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Foto agronegócio e enquadramento

Foto agronegócio e enquadramento

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DICAS PROFISSIONAIS

Os fotógrafos que cresceram com o

ag ronegQçIç
Profissionais especializados falam sobre as imagens que fazem para o setor rural e as técnicas que usam . E avisam : há mercado para bons fotógrafos no segmento
Por Diego MPneçphotti izer que o agronegócio é um importante setor para o Brasil D não é novidade. Produtos como soja, cana-de-açúcar, café, carne bovina, algodão e biodiesel são ai penho brasi - termo em inglês que identifica as A estabilidade comercial é uma mercadorias de base em estado das principais características que bruto, matérias-primas, ou com o campo exporta. Mesmo com pequeno grau de industrialização. épocas específicas de safra O destaque é que Q, desempenho

DICAS PROFISSIONAIS

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Para Franco , é obrigação de todo fotógrafo de agronegócio fazer belas imagens : o desafio fica em conseguir cenas diferenciadas

Humberto Franco

Humberto Franco diz que seu objetivo sempre foi fotografar agronegócio. Ele acredita que a especialização profissional traz bons resultados , tanto financeiros , quanto de reconhecimento no mercado. Seu portfólio e outras informações de seu trabalho podem ser obtidos pelo email humbertofranco«hotrnail_com

principalmente, nos investimentos em imagem feitos pelas empresas. De forma geral, três diferentes segmentos podem ser trabalhados na fotografia de agronegócio: 1 fotojornalismo, para jornais diários e revistas especializadas; publicidade, por meio de agências ou das próprias empresas de insumos agropecuários ou cooperativas de produtores; e fotos de animais para leilões ou em provas de desempenho, como avaliações de touros ou corridas de cavalos. Fotografe conversou com alguns profissionais da área para conhecer os estilos e as peculiaridades técnicas de cada um destes segmentos. Os quatro entrevistados ressaltaram: trata-se de uma área rentável e faltam bons profissionais no setor. Humberto Franco, fotógrafo

sediado na capital paulista; é um dos que se especializaram nesse tipo de foto. Começou a carreira com fotos de estúdio, mas logo passou para a área editorial, um tempo como paparazzo e depois na cobertura de rodeios e provas equestres. A partir daí, aprofundou os conhecimentos nos assuntos rurais para a atuação no fotojornalismo e em foto corporativa. Hoje, tem trabalhos publicados em importantes revistas do agronegócio, como Dinheiro Rural e Panorama Rural. "A foto de agropecuária é um mercado amplo e bem remunerado se comparado a outras áreas da fotografia especializada, como automóveis ou esporte. Além disso, é um segmento carente de bons fotógrafos, que registrem qualquer

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Imagens em contraluz: recurso que agrada a clientes da imprensa especializada e das empresas agropecuárias

DICAS PROFISSIONAIS

cultura com um olhar diferenciado. Acredito que, no Brasil todo, há no máximo cerca de 15 profissionais de renome, especializados em agronegócio", afirma Franco. 0 fotógrafo explica que a principal característica da prática de se fazer fotos para esse setor é a possibilidade de realizar imagens bem produzidas, pois o tempo dispensado em uma fotorreportagem ou mesmo para o mercado corporativo é grande. Por outro lado, como boa parte

dos assuntos fotografados são exuberantes, próprios da agropecuária tropical, Franco diz que fazer imagens bonitas é uma obrigação de qualquer fotógrafo. "Geralmente, como o trabalho exige que o fotógrafo viaje e fique nas fazendas por alguns dias, há tempo para ele pensar nas imagens, explorar o assunto ao máximo e as condições para fazer fotos diferenciadas, com forte impacto visual. 0 repórter fotográfico de agronegócio precisa

estar bem antenado ao que o diretor de arte precisa e, principalmente, o que ele quer transmitir com a imagem", diz. Franco trabalha com uma Canon EOS 5D e a dupla de lentes 17-35 mm f/2.8 e 70-200 mm f/2.8. Usa dois flashes Canon 550 EX, além de um Shine 500, da Atek, para fotos de personagens. Seu estilo evidencia que a iluminação é trabalhada de forma bem planejada. Para ele, de quanto mais equipamentos para iluminação o fotógrafo puder dispor, mais resultados satisfatórios ele terá. "Além das fotos básicas do fotojornalismo, como uma imagem para a abertura de matéria, uma para a capa, uma boa foto de personagem, um Glose do assunto e uma foto aberta do local, o fotógrafo precisa criar imagens de impacto visual. Isso é o mais importante nesse tipo de foto. Um bom recurso é a contraluz. Os editores de veículos de comunicação e as empresas adoram", comenta. Segundo o fotógrafo, no trabalho para empresas, com fotos para anúncios e outros materiais de identidade corporativa, a dinâmica é a mesma do fotojornalismo, mas com um potencial próprio. Você pode fazer uma foto para alguma multinacional aqui no Brasil e ela ter repercussão no exterior, por meio das outras filiais da empresa. Ao

