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(2) abordagens_socio_psicologicas

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  • Objetivo
  • Aula 01 – A Biologia do Comportamento Criminoso
  • 1.1 A Frenologia
  • 1.2 A Antropologia Criminal de Lombroso
  • 1.3 A Síndome do Duplo “Y”
  • 1.4 As Alterações Genéticas
  • 1.5 O Estudo com Gêmeos
  • Aula 02 - Conceito de Violência
  • 2.1 O Conceito de Violência
  • 2.2 Tipologia da Violência
  • Aula 03 - Introdução ao Estudo da Sociologia do Crime
  • 3.1 O conceito de Sociologia
  • 3.2 A Sociologia do Crime
  • 3.3 A Escola de Chicago
  • Aula 04 - O Crime como Problema Social
  • 4.1 Teoria da Anomia
  • 4.2 Teoria da Subcultura
  • 4.3 Teoria da Associação Diferencial
  • 4.4 Teoria do Controle Social
  • 4.5 Teoria da Rotulação (Labeling Approach)
  • Aula 05 - A Lei como Mecanismo de Controle Social
  • 5.1 O Controle Social
  • 5.2 O Crime e a Classe Dominante
  • 5.3 O Controle do Crime no Estado Capitalista
  • Aula 06 - A Condição Humana: Perspectiva Teórica Psicológica
  • 6.1 Teoria da Personalidade de Gordon Allport
  • 6.2 Teoria Behaviorista
  • 6.3 O Trabalho de B. F. Skinner
  • 6.4 A Teoria Psicanalítica
  • Aula 07 - A Condição Humana: Agressividade, Violência e Conduta Criminosa
  • 7.1 A Personalidade Anti-Social
  • 7.2 Considerações Históricas
  • 7.3 Características Diagnósticas
  • 7.4 A Classificação Segundo Blackburn
  • 7.5 Relevância para a Segurança Pública
  • Aula 08 - O Comportamento Desviante
  • 8.1 O Conceito de Normal e Desviante
  • 8.2 Desvio Positivo e Desvio Negativo
  • 8.3 Os Tipos de Desvio e a Consolidação do Comportamento Desviante
  • 8.4 As Formas de Desviação
  • Aula 09 - A Doença Mental e o Crime
  • 9.1 A Medida de Segurança
  • 9.2 A Doença Mental no Código Penal
  • 9.3 A Alienação Mental
  • 9.4 Outros Estados Psíquicos Considerados no Código Penal
  • Aula 10 - A Delinqüência Juvenil
  • 10.1 A Família: uma Visão Sistêmica
  • 10.2 A Família do Adolescente em Conflito com a Lei
  • 10.3 O Adolescente em Conflito (Inclusive com a Lei)
  • 10.4 A Privação Emocional
  • 10.5 A Prevenção da Delinqüência Juvenil
  • Referências
  • Glossário

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
Reitor Prof. MSc. Pe. José Romualdo Desgaperi Pró-Reitor de Graduação Prof. MSc. José Leão Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Prof. Dr. Pe. Geraldo Caliman Pró Reitor de Extensão Prof. Dr. Luiz Síveres

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA VIRTUAL
Diretor Geral Prof. Dr. Francisco Villa Ulhôa Botelho Diretoria de Pós-Graduação e Extensão Prof.ª MSc. Ana Paula Costa e Silva Diretoria de Graduação Prof.ª MSc. Bernadete Moreira Pessanha Cordeiro Coordenação de Informática Weslley Rodrigues Sepúlvida Coordenação de Secretaria Acadêmica e Apoio ao Aluno Karlla Vanessa do Lago Aragão Coordenação de Pólos e Relacionamento Francisco Roberto Ferreira dos Santos Coordenação de Produção Edleide Epaminondas de Freitas Alves

Equipe de Produção Técnica Análise didático-pedagógica Prof. MSc. José Eduardo Pires Campos Júnior Profa. Dra Leda Gonçalves de Freitas Prof. MSc. Juarez Moreira Profa. Especialista Ana Brigatti Edição Profª. Especialista Cynthia Rosa Márcia Regina de Oliveira Yara Dias Fortuna Montagem Marcelo Rodrigues Gonzaga Anderson Macedo Silva Bruno Marques Beça da Silva Conteudista Álvaro Pereira

........................................................................4 Teoria do Controle Social...........................................................................................38 7.1 Teoria da Personalidade de Gordon Allport ............................ 34 6..................................................................................................................................1 A Medida de Segurança ..14 2..........1 O conceito de Sociologia.3 A Alienação Mental .................2 Desvio Positivo e Desvio Negativo ..4 As Alterações Genéticas ........2 A Doença Mental no Código Penal .................................................................3 O Trabalho de B.......................................41 7.....32 5....................4 Outros Estados Psíquicos Considerados no Código Penal ......4 As Formas de Desviação.............................................................................................................. 20 3.................................................. 26 4....30 5................................................... 47 Aula 09 ...16 Aula 02 ............ 30 5......44 7...............................52 9........5 Relevância para a Segurança Pública ....2 Teoria da Subcultura ........1 O Controle Social....................................................................................................................................47 8..O Crime como Problema Social .........................................................................Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Sumário Sumário Objetivo................A Condição Humana: Perspectiva Teórica Psicológica ..6 Aula 01 – A Biologia do Comportamento Criminoso...............2 O Crime e a Classe Dominante ..........................................................................................29 Aula 05 .................................................A Doença Mental e o Crime.........................5 O Estudo com Gêmeos .... 7 1.........................................................20 3............................................................................26 4.42 7...............50 Aula 07 ....................................................... 41 Aula 08 .........7 1................3 Os Tipos de Desvio e a Consolidação do Comportamento Desviante .........27 4.....................3 Características Diagnósticas..................................3 A Síndome do Duplo “Y” ..................49 8..Conceito de Violência .....................................51 9...32 Aula 06 ..........................................................................................................................................................22 Aula 04 .......................3 Teoria da Associação Diferencial ......O Comportamento Desviante..12 2.......................................................................................................................................Introdução ao Estudo da Sociologia do Crime ..2 Considerações Históricas .......... F...................1 O Conceito de Normal e Desviante......47 8.....10 1.................. Skinner ............. 51 9..........................36 6...............................A Lei como Mecanismo de Controle Social ...2 A Antropologia Criminal de Lombroso .....................................28 4...................5 Teoria da Rotulação (Labeling Approach)......................................................................1 O Conceito de Violência .............................11 1..........................................2 Tipologia da Violência...................................................................22 3............................................ 8 1................35 6...........................................43 7......................4 A Classificação Segundo Blackburn.......................................3 O Controle do Crime no Estado Capitalista ..............................................28 4.............A Condição Humana: Agressividade......................................................................................51 9.....................................2 A Sociologia do Crime ................................................................................................4 A Teoria Psicanalítica .2 Teoria Behaviorista .................................................................................... Violência e Conduta Criminosa.......................................................................................................................................................45 8..............1 A Frenologia .........54 4 ...1 Teoria da Anomia .....................34 6...........................1 A Personalidade Anti-Social ..3 A Escola de Chicago ....................................................................... 14 Aula 03 ...............

.................Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Sumário Aula 10 ....................2 A Família do Adolescente em Conflito com a Lei......... 56 10.59 10..........5 A Prevenção da Delinqüência Juvenil ...............................1 A Família: uma Visão Sistêmica .......................................................... 64 Glossário ...................................................................61 10......................A Delinqüência Juvenil ........................................................ 66 5 ....................................56 10...........................................................4 A Privação Emocional ...................62 Referências..58 10....................................................3 O Adolescente em Conflito (Inclusive com a Lei) ..........................................................................................................

exame empírico das teorias da lei como mecanismo de controle social. agressividade. A condição humana: perspectiva teórica psicológica. Introdução ao estudo da Sociologia da violência e do crime. O comportamento desviante e a doença mental. Tipologia da violência. O crime como problema social: evolução do pensamento sociológico. funções. 6 . A Lei como mecanismo de controle social: análise das necessidades. perspectivas teóricas da lei e do controle social. utilização e efeitos dos mecanismos formais e informais de controle social. violência e conduta criminosa. padrões de sintomas e abordagens para o tratamento.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Objetivo Objetivo A biologia do comportamento criminoso. A delinqüência juvenil: causas.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 Aula 01 – A Biologia do Comportamento Criminoso Você alguma vez já ouviu pessoas dizendo que “o fulano já nasceu criminoso”? Isso significa acreditar que esse “fulano” seria portador de uma anomalia biológica qualquer. Desde os tempos de Aristóteles (384-322 a. A abordagem biológica é muito criticada no meio científico atual. mas já exerceu um grande fascínio em períodos passados da história da ciência. 7 .1 A Frenologia No século XVIII. Vamos explorar. sob o comando de um centro cerebral específico.1: Figura 1. então.) já havia interesse pelo comportamento criminoso e suas origens. Veja a Figura 1. A suspeita de que o crime tenha uma base biológica foi alvo de muitas discussões e trabalhos científicos. Essa teoria ganhou o nome de Frenologia (de phrenos = mente e logos = estudo).1 – Mapa Topológico da Cabeça De acordo com essa teoria. As pessoas que pensam assim são partidárias da corrente de pensamento que considera que existam causas biológicas para o comportamento criminoso. Cada comportamento estaria. Desde as investigações de Lombroso (item 1. alguns aspectos históricos dessa busca! 1.C. as buscas por resposta para a questão da existência de base biológica para o comportamento criminoso ainda não chegaram a um resultado definitivo. seria regulada por regiões específicas do cérebro. Os adeptos dessa corrente de pensamento advogam que algumas pessoas são incapazes de se conformarem com as normas sociais devido a um defeito biológico. até as pesquisas com ressonância magnética.2). mais intensa seria a expressão desse comportamento. responsável pelo seu comportamento fora da normalidade social. no século XIX. um anatomista austríaco chamado Franz Joseph Gall desenvolveu uma teoria em torno da seguinte idéia: a maioria das características humanas. inclusive o comportamento anti-social. nesta primeira aula. quanto mais robusto fosse o centro cerebral específico de um comportamento.

você acha que uma teoria dessa natureza poderia ter sido proposta? Por quê? Figura 1. deixando neles saliências que poderiam ser vistas ou palpadas. o médico italiano Cesare Lombroso criou uma nova doutrina que ressuscitou a associação das características físicas do indivíduo com uma suposta índole criminosa. arcos superciliares excessivos.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 Franz Gall imaginava que. uma explicação interna ao próprio ser humano.2 A Antropologia Criminal de Lombroso Em 1876. como: protuberância occipital. órbitas dos olhos grandes. o cientista divulgou suas idéias e lançou a base de sua teoria. os centros cerebrais exerciam pressão contra os ossos da cabeça. então.2 – Lombroso (1835-1909) Tendo feito observações e chegado ao que acreditava ser uma constatação. lábios grossos. nariz torcido. Mas a idéia de achar uma explicação biológica para a prática criminosa. anomalias nos órgãos genitais. As pessoas com tendências criminosas poderiam. 1. braços excessivamente longos. arcada dentária defeituosa. Lombroso lançou seu famoso livro O homem delinqüente. ao crescer. ser reconhecidas pelo exame cuidadoso dessas protuberâncias e depressões ósseas presentes no crânio! Para Saber Mais O que você acha disso? Veja aqui outras informações sobre a Frenologia. testa fugidia. pois não teve confirmação científica. Para Refletir Nos dias de hoje. mãos grandes. Surgia a Antropologia Criminal. continuou a seduzir muitos pesquisadores. De acordo com a teoria de Lombroso. zigomas salientes. existiriam certas características físicas capazes de identificar o ser humano delinqüente. orelhas grandes e separadas etc. 8 . A teoria de Gall não prosperou.Nessa obra.

Para Refletir Você acha que a teoria de Lombroso poderia ser relacionada a preconceitos étnicos? Apesar de seu equívoco. onde a miscigenação racial é bem diferente do restante do país. de Marcos César Alvarez e busque outras informações! Uma das críticas ao trabalho de Lombroso foi o fato de ter utilizado uma amostra muito restrita. Para Saber Mais Esse é um assunto instigante. funcionais e psicológicos. como Enrico Ferri. geralmente provenientes da marinha italiana. os criminosos estudados por ele eram militares. sua metodologia prejudicou suas intenções e o levou a propor conclusões hoje refutadas pela ciência. Hoje sabemos que a comprovação de suas idéias está cada vez mais distante da realidade científica. O trabalho de Lombroso deu origem ao “positivismo criminológico”. Mas. Lombroso tem o mérito de ter voltado as atenções para o estudo da intimidade do criminoso. a teoria de Lombroso influenciou pesquisadores e seus objetos de pesquisa. Outros cientistas também desenvolveram teses correlatas à teoria biológica: trabalhando com tipos de corpo físico e traços de 9 . quase todos da região do sul da Itália. Rafael Garófalo e Franz Von Liszt. Em sua maioria. o indivíduo criminoso seria um ser atávico. que influenciou diretamente outros estudiosos.3 – Criminosos Estudados por Lombroso Por quase duzentos anos.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 Para ele. que teria dado um salto atrás no desenvolvimento ontogenético e que poderia ser identificado por estigmas anatômicos. embora tenha realizado centenas de autópsias e observado milhares de sentenciados vivos. não? Leia o texto “ O delinqüente e o social naturalizado: apontamentos para uma história da criminologia no Brasil”. Figura 1.

