pequena escala, baixos requisitos de capital, tecnologia e qualificação de mãode-obra, que nem por isso deixam de ser agregadoras de valor e de constituir-se em oportunidades para pequenos investimentos"
30

, e um sistema que confira crédito de forma

adequada às características de econômicas e sociais dos microempreendedores, como pobreza, por exemplo, e aos negócios em si31. Devemos ainda ressaltar que "a ausência de garantias patrimoniais, as dificuldades de seleção e monitoramento das operações, as escalas mínimas de transação da instituição financeira típica etc., impedem o engajamento desta naquele mercado potencial."
32

E os trabalhadores operam em condições precárias, e vivem com

insegurança financeira e baixa renda. A discussão sobre pobreza delineada neste item da monografia é uma base conceitual que define a situação em que se encontra grande parte dos microempreendimentos que demandam microcrédito, sendo os empreendedores pessoas em que estão situadas no estrato social que sofre de escassez de recursos, com ênfase na renda, e de reflexos como entraves nas oportunidades de participação no sistema social e econômico de forma efetiva, são pobres, e que constituem o perfil social amplamente configurado entre os demandantes potenciais de microcrédito. II.2.3.1 A necessidade por serviços financeiros: para onde aponta a demanda33 Há uma série de necessidades por serviços financeiros requeridas pela demanda potencial (microempreendedores de baixa renda ou não necessariamente nessa condição) não atendida. Os clientes, muitas vezes, se preocupam com a forma como os serviços são oferecidos. No Rio de janeiro, segundo um estudo realizado em comunidades de baixa renda34 de duas cidades, os empreendedores apontam que a falta de recursos era a principal barreira ao crescimento de seus negócios.

Canuto, Ottaviano in "Doses de Microcrédito Contra a Pobreza", publicado jornal VALOR ECONÔMICO em 02/01/2002. 31 Ofertar fontes de recursos para máquinas de costura, instrumentos para artesanato, equipamentos de cozinha, pequenos barcos de pesca, carroças, etc. 32 Canuto, Ottaviano in "Doses de Microcrédito Contra a Pobreza", publicado jornal "VALOR ECONÔMICO" em 02/01/2002 33 Esta seção se baseia em Brusky & Fortuna, 2002 , e Nichter et al, 2002, e Wright, Graham A.N. 2001. Market Research and Client-Responsive Product Development, Microsave-Africa. 34 Devemos novamente ressaltar que os estudo de Brusky & Fortuna, 2002, adotam baixa renda como a faixa de 2 à 3 salários mínimos, com base nas classificações utilizadas pelas prefeituras de Recife e São Paulo em seus programas junto às população carentes.

30

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Os microempreendedores, em geral, demandam acesso rápido aos recursos; poucas exigências de garantias, que a documentação exigida seja apropriada (simples) e que as instituições ofertantes estejam localizadas convenientemente, isto é, próximo ao local onde funcionam seus negócios e/ou moradia.
35

São preferências consistentes com a situação de

precariedade em que vivem. Nichter et al, 2002, coloca que algumas preferências são peculiares à realidade brasileira. São elas: "comprar tempo e não dinheiro" e empréstimos com parcelas menores e prazos maiores. Com "comprar tempo e não dinheiro", quer dizer que os microempreendedores preferem o crédito direto do fornecedor, com base em datas específicas e pagamentos de acordo com suas condições financeiras em tempos apropriados36, do que recorrer aos empréstimos de pagamento único ou de parcelas fixas oferecidas pelas IMF's. Brusky e Fortuna, 2002, apontam que os microempreendedores de São Paulo (cidade) e Recife entendem que comprar a crédito é normal em suas vidas, porém tomar um empréstimo é considerado anormal37. Portanto, é importante entender qual a relação que os microempreendedores possuem com os mecanismos de financiamento, e o que significa, em termos de risco, seja pelo lado econômico e financeiro seja por "sujar" seu nome, adotar determinadas vias para aumentar seus investimentos no negócio ou gerar capital de giro para levar seu negócio adiante. No livro "O Banqueiro dos Pobres", de Yunus, os empréstimos aos pobres de Bangladesh eram feitos em pequenos montantes e os prazos eram curtíssimos, chegando a ser diário. Em muitos outros países, as IMF's oferecem os empréstimos com pagamentos semanais, em prazos de até quatro meses, geralmente. No Brasil, a preferência se dá por parcelas menores em prazos mais dilatados (normalmente entre 12 e 24 meses). Os prazos maiores diminuem as parcelas, significando maior facilidade para realizar os pagamentos. Ao obter parcelas menores, os microempreendedores podem combinar esta responsabilidade com o pagamento das parcelas de outros bens de consumo adquiridos, normalmente, no crediário de lojas. O que é próprio das economias familiares dos microempreendedores.

Vide: item I.1.2 do capítulo I desta monografia. Estas demandas são generalizadas em todas as situações referentes no mundo. 36 Normalmente de acordo com a realização de receitas, no presente ou futuro, e com o pagamento de outras dívidas não negociáveis. 37 Gallager et al, 2002, diz que em algumas populações pobres pesquisadas os microempreendedores, grupos entrevistados, "distinguiam entre comprar a crédito, que é considerado uma negociação sobre o tempo; e aceitar um empréstimo, que é considerado uma transação financeira".

35

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Há características que são particulares ao tipo de microempreendimento quanto as suas atividades desenvolvidas. Por exemplo, para os fazendeiros a rapidez em relação ao desembolso do crédito não é tão importante, já que a dinâmica de suas atividades exigia maior tempo para planejar a combinação dos elementos essenciais para plantar e colher sua produção. Ainda, os microempreendimentos rurais prefeririam casar os pagamentos a serem quitados com o seu fluxo de caixa. Em relação ao urbano, o meio rural apresenta maior tendência em trabalhar na configuração de grupos, seja associativismo, cooperativismo ou outras conformações. Mas no geral, a demanda rural por serviços financeiros no Brasil teria necessidades não atendidas. E segundo Nichter: "é interessante ressaltar que a maioria dos produtores rurais tinha experiência com tecnologias bancárias avançadas: os desembolsos mensais dos benefícios de assistência governamental de desemprego, distribuição de cestas básicas, auxílio escola e pensões são obtidos através de máquinas automáticas em agências locais de bancos, utilizando um cartão de débito." 38 Se comparada às experiências de sucesso dos programas de crédito produtivo popular, dentro das microfinanças, desenvolvidos em países como Bolívia, Peru, Bangladesh, etc, os microempreendedores no Brasil possuem uma relação diferente com produtos financeiros. O interesse em que foi observado em Bangladesh, por exemplo, pelo instrumento de microfinanciamento não se aplica ao Brasil. Observando as fases existentes entre mercados mais ou menos desenvolvidos, com atenção aos clientes, podemos perceber os alguns aspectos39: (i) Os mercados incipientes de microfinanças têm cobertura e alcance limitados com poucos serviços ou produtos microfinanceiros comprovados, na possibilidade de existência. Os clientes têm consciência dos produtos financeiros que poderiam estar disponíveis, porém, tem pouco contato com instituições financeiras e com produtos financeiros formais. (ii) Os mercados em crescimento (situação meso) disponibilizam serviços

microfinanceiros em tempo considerável, com serviços oferecidos de forma adequada, com uma demanda consolidada. Há métodos eficientes que possibilitam estender a oferta com relativa rapidez. Aumenta, nessa fase, a consciência da
Nichter et al, 2002. Com base em Grant, William. 1999. Marketing in Microfinance Institutions: The State of the Practice. Development Alternatives International, citado por Nichter et al, 2002.
39 38

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disponibilidade dos serviços financeiros, dos trâmites para obter o financiamento e das responsabilidades envolvidas por parte dos demandantes. Há uma difusão do que são os serviços financeiros em áreas ainda inacessíveis aos produtos. (iii) Nos mercados desenvolvidos as IMF's cobrem quase toda a demanda potencial, com a maioria das filiais desenvolvidas. Os clientes tomam conhecimento das possibilidades e diversidade de instituições e produtos microfinanceiros por elas ofertados, aumentando as relações competitivas do mercado (exigem mais qualidade do serviço, preços e vantagens mais atraentes). Nichter ainda coloca que "outros aspectos relevantes ao segmento microfinanceiro foram levantados pelos estudos de demanda urbana incluindo a falta de conhecimento sobre as IMF's existentes, a relativa importância da cultura popular influenciando o comportamento do consumidor (por exemplo, as novelas) e o fato de clientes de baixa renda estarem acostumados a comprar produtos e serviços associados a campanhas de marketing sofisticadas e redes de distribuição extensivas"40. E que há "relativamente alto nível de exposição a técnicas de marketing e tecnologias avançadas dos clientes brasileiros, vis-à-vis o nível do desenvolvimento das microfinanças"41. Isto é, o mercado brasileiro possui "clientes sofisticados que podem ser muito exigentes com relação aos atributos do produto e que já estão familiarizados com tecnologias avançadas e técnicas de marketing"42. A esses fatores alie-se a baixa cobertura alcançada pelas IMF's (2% da demanda potencial), e temos uma mescla entre um mercado que reflete características de um mercado incipiente com um mercado mais desenvolvido em que os clientes sofisticados que podem exigir condições que confiram qualidade e adequação dos produtos frentes as suas preferências e necessidades. Essa característica é distintiva do mercado de microfinanças brasileiro, onde a IMF's tem a necessidade de estabelecer padrões operacionais e desenvolver formas para oferecer serviços com vista ao público que os demanda. II.3 Microconclusão O estudo da demanda, com base na bibliografia sobre o assunto, deixa-nos muitas questões. A ausência de estudos mais aprofundados revela a forma incipiente em que

40 41

Nichter et al, 2002. Nichter et al, 2002. 42 Nichter et al, 2002.

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se encontra o campo de estudos sobre microfinanças no Brasil e a necessidade de mais pesquisas sobre as características das populações de microempreendedores, demandantes potenciais de microcrédito. Os microempreendimentos brasileiros são predominantemente urbanos, com uma parcela de 82% do total. Eles se encontram em maior parte na região Sudeste, seguida do Nordeste, juntos agregam cerca de 71% dos microempreendimentos estimados. Os microempreendimentos informais são parte significativa, representando cerca de 76% do total. Os trabalhadores informais no Brasil representam grande parte dos trabalhadores Brasileiros, 25%, segundo os dados do DESEP/CUT. A inserção dos microempreendimentos na informalidade é importante, pois aponta em que condições se desenvolvem a maioria dos negócios de baixa escala e em que estrato social está inserido a maioria dos microempreendedores. Os sistemas de produção são de forma simples, há a ausência de condições estruturais e organizacionais que caracterizam seu funcionamento de forma precária, obtendo baixos níveis de produtividade. Quando estão ligados às cadeias produtivas do setor formal, os movimentos de expansão e contração possuem grande influência sobre a geração de renda dos microempreendimentos informais. A constituição do setor informal possui relação com a dinâmica econômica de cada grande região brasileira, como podemos observar nos dados apresentados, a região nordeste possui o maior percentual de trabalhadores informais entre o total de trabalhadores da região. Essas duas observações apontam a relação importante que o setor informal possui com o setor formal, tanto pela geração de renda quanto pela magnitude da informalidade de acordo com as oportunidades de emprego formal que cada oferece aos trabalhadores. Esse aspecto é importante, dado que os movimentos de expansão e contração do mercado formal, tanto em termos de renda e emprego, refletem na dinâmica do setor informal e em suas necessidades de insumos, capital e financiamento dessas necessidades. Então se coloca uma questão: que alternativas o setor informal busca para suprir suas necessidades de financiamento? Porém, os microempreendimentos não são somente os informais, embora seja a maioria, mas novamente levantamos esta questão de forma ampla: que alternativas de financiamentos produtivos possuem os microempreendimentos? 68

A análise sobre a demanda revela que os demandantes potenciais exigem condições mais apropriadas a sua precariedade para que acessem a serviços financeiros produtivos. Eles encontram impossibilidades de utilização do setor formal bancário, e buscam outras formas de financiamento como o crédito ao fornecedor, ao que parecem buscar flexibilidade prazos com adequação dos pagamentos às suas receitas auferidas, em datas e montante. Prazos adequados, parcelas menores e relação com o credor são importantes parâmetros para a decisão entro tomar um empréstimo ou não.

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CAPÍTULO III - A BAIXA PENETRAÇÃO: CAUSAS E NATUREZA
Os capítulos precedentes nos deram uma visão, do geral ao específico, sobre as características do quadro ofertante de microcrédito, dentro do contexto das microfinanças, e do público, a demanda potencial, a que se destina o instrumento microcreditício de apoio aos sistemas produtivos precários e de baixa renda. Porém, não é adequado pensar como os neoclássicos em que o mercado se reduz as relações entre oferta e demanda, dispensando todo processo de percepção do público em relação ao crédito produtivo popular, e o entendimento que as instituições operantes nesse setor têm de seu público alvo. Não basta ofertar produtos microfinanceiros para que se efetive uma demanda, que existe. Tampouco deve acreditar que a existência de uma demanda potencial de 8,2 milhões de microempreendimentos signifique, diante da oferta, uma procura que encontre no objeto "microcrédito" em si, a solução dos problemas de investimento e crescimento dos empreendimentos de escala micro. Há um hiato entre a estrutura ofertante e o reconhecimento da demanda, frente a todas as opções de crédito, de que os produtos microfinanceiros, especialmente o microcrédito, seja adequado e satisfatório aos anseios e necessidades dos pequenos e microempreendimentos. Ao que vimos, durante a discussão do texto, o Brasil tem condições para que se configure um quadro bem desenvolvido do setor de microfinanças, porém a penetração das IMF's no Brasil se encontra bem reduzida com 2% de cobertura de toda demanda potencial estimada, e revelada, segundo a metodologia utilizada pelo PDI-BNDES. O quadro é bastante significativo e, comparando com a consolidação dos programas ofertantes de microfinanças na América Latina, deixa algumas questões em aberto sobre "o que leva o Brasil, frente as suas condições propícias ao microfinanciamento, atingir tão baixa escala de demanda efetivada pelos produtos microfinanceiros, especialmente o microcrédito". Com condições propícias, em síntese, quer se dizer que há experiências ao longo de décadas de programas de microcrédito1 de IMF's, uma ampla base de clientes em potencial e um quadro estabelecido pelo setor bancário tradicional que reflete o esquecimento dos empreendimentos de baixas escala e renda. Este capítulo se propõe a uma reflexão sobre as causas da baixa penetração do microcrédito no Brasil, salientando que, no país, as IMF's oferecem predominantemente microcrédito. Iremos ainda mostrar como se encontram as penetrações em nível regional, as
1

No Brasil a introdução do crédito produtivo popular iniciou-se em 1973 com o Projeto Uno, tendo várias outras experiências desde então.