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Acima, um dos retratos do agricultor Sérgio Bueno , feitos por Humberto Franco para a capa da revista Dinheiro Rural (à esquerda ), especializada em agronegócio
58 Fotografe Melhor

A foto da criação de porcos acima , feita pelo fotógrafo César Machado , foi uma das três premiadas em um concurso fotográfico italiano

fazer uma imagem sobre agricultura, ela pode rodar o mundo e, se souber trabalhar bem, uma foto que vale R$ 300 no Brasil pode chegar a US$ 1.200 para o licenciamento no exterior", estima. Para quem deseja entrar na área, Franco dá três dicas pontuais. A primeira é procurar fazer fotos para veículos especializados. "Mesmo uma revista pequena dá oportunidade ao fotógrafo de trabalhar pautas diferentes das que a grande imprensa oferece. Participar de feiras e congressos do setor é outra chance de praticar e também ter contato com pessoas do segmento, que são clientes em potencial", explica. A segunda dica é fazer fotos de assuntos que rendam imagens

atraentes, como a cultura do café, para constatar que é possível fazer belas fotos, além de ajudar a formar um portfólio. 'A lavoura do café, por si só, gera boas fotos por conta da variedade de cores e também pelo cronograma que essa cultura tem, desde o plantio, colheita, secagem e torrefação", ensina Franco. Por último, ele sugere fotografar assuntos que obriguem o fotógrafo a fugir de clichês, como por exemplo, plantações de cana-de-açúcar. Para ele, esse tipo de cultura sempre oferece o mesmo cenário, com as mesmas abordagens. Tentar fazer fotos diferenciadas é um bom exercício de criação. Com isso, o fotógrafo pode conseguir um estilo pessoal e ter seu trabalho reconhecido no mercado.

OUTROS CANTOS
Fora do eixo Rio-São Paulo, as regiões brasileiras com perfil agropecuário formam também bons fotógrafos para o setor. A cidade de Cascavel (PR), por exemplo, é um importante polo rural do País. É lá que reside o fotógrafo César Machado, outro especializado na área. Procedente de uma família de fotógrafos, Machado dedica boa parte de seu tempo para fazer imagens do meio rural, endereçadas à mídia especializada e também ao Agrostock, um banco de imagens que criou. específico no tema.

"No setor empresarial, o que ocorre muito são os funcionários das empresas fazerem fotos de forma amadora, com máquinas
Fotografe Melhor 59

Fotos com enquadramento fechado , feitas por Machado : uma premiada em concurso italiano (à esq .) e outra no 54 Prêmio New Hoiland (à dir.)

compactas, para o uso em materiais de divulgação. Mas, à medida que a empresa cresce, a concorrência se torna maior e a

empresa se vê obrigada a investir em imagens de maior qualidade, abrindo espaço para o profissional especializado", comenta.
Machado trabalha com uma Canon EOS 1 D Mark 111 e, principalmente, duas objetivas: a 24-35 mm e 70-200 mm f/2.8, a qual usa bastante para fazer fotos fechadas, estilo que conta ser o seu preferido para imagens rurais, todas feitas apenas com iluminação natural.

César Machado trabalhou vários anos para o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, onde desenvolveu seu estilo para fotografar. Hoje, utiliza as manhas que conseguiu nos tempos de redação para as fotos do agronegócio. 0 portfólio de Machado está em o wv.agrostock con,

"Para cada tipo de trabalho, você precisa de uma abordagem diferente, mas, de forma geral, fotos de agronegócio exigem experiência; paciência e sensibilidade. Isso porque, quanto mais o fotógrafo conhece como o setor funciona, mais ele pode fotografar de forma inovadora", indica. Por meio do incentivo da Lei Rouanet e patrocinado por um fabricante de produtos para nutrição animal. Machado em breve lançará um livro de fotos

de suinocultura, avicultura e agricultura, registradas nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. Em 2009, o fotógrafo paranaense teve três imagens premiadas no Obiettivo Agricoltura Concorso Fotografico Internazionale, um prêmio internacional de fotografia de agronegócio. promovido por uma organização italiana dedicada à agricultura. As fotos farão parte de um livro e de uma exposição itinerante por países da Europa. Também no ano passado, Machado teve uma imagem laureada no 5' Prêmio New Holland de Fotojornalismo, promovido pela fabricante de tratores. Segundo ele, a foto premiada, que mostra uma porca com seu filhote, demorou três dias para ser feita, por conta da impaciência dos animais, que não paravam de se mexer e se sujar. "Fotografar animais exige muita paciência e atenção do

