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A Coluna Social Na Folha de Sao Borja[1]

A Coluna Social Na Folha de Sao Borja[1]

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A Coluna Social da Folha de São Borja1

COSTA, Luciano23 Universidade Federal do Pampa/Rio Grande do Sul
Resumo: Este projeto estuda a produção das colunas sociais publicadas no jornal Folha de São Borja desde sua fundação, em 1970 até os dias atuais, perpassando por momentos de acirramento político, no qual a atividade remonta a um processo primário da imprensa, cujas características fundamentais baseiam-se na proximidade, na legitimação social e no poder econômico. O presente estudo aponta as marcas discursivas das colunas desde esse período, em uma cidade que faz fronteira com outro país. Analisam-se os principais colunistas sociais do jornal, Zely Espíndola e seu sucessor, Deco Almeida, buscando contribuir para a compreensão dos modos de produção jornalística e da história da imprensa do interior do país. Palavras-chave: história; colunismo social, jornalismo.

1. Introdução Ao longo do tempo, as colunas sociais têm sido uma constante na mídia impressa. Embora esteja presente desde os primórdios da imprensa e tenha aproveitado a própria evolução tecnológica para amadurecer junto com a prática do jornalismo, é um gênero subjugado nos estudos acadêmicos que não raramente a considera um jornalismo de menor importância. Há, também, quem não a considere como um gênero jornalístico e a defina, simplesmente, como uma prática de futilidades, que informa sobre o que não é necessário bem como eleva as partes mais abastadas na estratificação social, acirrando as desigualdades e a exclusão social. Porém, nos últimos trinta anos, a academia começa a voltar-se para os estudos deste gênero em específico que, segundo os estudiosos da história da imprensa, no Brasil, é um gênero inspirado nas gossip columns norte-americanas, mas, no Brasil, tornou-se único pela reconfiguração tipicamente brasileira. Hora relatando festas, hora perpassando suas falas pela vida mundana das “altas rodas”, essas colunas sociais construíram uma forma alternativa e particular de
1 Trabalho apresentado no GT de Jornalismo, integrante do VIII Encontro Nacional de História da Mídia, 2011. 2 Acadêmico do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, Unipampa Campus São Borja. Bolsista do Grupo de Pesquisa História da Mídia e colaborador do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Telejornalismo. lucianocostaal@gmail.com 3 EMERIM, Cárlida. Orientadora do artigo, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que atuou na Unipampa até dezembro de 2010, onde realizava pesquisas sobre a história da mídia e orientou a presente pesquisa. carlidaemerim@cce.ufsc.br

expressão da opinião de seus escritores e dos veículos de informação às quais estavam ligadas. Informações fúteis, de caráter de curiosidades, fait’divers, eram agora mescladas a fofocas sobre milionários, artistas e principalmente sobre um tipo de “celebridade” bastante peculiar: os políticos. Em sua grande parte, ligados às grandes famílias, esses políticos possuíam um grande capital simbólico que lhes era advindo de suas origens familiares, bem como da posição social que possuíam. A política, assim como fazia parte dos comentários dos colunistas norte-americanos, passara a possuir uma importância vital para as colunas sociais brasileiras. (ALVES MARIA: 2008). O modo como se conta sobre a sociedade nessas colunas tornou-se referência para o mundo e a sua importância para o jornalismo e para a vida social está se solidificando na contemporaneidade. Não só pelo reconhecimento desta trajetória apontada acima, mas também pelos estudos que as colunas sociais oportunizaram como o descortinamento da história social de diferentes regiões do Brasil, como também possibilitaram uma análise retrospectiva sobre os modos de fazer jornalismo informativo e opinativo: ou seja, elas têm se transformado num excelente objeto de estudo para compreender a sociedade ontem e hoje. 2. As Colunas Sociais O surgimento destas colunas, como aponta Alves Maria (2008), está na história do jornalismo americano, onde exercem um importante papel desde 1920. Segundo o autor, os colunistas sociais estadunidenses contribuíram efetivamente para a mudança do cenário social das grandes cidades. Citando o sociólogo norte-americano C. Wright Mills, Alves Maria afirma que ao buscar perceber de que forma o cenário político norte-americano se alterou em fins da 1ª Grande Guerra, o estudioso compreendeu que ao ocupar um espaço privilegiado entre as famílias que detinham linhagem e tradição, mas que estavam perdendo seu poder econômico, os colunistas sociais: (...) passaram a ser meios de ascensão social por aqueles que não tinham a “linhagem” a que Mills se refere. Desta forma, as colunas sociais, passam a ser um importante meio de inserção desses novos ricos nas “altas rodas”. Politicamente, as colunas sociais adquiriram um caráter extremamente importante para a mudança da lógica das relações sociais no seio da sociedade norteamericana. Essas colunas sociais passaram a constituírem-se em locais privilegiados da criação de novas figuras políticas e sociais. O The Social Register, grande lista composta de 400 a 800 famílias que eram apontadas como as principais “famílias da América”, e que teriam passe livre para freqüentar os principais clubes e círculos políticos das principais cidades norte americanas no início do século XX, passa a não ser tão conclusiva, sobretudo a partir da criação de novas listas feitas pelos colunistas sociais. (ALVES MARIA: 2008, pág. 01).