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opções de serviços financeiros de que se utilizam as pessoas no geral, e que serviços são mais utilizados pelo público alvo do microcrédito. Na próxima etapa iremos apresentar as causas tidas como mais razoáveis na literatura e analisá-las criticamente, tentando estabelecer uma ordem de importância e relação existente entre elas como possível explicação do quadro atual do setor de microfinanças no Brasil. Vamos também propor algumas sugestões de quais aspectos são importantes do ponto de vista da abordagem das instituições diante da problemática em questão. Devemos ressaltar que o tema é ainda recente no debate econômico e que o que se tenta é esclarecer, senão cooperar para um avanço, sobre a natureza das discussões e do quadro microfinanceiro brasileiro. III.1 A penetração do microcrédito no Brasil e nas grandes regiões. No Brasil as microfinanças, notadamente o microcrédito, atende a um público de 158.654 clientes ativos e tem uma demanda potencial estimada de 8,2 milhões de microempreendimentos. No contexto das microfinanças a penetração é a taxa obtida pela relação entre a demanda efetiva de microfinanças e a demanda potencial por serviços microfinanceiros, especialmente o microcrédito no Brasil.

Taxa de penetração = N° de clientes ativos x 100 demanda potencial

Calculando essa relação, no Brasil a taxa de penetração das microfinanças é de cerca de 2% da demanda potencial. Isso significa que para 100 microempreendimentos que tem opção por contratar serviços financeiros e, portanto, elegíveis para tanto, apenas 2 são servidos por produtos microfinanceiros. Determinar a taxa de penetração no Brasil, significa o quanto o setor opera, vis-à-vis, com o mercado potencial considerado em sua magnitude total. Revela o grau de cobertura que o setor institucional voltado para microempreendimentos tem tornado efetivo, de acordo com seus objetivos e estratégias adotados. A taxa de penetração no Brasil tem diferenças expressas em cada região. O Nordeste, destacadamente a maior região operadora com clientes ativos, tem taxa de penetração de 4,36% (basta ressaltar que a demanda potencial do Nordeste é de 2,65 milhões de microempreendimentos, enquanto o número de clientes ativos é de 115.582). Seguindo a região Centro-Oeste com cerca de 2%, a região Sul com 1,05%, o Sudeste com cerca de 0,6%

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e o Norte com aproximadamente 0,2%. A Tabela 6 mostra os valores da demanda potencial e dos clientes ativos relacionados a cada região brasileira. Tabela 6
Distribuição da demanda potencial e efetiva por região com taxa de penetração respectiva. Região Nordeste 5,3 2,65 115.582 4,36% Região Centro-Oeste 1 0,5 10.095 2,02% Região Sul 2,7 1,35 14.127 1,05% Região Sudeste 6,4 3,2 18.197 0,57% Região Norte 1 0,5 653 0,13%

Estimativas N° de ME's (milhões) Demanda potencial (milhões) Clientes ativos Taxa de penetração

Brasil 16,4 8,2 158.654 1,93%

Fonte: Elaboração própria à partir das estimativas do PDI-BNDES

A taxa de penetração da região Nordeste, expressivamente maior que as demais, é conseqüência da entrada do Banco do Nordeste no setor de microfinanças através do programa Crediamgo. Considerando os dados apresentados em Nichter et al, 2002, o programa Crediamigo tinha em 2001 o total de 85.309 clientes, o que representava cerca de 75% dos clientes ativos do Nordeste e 54% dos clientes ativos de todo o país. Segundo a publicação "Levando os serviços de microcrédito às pessoas de baixa renda: o Crediamigo no Brasil", in "Em Breve", n° 7, Banco Mundial, agosto de 2002, o número de clientes do programa Crediamigo está, atualmente, com mais de 100.000, distribuídos em 164 agências do Banco do Nordeste e atuando em 702 municípios do Nordeste. As outras instituições microfinanceiras não gozam das vantagens que programa Crediamigo possui através da rede de agências do Banco do Nordeste. Isto claramente significa maior alcance dos programas que destas vantagens dispõe, e que o alcance que uma IMF pode ter na região onde atua, em termos de municípios e distritos, parece indicar um fator limitante básico para as IMF's. É, pelo menos, um ponto de estrangulamento essencial do lado da oferta. III.1.1 Penetração no Brasil e em alguns países da América Latina Comparando-se as demais taxas de penetração de vários países situados na América Latina, o Brasil se encontra em patamar muito abaixo das taxas conseguidas nesses países. A Bolívia é o país com maior taxa de penetração, apresentando cerca de 163% da demanda potencial estimada neste país. A Nicarágua tem cerca de 72% de taxa de penetração, seguido de El Salvador, Paraguai, Peru e Chile com 69%, 33%, 39% e 27%, respectivamente2. O
Esses dados são retirados de Nichter et al, 2002, com base em Christen, Peck R. “Commercialization and Mission Drift: The Transformation of Microfinance in Latin America”, 2001.
2

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Brasil possui 2% de penetração, e se encontra em posição consideravelmente inferior, em termos de penetração, no setor de microfinanças, em relação aos países da América latina apresentados. Ao observarmos o caso da Bolívia, por exemplo, sua demanda efetiva foi de mais de 63% maior que a demanda potencial estimada. (ver Quadro 3) Quadro 3: Taxa de Penetração da Microfinanças no Brasil e em outros Países da América Latina País Bolívia Nicarágua El Salvador Paraguai Peru Chile Brasil
Fonte: Nichter et al, 2002.

Demanda Potencial Estimada 232.353 116.375 136.311 82.984 618.288 307.832 8.200.000

Clientes Ativos 379.117 84.285 93.808 30.203 185.431 82.825 158.654

Taxa de Penetração 163,16% 72,43% 68,82% 36,40% 29,99% 26,91% 1,93%

Se

considerarmos

que

a

demanda

potencial

da

Bolívia

é

100%

dos

microempreendimentos estimados, e não como 50% dos microempreendimentos dados como elegíveis de tomar serviços microfinanceiros, segundo Christen, sua penetração ainda seria alta, estando na faixa de 81% da demanda potencial. Essa discussão pode nos levar a escolher a proporção de microempreendimentos elegíveis3 como demanda potencial. Se a proporção no Brasil fosse de 20% dos microempreendimentos estimados, teríamos uma demanda potencial de 3,28 milhões de microempreendimentos, e mesmo assim chegaríamos próximo aos 5% de penetração, o que ainda seria baixo em relação às taxas dos países selecionados para comparação. Há argumentos específicos que procuram esclarecer a questão que encerra entre a existência de um ambiente propício para o desenvolvimento do setor microfinanceiro de apoio aos microempreendimentos brasileiros, e isso diz respeito, em síntese, ao quadro institucional existente e suas experiências, e a uma demanda potencial existente em larga escala esquecida
Microempreendimentos elegíveis são aqueles que estão na proporção arbitrada por Christen, e expresso na seção II.2.2 do capitulo 2 desta monografia, que significam 50%. Essa proporção pode ser mudada dependendo do foco da análise.
3

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pelo sistema de crédito tradicional. Isso quer dizer que a demanda, tendo claramente necessidades de microfinanciamento de suas atividades produtivas, comporta-se de forma inelástica em relação à oferta existente, sabendo-se que a quantidade de recursos financeiros ofertados não tem se configurado como o principal problema da baixa cobertura do setor microfinanceiro4. Um ponto importante a ser analisado é o grau de substituição que os demandantes conferem aos produtos alternativos ao microcrédito disponíveis nos mercados formais, semiformal e informal de produtos financeiros. Portanto, para analisar o peso que outras vias de financiamento possui na satisfação das necessidades financeiras dos microempreendedores temos de analisar que alternativas de financiamento esses pequenos agentes encontram. III.1.2 Que serviços financeiros são utilizados Grande parte das camadas de baixa renda da população não tem acesso ao setor bancário formal5. Mas diante das barreiras encontradas neste setor, os microempreendedores encontram compensações nos mercados semiformal e informal para atender às suas necessidades financeiras. Os serviços financeiros ofertados pelos setores formal, semiformal ou informal, podem ser, por exemplo, sob a forma de crédito em dinheiro ou o crédito parcelado. Não é o interesse, deste texto, especificar os produtos em si, mas sim indicar as opções mais comuns de serviços alternativos ao setor bancário formal e ressaltar a tendência do uso desses serviços pelos microempreendedores. Quando crédito em dinheiro, o setor formal oferece as modalidades de empréstimo bancário (com finalidade específica), crédito pessoal (bancário sob linha de crédito), adiantamento de dinheiro dos cartões de crédito (de bancos, lojas ou financeiras), empréstimo de financeiras, empréstimos das SCM's e a troca de cheque. Na forma de crédito parcelado oferece, em síntese, as opções de cartão de crédito, cheque comum ou especial (que podem ser utilizados com data pré-estabelecida para compensação) e o crediário de lojas. O setor semiformal quando oferece crédito em dinheiro adota as modalidades de empréstimo dado pelo empregador, empréstimos das OSCIP's, ONG's, Cooperativas de

Atualmente as IMF's não encontram obstáculos em obter recursos para operar no mercado de microcrédito, sejam obtidos por doações ou financiados por instituições financeiras. 5 Segundo a publicação McKinsey and Company. 1999. Produtividade no Brasil: A Chave do Desenvolvimento Acelerado,” Editora Campus (Adaptado por Míriam Leitão), 70% da população brasileira se encontra em total exclusão do sistema financeiro formal.

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crédito e das Cooperativas de múltiplo propósito. Algumas ONG's realizam troca de cheques. Quando parcelado tem-se as modalidades de crediário da lojinha e crédito dos fornecedores. O setor informal possui as modalidades de empréstimo e troca de cheque com agiotas, empréstimo em caixinha de empresas e o empréstimo entre parentes e amigos. Quando crédito parcelado, as opções são o crédito do fornecedor (comprar tempo), o fiado (vulgo pendura), crediário dos outros e o sorteio. As condições estabelecidas por cada setor, formal, semiformal e informal, para liberação e pagamento do crédito, e de outros serviços microfinanceiros, são parâmetros importantes na determinação da procura por tais serviços, pois podem fazer com que o tomador potencial perceba-as como atrativas, do ponto de vista da facilidade para adquirir os serviços financeiros, ou podem fazer com que os demandantes potenciais busquem outras vias de aquisição para satisfazer suas necessidades (meios mais cômodos de acordo com sua localização comercial ou residencial, e menos exigentes quanto às garantias). O Quadro 4 mostra as exigências geralmente aceitas por cada setor quanto ao grau de formalidade: Quadro 4: Condições exigidas pelos setores formal, semiformal e informal.
Oferta de crédito Formal Exigências a serem cumpridas: • Cadastro de Pessoa Física (CPF); • Carteira de Identidade (RG); • Comprovante e/ou Declaração de Residência; • Comprovante de Renda e/ou Avalista (individual ou grupo); • Nome limpo6. Relação contratual: Contratos, carnês, promissórios e recibos que registrem o recebimento, o reconhecimento da dívida e seu pagamento. Montantes e condições de pagamento: • Valores: R$ 50 a valores maiores • Reembolso: geralmente mensal • Prazo: 1 - 36 meses • Juros (sem incluir multas, taxas e juros de mora): 0 - 16 % / mês. Oferta de Crédito Semiformal Oferta de Crédito Informal Exigências a serem cumpridas: Exigências a serem cumpridas: • Poucos documentos são pedidos (CPF, • Nenhum documento é exigido contracheque/crediário para a concessão • Não há necessidade de ter nome limpo do crédito). Há casos em que não se pede documentos; • Não se exige nome limpo7.

Relação contratual: Alguns agiotas exigem assinaturas em promissórias, mas geralmente não há contratos por escrito nem recibo ou outros documentos que registrem as transações. Montantes e condições de pagamento: Montantes e condições de pagamento: • Valores: R$ 50 à R$ 5.000. • Valores: de R$ 10 a valores maiores. • Reembolso: de semanal à ou mensal. • Reembolso: de semanal à mensal. • Prazo: geralmente de 1 a 4 meses. • Prazo: 1 mês • Juros (sem incluir multas e juros de • Juros: de 0 a 45% ao mês (desde o caso de mora): 0 - 45%/mês. fiado até agiotagem). Relação Contratual: Em geral, não há contratos escritos nem recibos que registrem as operações, ou são contratos sem valor jurídico.

Fonte: Brusky e Fortuna, 2000.

É importante colocar o peso das exigências de documentação e garantias quanto às responsabilidades com obrigações passadas (adimplemento) no crédito ofertado pelos setores semiformal e informal. Isto quer dizer, por exemplo, que a situação de inadimplência de
6 7

Quer dizer não ter nome apontado nos serviços de proteção ao crédito (SPC, Telecheque, SERASA, etc.) Não há consultas às instituições de proteção ao crédito como o SPC, SERASA, Telecheque, etc.

