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Antes do Amanhecer

– PRÓLOGO –

Antes do Amanhecer – PRÓLOGO – Essa história não é sobre mim . É sobre uma

Essa história não é sobre mim. É sobre uma caixa.

Ela não deveria ter mais que vinte centímetros de comprimento e quarenta de largura. Feita inteiramente de madeira rústica, forte e resistente. Seus parafusos estavam bem apertados, o que pode ser considerado seguro – mesmo que eu tenha os aparafusado (e eu não confio muito em nada que eu faça). Suas paredes estavam cobertas por alguns adesivos de super-heróis, bandas e filmes antigos do lado de fora.

E o que ela guardava? Uma mensagem. Uma simples – mas importante – mensagem. Que deveria ser entregue antes do amanhecer, prazo que acabaria em uns 20 minutos. De preferência, antes que as freiras do Orfanato em que eu vivia acordassem com o alarme de segurança que disparara por minha causa e começassem a revistar os dormitórios.

Para quem deveria ser entregue? Ninguém em especial. Havia, também, outra caixa. Mas eu mantinha apenas essa debaixo do braço, enquanto andava a passos largos pelas ruas praticamente vazias de New Dorp.

Minhas mãos estavam escondidas nos bolsos da jaqueta de capuz azul marinho. Eu encarava a todos com os olhos estreitos. Meus tênis surrados continuavam a se encontrar de maneira não muito educada com o chão. As poucas pessoas acordadas àquela hora da madrugada passavam reto. Eu parei de caminhar. Olhei para um lado, olhei para o outro.

A grande calçada seguia em linha reta, como uma grande serpente de cimento claro, ao lado da grande porção de areia, seguida da praia. As ondas quebravam

timidamente

no

litoral,

como se

estivessem com medo de

acordar o mundo.

Revelei meu rosto assustado, antes coberto pelo capuz, ao mirar o céu daquela madrugada. Pude sentir meus olhos refletindo as nuvens de tempestade que ali se formavam, e segui rapidamente em direção ao porto. Os aproximados vinte metros esquecidos pela população da cidade me fizeram pensar que este seria o lugar perfeito para esconder segredos. Não meus, mas da caixa – que parecia expor tudo que tentei esquecer ao longo dos anos. Mas aqueles não poderiam ser os meus segredos. Não mais.

Sacudi a cabeça em negação por reflexo e segui pelo velho e ignorado porto, até encontrar a escada lateral. Quando meus tênis encostaram-se à areia, escutei o retumbar de um trovão.

Amaldiçoei a mim mesmo por não trazer um guarda-chuva e adentrei a pequena caverna de madeira que se formara abaixo do porto. Olhei para o chão pela primeira vez, e avistei o mesmo buraco que eu havia feito três dias atrás. Tudo parecia estar em ordem.

O prazo acabaria em questão de minutos, mas se havia algo que eu fizesse em que poderia se colocar confiança, era me livrar de castigos com ótimas desculpas. Dessa vez, por exemplo, acredito que ladrões estariam envolvidos. Porque os alienígenas já tinham sido utilizados da última vez.

Não é como se eu costumasse fugir tanto assim do Orfanato, essas foram pequenas - e importantes – exceções. Outro pequeno e importante – fato: eu não tenho qualquer ou sequer uma única e mísera lembrança dos meus pais. Recordava-me apenas do fogo. Dos gritos, da dor e do abandono. Sempre fora apenas eu e meu irmão mais novo. Órfãos de esperança e maltratados pelas circunstâncias do que você pode, ou não, chamar de destino. Sozinhos, mas unidos. E convivo muito bem com isso há mais de uma década, obrigado. Mais um: meu nome é Jake. Não, não é algum tipo de apelido para Jacob ou James. Jake é o meu nome e eu simpatizo muito com ele, não há de quê. Ah, sim, eu tenho sobrenome – mas você não precisará dele para saber quem eu sou. É indiferente. E eu nunca precisei. Minha melhor habilidade: fazer inimigos. Como se eu gostasse disso. Prazer. Infelizmente, essa história não é sobre mim, voltemos à caixa.

Fitei o buraco mais um pouco, segurando a caixa, agora, com ambas as mãos. Era quase difícil deixá-la. Agachando-me, revi a outra caixa da história, menor e mais patética que a primeira. Ainda era possível enxergar o “ROBBIE” escrito com a minha caligrafia, usando uma antiga caneta sem tinta – mas de ponta realmente afiada – que eu achara nos fundos da minha mochila. Aquele era o túmulo de um velho (e por algum tempo, meu único) amigo. E fitei o buraco pela última vez, largando a segunda caixa dentro dele. A tempestade desabou antes do amanhecer e eu desabei sobre a caixa.

Era mais que difícil deixá-la. Pois o que ela guardava era uma mensagem, uma simples mensagem, sobre mim mesmo. E não importava o quanto eu tentasse lutar contra isso, argumentando que havia mudado, que nunca seria o mesmo ou até mesmo que nunca fui aquele eu. A caixa continuaria a conter uma simples mensagem sobre Jake Dawnson.

Porque eu era a caixa.

Sr. Hoth, eu, a verdade e a mentira

– INTRODUÇÃO AO CAPÍTULO UM –

alguém

mais

irritante

que

o Sr.

Hoth?

Não,

eu

acredito

que

não.

Ele

chega

à

sala

de

aula

com seu cabelo seboso

e cinza, óculos

quadrados e

minúsculos, imagem que lhe dá uma idéia de superioridade. Que ele não tem. Mas que, mesmo assim, todos deveriam fingir que sim.

Biologia chegava a ser legal sem Hoth. Era divertido ouvir a Irmã Cíntia surtar sobre como deveríamos salvar as baleias ou qual o jeito certo de se escrever nomes científicos. Gritando e articulando as mãos minúsculas, comparadas ao grande corpo. O que, pelo menos, me fazia rir. Agora, o único fator que se mantém o mesmo, são os zeros bem redondos que eu tiro na matéria.

Eu. Sou o cara que você não vai querer conhecer. Eu não sabia naquela época, mas era perigoso demais ficar perto de mim. Falar comigo. Ser meu amigo. Erros aparentemente nada maiores que um suicídio social, claro, mas que poderiam custar a sua vida. “Olá! Sou o Jake. Eu tenho dezesseis anos e um irmão de treze, Jason. É um prazer conhecer você.” Isso era tudo que eu sabia. O que poderia lhe dizer, enquanto, na verdade, deveria alertar: “É um verdadeiro prazer conhecê-lo antes da sua morte. Sério, fuja.”. Não estou exagerando. Eu parecia ter uma atração magnética aos problemas. Ou ... Genética.

Esta era a verdade. Aquela que não faz diferença alguma quando se vive em um mundo como o nosso, onde a verdade nem ao menos é conhecida – ou relevante. A minha verdade não era feliz, boa ou satisfatória. Mas aceite isso como um aviso, antes de virar a página, e não tenha dúvidas: acabou por ser mais reconfortante que a mentira.

A mentira, também conhecida como “tudo que eu sabia” ou até mesmo tudo que você sabe, foi desmentida na semana que antecedia meu décimo sexto aniversário. E posso até resumi-la em uma frase: Sr. Hoth não é quem eu pensava ser. É claro que ele continua sendo o mesmo professor abusado de sempre, com óculos da Era Cenozóica e sorriso debochado. Mas tudo que eu sabia sobre ele, assim como o que eu conhecia por mundo, e todas minhas dúvidas sobre mim mesmo, estavam para mudar naquela semana.

Ok, você não está entendendo nada. É melhor começar pelo começo, então. Primeiro, veio a tempestade.

A Tempestade

– CAPÍTULO UM –

... bip bip bip! ..
...
bip
bip bip!
..

Se há algo que eu odeio mais do que qualquer pesadelo, é o despertador.

...

bip

bip bip!

...

Dei um tapa no maldito instrumento de tortura matinal. Levantando o tronco do corpo em um susto, abri os olhos, logo após ser sugado para fora de mais um sonho confuso. É, eles costumam acontecer com certa freqüência: o estridente e estranho som metálico, um cheiro tão forte quanto enxofre – e eu só não diria que é mesmo enxofre pois nunca cheguei a enfiar a cara em um pote com a substância quando visitei o laboratório de química da New Dorp High School –, além daquela sensação inexplicável de “Faça alguma coisa!” que me percorria a espinha sempre que eu tinha pesadelos.

Limpei o suor da testa e virei rapidamente o corpo. Nem preciso comentar que, só para aumentar meu drama matinal, acabei batendo a cabeça no beliche de cima, não é mesmo? Pois bem. Meu irmão mais novo, Jason, amarrava os sapatos, apoiado na cama à frente, e deu um leve sorriso ao me ver resmungar de dor. – Outro sonho ruim? – Ele exclamou, espremendo os olhos azuis que compartilhávamos, sem me dar tempo para fazer qualquer coisa além de massagear minha própria cabeça, assentindo à sua pergunta. – Bem, não quero ser irônico nem nada, mas bom dia. Sorri sarcasticamente para sua afirmação e sussurrei um bom dia de volta. Ele me encarou por um segundo, preocupado, enquanto fechava a jaqueta que colocara por cima do suéter apertado.

– Eu me prometi que não perguntaria nada – começou, bagunçando o cabelo preto e rebelde em nervosismo – mas quando quiser me falar sobre sua escapada da

madrugada

– E-eu

Ficarei feliz em ser seu cúmplice.

... – Balbuciei, levantando-me devagar da cama. Parei por um instante e

... respirei fundo. – Ah, céus, estou fedendo. Jason deixou escapar um leve riso, ainda tentando me repreender com os olhos. Eu não poderia lhe contar o que havia descoberto ontem, sob qualquer circunstância. Muito menos quando tudo que eu queria fazer era esquecer. Então devolvi o sorriso e comecei a me arrumar para a aula.

– Eu sei que a sala da Irmã Audrey foi arrombada, Jake. Eu ouvi a sirene. Eu te vi entrando pela janela segundos antes da vistoria começar. – Ele me observou procurar roupas limpas com impaciência. – E eu sei que nossos arquivos estavam lá.

Sobrenome, informações sobre nossos pais, tudo. Sei que você os tem. E eu

...

Eu

quero lê-los. – Eu joguei tudo fora. – Confessei, sem coragem de olhar para ele. – E acredite,

você não ia querer ler nada daquilo. – Jake! – Resmungou, me obrigando a devolver o olhar. Ele parecia uma criança a quem havia sido negado doce. Ou, no caso dele, um telescópio. – Não acha que eu mereço saber também?

– Você pelo menos se lembra da noite em que nossos pais morreram? – Olhei em seus olhos pela primeira vez. Falando duramente, quando eu sabia que tudo que ele merecia era um abraço, com a rispidez de um tapa na cara. – Se lembra do calor do incêndio? Dos gritos? De tudo que conhecíamos e amávamos sendo tirado de nós? Você se lembra disso, Jason? O silêncio foi a única resposta que eu obtive. – Foi o que eu pensei. – Completei, com as roupas em mãos, dirigindo-me para o banheiro. Sabia que havia sido injusto com ele, e que se olhasse para trás, provavelmente veria meu irmão mais novo chorando. Mas era melhor do que lhe contar a verdade.

– Posso, pelo menos, saber nosso sobrenome? – Disse em voz baixa, fazendo-me parar à porta do banheiro. Virei o rosto em sua direção, aliviado em ver que parecia apenas chateado. – É Dawnson. – Respondi, vendo sua cara de surpresa se formar nos próximos

segundos. – Assim, com n, é. Também estranhei no começo, mas depois

...

Jake

Dawnson. Não é legal? – Soa como um idiota para mim. – Brincou, com um provável fundo de verdade, ao pegar sua mochila e fazer menção de deixar o quarto. – E ah, não se esqueça, o café começa em dez minutos. Ainda tem que acordar a bela adormecida ali.

Desviei meu olhar para a cama de cima do beliche, enquanto Jason saía, e observei meu companheiro de quarto babar no travesseiro por alguns segundos.

Seu nome era Benjamin. Mais geek que eu e meu irmão juntos, e tão estúpido quanto, devo acrescentar. Costumava sonhar sobre ser um jedi, dormir de samba- canção estampado com super-heróis e se perguntar “O que o Goku faria em meu lugar?” sempre que tinha que fazer uma escolha difícil em um RPG. Acho que dá para perceber por que éramos melhores amigos.

Após um banho rápido e umas vinte tentativas de tirar Ben da cama, deixei escapar que o café já deveria estar pronto e, antes que pudesse piscar os olhos, estava sendo puxado para o refeitório do orfanato.

Assim que sentamos, senti os olhares debochados de Mike Thinwell e sua gangue de psicopatas sobre mim. Nosso orfanato era conhecido por abrigar as crianças que ninguém queria. Mesmo. As que já tinham problemas na justiça e os mais variados distúrbios mentais, mas nenhuma verba para cuidar delas. Era como uma grande pilha de lixo humano que não seria reaproveitado para nada. Apenas ficava lá, apodrecendo, enquanto as autoridades esperavam que se degradassem e dessem lugar para mais lixo. Mike Thinwell estava no topo da pirâmide social dessa pilha, da qual eu não estava nem um pouco interessado em fazer parte. Mas fazia.

Poucos minutos depois, iniciou-se mais um Campeonato de Cuspe a Distância. O alvo da vez era o meu prato. Thinwell e seu bando riam a cada vez que erravam minha bandeja e acertavam as costas de meu amigo. Fechei os punhos com força, socando-lhes com os olhos. – Tá tudo bem, Jake. – Ben tentou me acalmar, abaixando o tronco para se tornar um alvo mais difícil. – Vamos logo para a aula, Sr. Hoth vai nos matar se– Ele não chegou a terminar. No próximo segundo, senti algo gosmento atingir minha bochecha direita e trinquei os dentes.

