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PAUL VIRILI O

A INÉRCIA POLAR

Tradução d e

Ana Luísa Faria

PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE

LISBOA

1993

ÍNDICE

CAPÍTULO I

— A luz indirecta

1

1

CAPÍTULO

II — O último veículo

33

CAPÍTULO

III

— A óptica cinemática

6 1

CAPÍTULO

IV — O controlo do meio ambiente

85

CAPÍTULO

V — A inércia polar

107

A LUZ INDIRECTA

«A luz tem por nome a sombra d a luz viva .»

BERNARDO DE CLARAVAL,

Ainda me lembro do espanto com que há dez anos vi os ecrãs de vídeo substituírem os espelhos nas plataformas do metro É certo que pouco depois de 1968 tínhamos visto surgir câma- ras de vigilância à entrada das grandes escolas, das universidades , passando também o controlo das avenidas e dos cruzamentos da capital a utilizar esse novo equipamento' . Hoje, o meu espanto re- nova-se ao ver aparecer, por cima do teclado do código de acesso , na portaria automática dos prédios, a objectiva de uma microcâma- ra, não bastando manifestamente já o intercomunicador para subs- tituir os porteiros Material de substituição electro-óptico, a videoscopia encontr a aqui, a meu ver, o seu papel principal : o de iluminar. Iluminaçã o indirecta de um ambiente doméstico que já não se contenta com a mera luz eléctrica, análoga à luz do dia . Aliás, a miniaturizaçã o acelerada deste género de equipamentos aproxima cada vez mais a câmara de vídeo e o seu monitor de controlo de uma luz-pilot o que se acende e ilumina para dar a ver o que se encontra aqui o u além. Até na câmara de filmar de 35 mm, o antigo visor, a ocular ó p

' O comando deste dispositivo de vigilância electrónica encontra-se, simbolicamente, na s caves do Hôtel de Ville (Câmara Municipal) de Paris .

tica, é agora substituído com vantagem por um monitor de exibi- ção das imagens registadas . Como não entrever aqui o carácter essencial do vídeo : não já a «representação» mais ou menos actualizada de um facto, ma s

a apresentação em directo uni lugar, de um meio electro-óptico ,

resultado aparente de uma, ondização (01) do real tornada possível pel a físic aelectro-magnética? Nada mais lógico, portanto, do que não encontrarmos aqui ne- nhum espaço de representação, nenhuma «sala de projecção ' , mas

apenas umarégie

.

A videografia, dando lugar à imagem de um lugar, não reque r

em última análise outro espaço alem do do seu suporte, de urna câ-

mara e de

um monitor também eles integrados, por assim dize r

dissolvidos noutros aparelhos, noutros equipamentos, sem qual - quer relação com a representação «artística» televisiva ou cinema- tográfica . Tal como não nos preocupam os mostradores e as luzes de u m painel de comandos ou a iluminação de uma montra, também nã o nos preocupa verdadeiramente o «lugar de difusão» do vídeo . Este lugar é simplesmente aquilo que se ilumina, sobre o qual se fa z luz, e não já esse «teatro ou lugar de uma representação cinema- tográfica projectada à distância . A diferença é tão grande entre a videoscopia, a cinematografia e a televisão que o próprio receptor de TV se vê ultrapassado pel a incorporação de monitores nos mais banais aparelhos domésticos , de que é exemplo essa 'portai ia electro-óptica» que dá a ver com o o intercomunicador dava simplesmente a ouvir. Todo o debate acerca da recente crise das salas de cinema, acer- ca da miniaturização das salas de projecção públicas, há-de repetir - -se em breve, sem dúvida alguma, ao nível da habitação particular , dessa «sala de estar» onde se encontra ainda tantas vezes o televi- sor ; pois o futuro do ecrã. sio seu processo de emancipação, est á

' No original mise-en-onde, por

com mise-en-scène,

encenação . (N .T .)

simultaneamente na sua súbita dilatação em ecrã gigante ao ar livr e

) e na sua retenção ,

na sua dispersão por objectos banais, sem qualquer relação com o espectáculo ou a informação televisiva . Quem dá ainda importância aos fios eléctricos dos electrodo- mésticos? Quem dará amanhã importância às fibras ópticas incor-

poradas nos materiais, nos objectos de uso corrente ? De facto, a par da retransmissão dos acontecimentos da actuali- dade, dos factos políticos ou dos eventos artísticos, o vídeo escla-

rece-nos acerca dos fenómenos de pura transmissão,

instantânea de maior ou menor proximidade que se converte, po r

seu turno, num novo tipo de «lugar», de localização tele-topográ-

fica

lâmpada eléctrica por Edison suscitou o aparecimento de lugare s

diurnos em meio nocturno, também a inovação da lâmpada elec-

tro-óptica determina

(JUMBOTRON ou ecrãs dos estádios olímpicos

transmissão

pois não se fala já de televisão local? Tal como a invenção d a

a emergência de lugares perceptíveis

em

meios geralmente imperceptíveis . Lugar do não-lugar da transmis- são instantânea (a maior ou menor distância), comutação das apa- rências sensíveis, análoga à percepção paróptica, sem relação algu-

ma com a comunicação mass-mediática habitual' . Assim, a par dos efeitos bem conhecidos da «telescopia» e d a «microscopia» que revolucionaram, a partir do século XVII, a per- cepção do mundo, surgem os efeitos induzidos dessa «videosco-

pia», cujas repercussões no campo da visão não se farão esperar, j á que o vídeo participa activamente na constituição de uma localiza- ção instantânea e interactiva, de um novo «espaço-tempo» que na - da tem em comum com a topografia, com o espaço das distâncias geográficas ou simplesmente geométricas .

Se o problema da «encenação» das representações

teatrais o u

cinematográficas desemboca na organização espacial e temporal d e um acto ou de uma narração fílmica numa sala, num espaço de re- presentação pública, e se, embora em menor grau, a cenografia te -

' Leia-se a este respeito : La Vision extra-rétinienne et le sens paroptique, Jules Romain ,

Ed . Gallimard,

1964 .

o privado (as divisões de um apartamento), com a videotransmissã o já não acontece o mesmo, resumindo-se a sua «cine-videografia» à

comutação de aparências

mesmo modo, à comutação de actores interactivos mais ou meno s

longínquos . A comutação da emissão e da recepção do sinal víde o

exprime, de fato, no ecrã do terminal,

tevisivaimplicaporseuturnoumcenárioeumlugardedifusã

mais ou menos distantes, disjuntas e, d o

a mutação-comutação da s

distâncias (topologia) em potência (tele-topologia), isto é, em ener- gia luminosa . conjunção da cinemática relativista e da óptica ondu- latória . A crise actual das saias de espectáculo cinematográfico não re- sulta pois essencialmente da difusão ao domicílio dos filmes televi- sivos; trai antes uma crise da noção de representação ligada à ex-

tempo real que é fruto d o

desenvolvimento da videoscopia, não já apenas no domicílio, ma s aqui ou ali, indiferentemente, no próprio corpo de aparelhos . de equipamentos diversos onde se tem vindo a integrar de há uns vin- te anos para cá — sendo o exemplo mais marcante o do entreteci - mento de fibra óptica em diversos materiais compósitos — um a crise da retransmissão diferida que leva, graças às técnicas da ima- gem electro-óptica . a impor hoje a ideia, ou mais precisamente a «ideografia» de uma verdadeira apresentação dos lugares, dos dife- rentes meios, «apresentação» que seria, desta vez à escala humana , o equivalente daquilo que foram no seu tempo a apresentação d a óptica telescópica à escala astronômica ou ainda a apresentação mi- croscópica à escala das propriedades íntimas da matéria . O vídeo estaria, pois, tão longe de ser a oitava arte como o ci- nema esteve longe de ser a sétima . A crise do espectáculo cinema- tográfico, das cadeias concorrentes de televisão, mas igualment e daquilo a que se dá o nome de «vídeo-arte», resulta desse equívoc o e da importância que assumiu, desde as origens da foto-cinemato- grafia, bem como da radio-televisão, o espectáculo dos factos o u das actividades de diversão, em detrimento da iluminação do luga r dos acontecimentos . Apesar de Edison, de Marey, dos irmãos Lu -

plosão do «directo» . Um directo em

mière, de Vertov e de alguns outros mais, o parque de diversões le - vou quase sempre a melhor (como acontece, mais do que nunca, n a televisão) sobre a iluminação, embora o aparecimento súbito d e uma óptica ativa tenha vindo renovar as proezas da óptica passiv a (do vidro e dos diversos materiais transparentes das lentes) sobre a Afloramento de um a

tele--realidade presente, revolucionando a natureza, quer do objecto ,

quer do sujeito da representação tradicional, a imagem dos lugares sucede doravante aos lugares de imagens : salas de espectáculo o u de projecção, sendo que só o teatro, graças à sua unidade de temp o

e de lugar, escapa ainda às transmutações de uma iluminação elec- tro-óptica cujo imediatismo exclui sempre a «unidade de lugar» e m benefício exclusivo da «unidade de tempo», mas de um tempo real que afecta gravemente o espaço das coisas reais . De facto, a par dos efeitos da radio-actividade da emissão e re- cepção radiofónicas, com a sua «alta fidelidade electro-acústica» , temos agora aquilo a que poderíamos chamar a opto-actividade d a comutação videoscópica, com os problemas de «alta definição elec- tro-óptica» que tal pressupõe .

organização

da realidade sensível.

Quando hoje falamos, em Toulouse e noutras cidades, da pers- pectiva de instalar uma televisão de proximidade, uma TV local, es- tamos a tomar de empréstimo, sem disso nos darmos conta, u m vocábulo próprio da videoscopia ou, se se preferir, no caso das ci- dades dotadas de uma rede de televisão por cabo, de uma «video- grafia» que permite à cidade ver-se e dar-se a ver, ou, por outra s palavras, converter-se na sua própria «régie», no seu próprio fil-

E este o sentido do projecto anunciado pelo município de Ren- des : realizar uma «iluminação pública electrónica» para promove r

a existência política e económica do aglomerado, de onde a neces-

sidade de uma tele-afixação municipal, da inevitável tele-venda ao

- domicílio, realização de uma gigantesca montra catódica capaz d e suplantar a imprensa local . Mas não pode já dizer-se o mesmo d a proximidade restrita dos objectos e dos lugares do nosso ambient e quotidiano — terminal vídeo do metro, circuito fechado das em - presas ou das lojas que dão a ver o rosto de quem observa as mon- tras? E isto ainda não é nada, com parado com a disseminação des- sas câmaras-«tomadas eléctricas» e desses monitores-«lâmpadas d e iluminação» incorporados nos objectos correntes como antes dele s o foram o microfone e o altifalante — no rádio-despertador, n o gravador, no walkman ou ainda nos mostradores numéricos do s relógios de quartzo, nas tampas de caneta, nos isqueiros e noutro s objectos heteróclitos . Ao nível da visualização videoscópica , porém, a comutação é diferente : a televisão de «proximidade geo- gráfica» e o vídeo de «proximidade geométrica» parasitam a clar a percepção do aqui e agora, interpenetram e permutam teletopologi- camente os lugares, graças à súbita revelação do «directo», isto é , de um «espaço-velocidade» que suplanta momentaneamente o es- paço-tempo das nossas actividades habituais . Confundindo-se as - sim com uma iluminação para-óptica, a velocidade-limite da trans- missão em directo manifesta-se na luz indirecta da velocidade d o sinal vídeo . Nem a miniaturização nem o gigantismo dos ecrãs são, portan- to, ao contrário do que muitas vezes se afirma no Ocidente, mero s adereços japoneses . O que se verifica aqui, no seio da física d a imagem, verifica-se também na astrofísica, com a próxima entrad a em funcionamento do telescópio espacial Edwin Hubble basead o nos princípios da óptica adaptativa, óptica activa onde o efeito d e correcção da imagem depende das capacidades do computador e não já unicamente das propriedades do vidro das lentes . A escala do ecrã, da imagem, não tem por conseguinte nenhu- ma influência no fenómeno . O dimensionamento dos objectos dei- xou de ser o essencial : o que se manifesta no ecrã catódico é o es-

paço de uma distância que se transmuta, diante dos nossos olhos , em energia luminosa, em poder de iluminação .