Ao ser perguntado sobre a importância das colunas sociais no jornalismo impresso atual, o ombudsman do jornal O Povo (CE), Roberto Maciel (2003) aponta duas grandes justificativas, pois, para ele, a coluna social 1) atende as demandas de um público real, palpável, que consome jornal da mesma forma que aquele que deseja informações sobre política ou esportes; 2) tem o potencial de apresentar, em boa medida e com boa aproximação do exato, tendências de comportamento da sociedade. Assim, não é difícil compreender por que muitos leitores elegem a coluna social como a primeira a ser lida quando abrem os jornais. Muniz Sodré (2003) afirma que a função histórica da coluna social, no seu surgimento, está ligada à concepção de modernidade, à sociedade industrial que se preocupava em “consagrar” determinados setores pertencentes a essa nova ordem social, classificado por ele como burguesia comercial e mercantil. Ou seja, o tom jornalístico das primeiras colunas oferecia visibilidade social para a ostentação das riquezas, por isso expressões como grand monde, café-soçaite ou gente fina remetiam sempre às grandes recepções, a produtos caros não consumidos por pessoas comuns e, também, comportamentos advindos de experiências com outras culturas, principalmente as européias e americanas. Tanto é verdade que foi nesse espaço que se consolidou diferentes expressões estrangeiras para classificar este mundo que todos querem participar, mas poucos podiam estar: high society, happy few, grand monde, glamour, entre outras. O termo café-society4 surgiu em 1919, cunhado pelo colunista norte-americano Maury Paul, para definir um tipo de reunião sistemática que acontecia entre um grupo de pessoas proeminentes da sociedade, mas que provavelmente não se visitavam em casa, (ou seja, estas pessoas se reuniam em público, mas não tinham uma relação mais íntima que propiciasse as visitas ou reuniões em casa). Ao longo dos anos, este tipo de encontro ganhou força política e representava uma forma de estratificação social fundada na visibilidade e no pertencimento, fora dos padrões anteriores cujo status era baseado apenas no pertencimento à famílias antigas, tradicionais. Essas reuniões tornaram-se referência para compreender a sociedade que surgia na época, que passava a construir novas regras fundando-se em nomes que tinham outro tipo de patrimônio, tais como o intelectual, o talento artístico, o poder financeiro emergente, etc. As práticas de produção de jornalismo ensinam como produzir colunas, até mesmo como escrever coluna social, pois se tratam de regras do fazer. Porém, para construir credibilidade e permanecer como referência no posto de colunista social, o jornalista precisa ter algumas características específicas, ligadas muito mais as características pessoais, a de um perfil, a de uma personalidade, do que a conformação as características diferenciais do fazer jornalístico num
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O esclarecimento sobre este termo foi encontrado no artigo de Maurício de Fraga Alves Maria, que cita o sociólogo norte-americano C. Wright Mills como autor da definição, baseado no estudo das práticas de escrita do colunista Maury Paul.