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obrigações passadas não são verificadas, e a documentação também obedece às exigências de acordo com as possibilidades do cliente8. Há uma maior comodidade em adquirir os empréstimos por essas vias, dado que as relações entre os demandantes e ofertantes são mais simples e a liberação mais rápida. Assim mesmo analisar esta situação é muito complicado, pois não há como sabermos o quanto significa a elasticidade de substituição entres os diferentes tipos de serviços oferecidos, e se há uma relação consistente com as condições estabelecidas entres as exigências cobradas na oferta, escolha e o setor procurado para aquisição dos serviços microfinanceiros. No entanto, nos parece possível que a relação contratual não seria o fator de maior peso na decisão em adquirir o crédito pelas vias formal, semiformal ou informal. Mas sim a exigência de documentação e adimplência com obrigações financeiras anteriores, pois essa opção inviabilizaria grande parte dos tomadores potenciais de crédito produtivo popular. Por outro lado, a relação entre tomador e ofertante seria importante, pois os indivíduos em situação de precariedade poderiam preferir se relacionar com um ofertante que se colocasse de forma menos constrangedora, querendo saber menos sobre sua vida material, e efetivando a liberação em grande parte com base na confiança em sua palavra para realização do pagamento. Voltando à discussão sobre os serviços financeiros ofertados pelo setores formal, semiformal e informal, alguns tem de ser descritos para melhor entender a relação dos microempreendedores com as alternativas de financiamento de suas atividades produtivas. O setor bancário no Brasil é o mais desenvolvido da América Latina. Porém, o mercado de crédito tradicional no Brasil continua pouco desenvolvido9. A hiperinflação estimulou o setor bancário a aplicar os recursos sob seu domínio em atividades com ganhos relacionados à inflação. Com isso o crédito passou a ser uma atividade posta em detrimento, pelo custo de oportunidade entre outras atividades de maior ganho existente na situação. Durante o plano Real o crédito retoma o crescimento de suas operações de crédito, frente à tendência de estabilização da economia. A taxa de crescimento anual entre janeiro de 1999 e abril de 2002 indica 50% para o crédito de consumo às pessoas físicas e 17% para o
Os setores semiformal exigem CPF e contra cheque, há casos que nem isso se exige, e o informal não há qualquer exigência de documentos. O nome não precisa estar nos serviços de proteção ao crédito. Esses setores ainda não exigem contrato formal para liberação do crédito. Os agiotas podem exigir assinaturas de notas promissórias,, porém a difusão desse ofertante de crédito é intensa entre as camadas populares, as quais mostram não se importa com os juros extorsivos que cobram. 9 Para uma discussão mais detalhada ver: Soares, Ricardo P., “Evolução do Crédito de 1994 a 1999: Uma Explicação”, Texto para Discussão No. 808, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, julho 2001.
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crédito às empresas10. Lembrando que os bancos comerciais geralmente relutam em oferecer crédito aos micro e pequenos empreendedores. Diante dessa realidade os microempreendedores encontram outras formas para suprir suas necessidades de financiamento de investimento em capital produtivo. A abertura de contas bancárias que dê direito ao uso de cheques, simples ou especiais, pode ser via para financiar suas atividades produtivas, através da emissão de cheques pré-datados, dados como garantias a fornecedores e usados para compras parceladas. Porém, o acesso a esse recurso nos levaria a dificuldades impostas pelos requerimentos comprobatórios das condições de pagamento dos microempreendedores, e cairíamos na baixa procura dele por este meio. O crédito ao consumidor é oferecido pelas financeiras, na forma de empréstimos pessoais, e tem alto custo com taxas de cerca de 10% ao mês e prazos que variam de 1 a 12 meses, geralmente. O crédito ao consumidor é mais simples de se obter se comparado ao microcrédito, com menor burocracia, exigências e liberação mais rápida. As empresas que oferecem este serviço e utilizam estratégias de marketing agressivas e apoio institucional adequado. Geralmente exige-se renda mínima de R$ 300,00 e documentos de identificação. Os cartões de crédito colocam em suas estratégias de expansão de seu mercado os clientes de baixa renda. É um meio financeiro bem difundido, que ao adquiri-lo, possui bastante fluidez nas negociações de compra. Gallagher, 2002, mostra que em uma região pobre do Rio de Janeiro, capital, muitos clientes potenciais de IMF's financiaram o início de seus negócios através do uso do cartão de crédito. Esse instrumento é um concorrencial da IMF's. Embora de boa utilidade, as empresas de cartão de crédito geralmente exigem documentos comprobatórios de renda e de identificação, como carteira de identidade, CPF e comprovante de residência. O crédito da loja tem importante efeito substituição sobre os produtos microfinanceiros, no Brasil. Os consumidores no país tornaram esse tipo de crédito uma forma universal de aquisição de bens de consumo, abrangendo todos os níveis de renda. Nichter et al, 2002, cita um estudo realizado pela Universidade de São Paulo e pela Federação de Comércio do estado de São Paulo, onde os cheques pré-datados forma utilizados em 36% de todas as transações comerciais. Essa forma de pagamento é utilizada por grande parte das lojas distribuídas pelo país.
10

Vide: Nichter et al, 2002.

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O crédito ao fornecedor é um substituto em alto grau dos serviços microfinanceiro ofertados pelas instituições no Brasil, utilizados por negócios de vários portes. Essas condições de pagamento são utilizadas como estratégia para consolidar uma relação comercial com clientes atuais em um prazo mais longo, além de atrair novos clientes pelas boas condições que possa oferecer como renegociação sobre custo e prazo da obrigação pendente. Os agiotas requerem poucas exigências formais e se constitui em uma via de aquisição de crédito para todos os níveis de renda. Conforme as garantias apresentadas e os riscos relacionados, os juros cobrados, nesse caso, podem variar de 6% a 45% ao mês. As relações familiares e/ou entre amigos são outras alternativas de substituição do microcrédito. São empréstimos geralmente obtidos entre membros da família e do círculo de amizades. O montante emprestado tem valor restrito e é obtido através de cartões de crédito, crediário em lojas, etc. É uma fonte limitada de capital. Nas populações de Baixa renda estudada por Brusky e Fotuna, 2002, o crédito parcelado, categoria que engloba o cheque pré-datado, o fiado, o crediário da lojinha, por exemplo, e que possui diferentes taxas de juros, é a forma mais utilizada pelas populações de baixa renda. Mesmo existindo o reconhecimento e o entendimento de que a compra parcelada tenha no final das contas maior custo do que tomar um empréstimo, havendo a possibilidade de escolha entre as duas formas, a crédito parcelado é a opção geralmente escolhida. "Comprar a crédito significa ganhar um prazo suficiente para poder reunir as condições necessárias para efetuar os pagamentos. O que está sendo negociado é o tempo e, na cabeça da maioria dos microempreendedores, há pouca ou nenhuma correlação entre compras a crédito e operações financeiras. Pedir empréstimo, sim, é uma operação financeira, para os microempreendedores: o que está sendo comprado é o dinheiro, a ser pago em valor maior do que o que lhe foi dado (Para “comprar” R$ 1.000 , por exemplo, paga-se R$ 1.800 ou mais)"11. O crédito é visto como uma forma normal de adquirir uma dívida em troca de consumo presente, onde a cobertura das exigências é suficiente para ocorrer liberação. Os empréstimos, quando não automáticos, têm de ser justificados frente ao pedido, sendo mais complicado o processo de negociação. Essas razões reforçam a raridade com que essas

11

Brusky e Fortuna, 2002. (citando Gallagher et al, 2002)

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populações recorrem ao empréstimo para o financiamento de seus desejos de consumo12. O que pode em parte ser explicado por uma perspectiva cultural, que reflete o valor atribuído pelos indivíduos às duas diferentes vias de financiamento. O crédito parcelado permite a imediata aquisição de bens de consumo. Há as necessidades de curtíssimo prazo, como compras de alimentos e de objeto de utilização contígua. A estabilização da economia propiciada pelo Plano Real, preços mais estáveis e juros relativamente mais baixos que permitem prever o valor das prestações e o horizonte de pagamentos, aquece a consumo e inclui as camadas da população brasileira com renda mais baixa no mercado, através das compras a crédito, especialmente o parcelado. O ponto importante discutido nesta seção é o espectro de produtos financeiros, especialmente o crédito, substitutos dos serviços microfinanceiros e como as populações encaram essas opções no momento da escolha de um produto financeiro dentre essa diversidade.
"Enquanto alguns desses produtos estejam fora do alcance da maioria dos microempreendedores, outros estão especialmente focados na população de baixa renda. Manter este contexto em mente é fundamental, na medida em que o setor financeiro tem uma forte influência sobre mercado de microfinanças brasileiro. ... sobre a demanda, outros produtos não só se colocam como substitutos, mas moldam a percepção e expectativas dos clientes atuais e potenciais de microfinanças". (Brusky e Fortuna, 2002).

Um ponto de vista a ser explorado é a elasticidade de substituição entre os produtos microfinanceiros disponíveis no mercado. Se o indivíduo confere determinado grau de facilidade na aquisição de um serviço combinada à utilidade que esse serviço financeiro agrega, em termos de satisfação de suas necessidade, isso expressa suas preferências e os valores que atribui a determinados produtos que lhe confere a preferência por um produto específico. Porém, a fundamentação de alguma certeza científica sobre o assunto requer determinado grau de informação disponível, além de pesquisas específicas sobre o tema, o que não há e foge ao escopo deste trabalho. No entanto, o confronto entre as possibilidades de serviços financeiros e o microcrédito, ou microfinanças em contexto mais amplo, reforça a baixa penetração deste
No sentido estrito, crédito significa formas facilitadas de pagamento de compras ou de serviços, que não envolvem transferências físicas de dinheiro da parte de quem concede para a parte de quem toma, mas sim, ocorre uma negociação de bens ou serviços, com um custo embutido no preço da mercadoria. No sentido amplo, crédito ultrapassa os limites financeiros, a assume o sentido de hábito de cumprir os compromissos assumidos, qualquer que seja a natureza desses compromissos, financeiros ou não. Ou seja, confiança. Os empréstimos são estritamente a concessão de dinheiro do emprestador para o tomador. É uma compra de dinheiro por um valor
12

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último nas populações potencialmente demandantes, ainda mais pela percepção do que significa empréstimo para os demandantes potenciais, já que o microcrédito é uma forma de empréstimo. Esta relação será mais explicitada nos próximos itens deste capítulo. Ficamos aqui com a idéia de que os demandantes de serviços financeiros, e que estariam entre os demandantes potenciais de microcrédito, são influenciados pelas exigências requeridas pelas instituições, pela relação direta com o emprestador e pela percepção do que é empréstimo, definindo um grau de substituição entre os produtos financeiros existentes e refletindo na resistência da população em acessar determinados serviços financeiros, em escala menor. Esses fatos se relacionam com as causas da baixa penetração do microcrédito no Brasil. III. 1.3 Microconclusão Se comparado a alguns países da América Latina, o Brasil possui uma penetração muito baixa, com apenas 2% da demanda potencial estimada utiliza os serviços microfinanceiros através das IMF's. A literatura especializada no assunto não discute a questão da magnitude da demanda. Por exemplo, a média da demanda potencial estimada dos países apresentados no Quadro 3, excluindo o Brasil, é de 249.000, o que representa 3% da demanda potencial estimada no Brasil. O somatório da demanda potencial estimada de Bolívia, Nicarágua, El Salvador, Paraguai, Peru e Chile chegam à aproximadamente 1,494 milhão, o que representa apenas 18% da demanda potencial brasileira. Uma observação que tem de ser feita é que, considerando que a estimativa do PDI-BNDES tenha sido uma boa aproximação do número de microempreendimentos no Brasil, em relação aos países da América Latina ela se encontra em tamanho muito superior. O que exige que a oferta seja estruturada o suficiente, em número de instituições e volume de recursos financeiros ofertados como microcrédito, para dar cobertura a uma demanda de tamanha magnitude. Quanto aos serviços financeiros, há muitos serviços financeiros que as populações potencialmente demandantes utilizam como forma de financiar suas atividades econômicas. Os mais importantes são o crédito parcelado, o empréstimo com agiota e, em menor proporção, o empréstimo obtido junto á amigos e parentes. As populações de baixa renda de algumas regiões, e potencialmente demandantes de microcrédito, conforme alguns estudos publicados, conferem ao empréstimo um caráter "anormal", demonstrando resistência em
mais alto do que o seu valor de face, onde o emprestador recebe no futuro o pagamento por abrir mão do uso do

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utilizar essa alternativa financeira. A facilidade e rapidez para conseguir um empréstimo são elementos de grande importância, pois reflete na opção que um indivíduo demandante de crédito faz por um serviço específico ou outro. Essa relação determina o grau de substituição que a demanda confere aos demais serviços financeiros em relação ao microcrédito. A elasticidade de substituição entre os produtos financeiros, considerando as preferências e níveis de satisfação que os demandantes conferem a cada produto, é um fator importante a ser analisado, e não disponível nos textos sobre microfinanças, que revela quanto os demandantes estariam dispostos a adquirir um serviço em relação ao outro. O mais importante é que existe uma demanda que acessa outros serviços financeiros em detrimento de empréstimos, o que também engloba o microcrédito, e que a magnitude da demanda potencial brasileira de microcrédito, 8,2 milhões de microempreendimentos, requer um sistema institucional ofertante capaz de oferecer serviços microfinanceiros adequados e suficientemente fortes para realizar a cobertura de tão grande demanda. O que poderia requerer investimento e políticas específicas para o setor III. 2. As causas da baixa penetração: uma análise crítica. No Capítulo I apresentamos as características da oferta de microcrédito e a atual situação em que se encontra no Brasil. Definimos o produto ofertado, o seu objetivo como instrumento de microfinanciamento de atividades produtivas populares e, de forma breve, como uma introdução ao Capítulo II, o público a que se destina. Apontamos uma classificação das instituições que oferecem serviços microfinanceiros dentro dos setores formal, semiformal e informal, e que operam em contato com os clientes finais de forma direta, as instituições de "vanguarda", oferecendo crédito diretamente no local onde se situam os

microempreendimentos e tendo contato direto com eles, ou que atuam "em pró da constituição dos fundos, no desenvolvimento institucional e na capacitação do corpo técnico das instituições de "vanguarda"
13

. Frisamos também as instituições quanto a sua especialização

em serviços microfinanceiros, minimalistas, ou na intervenção que engloba mais serviços além dos microfinanceiros, como intermediação e serviços sociais, além de outros, chamadas integradas. Por fim, analisamos a distribuição dos recursos movimentados (número de instituições, carteira e clientes ativos) pelos programas vigentes das IMF's nas regiões brasileiras.

dinheiro no presente. 13 Vide: item I.2.2.2.1 desta monografia.