Com o intervalo do género «luz (sinal nulo) da nova física»' a substituir repentinamente os intervalos habituais de tempo (sinal positivo) e de espaço (sinal negativo), toda a superfície, seja qua l for a sua dimensão, a sua amplitude, passa a só ter existência ob- jectiva na e pela interface de uma observação que não é já o resul- tado aparente da simples iluminação directa do Sol ou da electrici-

dade, mas sim, rádio-eléctrico

óptica . Aquilo que constatamos a propósito da superfície máxima do

doravante, da

iluminação indirecta do camp o

de uma rede hertziana ou de um cabo de fibr a

globo, submetida ao exame, à inspecção permanente dos satélite s de observação (militares, meteorológicos, etc .) é igualmente válid o para as superfícies mínimas dos objectos e dos lugares, submetidas

à iluminação intensa da videoscopia. Estabelece-se, efectivamente ,

uma misteriosa tele-ponte entre um número sempre crescente d e superfícies, das mais vastas às mais ínfimas, feed-back da imagem e do som que desencadeia, para os observadores que somos, um a tele-presença, uma tele-realidade (vídeo-geográfica ou vídeo-geo- métrica) de que a noção de tempo real é a expressão essencial . Aquilo que a «teoria do ponto de vista» de Albert Einstein no s

ensinava, em 1905, acerca da relatividade da extensão e da duração ,

a existência de um frente-a-frente, de um face-a-face inseparáve l

das superfícies observadas e do observador (interface relativista sem a qual a extensão não possui qualquer dimensão objectiva), confirma-o visivelmente o feed-back instantâneo do vídeo : o meio ambiente electro-óptico sobrepõe-se doravante ao meio ambient e «ecológico» clássico ; impõe-se assim uma «meteorologia electróni- ca» sem a qual a da atmosfera terrestre depressa se tornaria incom- preensível . Num momento em que as grandes cadeias de televisão americanas, ABC, CBS, NBC (televisões unilaterais, não o esque- çamos) obtêm resultados cada vez piores, a CNN, a cadeia d o NeweinformaçãoemdirectodeTedTurnerprojectalançar

s

La Matière-espace-temps, Gilles Cohen-Tannoudji e Michel Spiro, Ed . Favard, 1986 .

Hound, apelando ao milhão de telespectadores assinantes que pos- suem um equipamento de registo vídeo . «E um milhão de hipóte- ses para nos», afirmava recentemente Earl Casey, o responsável po r esse futuro dispositivo interactivo, «um milhão de testemunhas qu e

poderão fornecer-nos imagens : nós só teremos que proceder à se- lecção. » mesmo acontece, desta vez ao nível militar, com os progres- sos eminentemente estratégicos da furtividade dos aviões de com - bate. No momento em que se instaura um ambiente de detecçã o electromagnética complexa a escala do Globo, procuram-se activa - mente os meios para escapar à «vigilância radio-eléctrica» mediant e a introdução de matérias-primas especiais como o super-polímer o PBZ, capaz, segundo se diz, de evitar a detecção das ondas de ra- dar. Ao mesmo tempo, em contrapartida, propõe-se aos fabrican- tes de material aeronáutico que engastem nessas mesmas matéria s fibras ópticas capazes de auscultar, de iluminar em permanência, a espessura das células e dos órgãos motores do aparelho de comba- te.

Se para o filósofo Schopenhauer o mundo era a sua representa- ção, para o videasta, o electrotécnico, a matéria torna-se a su a

apresentação ; «apresentação» externa directa e, simultaneamente , apresentação interna e indirecta, passando o objecto a estar nã o

apenas presente a olho nu, mas também

tele-presente .

Outros exemplos desta inseparabilidade física do dentro e d o fora, do próximo e do longínquo, são-nos fornecidos quer pela in- dústria dos transportes quer pelo desenvolvimento da publicidad e sideral.

«Radio-Determination-Satellite-Service». Graçasaessedispositivodevigilância, (RDSS)ased

A sociedade americana Geostar e, muito em breve, a sua homó- loga europeia Locstar deverão proximamente colocar em órbita o primeiro elemento do sistem a

e

central de uma companhia de transportes observará a cada mome n

"Caçador de Noticias ." (em inglês no original) . (N.T .)

to a posição geográfica de todos os seus veículos, sendo o control o das deslocações confiado a um satélite geostacionário de navega- ção. Compreende-se assim melhor por que motivo a revista Match inscreveu recentemente o seu logotipo no Chott-El-Djerid (tão c convertendo-se subitamente o deserto do Sul daroaBillViola), a Tunísia numa superfície de inscrição, num ecrã, como doravant e acontecerá com o conjunto das superfícies continentais e marítimas expostas ao perscrutar atento do olho orbital dos satélites . Mas este ininterrupto frente-a-frente do cima e do baixo não fi- caria completo se omitíssemos, depois do nadir, o zénite, e a s proezas da publicidade nas mais altas esferas, com o projecto que a firma Coca-Cola tem de inscrever, no firmamento das nossas noi- tes, a sua marca indelével' . Uma vez mais, ' observamos o declínio dos lugares de represen- tação e de projecção — dando a sala, o palco ou o ecrã lugar, pur a e simplesmente, ao céu e ao solo, ao conjunto das superfícies, das mais ínfimas às mais vastas, expostas, ou melhor, sobre-expostas aos olhares curiosos dos aparelhos de captação automática de ima-

gens e de transmissão instantânea

«superfícies», ou mais precisa -

mente «interfaces» que não têm doravante existência objectiva se - não graças ao exame videoscópico, à observação de materiais d e registo e difusão em directo, tele-realidade presente, em «temp o real», que suplanta a realidade da presença do espaço real dos ob- jectos e dos lugares, a que os trajectos electromagnéticos tomam a dianteira.

Para Einstein, o que distinguia uma teoria verdadeira de um a

teoria falsa era apenas o seu prazo de validade : alguns anos, algu- mas décadas para a primeira ; alguns instantes ou dias para a segun-

da

. Não poderia dizer-se o mesmo das imagens, com esta questã o

Uma primeira prefiguração desta situação excêntrica surge no decurso dos anos 30, co m

o nascimento da publicidade aérea : escrever no céu torna-se então uma prática

corrente .

do prazo de validade da imagem, esta diferença de natureza entre a imagem em «tempo real» e em «tempo diferido»? Em última análise, todo o problema da «tele-realidade» (ou, s e se preferir, da tele-presença) assenta nesta mesma questão da vali- dade da curta duração, já que o valor real do objecto ou do sujeit o instantaneamente presentes à distância depende exclusivamente d o trajecto, isto é, da velocidade da sua imagem, velocidade da luz d a electro-óptica contemporânea. O mesmo sucede com

a«tele-acção», graçasàscapacidadesdeinteracçãoinstantâneadateleme- tria, sendo a opto-atividade e da imagem em tempo real análoga ao s efeitos da radio-atividade do telecomando manipulador de objec- tos mais ou menos distantes, veículos teleguiados, máquinas da s cadeias de montagem, instrumentos diversos' . Este advento do trajecto real em detrimento do objecto e d o sujeito reais, tão revelador do primado da imagem sobre a coisa , ela própria fruto da recente supremacia do tempo sobre o espaç o real, é uma manifestação significativa do carácter ondulatório d a realidade . Com efeito, a súbita comutação das aparências sensíveis não é, em última instância, mais do que o sinal precursor de um a des-realização generalizada, consequência da nova iluminação d a realidade sensível . De uma realidade não já apenas «aparente», co-

trans-aparentemo outrora, mas «transparente» ou mais precisamente aind a

.

Fusão/confusão das aparências transmitidas e das aparência s imediatas, luz indirecta capaz de suplantar em breve a luz directa ,

luz artificial da electricidade, é claro, mas antes de mais e essencial - mente luz natural, com as revoluções perceptivas que tal pressu-

põe

advento da luz do tempo, desse tempo intensivo da electro-óptic a que suplanta definitivamente a óptica passiva tradicional . O mais provável, no entanto, é que o estatuto da realidade nã o

O advento do trajecto instantâneo e ubíquo é, portanto, o

' A 19 de Outubro de 1987 , o krach informático de \V A Street dava unia primeira visã o

desta inerligação instantânea dos mercados financeiros, comumment e

dos efeitos negativos

designada por BIG BANG .

resista por muito tempo a esta súbita iluminação dos lugares, do s factos e dos acontecimentos . De facto, se a melhoria da definiçã o

espacial das lentes ópticas das objectivas das câmaras promove a vi - são dos contrastes e aumenta a luminosidade da imagem habitual, a recente melhoria da definição temporal dos processos de captaçã o de imagem e de transmissão electrónica aumenta a nitidez, a reso- lução das imagens videoscópicas. Deste modo, a velocidade audio- visual serve para ver, para ouvir, ou por outras palavras para avan-

çar na

luz

do

tempo real,

como a velocidade automóvel do s

veículos servia para avançar na extensão do espaço real de u mterritório

.