Hooton (1939). quociente intelectivo abaixo da média grupal. tal qual nos peixinhos de Hamilton. eram mais agressivos que os demais machos e assediavam as fêmeas com mais intensidade do que os peixes normais. 1. Essa hipótese foi confirmada logo em seguida. Pois bem. acreditaram ter encontrado uma relação entre ambos. Você se lembra das aulas de genética. von Hentig (1947) e Sheldon (1949). Depois disso. Eles consideram que há uma forte influência do meio sobre o comportamento dos portadores da síndrome do duplo Y e que esses indivíduos. conduta anti-social. nos Estados Unidos. sabendo dessa descoberta.3 A Síndome do Duplo “Y” Em 1968. excesso de espinhas no rosto. muitos pesquisadores relataram ter descoberto algumas características comuns ao grupo de indivíduos portadores da síndrome XYY. e as fêmeas (normais) possuem os cromossomos sexuais XX. esse cientista encontrou peixes que possuíam um cromossomo sexual a mais! Algumas pessoas. uma vez identificados. Na mesma época. o cientista James Hamilton. entre as quais podemos destacar: caracteres de agressividade.afirmando que meninos nascidos com cromossomos XYY têm inclinação incomum para a delinqüência (Oliveira. o livro The XYY and The Criminal. são questionadas por diversos pesquisadores. chegaram a classificar os animais como “supermachos”!O fato é que Hamilton percebeu que esses peixes da espécie “killi”. passam a ser estigmatizados pela comunidade como portadores de algum tipo de anomalia.com cromossomos a mais. estatura acima da média. Como representantes desse grupo temos: Kretschmer (1925). lentidão no desenvolvimento sexual. com o advento da microscopia eletrônica. Essas supostas descobertas. em Biologia? Recorde: indivíduos machos (normais) possuem os cromossomos sexuais XY.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 temperamento. o cientista Montagu aventou a hipótese da síndrome do duplo Y entre os seres humanos. os “supermachos”. Robert Stock lançou. 10 . justificava-se que alguns indivíduos herdavam um cromossomo a mais no seu cariótipo – o que provocaria alterações de comportamentos desviantes. de Marcello Koudela. inadaptação escolar. Para Saber Mais Informe-se mais sobre o tema com a leitura do texto: “Criminologia: multidiscipinaridade na investigação das origens do crime e o concenso quanto a sua prevenção”. Assim. do Departamento de Anatomia da Escola de Medicina de Downstate (EUA). relatou a existência de peixes da espécie “killi” que possuíam os cromossomos sexuais do tipo XYY (OLIVEIRA. Também ao final da década de 1960. 1987). doença mental. entretanto. 1987). inquietude e impulsividade.

11 .4 – Microfotografia dos Cromossomos X e Y Em 1993. com populações de doentes mentais. sobretudo as chamadas mutações. Há alguns pesquisadores que atribuem a isso o fato de eles serem presos com mais facilidade: um indivíduo alto. o pesquisador Oliver Cases relatou que ratos que foram geneticamente modificados e ficaram sem a atuação da enzima MAO A apresentaram altos níveis do neurotransmissor serotonina. Dois anos depois. ou seja. apresentando comportamentos anormais como: tremor. Em verdade. são altos. reação de espanto e agressão. conhecida também como MAO A. G.4 As Alterações Genéticas Outra fonte de informação a respeito da origem biológica do comportamento criminoso é o estudo dos genes e suas alterações. o primeiro está associado a desordens agressivas e o segundo ao suicídio. muito pouco utilizada para explicação de comportamentos desviantes. e essa teoria é. 1.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 Os argumentos contrários à listagem de características associadas ao duplo Y são sustentados pelas pesquisas realizadas na Inglaterra. apenas 0. Entre os 1. Brunner pesquisou uma família alemã em que todos os integrantes do sexo masculino possuíam um retardo mental associado a comportamentos agressivos. O óxido nítrico e a enzima triptofano hidroxilase também foram alvo de pesquisas. H. medo. tem mais dificuldade em se esquivar da ação da polícia! A freqüência desse gene é de um para cada mil nascimentos. a única característica que os pesquisadores são unânimes em aceitar é que os portadores da síndrome do duplo Y têm sempre estatura acima da média. quando em fuga pela prática de um crime.811 pacientes investigados. Outras pesquisas investigaram neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina. As pesquisas não chegaram a conclusões seguras. então. Figura 1. entre os anos de 1968 e 1972. O cientista encontrou como causa desse comportamento a mutação de um gene que codifica a enzima monoamino oxidase.08% da amostra possuía a síndrome do duplo Y.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 Enfim. se um herdou a tendência para cometer crimes. Isso sugere a existência de fatores genéticos atrelados ao crime. Apesar de a evidência dos dados apontar para a existência de fatores genéticos associados à criminalidade. as crianças apresentavam mais comportamentos criminosos do que aquelas cujos pais adotivos pertenciam a classes de estatuto sócio-econômico superior. é claro. Em 14 de abril de 2003. São aqueles gêmeos provenientes do mesmo óvulo fecundado e que.5 O Estudo com Gêmeos Outra maneira de pesquisarmos a influência da biologia – mais precisamente dos fatores genéticos – como causa de condutas criminosas é o estudo dos gêmeos. o que. Ora. 12 .7 bilhões de dólares. possuem o mesmo material genético. as pesquisas indicam que alterações funcionais nos genes ou enzimas causam alterações metabólicas e. não foi plenamente comprovado pela ciência! Comparando a concordância de comportamento entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos.9% de precisão. Isso. o consórcio internacional que constituiu o Projeto Genoma Humano anunciou oficialmente a conclusão do seqüenciamento dos 3 bilhões de bases do DNA da espécie humana com 99. isto é. por conseqüência. alterações comportamentais. sobretudo os monozigóticos (também chamado de univitelinos). Para Saber Mais Saiba mais sobre o tema lendo sobre o Projeto Genoma! 1. nota-se que os gêmeos monozigóticos apresentam o dobro de correlações no comportamento criminoso. em tese. apesar de existir um fator genético capaz de aumentar a suscetibilidade da pessoa para comportamentos criminosos. Em estudo com crianças adotadas e filhas de pais biológicos com comportamentos criminosos. o dobro de correspondência entre os comportamentos de um e outro irmão gêmeo. consumiu 2. por si só. O que podemos concluir é que. segundo se afirmou. o outro também deverá ter herdado essa condição. essa suscetibilidade estará sempre sujeita às condições ambientais. se assumirmos que a genética tem mesmo influência sobre condutas criminosas. O projeto durou 13 anos e. Até a presente data não foi anunciada a identificação de nenhum gene como determinante direto do comportamento criminoso. quando os pais adotivos pertenciam a meio sócio-economicamente desfavorecido. verificou-se que. O que não foi encontrado é uma alteração genética que. determinasse a eclosão de comportamentos criminosos. portanto. como vimos. se os gêmeos são iguais quanto ao material genético. o papel do ambiente também tem importante influência sobre comportamentos desviantes.

existe o desvio comportamental.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 01 A Teoria Biológica sobre o comportamento criminoso dominou boa parte das pesquisas do século XIX. em definitivo. ainda assim. Entretanto. mas. Bom estudo e até a próxima aula! 13 . Com o avanço da ciência no século XX. até o presente momento. utilizando-se as novas tecnologias. sobretudo naqueles casos em que não há comprovação de nenhum comprometimento biológico. novas pesquisas foram realizadas. a teoria biológica não explicou. a razão do comportamento desviante.

Apresentaremos a você a definição utilizada pela Organização Mundial de Saúde (2002).1 O Conceito de Violência Se você pesquisar na literatura específica. de acordo com a definição apresentada pela OMS (2002). identifique em qual deles há violência e em qual deles há crime. Você se lembra de algum desses episódios?  A violência pode ser sofrida fisicamente pela vítima. Mas. podendo deixar outras repercussões na saúde mental da vítima. A ação violenta geralmente é constituída por uma força física. dano psicológico. e reflita sobre a distinção entre os dois conceitos. p. Muitas vezes os conceitos se misturam ou são empregados como sinônimos.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02 Aula 02 . Nem sempre um comportamento criminoso é violento e vice-versa. mas também há casos em que ela é representada pelo simples exercício do poder. portanto. Você já deve ter visto alguma vítima de agressão física com hematomas.  A violência pode ser praticada por uma pessoa contra si própria. Nesses dois exemplos. será violência. contra outra pessoa. contra si próprio. o perpetrador do ato violento deseja obter o resultado da ação. Mas.5). observada e até registrada. morte. sendo. deficiência de desenvolvimento ou privação (OMS. a violência também pode ser constituída de ameaça.Conceito de Violência A violência e o crime são dois fenômenos que sempre estiveram presentes nas diversas culturas. constatada. será de difícil constatação e comprovação. A História já nos mostrou vários episódios de violência praticados. portanto. A definição apresentada pela Organização Mundial de Saúde inclui alguns elementos importantes. ou contra um grupo ou uma comunidade. 2002. Você já viu na televisão indivíduos que protestam ateando fogo em seus corpos? Consegue se lembrar dos motivos que levaram algumas dessas pessoas a esse ato extremo de violência contra si mesmas? 14 . perceberá que existem várias definições para o termo violência. que não deixará lesões na vítima e. vamos estudar o conceito de violência e os diversos tipos de violência. que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão. Podemos perceber isto em uma luta de boxe pela televisão ou quando ficamos sabendo que milhões de reais são desviados sem que um tiro sequer tenha sido dado. Vamos analisá-los? São eles:   A violência é algo intencional. por exemplo. real ou em ameaça. Nesta aula. por monarcas tiranos. no Relatório Mundial sobre a Violência e Saúde: O uso intencional da força física ou do poder. portanto. o que causa interpretações errôneas. Bom estudo! 2. ainda assim.

Para Refletir Observe a imagem a seguir (Figura 2. que lhe traz um prejuízo adaptativo.a deficiência de desenvolvimentoe aprivaçãocomo elementos resultantes da violência. Por exemplo: quando um minerador interrompe o curso de um rio. ampliou o horizonte a ser observado e passou a admitir o dano psicológico.  Por último. sendo comum atingir uma outra pessoa. Lembre que a violência pode provocar lesão física ou mesmo a morte. a OMS (2002) admite que um ato violento possa atingir um grupo de pessoas ou mesmo uma comunidade. O dano psicológico é definido como uma manifestação inédita na vida da vítima. A Organização Mundial de Saúde. com essa definição. O dano psicológico é um conceito ainda novo no ordenamento jurídico brasileiro. inovou. por exemplo. com os danos causados à vitima. a OMS (2002) mostrou-se preocupada com as repercussões advindas da violência. lhe causa sofrimento íntimo e que possui um nexo de causalidade com o evento traumático anterior. ou melhor. pode ser levada à morte por uma privação de alimentos provocada intencionalmente e de 15 . mas que muitas vezes passam despercebidas na avaliação da vítima. deixando as comunidades ribeirinhas sem água para a sobrevivência. porém.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02  Em geral. entretanto. e não precisa ser praticado contra cada membro em particular. a violência é direcionada contra o meio. esse ato atinge aquele grupo de pessoas em um mesmo momento. Porém. vem sendo implantado pelo Sistema de Justiça Criminal. Você é capaz de imaginar danos psicológicos resultantes de atos violentos? A deficiência de desenvolvimento e a privação são outras seqüelas que podem ocorrer em razão da violência.1) e reflita: de acordo com a definição da OMS (2002). maneira dissimulada pelo agressor. a fome na África é resultado de violência? Quem são os responsáveis por esse problema? Quais são suas causas? E o que podemos dizer sobre a fome nas regiões mais pobres de nosso país? Uma criança. ou seja.

há quatro grupos básicos de violência: física. 2. psicológica. Violência psicológica Também denominada violência emocional. aceleração de parto ou mesmo aborto. podendo causar perigo de vida. discriminação e rejeição. Os efeitos da violência psicológica. vimos que o conceito de violência é mais complexo do que imaginamos à primeira vista. enfermidade incurável. debilidade. porém. vamos estudar as características de cada um deles. 16 . a Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a violência de acordo com a natureza do ato praticado. Assim.2 Tipologia da Violência Na seção anterior. incapacidade para as ocupações habituais.1 – Criança Atingida pela Fome na África Para Saber Mais Você pode obter mais informações sobre a violência e suas conseqüências consultando o site do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (NEV-USP). Trata-se de uma das formas de violência mais difíceis de se observar. ameaças. Violência física Categoria de violência que possui diversas formas.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02 Figura 2. sexual e negligência. deformidade permanente entre outros. sentido ou função. A seguir. A vítima é exposta a situações ridículas. A violência psicológica constitui-se de situações em que a vítima é exposta a tratamento hostil. intimidações. perda ou inutilização de membro. sem agressão física. Envolve algum tipo de agressão à integridade física do outro. podem ser severos. Partindo dessa complexidade. entre outros. entretanto. pois geralmente não há um incidente específico ou danos visíveis.

nutrição. como resultado de omissão por parte das pessoas que têm a responsabilidade pelos cuidados básicos com a criança. mas que também são importantes. educação. Você já deve ter ouvido falar na Revolução Francesa. reflita: na sua opinião. Você acha que também podemos classificar como negligência o mesmo tipo de situação envolvendo os cuidados com pessoas idosas ou pessoas com deficiência? Para Refletir Atenção! Você não deve confundir os efeitos da negligência com aqueles provocados pelas circunstâncias de pobreza. ou seja. Entre elas. De acordo com a OMS (2002). mas também de violação aos Direitos Humanos. Geralmente. a negligência pode atingir áreas como: saúde. podemos dizer que a sociedade é negligente? Existem ainda outras formas de violência menos divulgadas. Muitas vezes esse tipo de violência está ligado à natureza da relação. Reflita: nos casos que envolvem a carência causada pela pobreza. destacamos a violência política e a violência cultural.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02 Violência sexual Não se trata apenas de violação à liberdade sexual do outro. a relação de poder que tem o agressor sobre a vítima. Nos casos de violência sexual. houve um período de 16 meses em que o número de mortes chegou a 12 mil – esse período passou a ser chamado de Período do Terror. o objetivo da violência política é a imposição de ideologias ou a aniquilação de opositores. em que faltam condições materiais para o atendimento das necessidades da criança. certo? Pois bem. a prostituição envolve violência sexual? Negligência Corresponde a situações em que crianças sofrem prejuízo em seu desenvolvimento ou em sua segurança. dando origem ao conceito de terrorismo. o agressor tem a intenção de impor o seu desejo sexual. e lembrando que o poder econômico é também um tipo de poder nas relações humanas. Considerando o fator “relação de poder” na definição de violência sexual. 17 . desenvolvimento emocional. após essa revolução. É interessante que você as conheça um pouco mais! Senão vejamos: A violência política consiste em atos praticados por governos autoritários. abrigo e segurança de vida.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02

Figura 2.2 – Revolução Francesa (Execução do Rei Luís XVI)

Para Saber Mais Quer saber mais sobre o período histórico da Revolução Francesa? Então, clique aqui! A Revolução Russa de 1918 é outro exemplo clássico de violência política. Entretanto, os dois exemplos mais emblemáticos são o fascismo e o nazismo. Você já deve ter visto filmes sobre Hitler, o nazismo e os campos de concentração! Você sabia que os judeus não foram as únicas vítimas do nazismo e que, durante esse período, muitos negros, ciganos e homossexuais também sofreram a violência política? Na História brasileira também tivemos violência política no período da ditadura militar, não é? O que você sabe sobre isso?

Figura 2.3 – Campo de Concentração Nazista

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 02

A violência cultural, por sua vez, representa a substituição de uma cultura pelos valores de uma outra cultura, impostos às vezes de maneira sutil, outras vezes, de forma violenta. Os efeitos são intensos e, muitas vezes, permanentes. Um exemplo marcante foi a chegada dos europeus às Américas, tendo os colonizadores aniquilado muitas culturas pela violência física e cultural. As ruínas de Machu Pichu, resquícios do antigo império Inca, lembram a prática dessa violência.