veículo em especial. É consenso entre os pesquisadores que estudam a imprensa escrita brasileira, entre elas, a coluna social, que o colunista é alguém que participa dos eventos, que conhece as pessoas, que se relaciona com o meio sobre o qual opina e escreve. Bem como, é na coluna social, onde a opinião e a representatividade são mais exercidas construindo um espaço de grande poder e de forte influência na opinião pública. A esse contexto soma-se o prestígio do colunista, que não só consegue selecionar dentre os inúmeros fatos que ocorrem no mundo, aqueles que são de interesse primordial para um público eclético e, cada vez mais, ávido por novidades. Desta forma, compreender o modo ou as estratégias que os colunistas sociais usam para produzir suas colunas torna-se, também, um aspecto de suma importância para entender a sociedade de sua época. Este prestígio alcançado dota a figura do colunista social de certo poder discursivo, exercido no seio social e no espaço geográfico de alcance de sua publicação, pois seu espaço é um dos mais autorais da mídia impressa brasileira, visto que suas colunas são assinadas, definindo suas pautas por aquilo que é característica e “gosto” do colunista, mas fundado no que se pode definir como consenso social. Outra questão a ser enfatizada é a mudança de status que a coluna social adquiriu no período da ditadura militar no Brasil. Pois, se antes a coluna social se dedicava apenas a referendar esta sociedade dita como uma “elite financeira”, das famílias tradicionais ou detentora de poder político, nos tempos de censura, constituiu-se num espaço de maior liberdade, afinal, tratava de assuntos mais “amenos”. E, muitos colunistas que ganharam credibilidade neste período não só exaltavam o poder vigente, mas conseguiam, minimamente, opinar e abrir alguns espaços de resistência a uma mídia monitorada e amordaçada. Mas, na atualidade, com a sociedade midiatizada, as colunas sociais vêm configurando-se como um espaço que procura ampliar-se ou redemocratizar-se, seguindo um movimento ou o fluxo do seu tempo. Ao lado de celebridades midiáticas e autoridades encontram-se atores anônimos, aqueles cuja inserção pode ser efêmera, ocupando “apenas 15 minutos de fama”, ou cuja trajetória permitirá uma “permanente evidência”, pertencendo ao espaço seleto dos que se destacam individualmente neste mundo globalizado. Por tudo que se apresenta até então, acredita-se que, na atualidade, a função da coluna social é a de propiciar a permanente reconstrução da estratificação social, apresentando notícias, opiniões, relatos e registros que dão visibilidade a grandes e pequenos fatos do cotidiano social. Nos jornais do interior do Brasil, estas colunas assumem, com muito mais importância, a função agregadora e conseguem representar, com a sua diversidade, os modos e vivências da sociedade fora dos grandes eixos e cidades brasileiras.