Antes que pudesse me dar por conta, estava andando a passos largos em direção a mesa de Mike, com a bandeja em mãos e um olhar um tanto assassino no rosto. Larguei a bandeja em sua mesa e me apoiei nela com os punhos pesando como pedras. – Não acha que está meio velho para cuspir nas pessoas, Mike? O garoto loiro sorriu como se tivesse ouvido um elogio. Arregaçou as mangas do uniforme e jogou a bandeja em minha direção antes de dizer no mesmo tom. – Não acha que está meio velho para molhar as calças antes de uma briga, Jake? Minha roupa acabara de ficar ensopada e suja, eu tinha definitivamente perdido a pose, mas não me sentia abalado de forma alguma. Pulei sobre a mesa, agarrando- lhe pelo colarinho e antes que pudesse lhe desferir um soco, senti dois pares de mãos me puxando para longe. Os capangas de Mike me agarraram, torcendo meus braços para trás antes que pudesse dizer qualquer coisa. Deixei um rugido de raiva escapar e o garoto riu mais uma vez. – Acerte-o, Mike! – Disse o primeiro. – É, mate-o! – O outro completou, pisando em meu pé para me desarmar mais ainda. O valentão chegou a se levantar, mas antes que pudesse deixar seus seguidores contentes, o sinal para o começo da primeira aula soou. Sorriu, dessa vez, um tanto nervoso. Sr. Hoth não tolerava atrasos. – Ah, você é tão sortudo. – Disse, colocando sua mochila nas costas e se aproximando para me dar um soco na barriga, antes de sussurrar no meu ouvido. – Parece que nos veremos no ringue.

Caí ao chão, tossindo de dor, assim que seus comparsas me soltaram. Observei-os deixarem o refeitório junto aos outros garotos, que antes olhavam curiosos para a cena, mas ninguém parecia disposto a me ajudar. Ninguém, além de Ben. – Cara! Por que fez isso? – Ele colocou a mão em meu ombro, ajudando-me a levantar. – Já não é suficiente apanhar dele nos treinos de boxe? – Não é a luta que importa, Ben. É o motivo para lutar. – Tentei sorrir em

agradecimento a sua ajuda, vendo-lhe retribuir ao ouvir o clichê. – Estou só

cansado de valentões. Sr. Hoth, Mike, os garotos ricos da NDHS

Tão

... São só o começo.

... Só vai ficar pior, lá fora. Ninguém acredita que podemos ser inteligentes ou talentosos. Se não lutarmos, então seremos apenas insetos para eles esmagarem.

– Ah, ótimo, você voltou a ler biografias fictícias do Rocky Balboa

– Brincou,

... tentando disfarçar o olhar triste que dizia “Eu sei que está certo”. O segundo toque

soou como

a prova de que nada faria a diferença e Ben me entregou minha mochila. – Vamos logo, antes que o maior valentão desse lugar nos corte em pedacinhos.

Passei a mochila por um dos ombros, e observei uma das Irmãs mexicanas do orfanato resmungar algo em sua língua natal, abaixando-se sobre a bandeja jogada ao chão. – Espere um minuto. – Acompanhei-a, juntando o prato e os talheres para lhe ajudar. Ouvi Ben suspirar em descrença. – Por mais que eu odeie seu lado durão – começou, abaixando-se ao meu lado – também odeio seu lado humanitário. – Não vejo por que é meu amigo, então. – Sorri, entregando o que havia juntado para a Irmã. – Alguém precisa te levantar depois das brigas e acreditar nas suas causas perdidas. Por que não um perdedor como eu? – Brincou, levantando-se logo em seguida. Fiz o mesmo, tentando não me desesperar ao ver o refeitório deserto ao nosso redor. – Hey, chicos! – A Irmã nos chamou, agradecida. – Gracias. Ahora irse, irse! E pelo pouco que eu entendia da língua, acreditei que ela estava dizendo para nos apressarmos. Assenti e puxei Ben para que começássemos a correr.

No momento em que atravessamos a porta, Sr. Hoth fechou o livro Biologia Para Leigos em suas mãos, lançando-me um olhar por trás dos óculos quadrados. Aquele costumeiro olhar de reprovação que ninguém fazia melhor do que ele. – Senhores, posso saber o que faziam fora da sala de aula? Ben começou a gaguejar, lançando olhares que pareciam implorar de joelhos a Sr. Hoth para não ser engolido vivo, até que eu o interrompi. – Estávamos ajudando as Irmãs a limparem o refeitório – disse simplesmente, até ouvir risadas debochadas no canto da sala. Mike Thinwell contava aos outros garotos sobre o que realmente aconteceu no refeitório naquela manhã.

– Ah, então imagino que não se importarão de limpar as salas de aula à tarde, também. Estou certo? – Sr. Hoth começou com seu sarcasmo de sempre, buscando o caderninho preto em sua mesa. – Voltando ao que realmente importa, esta é,

deixe-me ver

A quarta

que os senhores se atrasam

minha

aula.

... Desejam constatar mais alguma coisa antes que eu marque a detenção para sábado às quinze horas? – Não, não desejamos – senti meu sangue ferver, precisando controlar minha vontade de lhe constatar uns bons xingamentos, ou simplesmente completar a frase com “não desejamos fazer nada além de socar sua cara”.

vez

para

a

Ben assentiu nervoso, antes de se sentar à minha frente, completamente envergonhado. Fiz o mesmo, praticamente me mordendo para não chutar as mesas, ao perceber que sábado aconteceria mais uma viagem de campo em que eu estaria detido no Orfanato. Eu seria um completo tapado se não percebesse que Hoth fazia aquilo de propósito, como se fosse divertido me ver preso no final de semana, limpando carteiras, enquanto ele toma relaxantes canecas de chá e meus colegas se divertem na praia. Desligando-me completamente da aula que acontecia à minha frente, comecei a remoer todos esses últimos acontecimentos enquanto batia os dedos impacientemente na mesa.

Era sempre assim. Por que eu não me acostumava logo? Enquanto todos visitavam a escola vizinha, New Dorp High School, lá estava o Jake preparando a cova de uma pomba nos fundos do Orfanato. Tudo por ter jogado uma pedra na maldita ave, que infelizmente fazia parte da revoada de pombos correios que o nosso zelador administrava. Será que eles acreditariam em mim se eu os contasse por que fiz aquilo? Se lhes dissesse o quanto me assustei quando a pomba começou a falar comigo? É, isso aí, eu sei o que está pensando: você deveria procurar um psicólogo, aves não costumam falar. É, é, eu sei ... E ninguém pára para pensar que, talvez, só não tenha tentado ouvir. Que também, talvez, haja algo além do que vemos, ou que estamos acostumados a ver. Naquele dia, eu provei isso. Mas quem acredita no Jake? Talvez nem eu mesmo. Talvez eu seja mesmo maluco. Talvez. E o que aconteceu a seguir só pareceu ser a prova disso.

– Solitários e agressivos, não é de se surpreender que vivam tão pouco. Por exemplo: olhem para o Jake por um momento, classe. – Sr. Hoth colocou as mãos nos bolsos, andando lentamente em minha direção, até se virar e voltar a caminhar para sua mesa. – Um ótimo exemplo do estilo de vida de um coiote, bem aqui, no meio da nossa sala de aula. Boa parte dos garotos gargalhou, fazendo-me despertar de meus pensamentos. Fechei os punhos sobre a mesa mais uma vez, olhando em volta. – O que disse, senhor? – Exigi, dissimulado, encarando o professor sem pudor algum. – Saberia se estivesse prestando atenção. Ouvi murmúrios de provocação vindos do fundo da sala e respondi em deboche. – Eu preferiria viver com coiotes a prestar atenção na sua aula. Sr. Hoth parou de andar, colocou uma mão sobre a outra e voltou-se para mim com uma expressão de superioridade. – Ah, faz sentido. – Começou, levantando uma das mãos, como fazia sempre que estava alterado. Era como se ele estivesse para me dar um tapa. – Seus pais te deixaram para viver como um, pois preferiram isso a te criar, certo? Mas, lá dentro, aquilo foi como um soco no estômago, pois uma parte de mim continuava a sussurrar que era verdade. É, eles estavam mortos. Mas nós tínhamos uma família, não? Tios, primos, avós? Onde eles estavam? – Responde essa, Coiote! – Mike exclamou do fundo da sala, batendo os braços na mesa como um babuíno, o que me fez fechar os punhos com mais força.

Sentindo meu coração bater mais rápido do que se é saudável, ouvi uma estrondosa trovoada e parei de me controlar. – Cala a boca, Mike! – Minha voz soou tão agressiva quanto o raio que acabara de iluminar os céus. Virei o rosto para garoto, que, por alguma razão (até hoje desconhecida), parecia estar cheio de medo. – Você quer que eu lute, é isso? Eu luto. Levantei-me, encarando Sr. Hoth, que havia abaixado a mão e a repousado ao lado do bolso. Como se fosse premeditado, mais dois trovões ribombaram aos céus. E com minha vontade de socá-lo prestes a transbordar, ironicamente ou não, choveu.

Uma das minhas certezas naquele momento – além de que eu havia ficado bizarra e instantaneamente mais calmo –, era que aquela não era uma chuva qualquer. Uma verdadeira tempestade de verão, com ventos fortes, raios poderosos e água em abundância havia se formado em menos de três segundos. De repente, todos se esqueceram da discussão que estava acontecendo e se viraram para as grandes janelas retangulares da sala de aula. Minha primeira impressão foi que estávamos dentro de um episódio daquelas séries de TV que falam sobre alienígenas e desastres naturais. A única coisa que faltava era um meteoro cruzar os céus e cair bem em cima do Sr. Hoth, fazendo todos pularem de alegria. O que – muito óbvia e infelizmente – não aconteceu.

fora, uns

garotos – provavelmente na

aula

de

Educação Física – corriam

estabanados para o hall do Orfanato, como se suas vidas dependessem daquilo. E talvez até dependessem. Avistei Sr. Jackson, meu professor de boxe, ao lado das vigas cinza da entrada, ajudando-os a entrar enquanto lutava contra o vento para que a sacola cheia de bolas em sua mão não saísse voando como a tia gorda do Harry Potter.

Sr. Hoth ainda me encarava. Se eu não soubesse que ele estava prestes a levar um soco, diria até que ele estava feliz. Não, não, esqueça a palavra feliz: ele parecia realmente surpreso. Sua boca estava aberta, e suas sobrancelhas, mais acima do que deveriam. Os outros alunos ficaram eufóricos, como se o vento vindo do norte lhes proporcionasse o mesmo que o gás do riso. Novamente, talvez fosse isso mesmo. E eu não conseguia pensar nada além de “pelo menos eles pararam de rir de mim”, tentando fazer meu coração voltar a bater como era regular.

O professor se recompôs e começou a gaguejar algo. Eu esperava por qualquer coisa, menos o que ele disse a seguir. – Classe dispensada. Anotem a tarefa no quadro e sumam daqui. É claro que eu já esperava o “Jake, você fica.” que talvez você também esperasse ouvir. Mas não, ele nem sequer olhou mais para mim. Sentou em sua mesa, ajeitou

os óculos quadrados, tirou seu velho estilete amarelo do bolso – para, como eu previra, abri-lo e fechá-lo rapidamente, em um tique nervoso - e ficou olhando para o vazio.

Antes que eu pudesse respirar, Ben me puxou – juntamente com todas as minhas coisas – para fora da sala. – Você. Está. Louco?! – Seu rosto estava vermelho, e sua voz, esganiçada. Permiti- me dar um leve sorriso, apesar de toda minha confusão e perplexidade. – Completamente. – Tem noção do que fez? – Ele continuou alterado. – Quantas detenções acha que vai receber agora? E Mike? Não falta muito para ele tentar te matar ... – Você deveria ter visto a cara dele. – Comecei a falar, com minha cabeça em um turbilhão de pensamentos. – Era como se, sei lá, ele estivesse com medo de mim. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com aquela tempestade. A ideia pareceu perturbar meu amigo mais do que eu achei que aconteceria. – Ou talvez Thinwell só tenha medo de trovões mesmo – e Ben coçou o queixo, enquanto eu dava de ombros. – Posso usar isso contra ele quando vier me matar, então – retruquei, andando a passos largos para ultrapassá-lo e ter, finalmente, um tempo sozinho. Longe dos outros coiotes.

...

Jab. Direto. Cruzado. Cruzado. Jab. Gancho. Afastei-me do saco de areia e limpei o suor da testa com as costas do braço. Repeti a sequência. A cada golpe, uma lembrança diferente daquela manhã vinha a minha mente. Jason me confrontando. A briga no refeitório. As palavras de Hoth. E a tempestade.

Após adicionar um uppercut de direita a sequência, mentalizando a cara de Mike no saco de pancadas, o mesmo rasgou – jorrando areia para todos os lados. Urrei de raiva. – Por que eu sempre estrago tudo?! – Arranquei as luvas das mãos, atirando-as no chão e me virei para encarar o espelho do salão de treinos.

O que eu via? Um coiote. De dentes trincados, em posição de combate e olhar assassino. Meus olhos azuis elétricos chocavam-se contra a negritude do cabelo curto, encharcado pelo suor, que caía displicente sobre a testa e contrastava com a pele branca. Bufava pelas narinas como um animal de focinho longo e comprimia os lábios finos para não arfar ruidosamente ou, até mesmo, gritar como o monstro que era. Um monstro que destruía tudo com que se importava. Mas que se importava. Bastante, até.

