História do Ensino das Artes no Brasil

Reflexão
Reflexão sobre o ensino das artes no Brasil e suas particularidades e comparações com o ensino de teatro na sala de aula, levando em conta que o ensino das ARTES nas escolas tem o objetivo de aquisição de linguagem.
Dália Nídia.*

ou seja. nos cursos de Pedagogia. Dança. assumir a especificidade da formação profissional que se propõem a oferecer. por exemplo. arte -educadores e aos professores de arte o trabalho pedagógico com as artes na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental (da 1ª à 5ª série) por que é tão rara a presença desses profissionais nestes níveis da escolarização básica? Parece-nos que evitar a formulação de questões como as apresentadas ± ou não procurar respondê-las ± revela uma silenciosa orquestração na direção de "deixar tudo como está pra ver como é que fica".Ensino de arte XFormação de professores ³O problema relativo ao ensino das artes no país põe em xeque a formação de professores oferecida nas licenciaturas em Arte (Artes Visuais. do educador. por que nos cursos de Pedagogia e de formação de professores não são oferecidas disciplinas que contemplem a especificidade estética de cada uma das linguagens artísticas (Artes Visuais. Ciências Naturais. em escolas normais superiores. História e Geografia. Música e Teatro)? Por que não se busca sinalizar procedimentos metodológicos para o trabalho sistemático com cada uma das linguagens artísticas em cursos que têm como objetivo a formação dos profissionais da educação que irão atuar nas creches. Dança. pré -escolas e séries iniciais do ensino fundamental? Se cabe aos artistas. Não se tem notícia de professores de matemática ou de língua portuguesa. e o mesmo ocorre com as licenciaturas para o ensino das demais áreas do conhecimento: Artes. do meu ponto de vista. pré-escolas e nas séries iniciais do ensino fundamental (da 1ª à 5ª série). Afinal. o compromisso das faculdades de educação com a elaboração de O termo '(in)formação' busca referir a complexidade das práticas formativas de professores no âmbito da sociedade do conhecimento (ou da informação) e destacar o aproveitamento e uso sistemático da informação no processo da formação profissional de educadores. Abrir mão disso significa pôr em risco a existência dos cursos de Pedagogia. criando condições de igualdade no oferecimento das diretrizes metodológicas para o trabalho pedagógico com todas as áreas de conhecimento. habilitações para o Magistério de nível médio e em programas para o aperfeiçoamento. 1 . os cursos de Pedagogia precisam. Música e Teatro). é aquele profissional "licenciado" para realizar a transposição didática do conhecimento das diferentes áreas do saber em creches. atuando na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental: as licenciaturas nessas duas áreas têm em vista o exercício do magistério da 6ª à 9ª série do ensino fundamental e ao longo do ensino médio. É necessário. portanto. a licença para o exercício do magistério na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental é prerrogativa do pedagogo. Se é assim. de modo sistemático.´ Que tipo de (in)formação 1os profissionais da educação recebem para trab alhar com seus alunos. as diferentes linguagens artísticas? Se a habilitação para o Magistério na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental é prerrogativa do pedagogo. por isso. Entendo que o professor da educação infantil e das séries iniciais é essencialmente polivalente. quero aqui expor meu ponto de vista em relação a essa problemática. Essa licença é o "caroço" de sua identidade profissional. Educação Física. em serviço.