60 Fotografe Melhor

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Vencedora do 42 Prêmio New Holland , na categoria Máquinas , a foto da colheita de trigo evidencia a especialização de Inor Assmann

fotógrafo, pois a cena que você procura pode acontecer em um único instante", afirma. Concursos de fotografia, aliás, são uma forma interessante de conseguir reconhecimento. Nas últimas edições do Prêmio New Holland, um dos mais cobiçados no setor devido à qualidade dos participantes, um nome que se repetiu foi o do fotógrafo mor Assmann, que reside em Santa Cruz do Sul (RS). Ele ganhou o primeiro lugar em 2007 e 2008 com imagens de colheita de trigo e carregamento de arroz. Em 2009, Assmann foi premiado também em um concurso da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), com uma foto de colheita de algodão. Os prêmios evidenciam a carreira do fotógrafo, que trabalha desde os 14 anos. Após passar boa parte da carreira atuando no fotojornalismo, Assmann usa hoje sua larga experiência para fotos de

agronegócio principalmente na cobertura fotográfica para a produção de anuários para uma editora gaúcha, atividade que lhe permite viajar por todo o País em busca de belas lavouras. Para esse trabalho; ele usa uma Nikon D300, com um conjunto de lentes: 12-24 mm, 80-200 mm f/2.8. 50-500 mm e 105 mm fixa, sua favorita para fotografar grãos. Outro profissional que prefere fotografar com luz natural, Assmann sugere aos iniciantes da área que explorem bastante a relação entre luz e sombra, criando imagens com forte contraste e cores vivas. Flash, ele usa apenas em algumas fotos, como as noturnas. "Colocar uma tocha de luz atrás de uma máquina agrícola, para fotografar enquanto ela trabalha à noite, cria uma imagem com alto contraste, formando uma silhueta muito interessante", ensina. A partir das imagens que fez

Inor Assmann

nor Assmann se diz apaixonado pelos temas que o campo oferece . Após passar um bom tempo na cobertura jornalística. trabalha hoje totalmente focado no registro de imagens do agronegócio brasileiro. Suas belas imagens podem ser vistas em wwvw.agenc aassmann.com.br

Fotografe Melhor 61

Foto de colheita de algodão na cidade de Primavera do Leste ( MT), feita por Assmann e premiada no concurso do Sistema CNA/Senar

para os anuários, Assmann reuniu material suficiente para criar um banco de imagens especializado, no qual disponibiliza quase 15 mil fotos

do agronegócio brasileiro, "Nosso banco de imagens ainda é pequeno. Diante do potencial que o tema oferece, precisamos fazer

muito mais fotos', afirma. Assim como Machado, Assmann diz que o mais difícil de se fotografar são aves e suínos, devido à agilidade dos animais. Ao mesmo tempo, são criações que oferecem imagens de impacto, quando trabalhadas de forma pensada e paciente.

TRABALHO NO SEGMENTO
O fotógrafo Fábio Fatori mora hoje no Guarujá (SP), mas fez sua carreira viajando por grandes fazendas pecuaristas do Sudeste e Centro-Oeste. Com 30 anos de experiência, ele se especializou em fotos de animais para catálogos de leilões, principalmente de bovinos, um segmento um tanto técnico, mas bastante rentável dentro da fotografia de agronegócio. Diferentemente das fotos para reportagens ou para publicidade, as imagens para catálogos de animais têm algumas obrigações técnicas, que variam com a raça e o objetivo comercial de cada

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Segundo os fotógrafos , um dos temas mais difíceis de se fotografar é a avicultura

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DICAS PROFISSIONAIS

Além de imagens técnicas para catálogos de animais para leilões, Fatori comercializa as fotos que faz também em forma de quadros

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Fábio Fatori nasceu no Paraná e mora atualmente no litoral paulista. Viajou para boa parte das grandes fazendas brasileiras para registrar a pecuária nacional, com destaque para a bovinocultura. Seu trabalho pode ser visto em

espécie. "Touros reprodutores como, por exemplo, nelores usados na cadeia produtiva de carne, precisam ser fotografados sempre lateralmente, com as patas alinhadas. Já as fêmeas selecionadas para produção leiteira, como as da raça Holandesa, precisam ficar com as mãos - como são chamadas as patas dianteiras do animal apoiadas em um tabuleiro de cerca de 10 cm de altura: na foto, aparecem as quatro patas e o destaque fica para o úbere, que
é a mama da vaca", explica Fatori. Fotografados dessas formas, os animais exibem as características físicas necessárias para a avaliação dos compradores.