– Sabe o que eu vejo? – Uma voz conhecida, porém abafada, deu lugar a figura de Sr. Jackson, que saía das sombras do cômodo para despendurar o saco de areia, encarando minha imagem no espelho. Continuou, como se pudesse ler a minha mente. – Um garoto. Que está perdido, confuso, mas, principalmente, muito assustado. Ele não tem um lar, nem uma identidade. Ele mal se conhece. Ainda assim, tem que cuidar e proteger um irmão mais novo. Encarar valentões. Encarar a si mesmo. E há algo mais assustador do que isso?

– E-eu

Eu sinto muito, professor, eu não pretendia–

... – Eu sei. Tá tudo bem, Jake. Acalme-se. – Sua voz era como eu imaginava que a

voz de meu pai fosse. Mansa e acolhedora. Assim ele era, paciente e sábio. Mesmo com seus prováveis, no máximo, quarenta anos. Seu rosto era marcado por sorrisos constantes e um brilho inexplicavelmente acolhedor em seus olhos verdes como o mar. O tempo e as lições eram infinitas quando estávamos naquele salão. Pelo menos, até que Mike chegasse. Eu era seu sparring, ou seja, seu saco de pancadas. E, a partir daí, invisível. – Eu também ficaria assustado se tivesse uma de direita tão forte quanto a sua. Desviei o rosto do espelho, envergonhado, e sussurrei um agradecimento, tentando sorrir de leve.

O que eu não entendia, entretanto, era por que Sr. Jackson não me levava aos campeonatos regionais, já que dizia acreditar tanto em mim. Mike e os outros pesos leves rodavam a costa leste nos torneios, enquanto eu ficava naquele salão escuro. Treinando, mais, e mais. Ele dizia que eu era diferente, portanto, merecia um tratamento diferenciado. Depois de descobrir o que estava naqueles arquivos, eu comecei a entendê-lo. Talvez o isolamento fosse a única solução para a minha ... Diferenciação.

– Baita tempestade, hein? – Comentou, varrendo a areia do chão, enquanto eu buscava minha toalha e garrafa com água. – Você está falando da que teve lá fora ou aqui dentro do Orfanato? – Brinquei, na intenção de lhe contar o que acontecera na aula de Hoth àquela manhã. Por alguma razão, nós parecíamos compartilhar o descontentamento com o professor. E a matéria.

Sr. Jackson deu uma risada alta. – Das duas, na verdade. – Mas, de repente, ficou sério. – O que ele disse que te irritou tanto, afinal? Hesitei por alguns segundos. Pelo jeito, ele já sabia. Na sala dos professores há mais fofoca do que qualquer outra coisa. Encostei-me no balcão que guardava os materiais de Educação Física da escola e encarei minhas próprias mãos.

– Ele disse que meus pais me deixaram aqui porque

– Funguei, passando uma das

... mãos pelo cabelo e a repousando na nuca. – Eles não me queriam. – Você sabe que isso não é verdade. – Respondeu rapidamente, juntando toda a areia do chão em um canto e guardando a vassoura para se sentar ao meu lado. –

Houve um incêndio na sua casa. Eles não sobreviveram. – Mas eu, um menino de seis anos, sim? E Jason, ele era apenas um bebê! Só

...

Não

faz sentido, entende? Algo

Algo está muito, muito errado.

... – Sei. E foi por isso que você teve que ir descobrir a verdade por si só, certo?

Tirei a mão da nuca em câmera lenta, sem entender o que ele quis dizer com aquilo. Até que me ocorreu: ele sabia. Ele sempre sabia. – C-como, como sabe disso? Sr. Jackson suspirou, cruzando os braços, como se estivesse desejando que aquilo não fosse verdade. – Eu fui a sala da Irmã Audrey essa manhã, pegar os seus arquivos para inscrevê-lo

no regional,

Eu não encontrei nada.

Logo depois,

ouvi as novidades.

Ele

... balançou a cabeça como se pensasse. – Não foi tão difícil adivinhar. Voltei a encarar o chão. – Você vai me reportar para a direção? – E perder meu melhor boxeador? Não, senhor! – Riu secamente, batendo de leve nas minhas costas. – Soube que eles iam checar arquivo por arquivo, então ... Digamos que eu te ressuscitei. – Eu não sei como agradecer, professor. – Levantei o rosto para encará-lo. – O senhor é como um pai para mim. Ele abriu a boca umas duas vezes, sem conseguir dizer coisa alguma. Então respondeu, ignorando o que eu acabara de dizer. – Apenas ganhe aquele maldito torneio, ok? Assim estaremos quites. Bateu mais uma vez nas minhas costas e se levantou para voltar a limpar a minha bagunça.

e

– Posso te fazer uma pergunta? – Claro, desde que eu possa fazer o mesmo. – Pegou a vassoura e fez menção de que eu continuasse. – Ahn, eu, só queria saber por que ... – Por que eu vou te colocar no torneio, certo? – Interrompeu-me, como se já esperasse por aquela pergunta. Assenti devagar. – Esse é o ultimo ano de Mike na competição. Achei que alguém deveria lhe tirar o título de tricampeão, só para animar as coisas. Quem melhor do que seu próprio sparring? – Uns vão, outros tomam seus lugares. – Respondi com a filosofia com a qual ele começava toda cerimônia de despedida de algum boxeador, quando o mesmo completava 18 anos e deixava o Orfanato. Assenti novamente. – Entendi. Agora, o que queria me perguntar? – Ah. Sim, sim. – Sr. Jackson me avaliou por alguns segundos, como se perguntasse a si mesmo se era seguro. Decidiu que sim. – Algo naqueles arquivos provocou tudo que aconteceu hoje. Se não for pedir demais, gostaria de saber o que foi. – Você não sabe? – Eu estava mesmo surpreso. – Não leu meus arquivos antes?

– Não as sessões com seu psiquiatra. Pensei que seria

Inadequado.

... Suspirei profundamente. Estava na hora de colocar aquilo para fora.

– Sabe, hoje de manhã, eu fui um completo imbecil. Jason descobriu que eu tinha

pegado os arquivos e eu

Joguei na cara dele que, já que ele não se lembrava de

... nada, era melhor que continuasse assim. Mas a verdade? A verdade é que eu também não lembro. – Fechei os punhos sobre o balcão e voltei a encarar o espelho. – Por alguma razão, o que aconteceu há dez anos, foi totalmente bloqueado da minha mente. Eu convivo com pesadelos sobre aquela noite, perguntas sobre meus pais e dúvidas sobre tudo, tudo mesmo. Achei que não saber fosse algum tipo de

punição. Acabou sendo um presente, uma proteção, e eu estraguei isso também. Destruí minha família e, agora, destruí a mim mesmo. – O que você quer dizer com “destruí minha família”? – Sr. Jackson juntou as

sobrancelhas como se estivesse realmente assustado. – É minha culpa, professor. – Deixei as lágrimas que teimavam em cair fazerem seu percurso ao longo do meu rosto. – O meu eu de sete anos gritava e esperneava sobre como era tudo culpa dele. O psiquiatra escreveu notas sobre como eu estava delirando. Paranóico, ele disse. Mas eu sei que era verdade. Eu incendiei a casa. Meus pais estão mortos, e é minha culpa. Talvez seja por isso que eu bloqueei tudo.

Alguma parte de mim

...

Eu

...

Eu não sei.

Solucei e chorei mais. E mais. Sr. Jackson continuava paralisado, balbuciando algo mimicamente.

– Isso é impossível, Jake. – Aproximou-se de mim, arriscando tocar em meu ombro. – O incêndio foi causado por um raio. Não há como você ser o culpado. Foi um acidente. Seu eu de sete anos foi uma criança traumatizada. Perturbada com o fato de, em um segundo, ter tudo, e logo depois, mais nada. Se você realmente acredita ter alguma parcela de culpa nisso tudo, então, me desculpe - mas talvez deva voltar a se consultar com o psiquiatra do Orfanato. Suas palavras não me enfureceram, como ele deveria ter pensado. Eu estava lúcido. Não louco. Mas também, realmente acreditava que havia sido minha culpa. Talvez,

eu não fosse maluco, apenas

Diferente, como ele mesmo disse tantas vezes. E

... aquela tempestade de hoje, só provasse isso.

Pássaros, tempestades. Cada vez ficava mais difícil de acreditar. Mas, novamente, quem acreditava em mim mesmo? A partir daquele momento, eu – infelizmente – acreditava. E tinha esperanças de que havia mais daquela história do que parecia haver a princípio. Respirei o mais fundo que pude e sequei as lágrimas do meu rosto.

– A primeira memória que eu tenho de vida foi nesse Orfanato. Eu devia ter quase oito anos. Andava pelo pátio, quando encontrei um pequeno rouxinol. Estava machucado, com uma das asas quebradas e chorando por sua mãe. Eu o acolhi, escondi-o em uma caixa no meu dormitório e lhe chamei de Robbie. Eu costumava fazer de conta que ele falava comigo. Às vezes ainda acho que realmente falava. Talvez seja isso. Bobeira de criança. – Menti para acalmá-lo. – Eu só fiquei muito assustado. Pássaros não falam. Pessoas não controlam tempestades. Pelo menos, não fora da tela da televisão e das páginas dos livros. Certo? Sr. Jackson assentiu devagar, balançando meu ombro como se estivesse convencido do que eu falara. – Fico feliz que esteja sendo sensato. – Levantou-se mais uma vez e retomou a vassoura em mãos, girando-a como um cajado. – E, por favor, pare de destruir a propriedade pública. Porque, convenhamos, é a única coisa que você realmente destrói.

Sorri para quebrar o clima pesado, desencostando-me do balcão e buscando meus pertences. Coloquei o relógio de volta no pulso e quase pulei de susto. – Ah, droga, preciso ir. Ela vai me matar se eu não aparecer. Sr. Jackson levantou uma das sobrancelhas em tom de brincadeira. – Ela? Você tem um encontro? Soquei minhas coisas dentro da mochila e joguei-a por cima do ombro. – Ahn, não exatamente. Só uma pessoa querida, que por acaso é uma garota, e está indo embora hoje. – De qualquer forma, acho que você deveria considerar tomar um banho. – Ele riu, notando meu nervosismo, e voltou a varrer. Corri para a porta, em direção aos vestiários. Eu precisava mesmo de um banho. – Ei, ei, espere! Quase esqueci ...

Coloquei a cabeça para dentro do salão com uma expressão de dúvida. – Agora que você vai para o regional, seria bom ter mais treinos extras. Hoje a noite, na área de treinamento do terraço, gostaria de te mostrar umas sequências novas. Que Mike desconhece. O que acha? Sorri verdadeiramente. – Acho ótimo! Que horas?

– Assim que o sol se pôr. E ah, não saia comentando enciumado, acredite.

...

Você não quer ver o Thinwell

Despedi-me dele e voltei a correr, com uma perspectiva um tanto melhor para aquele dia. Eu não poderia estar mais enganado.

...

Assim que atravessei as portas duplas do auditório da NDHS, os grandes olhos castanhos de Ivy brilharam em minha direção. Mas ela estava sozinha. Nada além de restos de comida e balões festivos lhe fazia companhia. – Estou na festa errada? – Disse, retribuindo o olhar, e andei em sua direção. – Jake! – Exclamou, sorridente, correndo para me abraçar. – Pensei que você tivesse– – Nunca vou te esquecer, garota. – Completei, abraçando-a como deveria ter feito todas as vezes em que tive a oportunidade. Como se fosse a ultima vez.

Ivy escondeu seu rosto em meu ombro e sussurrou um “obrigada por ter vindo” que fez meus braços amolecerem. Desfiz o abraço e ela ajeitou os cachos do cabelo castanho claro que antes estavam pressionados contra o meu rosto. Então sorriu, analisando-me dos pés a cabeça. – Que foi? – Questionei. – Tem algo no meu dente?

– Só

Entendi porque se atrasou tanto. – Apontou para minha roupa, sorrindo

... como se eu fosse um animal perdido no meio da estrada, essencialmente fofo. –

Jaqueta de couro, camiseta, sapato social

...

E

nada

nos

dentes!

Estou

impressionada. Isso é gel no seu cabelo? Inclinei-me para trás quando ela tentou encostar nele. – É água! – Quase soletrei, notando que ela também estava mais bonita, digo, arrumada do que de costume. – Acabei de sair do banho. O atraso foi culpa ... – Do acaso, eu sei. – Completou, familiarizada com as minhas desculpas. – Não que eu esteja triste. Agora tenho alguém para me ajudar a arrumar essa bagunça! Venha, hora de eliminar os vestígios da festa. E me puxou para o palco do auditório, fazendo-me rir com vontade, como sempre fazia.

Se minha primeira memória de vida girava entorno de Robbie, o rouxinol, não havia dúvidas que a segunda devia-se completamente a essa garota. Ivy Martinez. Conhecemo-nos quando, aos onze anos de idade, visitei a NDHS em um Natal – onde eu e os outros órfãos apresentamos um coro de Noite Feliz de encher os olhos. Fomos obrigados, obviamente, mas a professora de teatro da escola, Srta. Mackenzie, chorou três vezes durante a apresentação. E, depois dela, decidiu que daria aulas grátis para alguns de nós. Eu, que naquele tempo mudava a letra de Noite Feliz para algo muito mais interessante, fui um dos (in)felizes sorteados.

Por mais que eu odiasse o tipo de gente que frequentava aquela escola – aqui, leia- se, mimados e abastados –, descobri que o ambiente das aulas de teatro era o completo oposto. Lá, fazíamos nossos próprios cenários e figurinos, aguentávamos piadinhas de mau gosto e reinventávamos as histórias que representávamos, pois tínhamos uma verdadeira artista como nossa líder. Ela valorizava a criatividade, a espontaneidade e a adaptabilidade em seus alunos. Fez-me ver que o boxe, assim como a vida, não se trata apenas de uma luta. Há toda uma arte envolvendo o gingado com que se deve ultrapassar os obstáculos, escolher os momentos certos e correr riscos, tanto na arte marcial, quanto na vida em si. Uma musicalidade e uma dança escondida por trás de socos e sequências mortíferas. E, depois de algum tempo, o teatro e o boxe passaram a significar o mesmo para mim: vida. Preciso mesmo dizer quem abriu meus olhos para tudo isso? Enfim.