Figura 2.4 – Ruínas de Machu Pichu

Nesta aula, você estudou o conceito de violência de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde. Vimos que o conceito de violência é complexo, possuindo alguns componentes que precisam ser analisados. Também discutimos a existência de tipos distintos de violência.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03

Aula 03 - Introdução ao Estudo da Sociologia do Crime
O crescente aumento da violência urbana, acompanhado dos altos índices de criminalidade, vem preocupando todas as camadas da sociedade brasileira e, em especial, o segmento da Segurança Pública. Apesar de a violência e a criminalidade serem termos constantemente usados, seus significados não são tão claros para a maioria das pessoas, como vimos na aula anterior. A Sociologia foi uma das primeiras ciências a analisar o fenômeno da criminalidade em meio urbano; nesta terceira aula, vamos explorar a Sociologia do Crime. Boa aula!

3.1 O conceito de Sociologia
As grandes mudanças econômicas, culturais e políticas acontecidas no século XVIII acarretaram profundas mudanças nas organizações sociais. A Revolução Industrial, a Revolução Francesa e, em seguida, o estabelecimento do capitalismo moderno aguçaram a atenção de estudiosos interessados na influência exercida pelo meio sobre o ser humano, e vice-versa. Para Refletir Sabemos que o ser humano tem, cada vez mais, causado mudanças severas no ambiente. Mas você já pensou sobre as influências que o meio exerce sobre nós? No final do século XIX, surgiu uma nova ciência, denominada Sociologia. A Sociologia, como ciência, preocupa-se em investigar o funcionamento e a organização interna das sociedades – sejam tribos isoladas ou metrópoles – e em levantar as influências recíprocas entre o ser humano e o meio social. Portanto, a Sociologia tem como objeto principal de seu estudo os grupos sociais. Um dos precursores da Sociologia foi Auguste Comte (1798-1857), que inicialmente denominou essa ciência como Física Social. Influenciado pelo positivismo, Comte trouxe à Sociologia uma abordagem científica de acordo com os preceitos da época. Ele aplicou à Sociologia os métodos das ciências naturais (biologia, física etc.), admitindo como única fonte de conhecimento e de verdade a experiência. O método científico predominante nessa época era exclusivamente descritivo e deveria investigar apenas os fatos.

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sentir e agir de um grupo social. Figura 3. Para Durkheim. 2002). a Sociologia é o estudo dos fatos sociais.1– Auguste Comte (1798-1857) Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a sociologia ganhou modernidade. a Sociologia utiliza modelos teóricos como forma de explicar a realidade imediata e evita explicações baseadas no senso comum. os fatos sociais são introjetados pelos indivíduos e exercem um poder de coerção sobre eles (OLIVEIRA. Ele definiu os métodos de trabalhos do sociólogo e estabeleceu alguns dos principais conceitos a serem utilizados pela Sociologia. refletem o modo de pensar. De acordo com o modelo de sociologia de Durkheim. Assim.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03 Figura 3. procurando estabelecer relações não evidentes entre os fatos sociais. por sua vez. que.2 – Émile Durkeim (1858-1917) 21 .

realizado em Bruxelas. e buscava.3 A Escola de Chicago Você já deve ter visto filmes sobre Al Capone e os crimes que praticou em Chicago. a cidade de Chicago foi uma das cidades estadunidenses que mais sofreram 22 . o surgimento de minorias sociais. Ele considerava a delinqüência um fenômeno social provocado. Formalizou-se então o interesse da Sociologia pelo crime. pois os caracteres de personalidade.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03 3. em 1892. Assim. as possíveis causas exógenas da criminalidade. agora considerado fato social e não dependente exclusivamente do indivíduo criminoso. o crime e a violência. Como expoentes da Sociologia do crime. em grande parte. Gabriel Tarde. Para tanto. não são suficientes para se chegar ao crime. 1955). em sua história e em seu estado atual. De acordo com Garraud (apud FUNES. à Sociologia dessa época interessavam fenômenos sociais como a desagregação familiar. a indicação de meios para o combate ao crime. por mais anômalos que sejam. A Sociologia do crime adquiriu status de ciência a partir do III Congresso de Antropologia Criminal. na década de 1920. a investigação das causas que favorecem a ocorrência de delitos. defendia que fatores endógenos não devem ser considerados como desencadeadores do crime. Estados Unidos. De acordo com Lacassagne. além de Durkeim (1858-1917) temos Lacassagne (1843-1924) e Gabriel Tarde (1843-1904). as migrações. Durkeim teve o importante papel de chamar atenção para a relação entre crime e sociedade. que focavam o papel da individualidade. pela imitação de comportamento. os objetos de estudo da Sociologia do crime são:    o estudo da criminalidade. no meio social. Surgiu então a Sociologia do Crime. é a sociedade que produz os criminosos. Pois bem. após a Segunda Grande Guerra e a reestruturação da sociedade moderna.2 A Sociologia do Crime A partir da metade do século XX. por sua vez. Esses fenônemos precisavam ser estudados para melhor compreensão do ser humano como ser social e sua influência sobre a própria sociedade. destoando da maioria dos pesquisadores positivistas da época. a Sociologia se deparou com o surgimento de diversos fenômenos sociais. é necessário um ambiente social desfavorável. O que você pensa sobre isso? O comportamento criminoso deve ser considerado uma conseqüência de características internas ao indivíduo ou uma conseqüência da estruturação da sociedade? 3.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03 com as constantes mudanças sociais e o acelerado crescimento entre o final do século XIX e início do século XX (FREITAS. Para os sociólogos da Universidade de Chicago. Para Saber Mais Você vai obter mais informações sobre esse movimento sociológico na conferência de Howard Becker sobre a Escola de Chicago. Isso porque essas zonas próximas ao centro correspondiam aos locais de maior deterioração do espaço urbano. Assim. De acordo com essa teoria. de Ernest Burgess (1886-1966). A Universidade de Chicago foi a primeira universidade estadunidense a criar um Departamento de Sociologia. Os pesquisadores concluíram que quanto mais próxima fosse a localização da zona em relação ao centro da cidade. com a instalação de guetos de imigrantes. a cidade de Chicago era dividida em cinco zonas concêntricas bem definidas. maior seria a taxa de criminalidade. Chicago já deparava com o surgimento de fenômenos sociais até então desconhecidos. montaram uma linha de pesquisa com objetos definidos e deram origem. 23 . Assim. Figura 3. dentro da Sociologia. o aparecimento das chamadas “gangues” de jovens e a proliferação de crimes diversos. mas com um bom suporte financeiro. 2002). em 1890. A cidade passou a ter grandes áreas de pobreza. na cidade de Chicago criou-se uma universidade com o mesmo nome.3 – Chicago em 1929 Em meio ao caos social. à chamada Escola de Chicago. a própria cidade era um imenso laboratório para pesquisa social. onde a população local vivia em condições sociais mais delicadas. Uma das grandes contribuições da Escola de Chicago foi a Teoria das Zonas Concêntricas. que se expandiam a partir do centro da cidade.

ainda que tenha uma origem individual.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03 Figura 3. serviram para demonstrar que o ato criminoso.5 – Zonas Concêntricas 24 .Ernest Burgess (1886-1966) Desse modo. Apesar de os conceitos não explicarem o fenômeno da criminalidade como um todo. Figura 3.4 . também é influenciado pela desorganização social. a Escola de Chicago criou os conceitos de região moral e área criminal (ou delitiva).

mas ainda hoje possuem aplicabilidade na área de segurança pública. em especial. Destacamos a Escola de Chicago como um dos primeiros movimentos acadêmicos a estudar o fenômeno social do crime e correlacioná-lo ao ambiente urbano. O assunto lhe interessou? Então veja aqui como a arquitetura também pode influenciar a ocorrência de atividade criminosa. sobre a sociologia do crime. As idéias da Escola de Chicago são polêmicas. Nesta aula você aprendeu um pouco sobre a sociologia e. Durante a leitura. você vai perceber a aplicação prática dos conhecimentos aqui estudados na área de Segurança Pública de nosso país. aprendendo como dois pesquisadores mapearam a criminalidade na cidade de Teresina. de Carlos Eduardo da Rocha Freitas e Valdira de Caldas Brito Vieira.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 03 Para Saber Mais Você vê alguma aplicação desses conhecimentos para a sua área de atuação profissional? Leia o artigo “ Uso do geoprocessamento para auxiliar a Segurança Pública no mapeamento da criminalidade em Teresina – PI”. por isso elas são úteis para sua prática profissional! 25 .

pois provê diferentes pontos de vista! Bom proveito! 4. filósofo de formação. Para refletir: você acha que um jovem que. Figura 4. Em termos sociológicos. Mas foi Robert Merton que aplicou a Teoria de Anomia ao comportamento individual desviante.O Crime como Problema Social Já falamos anteriormente em Émile Durkheim.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 04 Aula 04 . Merton argumenta que essa frustração o tornaria capaz de apresentar comportamentos desviantes ou. a impossibilidade de o indivíduo atingir uma meta por ele desejada e planejada seria a motivação para o surgimento do comportamento delinqüente. mostrar-se conformista. mas com contribuições importantes para a Sociologia.1 Teoria da Anomia Essa teoria foi originalmente proposta por Durkheim. segundo seus pressupostos. Desse modo. As idéias de Merton são combatidas. Nesta aula. Durkheim foi um dos primeiros a associar a atividade criminosa com o meio. ao contrário. analisando algumas teorias sociológicas que tentam explicar o fenômeno. Essa reflexão é muito importante para os fins desta disciplina. em que há uma perda de identidade causada por bruscas transformações sociais. daremos um enfoque especial à abordagem social do crime. a camada mais empobrecida da sociedade (mais freqüentemente frustrada em seus objetivos) seria a responsável pelos índices de criminalidade. que aplicou seus conceitos nos trabalhos denominados “Divisão do Trabalho” e “Suicídio”. conceituando o crime como um fato social. sonhava ser médico e viu seu sonho frustrado pelas (im)possibilidades relacionadas à estrutura da distribuição da Educação no Brasil tem mais chances 26 . a frustração dos objetivos do indivíduo enfraqueceria seus vínculos com a própria cultura. pois. tornando-o distante da sociedade. sobretudo aquelas observadas após o surgimento do Capitalismo.1 – Robert Merton Para Merton. em criança. a palavra anomia significa um estado de falta de objetivos. Como vimos.

surgem o furto e o dano. a teoria da subcultura é útil para que se entenda a delinqüência juvenil: essa teoria permite entender o que é e como lidar com o problema das ‘gangues’ de delinqüentes juvenis. Assim. Figura 4. De acordo com Cohen (apud ALBERGARIA. de Geraldo Caliman. termina por praticar atos anti-sociais e predatórios para confirmar a sua rejeição ao grupo em oposição.) diferentes da cultura dominante. Com o afastamento. Você concorda? Para Saber Mais Se você se interessa pelo tema ou trabalha com esse tipo de comportamento desviante. temos os skinheads (Figura 4. a subcultura representa a oposição aos valores de uma cultura dominante.2 – Grupo de Skinheads Em outras palavras. isto é. Uma subcultura surge quando um grupo de indivíduos enfrenta dificuldades de adaptação com o grupo dominante. crimes comuns na chamada subcultura da delinqüência. costumes etc. Assim.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 04 de apresentar comportamento criminoso que um jovem que teve maior facilidade em realizar seus sonhos? 4. aquela na qual o grupo está inserido. muitas vezes. 27 . Como exemplo de subcultura. o que reduz a interação social e leva a um contato mínimo entre ambos os grupos.2 Teoria da Subcultura Primeiramente. criando os próprios. procure se informar melhor lendo o artigo “Matrizes estruturais e culturais na geração da violência nas escolas”. você sabe o que é subcultura? Vejamos: referimo-nos a uma subcultura quando um grupo de pessoas apresenta características de comportamento (religião. 1978). o grupo minoritário passa a manifestar comportamentos de agressão e rejeição ao grupo dominante e. o grupo minoritário passa a rejeitar os valores do grupo dominante.2).

1979). O comportamento criminoso é aprendido em interação com outras pessoas. duração. em processos de comunicação. A associação diferencial pode variar em freqüência. como as pessoas se controlam e não se tornam criminosas! 28 . prioridade e intensidade. impulsos. 5. 7. formuladas pelo próprio Sutherland (apud FELDMAN. 8. A aprendizagem inclui: a) técnicas para o cometimento de delitos. A influência desses grupos pode resultar na aquisição ou não do comportamento desviante. O comportamento criminoso é aprendido. Assim. os grupos sociais básicos – como família. racionalizações e atitudes. escola. 4. Para Refletir Você já ouviu a expressão “Diga com quem andas e te direi quem és”? Compare a teoria da associação diferencial com o senso comum acerca da influência de “más companhias” no comportamento de jovens. 2. O comportamento criminoso não é explicado pelas necessidades e valores gerais. Você percebeu que as teorias que vimos até agora tentam explicar por que as pessoas adotam comportamentos desviantes? A Teoria do Controle Social discute o contrário. Vamos a elas: 1. 9. amigos e comunidade local – têm um papel fundamental na socialização do indivíduo. em 1937.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 04 4. ou seja.3 Teoria da Associação Diferencial Também conhecida como Teoria do Aprendizado Social. A direção dos motivos e impulsos é aprendida a partir de definições favoráveis ou desfavoráveis à violação da lei. 4. A teoria da associação diferencial pode ser resumida em nove afirmativas. A pessoa se torna criminosa devido a um excesso de definições favoráveis à violação da lei. essa abordagem foi defendida por Sutherland. 6. b) motivações. A parte principal da aprendizagem do comportamento criminoso ocorre dentro de grupos pessoais íntimos. sobretudo os jovens.4 Teoria do Controle Social Essa teoria tem uma peculiaridade em relação às demais. e enfoca o processo de aprendizagem pelo qual os indivíduos. 3. O processo de aprendizagem do comportamento criminoso utiliza os mesmos mecanismos da aprendizagem do comportamento normativo. adquirem comportamentos baseados em experiências pessoais.

