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SINGER, Past. Bimdmica gopula- ciemol 2 drewdannante, Soo Parks Huccee | I9¥6 Disc: GOCIOLOGIA INTRODUGAQ Populagao e Desenvolvimento Econémico © “crescimento” econdmieo pode ser encarado como ‘a variagio, no tempo, do volume total de produgao social (uedide em alguma tnidade). “Desenvolvimento” econd- mico 6 geralmente considerado como uma instncia espect- fica do crescimento econdmico. Muitos autores, por exem- plo, consideram como sendo desenvolvimento o crescimento do produto a uma taxa maior que a do aumento da popu- Iago, isto 6, como sendo o erescimento do produto per ca~ pita (+). nossa opiniio, no entanto, que o conceito de desenvolvimento deveria ser reservado para designar a transformagio estrutural de uma economia, em contrapo- sigGio aos casos em que o crescimento se da dentro de um mesmo enquadramento estrutural. E verdade que o crescimento quase nunca deixa de ser acompanhado por alguma mudanca na estrutura econi mica, Considerando-se uma economia nacional, é diffeil imaginar um periodo em que 0 crescimento nao tenha afe- tado a sua estrutura, pois, para tanto, teria sido necessario que todos os setores se expandissem a exatamente a mesma taxa, Mesmo nos paises que completaram sua revolugao industrial ha muito tempo, o setor de servigos cresce mais depressa que a industria e esta se expande mais avelerada- mente que a agricultura. Nos EE.UU., por exemplo, entre (*) Para wina discussio mais’detalhada do conceito de desenvolvi- mento, vide Singer, 1968, pasticularmente 0 captiulo 1. 4 1950 e 1964, a contribuicao da agricultura para 0 Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 7% para 8%, a da indtistria caiu de 85% para 84%, ao passo que a dos servicos ele- vou-se de 68% para 63%, Estas cifras indicam alguma mudanga estrutural, mesmo se as compararmos com as de algum pafs em desenvolvimento, como 0 México, onde, no mesmo perfodo (1950-1964), a proporeao da agricultura no PIB caiu de 23% para 18% e as da industria e dos servicos elevaram-se respectivamente de 27% a 31% e de 50% a 51%. Embora o montante absoluto de mudanca néo difira muito nestes pafses, os efeitos relatives estéo longe de serem os mesmos. Nos Estados Unidos o crescimento do setor tercidrio (servicos) constitui_um aprofundamento ulterior de uma divisio de trabalho j4 hé muito implanta- da, A redugio da parcela da agricultura no PIB nos BE.UU. € 0 resultado da baixa elasticidade-renda da de- manda por alimentos e matérias-primas de origem agri cola naguele pais. Tendo o crescimento lugar principal- mente fora da agricultura, ele reduz a proporgéo relative desta iiltima no PIB. A mudanga estrutural resulta da transformacio qualitativa da demanda, quando a renda per capita dispontvel atinge niveis elevados. No México, no entanto, o decréscimo relativo da agricultura nfo se da por uma saturacao crescente da demanda pelos produ- tos deste setor. Neste pais, a mudanca estrutural reflete a implantagio de uma nova diviske do trabalho entre cam- po e cidade. A participago da indistria no PIB tem que crescer, pois a atividade manufatureira, mantida no anonimato estatistico antes de a economia se desenvolver, é arrancada dos intersticios da agricultura, onde era pra- ticada de forma artesanal, para se converter em setor au- t6nomo da economia, Nos pafses desenvolvidos, a mudanga estrutural acar- retuda pelo crescimento resulta do fato de que aq parcelas adicionais de poder aquisitivo, entregues ao consumidor, sy gastas em maior proporgdo num sctor do que nos outros. Nos paises em desenvolvimento, a mudanca estru- tural no é 0 resultado mas a condicao para o crescimento. Nestes paises, a transformagao estrutural reflete a trans- 2 feréncia de atividades manufatureiras e de servigos do campo A cidade e é esta transferéncia que induz o cres- cimento. ‘Transformacio estrutural como esséncia do desenvol- vimento ndo é apenas a mudanca do tamanho relativo, do produto de cada setor da economia, mas a mudanca das relagées entre estes setores, as quais sio derivadas da divisio social do trabalho. ‘Aplicamos 0 conceito de desenvolvimento ao tipo de mudanga estrutural que resulta da revolugio industrial ou industrializagio. Mas desenvolvimento nao ¢ sindni mo de industrializagio. O conceito de desenvolvimento ‘abarca o conjunto de transformacées pelas quais passa uma economia, quando se d4 a revoluedo industrial, “enquanto 0 de industrializagdo enfoca principalmente a problematica diretamente ligada & construgéo de uma economia indus- trial. No acu uso mais comum, a industrializacio é um coneeito mais limitado, embora éle esteja no centro do complexo processo de mudanga que chamamos de desen- volvimento(*). Quando um pais se desenvolve, ele comega por romper as amarras que 0 prendem & divisdo internacional do tra- palho, estabelecida no dltimo século quando a revolugio industrial se deu pela primeira vez na Europa Ocidental e nos Estados Unidos e que condenou as Economias Co- Joniais a se tornarem produtoras especializadas de ali-, mentos e matérias-primas. Como os paises que desenvol- yem suas economias nfo deixam completamente