Alguns anos depois, vi-me representando o Homem de Lata em uma versão futurística de O Mágico de Oz, e chamando Ivy, a Dorothy, de minha melhor amiga. Desde então, via-lhe três dias por semana à tarde. E depois daquele dia, teria muita sorte se a visse mais três vezes durante a vida inteira. Seu pai, um imigrante porto- riquenho, havia conseguido uma grande chance de emprego em Nova Iorque. Aquela era sua festa de despedida do Clube de Teatro de New Dorp e, assim sendo, de mim.

Quando colocamos o último prato de plástico no lixo, eu estava tão absorto em memórias e pensamentos que poderia jurar que estávamos no fim de mais uma confraternização do Clube. E que haveria mais uma, e outra, e mais outra, para desfrutar. – Que foi? – Foi sua vez de questionar o meu olhar.

– Acho que, até agora, não tinha percebido o quanto vou sentir a sua falta. – Sentei-me na borda do palco e encarei os assentos vazios, sentindo-me da mesma forma. – Parece que foi ontem que você usava tranças duplas e eu uma armadura de latão. – Eu ainda uso tranças duplas, quando ninguém está vendo. – Confessou, sentando- se ao meu lado. – E, para ser bem sincera, acho que você nunca chegou a tirar aquela armadura. Bateu no meu ombro como se esperasse ouvir algum barulho metálico, o que me fez encarar meus pés e esboçar um sorriso envergonhado. – Isso é uma indireta para dizer que eu não tenho coração? – É uma indireta que diz “tudo bem dizer como se sente”, na verdade. Não precisa ficar vermelho. Eu também vou sentir sua falta. – Ivy deu um beijo na minha bochecha e se levantou, buscando sua bolsa em um dos assentos da primeira fila do auditório. Já passara uma hora desde que eu havia chegado e o pôr-do-sol começava a se formar lá fora. – Só espero que isso não seja um adeus. – Não é. – Exclamei, cheio de certeza, levantando-me para acompanhá-la. – Verei suas tranças duplas novamente. Quer você queira, ou não. Ivy sorriu como se aquilo fosse exatamente o que ela queria ouvir.

Nunca houve nada romântico entre nós, mas, em momentos como aqueles, eu me sentia um tanto possessivo em relação a ela. Como se a garota que eu vi crescer nos últimos cinco anos fosse, não só minha melhor amiga, mas parte da minha família. Como uma irmã mais velha, ao longo dos anos, ela me mostrou mais sobre mim mesmo do que qualquer arquivo jamais poderia. E, ao deixar aquele auditório vazio para trás pela ultima vez, com esse pensamento, eu me senti um pouco mais completo. Ivy estava se mudando, mas permaneceria comigo, em um pequeno espaço – antes vazio – na minha armadura de latão.

...

Enquanto fazia o percurso da New Dorp High School ao Orfanato, comecei a me perguntar por quantas vezes ainda andaria por aquelas ruas, sozinho, até que tivesse que deixar o Orfanato para trás. E não fazê-lo nunca mais. Meu sentimento agridoce foi interrompido por um uivo falso, vindo do alto de uma árvore, no pátio de entrada do Orfanato. E por outro. E mais outro. O anteriormente apresentado, Mike Thinwell – um troglodita loiro, de ombros largos e feições psicóticas –, estava sentado em um tronco baixo, posicionando as mãos a frente do rosto para abafar o barulho.

A lua cheia já podia ser vista no céu àquele início de noite, junto às poucas estrelas e muitas nuvens a cobri-las. Lembrei-me do treino extra que havia combinado com o Sr. Jackson e decidi ignorar Mike completamente. Voltei a andar, em direção as portas de entrada do Orfanato. – Onde pensa que está indo? – Ouvi um baque surdo e, ao me virar, observei que o garoto havia pulado da árvore e andava em minha direção. Como se eu o devesse alguma coisa. – Indo ficar o mais longe possível de você. – Respondi, enojado, e me virei novamente. – Oh, por favor! – Disse, em um tom sarcástico, segurando meu ombro para que eu o encarasse. – Pelos bons e velhos tempos, cara. – Não há. Nenhum. Bons ou velhos tempos. – Repliquei pausadamente e bati em seu braço, afastando-o de mim. – E, cara, por favor! Tira as mãos de mim.

Mike sorriu abertamente, de um jeito maluco que só ele fazia, e juntou as mãos a frente do rosto, como se estivesse surpreso.

– Sabe, você diz isso, mas tudo que eu vejo é você

– E apontou com as duas

... mãos para mim. – Usando aquela jaqueta que eu roubei para você há três anos.

Então, eu acho que já está na hora de devolver o favor.

Ele fechou os punhos com força e voltou a se aproximar lentamente. Afastei-me no mesmo ritmo.

– Não vou lutar com você, Mike. – Pus as mãos à frente do meu corpo, como se

estivesse montando uma guarda, mas tudo que eu realmente queria

Era correr.

... – Que foi, o teatro te deixou desmunhecado? – Rosnou, deferindo um jab de esquerda na minha direção. Desviei-me para o outro lado, respondendo com um

gancho de direita, por instinto, e lhe fazendo cair para trás, de bunda no chão. Abri meu punho devagar, como se não soubesse como o controlar direito, com certo receio de que fosse me socar também. Um pequeno pingo de chuva caiu sobre a palma de minha mão. Outro, em meu cabelo, e mais alguns, nas costas da jaqueta de couro que havia causado tudo aquilo. De repente, estava chuviscando. E eu senti que o comportamento de Mike àquela manhã viria a se repetir.

– Desculpe-me. Mas o teatro me fez um homem. – Respondi confiante, assim que recuperei o ar para conseguir falar. E me mover. Tirei a jaqueta de couro, um tanto agitado, e encarei Mike uma ultima vez. Seu lábio estava sangrando e ele não parecia nada com o garoto irresponsável e arrogante que um dia eu conhecera. Virara amigo. Desapontara-me. E o resto da história, bem, vocês podem imaginar. O garoto que eu via ali estava assustado. Envergonhado, também. Mas muito, muito assustado. E ele me lembrava eu mesmo. De um jeito ainda mais assustador. – E você, seu porco, apenas agradeça que os outros caras dos velhos tempos não estão aqui para ver essa adorável peça. Acho que esta é a hora em que as cortinas se fecham. Joguei a jaqueta sobre seu rosto e, ainda desejando correr, calmamente voltei a andar em direção ao Orfanato.

...

Apoiei-me nas grades metálicas do terraço. O uivar dos ventos de tempestade eram um presságio de que, assim como os uivos falsos de Mike, algo mais viria a me confrontar naquele dia. A linda, porém desastrosa, melodia daquela tempestade foi interrompida pelo som de passos apressados, subindo as escadarias do Orfanato e abrindo a mesma porta de emergência que eu abrira há alguns minutos. A chuva fina caía sobre o terraço do Orfanato e, às sombras desta única parte coberta da construção, a figura – não de Sr. Jackson, mas – do meu irmão se fez presente. – Ei, aí está você! – Jason sorriu levemente, vindo em minha direção. Encarei-o cheio de dúvidas.

– O que está fazendo aqui? – Puxei seu capuz para que cobrisse sua cabeça, agora que ele saíra das sombras, e continuei. – Não deveria estar no dormitório? – Acabei de me encontrar com o Sr. Jackson no corredor. Ele me disse para te procurar aqui e avisar que não poderá comparecer. – Ele devolveu o olhar interrogativo, passando a manga da jaqueta pelas lentes dos óculos de leitura, para limpá-las. – Ele parecia bastante assustado. Tem alguma ideia do que aconteceu?

– Eu

Não. Combinamos um treino extra aqui no terraço. Deve ter desistido por

... causa da chuva. Ele disse mais alguma coisa?

Tentei disfarçar meu descontentamento, mas não acredito que tenha conseguido.

– Só

...

Me fez prometer que estaríamos juntos. tudo bem?

Uma gargalhada alta e fria cortou o som constante dos pingos de água que caiam do telhado. Quando me virei para encarar a sua fonte, avisei Sr. Jackson – que se debulhava em risos – encostado a porta da escadaria de emergência do Orfanato. Ao perceber que havíamos notado sua presença, ele exclamou, em tom de deboche. – Ah, desculpem-me. Sua inocência terráquea é incrivelmente hilária. – Passou a mão pelo cavanhaque negro, que lhe rondava os lábios e o queixo proeminente, dando um último sorriso. – Mas, por favor, não se acanhem. Continuem.

Dei uma risada falsa, sem entender o que estava se passando na mente do meu professor. – Ham, isso é algum tipo de teste? – A pergunta o fez voltar a gargalhar. – Ou talvez uma brincadeira? – Nenhum teste, nem brincadeira. – Sr. Jackson começou a andar em nossa direção, negando com a cabeça as duas suposições. E, a medida que o fazia, a intensidade da chuva se agravava instantaneamente. – Esse momento, meninos, é o amanhecer de uma nova era. Nessa noite escura, daremos início a uma história ainda mais sombria. Escrita pelo lendário e próprio Contador de Histórias! Sua morte vai ser apenas o estopim dessa grande guerra. E, se me permitem, gostaria de ser o seu executor.

Quando parou de andar, trovoou. Seus olhos cintilaram de um jeito macabro, e eu

poderia jurar que estavam vermelhos como

sangue. Os

cabelos negros, que

esvoaçavam com o vento, lentamente dobravam em comprimento, até se

transformarem em uma juba amarelada, como a de um leão. Suas mãos viraram garras. Seus dentes, presas. Ele não era mais humano. De suas costas brotaram asas enormes como as de um dragão. E, levantando-se como um mero rabo atrás do monstro que nos encarava, havia um ferrão do tamanho de uma cabeça, prestes a nos atacar. Pisquei os olhos várias vezes, perguntando-me se não deveria correr até a ala psiquiátrica e me internar, mas meus pés se recusaram a me obedecer.

Rugindo como se estivesse aplicando nossa sentença de morte, ele o fez. – Mas o quê?! Jason, corra! – Empurrei-o para longe, partindo para cima do sei lá o quê que costumava ser meu professor, após desviar de seu ferrão. Minha garganta, que até aquele momento estava seca e travada, deixou um grito de pavor sair, junto a um pedido desesperado – porém silencioso – de que aquilo fosse mais um pesadelo e o dia não tivesse ao menos começado. Meu pedido não foi atendido e, como um peso morto, vi-me sendo atirado para longe, contra as grades do terraço e de cara no chão. Assim que encontrei forças para levantar meu tronco, observei Jason ser agarrado e levantado pela fera, enquanto gritava por ajuda. Gritava meu nome.

Segurei-me a uma

das

barras de

metal das grades

e, aplicando

uma força

descomunal na mesma, senti seus parafusos frouxos vacilarem. Puxei-a com as duas mãos, quase caindo para trás quando a desprendi do chão, e corri na direção do monstro.

Atirei a grade na altura de seu ferrão que, ao tentar atacar meu irmão, ficou preso pelas barras. O metal atingiu Jason na cabeça e fez a criatura o soltar, escorregando pelo chão molhado do terraço, e tentando se livrar das grades. Quando finalmente conseguiu, o que um dia foi meu professor favorito, se virou em minha direção e rugiu com o ódio mais bruto e selvagem que poderia existir. Seja lá o que ele fosse, não era humano, mas era real. Agarrou-me da mesma forma com que havia agarrado Jason. Tentei socá-lo, inúmeras vezes, debatendo-me contra o aperto de suas garras – mas nada era forte ou esperto o suficiente. – O que você é? – Deixei a pergunta escapar, em um fio de voz, ao encarar seus olhos felinos e ausentes de consciência. Sua resposta? Um rugido que dizia um perfeito “Você não quer saber.”, arrepiando até o ultimo fio de cabelo do meu corpo e condenando a minha mente a um labirinto de dúvidas e suposições do qual eu nunca mais sairia.

Então, aconteceu. A razão pela qual eu estou aqui hoje lhe contando essa historia. Como uma linda melodia – dessa vez, por si só – o som de passos apressados preencheu o vazio que se estabelecera após o ultimo trovão. A fera tirou seus olhos de mim e os pousou em algo que estava atrás. Alguém, para ser mais exato. Formou o que parecia ser uma cara de terror e desapareceu em sombras no instante seguinte, derrubando-me no chão mais uma vez. E deixando nada além da minha sanidade para trás.

Rastejei de encontro a Jason, que estava desacordado, sem coragem de olhar seja

lá o quê que estivesse atrás de mim, amedrontado que fosse algo

Pior. Tomei-o

... em meus braços e levantei a grade despedaçada a frente de nós dois como um escudo, fechando os olhos e exclamando o seguinte. – Deixe-nos em paz! – É o que eu vou fazer assim que largar esse pedaço estúpido de metal, rapaz. – A voz conhecida e arrastada me fez abrir os olhos em um pulo, sentindo-os lacrimejar logo em seguida. – Vai ter tempo o suficiente para surtar com tudo isso depois, não se preocupe. Mas agora, precisamos partir. Então por que não levanta esse traseiro sujo daí e me agradece logo? – Sr. Hoth, eu – Tentei formar uma frase coerente para respondê-lo, mas a situação não era nem um pouco coerente para que merecesse isso de mim. Levantei-me como ele pediu, porém, sem soltar a grade que havia salvado a vida de meu irmão. A pessoa adulta em que eu mais confiava naquele lugar havia se transformado em um monstro inominável e, até aquele momento, inimaginável. E então a pessoa adulta que eu mais odiava naquele mesmo lugar aparecia para me salvar, fazendo um monstro daqueles fugir com um simples olhar. Eu queria jogar as grades nele e correr. Esconder-me debaixo da minha cama e só sair de lá quando eu acordasse e percebesse que era tudo um sonho. Não havia por que confiar em qualquer pessoa que fosse, depois daquele momento, mas algo me prendeu àquele terraço como a gravidade nos prendia na Terra. – Obrigado, eu acho.