porque a comunidade ficará atenta a qualquer deslize cometido por aquele que já estiver “etiquetado” como desviante! Para Saber Mais No texto “Determinantes da Criminalidade: Arcabouços Teóricos e Resultados Empíricos”. Você concorda? Pense. pois. na teoria da rotulação. ao ser “etiquetado”. afirmam que o comportamento desviante é reforçado pela própria tentativa de controle implantada pela sociedade. Não há teoria certa ou errada. A concordância é percebida nas interações sociais do indivíduo e na aceitação das normas e valores sociais. Para os adeptos dessa abordagem. A crítica a essa corrente de pensamento é que. Primeiro. o indivíduo tende a sofrer uma pressão para sua permanência no papel social de desviante e passa a sofrer uma estigmatização por parte da sociedade. criando normas para selecionar e “marcar” certos comportamentos como desviantes. ou seja. Boa leitura! Nesta aula. porque o indivíduo “rotulado” agirá para confirmar sua identidade desviante. a crença religiosa. é que ela coloca em situação delicada o sistema penal. A teoria mais adequada será aquela que nos permita formular soluções para nossos problemas! 29 . Você certamente já ouviu alguém dizer que o sistema penitenciário é uma “universidade do crime”! O que pensa sobre isso? Os críticos dessa teoria. A teoria denomina esse fenômeno como concordância. Para Refletir Pense um pouco mais: você vê relação entre a Teoria do Controle Social e a Teoria da Subcultura? 4. Muitas dessas teorias serviram ou servem de base para políticas públicas para a área de segurança pública em diversas sociedades. Alguns desses valores são o trabalho. você conheceu algumas teorias sociológicas sobre o crime. um fato só é rotulado crime quando a sociedade assim o considera. menores são as chances de ocorrência da prática de atos criminosos contra ela. ou da Reação Social. segundo. então. os comportamentos sociais padronizados. quanto maior o grau de envolvimento e adaptação do indivíduo à sociedade. ele acaba reforçando a identidade desviante do prisioneiro. de Daniel Cerqueira e Waldir Lobão.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 04 De acordo com a teoria do controle social. da maneira como funciona esse sistema. há a tentativa de buscar a compreensão de cada realidade. por exemplo. considera-se que.5 Teoria da Rotulação (Labeling Approach) Também conhecida como Teoria do Etiquetamento. no estigma que pesa contra os ex-presidiários! Outro aspecto considerado negativo. exploramos um pouco mais o assunto. pela própria rotulação.

com o intuito de manter a ordem social e a economia vigente. prescreve as sanções de acordo com os diferentes tipos de violação à norma. As sanções negativas reparativas. são aceitas as medidas de fiscalização como forma de prevenção objetiva. mas. sua relação com o crime e sua utilidade para a classe dominante. As sanções de caráter positivo têm efeito promocional: elas visam recompensar àqueles que cumprem as normas. Essas intenções têm certa restrição por parte de juristas que zelam pelo Estado de direito. tem a finalidade de se antecipar à ocorrência de um desvio por descumprimento da norma. Antes de seguir adiante. Para isso.1 O Controle Social O controle social configura parte dos recursos que uma sociedade dispõe para assegurar a conformidade do comportamento de seus membros às regras e normas previamente descritas e cuja violação prevê sanções. são aplicadas contra transgressores das normas sociais que tenham causado danos a terceiros. por sua vez. Por exemplo. É sobre as sanções negativas que vamos discutir neste tópico. 5.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 05 Aula 05 . por sua vez. Já as sanções de caráter negativo têm uma finalidade repressiva: impõem conseqüências desagradáveis para os transgressores das normas. Assim. tendo em vista a finalidade. A sociedade exerce o controle social por meio do Direito. A primeira categoria. Elas variam desde uma simples reprimenda até o decreto de uma prisão. de modo que eles não concretizem suas intenções. os mecanismos tornam-se explícitos e rigorosos. O objetivo dessa categoria de sanção é restaurar o estado de normalidade. o Direito Criminal torna-se o instrumento coercitivo do Estado e sua classe dominante. Na sociedade moderna.A Lei como Mecanismo de Controle Social O controle social é o mecanismo pelo qual a sociedade mantém sob domínio seus integrantes. Há sanções negativas de cunho preventivo e outras de cunho reparador. como o nome já indica. vamos discutir o controle social. As sanções podem ser positivas ou negativas. a premiação de um estudante universitário que se destacou com as melhores notas ou projetos estudantis é uma sanção positiva. quando o desvio é detectado e os interesses da classe dominante são ameaçados. 30 . as sanções negativas preventivas aplicam restrições ou medidas de controle em prováveis transgressores. que. Nesta aula. reflita um pouco: que tipo de sanções negativas você já conhece? As sanções negativas se dividem em duas categorias. o controle social é exercido por meio do Sistema de Justiça Criminal. Quando muito. Ele é exercido também de maneira sutil.

em alguns casos. da perspectiva de sua ineficácia no controle da criminalidade e na recuperação de sentenciados. inclusive na forma de crime. então. Você já havia pensado sobre isso? Para Foucault (1977). que é re-socializar o delinqüente para que ele emende seu comportamento e não reincida. Embora a prisão seja sempre criticada. acha que ele pode ser capaz de cumprir seu papel? Figura 5. pois permite o fortalecimento da consciência coletiva: ao reagir espontameamente à violação da lei. Bem.. o crime tem efeitos benéficos para a sociedade. pois permite segregar aqueles indivíduos ou grupos considerados indesejáveis. Ao invés disso. Durkheim (1990) também considera que o crime tem um caráter progressista.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 05 O principal mecanismo de poder com a finalidade de exercer o controle social utilizando sanções negativas reparativas é o sistema prisional. evitando a ruptura da ordem social. veremos que o controle social também impede que a sociedade se desenvolva. a sociedade precisa mudar as regras e normas existentes para se adaptar a novos padrões de 31 . a sociedade assegura a manutenção de seus valores e normas. O controle social é visto. Uma prova de que no Brasil a prisão é apenas um braço do poder está no fato de que as nossas prisões não cumprem sua finalidade principal. Segundo esse autor. Assim. pois não permite a expressão espontânea de seus componentes. a prisão desempenha funções importantes na manutenção do poder e no controle da sociedade. não permite a ocorrência de um desvio social. o crime apresenta aspectos positivos para a sociedade. como um instrumento para o exercício e a manutenção do poder. Isso parece contraditório? Então vejamos! Embora tenha seus efeitos negativos sobre a pessoa da vítima. de acordo com o pensamento de Durkheim (1990). ela nunca deixou de existir..1 – Prisão Brasileira Se abordarmos a questão por outro ângulo. você já sabe como são nossas prisões. Conhecendo nosso sistema prisional. Alguns autores consideram que o controle social não se destina apenas a manter os cidadãos dentro dos padrões de conformidade. já que.

a classe dominante é aquela que possui e controla os meios de produção. O direito criminal é a base daquilo que chamamos ordem legal. A classe dominante. aparelha o Estado com seus representantes. 1980). Sociedade Civil e Legitimidade Democrática”. usando os recursos oficiais do Estado em seu favor. 32 . Quinney (1980) define o Estado como um conjunto de instituições particulares que interagem como partes integrantes. é a principal interface entre a classe dominante e o exercício do poder. O Estado. Assim. chegar ao poder. A ordem legal é o meio encontrado para a garantia desses interesses. Para Saber Mais Quer aprender um pouco mais sobre este assunto? Então. Assim. então. promotores e policiais são nada menos que os representantes legais da classe dominante! Esses atores sociais agem em nome da classe dominante e impedem a classe dominada de se rebelar contra a dominação e. em sociedades capitalistas. a administração. Para Miliband (apud QUINNEY. exercendo o poder para impor a sua vontade sobre a maioria da sociedade. 5. criando uma elite no seio da sociedade. Você tem conhecimento de que vivemos em uma sociedade capitalista. de Luiz Carlos Bresser-Pereira. ao impedirmos o desvio pelo controle social. potencialmente. leia “ Estado. o Estado é constituído pelos seguintes elementos:   o governo. o direito na sociedade capitalista é fortemente submisso aos interesses privados da classe dominante.3 O Controle do Crime no Estado Capitalista Embora a classe dominante detenha o poder sobre os meios de produção e consiga impor seus representantes no Estado. uma mudança social. a fim proteger seus interesses. então. Quinney (1980) considera que a instituição da ordem legal foi o mecanismo encontrado pela classe dominante para obter o controle da população. podemos estar negando à sociedade a introdução de novos padrões de comportamento e.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 05 comportamento e desvio. portanto. Pois bem. juízes. De acordo com Quinney (1980).2 O Crime e a Classe Dominante A classe dominante se faz representar no Estado. ela não exerce o poder diretamente. Você concorda com as idéias de Durkheim? 5.

você já deve ter percebido que o pessoal da segurança pública ficou com a parte mais difícil do papel Estado. o exercício da força coercitiva! Figura 5. Embora o controle social sirva para manter o equilíbrio coletivo. O exercício do poder está ligado aos interesses da classe dominante. os escalões intermediários do governo. a polícia exerce uma força coercitiva contra as minorias. Entre esses elementos do Estado. ele também dificulta a evolução da própria sociedade. permitem o aperfeiçoamento social por meio de novas regras e a assimilação de novos padrões de comportamento.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 05    os militares e a polícia. É sobre esse tema que vamos refletir no texto “Violências e Dilemas do Controle Social nas Sociedades da Modernidade Tardia”. mesmo que transgressivos. 33 . o sistema judiciário. que controlam os agentes do Estado. Boa leitura! Nesta aula. você já percebeu que existe um com estreita ligação com a manutenção da ordem legal: os militares e a polícia! Em outras palavras. ou seja.2 – Polícia em Ação Para Refletir A pretexto de manter a ordem legal. Isso porque os desvios. discutimos o conceito de controle social e vimos os modos como ele é exercido na sociedade para a manutenção do controle sobre seus integrantes.

Gordon Allport (citado por Hall e Lindzey. mas não conhecemos seus significados técnicos.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 Aula 06 .292). Figura 6. às vezes – ou melhor. p. Essa definição de Allport deixa subentendido que a personalidade possui uma organização interna e está em constante desenvolvimento. “caráter” e “temperamento”.1 – Gordon Allport A referência a sistemas psicofísicos significa que a personalidade não é exclusivamente mental. quase sempre – não as empregamos corretamente. sofre constantes mudanças. LINDZEY. Vamos discutir a diferença entre esses conceitos? 34 .1 Teoria da Personalidade de Gordon Allport Para Gordon Allport (apud HALL.A Condição Humana: Perspectiva Teórica Psicológica Em nosso cotidiano. ela não é estática. ela é a interface entre nossa intimidade e o mundo externo. isto é. Mesmo para psicólogos. “a personalidade é a organização dinâmica dos sistemas psicofísicos que determinam os ajustamentos peculiares de cada indivíduo ao meio”. 1973) considera importante que façamos uma distinção entre personalidade. temperamento e caráter. Também costumamos dizer frases como “Paulo não tem caráter” ou “Miguel é uma pessoa muito temperamental”. Muitas vezes empregamos as palavras “personalidade”. mas você perceberá que. costumamos ouvir com certa freqüência a palavra “personalidade”. definir “personalidade” e seus componentes não é tarefa fácil. Está curioso? 6. nem exclusivamente física. Ouvimos frases como “João não tem personalidade” ou “Pedro tem uma personalidade muito forte”. 1973. Nesta aula. Para Allport. Nós usamos muito essas palavras. pois existem muitas teorias que se dedicam à abordagem desse conceito. iremos conhecer as principais teorias psicológicas sobre a personalidade humana e o seu funcionamento a partir de cada ponto de vista teórico. portanto. a personalidade é quem faz o contato entre nosso mundo interior e o meio. Ela funciona em razão da harmonia entre mente e corpo.

ou seja. O traço lhe permitirá uma atitude mais constante em quase todas as situações. de Patrícia do Carmo Pereira Ito e Raquel Souza Lobo Guzzo. com agressividade. eu evito criar situações para que me chamem atenção. Para Saber Mais Leia um pouco mais sobre o temperamento no texto “Temperamento: características e determinação genética”. às vezes. e portanto podem ser modificados ou desenvolvidos (aprimorados). Allport considera que o caráter está ligado a um código de conduta. Watson (1878-1958) nas duas primeiras décadas do século XX. os comportamentos provenientes de nosso temperamento têm pouca possibilidade de modificação ou transformação (desenvolvimento). Ninguém nos ensinou a reagir assim e. invariavelmente. Assim. dos processos educacionais. essa reação é uma tendência biológica diante de uma situação aversiva. estamos falando de um hábito. da educação familiar. O traço é uma tendência determinante ou uma predisposição de certas respostas para estímulos específicos. pois este último está ligado a um objeto ou classe de objetos específicos. confundido com a personalidade. O que podemos fazer é buscar adaptação ao nosso temperamento: já que eu não quero ficar tremendo ou com a “cara vermelha”. Para Saber Mais A formação do caráter se dá desde a infância! Quer saber mais? Leia “Sobre a questão da dinâmica do caráter infantil”. Por exemplo: se. O caráter é outro conceito também confundido com a personalidade. Ele sofre influência da cultura. 35 .Vigotski.Você saberia identificar alguns traços de sua própria personalidade? O traço não deve ser confundido com o hábito. Quando alguém nos chama atenção e ficamos trêmulos ou vermelhos. Os comportamentos são aprendidos. dizemos que a agressividade é um traço de sua personalidade. Essa escola psicológica foi iniciada por John B. de L. Assim. se nos chamarem atenção novamente. o que explica a forte influência positivista. reagiremos do mesmo modo.S. Outro conceito importante da teoria de Gordon Allport é o de traço psicológico. diante de uma situação que causa frustração. provavelmente. Mas Allport considera temperamento àquela disposição (tendência) intimamente associada à nossa biologia e fisiologia. uma pessoa reage. da sociabilidade. O caráter está ligado àqueles comportamentos que obtemos por meio de nossa educação. quando o indivíduo costuma agir de uma determinada maneira em uma situação específica. envolve um juízo de valor.2 Teoria Behaviorista O nome dessa teoria vem da palavra inglesa behavior. 6.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 O temperamento é. que significa comportamento.