Antes das máquinas digitais,
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Fatori fotografava com cromos 6x7; que geravam imagens com qualidade suficiente para grandes reproduções. Atualmente, ele usa uma Fujifilm FinePix S3 Pro, a qual avalia ter uma boa relação de custo-benefício para o trabalho. Nas fotos dos animais no campo, o fotógrafo se vale, basicamente, de teleobjetivas, tanto para encher o quadro com o assunto quanto para neutralizar possíveis distorções de perspectiva do uso da grande angular. "O mais importante do trabalho com animais é a comunicação. O fotógrafo precisa se comunicar com o tratador do bicho, que está ajudando na foto, e também com o próprio animal. Da mesma forma que alguns fotógrafos de pássaros

Ao lado , animal da Fazenda Valônia, que fica entre Lins e Cafelândia (SP); acima, foto publicitária feita para a Tortuga, empresa de nutrição animal

Concursos são uma forma de ganhar destaque na área
Os concursos de fotografia promovidos por empresas agropecuárias são formas de o fotógrafo ter seu trabalho reconhecido, além de oferecerem bons prêmios. Ainda é possível se inscrever para as edições de 2010 de alguns concursos:
• Prêmio Syngenta de Fotografia Importante concurso internacional. que oferece um crédito de USS 8 mil ao primeiro lugar, para ser gasto com equipamentos Canon. As inscrições e o envio das fotos devem ser feitos até o dia 20 de junho de 2010 pelo site www.syngentaphoto com

concurso ainda está em sua terceira edição, com prêmios modestos. As inscrições estão abertas até dia 31 de julho e o regulamento pode ser obtido no site wwwdeere, on-i hr
• Prêmio New Holland - Renomado no setor, o concurso ainda organiza sua edição de 2010, a qual permitirá a participação de fotógrafos do Brasil, Argentina. Paraguai e Uruguai. Acompanhe as informações pelo site ^^v,v.íu;rv^ollaod cnm hr

• Concurso Fotográfico Jonh Deere - Promovido pelo fabricante de equipamentos agropecuários, o

• Prêmio Massey Ferguson de Jornalismo - Promovido desde 2001, uma de suas categorias é fotojornalismo. A edição de 2010 fechou suas inscrições em abril. Mais informações no cite 1,'',Nmasscyccn hriFprerriojornallsmo

usam o canto reproduzido por algum gravador, o fotógrafo de gado precisa chamar os animais de alguma forma, seja por sons ou pelo uso de algum outro animal, passeando por trás do fotógrafo. Com isso, os bois demonstram expressões com o olhar e a foto fica mais interessante", conta. Paranaense de Arapongas, Fatori uniu a fotografia ao gosto pela pecuária, herdado do avô fazendeiro. Hoje, além de fazer fotos de animais para peças publicitárias e catálogos de leilões, ele também mantém um banco de imagens de agronegócio, com destaque para a bovinocultura. "Outro nicho de mercado é a venda de quadros com fotos de animais. Fiz algumas exposições com este tema e. inclusive. um leilão de quadros, aos moldes dos leilões de gado". conta Fatori. Os quadros são vendidos entre R$ 300,00 e R$ 500,00. Um dos que foram leiloados chegou a R$ 5 mil. Em 2006, Fatori teve uma foto premiada em segundo lugar no Concurso Itaú BBA de Fotografias. No ano seguinte, o fotógrafo publicou o livro Na trilha do Nelore, com imagens e textos que contam a trajetória da fazenda Mata Velha, que fica na região de Uberaba (MG) e é importante referência na criação de gado desta raça. Portanto, voltar o olhar para o agronegócio pode render um novo campo de trabalho. É começar a plantar para futuramente colher. O

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FOTOGRAFIA DE NATUREZA

A boa foto sempre começa no

en quad ra m e n t o
Saber olhar uma cena, escolher o melhor ângulo e selecionar os elementos que farão parte da foto são importantes processos para conseguir uma bela imagem
Por Luiz Clauco Margo, Texto e fotos D a varanda da minha casa, na Serrinha do Alambari, descortino um amplo panorama da vertente oriental do maciço do Itatiaia, na região da Serra da Mantiqueira, dentro do Estado do Rio. Essa encosta é coberta por grande diversidade de árvores, densos palmitais e belas formações de samambaiaçus. Minha casa é orientada para o Norte e, assim, o sol nasce à direita dela, movendo-se ao longo da serrania, que se mostra de frente, como uma parede de vegetação. O sol se esconde atrás da montanha; para o lado do pico das Agulhas Negras, e a iluminação se mantém favorável para a fotografia das plantas e da paisagem exuberante da floresta. Da minha janela. observo as aves e as mudanças do tempo ao longo do dia. Acompanho o crescimento da vegetação e suas variações conforme as estações. Dali, estou atento também a oportunidades para fotos. Já usei desde uma grande angular de 24 mm até uma tele de 800 mm. e quase todas as distâncias focais