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No Capítulo II examinamos a demanda, efetiva e potencial, de microcrédito no Brasil. Apresentamos as diferentes abordagens existentes na literatura sobre as micro e pequenas empresas, além dos microempreendimentos. Optamos por adotar a quantificação da demanda estimada pela metodologia utilizada pelo PDI-BNDES, explicitando os parâmetros adotados para se chegar ao resultado: 8,2 milhões de microempreendimentos potencial demandantes. A razão para adotar esta estimativa é que ela propõe um tratamento conceitual homogêneo de microempreendimentos, utilizando os dados do IBGE, principalmente, para quantificá-las diante das várias perspectivas de estimativas. Discutimos o setor informal, parte representativa da demanda potencial de microcrédito, dando ênfase ao trabalho, em termos de informalidade, de forma quantitativa e qualitativa. Abordamos, ainda, a inserção dos microempreendedores no estrato social em que se situam, de acordo com a renda e condições de precariedade em que sobrevivem, ressaltando a existência daqueles que são mais dinâmicos economicamente e apresentam recursos (conhecimento, certa quantia de dinheiro e boas condições para crescerem e se desenvolverem) para o seu desenvolvimento, aqueles que possuem condições estruturais para gerar renda (conhecimento, tácito ou não, capitais fixos e mão-de-obra), porém necessitam de dinheiro para comprar equipamentos necessários à viabilização da produção (como bombas d'água para irrigar sua pequena plantação), e aqueles que dispõe de pouquíssimos recursos e por isso estão abaixo ou nas proximidades da linha de pobreza. Por último, discutimos a necessidade que a demanda, analisada nas seções anteriores, tem pelos serviços financeiros e que características esperam que a oferta tenha para satisfação de suas necessidades. Nos itens anteriores a este item, do Capítulo III, definimos a penetração e classificamos sua taxa no Brasil como baixa comparando-a as demais taxas obtidas em alguns países da América latina, como Bolívia, Nicarágua, El salvador, Paraguai, etc. Apresentamos os serviços financeiros, insertos nos setores formal, semiformal e informal, disponíveis e mais usuais pelos microempreendedores brasileiros. Analisamos estes serviços mais procurados pela demanda e quais razões levam os demandantes a optar por um ou outro serviço financeiro, destacando a relação entre o crédito parcelado e empréstimo e a percepção, em termos de valores, que possuem por cada via de financiamento. As condições em que se encontra a oferta e a demanda de microcrédito no Brasil configuram, à primeira vista, um quadro promissor para o setor: "experiências em microfinanciamento, uma ampla base de clientes em potencial e um setor bancário que tem

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tradicionalmente ignorado as micro e pequenas empresas"

14

. No Brasil há cerca de 30 anos

instituições atuam no fornecimento de microcrédito, inicialmente através do Projeto UNO15, com experiências desenvolvidas ao longo das décadas, a demanda potencial é estimada em 8,2 milhões de microempreendimentos, utilizando serviços custosos e clandestinos e com uma ampla necessidade por financiamento, e dificuldades de acesso ao sistema bancário tradicional. Essas características do quadro ofertante e demandante de microcrédito, assim como a relação entre ambos, analisadas nos capítulos e seções precedentes a este item, são condições necessárias para se entender a atual conjuntura do setor de microfinanças no Brasil, predominantemente ofertante de microcrédito, e a situação de baixa penetração em que se encontra. Porém, essa questão está em aberto, e o aparato estatístico e analítico talvez não seja suficiente para responder as questões sobre: "se há boas condições para o desenvolvimento do setor microfinanceiro, entre uma base institucional forte e uma demanda significativa, por que a baixa efetivação da demanda de microcrédito no Brasil ?" Diante das discussões sobre a atual situação do microcrédito no Brasil, em termos de difusão e penetração entre o total de demandantes, a literatura apresenta argumentos que apontam cinco causas, tidas como as mais importantes. São elas: o ambiente macroeconômico, a regulação do setor, a tradição de crédito dirigido do país, a fraqueza das instituições existentes e a ausência de em "efeito demonstração". Nos próximos itens vamos apresentá-las e analisá-las no sentido de entender a importância que cada causa revela para a atual configuração do setor de microfinanças no Brasil, dentro do quadro geral da oferta e demanda de microcrédito no Brasil. Esta proposição trata não de uma explicação definitiva, ou uma tentativa de isolar uma causa, já que partimos do pressuposto de que uma causa isolada não explica a atual penetração que os programas de microcrédito, mas que são causas isoladas que se correlacionam e reforçam o atual quadro do setor de microfinanças no Brasil. Isto é, uma baixa penetração de 2% da demanda potencial, frente às condições tidas como propícias para uma maior efetivação da demanda e desenvolvimento do setor microfinanceiro. Devemos ressaltar também, que tal análise objetiva um "avanço", dentro das explicações até então formuladas, no sentido de entender como essas causas interferem no desenvolvimento do setor de microfinanças no Brasil, e não

14 15

Goldmark et al, 2000. Vide: nota 33, do Capítulo I desta monografia.

83

formular uma explicação definitiva para situação. O assunto ganhou força recentemente no Brasil e carece de maior tempo para amadurecer. Ainda, devemos ressaltar que analisar as causas é um ponto importante para que estudos posteriores formulem sugestões de abordagem local baseada em microcrédito, caso seja o objetivo, para melhorias das condições de reprodução de microempreendimentos, microempresas e as de pequena escala, na geração de renda e emprego e promoção do desenvolvimento. III. 2.1 As causas da baixa penetração: argumentos mais aceitos. Vamos apresentar aqui, com base nas discussões publicadas sobre a situação do microcrédito no Brasil, os argumentos que considerados como mais aceitos como explicações da baixa penetração do microcrédito no Brasil frente às condições que se representariam como "boas" para que o microcrédito tivesse maior profundidade, atualmente, na relação com a grande demanda potencial existente. O Ambiente Regulatório16 O ambiente regulatório é o conjunto de leis e normas que indicam às instituições financeiras os serviços que podem ofertados de acordo com suas finalidades específicas e em que condições podem fazê-lo. Há anos atrás, muitas instituições de microfinanças operavam às margens da lei. Entre outros obstáculos, a lei da usura impedia qualquer instituição financeira não regulada de cobrar mais de 1% de juros por mês17. Recentemente a regulação do setor financeiro brasileiro permitiu que as OSCIP's realizassem operações de empréstimo sem que incorresse na Lei da Usura18, sendo ainda criado o formulário institucional da SCM19. Porém, mesmo diante deste avanço, o ambiente regulatório é considerado com um entrave às IMF's no Brasil.
"A regulamentação financeira no Brasil apresenta significativos controles prudenciais e é notoriamente caracterizada pela freqüência com que ela muda. Leis trabalhistas e tributárias são complexas e se somam à lista de incentivos negativos e restrições operacionais enfrentados pelas IMF's. Além disso, até então, não há informações claras disponíveis ao grande público sobre tais questões". (Nichter et al, 2002.)

16 17

Esta apresentação é baseada principalmente em Nichter et al, 2002, Goldmark et al, 2000, e Haus et al, 2002. Citado de Goldmark et al, 2000. 18 Vide: item I.2.2.2.3 desta monografia. 19 Vide: item I.2.2.2.4 desta monografia.

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As IMF's brasileiras sofrem de restrição, com base na lei, quanto aos serviços microfinanceiros que podem oferecer às populações demandantes, comparando às instituições do mesmo ramo que funcionam em outras partes do mundo. Esses produtos são principalmente poupança e seguros20. Essa restrição não significa necessariamente um entrave ao setor, porém, se focar-mos na visão estratégica de longo prazo de um programa, e administrativamente, o planejamento das IMF's fica restritamente focada no microcrédito, podendo-se comprometer o aprofundamento de sua relação com os clientes e a sua credibilidade no local21. Outro ponto importante, é que uma oferta mais diversificada de produtos microfinanceiros contribui para solidez, e sustentabilidade, das IMF's viabilizando economicamente sua atuação no local, além de suprir uma demanda com serviços financeiros mais adequados aos demandantes (empreendedores de baixa escala). Por exemplo, os depósitos são uma fonte de recursos de baixo custo financeiro para as IMF's, os quais poderiam ser revertidos em recursos para realização de mais empréstimos aos microempreendedores. O Quadro 5 aponta algumas restrições das IMF's, e dos bancos. Quadro 5: Serviços financeiros autorizados às IMF's
Modalidade de crédito Crédito produtivo popular Crédito ao consumidor Troca de cheque* Contas de poupança Seguros Serviços de penhora21 Cartão de crédito Bancos SIM SIM SIM SIM SIM SIM NÃO SCM SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO OSCIP SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO ONG SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO

Fonte: adaptação realizada de Haus et al, 2002. * algumas ONG's fazem trocas de cheques, embora seja proibido por lei.

Operar com poupança requer maturidade institucional22, e um determinado número de clientes para torná-la viável, isso confere à IMF's um aspecto importante que aproximaria seu perfil institucional dos bancos. Diante da lei, porém, "a legislação atual exige que grande

Em termos do desenvolvimento de novos produtos, é certo que prestar diretamente serviços de seguros, penhor ou empréstimos para habitação estaria fora de questão, do ponto de vista jurídico, para as instituições de microfinanças no Brasil, enquanto outras instituições no mundo, como os bancos Grameen, Bangladesh, e Rakyat, Indonésia, recebem depósitos e oferecem serviços de seguros. Vide: Goldmark et al, 2000. 21 No curto prazo, as IMF's não estão preparadas para oferecer serviços de poupança e seguros. Para ver mais de talhes sobre este parágrafo vide: Haus et al, 2002. 21 No Brasil, os serviços de penhora são monopólio concedida à Caixa Econômica Federal por lei. 22 Quer dizer que a instituição deve ter conhecimento e consolidação local, além de um aparato técnico administrativo de fundos de poupança para operam com segurança e fazer frente às responsabilidades de saques o recebimentos de depósitos.

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proporção dos depósitos à vista e dos depósitos em poupança sejam usados em programas de crédito rural e habitacional" 23.
"Os investidores estrangeiros podem ser desestimulados de investir na indústria brasileira das microfinanças, uma vez que deparam restrições monetárias e prolongados processos de registro". (Nichter et al, 2002).

Essa questão depende da relação que o Banco Central estabelece com as instituição financeiras que queiram investir no setor, principalmente entre financeiras que queiram investir em SCM's. Se assim o permite, e diante das exigências que se cobra para que estas instituições obtenham permissão, então o setor formal pode ver desestímulo para entrar no setor de microcrédito. No caso de inadimplência, ou atraso dos pagamentos, a IMF's tem de esperar cinco dias após a data de vencimento para realizar a cobrança das obrigações dos clientes. Algumas exigências legais proíbem as instituições microfinanceiras de apreender bens e retomar garantias, podendo ser realizadas somente com representantes do Poder Judiciário. No caso dos recursos humanos utilizados pelas IMF's, as leis trabalhistas são complexas e desestimulantes para as instituições que queiram contratar mais empregados e/ou mais qualificados, dado que existe os custos de contratação, por um lado, e os limites financeiros24, por outro lado. E mais:
"... as leis trabalhistas complexas podem criar riscos para as instituições que pretendem usar incentivos financeiros para motivar os empregados. Atividades criativas às vezes permitem que as IMF's contornem os regulamentos: o Banco do Nordeste terceirizou muitas funções do programa CrediAmigo, em parte para facilitar o uso de incentivos financeiros para os funcionários da carteira de crédito". (Nichter et al, 2002)

Com a legislação específica para as OSCIP's, isentando-a da Lei da Usura, e a criação do formulário institucional das SCM's; o ambiente regalório teve avanços consideráveis. Mas as restrições ainda existem, por exemplo, impedimento da criação de serviços de depósito. Quando se encontram maneiras de contornar as dificuldades, as IMF's necessitam de autorização para operar com qualquer atividade não prevista no padrão estipulado. Assim, mesmo os possíveis trâmites a serem seguidos para conseguir tais autorizações regulatórias

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Nichter et al, 2002. As IMF's não geram seus próprios recursos, estando dependentes, praticamente, de subsídios e doações.

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são obscuros25. Isso pode significar um desestímulo, ao ser bem custoso construir meios para conseguir as autorizações para realizar outras atividades. Há dificuldades de as IMF's se autoprotegerem da responsabilidade jurídica, o que pode torná-las avessas ao risco, um desestímulo à entrada, e mais complicado identificar as mudanças necessárias no ambiente regulatório para conferir maior liberdade de atuação econômica das IMF's. O Ambiente Macroeconômico O Brasil passou por décadas de hiperinflação atingindo a estabilização da economia somente com a implantação do Plano Real, em 1994. Para o setor de microfinanças esse fato econômico foi significativo para seu desenvolvimento nos 20 primeiros anos de atuação das IMF's, afetando tanto a oferta quanto a demanda por produtos microfinanceiros. Se compararmos o crescimento de outros produtos creditícios, especialmente o crédito parcelado e empréstimo pessoal, o crescimento dos serviços microfinanceiros foi lento. As altas taxas de inflação, até 1993 a inflação anual foi de mais de 2.600% e em 1994 de cerca de 1.700%, tornou as operações de financiamento inviáveis, com a perda rápida do valor dos empréstimos e gerando problemas de pagamento por parte dos devedores, frente ao crescimento em progressão geométrica dos juros cobrados. As pequenas empresas e os microempresários, os quais possuíam menos alternativas para proteger o valor de compra de seu dinheiro, solicitavam menos crédito para realização de atividades produtivas26. Por outro lado, outras atividades que não o empréstimo, como mercado de ações e aplicações em dólar, tornavam-se mais atrativas do ponto de vista financeiro, por causa da inflação, provocando redução em sua oferta. Esse período afetou, no sentido de limitar, tanto a oferta quanto à demanda de microcrédito.
"As atividades relacionadas com a inflação em geral alcançavam um pico de 41,9% da receita dos bancos em 199227. Ao deslocar a atenção do setor financeiro das atividades creditícias — e ao reduzir a demanda de empréstimos dos microempresários — a hiperinflação tolheu o desenvolvimento da indústria de microfinanças". (Nichter et al, 2002)

Com a implantação do Plano Real, em 1994, e de acordo com os dados do Banco Central, o Brasil experimentou uma taxa média de inflação anual de cerca de 11% e uma taxa de crescimento anual da economia de aproximadamente 2,5%, à partir de 1995. E
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Haus et al, 2002. Vide: Nichter et al, 2002. 27 Esses dados sobre a taxa de inflação são do Banco Central e baseados no IGP-M.

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estabilização da economia proporcionou o fortalecimento, dentro relativo, das microfinanças no Brasil, embora comparado com outros serviços financeiros, como o empréstimo pessoal e o crédito parcelado, voltados predominantemente para o consumo, tenham alcançado escalas bem mais significativas28. Goldmark coloca que: "O crédito privado (ao consumidor) como percentual do PIB brasileiro subiu ligeiramente desde 1995, passando de 27% a 30% em 1997, embora voltasse a cair para 28% em 1999, após a desvalorização e o subsequente aumento das taxas de juros. A tendência de aumento do crédito deve continuar. Embora a proporção do crédito privado para o PIB seja baixa em comparação com países como os Estados Unidos (63% em 1995 e 71% em 1999) ou Alemanha (123% em 1999), a proporção no Brasil é igual ou superior à da maioria dos países latino-americanos"29. Se comparada à taxa de crescimento anual do crédito ao consumidor com o crédito para capital de giro, no período de janeiro de 1999 a abril de 2002, o primeiro teve 50%, enquanto o segundo 17%30. A estabilização é posta como uma condição favorável ao crescimento do setor microfinanceiro, em número de clientes e volume de carteiras ativas, no entanto seu desenrolar foi tímido31. Esse fato sugere que outras causas têm papel importante no crescimento do setor. Nichter cita o estudo “Microfinance Program Clients and Impact: An Assessment of Zambuko Trust, Zimbabwe”, publicado por Carolyn Barnes, em que 11 instituições que construíram seu sucesso no setor cobravam juros suficientes para cobrir os custos envolvidos com a atividade microfinanceira era estatisticamente mais importante que o ambiente econômico para explicar o desempenho dessas instituições. A sustentabilidade financeira das instituições é um fator de grande importância para o aprofundamento dos programas de microfinanças, porém, em uma situação de hiperinflação, onde "perde-se de vista" o horizonte de metas financeiras e torna-se complicado operar com empréstimos, dificultando o processo de amadurecimento institucional nos locais onde atuam. Porém Nichter ressalta: "a evidência do contexto internacional também sugere que, quando bem planejadas, as IMF's podem ser bem-sucedidas mesmo em ambientes inflacionários ou de crescimento reduzido, porquanto os

Segundo os dados do mercado geral de crédito pessoal do Boletim do Banco Central do Brasil, junho de 2002, o crédito pessoal, não imobiliário, atingiu a escala de R$ 60 bilhões, enquanto, até o mesmo período a carteira ativa das microfinanças atingiu R$ 138,8 milhões. Dimensão significativamente maior do crédito pessoal, considerando que este financiamento abrange clientes de todas as faixas de renda da população brasileira. 29 Citação de Goldmark et al, 2000, baseando-se em Steven Schonberger, "Microfinance Prospects in Brazil", 2001, Gustavo Braga, num estudo apresentado no Fórum sobre Microcrédito no Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2000, e João Salima Neto, "O País dos Enforcados", publicada na revista VEJA, 9 de fevereiro de 2000. 30 Nichter et al, 2002, com base nos dados do Banco Central do Brasil. 31 Vide: item I.3 desta monografia.