Para Refletir Com base no que vimos sobre a Teoria Behaviorista. Watson pregava a observação do comportamento e negava a participação dos fenômenos psíquicos. inclusive o ser humano. o objeto de estudo da Psicologia seria a previsão e o controle do comportamento de todos os animais.3 O Trabalho de B. A fim de conferir à Psicologia uma maior independência como ciência. o comportamento pode ser reduzido a processos físico-químicos. p. seguindo os pressupostos pregados por Watson. Para Watson. não podem ser cientificamente estudados. os processos conscientes. para isso. rejeitando. Skinner O psicólogo Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) desenvolveu seus trabalhos na década de 1930.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 Figura 6. 36 . portanto. 1973.2 – John Broadus Watson As principais idéias de Watson (apud MARX. HILLIX. existe uma resposta imediata a estímulos eficazes.232) são:     o comportamento compõe-se de elementos de resposta e pode ser cuidadosamente analisado por métodos científicos objetivos. se existirem. a Psicologia deveria ser objetiva e. F. seu objeto seria o comportamento. o conceito de consciência ou mente. Assim. ou seja. você saberia identificar sua influência positivista? 6. há um determinismo de causa e efeito.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 Figura 6. Eles perceberam que a criança tinha medo de um forte barulho produzido pela batida de um martelo contra uma barra de aço. Ele desenvolveu uma caixa na qual foi possível manipular variáveis e estudar o comportamento desses animais. Vamos ver agora o conceito de cada um. Por exemplo: o calor provoca a transpiração (em que o estímulo é o calor. pesquisadores testaram as reações de medo em um menino de onze meses chamado Albert. e a resposta. mas. transpiração). por ter sido eliciado 37 . Fizeram isso várias vezes e.4 – Caixa de Skinner Skinner distinguiu dois tipos de comportamento: o respondente e o operante. Em seguida. pois a diferença. O exemplo clássico dessa modalidade de comportamento é o denominado“caso do pequeno Albert”.Em 1920. Fique atento às definições. A caixa ficou conhecida como “Caixa de Skinner”. quando o rato branco era mostrado.Burrhus Frederic Skinner Skinner realizou pesquisa com um desses ratos brancos encontrados nas lojas de produtos veterinários. parece ser muito sutil! O comportamento respondente requer a presença de um estímulo que sempre antecede a resposta: um estímulo específico elicia uma resposta específica.3 . a criança apresentava a reação de medo típica da batida do martelo. Figura 6. Esse fenômeno é um comportamento respondente (ao estímulo específico “visão do rato branco” há sempre uma resposta específica “reação de medo”). também conhecido como “caso do rato branco”. mesmo que desacompanhado do barulho do martelo. os pesquisadores passaram a mostrar o rato branco a Albert ao mesmo tempo em que produziam o barulho da batida do martelo. a princípio. ao final do experimento.

pode ser classificada como que tipo de reforço? Para Saber Mais Leia o texto “O conceito de operação estabelecedora na análise do comportamento”. que pode ser fortalecida (aumentada quantitativamente) ou enfraquecida. Aos estímulos apresentados após o comportamento chamamos reforço. 1987). O austríaco Freud era médico por formação. de Caio F. a nossa tendência é passar a prestar mais atenção no velocímetro. Figura 6. diminuindo a sua freqüência. e desenvolveu a Psicanálise como forma de explicar alguns fenômenos psíquicos e comportamentais que a medicina não lhe permitia compreender (BRENNER. que tipo de comportamento é observado? E a multa. não ao rato). é denominado de reforço positivo. a fim de evitar futuras multas! Não é? Nesse caso. Miguel. o estímulo é apresentado após a resposta.4 A Teoria Psicanalítica Como você já deve saber. passa a ser chamado reforço negativo. O segundo tipo de comportamento descrito por Skinner é o comportamento operante. 6.5 – Sigmund Freud 38 . no início do século XX. ele foi denominado condicionamento respondente.Se o reforço enfraquece o comportamento. Você já deve ter percebido que na vida cotidiana temos muitos exemplos da aplicação dessa teoria! Por exemplo. a Teoria Psicanalítica teve origem nos trabalhos de Sigmund Freud (18561939). vulgarmente conhecido como “pardal”.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 (condicionado) pelos pesquisadores (já que a reação de medo original era relacionada ao barulho.Se o reforço aumenta a possibilidade de ocorrência do comportamento (resposta).e recebemos uma multa de trânsito.Nessa modalidade de comportamento. quando passamos por um radar de controle de velocidade.

No deslocamento.  SUPEREGO – Conforme atuamos no meio ambiente externo. em busca de gratificação imediata. 3. 2. Esse novo elemento. A fase de formação do Superego. Sua função é atuar sobre o EGO. As atividades do ID obedecem ao princípio do prazer. De acordo com a Psicanálise. impulsos. em contato com nossas necessidades básicas. Essa porção de nossa personalidade funciona como um órgão fiscalizador. EGO e SUPERGO. A fase de adaptação na família como grupo. o que popularmente chamamos de consciência. desejos. o Ego fica exposto a duas forças antagônicas: a afirmação das necessidades provocadas pelo Id e a negação imposta pelo Superego. elemento psíquico que funciona como local destinado ao armazenamento das normas socialmente aprendidas. o que significa dizer que nessa fase inicial de nosso desenvolvimento somos movidos apenas por impulsos básicos. Entre os principais mecanismos utilizados como defesa do Ego.  EGO – À medida que precisamos nos adaptar ao meio e a suas exigências. portanto. Para a Teoria Psicanalítica.  Racionalização – Tentativa consciente de explicação ou justificação de impulsos ou afetos inconscientes não aceitos pelo Ego. ligada a nossa constituição biológica. Nesse caso. vontades. Outros aspectos abordados pela Teoria Psicanalítica são os “Mecanismos de defesa do Ego”. medidas defensivas destinadas a proteger a pessoa contra os impulsos ou afetos que possam ocasionar conflitos internos e desadaptação ao meio ambiente. Está. esses sistemas atuariam independentes. Vejamos cada um deles:  ID – É a parte original da personalidade. as quais precisam ser aprendidas e retidas. percebemos que nele há regras e normas estabelecidas. Surge então o Superego. As primeiras relações da criança com seus pais. destacamos:  Repressão – Exclusão automática dos impulsos e suas representações. reduzindo as influências instintivas do ID. o ser humano é dotado apenas desse sistema. onde procura os objetos para a satisfação das necessidades básicas. Nos primeiros anos de vida. para as quais temos diversas denominações: instintos. a adaptação social compreende três fases: 1. Baseia-se no processo denominado censura. Trata-se de uma escolha entre os mais aceitáveis motivos para explicar um comportamento. pulsões. além de entrar em contato com as demandas do organismo que chegam através do ID. mas harmonicamente – integrando a personalidade humana.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 Freud propôs que a mente humana seria constituída de três grandes sistemas: ID. com pouca racionalidade. o EGO é o intermediário entre o mundo interior do indivíduo e sua realidade externa. Assim. uma parte do ID vai se diferenciando (especializando-se) e formando o EGO. o que ocorre é uma mudança de um 39 . encontra-se em contato com o meio ambiente. mas há uma diferença sutil entre eles.  Deslocamento e substituição – Ambos os mecanismos são medidas defensivas.

  Sublimação – É um tipo especial de substituição por meio do qual um impulso primitivo. Nesta aula. São pontos de vista diferentes. em que uma tendência ou desejo reprimido é atribuído a outrem.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 06 objeto original por outro considerado substituto. mas não necessariamente o objeto. espasmos. inaceitável para o Ego. gargalhadas. Isso inclui situações que envolvem os fenômenos da violência e da criminalidade! Busque estabelecer relações entre as teorias que estudamos nesta aula e o campo da Segurança Pública! 40 . de Fábio Luiz Tezini Crocco. paralisia histérica. contrações. Na substituição é o ato que é modificado. é modificado. adotando comportamentos típicos de estágios anteriores do desenvolvimento. Para Saber Mais Você se interessou pela Teoria Psicanalítica? Busque mais informações no “ Estudo crítico sobre a transformação da ideologia e da subjetividade”.  Conversão – Expressão de um impulso ou uma tendência não aceita pelo Ego através dos músculos voluntários ou pelos órgãos dos sentidos (por exemplo. Projeção – Trata-se de uma medida de defesa drástica e radical.  Regressão – Tendência que um organismo tem de restabelecer uma situação anterior. convulsões. mas que nos ajudam a entender diversas situações do cotidiano. você conheceu três teorias que buscam explicar como funciona a personalidade humana. A presença de tal defesa significa que o Ego está renunciando ao contato com a realidade. choro).

a moral. Ainda assim. mas os crimes praticados por pessoas com esse transtorno são aqueles de grande repercussão social – estamos falando da “personalidade anti-social”. falta de sentimento de culpa ou arrependimento.As razões para essa mudança de nomenclatura são técnicas. 41 . o patológico e até mesmo o normal. Essas características são: impulsividade. Violência e Conduta Criminosa Os episódios de violência e agressividade observados atualmente em todas as sociedades humanas incitam uma série de reflexões. questionando conceitos como a ética.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 Aula 07 . Esse transtorno não tem alta freqüência na população criminal.1 A Personalidade Anti-Social Você já deve ter ouvido. O termo ‘psicopata’ dá a entender que se trata de pessoa portadora de uma patologia mental. vem sendo banalizado: é empregado em diversas situações e sem os critérios ligados ao estabelecimento de diagnóstico. regras e obrigações sociais. Vejamos o que mais podemos aprender sobre esse tema! 7. o termo correto a ser empregado no lugar de psicopatia é Transtorno de Personalidade Anti-Social. todos parecem estar de acordo com a presença de algumas características típicas em indivíduos como esse transtorno. o termo psicopata ainda é muito usado e você o encontrará em muitos livros especializados. recentemente. o Transtorno da Personalidade Anti-Social é um padrão de comportamento caracterizado por desrespeito e violação dos direitos dos outros.A Condição Humana: Agressividade. Para a Associação Psiquiátrica Americana. nos filmes ou em reportagens. É um termo bastante usado na mídia e. a palavra psicopata. ausência de sentido moral e desrespeito por normas. e isso vem sendo questionado por profissionais da área de saúde mental. é comum depararmos com crimes praticados por um tipo específico de transtorno de personalidade. Esse transtorno inicia-se na infância ou na adolescência e se mantém na idade adulta. Apesar das diferentes tipologias propostas por diversos autores. Tecnicamente. A agressividade e a violência dos crimes deixam as sociedades estarrecidas e levantam as questões: Por que o indivíduo cometeu esse crime? Terá ele algum problema psíquico? Ou será simplesmente uma pessoa maldosa? No meio forense.

1993). pessoas que podem discernir e raciocinar lucidamente sobre qualquer tema. considera que o Transtorno da Personalidade AntiSocialtem como característica principal a disparidade flagrante entre o comportamento de seu portador e as normas sociais predominantes. Philippe Pinel. a personalidade psicopática passou a ser investigada mais sistematicamente. antropólogos e outros estudiosos vêm descrevendo tipos de personalidade que possuem algo em comum: o fato de causarem problemas de convivência em sociedade. mas sem apresentar nenhum prejuízo intelectual. ou seja. Tendem a ser insensíveis e a desprezar os sentimentos. Pessoas portadoras do Transtorno da Personalidade Anti-Social sofrem de incapacidade de adaptação às normas. Em 1992. Na edição atual do DSM-IV. Emil Kraepelin. consolidou-se o estudo desse transtorno. porém. médico pioneiro no tratamento de doentes mentais. essas pessoas são capazes de fazer tudo que as outras pessoas fazem.como forma de designar aqueles pacientes descritos por seus antecessores. Vamos estudar a evolução do conhecimento acerca desse tema? Em 1809. afirmou que “existem manias sem delírio”. não são capazes de se conduzir com decência e decoro. 7. cunhou o termo inferioridades psicopáticas. por sua vez. Em 1917.que depois deu origem ao termo personalidade psicopática. 2003). a Associação Psiquiátrica Americana introduziu o Transtorno da Personalidade Anti-Social na segunda edição de seu Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. e não apresentarem as características típicas da loucura.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 A Organização Mundial de Saúde. conhecida como CID-10) o Transtorno da Personalidade Anti-Social. associada a uma falta de empatia. Logo. conhecida à época como DSM-II. A partir da terceira edição do DSM. e suas características foram reunidas ao longo do tempo.2 Considerações Históricas Desde o século XVII. 42 . inclusive com critérios para o diagnóstico diferencial (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Em 1822. Desde então. os critérios diagnósticos ligados a esse transtorno foram elencados. O que ele queria dizer com isso é que algumas pessoas podem ser portadoras de uma doença mental próxima à loucura. antropólogo britânico. definindo-o como um transtorno específico da personalidade (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. médicos. psiquiatra alemão. Em 1968. Evans Pritchard. a Organização Mundial de Saúde também introduziu na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento (10ª revisão. referindo-se a esse tipo de pessoa. direitos e sofrimentos alheios. relatou a existência de pessoas com uma espécie de insanidade moral (moral insanity).

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 7. 43 . mas não é um especialista! O Transtorno da Personalidade Anti-Social é muito mais comum em homens. se você. ausência de delírios. atingindo 3% da população masculina. conseguir identificar que está lidando com uma pessoa desse grupo. Mas cuidado! Evite tirar conclusões precipitadas a esse respeito: lembre-se de que você tem noções básicas. 2003). como agente de segurança pública. O Transtorno da Personalidade Anti-Social geralmente começa na infância e se estende até a vida adulta (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. irresponsabilidade nas relações interpessoais. falta de vergonha ou remorso. egocentrismo patológico. conduta social inadequadamente motivada. atinge apenas 1% da população. baixa tendência ao suicido. dificuldade em fazer um plano de vida. incapacidade de aprender com a experiência. Entre as mulheres. insinceridade. pois isso aumenta o grau de complexidade da situação e indica uma maior periculosidade da pessoa com quem você está lidando. inconstância.3 Características Diagnósticas Se você não está estudando para ser médico. segundo as estatísticas oficiais. o psiquiatra estadunidense Hervey Milton Cleckley (1903-1984) estudou vários indivíduos com esse transtorno e conseguiu reunir as principais características de personalidade ligadas ao problema. Em 1950. Veja essas características listadas a seguir:               atração superficial (conseguem envolver as pessoas). deverá tomar mais precauções. então por que aprender os critérios diagnósticos para esse transtorno? Bem. vida sexual pobremente integrada. pobreza de reação afetiva. ausência de manifestações psiconeuróticas.

e um tipo secundário. 44 . impulsivos. muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga da agressão. Para Saber Mais Conheça mais sobre o Transtorno de Personalidade Anti-Social em: “A prática da psiquiatria forense na inglaterra e no brasil: uma breve comparação”. agressivos. hostis. socialmente ansiosos e isolados. ambos compartilhando um alto grau de impulsividade: um tipo primário. dependentes e paranóides. confiantes em si mesmos e apresentam baixa ansiedade. caracterizado pelo isolamento social e traços neuróticos. 7. Nesse grupo encontram-se. incluindo a violência. caracterizado por uma adequada socialização e uma total falta de perturbações emocionais. mal-humorados e com baixa auto-estima. pessoas narcisistas. propôs distinção “psicopatas”. e anti-sociais. agressivos. incapacidade de experimentar culpa e aprender com a experiência. incapacidade de manter relacionamentos.1 – Hervey Cleckley Já os critérios diagnósticos apresentados pela Organização Mundial de Saúde (1993) na CID-10 são:       indiferença pelos sentimentos alheios. 1991) Ele desenvolveu uma uma interessante entre dois tipologia tipos de para indivíduos com personalidade anti-social. particularmente a punição. extrovertidos. embora não haja dificuldade em estabelecê-los. Aqui se encontram anti-sociais. regras e obrigações sociais. propensão marcante para culpar os outros ou oferecer racionalização plausível para o comportamento que o levou ao conflito com a sociedade.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 Figura 6. histriônicas.4 A Classificação Segundo Blackburn Blackburn (apud LEWIS. predominantemente. evitativos. Vejamos:  Psicopatas primários são impulsivos. atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas. de Elias Abdalla-Filho e Wolfram Engelhardt.  Psicopatas secundários são normalmente hostis.