À «transparência» acrescida dos meios de comunicação de alt a

.) vem pois somar-se esta sú-

velocidade (TGV, avião supersônico

bita trans-aparência (electro-óptica e acústica

o

da imagem contribuem, de facto, para modificar profundamente a

) dos meios d

. A alta fidelidade e a alta definiçãeinformaçãoedetelecomunicação

relevo que não é afinal mai s

do que a maior ou menor realidade das coisas percebidas, relevo espácio-temporal que condiciona a nossa apreensão do mundo e do tempo presente . Efectivamente, e uma vez que toda a alteraçã o de intensidade da luminância é interpretada pelo olho como um a mudança de forma, a luz (directa ou indirecta, natural ou artificial ) não engendra unicamente a coloração dos objectos e dos lugares , mas igualmente o seu relevo . Daí a importância das pesquisas so- bre a alta definição da imagem, definição simultaneamente espacial e temporal de um sinal vídeo capaz de operar, agora para o espaço visual, aquilo que a alta fidelidade do sinal rádio já realizara para a estereofonia dos volumes sonoros : uma verdadeira estereo-óptica integrada no ambiente doméstico. Assim, e tal como a técnica de captação de imagem sideral me- lhora constantemente a resolução das imagens dos satélites d

natureza do relevo (sonoro, visual

),

gens televisivas, de modo a aumentar não já

 

etele-detecção,tambémmelhoraconstantementeadefiniçãodasima-

a

transparência

eléctrica do ambiente local, como acontecia no início do século ,

com a electrificação geral de cidades e campos, mas desta vez a

trans-aparência electro-óptica do meio ambiente global . Emergên-

cia de um novo tipo de «relevo», de volume audiovisual, aplicável à totalidade das aparências transmitidas ; «estereo-videoscopia» aná- loga, na escala macroscópica, àquilo que ontem representou, para a revelação volumétrica do infinitamente pequeno, a criação da mi- croscopia electrónica de varrimento . Para vermos, não nos conten-

tamos já

também, pela comutação Lias aparências, o obstáculo da extensão, a opacidade das distâncias demasiado vastas, graças

com dissipar trevas, a escuridão ambiente : dissipamo s

àimplacável

perspicácia de um material videoscópico análogo ao mais potent e

dia» da luz elec-

tro-óptica, de uma iluminação publica indirecta, fruto d

odesenvolvimentodaondizaçãodoreal edofigurado, luzartificial quecom- pleta doravante a luz eléctrica como esta veio outrora completar a luz do dia . As 13 e 32, hora local, do dia 26 de Outubro de 1987, na bas e californiana de Vandenberg, um foguetão TITAN-34D lançava u m

dos projectores de iluminação

.Aurora do «falso

satélite KH11 . Colocado numa órbita polar que lhe permite visua- lizar o planeta inteiro, este satélite pode, a qualquer instante, utili- zar o zoom, girar sobre si próprio e transmitir imagens convertida s

vida média desta luminária militar é

em impulsos electrônicos de trinta e seis meses

Não podemos, de facto, separar a invenção do cinematograf o da dos projectores de iluminação, tal como não podemos separá-l a da inovação que foi a fotografia instantânea . Recorde-se que Tho- mas Edison, inventor em 1879 da lâmpada eléctrica de incandes- cência, criou também, alguns anos mais tarde, o cinetoscópio . Quanto a Louis Lumière, Marinha Nacional emprestou-lhe, para a Exposição Universal mais potente projector de com - bate de que dispunha, permitindo-lhe projectar os seus filmes num

em 1948, aliás ,

pouco antes de morrer, o pioneiro do cinema trabalhava ainda n o aperfeiçoamento dos faróis necessários à marinha de guerra . Nos nossos dias, a projecção hemisférica dos filmes de band a larga do Géode só é possível graças à utilização de uma lâmpada d e xénon de 15 kilowatts, inicialmente concebida para iluminar a da NASA .

grande ecrã, na célebre Galeria das Máquinas

de lançamento dos foguetões

splataformas

Por último, quando em 1969, no momento do regresso dos as- tronautas da missão lunar Apoio XI, o presidente dos Estado s Unidos ordenou que se iluminassem as cidades costeiras, como se acendem, ao cair da noite, os vulgares candeeiros de uma marginal , prestava assim homenagem não só aos conquistadores da Lua, ma s ao nascimento de uma iluminação pública doravante capaz de reve - lar a presença do homem até nos mais longínquos confins da at-

mosfera . Iluminação dos teatros, das festas palacianas do século de Luí s XIV, ou iluminação pública das cidades, no fim do século passado ,

a história do espectáculo e das representações públicas é insepará -

vel da da luz, desde os fogos de artifício, passando pela lantern a mágica de Athanase Kircher e pelo Diorama de Daguerre (decora-

dor da ópera de Paris e do Ambigu Comique) até às recentes ma- nifestações de «luz e som», sendo o próprio nascimento do cinem a inseparável do desenvolvimento da luz artificial e das famosa s «lâmpadas de arco voltaico» necessárias tanto à captação de ima- gens em estúdio como à projecção nas salas das obras filmadas . O outro aspecto revelador desta repentina extensão da transpa-

rência está ligado às necessidades policiais, permitindo a ilumina- ção das ruas reforçar a segurança e assim prolongar, com a activi- dade dos estabelecimentos comerciais, o enriquecimento da cidade .

E isto desde o célebre decreto do intendente de polícia La Reynie ,

em 1667, origem do renome mundial de Paris como cidade-luz, até ao actual desenvolvimento da vídeo-vigilância, passando pela elec- trificação de cidades e campos, no início do século xx, empreendi - mento análogo à ligação por cabo dos aglomerados, já que a vídeo-

-distribuição por fibra óptica retoma os aspectos essenciais d o processo de electrificação geral do país ; com uma mutação impor- tante relativa à própria natureza dessa luz, não já apenas «artifi- cial», mas também «indirecta», tão dissemelhante da luz directa co- mo a dos candelabros diferia outrora da luz dos astros . Nestamesmaperspectiva,assinalem-seaindaacâmara(ouo binóculos) providos de um intensificador de luz, correntement e utilizados pelo exército e permitindo ver em plena noite, a distân- cias consideráveis . Substituindo muitas vezes os sistemas de raios infra-vermelhos, a "televisão de baixo nível luminoso» assemelha -

-se de certa forma a um acelerador de partículas ; com efeito, po r muito ténue que seja a luz ambiente, este sistema amplifica-a at é

s

Constituído por um tubo colocado nu m

campo eléctrico potente e contínuo, o aparelho de captação d e imagem comporta vários patamares sucessivos de aceleração do s fotões, que aumentam na proporção correspondente a luminosida- de da imagem final, vindo as partículas de luz aceleradas embater , ao chegar à outra extremidade do tubo, num ecrã revestido po r uma película de fósforo, de que todos os pontos se tornam assi m luminescentes . Este tipo de material de iluminação indirecta come- çou há pouco a ser correntemente utilizado pelas polícias alemã e britânica, nomeadamente para a vigilância dos estádios . Com efeito, quando o tempo real das teletransmissões e

perto de cem mil vezes

mdiretosesobrepõeaoespaçoreal deumpaís, deumaregiãoefecti- vamente atravessada . já não basta a simples distinção entre lu z

natural e artificial : há que acrescentar-lhe ainda a diferença de na- tureza entreluz directa (natural ou artificial) e luz indirecta, pois a iluminação electro-óptica substitui doravante a iluminação eléctric a como esta última renovou, no seu tempo, o nascer do dia . Isto enquanto aguardamos o rápido desenvolvimento das proe- zas da infografia e da sua óptica activa : a conjugação da óptica pas- siva das câmaras de registo de imagem com um computador capaz de restituir a imagem como outrora só as lentes de vidro faziam .

A óptica numérica sucederá então

à analógica, do mesmo modo

que esta última completou habilmente a óptica ocular da visão hu - mana. Sendo a imagem a forma mais sofisticada de informação, é d e

facto lógico prevermos que os progressos da informática venha m também eles a desembocar num novo desenvolvimento dessa lu z indirecta : luz numérica, agora, capaz de atravessar as trevas do rea l e de veicular, com as aparências mais realistas, uma transparênci a desconhecida, tal como a que é já permitida pela utilização da geo- metria fractal, com efeitos de zoom numérico que não são outra coisa senão uma iluminação sintética . Os trajectos da su a TRANS-APARÊNCIA assinalam os constituintes íntimos da forma-imagem , forma do que não tem forma, imagem do que não tem image m (Lao-Tsé), figura de uma dinâmica do vazio análoga à da física su- batómica de que o pensamento oriental deixara há muito em aber- to a possibilidade . Mas voltemos à cidade, a essa «cidade-luz», foco de todas a s iluminações históricas, desde o incêndio de Roma ou o artifício pi- rotécnico do Século das Luzes até aos recentes espectáculos d . Sendo a iluminação sinónimo de desocultação de um «cená-elaser rio», de uma revelação da transparência sem a qual as aparência s nada seriam, só uma concepção restritiva poderia ainda limitar a luz à simples iluminação dos lugares. Como não adivinhar, de fac- to, por trás dessas deslumbrantes manifestações electro-ópticas , que a imagem pública está em vias de substituir o espaço público e que a cena política não poderá amanhã dispensar a iluminaçã ireta, tal como ontem não dispensava a iluminação directa da oind lu z artificial? Cidade-teatro das origens, organizada em torno d

, oespetáculopúblicodaágora, dofórumoudoadrodaigreja

cine-città da modernidade ocidental e, por último, tele-città contempo- rânea dessa comutação das aparências sensíveis que hoje se instaura graças às proezas dos satélites, das redes hertzianas e dos cabos d e

fibra óptica

bido utilizar, no seu tempo, o espectáculo da transparência, a ilu-

minação pública, para desenvolver a sua cultura, o seu imaginári o colectivo .

tendo cada uma destas «representações urbanas» sa-

_ Esta ideia é bem ilustrada por uma situação de excepção : n a Primavera de 19S9, entre Maio e junho, os estudantes de Pequi m decidem manifestar-se pela «democracia» . Para o fazer, reúnem-se , invadem progressivamente a praça Tienanmen e decidem

velhapráticaqueremonta,não,comos

aocupá-laportempoilimitado

e disse, ao sit-in dos anos 60, mas à cidade grega onde o espaço pú- blico da ágora é o garante da unidade política, do direito de cidad e

dos cidadãos reunidos contra a ameaça de um tirano . A 14 de Maio, aquando da visita de Gorbatchov, são trezento s mil ; cinco dias mais tarde, um milhão . Tirando partido do facto d e a maioria das agências internacionais ter enviados as suas câmaras , os seus repórteres — ou mesmo os seus maiores editorialistas, co- mo Dan Rather — para cobrir a reconciliação dos dois grandes gi- gantes do comunismo, os estudantes chineses exigem uma retrans-

missão em directo dos acontecimentos de Tienanmen, para que

a

imagem da mais célebre praça pública do país seja projectada nã o

apenas, como de facto aconteceu, no mundo inteiro, graças à . mas sobretudo em Xangai, em Cantão e emstelevisõesestrangeiras

to -

da a China . Esta exigência é rejeitada pelas autoridades, que finalmente ins- tauram a lei marcial ; uma lei marcial que permitirá o massacre d a população de Pequim pelos blindados do exército popular chinês . Aquilo que se passara já na Checoslováquia por ocasião da Prim a vera de Praga, na Polônia com a instauração do «estado de guerr a interna», reproduz-se agora na Ásia : o exército do povo esmaga o povo . Mas voltemos à iluminacão destes acontecimentos pelas agên- cias do mundo inteiro : conscientes da extrema importância política da presença em Pequim de mil e quinhentos jornalistas, os estu- dantes chineses manifestaram constantes sinais de cumplicidad e com os seus longínquos, muito longínquos «telespectadores», redi- gindo por vezes em francês on inglês as suas faixas, multiplicand o os símbolos exóticos, como essa «estátua da liberdade» erigida à sombra do retrato de Mao Tse-Tung, ou ainda as contínuas refe