3. O Jornal Folha de São Borja Em São Borja, os anos 70 marcam um período de poucas publicações jornalísticas e o fechamento de empresas de rádio na cidade que somente retornariam em 1976. No campo do jornalismo impresso, muitas empresas que vinham atuando a partir dos anos 50 e 60 fecharam as portas alguns anos depois do Golpe Militar de 1964, tais como o Jornal 7 Dias que tinha nomes importantes em seu quadro como Aparício Silva Rillo, Artur Freire Nunes, Enrique Athaydes, Moacir Sempé e Florêncio Aquino Guimarães que assinou trechos como este: (...) Enganam-se os que pensam que a opressão e a violência são fatores capazes de matar a força sadia de um idealismo. Nada mais errado. E a História, prova no desencadear na vida dos povos isto que estamos afirmando. Quanto maior for a pressão do tacão, dos preponentes sobre a consciência popular, esta mais se levantará, mais irá arregimentar-se e maior ânimo adquirirá na luta pela libertação. (...) A força construtora de um idealismo sadio haverá de construir uma Pátria grande na justiça e no solidarismo de seus filhos.5 Nesta turbulência de fechamento e acirramento dos meios repressivos de controle social surge, em 24 de fevereiro de 1970, o jornal Folha de São Borja (FSB). O fundador da publicação foi José Grisólia, que nasceu em São Borja, mas mudou-se ainda criança para São Luiz Gonzaga, onde exerceu várias profissões. E sua história de vida, deixa claro que ele era um homem de posses e de contatos. Juntamente com filhos e sobrinhos, fundou a Gráfica A Notícia que lhe possibilitou fundar várias outras empresas jornalísticas adquirindo, mais tarde, também o título de jornalista para seu vasto currículo profissional. O jornal Folha de São Borja, doravante denominado FSB, foi gerenciado pelo Grupo Grisólia até 1976 quando foi vendido para um grupo de sócios liderado pelo advogado Roque Andres. Nesta época, o jornal era montado em São Borja e enviado pelo ônibus para a cidade de Santana do Livramento, distante 398 quilômetros, onde era impresso na Editora Jornalística A Platéia6. Desde a sua fundação, o FSB circulava semanalmente, todas as terças-feiras, com quatro páginas em formato standard, dividido em colunas sobre cultura, sociedade, esportes e crônicas, além das notícias gerais e de polícia. Não sofreu mudanças com a passagem de comando, sendo reformulado apenas mais tarde, em função das mudanças tecnológicas gráficas.
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Esta citação foi retirada do Jornal 7 dias, exemplar de 1964, pesquisado pelos alunos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa, no projeto “Prolegômenos da Imprensa em São Borja”, coordenado pela professora Cárlida Emerim. Os resultados deste projeto estão no livro Memórias sobre a Imprensa em São Borja, editado pela Universidade Federal de Santa Maria, em 2006 e organizado pelas professoras Cárlida Emerim e Joseline Pippi. É um dos jornais mais antigos da fronteira oeste gaúcha, tem hoje uma rede de rádios AM e FM, jornais impressos e disponibilização em on line.

Depois de todas estas explicações contextuais, há questões muito relevantes a serem consideradas quando se fala em Ditadura Militar em São Borja. A simples digressão histórica que fez para este artigo nos ajuda a encontrar três aspectos importantes para a reflexão. O primeiro deles está ligado ao fato de que o golpe militar de 1964 depôs um presidente são-borjense, João Goulart, que trazia uma proposta de governo diferenciada. O segundo remete a questão geográfica da cidade localizada na fronteira com a Argentina, portanto, zona de segurança nacional e, por isso, uma cidade extremamente militarizada, com pelo menos três quartéis e várias guarnições do Exército. O terceiro se refere à cultura econômica da cidade e região, eminentemente rural, agrícola e oligárquica, com o domínio de poucas famílias sobre a cultura do arroz. Esses três aspectos propõem o entendimento de que o regime militar iniciado em 1964 no Brasil deve ter causado impactos em São Borja, cujas repercussões ainda não foram estudadas. Mas, pode-se perceber, num simples mapeamento deste período no FSB que ele repetia algumas das hierarquizações sociais propostas na época e a coluna social, era um espaço de visibilidade política, não só de visibilidade social. 4. A Coluna Social no jornal Folha de São Borja Para compreender a coluna social na Folha de São Borja, foi preciso buscar o conceito de coluna, bem como de colunista, nos manuais fundantes da prática jornalística. Do ponto de vista da definição, parte-se do conceito comunicacional mais simplificado oferecido pelo Dicionário de Comunicação (2001) onde têm-se que coluna é a seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, redigida em estilo mais livre e pessoal e geralmente assinada7. Já no livro de Luiz Amaral (2001), coluna seria, então, um espaço institucional no qual a empresa utilizaria como serviço de relações públicas para relacionar-se com seu público alvo e seus anunciantes. Unindo estas duas acepções, pode-se dizer que coluna é um espaço diferenciado na estrutura formativa dos periódicos que define um estilo e uma opinião, seja ela de quem a assina ou do veículo (embora, na maioria das vezes, elas sejam concomitantes). Tanto é verdade, que a definição mais usual de colunista remete a questão do comentário fixo: por colunista, comentarista, cronista ou crítico de jornal, revista, etc. entende-se aquele que mantém seção a cerca de política, arte, literatura, vida social e etc8. Deste modo, a coluna tanto pode ser entendida como um espaço de organização do que não
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BARBOSA, Carlos Alberto RABACA e Gustavo (orgs). Dicionário de Comunicação. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. HOLANDA, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