Exigem. e apresentam uma grande inclinação para violação das regras. Pesquisas demonstram que esse tipo de comportamento começa a declinar a partir da quarta década de vida. 7. psicopatas primários têm convicções mais firmes para efetuar crimes violentos. enquanto psicopatas secundários estão mais aptos para os roubos. e muito mais ansiedade social. de vítima. tanto física como verbal. Tendem a assumir o papel mais indicado para cada circunstância. podem avaliar a situação e melhorar suas técnicas para continuar a conduta anti-social. já que apresentam comportamentos evitativos e passivo-agressivos. Sua consciência social é bastante deficiente. não é indicado ao profissional de segurança pública que facilite o contato desses indivíduos com a mídia.2 – Theodore Robert "Ted" Bundy – Famoso “Psicopata” Estadunidense De acordo com a tipologia de Blackburn. 45 . portanto. entretanto. você já deve ter percebido que elas causam problemas relacionados à Segurança Pública! Estatisticamente. quando castigadas por seus erros. Eles conseguem enganar os outros com encanto e eloqüência! Quanto à recuperação. sem se importarem com os direitos alheios. por isso. Uma de suas maiores habilidades é a facilidade que têm em influenciar pessoas. Apresentam também indiferença pela verdade e. podem continuar demonstrando total indiferença. os casos envolvendo essas pessoas não são numerosos. podendo adotar um ar de inocência. Devido à peculiaridade de suas personalidades. entretanto. se são descobertos ou desmascarados. os atos praticados por pessoas com o transtorno são altamente violentos e trazem grande comoção social.5 Relevância para a Segurança Pública Pelas características das pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social. Psicopatas secundários. Ao invés de se corrigirem. de líder. Os psicopatas tendem a manifestar comportamentos rígidos e inflexíveis. recursos especiais dos organismos de segurança pública. mostram mais fúria diante da ameaça. pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social apresentam dificuldade em aprender com a experiência.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 Figura 6.

Vimos que o termo técnico correto para a “psicopatia” é Transtorno da Personalidade Anti-Social. identificar esse tipo de personalidade é crucial para um trabalho de investigação e prevenção do crime. de Hilda Morana. Para os organismos de segurança pública. você aprendeu o que significa o termo psicopata.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 Para Saber Mais Quer mais informações sobre o Transtorno da Personalidade Anti-Social? Leia “ Reincidência criminal: é possível prevenir?”. Boa leitura! Nesta aula. pois os indivíduos que sofrem desse transtorno não possuem uma patologia física ou mental diagnosticável. O que apresentam de marcante são certas características de personalidade que trazem sérios problemas para o convívio social em razão de sua conduta nociva aos demais. 46 .

ações e formas de comportamento que não são punidas com sanções sociais legais mas que se opõem às normas geralmente aceitas são consideradas comportamentos desviantes. de Richard Miskolci. em cidades litorâneas. quando se dirigem à praia.1 O Conceito de Normal e Desviante Um dado comportamento será considerado normal enquanto assim o quiser um grupo ou sociedade organizada. Não há características definidas para que um comportamento seja descrito como normal: o que é considerado normal na América do Sul pode não o ser no Oriente Médio. O juízo de valor acerca do que é normal ou desvio sofre influência geográfica. Você é capaz de encontrar exemplos de comportamentos outrora considerados normais. esse conceito é relativo e depende dos padrões de costumes. Observe as diferenças existentes entre os modos de vida de pessoas que moram no litoral e aquelas que moram no interior. Um comportamento não é desviante por si só.2 Desvio Positivo e Desvio Negativo Podemos dizer que existem desvios positivos de comportamento. as pessoas utilizarem o transporte público em trajes de banho. e isso dentro de um mesmo país! Por exemplo: é comum. como desviante. Por outro lado. Nem todo comportamento desviante é obrigatoriamente transgressivo! Para Saber Mais Informe-se sobre esse tema lendo o texto “ Reflexões sobre normalidade e desvio social”. religião de uma determinada comunidade ou sociedade. histórica e cultural. Você já conhece as diferentes formas de desviação? Vamos aprender sobre esse tema! 8. Assim.O Comportamento Desviante A conduta humana pode ser analisada do ponto de vista social como normal ou desviante. Esse mesmo comportamento não é observado no interior. é preciso que ele seja considerado. 8. e vice-versa. o 47 . moral. Porém. mesmo que as pessoas estejam indo para um clube! Àquelas pessoas que se comportam de acordo com as normas de seu meio ambiente chamamos de conformantes.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 Aula 08 . ética. Determinadas pessoas agem de maneira tão distante da média grupal que somos obrigados a concordar que são desviantes. mas agora vistos como desviantes? Nesta aula iremos abordar o comportamento desviante e alguns conceitos correlacionados. em um contexto específico.

de Divino Pereira de Brito e Iris B. Alguns autores consideram que o máximo da desviação positiva leva à santidade. Figura 8. exemplo de Comportamento Desviante Positivo Por outro lado. temos o desvio negativo de comportamento. espaço. Figura 6. podendo colocar em risco a segurança das pessoas. ainda que enfrentando adversidades. Nesse caso. “Avaliação psicológica e prognóstico de comportamento desviante numa corporação militar”. o comportamento desviante busca o benefício do próximo.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 desvio dessas pessoas é em prol do bem comum: nesses casos. Goular 48 .3 – Episódio do Ônibus 174. trajectórias e delinqüências”. Comportamento Desviante Máximo. de Maria João Leote de Carvalho”.1 – Madre Teresa de Calcutá. temos outro tipo de desvio de comportamento que é desaprovado pelo grupo ou pela sociedade por violar normas pré-estabelecidas. em que a desviação máxima chega ao que denominamos crime. ou Crime Para Saber Mais Leia:   “ Entre as malhas do desvio: jovens. o desvio traz malefícios à comunidade. Nesses casos.

manifesta novamente o comportamento desviante. penas brandas ou algum tipo de compromisso social (termo circunstanciado). Recorrência do desvio primário – O indivíduo. Sanções sociais – A sociedade reage com sanções correspondentes ao desvio. por exemplo. Esse fenômeno é muito freqüente em casos de drogadição: é comum. É o caso em que se usa o discurso conformista “eu não presto mesmo!” para justificar o próprio comportamento. pune com mais vigor o desvio reincidente.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 8. Aceitação final do status social de desviante – Por fim. do desvio primário ao desvio secundário:         Ocorrência do desvio primário – O comportamento desviante se manifesta pela primeira vez. Sanções sociais mais severas – A sociedade. Há desvio primário quando ocorre ruptura da norma sem que o autor dessa ruptura perceba a si mesmo como um desviante. Recorrência do desvio primário acompanhado de hostilidade contra os sancionadores – O desviante revolta-se contra o Sistema de Justiça Criminal por considerar-se injustiçado. geralmente com multas. utilizando-se do papel que o mesmo lhe assinala como um mecanismo de defesa. Rebaixamento do nível de tolerância – Ocorre o processo psíquico de intolerância à frustração causada pela atuação da sociedade. Reforço da conduta desviante (reação à estigmatização) – O desviante reage contra a tentativa da sociedade de punir seu comportamento e enquadrá-lo como indivíduo fora da norma. Para Refletir Você concorda com essas etapas? Acha que é assim mesmo que acontece a consolidação do comportamento desviante? Conhece alguma história de desviação que exemplifique esse quadro? Pense: com que medidas os organismos da Segurança Pública poderiam atuar no rompimento desse ciclo? 49 . por razões diversas. o indivíduo desviante aceita sua condição e assume o seu papel de desviante. por meio de seu Sistema de Justiça Criminal. não é mesmo? Vejamos agora algumas etapas do processo de consolidação do comportamento desviante.3 Os Tipos de Desvio e a Consolidação do Comportamento Desviante Existem desvios primários e desvios secundários. aplicando geralmente pena de restrição de liberdade. violando novamente as normas sociais. alcoolistas não assumirem a sua condição e afirmarem que apenas tomam “um gole”! Já o desvio secundário acontece quando a pessoa começa a assimilar o próprio comportamento desviante. E isso não é incomum.

O comportamento desviante é algo existente em todas as sociedades. são ostensivamente violadores das normas sociais. se afastar do senso comum e manifestar comportamentos desviantes.4 As Formas de Desviação Você já conhece algumas formas de desviação.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 08 8. tolera o comportamento inadequado. Você já deve ter visto algum caso desse desvio em nossa sociedade. Note que muitas vezes há uma interação entre a desviação desaprovada e o comportamento transgressivo. pois é algo bastante comum.  Desviação absoluta – Ocorre quando o indivíduo se afasta por completo das normas sociais. Existem basicamente dois tipos de desvio: aqueles aceitos pela sociedade e aqueles rejeitados por ela.  Desviação relativa – As pessoas cujo comportamento é considerado “normal” podem. desde atos bizarros até pequenos delitos. além de desviantes. não é? Agora vamos sistematizar esse conhecimento. tanto na freqüência como na amplitude do comportamento. Procure levantar exemplos!  Desviação desaprovada – Aquela que sofre reação contrária por parte do grupo ou da sociedade. Esses últimos acabam por gerar comportamentos transgressivos que a sociedade considera crimes. vejamos:  Desviação aprovada – Aquela em que o grupo. 50 . há quem considere que o desvio é o causador de mudanças sociais. Há também os compoprtamentos transgressivos: aqueles que. Por isso.ocasionalmente. nomeando essas formas com termos técnicos! Preparado? Então. buscando sua repreensão. ou a sociedade.

A medida de segurança visa à prevenção e à cura. vista por muitos como um desvio. A medida de segurança é uma sanção penal com finalidade preventiva. por sua vez. Tanto a medida de segurança quanto a pena pressupõem a prática de ato ilícito. a medida de segurança pode ser de internação ou de tratamento ambulatorial. que é uma sanção penal com fim repressivo. No primeiro caso. o indivíduo é internado em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Uma maneira de checarmos essa afirmação é verificarmos a quantidade de presos em nosso sistema penitenciário que estão em medida de segurança. Vamos lá? 9. é a probalidade de o sujeito vir a praticar crimes ou reincidir na prática de crimes. que é uma unidade prisional do próprio sistema penitenciário. Outro aspecto compartilhado por ambas é que um de seus objetivos é tirar o delinqüente da rua. a participação de doentes mentais nas estatísticas da criminalidade é muito baixa. será examinada sob o ponto de vista da lei brasileira. a doença mental. Atenção: somente depois de comprovada a periculosidade do delinqüente é que a medida de segurança torna-se aplicável! De acordo com a lei de execução penal. atualmente. Trata-se uma tentativa da sociedade em encontrar explicação para problemas sobre os quais não tem conhecimento! É mais fácil e cômodo encarar a questão dessa maneira: se a prática de crimes é uma doença. Assim. muito menos. mas.2 A Doença Mental no Código Penal O termo “doente mental” já não é utilizado na literatura técnica especializada. no sentido de preservar a sociedade da ação de delinqüentes temíveis e de recuperá-los com tratamento curativo. vão contra a pessoa em reação a uma agressão contra um bem jurídico tutelado. muitos transtornos mentais não têm a causa definida e. a cura descoberta. No segundo caso. o termo 51 . 9. então basta encontrar o remédio e teremos a cura! Nesta aula.1 A Medida de Segurança Apesar do mito que relaciona crime e doença mental. A aplicação de medida de segurança encontra fundamento na comprovação da periculosidade. O principal motivo do desuso desse termo é o fato de que doença pressupõe causa e cura.A Doença Mental e o Crime Não é raro encontrar quem pense que os crimes são praticados por “loucos”. o indivíduo pode fazer o tratamento em qualquer unidade hospitalar da rede pública. A periculosidade.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 09 Aula 09 . sendo sua freqüência controlada pelo juízo da execução penal. ao contrário da pena.

escreve. se o agente. 52 . 9. principalmente porque eles podem sofrer de duas alterações importantes: as alucinações e as idéias delirantes. em seu artigo 26. ao tempoda ação ou da omissão. era. 2004). Redução de pena Parágrafo único .É isento de pena o agente que. in verbis: Art. pois não há uma definição clara a seu respeito. por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. 26 . de Alda Martins Gonçalves e Roseni Rosângela de Sena. é alienação mental. Na prática. que significa um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecíveis e associados. em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 09 adotado é mesmo transtorno. No tocante à questão da saúde mental. de Magali Gouveia Engel. nosso Código Penal utiliza a terminologia doença mental. inteiramente incapaz de entender ocaráter ilícito dofato ou dedeterminar-se de acordo com esse entendimento. ainda que a própria Organização Mundial de Saúde (2002) e os profissionais de saúde mental já não utilizem essa nomenclatura. Outro termo utilizado nos textos legais e que também traz certa confusão. (2004). há divergência entre os textos legais e a literatura especializada. para haver alienação mental é necessário que o juízo de realidade esteja comprometido. Isso significa que os portadores desse mal não percebem bem a realidade que os cerca.A pena pode ser reduzida de um a dois terços.3 A Alienação Mental De acordo com Taborda et al. Para Saber Mais Saiba mais em “ As fronteiras da anormalidade: psiquiatria e controle social’. Para Saber Mais Fique sabendo mais em “A reforma psiquiátrica no Brasil”. o que observamos é que os termos doença mental e alienação mental têm sido usados como sinônimos (TABORDA et al. Isso obriga a interpretação da lei por parte de profissionais da saúde mental para que haja harmonia entre os textos legais e a literatura técnica. Nosso Código Penal.. Como você vê.

pode ter sensações como um bicho andando sobre seu corpo ou movimentos autônomos de partes do corpo. acredita ser Napoleão Bonaparte. Cabe aqui um episódio anedótico: certa vez. São excepcionalmente considerados casos de alienação mental: o 53 .Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 09 Para Saber Mais Leia “A doença mental no direito penal brasileiro”. os funcionários encontraram um preso que gerava problemas de relacionamento. Para Saber Mais Visite a página do IPSEMG. Por exemplo: ele pode ouvir vozes. pois dizia ser um ex-presidente da república e exigia ser tratado como tal. o indivíduo age como se fosse o personagem. a alucinação é uma “alteração das representações mentais”. pode ver imagens que nós não vemos. são “alterações do juízo”. o o o  psicoses esquizofrênicas nos estados crônicos. arterioesclerótica. coréica. psicoses afetivas. a fim de obter uma idéia sobre quais são os casos considerados como alienação mental. há relatos de indivíduos que sentem cheiros e gostos não percebidos pelos demais. ou quando exibem elevada freqüência de repetição fásica ou. pré-senil. nos programas de humor. à guisa de exemplo. pode também ouvir barulhos como um toque de sino. no sistema penitenciário do Distrito Federal. quando configuram comprometimento grave e irreversível de personalidade. doença de Alzheimer e outras formas bem definidas). ainda. precisamos recorrer a interpretações feitas por profissionais de saúde mental. O que você precisa saber sobre as idéias delirantes é que elas alteram a maneira como a pessoa interpreta a realidade. uma batida na porta. casos de alienação mental: o estados de demência (senil. Vamos utilizar. oligofrenias graves. necessariamente. mas o que interessa mesmo saber é que o indivíduo que sofre com alucinações percebe coisas que nós. quando comprovadamente cronificadas e refratárias ao tratamento. Em alguns casos. Tecnicamente. paranóia e a parafrenia nos estados crônicos. mono ou bipolar. Você se lembra de já ter visto isso em programas humorísticos? Nesse caso. na forma de sussurros ou comandos. a seu lado. As idéias delirantes. Um exemplo típico é aquele indivíduo que. luética. de Maria Fernanda Tourinho Peres e Antônio Nery Filho. Para atender ao artigo 26 do Código Penal. acerca dos casos de alienação mental:  São. Era um caso de delírio. os Critérios de Avaliação da Condição de Invalidez do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG). também identificadas como “delírios” na literatura especializada. Vejamos a relação que segue. não percebemos.