Outrora, a superfície da ágora o u

da praça de armas de uma cidade militar correspondia à «superfí- cie» dos homens armados : cidadãos-soldados da democracia antiga ou tropas regulares das cidades fortificadas . «Marchar separados , combater unidos» — a divisa da infantaria correspondia também à aglomeração na praça pública dos cidadãos a quem as ruas vizinha s davam rapidamente acesso a esse lugar onde o poder público s e identificava com a multidão unida perante o perigo, perigo d e agressão estrangeira ou de guerra civil . Curiosamente, com a imagem pública de Tienanmen, retrans- mitida no mundo inteiro, assistimos simultaneamente a uma exten- são infinita dessa superfície, graças à interface em tempo real d o ecrã de televisão, e a uma miniaturização, não permitindo o ecrã catódico de 51 cm apreender seriamente a espessura dos aconteci - mentos retransmitidos. Daí a importância do que sucede então e m Hong Kong, nesse período crucial para o seu futuro : a utilização , não apenas dos televisores privados, mas principalmente do ecrã gigante do estádio da cidade, para uma união colectiva com o qu e se passa no centro da capital chinesa . A TELETOPIA (01) é isso mesmo, suprindo a continuidade em tem- po real a ausência de contiguidade do espaço real, o estádio e o ecrã gigante de Hong Kong tornados por algum tempo insepará- veis da praça Tienanmen, como esta última o era já dos milhões d e televisores privados do mundo inteiro . Aquilo que está nos antípo- das tornado visível, acessível, apesar dos interditos da cidade proi - bida, graças ao poder de uma nova iluminação urbana possibilitad a pela energia de uma luz simultaneamente electro-óptica e acústica , luz viva cujos efeitos sobre a sociedade serão incomparavelment e mais importantes do que o foram os da electrificação das cidades , há mais de meio século . Tempo real, tempo diferido, dois tempos e dois «andamentos» :

a 15 de Maio de 1989, os estudantes reunidos na praça Tienanme n

rências à Revolução Francesa

Veja-se a este propósito o projecto de DESCENTRALIZAÇÃO DA CAPITAL DA EUROPA, qu e entreguei no Eliseu a 14 de Julho de 1988 .

oatrasocemqueirradiaavivaluzdosfactos

reclamam uma emissão noticiosa em directo, e é em vão que a re- clamam. A partir de 7 de Junho, depois dos trágicos acontecimentos d e

Pequim, a televisão chinesa não pára de difundir

em diferido se-

quências filmadas pelas câmaras de vigilância automática da polícia , mostrando as violências cometidas contra veículos e militares isola - dos ; e isto sem nunca ter dado a ver a ocupação pacífica da praça e

o massacre dos seus ocupantes pelo exército da Republica Popula r

escolha da imagem, ou mais exactamente, escolh a

da China

do tempo da imag em,

momento. Como se a vastidão desse continente e a multidão do s que o povoam importassem afinal menos do que a duração, o ins-

tante escolhido para se talar deles, para dar a ver o que aí se pass a

de fato

Tienanmen preocupam a tal ponto os dirigentes chineses que este s

se vêem obrigados a atenuar os seus efeitos graças ao

decide pelo país da realidade política d o

O tempo e o espaço reais do acontecimento da praça

REPLAY .

Estranha política onde o atraso calculado da imagem públic a pretende impedir as consequências desastrosas, como outrora a s muralhas do espaço público e as leis da cidade travavam as ameaças de subversão ou de agressão . Não já apenas a escolha do dia e d a hora para agir concretamente, como noutros tempos, mas a esco- lha, a decisão da ocultação imediata do acontecimento, uma oculta- ção temporal e te mporária, paralela à repressão física dos actores , ao massacre dos estudantes da praça Tienanmen . Podemos. de facto a propósito destes acontecimentos, falar d e «cerco», de um novo tipo de «estado de sítio» : não já tanto o cerco das tropas ao espaço da cidade, mas o estado de sítio do tempo, do tempo real da informação pública . Não já a habitual censura, a di- vulgação proibida, o segredo de Estado, mas o REPLAY, . «Guerra do tempo dando enfim razão a Louis-Ferdinan d Céline, que no fim da vida declarava, desanimado : «Neste momen- to só os factos contam . e mesmo esses não contarão por muito

ODIFERI-DO,

Hoje esse momento já passou, um pouco por toda a parte, n a China como no resto do mundo ; os factos são desagregados pelo s

efeitos de interactividade das telecomunicações . A realidade TELE- TÓPICA leva a melhor sobre a realidade TÓPICA do acontecimento .

A

9 de Junho de 1989, a televisão chinesa advertia solenemente qu e

o

exército dispararia sem aviso prévio sobre todo e qualquer porta -

dor de uma câmara ou máquina fotográfica.

Refira-se ainda um último aspecto, que confirma a mutação e m curso : a crise do automóvel doméstico, ou mais precisamente a su a decadência simbólica em proveito de outros objectos, de outro s veículos mais excêntricos . «O automóvel será a última das sua s preocupações» — esta frase, que coroava o stand da Ford no Salão do Automóvel de 1988 em Paris, ilustra eloquentemente esse declí- nio . Um declínio que se reveste, como sempre, de um máximo d e ornamentos, de acessórios inúteis, como a mudança de nome d o próprio evento : «O Mundial do Automóvel» . Na realidade, o que é efectivamente mundial nos nossos dias é a televisão — o directo televisivo — já que o automóvel particular , seja desportivo, seja de transporte, nunca é mais do que um objec- to local . Daí o êxito recente do veículo todo-o-terreno, esse famo- so 4 x 4 que procura escapar à rotina dos caminhos mais batidos , essa personagem excêntrica que quer a todo o custo sair da estrada , da auto-estrada . Hoje em dia, como vimos, o único veículo eficaz é a imagem . Uma imagem em tempo real que vem substituir o espaço onde s e desloca ainda o automóvel . Em última análise, a crise do automó- vel doméstico é bastante análoga à do cinema de bairro . Quanta s dessas salas escuras se viram, de resto, transformadas em garagens , em estações de serviço, antes de estas últimas se converterem po r seu turno em supermercados ou, mais recentemente ainda, em es- túdios de gravação ou sedes de editoras .

Como ainda há pouco tempo dizia Fellini : «Já não viajo .» De facto: limito-meaterdevezemquandoacessosdedeslocação

. j á

não habitamos a energia motriz de um qualquer «meio de trans- porte» ; é essa energia q ue. como a febre, nos habita, nos possu

que dá speed .

i intensamente, deondeograveriscodoprodutodopante, dadrog a

«O cinema», declarava Alfred Hitchcock, «são cadeiras co m

.» Sendo embora verdade que os assentos das carro-

çarias fechadas estão por enquanto menos vazios que as plateia s

por quanto tem-

po ainda aceitaremos o tédio dos trajectos de auto-estrada ? No Japão, a televisão invadiu já os táxis e os elevadores da tor- res mais altas . Proibido, como os cães, de circular nas praças, o au- tomóvel deixou de frequentar as zonas para peões de certos bairro s centrais, refugiando-se no periférico, à espera do super-periféric o parisiense ou ainda do sistema laser ultra-rápido e subterrâne .

gente sentada

das salas de projecção. :ião devemos ter ilusões

oondeoautomóvelseconfundirácomometro

Como deslocar-se sem se mover? Como vibrar em uníssono ?

Perguntas que deverão desembocar em breve noutros engenhos , noutros meios de transporte ou de transmissão, sem relaçã

oalgumacomoutensíliodomésticodequeaindahojenosservimos . Observe-se que não rodamos já sequer o botão do rádio, pres- sionamos uma tecla, carregamos no comando à distância d

s animados de um movimento giratório, tendo em seu lugar u m mostrador numérico . «Isto substituirá aquilo>, escrevia outrora o velho Hugo,

eatéosnossosrelógiosdequartzodeixaramdeterponteiro

atelevisão

. Não poderá amanhã dizer-se o apropósitodolivroedacatedral mes-

real-

mente ?

Pois não inventaram recentemente os japoneses (sempre eles) o BO .DO .KAHN, uma alm ofada vibratória para se ouvir em cadência o walkman? E nem a luz do sol nascente ilumina já com os seu s raios móveis os apartamentos nipónicos, agora ensolarados por fi- bra óptica

mo acerca do ecrã e da limusina? Até quando circularemos

Aliás, segundo dizem os próprios responsáveis, na conurbaçã o de Osaca (20 milhões de habitantes) estão já a ser implantadas re- des de cabos ópticos por baixo das auto-estradas, circulando a s imagens num nível inferior ao dos automóveis . Ouçamos o cam- peão do mundo de Fórmula 1, Alain Prost : «A verdadeir oscomobstáculosaimpressãodenosmover mos num filme em câmara lenta .» E o antigo piloto de rallye s Bernard Darniche afirmava, pouco depois de se retirar da competi-

ção.»

avelocidadeéabordarmos

-

: «Para mim, o carro ideal é uma régie víde omóvel

Para quê tentar dissimulá-lo? A única forma de salvar o auto - móvel particular é introduzir nele o compressor temporal da ima -

gem vídeo : o TURBO-COMPRESSOR DA IMAGEM EM TEMPO REAL .

O automóvel que fala e previne o condutor das avarias mecâni- cas é um erro, no momento em que são lançados no mercado (po r

100 000 francos, o preço de um veículo) simuladores de estrada pa- ra as escolas de condução . O que interessaria realizar seria o auto- móvel que vê, que detecta, o veículo trans-horizonte, conciliand o

simultaneamente

velocidade automóvel e velocidade audiovisual .

Talvez o projecto PROMETHEUS que reúne, no quadro do program a EUREKA, os doze construtores europeus, siga com proveito esse ca - minho . O «travel-pilote» da firma Blaupunkt não passa de um sis- tema ultrapassado de condução automática, quando sabemos qu e um minúsculo dispositivo electrónico com menos de um micro n de comprimento poderá conter em breve o equivalente a toda a re- de viária dos Estados Unidos. Num tempo em que podemos visionar num único videodisco a totalidade dos diferentes percursos de uma cidade — como o ilus- tra o exemplo de Aspen, no Colorado — como não tentar renova r a perspectiva automóvel? Uma «perspectiva» onde a profundidad e temporal da imagem electrónica levaria a melhor sobre a profundi - dade espacial da rede de auto-estradas . Um anúncio recente da máquina de lavar Thompson chamava a esse electrodoméstico «computador de lavar». Porque não com- preender enfim que o engenho de transporte do futuro será antes

do mais um «com putador de circular» onde as capacidades audio- visuais do painel de comandos electrónico se sobreporão à

.

aocampovisual dopára-brisas

squalidadesópticas,

Tal como o pára-quedismo evolui cada vez mais no sentido d o «voo relativo», também a deslocação automóvel evoluirá amanh ã do meio de transporte físico absoluto para um misto tecnológico , um meio de "trans porte relativo" associando transporte e transmis- sões instantâneas, com a energia cinemática da imagem vídeo-info- gráfica a completar vantajosamente a energia cinética da cilindrad a do motor .

Há uma velocidade superior que desqualifica progressivamente todas as outras, a nem o TGV nem o avião hipersônico pode m

contrajá

isso o que quer que seja : a máquina para descer o temp o

não é o automóvel, mas o audiovisual e as tecnologias do temp o real. Há alguns anos . a Fundação Cartier de Arte Contemporâne a expunha uma magnífica colecção de Ferraris ; verdadeiro simpósi o de coupés, de berlinas e de descapotáveis, essa mostra de luxo, n o parque de Jouv-en-josas, limitava-se, porém, a ilustrar a evoluçã o do aerodinamismo, um «aerodinamismo» tão arcaico na era d a concepção e da condução assistidas por computador como o .