– Não há de quê. Eu acho. – Respondeu em tom de deboche, abaixando-se para pegar Jason. Apressei-me para ajudá-lo, soltando a grade em um canto qualquer. – Sei que tem perguntas. Que está assustado. Mas eu tenho perguntas também. E,

desculpe-me ser sincero, mas ligo mais para as minhas dúvidas do que para as suas. Então porque você não me conta o que aconteceu aqui, na sua perspectiva, e eu te conto tudo que sei em seguida? – Ah. Tudo bem. – Suspirei, carregando meu irmão em direção a escadaria, sentindo minhas pernas tremerem em nervosismo. – Primeiro, Jason me avisou que o Sr. Jackson não poderia comparecer ao nosso treino. Disse que ele estava assustado, também. Mas segundos depois, lá estava ele, rindo como se tivesse pregado uma peça em nós ou bebido umas. Disse algo sobre uma grande guerra. Um tal de

Contador de Histórias e

naquela...

Bem, disse que ia nos matar. Começou a se transformar

... Coisa, e eu comecei a acreditar que havia ficado maluco. Mas ai eu olhei

para o meu irmão. E ele, o senhor sensato, estava vendo o mesmo que eu. Passei o

dia me remoendo entre duas possibilidades: ou eu pertenço a um hospício, ou

...

Eu

não pertenço nem mesmo à esse planeta. Agora, por favor, só me diga para onde estamos indo. – Nos encontraremos com Benjamin. Ele está com as suas coisas. – Respondeu rapidamente, como se não tivesse um pingo de dúvida sobre tudo que eu lhe falara. Como se eu não fosse completamente louco e aquilo realmente não fosse um sonho. – Isso é loucura. Ben? O que ele tem a ver com tudo isso? – É meu assistente. Mantê-los seguros não tem sido nada fácil, sabe. Eu reclamo, e o que me mandam? Um garoto! Ah, e não me olhe desse jeito. Você realmente

achou que ele era seu amigo? – Deu uma risada seca, na qual eu preferi não acreditar. Defendi Ben dos abusos de Mike assim que chegou ao Orfanato e, no dia em que o fiz, criei uma inimizade com o garoto loiro que permanecia a mesma até

hoje. – Mas enfim, depois de uma boa caminhada Longe desses malditos metamorfos.

...

Vamos a um lugar seguro.

Metamorfos? O que

Ah, céus. Isso

Isso é sério, não é? Então eu

Eu estava

... certo. As tempestades, pássaros falando comigo

...

... Tudo aquilo. – Raciocinei em voz

... baixa, encarando o chão do Orfanato em que pisava. – O que isso significa? Quer

dizer, o que eu sou? – Você é o mesmo que eu. Um mestiço. – Respondeu, encarando-me com uma expressão que se assemelhava a pena, e abriu a porta que nos direcionaria aos

dormitórios do Orfanato. – Metade terráqueo, metade

...

Algo a mais. Explicarei em

detalhes quando estivermos em segurança. É uma história longa e nem um pouco engraçada.

Terráqueos...

– Lembrei-me do que a fera disse sobre nossa ingenuidade. – O que

vocês querem dizer com isso? Até parece que não são ...

– Quero dizer que seu DNA é híbrido. Metade pertence a um homo sapiens sapiens,

terráqueo, enquanto a outra metade

Bem, é complicado. O incêndio em sua casa

... e todos os fatores inexplicáveis que o rodeiam, está tudo conectado. Você não está louco, Jake, nem sonhando. Mas de uma coisa estava certo: não pertence a esse planeta. – Eu estava certo. – Repeti em um fio de voz, atravessando aqueles corredores pela ultima vez, com Jason em meus braços, sentindo-me um ser completamente etéreo e alheio a tudo que havia ao meu redor. – Eu sou diferente. – Você é mais esperto do que pensam. Do que você mesmo pensa, aliás. – Parou- me por um segundo, antes de abrir a porta do meu dormitório. – Mas não pense, por um segundo sequer, que isso é algo bom. Você é muito mais diferente do que jamais desejaria ser. Estamos entendidos? – Entendidos. – Praticamente murmurei, ao vê-lo abrir a porta do meu dormitório, tentando não pensar no que aquilo significava. – Você tem cinco minutos para organizar a sua vida inteira em uma mochila. – Sr. Hoth se encostou à parede do corredor, ajeitando Jason em seus braços de maneira bastante impaciente. – esperando o quê? Nosso amigo lá do terraço voltar? Balancei a cabeça, querendo me livrar daquela imagem mental, e obriguei minhas pernas a voltarem a funcionar.

...

Horas se passaram. A noite ficava cada vez mais escura, e o silêncio da floresta estava próximo de me sufocar. Armamos uma fogueira simples em uma clareira, sentamo-nos em troncos caídos para descansar e eu tive esperanças de que,

Encarei Benjamin, que cobria meu irmão – ainda desacordado – com sua jaqueta, e deixei a primeira de muitas dúvidas me escapar.

– Você foi meu amigo de verdade? – Seus olhos castanhos assustados vacilaram um pouco antes de encontrarem os meus. Ele havia se mantido calado desde que eu o encontrara em nosso dormitório, de malas prontas e olhar vago. Fosse por culpa ou medo da minha reação. Algo me dizia que, seja lá o que ele estivesse fazendo aqui, com Sr. Hoth, que dizia querer “me proteger”, esta não era a primeira vez que Ben presenciara uma situação como essa. – Ou foi tudo um disfarce? Eu não entendo muito bem o que fazem aqui, mas. Bem. Para falar a verdade, eu não entendo nada. Mas gostaria de saber. – Não é óbvio? – Sr. Hoth me interrompeu, com seu clássico tom de superioridade e tédio. Ele entalhava algo que me lembrava um olho, com seu estilete amarelo, em um pequeno pedaço de cedro. – Estamos bancando seus babás. Há mais tempo do que eu achei que teria quando aceitei esse trabalho, aliás. Ignorei-o, sem tirar os olhos de Benjamin, insistindo para que ele respondesse.

– Você se lembra do meu primeiro dia no Orfanato? – Perguntou-me mesmo já sabendo a resposta. Assenti em silêncio. – Eu era, facilmente, a criatura mais esquisita do estado inteiro. Boné do Star Wars, pochete, gaguejando a cada três palavras. O alvo perfeito para se fazer piadas e maltratar. Eu sei disso porque foi o que Mike viu em mim. E ele tirou proveito disso. Mas você não o fez. Você não viu o garoto esquisito de quem deveria ser realmente divertido zoar. Viu um cara que estava totalmente perdido e precisava de um amigo. Talvez porque visse o mesmo em si. Eu não sei. Mas desde aquele momento, deixou de ser apenas um trabalho, para mim. Ser seu amigo não estava nos planos, sabe. Eu não tinha que ficar próximo a você. Não necessariamente. E você também não precisava me oferecer aquela vaga no seu dormitório. Nem brigar com Mike por minha causa. Mas nós o fizemos. Não porque eu sou um pioneiro júnior em missão ou por causa de quem você é. Nós o fizemos porque era o que queríamos fazer. Sou seu amigo, cara, de verdade. É tão difícil de acreditar nisso?

– Não, só – Senti as palavras fugirem de mim e bati o pé com força no chão, desviando o olhar dele. – Está meio difícil de acreditar em qualquer coisa depois que ... – Isso é sobre o Jackson, não é? – Sr. Hoth se intrometeu mais uma vez. Mas, dessa

vez, o que ele disse a seguir me deixou feliz que ele o fez. – O metamorfo que lhes atacou mais cedo não era a mesma pessoa em que você confiou nos últimos meses, Jake. Fique tranqüilo. O verdadeiro Pax Jackson é um de nós. E partiu há horas, com

o mesmo destino que a gente, quando descobriu que

...

Bem, não estamos mais

seguros. Foi em busca de reforços, e eu espero que eles cheguem logo, pois se o

metamorfo se encontrar com outros de sua raça Pioneiro, não. Ele vai nos estraçalhar.

...

Não vai

fugir

de

ver um

– O que? Vocês

...

Argh. Contador de Histórias, Pioneiro, Metamorfo, eu

...

Não faço a

mínima ideia do que querem me dizer. Só. Por favor, continue. – Implorei. Mas ele apenas parou de entalhar o cedro e dividiu um olhar de cumplicidade com Benjamin. – Você disse que me contaria tudo o que sabe. Meu amigo assentiu com a cabeça, incentivando-o a continuar.

– Ah, céus, ok. Tudo bem. Se você insiste

– Suspirou, cravando a ponta do

... estilete no pedaço de madeira e repousando-os ao seu lado. Coçou a barba mal feita, como se pensasse, e voltou a falar. – Um metamorfo é um ser sem forma definida, que, por isso, pode se transformar no que bem desejar, desde que tenha entrado em contato com essa forma de vida anteriormente. Ninguém sabe qual é sua forma inicial, nem de onde eles vem, ao certo, mas no caso que presenciamos essa noite, o metamorfo se transformou em um manticore. “Cabeça de leão, asas de águia e ferrão de escorpião”, é o que dizem as lendas gregas. Só que, na verdade, esse felino peçonhento e alado pertence às savanas de Altair. Mas não estou aqui para te dar aulas de Biologia Altariana. Pelo menos, não por enquanto. Se eu vou mesmo começar a lhe contar essa história, será pelo velho e longo caminho.

– Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante

– Benjamin debochou,

... fazendo-me rir seco por um segundo, apesar da confusão de sentimentos que me consumira àquela hora.

– Ah, nem comece! Essa vai ser do meu jeito. – Sr. Hoth exclamou, bufando em desaprovação. Juntou as mãos e voltou a falar, mais calmamente. – Antes do

maldito tempo sequer ser contabilizado, em um lugar longe pra caramba

...

Havia

uma civilização humanoide, assim como os terráqueos, vivendo em um planetinha medíocre que, bem, também lembrava muito a Terra.

“Eles eram sapientes. Tinham polegares opositores, comunicavam-se pela fala e mantinham uma moeda corrente. Conscientes sobre si próprios e sobre o mundo ao seu redor, esses humanos, que se auto-denominaram Andrômedos, eram completamente diferentes de nós. (Digo nós porque, sim, eu também nasci na Terra.) Por um minúsculo e único fator, são considerados uma outra espécie. É claro que, talvez eles fossem um pouco mais altos. Mais simpáticos, até. Nunca encontrei uma espinha em seus rostos! Cuidavam do seu mundinho de forma sustentável e nunca se atrasavam para nenhum compromisso porque, bem, não contabilizavam as horas. Mas o que os fazia soar realmente “alienígenas” aos ouvidos de qualquer terráqueo que ouvisse falar deles, era o modo em que usavam essa consciência.

Não apenas conheciam a si mesmos e o mundo que os rodeava, mas viviam para merecer isso. Incentivavam e apreciavam a individualidade, pois cada um via a si próprio, e o mundo, de maneira única. Honestamente? Um bando de egocêntricos ociosos e falsos, se você quer saber. Mas essa pequena civilização humana, por valorizar aqueles detalhes minúsculos em cada um de seus indivíduos, fez a maior das descobertas. E hoje controla tudo e todos que você conheceu até hoje, sem nem mesmo ter que parar sua pausa do café para trocar de posição na cadeira. O que foi um tanto genial, eu admito, para quem nem sabe ver as horas. Mas, espere só, vou te mostrar qual foi a grande descoberta.”

Sr. Hoth parou seu discurso por um momento e buscou o pedaço de cedro e o estilete, completando o entalho que passara o tempo fazendo anteriormente. Terminou-o poucos segundos depois e o ergueu em minha direção, como se me perguntasse se eu o reconhecia.

O símbolo era o seguinte:

uma civilização humanoide, assim como os terráqueos, vivendo em um planetinha medíocre que, bem, também lembrava

– É, ham, aquele olho egípcio? Do deus com cabeça de pássaro? – A afirmação duvidosa fez Sr. Hoth gargalhar. Pensei mais um pouco sobre a minha resposta. – Qual era o nome dele mesmo ...

– Hórus. – Sr. Hoth completou, revirando os olhos, e pôs a madeira a frente da minha testa, fazendo-me segurá-la ali mesmo. – O olho de Hórus. “Proteção, coragem e poder.” Um símbolo de renascimento e restauração. Para os entendidos de mitologia egípcia, significa a “segunda chance” do deus Hórus. O caso é que, os Andrômedos, assim como muitas civilizações terráqueas, chegaram a este símbolo a partir de suas pesquisas anatômicas. Já ouviu falar da Glândula Pineal?

Balancei com a cabeça em negação, abaixando o pedaço de madeira e encarando o olho ali entalhado. Ele continuou, como se estivesse me dando uma aula de Biologia, apesar de ter dito que não o faria.

– É uma glândula do tamanho de uma ervilha, que pode ser encontrada no centro do cérebro de cada um de nós, entre os dois hemisférios. Ela é a responsável pelos ciclos vitais, como o sono, além de controlar as atividades sexuais e de reprodução. Pode imaginar algo mais importante do que isso, para qualquer ser, seja humano ou não? – Parou por um segundo, exigindo minha total e mais sincera atenção para o que diria a seguir. – Pois há. A maior e mais importante função da glândula pineal, tal como descobriram os Andrômedos, estava em administrar a comunicação entre o interior e o exterior. O elo entre nós e tudo que há além de nós.