Ambos não são considerados como modalidades de doença mental. Existem dois outros casos que você. moderado. Essas alterações. 2002). grave ou profundo. os indígenas não aculturados e os surdos-mudos. pois. Araújo (2006) ensina que. quando caracterizadamente cronificadas e resistentes à terapêutica ou quando apresentam elevada freqüência de surtos psicóticos. (2004). o psicoses pós-traumáticas e outras psicoses orgânicas. nesse caso. Em alguns textos da literatura especializada. Na categoria de desenvolvimento mental incompleto estão incluídos os indivíduos menores de 18 (dezoito) anos de idade. mas sim como alterações do desenvolvimento. Para Taborda et al. Essa modalidade não é reconhecida pela Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento – CID (10ª revisão) – da Organização Mundial Saúde (OMS. como profissional da segurança pública. trazem repercussões na capacidade de entendimento e determinação de seus portadores. “o indivíduo não é tão sadio para merecer uma sanção tão extrema e nem tão louco para eximir-se da pena”.nesses casos. a categoria de perturbação da saúde mental diz respeito aos casos de neurose e de transtornos de personalidade. já que estão citados no artigo 26 do Código Penal Brasileiro. que pode ser leve. entretanto. A situação jurídica do portador de retardo depende do grau de comprometimento da capacidade cognitiva. 54 . A redação do Código Penal. os indivíduos que sofrem perturbação da saúde mental percebem adequadamente a realidade imediata. não há presença de alucinação nem de delírios. Assim. deve conhecer.4 Outros Estados Psíquicos Considerados no Código Penal Outros estados psíquicos que não se enquadram na categoria de alienação mental são considerados pelo Código Penal como perturbação da saúde mental. Esses dois últimos grupos necessitam de confirmação pericial específica para ser constatado o grau de comprometimento da capacidade de entendimento e determinação. 9. esses casos também são denominados como oligofrenias. porém. quando caracterizadamente cronificadas e refratárias ao tratamento ou quando configurarem um quadro irreversível de demência. Já na categoria de desenvolvimento mental retardado estão incluídos os casos de retardo mental propriamente dito. não deixa claro do que se trata! Esses casos são o “desenvolvimento mental incompleto” e o “desenvolvimento mental retardado”. Acerca do significado do termo “perturbação da saúde mental”.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 09 o psicoses epilépticas.

O entendimento é a capacidade de julgar. incluídos no próprio artigo 26.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 09 Finalmente. o que chama atenção é a brutalidade desses crimes. Esses critérios. há mais um aspecto a que você precisa ficar atento: o Código Penal Brasileiro estabelece dois critérios para analisar a capacidade da pessoa em responder pelos seus atos. A doença mental. vista como desvio. estatisticamente. Nesta aula. a alienação mental e outros estados psíquicos. entendimento e determinação. (2) se há presença das duas capacidades. 55 . avaliar. Porém. Já a determinação é a capacidade que possui o indivíduo de se comportar. citado anteriormente. ajuizar a realidade em contato imediato com o indivíduo. com assessoria de perícia para auxílio na determinação do destino jurídico da pessoa examinada. surgem algumas alternativas jurídicas para o indivíduo: (1) se ambas as capacidades estiverem ausentes. são: o entendimento e a determinação. conduzir e controlar de acordo com seu pensamento. nossa legislação prevê a aplicação da medida de segurança (já mencionada no início desta aula). é erroneamente considerada como o principal fator criminógeno. o caso requer um estudo específico. vimos como o Código Penal brasileiro lida com a doença mental. o indivíduo é considerado penalmente responsável. (3) se há presença apenas de uma das capacidades. o número de crimes praticados por portadores de algum tipo de patologia mental é baixo. A partir da análise da capacidade de entendimento e determinação.

. Essa perspectiva data de meados da década de 1960. quando o chamado Grupo de Milão desenvolveu a abordagem sistêmica. Você precisa entender que o adolescente em conflito com a lei deve ser compreendido a partir de uma visão que a psicologia denomina sistêmica. Encontramos barreiras de toda espécie. esse adolescente faz parte de um conjunto social mais amplo que podemos denominar de sistema. desde a própria legislação até questões técnicas e filosóficas sobre essa etapa evolutiva da vida humana.1 A Família: uma Visão Sistêmica Em primeiro lugar. Isso lhe permitirá lidar com outros profissionais que atuam na área e lhe proporcionará conhecimento para enfrentar esse problema na atividade de Segurança Pública. O que você precisa é conhecer mais a fundo o problema específico que envolve a delinqüência juvenil. ou seja.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Aula 10 . do conjunto de relações sociais de que a pessoa participa. vamos conhecer alguns conceitos da Psicologia para entender melhor o fenômeno da delinqüência juvenil e os fatores correlacionados.A Delinqüência Juvenil Você já deve ter percebido que lidar com adolescentes em conflito com a lei é bem mais complicado que com adultos. Ter muito conhecimento sobre armamento e técnicas de defesa pessoal não lhe será tão útil para lidar com esse público. Esse será nosso objetivo nesta última aula da disciplina! Figura 10.1 – Adolescentes em Conflito com a Lei 10. ou seja. 56 . a adolescência. A visão de que o indivíduo não pode ser considerado como o único responsável por seu comportamento enfatiza a importância da contribuição do contexto relacional..

Para Refletir Assim é o adolescente em conflito com a lei na visão sistêmica: sintoma de um desequilíbrio familiar maior. Para Ausloos (apud SUDBRACK. poderá ter uma conotação de sintoma: trata-se do efeito sintomático de um desequilíbrio na estrutura familiar. de Marcelo Pakman. organizado em função de suas finalidades e evoluindo ao longo do tempo. de Alex Eduardo Gallo e Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams. na perspectiva da visão sistêmica. De acordo com essa perspectiva. 57 . o membro sintomático (isto é. pela ótica familiar e sistêmica. a delinqüência juvenil pode ser interpretada como uma transgressão às leis sociais. que faz com que uma mudança em um dos componentes seja sentida no sistema total. a família está sujeita a certas propriedades como a globalidade. Desse modo.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Para Saber Mais Saiba mais sobre essa abordagem lendo o texto “ Uma atualização epistemológica das terapias sistêmicas”. O mecanismo de retroalimentação(ou feedback)permite a circularidade da informação dentro da família e o comportamento de um membro afeta e é afetado pelo comportamento de cada um dos demais. mas. Qualquer desvio além do limite de tolerância provoca a atuação de mecanismos de controle. utilizando-se de regras que definem aquilo que é permitido ou não para o grupo. 1992). Como um sistema aberto. ou seja. Ele apresenta a teoria de que a família é um sistema competente para resolver os problemas que surgem em seu interior. Além disso. pois há uma circulação de seus membros. um sistema é um conjunto de elementos em interação. a família é um sistema que se autogoverna. Reflita: essa perspectiva se parece com aquela que predomina no senso comum? Assemelha-se ao modo como o adolescente em conflito com e lei é percebido nas esferas da segurança pública? Em que aspectos há semelhança ou diferença em relação à perspectiva com a qual você está acostumado a lidar? Para Saber Mais Leia mais sobre esse tema em “ Adolescentes em conflito com a lei: uma revisão dos fatores de risco para a conduta infracional”. o elemento da família que apresenta o comportamento desviante) é um representante circunstancial de alguma disfunção no sistema familiar maior. A família pode ser considerada como um sistema aberto. que interagem entre si. de modo a assegurar o equilíbrio. expressa algo de inadequado que vem do interior da família. e também porque há interação da própria família com sistemas extrafamiliares – no meio social.

faz com que haja um tempo estático – isto é. 4. Articulação biológica – Resgata e identifica o pai com a condição de genitor. Você concorda com a definição desses dois tipos de família? Como seria. reforça a convicção de que nada pode ser mudado. o que dificulta seu registro ou armazenamento. O tempo. Entretanto. o que impede uma boa circulação da informação e. pela divisão de tarefas na família. Articulação patronímica – Permite designar o pai legal e o “nascimento legítimo”. de maneira desorganizada. Na família de transação caótica. por tradição. já incumbida das demais responsabilidades da maternagem. sobretudo as ocidentais. 58 . Para Ausloos. Vejamos: 1. As sociedades modernas. uma família equilibrada. esse tipo de família produz membros delinqüentes. Isso sobrecarrega a mãe. conseqüentemente. o que possibilita o “nascimento social”. se apresenta dividido em função dos acontecimentos presentes. então. esse tipo de família produz membros psicóticos. ainda. porém. Sudbrack (1992) distingue a função paterna em quatro dimensões consideradas indispensáveis. Articulação sócio-econômica e sócio-cultural – Permite designar o pai enquanto provedor e educador. a informação circula. caracterizam-se. A família de transação rígida é caracterizada pela rigidez das regras internas. o que dá a definição do “nascimento natural”. Para Ausloos. Articulação da paternidade simbólica – Introduz o “Nome do Pai” propriamente dito. desprezando o passado e o futuro. Ausloos (apud Sudbrack. levandose em consideração o papel desempenhado pelo pai e a relação afetiva com a criança. apta a produzir pessoas psicologicamente saudáveis? Pense: como o conhecimento da perspectiva sistêmica de família pode lhe ser útil em sua atividade na Segurança Pública? 10.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Em relação ao funcionamento familiar. 3. 1992) considera a existência de dois tipos de família: a de transação rígida e a de transação caótica. 2. em termos da transação informacional. definindo o “nascimento social”. ao contrário. Ao pai.2 A Família do Adolescente em Conflito com a Lei Os estudos sobre famílias com transações delitogênicas não permitem a construção de perfil único ou o estabelecimento de um vínculo de linearidade (causa-efeito) entre o tipo de família e o conflito com a lei. fica o encargo de provimento e assistência material – com pouca presença no processo educacional e de formação da personalidade do filho. esses estudos nos permitem observar a existência freqüente de falhas na constituição das famílias e de falência dos papéis de maternagem e/ou paternagem.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Por meio de seus estudos com famílias apresentando transações delitogênicas. ou seja. apesar da existência de um período anterior de convivência. mas este não assume a contento a paternidade ou não é reconhecido no papel de pai na família. Assim. acesse os links a baixo:   http://www. Sudbrack (1992) observou que a função paterna não era exercida em sua plenitude.2 – D.c3sl.doc http://ojs.  Pai perdido – Refere-se aos casos de filhos aos quais foi totalmente proibido o contato com o pai em virtude da separação do casal parental.br/ojs2/index.org. 59 . a pesquisadora identificou “pais sem verdadeira paternidade”. mesmo a criança considerada “normal” está repleta de conflitos: nessa fase do desenvolvimento humano. a quem denominou de pais semipresentes.br/downloads/texto_IBCcrim_v2.ufpr. Para Saber Mais Esse assunto é muito importante para você como profissional da segurança pública! Para saber mais. Figura 10.php/psicologia/article/viewPDFInterstitial/3291/2635 10. a personalidade ainda não está bem integrada. Winnicott (1987) considera que tudo o que leva uma pessoa adulta aos tribunais ou aos manicômios tem o seu equivalente normal na infância. em especial sobre a orientação de crianças anti-sociais. na primeira infância.3 O Adolescente em Conflito (Inclusive com a Lei) Ao discorrer sobre os aspectos psicológicos da delinqüência juvenil.  Pai excluído – Caso em que a família aparenta ser “normalmente” constituída.cededica. Vejamos agora a classificação de pais semipresentes proposta por Sudbrack (1992):  Pai desconhecido – Classificação relacionada aos casos de filhos que não tiveram revelada a verdade sobre sua filiação. W Winnicott (1896-1971) Para Winnicott (1987). com a presença atual do pai genitor. trata-se dos casos em que a criança desconhece o pai genitor. e a criança sente dificuldade em tolerar e enfrentar suas pulsões.