a cena do comércio mundial, seu rompimento com a divisio de tra- © tazmo “industrial” tem duas conotagGes diferentes. Uma “strictu * 6 relere as atividades produtivas do chamado setor secundario Ga economia: transformacio de matérias-primas em bens manufaturados, ‘Outre, de sentido mais amplo, se refere a0 modo industrial de producio, {que se caracteriza ‘pelo uso de miquinas em lugar,de ferramentas © de Grergia “artificial” (proveniente do vapor, de geradores hdrelétricos, de Mnotores a explorio oa de geradores atfmicos) em lugar de enengia “na- tural” (proveniente dos musculos do homem ou de animais, da’ queda das Aguas ou do vento). O. desenvolvimento 6 conseqiléncia da difusio do “modo industrial” de produgdo numa economia em que éle & pratica apenas em pequena escal 18 alho existente exige que uma nova, que permita a indus- trializagio de todos os paises que nela participam, sub: titua a velha divisdo de trabalho, baseada no monopélio industrial de algumas poueas nagdes. Eis porque o desen- yolvimento no é a mera repetiedo da revolucao industrial original, embora varios dos seus aspectos possam ser idén- ticos, A revolugdo industrial, como ela se deu na Europa e na América do Norte, se apoiava precisamente na divistio de trabalho interuacional que pressupunha a néo-industria- Tizagdo dos demais paises, As manufaturas briténicas se expandiram to notavelmente no fim do século 18 e no eomeco do seguinte porque dispunham da maior parte do mando como mercado. O imperialismo eolonialista reviveu no fim do século 19, na medida em que a revolugao indus- trial se expandia no continente europeu e fora dele. A corrida, que se verificou entio, para a conquista de colé- nias teve por funcio econdmica mais importante prover mercados cada vez mais amplos para as novas economias industriais, recém estabelecidas na Franga, Alemanha, Es- tados Unidos etc.. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Revo- Iug&o Colonial reverteu este processo. Os paises que desen- volvem suas economias hoje nfo se podem aproveitar da existéncia de sociedades ainda nfo desenvolvidas para pro- mover sua propria industrializagao. Embora ainda haja muitos paises que sequer inieiaram o seu desenvolvimento, seus Mercados esto quase sempre dominados por nagics ja industrializadas. Uma indicag’o deste fato é que, em 1955, apenas 24,4% das exportagées de paises néo desen- volvidos se dirigiram a outros pafses nas mesmas condigées fe esta percentagem caiu a 22,1% em 1962 (UN, 1964, pz. 91.) Embora tenha havido desenvolvimento em varios dos assim chamados paises “‘subdesenvolvidos”, 0 comér- cio. entre eles cresceu neste periodo (1955-1962) menos (1,6% a0 ano) do que com os paises industrializados capitalistas (29% ao ano) e com os paises de economia centralmente dirigida (18% ao ano). Isto mustra que o desenvolvimento, nas-condigdes presentes, tem que se ba- sear principalmente no mercado interno do pais em que ele se dé. A expansdio do mercado interno, ao contrario a4 do que aconteceu na Europa Ocidental, nos Estados Unidos ¢ no Japio, quando se industrializaram, é agora um requi- sito essencial para o desenvolvimento. Ente contraste entre os processos de desenvolvimento’ do passado e do presente, cujo reconhecimento é essencial para a compreensao da sua dinamica interna, foi descrito ainda reeentemente do segunte modo: “Um processo [o da industrializagio dos paises ndo desenvolvidos} se desen- rolou, entio, que foi muito diferente daquele que caracte- rizow o surgimento dos novos paises industrializados, da segunda metade do século 19 em diante, que seguiam o exemplo originalmente oferecido pelo Reino Unido. Reino Unido, naquela época, nfo impunha tarifas protecio- nistas; elas eram, em termos gerais, relativamente baixas nos paises europeus; e nos paises periféricos elas, ou nao existiam, ou serviam comumente a propésitos fiscais. Neste ambiente internacional propicio, a industrializag&o se péde voltar para fora, além de satisfazer as necessidades inter- nas. E desta maneira, os paises em processo de indus- trializagdo colheram os beneficios da especializagao e de uma escala adequada de produgdo... O contraste com o que ocorreu apés a grande depressio nao poderia ser mais chocante, As circunstincias compeliram a industrializa- cdo a se voltar para dentro, como um simples processo de Substituico de importagdes — simples mas geralmente, custoso” (UN, 1964 pgs. 20 e 21.) Eis porque néo se pode estudar o desenvolvimento como um proceso histérico que se inicia com a revolucio industrial na Inglaterra e obedece, desde entao, as mesmas leis, Desenvolvimento 6 a transformagao estrutural das economias nacionais que estio se industrializando num mundo plasmado pela Revolucéo Colonial, nfo s6 pelos seus éxitos mas também por suas insuficiéneias, num mundo em que a independéncia politica se combina com dependéncia econdmica e onde o rompimento com a divisio internacional de trabalho tradicional é muito mais dolo- roso e arriscado que o rompimento dos lagos politicos de dependéncia, Considerar como idénticos tais processos que néo so apenas diferentes mas até, em certa medida, opos- 15