Nesta vista aberta, o lenhador é "esmagado" pela paisagem, já que o corte na imagem sugere que a árvore tem uma altura incalculável 82 Fotografe Melhor

0 uso de um plano próximo, em uma cena parecida à foto anterior, destaca o serrador em vez da árvore

FOTOGRAFIA DE NATUREZA

Na foto acima, o uso de um enquadramento fechado na casa e nas árvores em sua volta no litoral do Ceará enfatizou a força do vento na região

das minhas lentes. Às vezes é um gavião pousado numa embaúba, outras é a textura dos palmitais, ou ainda o efeito da luz do amanhecer no conjunto da mata. Quando vislumbro algo que me convida a fazer uma foto, imediatamente penso com que distância focal vou enquadrar. Ao perceber uma oportunidade, o passo seguinte é decidir o enquadramento. E isso me fez pensar... O que é o enquadramento? Qual o seu significado e importância para a composição de uma foto? Como ele se relaciona com os outros elementos de design da fotografia? Que equipamentos e técnicas podemos usar para controlar o enquadramento de uma foto? Ao encontrar uma oportunidade de criar ou montar uma fotografia,
84 Fotografe Melhor

consideramos imediatamente, e de uma só vez, os elementos de design dela, Vemos, com o olho da mente, composição, linhas e formas, tons de cinza ou cores, o momento decisivo para disparar o obturador, a informação contida na cena, a expressão do sujeito, o clima ou astral daquele momento, a perspectiva, a iluminação, a textura e o ritmo de todos esses elementos. Numa fração de segundo, percebemos tudo isso articulamos a linguagem fotográfica - e, ao mesmo tempo. enquadramos a cena. O mestre norte-americano Ansel Adams chamava isso de pré-visualização. 0 QUE É ENQUADRAR? O enquadramento é o recorte visual que fazemos do mundo, o que incluímos no espaço delimitado

pelo filme ou pelo sensor - e: ao mesmo tempo, o que deixamos de fora. É como se víssemos o mundo como um quadro e lhe recortássemos uma janela pois, ao fotografarmos, criamos uma imagem plana a partir de uma realidade multidimensional. O francês Henri Cartier-Bresson dava tanta importância ao enquadramento que ampliava suas fotos com uma linha negra circundando a imagem para dizer que aquela foto tinha o enquadramento original feito no momento de fotografar. sem cropping posterior. Fazemos também o recorte temporal de um acontecimento. Excluímos o que aconteceu antes e depois do instante fotografado. Sequestramos esse momento do fluxo do tempo, do contínuo

temporal daquele acontecimento, de seu contexto, o que tem importância fundamental no significado daquela imagem. É como se apropriar de um fotograma de um filme. dispensando tudo o que vem antes ou depois. Essa questão é o momento decisivo. Aqui, vamos tratar do enquadramento espacial da fotografia.

HORA DA ESCOLHA
O enquadramento representa uma escolha do que iremos enfocar no mundo. Define a ênfase que daremos a um aspecto daquela cena ou acontecimento. Podemos fazer uma tipologia de enquadramentos, baseada na linguagem cinematográfica, e examinar o que cada aspecto significa. Cada enquadramento, sempre articulado com o ponto de vista - fotografar ao nível do olho, de cima para baixo ou de baixo para cima, por exemplo -, implica também uma narrativa dramática diferente. E não apenas um ângulo de visão distinto. A cada variação do enquadramento, a cada estreitamento do ângulo de visão, temos diversificadas "narrativas dramáticas" e significados da foto.
A vista geral, panorâmica ou grande plano geral apresenta um ângulo de visão aberto, mostrando o horizonte, o céu, abrindo a perspectiva da foto até o infinito. Enquadra a cena dentro de um grande contexto espacial, o maior possível, sem nenhuma ênfase em qualquer aspecto particular. São as fotos panorâmicas, de grandes paisagens, ou em que um acontecimento apresenta-se no primeiro plano e a foto tem um ângulo de visão aberto, incluindo uma paisagem muito mais ampla do que aquele acontecimento. Um site (olhar com dr/dicasi: linguagemfotografica.htm), muito apropriadamente, diz sobre as vistas panorâmicas que 'seu valor descritivo está na importância da localização geográfica do sujeito e o seu valor dramático está no