édesdehámuitoaestéticadosmóveisantigos

O ÚLTIMO VEÍCULO

«Amanhã, aprender o espaço será tã o útil como aprender a conduzir u m automóvel .»

WERNER VON BRAU N

Existe em Tóquio uma nova piscina de corrente muito fort e

Um a

bacia de água animada, impedindo de avançar quem nela se encon - tra, exige do banhista uma força de deslocação para permanece r

onde os nadadores procuram manter-se no mesmo lugar

A maneira das bicicletas ergométricas ou dos tapete s

rolantes que utilizamos a contra-corrente, a dinâmica dos fluido s da piscina nipónica não tem outra função além de levar o

o

snadadoresdecompetiçãoacombateressaenergiaqueatravessaoespaç ao seu encontro — essa energia que sucede às dimensões da piscin a olímpica como os rolos da bicicleta ergométrica substituem

onde está

ovelódromo Assim, aquele que se exercita torna-se aqui, não tanto uma en- tidade móvel como uma ilha, um pólo de inércia . Tal como no pal- co, tudo se concentra no mesmo lugar, tudo se joga no instant e privilegiado de um acto, instante desmesurado que toma o lugar d a extensão e das longas durações . Não já um campo de golfe, mas um jogo de vídeo ; não já uma pista de automóveis, mas u : o espaço já não se estende, o momento demsimuladordecorrida inérci a sucede à deslocação contínua. Observa-se, de resto, uma tendência análoga na encenação mu- seográfica . Demasiado distantes, os mais vastos conjuntos de expo - sição têm vindo recentemente a tornar-se redutos temporais inver- samente proporcionais à sua dimensão global : o dobro do espaço a

percorrer, metade do tempo a gastar no percurso . A aceleração d a

visita mede-se pela altura das cornijas, demasiado espaço, demasia - do pouco tempo, o museu dilata-se em extensões inúteis que a s obras já não conseguem mobilar. Provavelmente porque esta

súltimastentamaindaespraiar-se, disseminar-senoespaçodessa slongínquassuperfíciesagoraprivadasdeatractivos, àmaneirada s

grandes perspectivas da era clássica . Erigidos em memória de obras consideráveis e longamente con- sideradas pelos visitantes atentos do passado, os nossos monumen- tos são hoje ultrapassados pela excessiva pressa do espectador

m instante, e que foge, tanto mais depressa quanto mais é imponent e a vastidão dos volumes propostos . Monumento de um momento em que a obra se eclipsa, mais d o que se expõe, o museu contemporâneo tenta em vão congregar , reunir ante o olhar essas obras, esses trabalhos habitualment

eresguardadosnoatelier, naoficina, laboratóriosdeumapercepçã o aprofundada que não é nunca a do transeunte, a desse «visitante - -passageiro» distraído peia tensão que o anima . Nessa mesma pers-

pectiva de retenção, de restrição do

, desse«amador»queimportariaporémreter, fixarpormaisdeu

tempo de passagem, assinale -

mos ainda um projecto manifesto : trata-se da reconstituição e m miniatura do Estado de Israel onde « na máxima segurança e co m

a

cópia exacta do museu do Holocausto, um fragmento do Muro das Lamentações e a reconstituição em miniatura do lago de Tibería- des, com alguns metros cúbicos de água de origem .» A tudo isto , os directores da fundação criada para este efeito acrescentariam a exposição de materiais diversos e componentes eléctricos, produto s da indústria israelita . Esta manifestação de extra-territorialidade te - ria lugar ao largo de Douarnerez, na ilha de Tristan, sendo esta ce- dida pela França ao Estado hebreu Mesmo que esta utopia não chegue a concretizar-se, não deix a de trair, de maneira exemplar, essa contração telúrica, essa súbit a «sobre-exposição > que hoje afeta a extensão dos territórios, a su-

um mínimo de deslocação física, os visitantes poderiam admirar

perfície dos objectos mais vastos, bem como a própria natureza da s

nossas últimas deslocações . 'Deslocação sem se sair do sítio, apare - cimento de uma inércia que está para a paisagem percorrida com o

a imobilização da imagem para o filme

última geração de veículos, meios de comunicação à distância, se m

medida comum com os da revolução dos transportes, como se a conquista do espaço se revelasse em última instância enquanto me-

ra conquista das imagens do espaço. Com efeito, se o final d

advento também de um a

o veículo automóvel, veículo dinâmico, ferroviário, rodoviário e mai s tarde aéreo, parece evidente que o final do século anuncia um próxima chegada do veículo audiovisual aúltimamutação,coma

loIXeosprimeirosXanosdoséculoxxassistiramaoadventod

osécu

- mento da inércia domiciliária que acarretaria enfim o triunfo d a sedentaridade, de uma sedentaridade agora definitiva. A transparência do espaço, transparência do horizonte das nos- sas viagens, dos nossos percursos, sucederia então essa transparên- cia catódica que não é mais do que o culminar perfeito da invençã o do vidro, há quatro mil anos, do espelho, há dois mil, e ainda d a «montra», objecto enigmático que todavia marcou a história da ar- quitectura urbana, da Idade Média aos nossos dias, ou mais preci- samente até à recente realização dessa montra electrónica, último horizonte dos nossos trajectos, de que o «simulador de voo» re- presenta o modelo mais acabado. A evolução recente dos parques de diversão prova-o, de resto, à saciedade : laboratórios de sensações físicas, com os seus tobogans , as suas catapultas e as suas centrifugadoras, modelos de referênci a para o treino dos aviadores e dos cosmonautas, também a feira p o pular se encaminha, no dizer dos próprios responsáveis, para a ex - perimentação colectiva das puras sensações mentais e imaginárias . Após ter sido, no século passado, o teatro das sensações fisiol ó gicas perdidas para uma população operária privada de actividades corporais enriquecedoras e diversificadas, o parque de diversõe s prepara-se para se tornar o cenário das simples ilusões de óptica, o

uloestático,substitutodasnossasdeslocaçõesfísicaseprolonga

,veíc

lugar de generalização do não-lugar da simulação, de trajectos fic- tícios susceptíveis de proporcionar a cada indivíduo um

à perda das actividades físicas no século XIX . E verdade, porém, qu e paralelamente às artes de feira do funambulismo e da vertigem, o s «panoramas», "dioramas" e outros cinematógrafos, tinham ele s próprios aberto caminho ao "panrama", ao «Géode», cinema he- misférico prefigurado pelo «balão cineorama» de Grimoin-Sanson, formas arcaicas dos nossos actuais veículos audiovisuais, de que o s Hale 's Tours americanos viriam precisar o projecto, já que entr e 1898 e 1908 alguns deles foram efectivamente financiados por com- panhias de caminhos-de-ferro . Recorde-se que esses filmes, roda - dos na dianteira de uma locomotiva ou na plataforma panorâmic a da traseira do comboio, eram em seguida projectados para

perdadevisão»quesucede

aalucinaçãoelectrónica, umaembriaguez

opúblicoemsalas'quereproduziamfielmenteascarruagensferroviária

s da época . Algumas destas curtas-metragens foram, aliás, realizada s por Billy Bitzer, futuro operador-chefe de D . W. Griffith . Chegados a este ponto, convirá todavia remontar às origens d a ilusão motora, aos irmãos Lumière, ao filme "A chegada de u m comboio à estação de La Ciotat", de 1895, e sobretudo a essa Pri- mavera de 1896 que assistiu â invenção do travelling por Eugèn e Promio . Ouçamo-lo :

«Foi na Itália que me ocorreu pela primeira vez a ideia das vis - tas panorâmicas . Ao chegar a Veneza, durante o trajecto de barc o da estação até ao hotel, no grande canal, via as margens fugire m diante do esquife e pensei então que se o cinema imóvel permite re- produzir objectos móveis, talvez se pudesse inverter a proposição e tentar reproduzir com a ajuda do cinema móvel objectos imóveis . Fiz em seguida um filme que enviei para Lyon, pedindo a Loui s Lumière para me dizer o que pensava da experiência . A respost a foi favorável . » Para compreendermos bem a importância desta inauguração d o

«cinema móvel», ou por outras palavras, do primeiro

tico, recuemos ainda um pouco mais na história . Sem remontarmos

veículo está -

demistoaudiovisual,afinaautomóvelumé--

formas,ademutaçãoveicularteestálonge

até às «fotografias aerostáticas» de Nadar (1858), origem da im-

ponderabilidade fílmica, assinalemos que em 1910 se realizará a primeira «captação de imagem aeronáutica», a bordo de um aero-

Quanto ao hoje tradicional «veículo travelling »

sobre carris, inseparável do cinema contemporâneo, surgirá quatr o anos mais tarde, aquando da rodagem de Cabina por Giovanni Pastrone . Indiquemos, ainda a mulo de lembrança, os comboios d a Agit Prop, entre 1918 e 1925, a utilização da perspectiva ferroviári a por Dziga Vertov, admitido em 1918 no «cine-comité da 1923 promoverá a criaçãosatualidades»deMoscovo, equeem de um a

«secção de automóveis cinematográficos», a utilizar em caso de ur- gência para cobrir os acontecimentos importantes, antepassada da s «equipas de exteriores» de televisão . Com este acoplament

plano Farman

l

a

tica confundem-se . A teoria do ponto de vista de Albert Einstein ,

posteriormente denominada «teoria da relatividade restrita», surgiu em 1905 . Seguir-se-lhe-á, cerca de dez anos mais tarde, a d

oveicular, estarealização

nossa percepção do mundo que se modifica : a óptica e a cinemá-

para efeitos arelatividadegeral,recorrendo d e

compreensão imediata, à metáfora do comboio, do eléctrico e d o elevador, veículos de uma teoria física que lhes deve tudo ou quas e tudo ; assistiremos, com efeito :durante o mesmo período histórico ,

à revolução dos transportes, acompanhada por uma singular muta-

ção da chegada, com a progressiva negação do intervalo de tempo ,

a retenção acelerada do tempo de passagem que separa a partida d a

chegada. A distância espacial cede subitamente o lugar à mera dis- tância no tempo, passando as mais longínquas viagens a ser pouco

mais do que breves intervalos Porém, como já antes indicámos, se o século XIX e uma bo a parte do século xx assistiram de facto ao surto do veícul

oautomóvel sobtodasassuas chegado ao fim, pois conduzirá, como outrora mas mais depressa, do nomadismo desenfreado à inércia, à sedentaridade definitiva da s sociedades.

r

ambas abundamentemente,

A partir dos anos 30, com efeito, e contrariamente ao que as aparências à primeira vista indicam, é o veículo audiovisual que s e impõe, com a rádio, a televisão, o radar, o sonar e a óptic

.