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microempresários são em geral altamente flexíveis32". "Por exemplo, quando as condições econômicas decadentes do Zimbábue levaram o país a uma taxa média de inflação de 44,5% entre 1997 e 2000, os clientes que necessitavam fazer frente aos pagamentos ajustaram suas empresas, muitas vezes diversificando seus produtos ou iniciando uma nova empresa"33. Portanto, as estratégias que adotam as IMF's, considerando o perfil de sua oferta e o público demandante, para operar em ambientes instáveis economicamente e de pouco crescimento é importante para o aprofundamento que estas IMF's consolidam em seus locais de atuação. Ainda assim, as características culturais são importantes, pois as experiências internacionais podem estar centradas em locais onde a relação do público com alternativas de crédito via IMF's podem não sofrer resistência e se desenvolver. Essa questão (cultural) é complexa e não compete a esta monografia analisá-la. As altas taxas de juros são freqüentemente apontadas como fator de desinvestimento na produção e inibição do crescimento econômico. Seu papel no desenvolvimento do setor microfinanceiro pode se dá de forma relativa, e conferir certa importância na expansão nas carteiras das IMF's. A viabilidade do negócio, com base no custo de oportunidade, pode ser sacrificada dado que os altos juros viabilizam outras oportunidades de negócio que superam as margens de lucro dos negócios em operação pelos microempreendedores. Internamente aos negócios, a viabilidade pode ser comprometida porque o negócio a que se destina o empréstimo, na forma de investimento e/ou composição do capital de giro, pode ter rentabilidade abaixo do custo do capital tomado como empréstimo. Pelo lado das instituições, quando se trata da parte técnica que indica a sustentabilidade (o custo do capital), altas taxas de juros tornam a captação mais cara, tendo a instituição que repassar esse custo ao tomador de empréstimo, ou incorrer em sucessivos custos por cobrarem taxas abaixo das do mercado. No longo prazo compromete o fortalecimento institucional, já que o objetivo é que as instituições tornem-se auto-sustentáveis. Em fim, o crescimento das IMF's, em valores de carteira e clientes ativos, se deu de forma lenta mesmo depois da estabilização econômica. Algumas experiências internacionais mostram que é possível ter crescimento considerável em ambiente de instabilidade e baixo crescimento. As altas taxas de juros comprometem a relação entre a demanda e a oferta de empréstimos micro para fins produtivos, pelos custos em que incorrem os negociantes e as

Nichter et al, 2002. Nichter et al, 2002, citando McGuire, Paul B., Conroy, Jonh D. 1998. “ Effects on Microfinance of the 19971998 Asian Financial Crises”, FDC Publications.
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instituições. É uma causa da baixa penetração das microfinanças no Brasil, tendo que se relacionado a outros fatores para avançar na explicação desta situação. A Tradição das Linhas de Crédito (Público) Dirigido Parte significativa do total de financiamentos a prazos realizados no Brasil, em R$, é fornecida por bancos estatais por linhas de crédito dirigidas que especificam atividades econômicas ou procuram atingir determinados grupos insertos em estratos sociais e econômicos específicos34. Essas linhas de crédito do setor público são importantes para os microempreendedores rurais, dado que grande parte dos recursos movimentados por essas linhas se dirige às áreas rurais. "As linhas de crédito do setor público destinadas à agricultura são tão substanciais que abrangem uma parcela relativamente ampla da atividade bancária pública. Por exemplo, o Banco do Brasil (o maior banco público brasileiro) concede 49% de seus empréstimos ao setor agrícola, enquanto os bancos privados concedem apenas 15 a 20% ao setor"
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. São

créditos subsidiados, com taxas negativas, em certas situações, já que para pagamentos antecipados reembolsa-se parte da amortização. O crédito Rural do PRONAF cobra taxas de juros de cerca de 6% ao ano. Se o crédito vai para investimento agropecuário, então cobra-se 6% ao ano, acrescida da TJLP, podendo ainda ser descontado 50% dos encargos financeiros36. Nas estimativas do PDI-BNDES, as áreas rurais foram consideradas as fazendas com menos de 10 hectares e representam 18% dos microempreendimentos estimados. Portanto, grande parte dos microempreendimentos está no meio urbano, e essas linhas de crédito influem nas microfinanças do meio rural, e não comprometeram, em grande peso, o setor de microfinanças no Brasil. No Brasil, o setor público projeta as linhas de crédito como o Programa Nacional da Agricultura Familiar (PRONAF) e o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) direcionado às áreas rurais. Esses programas "competem" com a oferta de microcrédito pela demanda, dado que é uma grande fonte de recursos que se inserem nas demandas rurais por financiamento de suas atividades, agrícolas no caso, determinando em parte a restrição do
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Vide; Goldmark et al, 2000, e Schonberger, 2001. Nichter et al, 2002, citando Brusky, Bonie. 2002. “ Prospecting the FUNDAF Market: An Overview of Demands, Competition, and Client Satisfaction”. 36 vide: Romano, Jorge O.; Buarque, Cristina M. 2001. Crédito e Gênero no Nordeste Brasileiro. Rio de Janeiro: AS-PTA.

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fornecimento de microcrédito das IMF's nestas áreas. No confronto entre as ofertas do microcrédito e das linhas de crédito dirigido, este segundo ganha espaço pela estrutura de que dispõe, institucional e financeira, e pelos atrativos de pagamento dos empréstimos e a forma amena com que cobram as dívidas. As agências de fornecimento do crédito público são seletivas quanto aos projetos relacionados às atividades produtivas, fazendo muitas vezes com que os demandantes se enquadrem dentro das orientações dos programas, através da compra de determinados insumos, por exemplo, sob o custo de não conseguirem o financiamento. O microcrédito, porém, vem abrindo espaço em determinadas áreas, por serem mais flexíveis e atenderem mais reivindicação dos produtores rurais37. Com a existência de uma grande disponibilidade de crédito barato do setor público, outras fontes de crédito para os empreendimentos rurais ficam em posição desprivilegiada na captação de clientes. Além do mais, as fracas políticas de cobrança fazem muitas vezes com que os devedores entrem em atraso e inadimplência, por relaxamento das obrigações, afetando seu comportamento com instrumentos de crédito, o que mais importante no caso do crédito público dirigido, e deteriorando o incentivo em cumprir sua parte através da viabilização econômica de seus pequenos negócios (trabalhar para pagar). Pode, ainda, haver desvio de finalidade da aplicação dos recursos tomados em empréstimos para compra de outros bens que não os produtivos (como carros, televisores, antenas, etc.). O afrouxamento das cobranças das responsabilidades financeiras dos tomadores faz com que haja problemas de pagamento e que os demandantes comparem as "boas condições" para se tomar um empréstimo, em seu ponto de vista, com as exigências e responsabilidades requeridas de outras vias de crédito produtivo, especialmente o microcrédito. Essas condições afetam a relação da demanda com o instrumento de crédito produtivo, inserindo dificuldades para as IMF's que operam, ou queiram operar, nas áreas rurais onde hajam os programas de crédito público, em lidar com seus clientes. É uma realidade que compromete a implantação e o fortalecimento da IMF's nessas áreas. As linhas de crédito do setor público se apresentam nas áreas urbanas em menor proporção, e, segundo Nichter, não parecem influenciar de grande forma as atividades de microfinanças38. Tem-se o Programa de Geração de Renda e Emprego, que atuam nas

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Para uma discussão mais detalhada vide: Romano e Buarque, 2001. Nichter et al, 2002.

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cidades. Ainda assim, essas linhas elaboram processos burocráticos, longos e problemáticos, com várias análise de seus negócios e a obrigatoriedade na participação de cursos de treinamento, até a liberação dos empréstimos às microempresas, contraditoriamente à característica do microcrédito. Como foi dito no Capítulo II desta monografia, os empreendedores rurais podem esperar um prazo maior para liberação do empréstimo, dada a natureza do processo produtivo de suas atividades, porém, os empreendedores urbanos elegíveis dessas linhas de crédito não podem esperar tanto tempo, sob pena de perder oportunidades comerciais importantes para sobrevivência dos seus negócios. Devemos ressaltar, que os microempreendedores informais, com 4 ou menos empregados, tem acesso quase nulo a esses recursos39. Esses programas de crédito por vias públicas, podem comprometer o entendimento do público demandante do que é o microcrédito e a que objetivo se propõe diante da demanda. Pois, o PROGER, por exemplo, é conhecido como programa de "microcrédito", e pode remetê-lo a uma comparação direta com as IMF's, sem haver o discernimento das atitudes entres os programas de crédito produtivo do Governo e as IMF's, frente ao público demandante. Em fim, a influência das linhas de crédito do setor público parece ter mais importância nas áreas rurais, dado que 18% das microempresas são rurais, principalmente afetando o comportamento da população demandante e na imagem que o microcrédito pode ter aos microempreendedores, causando-lhes confusão em relação aos objetivos das IMF's. No meio urbano, sua influência se torna mais limitada, embora as linhas de crédito públicas existentes nesse meio devam ser avaliadas, a fim de se evitar problemas futuros com a imagem do microcrédito criada pelo público demandante. A Ausência de um "Efeito Demonstração" O "efeito demonstração" quer dizer o exemplo de uma experiência de sucesso que possua estratégias de intervenção e operação no local bem desenvolvidas, eficazes e comprovadas, que podem servir de modelo e se tirar lições. Aponta-se, nas discussões existentes, que essa ausência acarreta que as IMF's tornem-se estritamente experimentais, e isso é custoso, não se aproveitando de apontamentos técnicos capazes de lhes fazer adaptações de suas intervenções e operações nas localidades onde atuam.
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No Brasil não há um efeito demonstração onde se possa avaliar com base técnica a realidade que cerca o sistema operacional das IMF's. Torna-se difícil aprender com as experiências se não há como analisar os resultados, separando as potencialidades e limites para que se formule um modelo mais eficaz de intervenção das IMF's através do microcrédito. Mesmo o Banco do Nordeste que possui parte significativa dos recursos efetivados com microcrédito (opera através do CrediAmigo 54% de todos os clientes ativos do país e 33% da carteira ativa total) não é considerado um efeito demonstração, pois, "a transparência limitada de seus resultados financeiros e do seu modelo operacional impede outras IMF's, instituições interessadas, de saberem se devem confiar no que o banco diz sobre seu próprio desempenho"40. Observando o contexto internacional das microfinanças, várias instituições possuem grande sucesso em sua atuação. Na América latina temos o BancoSol, na Indonésia temos o Banco Rakyat Indonésia, em Bangladesh o Banco Grameem, além de outros. São instituições de reconhecido desempenho financeiro, com potencial incentivador para o setor de microfinanças local. No entanto, as experiências internacionais não podem servir de exemplo para o Brasil, dado a nossa peculiaridade cultural, os indivíduos não mostram o tamanho interesse que os microempreendedores dessas localidades demonstram pelo microcrédito. Por outro lado, as características culturais heterogêneas que nosso país apresenta põem em vista estratégias diferenciadas para cada região e localidade. Talvez uma questão importante para o papel do efeito demonstrativo de uma experiência bem sucedida seria estimular o setor formal, público e privado, a estabelecer interesse direto pelo pelas microfinanças, cabendo a ele, por ser um setor forte e bem desenvolvido, conseguir meios para atingir a efetivação da demanda com maior profundidade nas diferentes regiões do Brasil. O Unibanco, através da Fininvest, volta-se para esse mercado, porém o crédito produtivo popular é visto com reservas, pelo baixo conhecimento que se tem das populações e da capacidade de efetivação da demanda, para que se exija com mais adequação requisitos de garantias e se desenvolvam processos para melhor servir os clientes, obtendo-se o melhor aproveitamento financeiro. O reconhecimento de uma experiência de sucesso, através de demonstrativos técnicos claros e realistas, poderia inspirar intervenções mais concretas com microcrédito. Quanto aos meios para intervir, os bancos formais tem larga vantagem sobre as demais IMF's, pois poderia se servir da rede de agências distribuídas por municípios do Brasil, utilizando-se da logística que faz parte de sua estrutura para obter melhores vantagens comparativas (custos
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mais baixos em relação ás IMF's). Podem ainda, ter acesso a maior volume de recursos para implantar sucursais, de forma menos custosa, e desenvolver programas mais eficientes, obtendo maiores resultados. Como mostramos, uma demanda potencial existe e em massa. Porém, o setor formal encontra-se afastado das microfinanças, e a falta de uma experiência de sucesso pode ser o indicador de que as IMF's precisam estabelecer estratégias para efetivar uma demanda pelo acesso a um sistema de fornecimento de crédito produtivo popular adaptado e adequado às características do público demandante, dando maior cobertura aos microempreendimentos no Brasil. Um "efeito demonstração" entre as IMF's brasileiras poderia contribuir, de forma considerável, para o setor de microfinaças no Brasil. Devemos ressaltar que dada as diferenças regionais, talvez um caso de sucesso em determinada região não seja suficiente para homogeneizar essa desenvolvimento em todas as regiões e localidades. A maior transparência dos resultados expressos em documentos técnicos confiáveis é um elemento universal que cooperar para as demais instituições, na forma de exemplo, em todo território nacional, dado que se constrói credibilidade e podendo mostra que é possível operar no setor de forma sustentável, estimulando outros agentes a desenvolver suas estratégias de intervenção com microcrédito nas localidades de sua maior conveniência econômica e financeira. As experiências internacionais são importantes, mas não aplicáveis à realidade brasileira, embora possam inspirar processos de abordagem da demanda no Brasil, através da aprendizagem com as lições. A "Fraqueza" das IMF's Brasileiras Como foi discutido acima, no Brasil não há um "efeito demonstração" entre as IMF's, com indicadores confiáveis que demonstrem a viabilidade das instituições. O Banco do Nordeste, através do programa CrediAmigo, tem significativa penetração na região Nordeste, porém seus dados são pouco claros, sobre o desempenho financeiro do programa. Acredita-se que o que o programa CrediAmigo mostrou é que há demanda no Nordeste, mas que não se tem certeza de um mercado que funcione com operações sustentáveis. Além do mais, esse banco se aproveitou de sua rede agências e logística, conferindo-lhe baixos custos e vantagens comparativas. As outras instituições, como o CEAPE-Pernambuco, são lucrativas, porém seus