0 enquadramento em Glose procura mostrar a graça da menina interagindo com os pássaros

envolvimento ou esmagamento do sujeito pelo ambiente. Pode enfatizar a dominação do ambiente sobre o homem ou, simbolicamente, a solidão". Mesmo aves, insetos, outros seres e objetos pequenos podem

ser fotografados numa vista geral. Algumas grandes angulares de ângulo de visão bem aberto e com foco mínimo curto (30 cm, às vezes menos) ou câmeras digitais compactas permitem ao fotógrafo acercar-se de insetos ou algumas
Fotografe Melhor 8-1

FOTOGRAFIA DE NATUREZA

Uma vista geral da cidade de Manaus que mostra a geografia da cidade e não destaca nenhuma construção específica ...

aves oceânicas que não fogem com a aproximação. A narrativa dramática contida nesse enquadramento leva o pensamento do observador além da percepção das características do animal e até à compreensão do ambiente onde ele vive. A foto "respira" ao mostrar o céu onde aquela ave voa, por exemplo. Na fotografia aérea, a vista geral inclui o horizonte, mostrando toda a geografia da paisagem e, para isso, a aeronave deve voar baixo e a câmera estar nivelada quase horizontalmente. Esse enquadramento também deixa a paisagem "respirar", enquanto uma vista aberta ou plano geral, que é um enquadramento mais fechado que vista geral, enfatiza um determinado aspecto da paisagem, como o encontro das águas de dois rios amazônicos ou
86 Fotografe Melhor

cicatrizes deixadas na floresta por atividades de garimpo. Uma paisagem também pode ser fotografada numa vista aberta ou plano geral, em que, por exemplo, um conjunto de casario colonial ocupa todo o quadro, mas não mostra o horizonte e o contexto geográfico mais amplo. A ênfase não é mais no ambiente geral, na situação geográfica daquela cena, mas num aspecto ainda amplo, porém determinado. A foto não quer mais dizer "veja todo o contexto geográfico desta cena", "veja essas crianças e como é a paisagem onde elas estão". A vista fechada escolhe mostrar uma grande cena, mas uma cena determinada, e não mais do que isso. Diz "veja esse grande conjunto de casas", "veja esses ipês floridos". Se a fotografia é de gente, divide o quadro fotográfico

entre as pessoas e o ambiente próximo. Esse enquadramento tem grande valor descritivo: situa a ação e situa o homem no ambiente em que ocorre a ação.

PLANOS FECHADOS
A vista fechada ou plano médio, se aplicado a pessoas ou a animais ou plantas, apresenta-os de corpo inteiro (ou a planta inteira), sem mostrar o ambiente. Descreve o assunto principal sem situá-lo num contexto espacial. Esse enquadramento em fotos de árvores, ao mostrá-las por inteiro, relaciona-se com o ponto de vista: dentro da floresta fechada, devido à falta de espaço, é quase inevitável fotografarmos a árvore de baixo para cima, criando forte distorção em que as raízes parecem imensas e a copa vai diminuindo com a distância.

... diferentemente do que ocorre na imagem acima, ainda aberta , mas focada no Teatro Amazonas e nos outros prédios do centro da cidade

Mas usar sempre essa perspectiva em árvores de áreas abertas pode constituir-se num cacoete, numa fórmula repetitiva buscando um efeito dramático, porém, falsificando a arquitetura da planta. Essa perspectiva, para gente ou arquitetura, salienta uma sensação de poder das pessoas e dos prédios, mas também causa distorções e descreve mal as construções. O plano americano é um tipo de enquadramento que se refere apenas a gente. Vem do cinema americano da metade do século 20 e mostra as pessoas dos joelhos para cima. Um enquadramento um pouco mais fechado, de pessoas da cintura para cima, chamamos de plano próximo. Daí em diante, temos o Glose, mostrando apenas o rosto ou parte do corpo de um ser humano ou de

um animal (ou para descrever um aspecto de uma planta, sua flor ou um ramo de folhas, por exemplo). Com nível de aproximação e detalhe ainda maior, há o superclose ou detalhe, Em seres humanos, o Glose realça a expressão do sujeito e traz uma sensação de proximidade, de intimidade. O detalhe mostra um olho, uma pequena parte do corpo e quase penetra sob a pele. Quando chegamos ao nível do detalhe, conseguimos aquelas cenas abstratas pelo artifício de isolar aspectos diminutos de seres ou objetos e ampliá-los muitas vezes. Acho importante o fotógrafo ser vigilante para não cair em fórmulas repetitivas. Se a prática da fotografia enveredar por caminhos rotineiros, cheios de cacoetes e clichês, a criatividade e o prazer inerente a qualquer expressão

artística serão destruídos. Um enquadramento ainda mais fechado, aprofundando o nível de detalhe, entra na área da macrofotografia e da microfotografia, com grande ampliação, às vezes com o uso de microscópios.