é notícia, pois se mantém por comentários e opiniões a cerca de temas e assuntos diversos como também por uma estrutura formativa de espaço definido no periódico e no interior da página do mesmo periódico. Compreendida desta forma, pode-se entender como coluna social, o espaço definido no periódico nos quais tratam-se os assuntos que não são notícia, mas que se referem a ações e repercussões de determinados acontecimentos na sociedade. Diante do exposto, define-se por coluna social um gênero jornalístico, que se pauta por notas curtas baseadas nos acontecimentos reais que podem apresentar notícias, comentários e/ou relatos sobre fatos e pessoas de um mundo real. A partir dessa definição pode-se mapear no jornal Folha de São Borja (FSB), como foram constituindo-se os espaços destinados aos comentários sociais, a partir da análise das publicações impressas cujo acervo encontra-se na sede do FSB e na Biblioteca Pública Getúlio Vargas, em São Borja. Em 1970, ano de fundação da FSB a coluna social era exibida no formato de “coluna de página inteira” funcionando como uma macro coluna, intitulada PANORAMA, tendo em seu interior cinco colunas, cada uma delas assinada por um colunista diferente, exibindo-se com estilos próprios. Quando a coluna recebia o nome de Panorama, ela geralmente concentrava a publicação de todas as notas sociais escritas pelos diferentes colunistas numa mesma página. Outra forma freqüente de publicação das notas sociais era o desdobramento destes colunistas em espaços indefinidos: ou seja, em cada edição do jornal colocava-se em espaços e páginas diferentes, mantendo regularidade apenas a sua publicação em todas as edições do jornal. Do formato conceitual, mantém o cabeçalho de página fixo, mas não segue a diagramação padrão, alternando espaços e estilos. Os nomes que assinavam essas pequenas notas também recebiam, eventualmente, títulos diferenciados para definir e especificar a autoria das notas. Assim, nos anos 1970 aparece “Tânia Comenta”, assinada por Tânia Siqueira, cujos temas mais populares eram casamentos, nascimentos, formaturas, bailes, festas e shows nos clubes. Outro nome que era recorrente nas páginas dos jornais era o de Claudius, que assinava uma coluna com o mesmo nome, “Claudius”9, comentando sobre moda, beleza, cuidados com a saúde e lojas de roupas da cidade, não citando nenhuma personalidade. Carmem assinava a coluna “Carmem” e Sônia Koucher assinava a coluna “Sônia”, ambas discorriam sobre festas, bailes e eventos da cidade. Todos estes escritos sociais remetiam a comentários mais abstratos, em sua maioria, quase em forma de registros do acontecimento e de agenda – antecipando o que iria acontecer, poucos deles traziam opinião e indicação de participação no que era comentado.
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Pelas pesquisas empreendidas, acredita-se que Claudius era um pseudônimo, utilizado por alguém que escrevia para o jornal, pois as colunas dele chegavam direto à redação e apenas eram inseridas pelos diagramadores, sendo que nenhuma das fontes entrevistadas lembra-se de quem era o autor desta coluna, que aparece somente nos jornais do ano de 1970.