Primeironaguerra, depois—eapesardadifusã

maciça do automovel individual — a seguir â guerra, na paz, ess a

«paz nuclear» que assistirá à revolução da

ca telemática indispensável à manutenção das diversas políticas d e dissuasão, militar e economica. A partir do decénio 1960-1970, o essencial jogar-se-á menos no domínio das vias de comunicação d e

um dado território de

aelectrônicanascente

o

informáti-

onde a desregulação, a desregulamentaçã o

tarifária dos transportes colectivos) do que no éter, o éter . Doravante, tudo acontece sem que seja necessário partir . À che- gada restrita dos veículos dinâmicos, moveis e depois automóveis , sucede bruscamente a chegada generalizada das imagens e do s sons, nos veículos estáticos do audiovisual . A inércia polar começa . A interface instantânea toma o lugar dos intervalos de tempo da s mais longas durações da deslocação . Após o advento, no sé- culo XIX, da distância tempo em detrimento da distância espacial, é agora o advento da distânciadasimagens/velocidadeelectrónicas a imobilização da imagem sucede ao estacionamento contínuo .

electrônicodastelecomunicações

:

Segundo Ernst Mach, o universo estaria misteriosamente pre-

Efectivamente ,

se cada veículo móvel ou automóvel) veicula uma visão específica , uma percepção do mundo que não é mais do que o produto da su a velocidade de deslocação no seio do meio ambiente, marítimo o u aéreo, cada uma das visões, das imagens (ópticas, sonoras) d o mundo percepcionado representa por seu turno, inversamente, u m «veículo», um vector de comunicação inseparável da sua velocidad e de transmissão, e isto desde a instantaneidade telescópica da resti- tuição da imagem na óptica passiva das lentes da luneta de Galileu

sente em cada lugar e em cada instante do mundo

até aos nossos modernos «meios de telecomunicação », à óptica ac- tiva da vídeo-informática . Deixámos, assim, de poder distinguir claramente o veículo di- nâmico do veículo estático, o automóvel do audiovisual o re- cente primado da chegada sobre a partida, sobre todas as partidas e por conseguinte todos os trajectos, opera uma misteriosa conjun- ção inércia do momento, de cada lugar e de cada instante d o momento presente, no fundo análoga ao princípio d

einseparabilidade, princípiodeumainérciaquecompletaecoroaodaindeter-

minação quântica. Ainda que se assista hoje a uma tentativa de fusão tecnológic a dos dois veículos -- com a utilização sistemática no Japão, po r exemplo, de vídeo-paisagens nos elevadores das torres de grand e altura ainda que a aviação comercial, os transportes de long o curso, sejam actualmente indissociáveis da projecção durante o vo o de filmes de longa-metragem, esta conjunção momentânea condu- zirá inevitavelmente à eliminação do vector menos operante e m matéria de velocidade de propagação -- a actual fuga para a frente do comboio de alta velocidade e do avião supersónico, bem com o

a desregulamentação de que ambos são objecto, indicam melhor d o que qualquer previsão que o vetor veículo ameaçado, é de facto

o da automobilidade terrestre, marítima e aérea . A era do tempo intensivo já não é a era do meio de transporte

físico . E, contrariamente ao tempo extensivo de outrora, o domíni o exclusivo do meio de telecomunicação, ou por outras palavras, a era da imobilidade e da inércia domiciliária . Provam-no, por exemplo, a evolução recente do automóvel , bem como a das corridas de Fórmula 1 : não podendo fazer um a concorrência séria às proezas do audiovisual, modificam-se cons- tantemente as capacidades do automóvel de corrida, as regras d a competição, o peso dos veículos, a reserva de gasolina, chegando - -se ao ponto de limitar por vezes a potência dos motores, o que é de facto o cúmulo ! O veículo dinâmico terrestre mais sintomático desta involução

esportiva é, no fundo, o DRAGSTER (01) (e o HOT ROAD) cuja divisa

ou, pelo

menos, cada vez menos longe (400, 200 m) mas cada vez mais de - pressa? » A tendência extrema' desta competição intensiva acabará talve z

por fazer coincidir linha de chegada e linha de partida, realizand o

Quant o

ao automóvel doméstico, a sua evolução é em tudo idêntica, um a vez que existe agora uma espécie de auto-suficiência do automóvel que o aproxima cada vez mais de uma divisão separada da casa . Daí a transferência, o desdobramento dos acessórios, d

uma proeza análoga à do directo na interface televisiva

poderia ser a seguinte : «Como não ir a parte nenhuma

omobiliário, aparelhagemdealtafidelidade, rádio-telefone, telex, vídeo -móvel, convertendo insensivelmente o meio de transporte à dis-

tância em meio de

veículo do transporte d a

-

transporte imóvel,

alegria, da música, da velocidade De facto, se os veículos automóveis, todos os veículos, terres- tres, marítimos e aéreos, são cada vez menos «montadas» no senti - do equestre do termo e cada vez mais armações' no sentido dos oculistas, dos optometristas, é porque o veículo automotor se tor-

na não tanto um vector de deslocação física como um meio de re- presentação, o suporte de uma óptica mais ou menos rápida do es- paço circundante . 'A visão mais ou menos longínqua das nossas viagens, cede as - sim a pouco e pouco o lugar à previsão mais ou menos rápida d e uma chegada ao destino, chegada generalizada das imagens, d

ainformação, quesubstituidoravanteasnossasdeslocaçõescontínuas . Daí a secreta correspondência que se estabelece entre a estática arquitectónica dos edifícios e a inércia mediática dos veículos au- diovisuais, com o advento do edifício inteligente — mais ainda, d a cidade inteligente e interactiva! — do teleporto como sucessor do porto, da gare ferroviária e do aeroporto internacional .

Veículo adaptado para corridas velozes e breves (drag race, bot road). (N .T.) termo francês para "armação" e "montada"" é monture, de onde o jogo de palavras que se perde na tradução . (N.T.)

2 O

montraspassaremosEncerradoscatódicas, . nasnossas

A um jornalista indiscreto que lhe pedia a morada, uma actri z famosa respondeu : «Moro em toda a parte!» Podemos ter por ga- rantido que amanhã, com a estética, a lógica do desaparecimento da arquitectónica, moraremos todos em toda a parte, como esse s animais dos «zoo-vídeos» presentes pela imagem apenas num ecrã , imagens captadas aqui ou ali, ontem ou anteontem, em lugares sem

importância, subúrbios desmesurados de uma desrealização fílmic a

onde a velocidade audiovisual será enfim,

interiores dos nossos apartamentos, aquilo que a velocidade auto- móvel era já para a arquitectura da cidade, para o ordenamento d e todo o território . Os «simuladores de solo» tomarão então o lugar do

para a arquitectura d e

a

ssimuladoresdevoo ser os tele-atores, as tele-atrizes de um cinema vivo de que o re- cente desenvolvimento dos espectáculos de «som e luz» assinala o advento, com o pretexto constantemente repetido, de André Mal- raux a Lyotard, passando por Jack Lang, de salvaguardar o noss o património imobiliário. A conversão em filme parece ser, portanto, o nosso destino co- mum . Em particular desde que o responsável da CINÉSCÉNIE de Puy-du-Fou, na Vendeia, Philippe Villiers, nomeado secretário d e estado da Cultura e da Comunicação, se propõe realizar um pouc o por toda a parte «percursos cénicos nos locais sob a alçada do pa- trimónio», numa tentativa de reavivar os atractivos dos nossos mo- numentos históricos, dos nossos museus, assim fazendo concor- rência à importação de parques do tipo da «Disney Land» no s arredores de Paris ou do «Wonderworld» nos arredores de Lon- dres . Depois da cenografia teatral da ágora, do fórum, do adro d a igreja, acompanhamento tradicional da história das cidades, cheg a agora a cine-cenografia, a mutação sequencial de uma localidade , de uma região, de um edifício classificado, cuja população activa se metamorfoseia, temporariamente, nos figurantes de uma históri a que importa ressuscitar . Quer se trate da guerra da Vendeia, com

Philippe Villiers, quer dos méritos multi-seculares da cidade d e

Lyon, com Jean-Michel Jarre

nistro da Cultura ha\ ia já contribuído para o fenômeno

é verdade, porém, que o actual mi-

, inaugurandoumapráticaaudiovisual maissofisticadaaofinanciar noqua- dro do programa -Salamandra a realização de um videodisc o

interactivo permitindo a visita guiada aos castelos do Loira

«som

e luz ao domicílio i graças ao qual os antigos visitantes do passad o turístico se tornarão video-visitantes , "«tele-amadores das velhas pe- dras» que acolherão nas suas discotecas, ao lado de Mozart

.

eVerdi,ChevernyeChambord

«Não se sonha já, é-se sonhada, silêncio», constatava Henr i

Michaux no seu poema La Ralentie . A inversão começa . O film e passa ao contrário . Á água volta para dentro da garrafa . Caminha - mos às arrecuas, mas cada vez mais depressa . Acelera-se a involu- ção que conduz à inércia . Até o nosso desejo se fixa numa distan- ciação mediática cada vez mais pronunciada : depois da montra d e prostitutas de Amsterdão, do strip-tease dos anos 50 e d

. opeep-showdadécadade70, chegahojeavídeo-pornografia

Na rue St. Denis, a lista dos pecados capitais resume-se à da s novas tecnologias da imagem : BETACAM, VHS, VÍDEO 2000, etc . . O mesmo acontece no domínio dos confrontos militares : de - pois do home-trainer dos aviadores da Primeira Grande Guerra , do assento giratório utilizado nos treinos dos pilotos da Segunda e da centrifugadora dos futuros astronautas da Nasa, teste à dimen- são real da aptidão ou inaptidão para a imponderabilidade, assiste- -se, de há dez anos a esta parte, à criação de «simuladores» cad a vez mais perfeitos, para os futuros adeptos do voo supersónico . Cúpula de projecção de oito metros de diâmetro, geode para u m

.

.

, enquantonãochegaarobóticaerótica, amáquinadevisão

' Em inglês no original : simulador de voo . (N .T.)

homem só, o mais sofisticado de todos eles apresentará em brev e uma imagem contínua num campo de visão de quase 300°. O capa-

cete do piloto está, com efeito, provido de um sistema óptico d e acompanhamento da retina . Para acentuar ainda mais o realism o do cenário, quem se treinar neste dispositivo envergará um fato que simulará os efeitos de pressão da gravitação, ligados

àaceleração Mas o essencial está ainda para vir, pois começou já a ser testa- do um sistema de simulação derivado do oculómetro, e que pres-

.

cindirá definitivamente da esfera-ecrã — a projecção das imagens do combate aéreo efectuar-se-á directamente nos globos oculares do piloto, graças à utilização de um capacete munido de fibras ópti-

cas

fenômeno de alucinação análogo ao dos estupefacientes, est e

futuro material de treino assinala a tendência para o desapareci - mento do palco, do ecrã, em proveito do «lugar do espectador» , mas de um lugar/armadilha para um indivíduo cuja percepção seria antecipadamente programada pela potência de cálculo do motor de inferência do computador. Perante a inovação deste próximo tipo de veículo estático, con-

viria, creio eu, reconsiderar a própria noção de energia, de motor .