COISA DE CINEMA
0 cineasta alemão Wim Wenders disse que um "enquadramento se define muito mais pelo que não se mostra do que pelo que se mostra". Porque omite o mundo que está fora do visor e, assim, falsifica a informação transmitida pela foto? Ao isolar a cena de seu contexto, o fotógrafo manipula a realidade. E se ele se define como um documentarista, tem responsabilidade pela veracidade de seu trabalho.

Ou a observação de Wim
Fotografe Melhor 87

Outro enquadramento que pode ser usado na fotografia de natureza é o proporcionado pelas imagens panorâmicas, com planos abertos

Retratos de pessoas, como deste indiozinho ao lado, pedem um enquadramento vertical e mais fechado

Wenders refere-se a uma questão puramente estética? Preste atenção aos cantos do visor. Está deixando pedaços do que está fora do quadro intrometerem-se na sua imagem? Vê algo que interfere e diminui a força da foto?

AS OBJETIVAS
As características dadas pelas distâncias focais das objetivas são uma ferramenta para controlar o enquadramento. O ângulo de visão mais aberto das grandes angulares permite incluir mais elementos e isso diminui o tamanho deles na composição. 0 ângulo de visão mais fechado das teleobjetivas permite excluir elementos e aumenta o tamanho. Para isso, as fotos devem ser tomadas da mesma distância. Assim, numa cena em que o fotógrafo quer incluir mais elementos no canto da foto,

mantendo o elemento principal do mesmo tamanho, deve dar dois passos para a frente e trocar a lente de 50 mm por uma grande angular de 35 mm, por exemplo. Ou. para excluir elementos nas margens da foto, anda para trás e troca a 50 mm por uma tele de 105 mm. No entanto, as grandes angulares aumentam a separação de planos, enquanto as teles compactam os planos, isto é. as distâncias entre os elementos da fotografia parecem aumentar com as grandes angulares e diminuir com as teles. Tudo isso o fotógrafo pode usar, para o bem ou para o mal. Com uma objetiva zoom, essa operação é quase automática.

A MOLDURA
Ao pensar no enquadramento, devemos também refletir sobre as proporções do quadro que usamos para fazer o recorte da realidade, isso é, a moldura: a máscara do filme ou o tamanho do sensor. As câmeras de filme 35 mm ou as digitais fui! frame fazem as fotos na proporção 2:3 Esse é um formato dinâmico. Há uma sensação de

movimento na relação entre as duas dimensões, diferente do médio formato 6 x 6 cm, quadrado, que transmite certa imobilidade. A vantagem do médio formato é a maior resolução (maior número de pixels), o que possibilita ampliações maiores, com mais nitidez. Mas poucos fotógrafos resistem à tentação de fugir desse formato estático e cortar (crop) as fotos para um formato retangular, mais dinâmico. Ainda uso filme devido ao formato da máscara da câmera Hasselblad X-Pan, de 24 x 65 mm, na proporção 2:5,4. Gosto desse formato para fazer paisagens panorâmicas, mas resisto à tentação de usá-lo de forma indiscriminada, apenas para fazer .'um efeito diferente", como é comum vermos em algumas fotos, sem o rigor de boa composição e da fotografia em geral. A Hasselblad X-Pan usa filme 35 mm e sua máscara é maior apenas na dimensão horizontal. Com uma lente de distância focal de 45 mm (lente normal em câmeras 35 mm ou fulf frame),

ela tem um ângulo de visão na dimensão horizontal de uma grande angular, sem separar os planos e apequenar os elementos da cena. Uma serra num segundo plano próximo mantém sua grandiosidade porque é fotografada mais de perto do que com uma câmera 35 mm e não diminui de tamanho devido à característica da grande angular de separar os planos e diminuir o tamanho dos elementos da composição. Mas 24 x 65 mm não é um formato fácil de usar e fazer boas composições.

Não entendo até hoje por que os fabricantes nunca fizeram as máscaras ou sensores das câmeras fotográficas na proporção áurea, de 1,85:3. em vez de 2:3. É um formato extremamente harmonioso e encantador, talvez pela relação com a natureza, com o crescimento biológico. com algumas proporções nos seres vivos. É conhecida desde a Antiguidade e foi muito utilizada pelos artistas da Renascença. O formato dos sensores, se correspondesse a essa proporção, seria de 22.25 x 36 mm. em vez de
Fotografe Melhor 89

Acima, foto de um sanhaço-de-encontro - amarelo, feita com uma tele de 800 mm, na Serrinha do Alambari ( RJ); abaixo , enquadramento parecido nos tuins em uma embaúba

24 x 36 mm. Mas podemos cortar as fotos nessa proporção com a ferramenta de crop, que pode ser selecionada na barra de ferramentas do Photoshop. Basta escrever as dimensões da foto na proporção áurea nos quadros de largura (width) e altura (height). As linhas que definem o crop vão cortar a imagem no formato determinado e o tamanho da imagem automaticamente vai mudar para essas dimensões. Mas se você pretende fazer isso. lembre-se, ao enquadrar, que vai perder uma faixa horizontal em cima ou embaixo do quadro. quando mudar a proporção.