Zely Espíndola, neste primeiro momento, assinava a coluna “Zely Comenta”, no qual escrevia sobre vários acontecimentos e pessoas da sociedade, mas com tom mais aprofundado e intimista, marcando seus comentários com a experiência e a vivência de quem participa. Em 1971, deixam a coluna social Claudius, Sônia Koucher e Carmem. Começa a surgir o nome de Vera Marlene que aparentemente os substitui, escrevendo sobre casamentos, formaturas, festas e bailes. Com esta mudança, fortalece a figura da colunista Zely Espíndola até 1974, pois a “Zely Comenta” além de ganhar mais espaço há edições em que somente ela assina toda a parte destinada à coluna social. Assim, de 1972 a 1974 identifica-se uma fase bem clara na qual o jornal parece ter um colunista fixo, que organiza todas as notas sociais no mesmo espaço. Não há outras publicações fora deste espaço assinado. A seção Panorama começa a extinguir-se, aparecendo raramente, sendo substituído apenas pelo nome da colunista referência Zely Espíndola e, em 1975, a seção “Panorama” extingue-se totalmente. Em 1976, os colunistas possuem espaços próprios dentro da publicação. Nesta surge outra coluna, intitulada de “Sociedade”, que raramente possuía assinatura e era eventualmente assinada por Jaury Medeiros, Nara Carvalho ou Sônia Koucher, trazendo notas genéricas, as pagas e a agenda dos acontecimentos. 5. A Coluna Social de Zely Espíndola Em 1977, Zely Espíndola tem sua coluna renomeada para “Ribalta”, na qual mantém seu estilo característico fundado na tradição da escrita. Mas, seguindo uma tendência da imprensa nacional, o jornal começa a procurar uma linguagem mais jovem, e surgem duas novas colunas, publicadas no espaço da social, nomeadas de “Escreve Malu” e “Escreve Verônica”, que apresentavam eventos da cidade, como shows e bailes, sem citar quem participavam deles e sem emitir juízos de valor, um tipo de escrita que remete aos registros, porém, com o emprego de gírias e de uma escrita mais coloquial. A partir de 1978, a coluna social passa a ser assinada somente por Zely Espíndola cujo nome consagrou-se nesta função não só pelo tempo de atuação como também pelo reconhecimento na comunidade por ser a única que permaneceu escrevendo, desde a fundação do jornal, na coluna social. É Zely quem organiza todas as notas sociais no mesmo espaço, instituindo-se, com sua personalidade, uma referência e a principal colunista social do Jornal Folha de São Borja, ocupando este posto até o ano de 1983. Aliás, cabe ressaltar que mesmo antes, quando o espaço era dividido com outros autores, os escritos de Zely se diferenciavam e constituíam o que se pode chamar de crônicas sociais. Outro