fez concurso público para o ensino de Arte nos Centros Educacionais Unificados (CEUs). entendemos que a questão principal continua sendo a (re)conceptualização dos processos (in)formativos dos profissionais da educação na perspectiva da melhoria de sua performance enquanto trabalhadores altamente qualificados para o desenvolvimento das ações educacionais. 2 . num processo reflexivo. Por esses motivos. defender o ensino de Arte na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental como prerrogativa do pedagogo não significa excluir a possibilidade de o artista. necessitam de (in)formações adequadas e específicas que lhes assegurem o gerenciamento competente de suas intervenções pedagógicas nesses níveis da escolarização. Reitero que o ensino de Arte nesse nível da educação básica é uma prerrogativa do pedagogo. Nesse sentido. A discussão sobre a quem cabe a responsabilidade do ensino das artes na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental é oportuna.uma matriz curricular que não comprometa a excelência do ensino de Arte que os artistas. artistas e arte-educadores. ou seja. O entendimento de que o ensino de Arte deve ser um mosaico "condensado" das diferentes formas de expressão estética. os arte -educadores e os artistas. recentemente. em razão de a construção dos processos de representação do desenho e da escrita possuir. arte-educadores e professores de arte brasileiros almejam e têm perseguido historicamente. Para nós. os licenciados em Arte.Ora. de modo superficial e insuficiente. Música e Teatro) atuarem com os profissionais da educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental 2. do profissional da educação. um caminho alternativo tem-se revelado promissor no ensino de Arte: a formação continuada e em serviço d e professores numa perspectiva prático-reflexiva. o arte-educador e o licenciado para o ensino das diferentes linguagens artísticas (Artes Visuais. enfatizando a atividade criadora e o "jogo de cintura" necessário ao professor-pesquisador. Evidentemente. nas intervenções educativas das quais participa. abrindo acertadamente inscrições para licenciados em Arte. Esse paradigma formativo reserva para a pesquisa-ação lugar central no processo de (in)formação profissional do educador porque o professor -cursista (re)faz a sua prática pedagógica a partir da reflexão "em ação" e "sobre a ação". pode possibilitar uma produ tiva atuação na área de Arte. O fato é que a linguagem das Artes Visuais foi "eleita" para ser prioritariamente trabalhada com os futuros professores. uma trajetória comum. no início. Dança. "nas primeiras séries do ensino fundamental. é conveniente que se focalize apenas uma das linguagens artísticas em vez de "borboletear". A natureza improvisacional desse paradigma aponta para o desafio do "novo". costuma atuar um professor com formação de nível médio. "A orientação e acompanhamento da prática desses professores. para poderem atuar de modo conseqüente na educação infantil e séries iniciais da educação básica. Mas é preciso observar que. em sala de aula ou nos ambientes digitais de aprendizado. pelo vasto universo das artes. totalmente despreparado para uma prática pedagógica consistente na área d e Arte"." Vale lembrar que a Prefeitura de São Paulo. mesmo considerando inconsistente o fato de (in)formar professores priorizando-se uma única linguagem artística. (i n)formado e licenciado para exercer ali o magistério.

Gastão Vieira (PMDB-MA). A maioria dos países faz uma importante distinção entre a formação e a necessidade permanente de atualização ± que são responsabilidades individuais do professor ± e a capacitação que é oferecida pelas escolas ou Parlamentares membros da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados: Dep. Prof. a reboque de uma ideologia neoliberal perversa. Jonival Lucas Jr. Prof. historicamente constituída. como "deficientes" em razão da idéia de que os professores possuem autonomia para a gestão (co)laborativa do conhecimento com seus alunos e a comunidade acadêmicoescolar. Marilyn Jaeger Adams (Universidade de Harvard) e Prof. É aterrorizador constatar que o relatório final do Grupo de Trabalho (GT) Alfabetização Infantil. Profa. da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados ± Alfabetização infantil: os novos caminhos ± relatório final ±. cuja ênfase recai exclusivamente na leitura. caracterizando -os. Fernando Capovilla (USP). seja dos professores que atuam nesses níveis da escolarização. defende -se claramente uma prática pedagógica escolar de natureza "homogeneizante" que não considera a div ersidade de contextos socioculturais da escolarização nacional nem a singularidade dos processos de intervenção educacional. omitindo sua amplitude sóciohistórica e complexidade psicológica. se apóia em idéias e conceber seu s próprios prática da maioria dos materiais pedagógicos No trecho transcrito. não parece difícil concluir que a melhoria da qualidade do trabalho pedagógico com Arte na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental passa necessariamente por uma compreensão do letramento como prática complexa sociocultural. O entendimento da importância do desenvolvimento (em todas as direções) do ser humano implica (re)conhecer as múltiplas dimensões do saber-fazer pedagógico e a especificidade a arte de inventar das diferentes áreas do conhecimento ± sem prejuízo do diálogo entre elas ou da interdisciplinaridade. Dessa forma. Prof. Claudia Cardoso-Martins (UFMG). Dra. Jean-Emile Gombert (Universidade de Rennes). Dr. Dr. Profesora Raquel Teixeira (PMDB-GO). 3 . João Batista Araújo e Oliveira (especialista em educação da JM Associados). Dep. Dr. Roger Beard (Universidade de Leeds). Dep. sinalize claramente a retomada de um modelo "tecnicista" para o letramento. Dra. escrever e ler! Isso equivale a nivelar por baixo os processos pedagógicos de desenvolvimento cultural das novas gerações.(PTB-BA). Dr. que é a de se apoiar em existentes. no Brasil. Veja-se o que diz este documento quando critica as práticas correntes de (in)formação contínua e em serviço de educadores no país: Uma das deficiências dessa capacitação é que ela conceitos gerais e na idéia de que cabe ao professor materiais didáticos ± o que entra em conflito com a professores. seja dos propositores e formuladores das matrizes curriculares dos cursos (in)formativos dos profissionais da educação. Dep. todos. na escrita e na aritmética 3.A prática pedagógica com Arte O trabalho do(a) professor(a) nesses níveis da educação básica não pode nem deve resumir-se unicamente a ensinar às crianças como contar. José Carlos Juca de Morais (Universidade Livre de Bruxelas). Lobbe Neto (PSDB-SP). Membros do Grupo de Trabalho Alfabetização Infantil: Profa.