ADEQUAÇÃO AO ASSUNTO Lembro-me de um livro sobre
embarcações brasileiras cujo layout detestei porque o projeto gráfico desconsiderava a orientação das fotografias, quase todas, claro, acompanhando a horizontalidade dos barcos e da água. A moldura das fotos determinada pelo designer era quadrada e os barcos precisavam espremer-se nessa proporção, sem espaço na frente para navegar. A beleza de uma composição depende da adequação do enquadramento ao assunto. Decididamente, é difícil fotografar um trem ou uma sucuri estendida com a câmera na posição vertical. Minha primeira abordagem de uma oportunidade de fotografia é intuitiva e faço o enquadramento quase automaticamente. E o assunto quase que determina se a foto será horizontal ou vertical. Mas logo depois, se tenho tempo, considero a possibilidade de fotografar no outro sentido, para ter a mesma foto com as duas orientações. Penso no destino final do meu trabalho e, como pretendo sempre publicar minhas imagens em livros e revistas, tento fazer detalhes, outros aspectos do mesmo tema e enquadramentos alternativos para capa e para página inteira de revista, nas duas orientações.

Abaixo, foto de samambaia feita com enquadramento na proporção áurea (1,85:3)

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0 plano aberto evidencia o ambiente amazônico em que estava a jaó, ave terrestre que atravessava o Rio Japurá para tugir da subida das águas

FÓRMULAS PRONTAS Um clichê comum sobre
enquadramento é a ideia de usar elementos nos cantos da foto para "enquadrar" e desse modo chamar a atenção para o assunto. Essa é uma questão de gosto. Eu não gosto porque é uma fórmula e uma contradição com a criatividade, principalmente se muito repetida. Criatividade implica um espírito livre que não utiliza soluções previamente arranjadas, isto é, clichês e fórmulas. Para mim, geralmente, esses elementos para enquadrar o assunto simplesmente atravancam a composição e ocupam espaço no quadro, retirando importância do tema que desejo enfatizar. Ao descrever uma tipologia de enquadramentos, sugeri que diferentes ângulos de visão das cenas continham uma narrativa dramática específica. Mas também o que incluímos ou deixamos de fora traz outros significados e informações para a foto - e não somente por causa da natureza do ângulo de visão.
92 Fotografe Melhor

Ao buscar um enquadramento, não olhe apenas para os cantos do visor procurando evitar a poluição visual de formas estranhas que interferem na imagem. Olhe mais longe - em duplo sentido - e veja se ao incluir ou cortar outros elementos isso não amplia a informação da fotografia ou até transforma o seu significado. Sempre pensamos no enquadramento articulado com a composição, é claro, mas considere também a informação ou o clima da fotografia. Em março de 1993, numa viagem de barco no Amazonas, me deparei com um jaó (Cryptureíus undulatus), uma ave terrestre. chamada localmente de macucaua, nadando no meio do Rio Japurá. Ele estava fugindo de uma área de várzea em que as águas estavam começando a subir no ciclo de inundação anual. Pensei logo em enquadrar a ave de perto, para mostrar as características da plumagem, mas o que uma ave terrestre estava fazendo no meio desse imenso rio

amazônico? Resolvi fotografar o jaó mostrando a outra margem do rio, a várzea. O resultado foi uma foto de importância científica, publicada depois numa nota na revista de ornitologia Ararajuba. Uma foto que ilustrava a importância dos rios amazônicos como barreiras para a dispersão da fauna. Tudo porque olhei para longe, além das margens do rio e do primeiro enquadramento. O enquadramento é apenas o primeiro momento da criação de uma foto. Muitas vezes. um momento fugaz, decidido numa fração de segundo. No entanto, é no pequeno retângulo do visor que delimitamos o que será mostrado e o que continuará oculto, ou seja, aquilo que não poderemos adicionar posteriormente. Diversos cortes da realidade podem significar outras mensagens. Escolher o enquadramento pode ser o primeiro passo para uma grande foto, rica de significado ou de uma foto medíocre,

sem surpresa ou interesse. O

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