“Como os neurônios se comunicam por impulsos nervosos, enviando e recebendo informações sobre o nosso corpo, a glândula pineal tem um conjunto de partículas subatômicas que fazem o mesmo, mas em um alcance infinitamente maior. Essas partículas são tão pequenas, que as leis da física clássica não podem ser aplicadas a

Neutrinos, elétrons, quarks, glúons, bósons, fótons e grávitons. São os sete elementos responsáveis pelo nosso universo. E dentro de cada um deles, há uma única e ainda mais minúscula fonte de vida. O um por cento do um por cento de tudo que existe. A grande descoberta Andrômeda.”

– Estou quase molhando minhas calças aqui e quero ouvir o final da história, será que dá pra agilizar? – Ben o interrompeu, parecendo estar mesmo apertado. Sr. Hoth respirou fundo e concluiu seu pensamento como se nada tivesse atrapalhado.

– Dentro daquela glândula do tamanho de uma ervilha, com um formato que lembra muito o símbolo que lhe mostrei, a comunicação entre a fonte de vida de tudo e todas as coisas do universo se torna possível. A menor das coisas, chamada de Partícula de Hórus, pelo pesquisador andrômedo Wolfric Gorus e sua dedicada esposa Helen, conecta todos nós como nenhuma rede social jamais poderá fazê-lo. E é essa conexão que permite alguns a lerem pensamentos, preverem o futuro e fazerem tantas outras coisas consideradas sobrenaturais pelos terráqueos que tentam entendê-las.

Ben disparou em direção a um arbusto e, por causa disso e do comentário de Sr.Hoth, permiti-me dar uma risada.

– Como provocar tempestades e se comunicar com pássaros? – Disse, esperançoso,

e meu professor assentiu lentamente. – Então

Essa partícula está dentro de mim,

– Tentei raciocinar por um

Como é estabelecida

Os terráqueos não

... desse pedaço de madeira, da grama e de tudo mais

... momento, encarando o entalho uma ultima vez. – Mas como

... a conexão? Quero dizer, se é algo tão natural, por que a gent

...

sabem disso também?

– Ah, entendo sua confusão. Na verdade, este é o motivo porque estamos aqui hoje. A maior dúvida de todas. Não “Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou?” como todos pensam, mas “Por que?”.

“Depois da descoberta, os Andrômedos acreditavam terem sido abençoados. Essa partícula, seja lá o que fosse ao certo, era a força suprema e a origem de tudo que conheciam. Então, por que, perguntavam-se: por que fomos presenteados com a habilidade de manipulá-la? Entre todos os seres, aqueles humanoides egocêntricos de um planetinha insignificante, foram os escolhidos para carregarem tal poder e fardo.

Como se apenas provasse sua filosofia de vida, as habilidades que a manipulação de partículas de Hórus trazia para os Andrômedos os deixavam cada vez mais únicos. Aprenderam a treiná-la, controlá-la e, principalmente, aperfeiçoá-la ao longo dos anos. Reorganizaram sua civilização aos poucos, devido a isso. Juízes eram homens e mulheres com facilidade de distinguir a verdade da mentira. Bombeiros e policiais eram os mais rápidos e fortes. Artistas usavam suas diferentes habilidades para verem o mundo por outra perspectiva e o transformavam ao fazê-lo.

Foram tempos gloriosos! Mas com o passar do tempo não contabilizado, aquela infeliz pergunta os atordoou ao ponto de provocar destruição e guerras. Quando digo guerras, não estou falando de armas que destroem cidades e bombas que explodem continentes, mas armas que destroem planetas e bombas que explodem galáxias inteiras.”

– Céus, o que eles fizeram para provocar isso? – Voltei! – Ben pulou para fora do arbusto e se sentou ao meu lado. – O que perdi? Já chegou nas Guerras Galácticas? – Estou tentando. – Sr. Hoth respondeu entre dentes e se pôs a falar, mais uma vez. – Eles construíram um império. Seu planeta era pequeno demais para seu potencial, era o que acreditavam, e partiram em busca de mais. Criaram colônias de exploração e povoaram os mais diversos planetas, até que se depararam com outras formas de vida humanoides.

“Próximo a Nebulosa de Órion, já na Via Láctea, conheceram os Orcs. Já deve ter ouvido falar deles, em livros de fantasia, rpgs e filmes, mas farei um breve resumo:

são seres bípedes de pele esverdeada grossa e cabeça redonda lisa. Não tem pêlos, mas são muito semelhantes aos humanos. Apesar de serem mais repteis do que

primatas, é claro. Mas enfim, para a infelicidade Andrômeda, os Orcs não tinham qualquer conhecimento ou habilidade de manipulação sobre as partículas de Hórus.

Continuaram sua busca e, milhares de anos depois, conheceram os Elfos, vivendo sob a luz da estrela Altair, há apenas 17 anos luz do Planeta Terra. Eram seres impressionantes. Inteligentes, altos e quase imortais, perto dos meros trezentos anos que um Andrômedo vivia; os Elfos iam de dois a quatro mil em perfeita sanidade mental. Mas, novamente, nada sobre a partícula de Hórus e todas as incríveis habilidades que elas lhes proporcionariam. Eles até tentaram, para falar a verdade, pois se aproximaram muito dos Andrômedos naqueles tempos. Mas nenhuma pesquisa obteve resultado positivo.

Mais tempo não contabilizado se passou, e eles estavam praticamente obcecados. Wolfric Gorus que, por suas pesquisas com as partículas, acabou por descobrir a fórmula da vida eterna, (e a distribuiu para seus familiares e amigos, formando os Doze Clãs Imortais de Andrômeda) liderou a formação de um projeto chamado A Origem, que visava retroceder o DNA Andrômedo, da espécie homo sapiens mentem, em laboratórios, até chegar a um antepassado cuja única diferença seria ser incapacitado de manipular as partículas de Hórus. Assim, esperançosamente, eles viriam a receber a resposta para a maior de todas as perguntas.”

– Você está pulando a parte da guerra, sabe. – Ben o interrompeu mais uma vez e cruzou os braços, como se isso estivesse o aborrecendo. Sr. Hoth massageou as têmporas antes de respondê-lo. – Por que você não continua, então? – Ótimo. – Ben exclamou, como se esperasse por isso, virando-se para me encarar. – Veja bem, os Andrômedos estavam em conflito. Separados em várias facções e planetas, havia discórdia e guerras civis em toda parte. Pessoas usando suas habilidades para tirarem vantagem das outras, populações irritadas com os Clãs

Imortais, alegando favoritismo e injustiça

E para piorar tudo, aqueles que

... continuaram no planeta original de Andrômeda, eram ameaçados pelos de Andrômeda II e vice-versa. Era como um holocausto do caramba! – Ele articulava as mãos e esbugalhava os olhos enquanto tagarelava. Inclinei-me um pouco para trás, querendo que ele percebesse que ele estava exagerando. Não aconteceu. – Então, ficar em qualquer lugar perto daquela galáxia seria o mesmo que dar adeus ao projeto Origem. Por isso, os Andrômedos foram além, em sua expedição na Via Láctea. Longe o suficiente de Orcs e Elfos, eles encontraram o Planeta Terra. Praticamente a mesma proporção de seu planeta, rochoso, com água e atmosfera. Tinha até uma lua! Perfeito, ou quase. Havia um grande porém. Grande, escamoso e incrível: os dinossauros. Seria impossível a sobrevivência de uma espécie humana em seus primeiros passos, tendo que dividir seu espaço com os gigantes lagartos carnívoros. E foi então que–

– Deixe-me adivinhar. – Interrompi-o, afastando-me um pouco mais. – Os Andrômedos tiveram algo a ver com a extinção dos dinossauros? – Algo? Tudo! – Respondeu animado. – Houve uma incrível temporada de Caçada aos Dinossauros. Vários foram levados a outros planetas e existem até hoje. Visitei um parque de exposição deles anos atrás e foi, nossa, indescritível. O verdadeiro Jurassic Park. Mas a grande maioria morreu aqui mesmo. A extinção deles na Terra possibilitou a implantação dos primeiros primatas e das diversas etapas de

pesquisas Andrômedas, até, é claro, o homo sapiens sapiens. E, bem, eu e você. – Agora quem pulou, vejamos, milênios de evolução, foi você. – Sr. Hoth resmungou, cruzando os braços para Ben. – Posso continuar?

– Mas eu ainda nem falei das bombas atômicas que criaram quasars e

Poxa!

... – Tenha dó do garoto! Está aprendendo o conteúdo inteiro do primeiro ciclo de Ensino Andrômedo em uma noite e você quer ensiná-lo astronomia? – Aquela era a primeira vez que eu via meu professor censurar qualquer forma de aprendizado, mas, de certa forma, eu me sentia agradecido por isso. – Acha que ele tem alguma ideia do que seja um quasar, pra inicio de conversa? – Desculpe-me, Ben. Mas Sr. Hoth tem razão. Eu só quero entender onde eu entro no meio disso tudo ...

– Onde você entra?! – Meu professor pareceu ofendido com o questionamento. – Você, juntamente com todos os habitantes desse planeta, são a principal

engrenagem deste projeto. Ter o privilégio de assistir a formação e contribuir na cultura de uma sociedade inteiramente nova, analisando-os e os observando de

longe, foi o que fez A Origem funcionar. Mesmo que, é claro respostas esperadas. – Que respostas trouxe? – Perguntei inocentemente.

...

Não tenha trazido as

– Ahn

Nenhuma, para falar a verdade. Não até agora. – Sr. Hoth limpou a

... garganta antes de continuar, parecendo até um pouco embaraçado. – Os Chefes dos

Clãs Imortais de Andrômeda desceram dos céus para intervir. Conheceram os nativos, ensinaram-lhes e conheceram-lhes de perto. Mas você viu o estrago que

isso causou. Panteões e mais panteões de deuses

Os terráqueos criaram fantasias

... sobre os misteriosos seres que vinham do além e começaram a formar o que são

muitas das religiões existentes hoje. Lembra do manticore, certo? Ah, claro que lembra. Desculpe-me. Como acha que seus antepassados tomaram conhecimento de

tal animal? A Mitologia Grega, assim como a Romana, a Nórdica e a Egípcia, foram frutos dos encontros entre Andrômedos e Terráqueos que aconteceram nos primórdios da sua civilização. Eles compartilharam histórias e conhecimentos,

entre ...

Bem, outras coisas.

– Que coisas? – Perguntei. Desta vez, não tão inocente. – Hã, sabe, a beleza sofisticada Andrômeda fascinou os nativos da mesma forma em que a beleza exótica dos Terráqueos deslumbrou Chefes e outros membros dos Clãs Imortais. Destes encontros, é claro, surgiram os primeiros mestiços. Humanos

híbridos: nem sapiens, nem mentem, mas um pouco de cada um dos dois e muito mais de sei-lá-mais-o-que. Em outras palavras: eles foram irresponsáveis e bebês começaram a nascer. Bebês que virariam pessoas como eu, você e Ben. Isto, aliado às guerras e a proximidade dos Andrômedos e Terráqueos, começou a afastar o projeto cada vez mais de seu verdadeiro significado. Pais contavam a verdade aos seus filhos mestiços, levavam-lhes para Andrômeda, até, às vezes. E quem os impediria? Eram membros dos Clãs Imortais! Controlavam a Terra, Andrômeda, a

Galáxia e

Quem sabe, talvez até o Universo. Chegaram a se ver como Deuses

... quando se olhavam no espelho, iludidos pela imortalidade, poder e riqueza. Estavam em um nível tão alto de egocentrismo que descobrir quem eram e por quê já não era tão importante. Até que, infelizmente, o evento citado por Ben veio a acontecer.

– O que? O que aconteceu? – Vi-me curioso e empolgado como nunca antes, apertando o entalho do Olho de Hórus em mãos.

– Uma bomba atômica capaz de criar um quasar foi lançada. Uma galáxia inteira foi destruída. “Um holocausto do caramba”, como disse Ben. – Sua voz soou baixa e triste. Encarei meus dedos com medo de enxergar uma expressão sofrida em seu rosto e sentir pena. Ele continuou, quebrando o silêncio paralítico que se estabelecera em minha mente. – Um quasar, já que voltamos ao assunto, se trata do maior emissor de energia do universo. O objeto mais luminoso, poderoso e energético que há. Como um buraco negro supermaciço do contra e gigantesco, se é que você está prestando atenção.

– Estou, estou sim tipo?

...

Mas que coisa horrível. Como uma bomba pode criar algo do

– A verdadeira pergunta é: como um ser humano pode criar algo do tipo? A repercussão desse atentado foi quase tão gigantesca quanto o quasar em si. O governo de Andrômeda II, responsável por projetar e lançar a bomba, foi condenado, e o planeta vive em processo de reconstituição até hoje. Seu objetivo era destruir a Via Láctea. Eles afirmavam que a união de Andrômedos com Terráqueos, Orcs e Elfos, era prejudicial e, bem, uma perda de tempo. Abominavam mestiços. Discriminavam o povo de Andrômeda que se misturava com eles, como se fosse algum tipo de crime. Afirmavam que, por se manterem “puros”, eram mais evoluídos. E que, por isso, todos os outros deveriam ser destruídos.

– Mas a bomba deu errado, não é? Porque, sabe

...

Eu nunca vi um quasar por aqui.