diferencial eram os eventos e as personalidades que eram retratadas por suas crônicas que recobriam aquelas que envolviam as pessoas de maior destaque na sociedade de época. Os sobrenomes escolhidos para fazerem parte da “rotina de visibilidade” nas colunas sociais eram não só pessoas cujo círculo social Zely participava como também personagens marcantes das diferentes áreas da cidade como políticos, empresários, integrantes das famílias mais tradicionais, remetendo ao que era produzido pelos principais colunistas da época em grandes centros do país. Zely Espíndola, com suas características pessoais, construiu uma identidade afetuosa com a comunidade são-borjense que aparecia em sua coluna, o que era visibilizado discursivamente em forma de agradecimentos, de ações, cartas e/ou mimos recebidos publicados em suas páginas. A análise das colunas de Zely reitera as figuras proeminentes da sociedade, que por poder simbólico, econômico e/ou afetivo destacavam-se na sua comunidade de pertencimento, uma elite cultural e econômica. Outra constatação dá-se pela estratégia de construção da intimidade com os leitores, visto que, a colunista não tinha espaço físico de trabalho dentro da sede do jornal: sua coluna era produzida ou em seu local de trabalho oficial (o cartório da cidade) ou em sua residência. Zely Espíndola detinha alto conceito com os comandantes militares da cidade e região não só por ser funcionária pública e pelas inúmeras vezes em que enfatizava o seu patriotismo e seu nacionalismo como também a larga cobertura expedida às ações dos militares na coluna social. Esta relação harmônica beneficiou a colunista, que era a única colaboradora do jornal que não precisava submeter seus textos à censura prévia, no período de ditadura militar brasileira. A análise mostra que, em relação às temáticas, havia uma autocensura de conteúdos, pois a coluna tratava de assuntos mais “amenos”, preterindo fatos polêmicos ou sérios, que tratassem da realidade social sob o ponto de vista político ou econômico. 6. A Coluna Social de Deco Almeida José Carlos Rocha Almeida, o Deco Almeida, iniciou sua carreira na Folha de São Borja em 1977 quando começa a apoiar Zely Espíndola na produção de suas crônicas sociais, além de escrever para outras partes do jornal. Mas foi em 1983 que se tornou o colunista fixo do jornal, substituindo Zely, a colunista referência até então. Nesta trajetória, Deco Almeida pode ser compreendido em diferentes fases de produção de seu colunismo. Com caráter inovador, desde os primeiros escritos diferenciou-se da crônica escrita até então e trouxe uma nova marca de escrita em coluna social: as notas sociais curtas e o uso mais intenso das fotografias. Mais tarde, acoplou a coluna um espaço diferenciado no qual reporta crônicas e comentários cujas temáticas são suas apreensões sobre as coisas cotidianas do mundo, tematizando da literatura a política, dos costumes a moda, do comportamento humano a psicologia,

entre outros. Deco Almeida, como herdeiro da coluna social de Zely Espíndola, começou a escrever na coluna social da Folha de São Borja em 1983 e, desde esta data, estima-se já ter escrito mais de 10 mil crônicas sociais para o jornal. Já na primeira publicação das colunas de Deco, elas apresentam uma proposta temática inovadora, diferente das que eram costumeiramente tratadas na tradicional crônica familiar (que se fazia tradicionalmente na coluna social brasileira), um a mudança que seguia a tendência que vinha sendo adotada no gênero por grandes veículos do país. Desta forma, as colunas passaram a construir um universo mais abrangente, pautando-se também pela informação e trazendo a repercussão de alguns fatos polêmicos e marcantes da época. A primeira crônica foi bem simbólica, pois apresentou um comentário sobre um artigo da revista Manequim, no qual o assunto principal eram os seios de Sophia Louren, que repercutiu logo de início, pois era inovadora e confrontava com a convencional crônica de Zely Espíndola. Segundo Deco Almeida, em entrevista recente, todos esses anos de colunismo social lhe renderam um amplo convívio que não só contribuíram para que ele pudesse conhecer e circular entre as principais famílias, ou seja, os clãs mais tradicionais da cidade de São Borja, como também, oportunizou fraternas convivências com essas pessoas. Os critérios de seleção que foram sendo adotados ao longo de sua trajetória: diferencial, nível de interesse para os leitores, além dos já conhecidos pela imprensa moderna – abrangência, ineditismo, interesse público, curiosidade, informação, entre outros. Por algumas destas características, a coluna social de Deco adquiriu notória credibilidade e passou a ocupar o espaço de maior importância dentro da diagramação da FSB, as páginas centrais. Obviamente que a coluna também apresenta a retórica da estrutura de conteúdo das colunas sociais que se embasam na visibilidade das ações das celebridades, dos políticos (não pelo ponto de vista dos cargos, mas dos homens e mulheres), dos que surgem como diferenciais neste universo regional e das tradicionais famílias da região. Porém, há um espaço aberto para os que não têm tradição e nem reconhecimento público, e sua alçada ao universo social se dá pela própria inserção dos comentários do colunista que, sob este aspecto, propõe uma coluna mais aberta e menos tradicional das que são produzidas na região. Em termos especificamente técnicos, pode-se dividir a produção da coluna social de Deco Almeida em fases, sendo elas: Fase inicial – 1983 a 1991; Fase intermediária – 1992 a 2000; Fase contemporânea – 2000 a 2009 e, finalmente, Fase atual – 2010. Na fase denominada INICIAL, de 1983 a 1991, a coluna se chamava “Déco”, com cartola de página descrita como “Sociais”, ocupava uma página inteira do jornal, mesclando notas, dicas de beleza com o emprego de poucas fotografias. Uma das marcas registradas de Deco, a frase no topo