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dados não esclarecem detalhes sobre sua condição como instituição auto-sustentável41. Isso quer dizer que esses programas não são conhecidos como detentores das melhores práticas. Como mostrado no item I 3.1 desta monografia, a grande maioria das instituições (121 instituições) operam com menos de 2.000 clientes, e que o número de instituições que operam com menos de 1.000 clientes é de 104 (ver Gráfico 6). Financeiramente, isto quer dizer, que a maioria não opera em escala suficiente para serem rentáveis e construir solidez institucional na situação, havendo uma prevalência de IMF's no quadro institucional do setor brasileiro. Se considerarmos seu funcionamento em nível comercial, a estrutura de cobrança de juros não se equipara aos custos, tornado-as mais vulneráveis as oscilações de quaisquer natureza que dificultem as captações seus recursos para operar. A inadimplência, embora considerada baixa, é maior que a médias das instituições da América Latina42. Padrões de acompanhamento técnico de suas carteiras não são utilizados, na maioria das instituições, como a avaliação de risco e processos de acompanhamento técnico de suas operações. Goldmark aponta a baixa produtividade dos agentes de crédito, afirmando que muitas vezes se encontra abaixo de 200 clientes por agente. Destaca o CEAPE-Pernanbuco, com 456 clientes por agente, com alguns ajustes, que lhe confere alto nível de produtividade. Esse quadro revela alguns aspectos que tornam as IMF's vulneráveis as análises mais rigorosas do comportamento técnico de seus processos. Porém, devemos ressaltar que pode ser necessário algum tempo de ajuste com a realidade de mercado, no sentido das demonstrações financeiros e profissionalização dos recursos humanos utilizados das IMF's, para que elas se tornem mais profissionais, sustentáveis e que ganhem maior solidez institucional. III. 2.1.3 Microconclusão: uma análise crítica das causas Conforme o apresentado no item III. 2.1., há cinco causas tidas como mais relevantes e que tentam explicar a baixa penetração do panorama institucional de microcrédito no Brasil frente às condições que seriam propícias para o desenvolvimento mais acentuado do setor, isto é, uma penetração maior que a de 2%. Não se determina o quanto seja essa penetração para confirmar o aprofundamento. Nem de que forma ela se dará, em valor médio do

Duvida-se que os programas de sucesso no Brasil funcionem a base do subsídio, e que não geram, com os próprios recursos capacidade se sustentar como instituição. 42 Goldmark et al, 2002.

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empréstimo, número de clientes, sustentabilidade das instituições, etc. Somente temos a idéia de que uma relação sólida entre a alternativa de microcrédito como financiamento de camadas populares produtivas, que geram emprego e renda, passam por todos esses requisitos, pois a relação da demanda com o uso eficiente do microcrédito em suas atividades produtivas é tão importante quanto a eficiência administrativa que as IMF's promovem em suas operações e gestão de recursos de sua competência. As causas selecionadas na literatura são as seguintes: o ambiente macroeconômico, a regulação do setor, a tradição de crédito dirigido do país e a falta de um "efeito de demonstração" e a fraqueza das instituições existentes. Não vamos procurar determinar o grau em que essas causas interferem no crescimento do setor de microfinanças, pois o assunto é recente e precisa-se de pesquisas mais apuradas para que se construam conhecimentos mais aprofundados sobre esta realidade e se tire conclusões que se aproximem das explicações mais apropriadas. Portanto, o assunto é recente, e o que se tem em mente é procurar entender o contexto das microfinanças e apontar algumas características tidas neste texto como importantes. O que se fará é, diante dos dados e fatos expressos durante toda a monografia até antes deste item e retirados dos textos que tratam do assunto ou tem ligação com o assunto, tirar algumas conclusões que avancem no entendimento do que representa cada causa para a aceleração do crescimento do setor microfinanceiro, propondo um ordem de importância e eliminado algumas aceitas como causas. Portanto é uma proposição explicativa das causas e o que podem representar para a questão do crescimento das microfinanças no Brasil. Novamente vamos relembrar que os capítulos anteriores trataram de analisar a oferta e a demanda de microcrédito, no contexto maior das microfinanças, aprofundando nos aspectos da definição do objeto de estudo, da parte institucional que a oferta e como se encontra distribuída no país. Aprofundamos as questões relacionadas à demanda, ressaltando a quantificação da demanda, e a metodologia utilizada para isto, suas características e inserção social, organização produtiva e gerencial, e quais as relações entre necessidades a serem supridas e satisfação realizada. Para isso, mostramos o quanto se encontra descoberta essa demanda, principalmente pelo setor formal, e quais possíveis razões a levariam a não optar pela aquisição de um empréstimo produtivo para aplicação em seus negócios, escolhendo outras vias. A camada de microempreendimentos é muito heterogênea e o entendimento das

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várias razões que levam os indivíduos potencialmente demandantes torna-se "improcessável", portanto, incompreensível diante da metodologia existente. Das cinco causas apresentadas como possíveis entraves no crescimento do setor de microfinanças no Brasil, diante da discussão apresentada anteriormente, adotamos como causas à rigor para esta situação a regulação do setor e o ambiente macroeconômico. As outras situações são ou conseqüência de alguma causa anterior ou variação de uma conseqüência, caso da "fraqueza" das IMF's e da ausência de um "efeito de demonstração". Vamos começar explicando as causas, ou seja, o ambiente macroeconômico e a regulação do setor. O ambiente macroeconômico é de fundamental importância, pois nele encontramos os parâmetros (câmbio, juros, inflação, etc) para se decidir sobre o que fazer com os recursos de que dispomos, para emprestar ou tomar emprestado. Ou seja, quando há hiperinflação o ambiente é caracterizado por instabilidade, fazendo com que o planejamento orçamentário e financeiro se torne difícil de se construir em um horizonte de muitas mudanças, considerando que a maioria da população não dispõe de conhecimento das causas e conseqüências desse desequilíbrio. Quando se trata de recursos financeiros, focando o lado de quem toma emprestado, pegar emprestado numa situação de hiperinflação significa contrair uma obrigação, cujo valor cresce em progressão geométrica, frente à maioria da população que não faz sua renda crescer na mesma proporção. Assim como o setor financeiro encontra outras vias para aplicar seus recursos financeiros, com base no objetivo de maximizar seus lucros e/ou minimizar suas perdas, o risco pode ser um fator central que faz com que o demandante não contraia uma dívida, tornando-se avesso ao empréstimo que carrega o risco de que não consiga arcar com os custos dos juros e inflação incorporados dia-a-dia e de que este perca o valor de compra rapidamente. O mais importante nesta situação é que a hiperinflação deprecia as qualidades do crédito em pouco tempo e o transforma numa verdadeira "bola de neve" de obrigações financeiras. Pelo lado da instituição, formular estratégias para atrair os clientes pode requerer medidas que compensem esse risco (descrito no parágrafo acima), normalmente tornando o empréstimo mais barato. Porém, ao optar por esta estratégia incorre-se em elevados custos operacionais e de captação de recursos para constituir os fundos, os quais podem comprometer o andamento dos programas. Além do mais, as IMF's nessa situação adversa de

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instabilidade tem de ter conhecimento de como operar com altas taxas de inflação, caso em que a sustentabilidade financeira pode se fragilizar com muito mais facilidade. O setor bancário volta-se totalmente para outras operações, como nos mercados financeiro e cambial, por exemplo, e não há incentivo que o faça se interessar pelo setor de microfinanças, além deste setor (microfinanças) ser descaracterizado como elegível tomador de empréstimo pelo setor bancário, por não cobrir exigências requeridas e possuir grandes riscos incorporados ao fornecimento de empréstimos a essa camada de produtores. Até a estabilização econômica no Brasil na década de 1990, as IMF's careciam de boas condições no ambiente econômico para se fortalecerem institucionalmente e aprofundar seus programas, isto é, alcançar maior cobertura da demanda na região onde operavam. Isso as deixa em situação incipiente e sem condições de no futuro próximo, isto é, em sua época, terem perspectiva de um crescimento mais seguro. Outros possíveis entrantes, diante dessas reações adversas de instabilidade econômica, se privam de investir no setor, por ele ser pouco atraente frente às várias oportunidades de ganho que se encontram no mercado. O que acaba por selecionar algumas instituições que trabalham com subsídio e doações recebidas para viabilizar o andamento dos programas. O nosso interesse não é aprofundar na análise da instabilidade econômica que viveu o Brasil até 1994, mas sim ressaltar que em um ambiente macroeconômico de variação de preços, alta dos preços, torna-se complicado fornecer e tomar crédito, ainda mais na forma de dinheiro. Ficam aqui algumas perguntas: Qual o perfil de investimento no setor microfinanceiro, dado o prolongado período de inflação, que viabilizaria tal medida pelo setor privado? Se a iniciativa fosse tomada pelo setor público, ele teria condições de estimular o setor de microfinanças? Uma resposta à primeira pergunta é que não haveria um perfil de investimentos que fossem atrativos e que fizesse com que o setor privado entrasse nesse setor com força suficiente para consolidá-lo, dadas as outras oportunidades de ganhos maiores. E a segunda é que se tornaria complicado pelo lado do Governo, pois se focarmos a década de 1980, o Governo estava em situação delicada para fazer frente às suas dívidas, e os recursos externos estavam estancados desde a alta dos juros da economia americana no início da década e, posteriormente, pela moratória decretada pelo Governo mexicano. Portanto, mesmo as doações externas ficaram escassas pela situação de iliquidez em que vivia o mundo. Estes fatos reforçam a inoportunidade de se investir no setor de microfinanças, chegando as IMF's existentes em situação de fraqueza na "era da estabilização" da economia brasileira. 98

Quando na época da estabilização, consolidação a partir de 1995, as IMF's não possuíam aprofundamento de seus programas de microcrédito, estavam "fracas". Da implantação do Plano Real até o momento decorreram pouco mais de 8 anos, e a pergunta agora é: foi tempo suficiente para que as IMF's encontrassem formas e condições para expandir suas carteiras e clientes ativos? Tem-se a idéia que não, pois trabalhar com microcrédito é complicado, conforme analisamos durante a monografia, e leva algum tempo para que as IMF's amadureçam institucionalmente para que atinjam níveis de operação consideráveis, caso contrário ocorreria se houvesse um aquecimento do setor e os demandantes procurassem essa alternativa de financiamento produtivo, hipoteticamente colocando. Mas, assim mesmo, esbarraríamos no conhecimento do público sobre as IMF's, que conforme apresentado no Capítulo II desta monografia, elas não são conhecidas. Em relação às taxas de juros, conforme analisada no item anterior deste capítulo, elas continuaram altas após e estabilização o que dificultava as operações das instituições e seu fortalecimento financeiro e institucional, além de inibir as oportunidades das micro e pequenas empresas, desde o desaquecimento da economia até o aumento dos custos financeiros envolvidos na tomada de empréstimos. O entendimento até aqui é que toda a adversidade econômica vivenciada pela sociedade antes do Plano Real e a posterior estabilização não condicionaram às IMF's uma posição de fortalecimento institucional e financeiro, e conseqüente penetração em maior grau na demanda existente. As IMF's não buscaram operar de forma profissional, adotando padrões de gestão e administração dos recursos evolvidos diante das oportunidades que o setor apresentou de forma mais concreta. Esses fatos colocaram as instituições em situação de incipiência, isto é, decorridos cerca de 30 anos desde a primeira experiência, o Programa UNO, até o presente momento, analisando o quadro institucional, o volume das carteiras ativas atualmente e o número de clientes ativos em todo país, diante da demanda potencial considerada grande, o setor encontra-se em formação, mesmo tendo reconhecível avanço após a estabilização da economia43. Não se permitiu que o setor microfinanceiro tomasse determinada importância como alternativa de financiamento para as camadas produtivas populares, tanto para o mercado quanto pela sociedade, dada a inviabilização econômica de aplicação de recursos no setor que o "caos" financeiro impôs durante os períodos de alta inflacionária e a conseqüente concentração das iniciativas em aplicações mais rentáveis e/ou seguras. O setor encontra-se em reformação com a realidade brasileira atual, e o ambiente

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macroeconômico adverso foi, possivelmente, a principal causa desse estado incipiente em que se encontram as microfinanças no Brasil atualmente, pela ausência de parâmetro financeiros e econômicos constantes para realização de planejamento dos agentes envolvidos para desenhar um sistema de financiamento alternativo que atendesse um crescente número de pequenas e microempresas que apareciam no cenário econômico nacional. Ledgerwood, 1998, apresenta em sua publicação "Microfinance Handbook: An Institutional and Financial Perspective" uma série de produtos financeiro, além do microcrédito, que podem ser ofertados aos micro e pequenos negociantes, de baixa renda. Mostra ainda "desenhos" de produtos quanto a forma, objetivo e características que procuram a adequação às necessidades, condições e características pessoais da maioria dos empreendedores de baixa renda. Se a regulamentação do setor de microfinanças impõe uma série de restrições quanto à atuação das IMF's, principalmente em relação à diversidade de serviços financeiros que podem ser ofertados, essa adequação, a qual defendemos em toda monografia, fica em detrimento do fato de que a lei permite praticamente que as instituições ofertem apenas microcrédito. Essa determinação restringe as estratégias das IMF's, seu aprendizado sobre o processo de fornecimento de microfinanças, "empobrece" e enfraquece sua relação com a demanda e sua constituição institucional. A questão de regulamentação é importante, pois ela pode significar estímulos ou impossibilidades de certas práticas das IMF's no setor onde operam, o que interfere na relação das IMF's com os meios para atingir seus objetivos. Como discutimos acima, a regulamentação do setor deixa que as IMF's trabalhem praticamente com o microcrédito, impossibilitando-a de operar com seguros e poupança, por exemplo. Se considerarmos que outros serviços financeiros, no caso poupança e seguro, são formas complementares que aumentam a capacidade de captação e/ou movimentação de recursos de recursos financeiros por parte das instituições, quando se priva que elas trabalhem com estes serviços tolhe-se a capacidade de as IMF's aproveitarem as oportunidades de diversificação de serviços oferecidos aos clientes. Isto quer dizer que, primeiramente, a possibilidade de oferecer um maior número de serviços microfinanceiros lhe dá maior flexibilidade operacional e maior capacidade de angariar recursos com os quais se pode realizar mais empréstimos, por um lado, ou aumentar sua sustentabilidade financeira, por outro lado. De qualquer forma, se constitui numa ampliação da carteira ativa da instituição o que lhe confere maior solidez financeira. Em segundo, ao receber depósitos de poupança e prestar serviço de seguros, as

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Os itens I.2 e I.3 discutem esses avanços no setor de microfinanças no Brasil, pelo lado da oferta.