3 – Capa do Livro Adolescente em Conflito com a Lei – Prevenção e Proteção Em outras palavras. experimentar os limites impostos por seus pais. então. se tornará angustiada. no caso. Sudbrack (1992) também interpreta o ato anti-social cometido por adolescentes como uma forma de buscar uma terceira pessoa para que exerça a função simbólica dos pais. imatura emocionalmente. Nesse ponto. como se estivesse dando um salto. a criança pode obter segurança e autocontrole. é representada por você! 60 . e busca ajuda diretamente na sociedade. Ele considera que a criança. Isso foi o que Winnicott (1987) chamou de quadro de referência. Winnicott (1987) apresentou a seguinte indagação: O que acontece quando a criança. primos) e amigos da família – se a substituição ocorrer em tempo hábil. ela tem necessidade de vivenciar o amor e. para dar continuidade a seu desenvolvimento emocional e tornar-se uma criança livre e independente. ao perder o quadro de referência de sua vida. Winnicott (1987) compara a criança “normal” com a de tendência anti-social. o que se está afirmando é que muitas das ocorrências policiais envolvendo adolescentes infratores nada mais são do que um pedido de ajuda desses adolescentes para a sociedade. tios. Tendo isso em vista. irá buscar um quadro de referência substituto com os parentes próximos (avós. Assim. Figura 10. no sentido de frear suas pulsões de poder destrutivo. O comportamento anti-social nada mais é. certo? Winnicott não concorda! Vejamos. tias.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Desse modo. já que a família falhou em prover um quadro de referência. não adquire o quadro de referência? A primeira resposta em que você pensou é que a criança nessa condição sente-se livre para fazer aquilo que bem quiser e lhe for prazeroso. ao mesmo tempo. e afirma que esta última transpõe a família. Se ela perceber que ainda há uma esperança. E a sociedade. do que um pedido de controle externo. a criança poderá concluir com sucesso sua estabilidade emocional. Em consonância com Winnicott.

segundo Winnicot (1987). Assim. Vejamos cada um desses casos:  Privação emocional por relações insuficientes – Como o próprio nome diz. Isso impede o amadurecimento gradual e natural da criança.4 A Privação Emocional A privação emocional. nesse caso o relacionamento com a figura materna não é o bastante ou é insuficiente.  Privação emocional por relações distorcidas – Ocorre quando o relacionamento figura materna-criança apresenta-se contaminado por problemas pessoais da figura materna. os três tipos são: privação emocional por relações insuficientes. da criança com as figuras parentais. 61 . em especial a figura materna. Como se não bastasse o afastamento temporal. podendo ser o falecimento da mãe. no trabalho. A carência econômica colabora para a privação emocional por relações insuficientes. privação emocional por relações distorcidas e privação emocional por relações descontínuas. ou outras situações que provoquem o distanciamento definitivo ou temporário da relação. angústias e frustrações. As causas para a interrupção da relação são as mais diversas. envolvendo suas experiências passadas. na convivência com figuras parentais. hostilidade. a fadiga e os aborrecimentos ocorridos no período de labor também podem atrapalhar o relacionamento figura materna-criança. controle repressivo e falta de afeto. Para ele. estruturantes e edificantes. uma viagem mais longa. afetando sua autonomia e a própria formação de sua personalidade. pode ser comparada a um “déficit”. de acordo com a natureza das relações estabelecidas entre a figura materna e a criança. o que pode ocasionar o sentimento de perda.  Privação emocional por relações descontinuas – É aquela decorrente da interrupção ou da descontinuidade de uma relação que chegou a existir entre a figura materna e a criança. atenção e carinho da mãe nunca são suficientes para suprimir aquilo que realmente é necessário para a criança. Bowlby (1995) propõe uma tipologia da privação emocional. Os casos mais típicos desse tipo de relação são: rejeição. Ainda que haja boa vontade e esforço. indulgência excessiva. É uma falha na continuidade das relações primárias. A gravidade das conseqüências da privação emocional irá depender da capacidade do indivíduo em solucionar esse problema. porque faz com que a mãe passe mais tempo fora de casa. definitivo ou temporário.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Para Refletir O que você acha disso? Você já tinha olhado para o problema da delinqüência juvenil sob esse ângulo? O que a sociedade poderia fazer para atender a esse “pedido de ajuda”? 10. a privação emocional por relações descontínuas refere-se ao rompimento brusco. o tempo e a intensidade da presença.

A prevenção da delinqüência juvenil pode ser realizada em três níveis. Reflita: em sua experiência como profissional de Segurança Pública. Prevenção terciária É praticada por meio de medidas sócio-educativas visando readaptar ou educar o adolescente infrator. apoio e acompanhamento temporários. com a participação do núcleo familiar e comunitário. Requer alternativas para a privação de liberdade. Quando se constata que a delinqüência está relacionada à falta de atendimento das necessidades básicas. 10. Meneghel. vamos estudar alguns modos para sua prevenção. liberdade e dignidade. esporte e lazer. profissionalização e proteção no trabalho. convivência familiar e comunitária. Prevenção primária Exercida por meio de medidas que garantam os direitos fundamentais e as políticas sociais básicas. você diria que os adolescentes infratores que você já conheceu tinham acesso aos direitos básicos previstos na Constituição brasileira? Para Saber Mais Saiba mais sobre a prevenção da delinqüência juvenil acessando este link. tais como programas de liberdade assistida. Se o atendimento for de natureza educativa. Elza J. de Stela N. Todos esses direitos estão garantidos em nossa Constituição! Reflita: em que aspecto fundamental essa abordagem de prevenção diverge da abordagem psicanalítica da família como sistema? Prevenção secundária Realizada pelos Conselhos Tutelares.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Para Saber Mais Leia mais sobre privação emocional em: “Relações entre violência doméstica e agressividade na adolescência”. Se as causas da delinqüência decorrem de fatores exógenos. é preciso que a prevenção secundária dê preferência aos programas de apoio. serviços à comunidade etc. abordados a seguir. Boa leitura! 62 .5 A Prevenção da Delinqüência Juvenil Agora que já discutimos algumas das causas da delinqüência juvenil. as perspectivas de prevenção são promissoras. educação. a política de prevenção deve basear-se em medidas capazes de garantir direitos básicos como saúde. Gigugliani Olga Falceto. auxílio e orientação ao adolescente e à família.

por exemplo. o ato infracional do adolescente é um pedido de socorro! 63 . Vimos que. pois relaciona-se também à comunidade que está ao seu redor e que. você aprendeu um pouco mais sobre quem são os adolescentes em conflito com a lei. geralmente. os adolescentes em conflito com a lei são apenas mais uma peça de uma grande engrenagem que é o sistema em que estão inseridos. pela visão da terapia sistêmica. Esse sistema extrapola o núcleo familiar. O ponto mais importante desta aula foi informar que. na negação do acesso a direitos sociais básicos. e a sociedade de um modo mais amplo. na perspectiva sistêmica. Alguns costumam chamá-los também de adolescentes infratores.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Aula 10 Nesta aula. sofre as conseqüências imediatas de seu comportamento anti-social.

.. ANPR. Noções básicas de Psicanálise: introdução à Psicologia Psicanalítica. São Paulo: Ática. LINDZEY. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 3ª edição.L. A identidade humana do crime. HILLIX. 1995.br/boletim/boletim32/fundamentos. Rio de Janeiro: Imago. O comportamento criminoso: uma análise psicológica. n12. S. Disponível em: <http://www. FELDMAN. As regras do método sociológico. C. 24ª ed. The journal of nervous and mental disease. 64 . 2002. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. H. HALL. E. 1987 OLIVEIRA. Acesso em: 24 de agosto de 2006. Fundamentos Médico-Legais da Perícia em Matéria Criminal. W. 1987. BRENNER. Sistemas e teorias em Psicologia. Noções de criminologia. 1973. FREITAS.179. São Paulo: Editora Cultrix. Belém: CEJUP. ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Vigiar e Punir.htm>.org. 16ª reimp. 1990. Petrópolis: Vozes. Cuidados maternos e saúde mental. C. Espaço urbano e criminalidade: lições da escola de Chicago. Gardner. 1991. p. C.anpr. Porto Alegre: Artes Médicas. P. BOWLBY J. MARX.A.. M. W. E. ARAÚJO. OLIVEIRA. P.720-727.T. CALVIN. São Paulo: IBCCRIM. 1ª reimp. Teorias da personalidade. São Paulo: EPU. 5ª reimp. 1978. M. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (4ª ed. 14ª ed. Classificação dos transtornos mentais e de comportamento – 10ª revisão. M.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Referências Referências ALBERGARIA. 3ª ed.). A. J. S. LEWIS. São Paulo: Martins Fontes. DURKHEIM. S. Introdução à Sociologia. C. Boletim dos Procuradores da República. 1979. 2002. 1993. Neurochemical Mechanisms of chronic antisocial behavior (psychopathy). 1977. v. FOUCAULT. Belo Horizonte: Editora Lemi S. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Porto Alegre: Artmed. rev. 1973. P. 2003.

WINNICOTT. 2004. M..E. Young. Disponível em: <http://www. O controle do crime na sociedade capitalista: uma filosofia crítica da ordem legal. R. Frenologia: a história da localização cerebral. 1987. Acesso em: 8 de agosto de 2008. E. v.org. Walton. QUINNEY. Tradução de Álvaro Cabral.htm>. São Paulo: Martins Fontes. SUDBRACK. Rio de Janeiro: Graal. F. D..O. R. I.. Relatório mundial sobre a violência e saúde. M. Psiquiatria forense. Porto Alegre: ArtMed.. 1980. Genebra. ABDALLA-FILHO. In Taylor. D.br/n01/frenolog/frenologia_port. p. Criminologia crítica. 65 . J.1992. Privação e delinqüência. SABBATINI. G.221-247. p. Da falta do pai à busca da lei: o significado da passagem ao ato delinqüente no contexto familiar e institucional. TABORDA. M.). 2002.cerebromente. J.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Referências ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). CHALUB. (orgs.8 (Suplemento). P.447-457. Psicologia: teoria e pesquisa. V.

estranho. Desviante – Que diverge da norma social. cujo número e morfologia são característicos de uma espécie ou de seus gametas. Constructo – Construção puramente mental. anormal. Cariótipo – Conjunto de cromossomos. Anômalo – Aquilo que é diferente. bivitelino. Drogradição – Uso abusivo de drogas. valor. normalmente associada à proteína e que contém genes arranjados em seqüência linear. visível ao microscópio durante a divisão celular. que não pode ser reparado. C Capitalismo – Sistema de organização social baseado na propriedade privada. Comunidade – Grupo sócio-cultural cujos elementos vivam numa dada área sob um governo comum. D Dano – Mal ou prejuízo de que não se pode recuperar. Conformista – Indivíduo com atitude ou tendência a aceitar uma situação incômoda ou desfavorável sem questionamento nem luta. criada a partir de elementos mais simples.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Glossário A Glossário Amplitude – Importância. para ser parte de uma teoria. Concêntricas – Que formam círculos a partir de um centro. 66 . Delitogênica – Que favorece a ocorrência ou o surgimento de delitos. irregular. nos meios de produção e no livre-mercado. Dizigótico – Originado da gestação de fetos provenientes de dois zigotos distintos. Atavismo – Reaparição em um descendente de caracteres de um ascendente remoto e que permaneceram latentes por várias gerações. relevância. Cromossomo – Estrutura composta de ADN.

Gueto – Bairro de uma cidade que sofre tratamento discriminatório. constituída pelo segmento de uma cadeia de DNA responsável por determinar a síntese de uma proteína. onde vivem membros de uma etnia ou de um grupo minoritário. Estigmatização – Atribuir algo que é considerado indigno. H 67 . em equilíbrio quando sob a ação de forças. F Fascismo – Regime político adotado por um governo centralizador. prevalecendo os conceitos de Estado (nação) ou raça sobre os valores individuais. Estigma – Sinal natural no corpo. Estímulo – Qualquer agente externo capaz de provocar uma resposta.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Glossário E Eliciar – Provocar. G Gene – Unidade fundamental. Figuras parentais – Representação simbólica do pai e da mãe. Exógena – Que tem sua origem fora do organismo/ do indivíduo. Enzima – Cada uma das proteínas produzidas por seres vivos e capazes de catalisar reações químicas relacionadas com a vida. Grupo – Reunião de várias pessoas com interesse comum. Evitativo – Que evita pessoas. Empatia – Capacidade de se identificar com outra pessoa. Estática – Parada. Endógeno – Que se origina dentro do organismo/do indivíduo. física e funcional da hereditariedade. desonroso.

Monarca – Indivíduo que exerce o poder supremo num governo. doutrina do movimento e partido liderados por Adolph Hitler. transformação. Interação – Comunicação entre pessoas com trocas e influências recíprocas. 68 . Neurose – Conjunto de problemas de origem psíquica em que. nem sempre ‘minoria’ significa minoria numérica. Inédita – Que nunca foi vista. pouco acolhedor. sem precedentes. Em sociologia. o indivíduo conserva o contato com a realidade. Interface – Elemento que proporciona uma ligação entre duas partes que não poderiam ser conectadas diretamente. Na introjeção. modificação. há uma assimilação das qualidades de um objeto exterior (por exemplo. Minoritário – Que está em minoria. Hostil – Que é ameaçador. pois podemos nos referir a grupos minoritários em termos da falta de acessos.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Glossário Histriônico – Personalidade cujo traço marcante é seu padrão de emocionalidade excessiva. Mutação – Alteração. aproximando-se também do conceito de incorporação. em condição numérica inferior. diferentemente da psicose. Introjeção – Processo psicológico descrito inicialmente por Ferenczi e que está intimamente ligado ao mecanismo psicológico de identificação. entretanto. M Maternagem – Os cuidados materiais e biológicos com os filhos praticado pela mãe. agressivo. apresentando comportamento de busca de atenção e dramaticidade extremos. N Nazismo – O termo veio da palavra em alemão Nationalsozialismus que significa Socialismo Nacional. contrário. I Impulsividade – Característica que faz com que o indivíduo atue de maneira irrefletida. as normas sociais) acomodando-as ao universo psíquico da pessoa.

crime etc. e criação de uma teoria). estabelecimento e testes de hipóteses. que se infiltra por toda a parte. idéias ou sentimentos. Assim. P Paternagem – Os cuidados materiais e biológicos com os filhos praticado pelo pai. O positivismo rejeita a influência das ideologias religiosas e metafísicas. Pulsão – Processo dinâmico que nasce no Inconsciente e que leva o organismo em direção a um fim. 69 . penetrante. experimentação. Sutil – Quase imperceptível. Postitivismo – Escola filosófica segundo a qual a aquisição de conhecimento do ser humano como ser social deveria valer-se do método das ciências experimentais (observação. é um mediador químico. Privação – Falta do necessário à vida. Patologia – Doença. para o positivismo a ciência deve ter uma posição neutra e objetiva para gerar compreensão sobre o mundo. R Racionalização – Mecanismo de defesa pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para seus atos. Perpetrador – Aquele que pratica ato moralmente inaceitável (delito.Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Glossário Neurotransmissor – Moléculas secretadas pelas porções terminais de neurônios e responsável pela transmissão do impulso nervoso. O Ontogênese – Desenvolvimento de um indivíduo desde a concepção até a idade adulta.). S Subentendido – Que se entende. uma tendência para agir. Reincidir – Voltar a praticar o mesmo crime ou delito. T Teoria – Conjunto sistemático de opiniões e idéias sobre um dado tema. mas que não foi expresso.

Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime Glossário 70 .

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