apresentar conceitos. nos PCNs. solucionar definitivamente a problemática relativa aos processos (in)formativos dos profissionais da educação no país. ³O ensino de arte requer um professor orientador. o aperfeiçoamento democrático da administração escolar. que incentiva a produção. Na maioria dos países. tampouco o descompasso entre a dimensão discursiva dos PCNs e a ausência de macropolíticas educacionais voltadas para a melhoria da escol arização nacional. Não se pode acreditar que esses programas possam. 29). o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). reiteradamente. não são suficientemente exploradas pelo documento da Câmara dos Deputados. Nos países de cultura alemã. o envolvimento e a constância do aluno´. Em nenhum caso a capacitação é vista como substituto da formação inicial básica.sistema de ensino. A denúncia da existência de uma "febre" de programas de (in)formação em serviço promovidos pelas Secretarias de Educação dos Estados e Municípios. que caracterizou o processo de sua elaboração e implantação no país. As profundas contradições presentes na fundamentação teórica dos textos que se prestam a justificar e expor. a remuneração digna dos trabalhadores da educação. a iniciação profissional do professor é fortemente supervisionada. desconsiderando os determinantes estruturais que respondem pelo fracasso da escola pública e que envolvem questões que vão da desvalorização do magistério à falta de condições materiais e de infra estrutura para a realização da tarefa pedagógica do ensino e da aprendizagem. tendo mais ênfase em países como os Estados Unidos do que na Europa. interpretar e refletir sobre a arte. como um instrumento para a obtenção da qualidade da educação. a melhoria das condições físicas e materiais para o desenvolvimento do trabalho docente etc]. como constatou o professor Fábio do Nascimento Fonsêca (2001. da Universidade Federal da Paraíba (UFPB): Ao se afirmarem. a capacitação é concentrada em um a dois dias por ano ± raramente mais de 20 horas por ano ± e tipicamente se concentra em: disseminar informações sobre novos programas. cultural e profissional . instrumentos ou inovações metodológicas associadas a esses programas. por si mesmos. O ensino de arte nas salas de aula A aprendizagem artística trabalhada em sala de aula tem como função desenvolver no aluno a competência para criar. os PCNs parecem supor que a simples existência de uma proposta curricular seja condição suficiente para resolver a problemática que afeta a educação brasileira. p. as propostas disciplinares de diferentes áreas do conhecimento e a orientação "de cima para baixo". é todavia pertinente. Sua eficácia só se daria paralelamente a todo um conjunto organizado de ações tendo em vista a melhoria da qualidade da educação brasileira [como a Reforma Universitária. trazida a público pelo documento. A capacitação de professores existe e m todos os países. A educação em arte ganha crescente importância quando se pensa na formação necessária para uma adequada inserção social.