Ben deu risada do meu comentário e me respondeu em seguida. – Eles erraram nos cálculos e a bomba atingiu uma das galáxias vizinhas. Deve ter acertado seu núcleo galáctico, e por isso formou o quasar. Ninguém sabe ao certo. – Mais uma vez, essa não é a questão. Estamos falando de história aqui. De como esse evento influenciou nossa realidade agora, Benjamin. Mantenha o foco! – Desculpe-me, desculpe-me. Qual é a questão? – É a velha questão da filosofia Andrômeda. Ao escutarem aquele discurso facista, lembraram-se dos ideais que defendiam e as lições que queriam passar para os Terráqueos e todos os outros povos que haviam conhecido. A ideia de que ser diferente não era algo ruim, mas a dádiva pela qual eles mesmos um dia se consideraram evoluídos. Diferenciação e evolução eram sinônimos, assim como todos aqueles povos.

“Eram todos humanoides,

apesar

de

sua

língua,

cor

de

pele

ou

as

funções

maravilhosas que uma glândula misteriosa trazia. A questão é que isso fez os Andrômedos voltarem a olhar no espelho e mudarem sua opinião sobre si mesmos. “Somos humanos. Falhamos. Morremos.” Virou o lema de uma nova era para eles.

Você ainda vai estudá-la pelo nome de Fragilismo. Onde os Andrômedos engoliram o orgulho, admitiram seus erros e se mostraram frágeis o bastante para morrer, se preciso, para repará-los.

Criaram, então, uma força tarefa responsável por administrar, organizar, pacificar e privatizar todas as questões relacionadas ao projeto Origem, incluindo os habitantes terráqueos e toda a extensão da Galáxia que lhes servia de moradia. Os protetores da Via Láctea.

Os primeiros homens, além dos integrantes dos Clãs Imortais, a sair da Galáxia de Andrômeda e se aventurar em terras novas. Foram chamados de Pioneiros. Entre muitas outras tarefas, deveriam manter o projeto A Origem, e o acordo intergaláctico criado após a guerra, A Verdade, em segredo absoluto. Todo terráqueo que não fosse mestiço, ou relacionado com um até um terceiro grau de parentesco, deve viver de acordo com a mentira. E para garantir isso, o uso de força bruta, causando danos físicos ou psicológicos aos terráqueos, foi concedido aos Pioneiros.”

– Não me parece justo. – Deixei escapar, voltando a encará-lo. – Eu sei que é a

única forma de se aproximar de algum tipo de resposta, mas

de que vocês me falaram a noite inteira

Esse universo, esse

... Parece-me incrível. Vasto e, felizmente,

... cheio de pessoas e outras oportunidades. Se os terráqueos fizessem alguma ideia disso ... – O que? Acha que isso traria algum benefício para o universo, garoto? Pois pense novamente. Nasci nesse planeta, assim como você, mas não mascaro as falhas do nosso povo. Eles não estão prontos ainda. Algum dia estarão? Eu não sei. Mas esperança neles é o que não falta nos Andrômedos. Ainda interferem, cautelosamente, se quer saber. Muitas personalidades e eventos terráqueos só vieram a acontecer por influência Andrômeda. Muitos eram mestiços cujas habilidades estavam acima da média. E receberam vários empurrãozinhos caridosos da sorte pelo caminho. É tudo mais complicado agora, com a proibição de naves na Galáxia e a burocracia deprimente para se utilizar um portal para o planeta Terra, mas há mais Pioneiros e mestiços aqui do que você pode imaginar.

– É isso que vocês fazem então, além de dar uma de babá? Protegem a Terra enquanto garantem que seus habitantes continuem ignorantes? – Sr. Hoth e Benjamin assentiram não muito animados à minha pergunta. – Tudo bem. Acho que

entendi. Só tem

...

Uma coisa, uma coisinha minúscula que não pára de martelar na

minha mente. – Pois bem, desembuche.

– Por que diabos aquele manticore, transformer ou sei-lá-o-que atacou a mim e a Jason? Quer dizer, ainda há gente que nos odeie a ponto de querer nos matar?

– Não

Quer dizer, sim, mas ninguém inteligente o suficiente para passar pela

... Estação de Portais Andrômeda e chegar até aqui. Como ainda há mentes acéfalas o

bastante para odiarem negros e homossexuais em seu planeta, há andrômedos que repudiam mestiços e terráqueos como se estes fedessem a esgoto. Alguns

realmente fedem, mas, bem, esse não é o caso. – Sr. Hoth juntou as mãos, mostrando nervosismo, e eu comecei a ficar preocupado. Seja lá o que fosse, eu sabia que ele estava adiando desde o começo da conversa. – O metamorfo que os atacou foi enviado por uma alma que fede mais do que mil esgotos. Se é que aquela

criatura tem alma

Ah, que droga. Cá estamos nós, sob as estrelas, e eu tenho a

... maldita tarefa de lhe apresentar todo um Universo! E acabei deixando o que há de

pior nele para o final. Mas, enfim, vamos logo ao que interessa.

“Ele já teve vários nomes. De Contador de Histórias à Cavaleiro da Morte. Mas seu primeiro nome foi Tom. Thomas Moore, um garoto gentil e simpático. Gostava tanto de agradar que dava bom dia no elevador a desconhecidos, fazia questão de se apresentar e explicitar seu prazer em conhecê-las. Gostava de saber seus nomes e, principalmente, de que as pessoas soubessem o seu nome. Fascinava-se com as mais cotidianas histórias, criando tramas e personagens como uma aranha tece a sua teia. Lia como se as palavras o alimentassem, e as escrevia com o paladar apurado de um chef.

Não era difícil encontrá-lo em tavernas e parques, divertindo pessoas de todas as idades com seus romances dramáticos, contos de fada e thrillers de ação, como se

um bardo medieval fosse. Mas era apenas um garoto. Um garoto que encontrou nos livros um refúgio, um forte que o separava de sua realidade – ao seu ver – tão ingrata. Que o mantinha distante de sua infância e família perturbada. Cresceu pensando ser órfão de pai, criado pela mãe e o incrivelmente rico padrasto, o velho Cornelius Chrone, que, eu seu leito de morte lhe confessou os crimes de sua mãe. Não era segredo algum que Mary Charlotte Chrone fosse a pior das esposas. Traiu o marido com nada menos que quatro homens, e teve filhos com todos, fazendo-o os criar como se fossem seus próprios filhos. O Sr. Chrone era conhecido por ser, além de incrivelmente rico, veemente gentil e completamente burro. Mas o ultimo dos amantes tampouco foi um homem qualquer. Como o filho, ele já teve vários nomes. Vou lhe dizer apenas um deles, pois acredito que bastará: o Encantador de Serpentes.

O pirata mais sujo e encardido de todos, se compararmos o universo dos piratas com uma pilha de roupa velha e suja. E aquele garoto inventivo, que havia criado centenas de histórias sobre o pai que nunca viria a conhecer – sobre como ele era

galante, poderoso e viril – bateu de cara com a mais dura das realidades. Perdeu o exemplo mais próximo de uma imagem paterna que já teve, e, no mesmo

momento, perdeu toda e qualquer

imagem paterna

que jamais

viria

a

ter

novamente. Confrontou a mãe sobre o acontecido, enfurecido e indisposto a encarar

a

verdade. Dizem que ela mentiu

sobre o ocorrido. Acusou

o pirata

de

lhe

ter

abusado. Não se sabe. Mas pelo que conheço da víbora, é capaz de tê-lo envenenado com a mais esdrúxula das mentiras, e ele, por seu amor incondicional pela mãe, ter acreditado com todas suas forças – que não eram poucas. Por alguma razão ou outra, o jovem Tom parou de sair às ruas e contar suas histórias. Está de luto, diziam uns. Perdeu o pai e a sanidade na mesma semana.

Deixe de besteira! Está a escrever um grande romance, corrigiam os mais esperançosos. Não há nada melhor que o barulho das palavras de um livro para silenciar as almas atordoadas. Aos poucos, suas esperanças esvaziavam-se, no

mesmo ritmo em que as grandes canecas de bebida do rapaz ficavam cheias novamente. Só saía do casarão à noite, para afogar as mágoas no bar, e quando lhe

pediam histórias

...

Mandava-lhes pastar.

Não demorou para que as pessoas começassem a ficar realmente preocupadas com o jovem, fizessem perguntas e ganhassem respostas. A história do pirata, a única

que ele se recusara a contar, veio à tona. E numa noite maldita e mal cheirosa em um bar igualmente maldito e mal cheiroso, dois garotos bêbados fizeram a burrada mais maldita e mal cheirosa que poderiam fazer: um acabou morto e o outro, bem, virou o maior criminoso que esse universo já viu. Ele não sabia até aquele momento, mas possuía um dom perigosamente magnífico. Ele não tinha super força, lia pensamentos, ou controlava objetos com sua mente, nem nada disso. Mas ele tinha o poder da vida, da destruição e da morte. Ele contava histórias, e estas criavam vida. Imaginava os mais esplêndidos cenários, mas logo os destruía.

Apresentava-lhe os mais complexos personagens

...

E então os apresentava a morte.

Por muito tempo não se soube o que ele fazia exatamente. Fugiu, é claro, e dizem que, por ironia do destino, acabou na mão de piratas. Ninguém sabe o que houve nesse meio tempo, mas o que veio depois ficou bem gravado na mente de todos que sobreviveram para contá-lo. Aquele garoto simpático e apaixonado, tanto pelo mundo quanto pelas pessoas, não era mais um garoto. Virara um homem incrivelmente são de corpo, porém veemente convicto de que sua loucura era completamente compreensível e aceitável. Alguns, para – infelizmente – não dizer vários, realmente concordavam. Não sei, nem imagino ou quero entender os traumas e abusos que ele sofreu – mas nada justifica o que fez. Nada justifica torturar e matar inocentes, como se fossem os culpados pela ira desumana e a tristeza monstruosa que sentira. Nada justifica ter escrito sobre tantas atrocidades ...

Verídicas atrocidades que cometera

E, principalmente, nada justifica as pessoas

... que as leram e idolatraram por tanto tempo.”

Igualmente boquiaberto e enojado, senti minhas mãos suarem e meu coração bater mais forte, como se quisesse pular boca a fora e sair correndo, ao pensar que no começo da história eu havia chegado a me identificar e sentir dó do garoto.

– Eu

Não sei se entendi o que ele – controlei-me para não dizer aquela coisa

... fazia exatamente. Não sei nem se quero entender.

Sr. Hoth suspirou pesadamente como se estivesse se martirizando por não ter antecipado minha resposta. – Imagine-se no bar com ele. Está completamente bêbado. Vocês dois estão. Embora nunca tenha conversado com o sujeito, a cidade inteira o conhece, e uma curiosidade imensa toma conta do seu ser. Dizem que ele conta histórias como ninguém. Você está tão alterado que, pensa, não saberia distinguir a história da realidade. E gostaria de acreditar, quando acordasse no dia seguinte, que fez algo esplêndido naquele dia, além de ligar a televisão exatamente quando sua série preferida estava passando. No começo do episódio, aliás. Então você diz – Sr. Hoth

afinou a voz em um tom, como se tentasse me imitar – “Você é aquele cara, não é? O bardo?” E não ganha nenhum tipo de resposta. “O caçula dos Chrone?” Ele toma mais um gole de sua bebida, mas não diz nada. “O filho daquele pirata? Como é que é o nome dele mesmo, Encantador de S–

“Então você é interrompido. Não por uma fala, mas por uma mão que lhe puxa pelo colarinho e olhos claros que o espancam como a luz do sol deveria fazer com um vampiro. “O que você quer de mim?” Ele diz, pausada e seriamente. Você ri, como o bêbado bobalhão que é, e tira algo de valor do bolso. “Surpreenda-me”, responde.

Ele te senta de volta no banco e você pisca, atordoado, mas quando abre os olhos, não está mais lá. Não há nenhum banco, homem ou sequer um bar, onde você se encontra. Está sentado no cimento gelado em uma espécie de jaula. Sua respiração provoca uma leve condensação do ar a sua volta e você treme ao encostar os dedos no chão. Olha para seus pés e mexe, dedo por dedo, dentro dos sapatos surrados, como se estivesse querendo se certificar de que não havia congelado.

Pergunta-se porque sente tanto frio. Lembrava-se de ter colocado meias grossas de manhã, ao levantar da cama e sentir suas pernas tremerem. Mas não lembrava mais de nenhum bar, homem ou banco. Perguntava-se muitas coisas, mas em momento algum se perguntou porque estava ali. Ou se estava mesmo ali. Tinha certeza de que estava. Sentia o chão abaixo de si, o ar em volta e até mesmo o odor fétido de carne crua e podre que pairou sobre sua cabeça, quando resolveu se levantar por um momento para esquentar as pernas. Esfregou uma mão na outra, sentindo um calafrio em sua espinha e, sabe-se lá porque, resolveu olhar para trás. Quando o fez, deu um pulo e não conseguiu conter o grito de pavor.

Veio-lhe a tona, de repente, que não fazia ideia de por que estava ali. Por que, logo ali, a poucos metros, havia um grandioso leão adormecido. Este se remexeu ao ouvi-lo, coçando o rosto com as patas, sujas de sangue. Então você resolveu olhar em volta. E o que viu lhe tirou toda e qualquer vida que houvesse dentro de si, pronta para sair pela garganta. Avistou cadáveres. Muitos deles, irreconhecíveis. Alguns estavam tão destroçados que segundos intermináveis se passaram antes de você se convencer de que eram, sim, cadáveres humanos.

Você então vê um rosto familiar. Amado, talvez. E um choro desesperado brota sabe-se lá de onde, e termina de desmanchar com o seu ser. Com as pernas trêmulas e fracas, tenta andar – gostaria de poder correr – mas sente o chão e a realidade a sua volta perder completamente o sentido. Cai e a única e próxima coisa que vê é a imagem dos dentes colossais e assassinos do leão a lhe devorar. Uma voz baixa e cortês, ao longe, parece dizer “Surpresa” enquanto seus olhos se fecham pela ultima vez.”