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IMF's cooperaram para o desenvolvimento dos negócios dos clientes, dando mecanismos de segurança financeira e física ao capital dos depositantes e segurados, além de poderem repassar os depósitos em valores de empréstimos àqueles negócios que demandam microcrédito. O limite quanto aos serviços oferecidos aos demandantes impedem que as instituições se fortaleçam como instituições de financiamento e conheçam seu mercado, fazendo com que as IMF's deixem de ampliar suas carteira e aproveitar oportunidades de crescimento. No entanto essa questão é sensível à crítica, pois operar com maior número de serviços financeiros não quer dizer que haja uma efetivação da demanda por estes serviços. Os negociantes podem procurar empresas especializadas em seguros, por exemplo, e proteger seu capital contra acidentes, roubos e outras perdas. Podem procurar o sistema de poupança no mercado formal para depositar seus ganhos e assim formarem suas reservas. Porém, ao olhar pelo prisma das restrições que a lei impõe, as experiências que as instituições podem agregar ao seu conhecimento podem estar comprometidas. Podem fazer com que se foque em um serviço e não aprendam, na prática, o que as populações estão dispostas a absorver como serviços financeiros alternativos ao setor formal e como é possível oferecer os serviços de forma mais adequada às necessidades dos demandantes. As IMF's poderiam ainda oferecer serviços de penhora ou troca de cheques, o que talvez fosse mais adequado do ponto de vista da demanda do que assinar um contrato, cujo conteúdo expressa uma infinidade de responsabilidades com a dívida adquirida. A Penhora, conforme dito no item acima, é monopólio concedido à Caixa Econômica pela lei, a troca de cheques também é uma restrição. Havendo uma demanda heterogênea, com razões próprias para não assumir uma dívida na forma de empréstimo44, então uma maior liberdade para oferecer outras formas de se negociar a concessão do empréstimo, é uma forma de se adequar à demanda e pode ser uma boa medida a fim de atrair mais clientes para as instituições, assim como maior aprofundamento da relação entre os microempreendedores e as instituições. Ao livrar as OSCIP's da Lei da Usura através da Lei 9.790, de março de 1999, e instituir a regulamentação das SCM's através da Lei 10.194, de fevereiro de 2001, abre-se espaço para que instituições tenham maiores oportunidades de se auto sustentarem, através da formação de parcerias, cobrança de juros mais adequados aos custos de operação e com a

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Vide: item III.1.2 desta monografia.

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finalidade de lucro, e que outras instituições que visem o lucro passem a operar no mercado de microfinanças45. Foi, sem dúvida, um avanço capaz de produzir interesse das instituições em atuarem, cada qual com seu fim lucrativo, no setor de microfinanças46. Porém, o tempo talvez não seja o bastante para avaliarmos com maior precisão se os efeitos de tais mudanças são suficientes para imprimir um maior crescimento do setor. No item I.3.1 desta monografia, apontamos que a comparação de dados sobre o número de IMF's operantes no Brasil de 1999 e 2001 revelava um incremento de cerca de 157% no total de IMF's no país. Os dados de 1999 são de Goldmark et al, 2000, e os de 2001 foram tomados de Nichter et al, 2002. No mesmo texto, Nichter apresenta no Box 1 que dados retirados do servidor público do Banco Central do Brasil apontam o total de 25 SCM's, as quais foram criadas pelo estímulo da lei, e 64 OSCIP's listadas no Ministério da Justiças. Não há como apontarmos quantas IMF's foram criadas como OSCIP's diretamente, sem passarem de ONG's. Mas o novo marco legal permitiu que cerca de 74% das instituições hoje operantes com microcrédito no Brasil se isentassem da Lei da Usura, através das "Leis", de acordo com seu desígnios lucrativos, isto é nulo ou positivo. E que houve desde 1999 um aumento das instituições que operam com microcrédito no Brasil. Esse aumento do número de instituições não sinal de que haja um aprofundamento significativo dos programas de microcrédito. Estamos considerando que a marco legal para as OSCIP's e para as SCM's criou condições para que surgissem parte das IMF's desde a criação das leis específicas para estas instituições. Os incrementos ocorridos desde 1999 até 2001 são analisados no item I.3.1 desta monografia, e houve de fato um aumento significativo do setor neste período. Porém, a maior parte do aumento do número de clientes ativos (61%) foi dada pela participação do Banco do Nordeste, um banco estatal comercial, e 13% do aumento da carteira ativa foi dada pela mesma instituição. Portanto, embora o número de IMF's criadas e legalizadas como SCM's e OSCIP's tenha aumentado o quadro institucional do setor microfinanceiro, isso não se traduziu em aprofundamento significativo da penetração do microcrédito no Brasil. Outro ponto importante é que o ambiente macroeconômico instável no Brasil dificultou o desenvolvimento do setor de microfinanças, fazendo com que chegassem em "estado de incipiência" na "era da estabilização", sendo visto com pouca relevância pela
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Para rever a discussão sobre os objetivos das IMF's existentes vide o item I.2.2.2 desta monografia.

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sociedade. O quadro legal que compete ao setor microfinanceiro especificava a questão dos serviços alternativos de financiamento às camadas produtivas populares. Não havia estímulo para que se formulassem leis específicas que colocassem o setor dentro de linhas de tratamento jurídico que estimulasse, ou que não desestimulasse, as iniciativas a investir nas microfinanças brasileiras. Até a promulgação da Lei 9.790, de março de 1999, o país viveu períodos conturbados, entre instabilidade econômica e política, para que se concretizasse algum estímulo jurídico que desse a importância devida às IMF's que operam no setor, ainda mais que a importância do setor para a economia e sociedade brasileira não era reconhecida pelos agentes como meio possível e viável de alavancagem das microempresas. Cabe ressaltar que embora a lei estimule a entrada de IMF's no setor microfinanceiro, nos formatos de OSCIP e SCM, pela isenção da Lei da Usura e/ou pela possibilidade de se obter lucros com operações microfinanceiras, não é necessário para que se tenha um aprofundamento da relação entre o setor ofertante microfinanceiro e a demanda potencial existente. É necessário dar maior flexibilidade às IMF's para atuarem com formas alternativas de fornecimento de microcrédito e outros serviços microfinanceiros, e não esperar que o demandante vá até a instituição e assine um contrato com as responsabilidades da aquisição de uma dívida em dinheiro, e com outros serviços além do microcrédito, para que se amplie as visões estratégicas de longo prazo dos administradores de microfinanças no desenvolvimento de um conjunto flexível de produtos. A tradição do crédito dirigido é uma causa que atua com mais força no meio rural, conforme discutido acima. Segundo a estimativa que adotamos, do PDI-BNDES, de que 18% da demanda potencial de microfinanças são de microempreendimentos rurais, a maior parte do setor microfinanceiro brasileiro não sofreria conseqüências dessa causa que acarretasse baixa penetração. Cabe-nos ressaltar que o grande problema torna-se disciplinar, ou que, principalmente, as facilidades com que as instituições que administram essas linhas de crédito dão ao tomadores de empréstimo, seja nas condições de pagamento seja nas cobranças das obrigações previstas em contratos assinados pelos devedores. Outro problema está na "contaminação" que os programas de linhas de crédito produtivo públicas podem acarretar na imagem das IMF's, levando os demandantes a acreditarem que os programas públicos de oferta de crédito em pequena escala sejam o mesmo, em condições, que o realizado pelas IMF's. Porém, essa possibilidade não é viável, já que a proporção de crédito no meio urbano é
Muitas ONG's se tornaram OSCIP para se isentar da Lei da Usura e ter maior flexibilidade na cobrança de juros a fim de cobris seus custos de operação.
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muito pequena e não teria resultado significativo no setor de microfinanças como um todo. Em fim, dada a grande concentração em áreas rurais das linhas de crédito público ao setor produtivo, e a pequena proporção da demanda potencial total estimada no Brasil estar nas áreas rurais, as linhas de crédito dirigido do setor público não afetaria tanto as condições de penetração do setor microfinanceiro. Seria uma causa que teria força na penetração do microcrédito em áreas rurais. Por tudo que falamos sobre as influências do ambiente macroeconômico e da regulamentação do setor microfinanceiro nas condições de crescimento das microfinanças no Brasil, caracterizamos a "fraqueza" das IMF's e a ausência de um "efeito demonstração" como conseqüências da conturbada vida econômica que viveu o país até 1994 e da existência de uma regulamentação desestimulante às iniciativas que quisessem atuar no setor de microfinanças. Essas causas levaram o setor a um quadro de incipiência que pode ser observado pela baixa penetração que as microfinanças atingem atualmente no Brasil: 2%. Se as IMF's são fracas por fatores internos a sua estrutura e por conseqüências externas, de âmbito econômico e jurídico, os quais impedem que estas instituições tenham ganhos de aprendizagem com a experiência e ampliação da carteira e clientes ativos, então essa "fraqueza" com que se qualifica uma instituição é um estado conseqüente de vários fatores. A partir desse ponto, pode-se dizer que o microcrédito, atualmente, não consegue maior penetração em parte por que as instituições são "fracas"47, mas ocorre que o estado de "fraqueza" como estão as instituições é conseqüência, fundamentalmente, do cenário econômico brasileiro de grande instabilidade e do quadro regulamentar que restringiu a atuação das iniciativas interessadas em atuar. Devemos lembrar que além do ambiente macroeconômico, externo as IMF's, tem-se a própria postura técnico administrativa das IMF's, onde a clareza dos resultados expressos em seus documentos técnicos é questionável pelos especialistas internacionais, não podendo se detectar em que magnitude os programas são dependentes de subsídios e esclarecer seus procedimentos, no local de atuação, para atingir seus resultados. A falta de um "efeito demonstração" é o que aparece desse quadro. Ao contrário de experiências como a dos bancos Grameen e Rakyat, onde se procura dar clareza às demonstrações contábeis e especificar as estratégias adotadas, as instituições de microcrédito

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brasileiras são pouco organizadas e não se dispõe de uma fonte de dados segura para que se possa analisar seus desempenhos, até mesmo o Banco do Nordeste48. Portanto, essa carência emerge de toda situação que envolve a ausência de políticas voltadas para o setor e o quadro macroeconômicos dos últimos 20 anos, principalmente, onde as IMF's não conseguiram achar um meio para penetrar na grande demanda potencial de microcrédito existente. Da discussão até agora desenvolvida neste item da monografia, podemos ver que a causa fundamental do atual quadro incipiente do microcrédito no Brasil, e do setor microfinanceiro, foi a conturbada vida econômica do Brasil até 1994, com o descaso das autoridades competentes em reconhecer a importância de um sistema de financiamento adequado e alternativo as micro e pequenas empresas brasileiras, e de um sistema regulamentar financeiro que não permitiu que se enxergasse o setor como opção de iniciativas institucionais para concessão de crédito produtivo popular, desestimulando a entrada de possíveis instituições operadoras de microcrédito. As linhas de crédito subsidiado, por se concentrarem no meio rural, não teria influência no quadro de baixa penetração das microfinanças no Brasil. E argumentos que apontam a "fraqueza" das IMF's e a ausência de um "efeito demonstração" indicam, na verdade, conseqüências de uma correlação entre ambiente macroeconômico desfavorável e regulamentação desestimulante para o

desenvolvimento das microfinanças no Brasil com taxas maiores de penetração. Cabe-nos ainda fazer duas observações. A primeira é que a "fraqueza" das IMF's é um desafio a ser enfrentado para que o setor encontre condições de se expandir. O mesmo pode ser dizer sobre o "efeito demonstração", que pode partir de uma instituição que consiga significativo avanço nos próximos anos e dê credibilidade às suas estratégias, expressando de forma clara os meios e procedimentos de que se utilizou para atingir determinado nível considerável. A regulamentação é muito importante, pois pode dar às instituições flexibilidade para atuarem de forma mais coerente com o meio e consistente com seus objetivos. No entanto, torna-se difícil apontar quais mudanças a rigor seriam suficientes para promover o primeiro passo de forma segura. Lembrar-se que a demanda cresce a 3,7% ao ano e que a conjuntura econômica aponta o desemprego acentuado que atinge tanto pessoas com baixa educação formal, quanto com maior nível de educação formal. Isso significa potencialidades para o surgimento de microempreendimentos geridos por pessoas mais capazes de lhe dar

Para saber o que significa "fraqueza" das instituições, veja as seções do item III.2.1 deste capítulo que trata do assunto. 48 Vide: Nichter et al, 2002.

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com o mercado e por pessoas menos preparadas, e que tais desafios devem ser encarados no sentido de aumentar a dinâmica do setor ofertante de microcrédito. A Segunda observação é que há uma situação em que a "fraqueza" das IMF's e a ausência de um "efeito demonstração" ganham teor de causa da baixa capacidade de cobertura das IMF's. O quadro macroeconômico justifica, em grande parte, a atual incipiência do setor de microfinanças no Brasil. A estrutura regulamentar dificulta as IMF's de operarem e a entrada de novas iniciativas no setor. Dentro desse quadro geral existem as IMF's que não possuem estrutura clara que justifique seus bons desempenhos financeiros, ainda são pouco desenvolvidas. À medida que se observa esse quadro, independentemente da regulamentação existente, os novos atores dispostos a entrarem sentem-se inseguros, esperando muitas vezes que surjam melhores esclarecimentos sobre as reais condições de viabilidade que se há para intervirem de fato. Então, enquanto o ambiente macroeconômico e a regulamentação determinaram o estado de incipiência do setor, ao mesmo tempo, e atualmente, o estado de fragilidade com que operam as instituições de microcrédito fornece um entendimento a quem observa o setor de que é extremamente difícil atuar neste campo (e pode até ser). O exemplo das IMF's que atuam com fragilidade, e dependente de subsídios, remete aos observadores do setor a idéia de que não há outra forma de atuar, ou que necessita-se de condições especiais, veja-se subsidiar custos, para que elas entrem no setor de microfinanças. A regulamentação desestimulante e a "fraqueza" das IMF's concorrem juntas, e se reforçam, para a manutenção do baixo desenvolvimento do setor de microfinanças no Brasil. Da herança institucional fincada pelas condições adversas do ambiente econômico de anos atrás no Brasil e do atual quadro regulamentar que restringe opções de operação com produtos microfinanceiros que poderiam se atraentes para IMF's entrantes e para a demanda potencial existente, surgiu a idéia dos obstáculos áridos que impõe o setor, e nesse sentido colocamos a heterogeneidade e a resistência da demanda discutidas no Capítulo II desta monografia. Em fim, o ambiente macroeconômico é o principal elemento causativo do atual quadro, com forte cooperação da regulamentação do setor que impõe restrições sérias às IMF's para operarem diante de uma demanda heterogênea e resistente ao atual modelo de concessão de microcrédito. As linhas de crédito dirigido por se concentrarem nas áreas rurais não tem peso de causa da baixa penetração do microcrédito no Brasil, e a "fraqueza" das IMF's, assim como a ausência de um "efeito demonstração", são conseqüências das causas tidas como mais importantes, entre outras possíveis para esta situação específica. Sendo o baixo desenvolvimento institucional existente na atualidade o principal desafio que o setor 106

tem de enfrentar a fim de que se reestruture um quadro ofertante capaz de atrair e cobrir, com um aparato sustentável de recursos e técnicas, uma demanda potencial existente.