reflexivo e inovador. informando -o sobre a História da Arte. o professor deve estar atento para o temperamento de cada aluno. necessária para se ter familiaridade com o universo procedimental da arte. que inclui tanto saberes universais como aqueles que se relacionam ao cotidiano do aluno. fazem parte do conjunto de ações desenvolvidas pel o professor nessa área: orientar os processos de criação artística oferecendo suporte técnico. Acolher e exigir são os pólos da oscilação pendular. observando suas ações e individualidade. por sua vez. cada gesto. propor exercícios que aprimoram a criação. ajudando -o na resolução de problemas com dicas e perguntas e fazendo-o acreditar em si mesmo.do jovem contemporâneo. construindo um percurso cultivado. Sua colaboração é ainda maior quando sabem respeitar os modos de aprendizagem e dedicar o tempo necessário a fornecer orientações e conteúdos adequados para a formação em arte. interpretar e refletir sobre arte. Ou seja. Dominar os processos de criação em arte. acompanhando o aluno no enfrentamento dos obstáculos inerentes à criação. Cada um se sentirá confiante em relação a sua arte à medida que aprender efetivamente. O apoio do professor. na formação em arte o plano da subjetividade dialoga permanentemente com as informações e orientações oferecidas pelo professor. Além de debater os conteúdos específicos da área. sabendo contextualizá -la como produção social e histórica. que incentiva a produção. Assim. Cada imagem. atendendo aos três eixos de aprendizagem significativa: fazer. que representa os movimentos do professor nas orientações didáticas em arte. propositor. ensina os caminhos da criação e solicita do aluno envolvimento e constância. ou seja. promover a leitura. Na construção da identidade artística das crianças e dos jovens que freqüentam as escolas. Portanto. cada som que emerge nas formas artísticas criadas em sala de aula têm grande importância. o . uma vez que se referem ao universo simbólico do aluno. a leitura dos objetos estéticos e a reflexão sobre a arte. além de favorecer a construção de uma imagem positiva de si mesmo como conhecedor e produtor em arte. informado pela cultura reque r um professor orientador. são criadas as condições para que o aluno sin ta-se bem ao manifestar seus pontos de vista e mostrar suas criações artísticas na sala de aula. É o professor quem promove o fazer artístico. a reflexão e a construção de idéias sobre arte e ainda documentar os trabalhos e textos produzidos para análise e reflexão conjunta na sala de aula . exigem a atuação precisa do professor. é alimentado pela sua atualização permanente. a arte pode colaborar e muito. Ela imprime sua marca ao demandar um sujeito da aprendizagem criador. os professores têm um papel significativo. Se hoje o aluno deve ser formado para enfrentar situações incertas e para resistir às imposições de velocidade e de fragmentação que caracterizam a contemporaneidade. Dessa forma.

dentro e fora da escola. uma base imprescindível por incluir as formas simbólicas que dizem respeito à humanização de todos os tempos e lugares.planejamento do tempo. sim. cada aluno fará escolhas com liberdade e discernimento. próprios dos modos de continuar aprendendo sempre e por si. Nesse percurso de construção de saberes. Isso não significa que arte promova a auto -estima num passe de mágica. além dos estudos referentes à História da Arte. ancorado em uma sólida formação. Uma aprendizagem artística assim percorrida deixará marcas positivas na memória do aprendiz. A vida cultural pode (e deve) transitar pela escola. inusitadas e incorpora competências e habilidades para expor publicamente suas produções e idéias com autonomia. influenciado pelas culturas. . a arte é. um sentimento de competência para criar. pela simples afirmativa de que tudo o que o aluno faz e pensa em arte é ótimo. a organiza ção do espaço e a atenção aos processos de comunicação.³ Na construção da identidade artística das crianças e dos jovens que freqüentam as escolas. Nesse aspecto. cada som que emerge nas formas artísticas criadas em sala de aula têm grande importância. o que caracteriza os processos de criação e m arte e de aprendizagem autoral. ³Cada imagem. teatro e música tem o objetivo de estabelecer a comunicação permanente entre o que se estuda e a cultura em produção. o aluno aprende a lidar com situações novas. sem dúvida. uma vez que se refe rem ao universo simbólico do aluno. outra competência que promove a imagem positiva do aprendiz. Ao atribuir e extrair significados das produções de críticos. cada gesto. mas contará com traços propositivos e transformadores. historiadores da arte. Além disso. filósofos. Também as leituras de objetos artísticos. devem ter papel destacado na sala de aula. tanto entre professor e aluno como entre os colegas de classe. renovando -se em contato a diversidade de manifestações artísticas que revelam o movimento contínuo da arte e do conhecimento. Um aluno preparado para o futuro é aquele que acompanha seu tempo. com a mediação do professor. apresentações de dança. int erpretar objetos artísticos e refletir sobre arte sabendo situar as produções. A instância de formação escolar integrada à produção social da arte é um aprendizado para a participação do jovem na sociedade. porque além de cumprirem o papel de formação cultural. jornalistas. os jovens compreendem e se situam no mundo como agentes transformadores. mostras da cidade. artista s. os professores têm um papel significativo. A visita a feiras e ateliês. Será. conectam a aprendizagem escolar ao patrimônio cultural.

______. 1993b. Flávio. 1996. São Paulo: Cortez. Ana Mae. Pedagogia do espectador. 2003.Referências Bibliográficas: BARBOSA. Arte na educação escolar. . São Paulo: Perspectiva. A imagem no ensino de arte. DESGRANGES. São Paulo: Hucitec.

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