Sr. Hoth abaixou a cabeça, envergonhado, como se não conseguisse acreditar no que acabara de dizer. Mas havia servido seu propósito. Não havia deixado qualquer sombra de dúvida do que queria me dizer.

– Mas por que? – Foi a única coisa que consegui dizer, em um fio de voz cheio de amargura e desespero. – Essa é uma ótima pergunta. – Meu professor parecia ter se entregado aos mesmos sentimentos que eu, sacudindo a cabeça e avaliando as possíveis respostas que poderia me dar. – Eu gostaria de ter algum tipo de final feliz para lhe contar,

depois de toda essa história. Mas dificilmente há finais felizes na vida real, sabe, por que ela não tem fim nenhum, de certa forma.

“O garoto do bar, assim como muitos e muitas outras, foi encontrado sem qualquer sinal aparente de trauma físico. O laudo de óbito? Morte cerebral. O que se sabe é que todas as vítimas ouviram as histórias: se não estavam mortas, haviam enlouquecido ou se tornaram fieis seguidoras do homem que as contou. Dependia muita da história e do que acontecia nela, se é que você me entende.

Thomas Moore é um ilusionista, acima de qualquer outra coisa. Insere-o em uma história, seja ela qual for, e o faz acreditar que ela é verdade. Que está acontecendo ali mesmo. E, mesmo que não esteja destroçado por fora, seu cérebro pensa o mesmo que você, e o leva a morte com ele. Passaram-se anos de terror. O Contador de Histórias que, agora se autodenominava O Cavaleiro da Morte, tinha o seu próprio bando de piratas. Metamorfos como o que os atacou começaram a lhe procurar após descobrirem que, por causa de suas histórias, poderiam se transformar em pessoas que nunca haviam conhecido, tornando suas habilidades ainda mais ilimitadas. E, com eles, o Cavaleiro destruiu cidades e aterrorizou colônias inteiras. Não havia pessoa no universo capaz de detê-lo, era o que acreditava. Dizem que encontrou o pai, até, e o fez acreditar que morreu engolido por uma jiboia.

Não existia alguém que desconhecesse seu nome, afinal. E isto o inspirava. Fazia-o matar com um sorriso aberto e demoníaco moldando-lhe o rosto. Mas seu gracejo não durou tanto quanto planejara, e sua desgraça veio do lugar em que começara. Todos sabiam que, apesar de não carregar o sobrenome, Thomas Moore era um Chrone. A família que dava nome a um dos Clãs Imortais tinha em seu sangue o assassino mais impiedoso que o universo já conhecera. E, portanto, era julgada responsável por seus crimes.

Talvez para limpar o nome da família, ou para garantir que ela continuasse a ser comentada nas ruas de Andrômeda, um novo burburinho começou a se espalhar pelos quatro cantos da galáxia. Diziam que o terceiro e ultimo Chrone, um garoto charmoso, mas impertinente, chamado Zane, tinha uma habilidade bastante pertinente em relação à atual situação, que não era nada charmosa. Ele era capaz de distinguir a verdade da mentira em um simples piscar de olhos, fato que se comprovou tanto em sua exímia reputação de melhor jogador de strip poker da cidade, quanto quando desmascarava intrigas e traições entre seus colegas de escola. E daí? Você me pergunta. Por que um vagabundo que joga strip poker poderia ser importante para deter alguém como O Cavaleiro da Morte? Pois bem, eu lhe respondo.

Thomas sempre odiou os irmãos, tal que, certa vez, resolveu torturá-los. Não os mataria em respeito a sua mãe – quem ele sempre respeitou e confiou cegamente –, mas adoraria vê-los sofrer da mesma forma com que sofreu em sua infância, sendo o irmão mais novo entre os quatro. Divertiu-se afogando Prosper, o mais velho, e Hugh, o do meio, ao enterrá-lo vivo. Mas quando tentou atacar Zane ... Nada. “O que está esperando, Tommy?” Deve ter dito. “Vai, vamos ver do que é capaz.” Mas nada acontecia. Não importava o quanto se esforçasse. Zane sabia que não era nada além de uma ilusão – uma mentira. E que a verdade era que Thomas não era o Cavaleiro forte e imponente que achava que era. Na verdade, Zane sabia que podia derrotá-lo, ali mesmo. E se não fosse pelos capangas, tenho certeza que o teria feito.

Anos e mais anos se passaram. Zane Chrone virou um homem de habilidades poderosas e inquestionáveis. Chefe do pelotão de homens encarregados de aniquilar Thomas e seu bando, ele estudou e se aprimorou por anos, até que conseguiu expandir exponencialmente seu poder de discernimento e o projetou em um material que ele mesmo elaborara. Planejou, então, a prisão do século. As leis andrômedas proíbem morte, e um homem como aquele precisa de uma jaula apropriada, para se manter em exílio.

Discutiu por anos com o Conselho Andrômedo para que seu projeto ficasse estabelecido aqui, na Terra, pois era onde vivia a maior parte do seu tempo; onde acreditava poder observar de perto e garantir que o irmão jamais escapasse. Se formos pensar bem, é mesmo uma boa escolha. A Terra é afastada o bastante de Andrômeda, e cercada o bastante – tanto por dentro quanto por fora – para que

sirva de receptáculo

para um monstro como

esse.

E,

mesmo se escapasse, os

pioneiros teriam em mão a tecnologia necessária para combatê-lo e um líder perfeitamente capaz de guiá-los.

E agora você me pergunta, novamente. Mas por que? O que eu tenho a ver com

tudo isso? Bem, Jake, sinto muito, e honestamente, em lhe dizer que

que Chrone finalmente fogo.” – A minha casa?

efetuou

a prisão,

há mais

de oito

No dia em

... anos, sua casa pegou

– Não, digo, a casa de Chrone. – Sr. Hoth engoliu em seco e afrouxou sua gravata.

– Mas, bem, ela é sua também, afinal

...

Ele é seu pai.

As palavras ecoaram em minha mente por algum tempo. Ele é seu pai. E, mesmo tendo esperado uma quantidade considerável de tempo para ouvir algo do tipo, devo admitir que a frase não fazia o menor sentido para mim. O pai deveria ser aquele que fica ao lado de seus filhos. Que os ensina a andar de bicicleta, ralha com eles quando fazem besteira e os leva para a escola todos os dias. Eu não tive nada disso. Estava certo de que nunca teria. Esse sujeito, Chrone, poderia ser quem fosse – eu não me importava. Ele não era o meu pai. Mas, dizer que a frase não surtiu efeito algum sobre mim, seria mentira. Pois, daqueles segundos em diante, fui tomado por um sentimento sufocante de mágoa e abandono que beirava à raiva.

– Ele

Ele está vivo? – O pronome soou como uma maldição em meus lábios. Sr.

... Hoth olhou para o chão e começou a balbuciar algo sobre Chrone que eu não tinha a

menor vontade de saber. – Diga-me. Eu não dou a mínima, professor, se ele sofreu;

se não conseguiu

mais olhar

em nossos olhos infantis

sem ser torturado

por

lembranças do ocorrido. Ele nos deixou. Trancou-nos na jaula do leão e não voltou, tampouco olhou para trás. Só me diga se o desgraçado está vivo ou não. – Você tem que entender, Jake – recomeçou, ignorando minha súplica –, que o homem perdeu a mulher àquela noite. E todo seu futuro juntos. Não teve escolha,

com tudo que estava acontecendo, senão deixá-los aqui, a salvo.

A

salvo?

– Bradei

com

fúria,

levantando-me do tronco em que permanecera

sentado, todo àquele tempo, tentando manter a calma. – E o que está acontecendo agora, do que isso tudo se trata? Que situação pode ser tão ruim a ponto de isso parecer “a salvo”?

Pingos

ríspidos

de

chuva

me

molharam

o

rosto,

o

cabelo

e

as

costas.

– Você está fazendo isso? – Sr. Hoth questionou, olhando para cima com curiosidade, ao tirar os óculos e fechar os olhos, deixando os pingos de chuva lhe massagearem o rosto por alguns segundos. Percebi que ele estava tão tenso com toda aquela história, que era capaz de me agradecer pela água. Balancei a cabeça, sem jeito, tentando lhe mostrar que não fazia a menor ideia. Recolocou os óculos para analisar minha expressão facial, parecendo um tanto desapontado. – Compreendo sua ira, Jake. Mas não posso dizer que concordo. Seu pai é um ótimo homem–

– Por favor, pare de chamá-lo assim. Seu nome é Zane, não é? – Cortei-o, tentando

controlar minha

agressividade,

e

voltei

a

me

sentar

no

tronco

molhado.

– Que seja. – Deu de ombros, continuando. – Zane é um ótimo homem. Note que digo é no presente, então, sim, ele está vivo. Não os deixou como você pensa que o

fez. Simplesmente teve que

Abrir mão de vocês. As repercussões do incêndio o

... obrigaram a ficar o mais longe possível da Terra e, em consequência, de seus filhos. E não foi nada fácil para ele, posso lhe garantir isso. Se fosse, eu não estaria aqui. Nem Jackson, ou Bennett. Se seu pai não tivesse feito questão de garantir a sua segurança, é muito provável que estivessem mortos agora.

Olhei para Jason,

por um momento,

ainda adormecido

e

estremeci com o

pensamento de que aquela imagem não era apenas temporária.

– O que aconteceu, afinal?

– Um incêndio como esse não passa despercebido, assim, tão facilmente, logo no dia em que o maior criminoso da galáxia é, finalmente, pego. Tudo foi minuciosamente investigado. E o Cavaleiro da Morte não poderia tê-lo feito, afinal de contas, estava em custódia. Mas e os seus capangas? Você me pergunta. Até mesmo o metamorfo que os atacou hoje. Poderia ter sido ele, não? E veio para terminar o serviço?

Tive o péssimo pressentimento de que a resposta seria não.

– Então quem poderia ter feito isso?

Sr. Hoth apontou para o céu cinzento e apagado, que ainda vazava, como se aquilo respondesse tudo. Como um raio, de repente, minhas próprias palavras me atingiram. Capazes de, até, me derrubar no chão e me fazer chorar, em posição fetal, por horas a fio.

O incêndio foi causado por um raio.

– Eu? – Minha voz saiu no que se pode chamar de o sussurro de um sussurro. – Quê?! Não, não. – Sr. Hoth virou o rosto em minha direção, em um susto, fazendo

seus óculos entortarem para o lado. Ajeitou-os e continuou. – Quer dizer

Sim.

... Mas, entenda, seu dom é hereditário. Assim como poderia ter sido você, poderia ter

sido seu p

...

Chrone. Ou Jason, ou James

...

– James? – Disse, uns três segundos depois, ainda atordoado com tudo que ouvira. – Quem é James?

– Seu

– A voz do meu professor lhe faltou por um momento, o que me preocupou,

... e ele olhou de relance para Ben (que deveria ter achado mais seguro se manter alheio a nossa conversa, pois parara de fazer gracinhas assim que entramos no tema “Cavaleiro da Morte”), como se pedisse socorro. Não recebeu resposta alguma, além de dois olhos arregalados que vacilavam entre Sr. Hoth e eu como em uma partida de ping-pong. Então respirou fundo, e completou sua frase. – Seu irmão gêmeo. Ele não sobreviveu ao incêndio, como sua mãe.

– Irmão gêmeo? Eu tenho um irmão gêmeo?! – Repliquei, sem realmente pensar nas palavras. Tinha. Corrigi mentalmente, e, ao ver o quão cruel o verbo soava, senti meus olhos lacrimejarem. Sempre me sentira deslocado. Não como se algo estivesse errado, mas como se algo me faltasse. Talvez os pais, ou o lar, ou, pelo que eu acabara de perceber, uma metade de mim. – Primeiro, eu sou metade alienígena. Chrone, para piorar! O maior criminoso do universo não só acabou de

mandar um de seus capangas para matar a mim e ao meu irmão, mas também, é bastante provável que algum de nós, senão o homem que nos trouxe ao mundo,

tenha nos colocado nessa situação órfã e deplorável em primeiro lugar

isso. Um irmão gêmeo. Eu

...

Eu

nem sei o que

é pior.

E agora,

... Não me lembrar dele e

descobrir isso agora, ou lembrar e

– Você quer

Não poder tê-lo comigo nesse momento.

... Um momento, para digerir tudo isso? – Ben, finalmente, resolveu se

... pronunciar. – Tenho uma garrafa de água, se quiser. E um travesseiro.

– Aceito a água – disse-lhe, sem emoção na voz, ou vida nos olhos –, mas passo o

travesseiro e

Argh, só, por favor, digam-me que essa foi a ultima notícia chocante

... do dia. Mais uma e eu tenho um infarto.

Sr. Hoth comprimiu os lábios e juntou as sobrancelhas como se estivesse se segurando para não falar algo que, muito provavelmente, me mataria do coração, pois parecia dividido entre a vontade de fazê-lo e a culpa antecipada que saberia que sentia se o fizesse.

– Só mais uma coisinha. – Disse, por fim, e eu assenti com a cabeça, pedindo que ele o dissesse logo, enquanto eu tomava água. – A razão de toda essa comoção hoje. Do ataque do metamorfo, da nossa pressa em ir embora e da saída apressada

de Jackson essa tarde

Acho que, de longe, é a pior das notícias. Mas isso é você

... que há de julgar. Bem. Ele está livre. É. O leão saiu de sua jaula. Fugiu, sumiu, escafedeu-se. E, pelo que presenciamos hoje, está bem acompanhado.

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