da página, trazia frases de otimismo. No final da década de 80, a coluna passou a ocupar duas páginas, mas ainda não era central, intitulava-se ainda como “Déco” e dividia a página com os boxes de serviço e o de horóscopo. Na fase que se define como INTERMEDIÁRIA, de 1992 até 2000, a coluna passa a intitular-se “Deco”, sem o uso do acento, e ganha o acréscimo de uma foto do colunista, o segue também tendência e diagramação dos grandes jornais brasileiros. Em 1993 o jornal FSB faz uma modificação em toda a sua estrutura de diagramação e a coluna passa a ser central, com amplo uso de imagens e se estruturando em pequenas notas. A partir de 1997, a cartola da página muda de “Sociais” para “Caderno In” e, logo após a “Frase do Dia”, insere-se o jargão que já se tornou tradicional ao longo destes anos: “Bom dia, eu volto!”. Na fase que se definiu como CONTEMPORÂNEA, de 2000 a 2009, a coluna não modifica o seu layout, ou seja, mantém sua estrutura discursiva e narrativa, mas começa a empregar com mais expressividade e amplitude as fotografias, que passam a ganhar destaque em função do uso de fotos coloridas e da qualidade de impressão das fotos e do próprio jornal impresso. Na fase ATUAL, em 2010, o jornal FSB empregou uma grande modificação gráfica que não só padronizou os espaços destinados aos colunistas fixos como também inovou em termos de apresentação de conteúdos. Esta modificação, porém, trouxe poucos reflexos para a coluna social de Deco Almeida visto que ela foi, ao longo dos anos, o espaço que mais empregou mudanças e experimentou possibilidades expressivas dentro do jornal. O novo projeto gráfico do Jornal Folha de São Borja, proporcionou um diagramação menos poluída visualmente, deixando a leitura dos textos mais clara. As fotografias publicadas na coluna social experimentam enquadramentos e ângulos não convencionais, fugindo de uma estética tradicional. E, ainda, referenciando a autoria das fotografias quando estas não são dos fotógrafos do jornal. Conclusão Estes dois anos de análise das colunas sociais permitem afirmar que essas publicações impressas no interior do Brasil corroboram, sobremaneira, para o restabelecimento da história da sociedade brasileira e da própria história da imprensa realizada fora dos grandes eixos da indústria nacional. Bem como, contribuem para a compreensão dos modos de produção jornalística não somente àquela restrita aos fazeres das grandes empresas e, por conseqüência, restritas a uma realidade em particular. Se é nos anos 50 que as colunas sociais florescem no Brasil, é nos anos 2000 que elas passam a desafiar seus limites, constituindo e permanecendo como referência objetiva e opinativa dos acontecimentos do mundo. Se sua função histórica está mudando, só as gerações futuras

poderão dizer. Hoje, o que se pode afirmar, efetivamente, é que elas ocupam um lugar de destaque em todos os veículos e suportes midiáticos, configurando-se e consolidando-se através de espaços multimidiáticos, em sites, no interior de programas televisivos ou constituindo-se no próprio programa, em canais abertos e fechados, em revistas especializadas e, principalmente, mantendo seu lugar de origem e privilégio: os jornais impressos.

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