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CONCLUSÃO:
O setor de microfinanças encontra-se incipiente no Brasil. Quando consideramos a oferta, observamos que, diante dos estudos e dados publicados, a cobertura das IMF's encontra-se extremamente baixa, com instituições "fracas" que não demonstraram utilizar estratégias eficientes e comprovadas, e que não disponibilizam informações confiáveis, claras e seguras, sobre suas práticas e resultados efetivados. Porém, ressaltamos a importância dessas iniciativas, pois os estudos indicam que atualmente estamos experimentando práticas e estratégias de abordagem da demanda de microfinanças. E que nos parece complicado desenhar modelos que seguramente atinjam resultados. Mesmo quando se cita suas limitações, alguns programas têm conseguido relativo sucesso em suas iniciativas. As discussões sobre o setor de microfinanças no Brasil encontram-se em fase inicial, carecendo de estudos sobre assuntos específicos relacionados às características da oferta e da demanda. Devemos considerar que o tema é recentemente estudado no país, e que, como qualquer outro estudo na mesma situação, carece de tempo e pesquisas focalizadas nos aspectos causativos da atual situação do setor microfinanceiro no país e da natureza de seu funcionamento, que tanto contemple o lado da oferta e quanto da demanda, para que se possa tirar conclusões mais consistentes sobre o seu comportamento a longo prazo. Isso diz respeito a estudos tanto do aspecto macro da questão, regulamentação, ambiente macroeconômico e outros, quanto das ordens micro das relações entre instituições e demanda, e demanda e alternativas de financiamento produtivo. Um ponto importante a se entender, por exemplo, é o grau de substituição que os microempreendedores atribuem aos serviços financeiros de que se utilizam para satisfazer suas necessidade de financiamento produtivo. Outro é saber qual a proporção mais adequada da demanda devemos considerar como elegível para tomar empréstimo. Esses pontos são importantes para se fundamentar estratégias de intervenção que sejam mais apropriadas a cada local considerável para intervenção. Ao analisar as causas tidas como mais importantes na literatura sobre o assunto, concluímos que a situação atual das microfinanças no Brasil, incipiência, se deu principalmente pelo contexto macroeconômico que viveu o país nos últimos 30 anos. Isto é, o período de instabilidade econômica crônica que perdurou até a implantação do Plano Real, tornou dificultoso o trabalho das IMF's em implantar sistemas de fornecimento de crédito bem sucedidos, em que aprofundasse a relação com os microempreendedores demandantes no sentido de consolidar uma a troca entre "tomada de empréstimos" e penetração considerável 108

das instituições na demanda. Mesmo que algumas experiências internacionais tenham sido bem sucedidas em ambientes economicamente instáveis, não serve como parâmetro para compararmos com as conseqüências da hiperinflação sobre as microfinanças brasileiras, dado que esses países possuíam uma economia muito menor e menos complexa que a brasileira, e que os exemplos apontam períodos inflacionários bem mais amenos que o ocorrido até 1995 (no exemplo dado no texto refere-se à Zimbábue, cuja economia não se compara a do Brasil e que as taxas inflacionárias anuais chagavam à aproximadamente 45%). Mesmo que se pense que em determinadas economias uma taxa relativamente alta de inflação cause conseqüências sérias ao sistema econômico, ainda assim permanece a idéia de que é relativamente incomparável às conseqüências de uma taxa anual de cerca de 2.800%, como a do Brasil em 1993, dada a magnitude "desnorteante", do ponto de vista econômico e financeiro de uma inflação tão alta quanto as atingidas pelo Brasil na década de 1980 e início da década de 1990. No mais, parece difícil planejar iniciativas financeiras nas circunstâncias descritas de hiperinflação para uma demanda heterogênea, resistentes à tomadas de empréstimos e que encontra em outras formas de crédito menor peso em relação às responsabilidades assumidas numa dívida adquirida em dinheiro, como o crédito parcelado. Se num período de estabilização em que vivemos desde o meado da década de 1990 tornou-se complicado para a demanda encarar o crédito (empréstimo) como "normal", num período de hiperinflação, onde os preços das dívidas sobem em escala geométrica em prazos curtíssimos, parece mais complicado ainda, dada as perdas da qualidade do empréstimo e que as receitas auferidas por quaisquer atividades produtivas não se equiparavam às desvalorizações sucessivas impostas pela inflação, paralelamente. A legislação e regulamentação para o setor foram, e continua sendo, embora tenham ocorrido avanços, um entrave ao seu desenvolvimento. Principalmente pela inflexibilidade que dão as IMF's de oferecem outros serviços financeiros, além do microcrédito, e de dificultar outras operações fora das previstas e discutidas no último item do Capítulo III. Essa dificuldade se traduz em impedimento de desenvolver serviços mais adequados à demanda, dada as prescrições operacionais, prescritas pelas regulamentações e leis, em que são obrigadas as instituições a seguir. Como conseqüência vemos a manutenção da superficialidade com que as IMF's se relacionam com a demanda do local onde operam. Dessas duas influências, que pré-existiram à situação atual das microfinanças caracteristicamente subdesenvolvida, surge a conseqüente fragilidade com que se encontram 109

as IMF's no cenário das microfinanças brasileiras atualmente. Mesmo que tenha se passado cerca de 30 anos desde a primeira experiência, ao chegar na "era da estabilização" as IMF's, que não encontraram formas de se desenvolver dentro de um ambiente macroeconômico instável, apresentando-se como frágeis: não alcançaram escalas significativas, não geram os próprios recursos financeiros para dar andamento aos seus programas (são dependentes de subsídios e doações), na grande maioria. Isto quer dizer que não operam em escala significativa para cobrir seus custos e que é questionável seu perfil profissional e sua sustentabilidade. Até programas como o CrediAmigo do Banco do Nordeste que alcançou escala significativa, com aparente lucratividade e baixa dependência de subsídios, são questionados quanto as suas práticas e resultados pelos especialistas. Portanto, a adversidade econômica e o ambiente regulatório desestimulante contribuíram com mais força para manutenção da incipiência do setor de microfinanças ao longo dos anos. A "fraqueza" com que se encontram as IMF's atualmente, diante do cenário de relativa estabilidade econômica em que vivemos hoje, é uma conseqüência que se tornou a maior dificuldade de se levar o setor de microfinanças a um nível mais aprofundado de penetração entre os microempreendimentos e que leve o setor bancário a encará-lo como viável, estimulando-o a formular políticas e estratégias de “maior força” para atuar nesse ramo. Ao observar as instituições ofertantes de microcrédito, diante do que publicou, vemos que estas possuem experiência com as intervenções realizadas, porém acumularam experiência de sucesso relativo e questionável. As IMF's, observando seu quadro geral, são predominantemente pequenas, com maioria atendendo menos de 1.000 clientes (ver Capítulo I). Se partirmos do pressuposto de que a oferta cria sua procura, então podemos indicar que o quadro ofertante é pouco estruturado e insuficiente para atender tamanha demanda. Lembramos que a demanda estima da Bolívia, país com a maior penetração na América Latina, é de aproximadamente 232.353 ou cerca de 3% da demanda potencial total estimada no Brasil. A demanda potencial brasileira, estimada, é de uma imensa magnitude, e o quadro ofertante é "fraco" e, mesmo que houvesse uma corrida por parte dos microempreendedores às vias de financiamento através das IMF's, seria duvidável acreditar que ela conseguisse atender, no curto prazo, a uma massa de clientes dessa magnitude. Então a saída seria tomar medidas que estruturassem uma oferta suficientemente adequada ao quadro demandante brasileiro, e isso não quer dizer somente aumento em número, mas também em meios estratégicos e abordagens técnicas adequadas para atrair a demanda potencial e efetivá-la (mudança qualitativa). 110

No entanto como discutimos, a oferta se depara como uma demanda resistente ao empréstimo e que encontra em outras formas de financiamento suas fontes de sobrevivência, dando continuidade aos seus negócios. Entender a relação entre oferta e demanda no setor microfinanceiro é importante, pois "... não se pode pensar, como os neoclássicos, que o mercado se reduz a uma relação entre oferta e demanda e que as intervenções externas só dificultam ou impedem que suas forças internas alcancem o equilíbrio. A realidade tem demonstrado que a relação entre oferta e demanda é mediada por forças de poder. Em segundo, que estas relações de poder têm sido determinadas basicamente pelas grandes empresas e são norteadoras de políticas territoriais, que refletem políticas setoriais concentradoras, em que a oferta é organizada de forma vertical, de cima para baixo, a partir da demanda da grande empresa"1. Há explicações que estão além das cinco propostas apresentadas como causas e que são de grande importância, pois não é uma oferta existente e uma grande demanda que tornará o ambiente das microfinanças atrativo a ponto de as partes se "casarem" amigavelmente, como acomodam as forças da natureza os elementos no equilíbrio dos sistemas naturais. Várias coisas acontecem nesse meio tempo na relação entre ofertantes e demandantes potenciais de microcrédito, e não temos poder preditivo para indicar em que grau e quando vai efetivar essa demanda (isto quer dizer em 5, 10 ou 15 anos, como indicam alguns autores). O sistema que concerne as microfinanças está em fase de experimentação, ao que apontam os estudos publicados até o momento, e possuem grande potencial para atingir altos níveis de penetração e desenvolvimento. De qualquer forma, construir um sistema institucional ofertante forte para o setor nos perece fundamental para que se consiga maior penetração na demanda potencial. O setor financeiro privado parece não mostrar grande interesse, diante das condições atuais das microfinanças. As medidas mais fortes têm partido do Setor Público com iniciativas como a criação da Comunidade Solidária, O Programa de Credito produtivo Popular e o Programa de Desenvolvimento Institucional, ambos do BNDES, dos "Bancos do Povo", entre outros, se constituem em alternativas importantes para se desenrolar as microfinanças no Brasil. Porém, ainda são tímidas. O Terceiro Setor é outro importante ator, embora se ache duvidável que por ele mesmo se consiga atingir escalas consideráveis com as microfinanças no Brasil.

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IBAM, 2001.

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As discussões sobre a problemática do crédito no Brasil apontam uma situação crônica e afeta todos os setores da economia. Para operar com microfinanças o problema torna-se um pouco mais complexo, pelas razões expressas nos Capítulos precedentes. Estabelecer condições para "casar" oferta e demanda, como dito acima, é complicado. Na ausência de atores que tenham condições de aprofundar a relação da demanda potencial com microcrédito no Brasil, e de setores com maior poder para tal realização, mas que não demonstra um interesse concreto nesse ramo, no curto prazo, para intervir com maior força, chamamos a atenção para o papel do Setor Público na iniciativa de se tomar medidas mais firmes e apropriadas para se conseguir melhores resultados. O arcabouço institucional e a realização de investimentos por parte do Setor Público, na constituição da solidez do terceiro setor, das ONG's e OSCIP's, e da utilização de bancos públicos como a Caixa Econômica Federal, são medidas que ajudariam a se atingir maior cobertura da demanda potencial. Dado que o setor financeiro privado não demonstra suficiente interesse através de iniciativas de atuação no setor. A atuação do Governo, nas esferas Federal, Estadual e Municipal, torna-se um ponto fundamental de um setor que se volta aos milhões de microempreendimentos no Brasil e que possuem força econômica para alavancar uma população em que, na maioria, vive em condições fragilizadas de sobrevivência, e que, como vimos, cresce ao longo dos anos. Isso quer dizer desenvolver políticas públicas que visem alinhar o instrumento de microcrédito às necessidades dos microempreendedores, assim como conscientizá-los das benesses da utilização desse instrumento via IMF's. É um trabalho que não visa simplesmente conceder o microcrédito, mas estimular pequenos empreendimentos a tomar formato dinâmico e se inserirem no mercado com maior competitividade2. Não se vê a atuação massiva pelo setor privado no setor de microfinanças, talvez o governo torne-se mais uma vez a "peça chave" para o desenvolvimento de um importante setor, proporcionado aglutinar a esta iniciativa a sociedade civil organizada e, num futuro mais próximo, o setor privado. Portanto, existe uma demanda potencial de microfinanças representada pelo grande número de microempreendimentos que sobrevivem no Brasil. As condições impostas pelo ambiente macroeconômico instável, ao longo dos anos, foram impróprias para o fortalecimento institucional das operadoras de microfinanças no Brasil, sendo a principal
"A criação de um ambiente propício ao desenvolvimento dos pequenos negócios pode ser a mola mestra de uma modelo econômico menos excludente daquele que conhecemos no passado, é obra para muitos diferentes níveis de governo, sociedade civil organizada e setor privado". Citação de Urani, André. Um Rio que derruba mitos e tabus. IETS, 2002.
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causa do atual quadro institucional e baixa penetração. Mesmo havendo a estabilização econômica a partir do segundo meado da década de 1990, a situação das IMF's era de "fraqueza", dada as baixas escalas de operação conseguidas conforme suas políticas e estratégias de intervenção. A legislação e regulamentação para o setor serviram de reforço para manutenção da situação de baixo desenvolvimento na medida em que restringiram atuação das IMF's e desestimularam novas iniciativas de atores interessados em entrar no setor. A "fraqueza" com que as instituições chegam atualmente é resultado dos entraves descritos acima, porém torna-se o obstáculo principal que o setor enfrenta hoje em dia para que se atinja maiores níveis de penetração. Esses três fatos seriam a cerne da questão da baixa penetração do microcrédito no Brasil. Diante da impossibilidade de atuação mais forte por parte do terceiro setor no ramo de microfinanças, e do fato de que o setor financeiro formal sempre tenha ignorado as micro e pequenas empresas, apontamos o papel do Governo como fundamental. Principalmente trabalhando em conjunto com os atores do Terceiro Setor. Nesse caso, a idéia é que o Governo intercale posições de apoio com estes atores na formulação de diagnósticos locais, estudos focalizados e formulação de estratégias de intervenção que considerem a idiossincrasia dos diferentes locais através de políticas públicas, focadas no microcrédito como instrumento de promoção de desenvolvimento, mais adequados aos meios heterogêneos onde se encontram insertos a maioria dos microempreendimentos.

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ANEXO

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