De facto, se os físicos distinguem sempre dois aspectos da ener- gética : a energia potencial e a energia cinética, a que provoca o movimento, talvez convenha, noventa anos após a invenção do tra-

velling cinematográfico, acrescentar uma terceira,

aquela que resulta do efeito do movimento e da suaacinemática,maio r ou menor rapidez sobre as percepções oculares, óptica e opto -

a energi

-electrónica. Neste sentido, a recente indústria da simulação surgiria como

aplicação prática deste último recurso energético . A potência d e

da última geração aparentam-nos, de

certa forma, a um derradeiro tipo de motor, o motor cinemático . Mas o essencial ficaria por dizer se não voltássemos uma vez mais ao primado do tempo sobre o espaço que hoje se exprime no primado da chegada (instantânea) sobre a partida . Se a profundida

cálculo dos computadores

de temporal se sobrepõe hoje à profundidade do campo visual, é porque os nossos antigos regimes de temporalidade sofreram um a mutação considerável . De facto, neste como noutros aspectos, n a nossa vida quotidiana e banal, passamos do tempo extensivo d

ória ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história ,ahist

possibilitada pelas tecnologias do momento . Tecnologias automóvel . audiovisual e informática . avançando todas no sentido de um a mesma restrição, de uma mesma contracção das durações

energiadequeocinemáticaveículoaudiovisua

. Contraçãotelúricaquepõeemcausanãosóaextensãodosterritórios ,

mas igualmente a arquitectura do edifício e do móvel . Se o tempo é história, a velocidade é apenas a sua alucinação , uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão, toda . Alucinação espácio-temporal, resultado aparente d

l seria hoje o motor, como o veículo móvel, e depois o automóvel, o foram ontem para a energia cinética, tomando enfim as imagens d e síntese o lugar das energias do mesmo nome, descobertas no sécul o passado . Não se julgue, portanto, que a terceira dimensão continua a se r a medida da extensão : o relevo já não é a realidade . Est

e onde o regresso a esse estado de sítio' dos edifícios, a essa rigide z cadavérica da casa interactiva, habitáculo em vias de suplantar

acronologia

aexploraçãointensivadeuma

adissimula-seagoranasimagensplanas,nasrepresentaçõestelevisivas,d

assento, a cadeiraextensãodohabitat, ecujomóvel principal seria a ergonômica do deficiente motor e, quem sabe?, talvez a cama, um canapé-cama para enfermo-voyeur, um divã para sermos sonhado s sem sonhar, um banco estofado para sermos circulados se .

o

mcircular

Em francês "état de siège" : o autor joga aqui com dois sentidos diferentes de «siége» . «sí-

., por um lado, e por outro assento, cadeira», como de resto se percebe pelas úl-

tio, cerco

timas linhas do parágrafo . ( .N.T.

veículo para s e

avançar sem sair do sítio é um regresso aos primórdios da invençã o

do automóvel, como se a inércia crescente trouxesse tudo de volt a ao ponto de partida, a essa sela, a esse assento, modelo d .

Estranhamente, esta recente inovação de um

automóvel nascente

ereferênciado

aplicado à deslocaçã o

física — o veículo particular participou inicialmente dos progresso s do mobiliário . Da antiga liteira ao palanquim e ao riquexó asiático , passando pela cadeira basculante, pela cadeira giratória e pela pri - meira cadeira de rodas criada por Jacob em 1820 para Luís XVIII , o automóvel surgia, de facto, como herdeiro do assento qu aosmembros.'Atécnicalinhagemdainferioresviaturaautomóve não é assim exactamente a da carruagem, da mala-posta e d

Com efeito — automatismo doméstico

erepous

l

adiligência, poisoconfortodoveículomotorizadoaproxima-omaisde um móvel que se move, com a extrema fragilidade dos primeiro s protótipos da Ford ou da Daimler-Benz a fazer-nos pensa elmentenumaprótesenumparcarrinhodebebé, senãomesmo deficiente motor Hoje em dia, com as cabinas-vídeo da telepornografia e as ins- talações dos artistas videastas, passando pelos diferentes

a

r inevitav

simuladoreseDATALANDdaópticaoutrosinformática, decondução

do audiovisual traz-nos de volta,odesdobrardastécnicas po r intermédio das suas consolas, a esse assento, posto de controlo d o ambiente próximo ou longínquo, tal como o propõem aos seu s clientes os fabricantes de material ortopédico . O mesmo acontec e até com os mais recentes aviões de combate supersónicos, hoj e concebidos, no dizer dos próprios engenheiros, em torno d o habitáculo, do cockpit, isto é, em torno do painel de comandos e d o assento ejectável do piloto, desse «piloto de elite» que se tornou a figura exemplar do deficiente, cuja sobrevivência depende das proezas motoras e audiovisuais do seu equipamento, sendo o invá-

lido equipado, paradoxalmente, o equivalente do indivíduo válido

L'Horizon negatif, Paul Virilio, Ed. Galilée, 1984, p. 41.

Aguardamos, entretanto, a próxima realizaçã o

e

o simulado, associando ao veículo dinâmico — a máquina voadora mais perfeita da actualidade — um sofisticadíssimo veículo estátic o audiovisual, graças ao primeiro simulador embarcado, «simulado r

de solo» que confere ao piloto, no momento da sua missão, um a visão indirecta e constantemente renovada da paisagem e das con- dições climáticas das regiões efectivamente sobrevoadas . Privação sensorial da percepção ocular, permitindo aos futuros pilotos d e guerra voar em pleno dia, quando for realmente noite, ou aind a

sobre-equipado

desse «cockpit cego» que tentará uma síntese perfeita entre o real

voar a baixa altitude, fora do alcance dos radares inimigos, como s e

O painel d e

comandos da régie video está pois de facto na origem do últim o veículo, desse veículo audiovisual que vai revolucionar a noss

arelaçãocomomeioambiente,talcomooveículoautomotorontem transmutou o território real, a geografia das cidades e dos campos' . Curiosamente, a convergência do cinema e da aeronáutica — nascida na mesma época, sublinhe-se — arrasta sempre consig o a técnica dos meios de representação e de comunicação ; ilustra-o a

actual conivência que reúne a vídeo-informática e a astronáutica, o

florescimento das telecomunicações por satélite que são també m

fizesse tempo claro, no meio das brumas do Inverno

meios de tele-representação instantânea do mundo presente

mo se a imponderabilidade fílmica das sequências de fotogramas e mais tarde de videogramas . e a do sobrevoo dos engenhos (espa- ciais ou aéreos) tendessem a confundir-se, unindo definitivament e

co-

o veículo da imagem e a imagem do veículo volante . A unidade as -

sim reconhecida da óptica e da cinemática exigem, de facto, qu e não mais se separe o vector de deslocação física (o meio d

etransporteàdistância)dasuavisãoespecífica—confirmação, s enecessáriafosse, doadventodessaúltimaformadeenergiaatéentã o

inexplorada que constitui a energia cinemática . Recorde-se aqui que a atracção pelo voo animal e humano m a

(01)
A

revolução dos transp

ortes do sécu lo XIX .

nifestada por grande número de fotógrafos europeus e americanos do século XIX — entre outros, Nadar e o seu amigo Marey, inven- tor, em 1882, da cronofotografia — ;estava ligado à esperança d e realizar «vistas aéreas», ou por outras palavras, à esperança de ad-

quirir a visão específica de um meio de transporte aéreo' .

Os que então queriam voar desejavam antes de mais «elevar-se no ar» e não «ir a algum lado», objectivo posterior da aviaçã

. A famosa «conquista do ar» foi de facto a conquista deocomercial u m espectáculo incomparável, de uma ubiquidade análoga à do olha r divino . Não esqueçamos que Etienne-Jules Marey era em 188

Aérea», sendo 4presidenteemexercícioda as

suas pesquisas sobre o escoamento dos fluidos e o túnel aerodinâ- mico financiadas pelo Smithsonian Institute, graças à intervençã o do aeronauta americano Langley. Esse mesmo Langley dará mais tarde o nome ao centro de investigação onde será construído —

nos anos 50 — um túnel supersônico capaz de atingir MACH (02)

;túnelondeseráestudadaamaioriadosengenhosnecessários,dest a

vez, à «conquista do espaço» . Ainda hoje o trabalho de Graeme Ferguson, inventor do siste- ma IMAX/OMNIMAX (realizador, entre outras obras, do filme hemi - sférico The dream is alive) é co-financiado pela Nasa e por ess e mesmo Smithsonian Institute que outrora subsidiava o pioneiro d a cronofotografia. Por último, a querela acerca das origens do cinema

,escandalosamenteatribuídoapenasaosirmãosLumière,contribuiupar a ocultar, e depois para escamotear per completo, esta correlaçã

«Sociedade de Navegação

Coincidência oentreainvençãodocinematógrafoe po-

rém instrutiva entre a invenção do desfilar cinematográfico das se- quências, a imponderabilidade fílmica das imagens do fotograma, e a invenção de um desfilar cinemático aéreo, inauguração de um a

a da aviação .

Veja-se Robertson, Mémoires récréatifs d'un physicien-aéronaute (1831/1833) .

(02) Gens de l'air, Marcel Jullian, Ed. Le livre contemporain, 1959.

imponderabilidade agora real, manifestada pela ascensão do ho- mem a bordo de um aparelho motorizado, capaz de lhe permiti r modificar à sua vontade a captação de imagens das sequências aé- reas.

Teremos que es perar por 1914-1918 para ver de novo reunido , graças às necessidades da observação estratégica, aquilo que tã o abusivamente havia sido dissociado, numa vã querela de prece- dências académicas : o aparelho cinematográfico de captação d e imagens — a câmara — e o aparelho cinemático de captação de ima- gens — o avião . Este misto, formado pelo veículo aeronáutico e pela câmara embarcada, realiza um modelo de percepçã

e que a televisão, e posteriormente a telemática, assegurarão mai s tarde o desenvolvimento, até se atingir a percepção orbital instan- tânea que conhecemos . Recorde-se aliás que Vladimir Zworykin , inventor do «iconoscópio», primeira denominação da televisã o electrónica, apresentava em 1933 esta última, não como um mei o de comunicação de massas, mas sim como uma forma de aumenta r o alcance da visão humana . chegando ao ponto de prever a instala- ção de uma câmara num foguetão para observar o universo No fim da vida, desiludido, paralítico, o antigo piloto de obser- vação da Grande Guerra, o cineasta Jean Renoir, dizia para o se u secretário : «Empurra a minha cadeira de rodas ; sou como uma câ- mara a trabalhar ao retardador» .

a,primeiraformadeexploraçãointensivadeumaenergianova, d

opanorâmic

Em última análise, cada avanço dos transportes não é mais d o que um progresso e uma emancipação do assento . Lembremos

ainda o aparecimento do home-trainer, esse equivalente do velh o «cavalo de pau» dos cavaleiros, onde se aprendia a pilotar numa es- trutura articulada que simulava os movimentos dos aeroplano

. A partir de

1914, com as novas capacidades motorassbiplanos dos

aviões e a necessidade de apurar os reflexos dos aviadores, veio a

era das primeiras experiências científicas sobre o estado d eimponderabilidade

:

«Em Junho de 1918, o doutor Garsaux, então o único médic o destacado para a secção técnica da aeronáutica, foi encarregado d e determinar em oito dias, a pedido de Louis Blériot, o limite da aceleração tolerada pelo homem. Os cardiologistas declararam-s e incompetentes . O director da Ecole des Mines respondeu que nã o existia qualquer limitação, por exemplo, quanto à aceleração do s elevadores. O professor Broca aceitou centrifugar cães que o pro- fessor Lapicque lhe forneceria . Segue-se um episódio pitoresco, o da descoberta da centrifugadora : «Lembrámo-nos de um

havianoLunaPark, conhecidapor«pratod

aplataformagiratóriaque

e manteiga» e que media seis metros de diâmetro, fomos ao local pa- ra a adquirir, mas os responsáveis da Engenharia Militar tinha m acabado de a comprar!», explica o Dr . Garsaux ; «foi portanto nu - ma centrifugadora de pólvora com 1,50 m de diâmetro, que se ob- servaram os primeiros animais. Pôde ainda assim concluir-se qu e os cães suportavam 30 g e só sucumbiam entre os 84 e os 97 g , consoante a sua posição relativamente ao eixo de rotação» . Voltamos a encontrar, nesta descrição original, a vocaçã

oexperimental das«diversõesdefeira», comoaperfeiçoamentodoassen- to rotativo, da cadeira giratória e da centrifugadora, modelos d para a aviação nascente e, pouco depois, paresimuladoresmecânicos o estudo dos veículos supersónicos e extra-atmosféricos . Estas pesquisas foram mais tarde retomadas na Holanda po r Jongbloed e Noyons, na Alemanha por Koenel, Ranke e Dirings- hofen e, finalmente, por Armstrong e Heim, nos Estados Unidos , onde desembocaram no estudo dos problemas fisiológicos levanta - dos pela ultrapassagem dos vários limites de aceleração, barreira d o som, barreira do calor, etc . «Em 1957, a centrifugadora mais potente e mais moderna , construída pela Marinha, encontrava-se em Johnsville (Pensilvânia) . A gôndola de exercício estava fixa a um braço de 15 m a que o

a

-motor podia imprimir uma aceleração quase imediata do ponto fi- xo até aos 75 m/s . «Além disso, a gôndola podia tomar quase todos os ângulos d e inclinação, e um jogo de eixos articulados inserido no comand o

de posição permitia imprimir à gôndola sobressaltos de pequen a ou grande intensidade, lentos ou rápidos, de modo a imitar os mo- vimentos de um avião desamparado, sujeito a uma forte aceleraçã o

(

).

Para começar», prossegue o piloto Scott Crossfield, auto

rdestetestemunho, «osengenheirosinstalaramnagôndolaumcockpi t

completo de X .15, e depois tiveram a ideia de ligar

acentrifugadoraaumcomutador eléctricoquetranscrevesseassucessivasposi- ções do eixo central nos mostradores do painel de comandos

. Tinha-se, assim, apossibilidadede«pilotaroavião», nãosóe m

função das indicações reais dos instrumentos, mas levando també m

em conta, toda uma gamo de aceleração teórica (

.). Quando

aaceleraçãoseaproximavadomáximoqueoaparelhopodiasuporta r — um valor de 9 ou mesmo 1C g — eu desmaiava, cabeça caída pa- ra o lado, olhos revirados, a pele da cara grotescamente deformada .

Todos os testes eram filmados por meio de uma câmara automática instalada na gôndola» . '

Da gôndola veneziana de Eugène Promio, adepto do «cinem a móvel» nos seus primórdios, à da centrifugadora da Marinh

aamericana,sessentaanosmaistarde,numtravellingondejánãosãoas margens que fogem ao longo do barco, mas sim as rugas de u m rosto desfigurado, o veículo e a sua visão sofreram um aceleradordestinadoApardeafazerparticulasdosurgirnu . ecrã os componentes mais ínfimos da matéria, a centrifugador

arepresentapelasuaparteumesforçoanálogo, parafazeremergirn o fácies de um passageiro os derradeiros limites da consciência, até à perda dos sentidos . Todavia, muito antes deste tipo de aparelho, ciclotrão para u m homem só, o médico e coronel J . P. Stapp (especialista dos efeito s

m

atransmutação

X . 15, S. Crossfield c C . Blair. Ed . Arthaud, 1960 .

fisiológicos da ejecção a velocidades supersónicas e a grand nadebasede desertoMojave, Edwards, um tre-ealtitude) instalarajáno nó sobre carris, propulsionado por um conjunto de foguetes qu e lhe imprimiam, assim que incendiados, uma aceleração assustadora ,

fazendo-o percorrer em poucos segundos 1600 m a mais de 1000 km/h.

Chegado ao seu destino, se assim se pode dizer, o trenó-de-reacçã o precipitava-se na água, sofrendo uma desaceleração não meno

. O objectivo, não nos esqueçamos, era testar os futuroscatastrófica assentos ejectáveis Verificamos portanto que o veículo para avançar a alt

s

:

não ir a parte nenhuma

avelocidade,istoé,para

possui numeroso

d e

treino da levitação aeronáutica e astronáutica . Deste modo, a pa r dos actuais hot rodder, adeptos do dragster, o coronel Stapp

parques de diversões, nos camposspredecessoresnasfeiras,nos

, experimentador àescalareal deengenhosdestinadosatestar oslimite s do homem, mas sobretudo o fácies do ser ejectado, representa um a personagem necessária desta segunda «revolução dos transportes » que nos conduz da era do veículo dinâmico automóvel à era d o

Os simuladores de condução teóric a

suplantam hoje, em locais como o parque espacial de Huntsvill e

(Alabama), esses instrumentos de tortura dignos do

veículo estático audiovisual

: assent

sinterrogatóriosaqueeramsujeitosossupliciadosmedievais Desde o acelerador circular para aeronautas descrito pel o Dr. Garsaux até à centrifugadora gigante da NASA, que preparava, cinquenta anos mais tarde, os astronautas para a conquista da Lua , passando pelo acelerador linear do Dr. Stapp, as pesquisas sobre os efeitos da aceleração teórica não pararam de progredir , revolucionando, apardanaturezadosveículos, adomobiliário basculante e assento giratório, conduzindo, por intermédio do as - sento giroscópico, à centrifugadora dos aeronautas e mais tard e

dos cosmonautas

móvel, à automobilidade doméstica dos particulares e, por último, assento com elevadoejetáveldosaviõessupersónicos absorção da energia cinética para as aterragens forçadas dos heli

.

o

assento provido de rodas conduzindo ao auto -

assent

a

Outras tantas mutações de um mobiliário cada vez mai s

autónomo, que hoje mesmo se completa, diante das consolas d e óptica activa dos computadores gráficos, com o «graviassento», es - se assento com elevada absorção de energia cinemática dos simula - dores de voo que . combinam, para um maior realismo dos cenários , movimentos mecânicos de pequena amplitude e efeito

cópteros

spneumáticosreforçadospelofatoanti-gravidadequeopilotodeteste

senverga, demodoacompensarafixidezdasesferasdeprojecçãodo s

simuladores de combates aéreos . «O cinema é acima de tudo cadeiras com gente sentada» Contemporânea, não o esqueçamos,,explicavaAlfredHitchcock invenção do cinematógrafo, a «conquista do ar» do começo d

d a

oséculofoi acimadetudoaconquistadeumespectáculoinaudito, d e

uma ubiquidade ligada ao desenvolvimento conjunto dos engenho s

destinados a fazerem-se aos ares (balão, avião, foguetão diversos aparelhos de captação de imagens (fotográficos

.) e do s

,

cinematográficos, vídeoeinfográficos) atéàrecente«conquistadoespaç

o

extra-atmosférico» que não é mais, afinal, do que a conquista d o tempo, do tempo que resta : a conquista de uma instantaneidade televisiva, complemento necessário da ubiquidade astronáutica . De

facto, enquanto o primeiro voo do aparelho de captação de ima- gens assinalava a conquista da terceira dimensão do espectáculo d o mundo, o desenvolvimento dos engenhos espaciais e outros meio s de teletransmissão instantânea realizava por seu turno a conquist a da quarta, completando a inércia do ponto de vista dominante . Bloqueio orbital . estado de sítio de um planeta, de um glob o atentamente vigiado e doravante limitado no tempo pela interacçã o instantânea das «telecomunicações», outro nome desta súbita con- fusão entre o próximo e o longínquo, entre o dentro e o fora, inse-

parabilidade mediática

que afecta profundamente a natureza d o

edifício, figura da inércia e portanto da estabilidade morfológica d o real. Quando hoje um especialista dos efeitos especiais na televisã o

nos declara : «Quanto mais imagens há para ver, menos as olhamos .

Não somos moscas», está a prevenir-nos, embora um pouco tarde ,

contra os excessos da régie audiovisual e da cegueira que del a resulta; mas esquece aparentemente que : a óptica activa não visa j á converter-nos em «telespectadores» - a conversão está feita — mas fazer de nós um filme, uma emissão televisiva, isto é, sere s sem peso cujo destino de atravessar barreiras é tão enigmático co- mo o da sua «última morada», outra designação possível desse veí- culo terminal destinado ao povoamento de um estacionamento de-

inercial d o

lugar, de todos os lugares geográficos, que fará de cada um de nó s o teleator, o habitante de um tempo que será menos o do do que esse tempo real mais verdadeiro srelógiosecalendáriosque a realidade, que nos exila instantaneamente do espaço, de um espaç o esse sim bem real que separava ainda ontem o dentro do fo- ra, o centro da periferia, tal como as longas durações permitia m distinguir a causa do efeito : E precisamente nisso que consiste o controlo do meio ambiente.

finitivo, de uma sedentaridade absoluta; confinamento

A alcova, a cama-armário da Bretanha ou da Auvergne pressa- giava já o Capsule Hotel Kotobuki de Osaca, com os seus quarto s

celulares de 3 m 2, onde não se pode estar de pé, mas que em con-

trapartida possuem

Esta redução da noite às dimensões de uma caixa enquadrava-s e

assim no arquétipo da câmara escura e do seu orifício .

televisão e telefone incorporados

e

igualar o confinamento de uma cama. Nos nossos dias, a industrialização das telecomunicações reto - ma esse tema : a última morada reduz-se ante os nossos olhos a u m mero cockpit cego para os sonhos acordados de uma população d e sonâmbulos . Tal como a câmara funerária do tumulus, com o se u

óculo aberto à luz rasante do solstício de Inverno, inaugurou princípio óptico da luz dirigida, conduzindo à camera obscura dos

Aarquiteturafechava-serepentinamenteemredordossonhos, aopontod

o

perspectivistas do Renascimento e suscitando uma nov açãomundoquedonoslevariaàópticapassivadaslentesede

arepresent

- da vídeo-informática, o

pois, mais recentemente,

que faz do túmulo megalítico o antepassado das nossas «câmara s de captação de imagem", também a cápsula do arquitecto Kuroka- wa nos remete para o mito da câmara escura .

à óptica ativa

Com efeito, a imagem que constituía, há muito tempo já, a ma-

téria da concepção do

momento o próprio material de construção do «produto acabado» , com a preeminência rapidamente reconhecida e tolerada d

,projeto» arquitectónico, torna-se nest e

.

ainterfacedosecrãssobreasuperfíciedasparedes

Por trás deste evento, ou antes, deste advento de uma nov

aordemarquitectónica, adivinham-sefacilmenteaspróximasmutaçõe s da janela, sem dúvida , mas mais fundamentalmente ainda as qu e não deixarão de afectar a porta, esse limiar de transposiçã

oobrigatóriaquegerava(quegeraainda)oespaçointerior,queprograma-

va — deveríamos hoje dizer — a planta, a distribuição dos volume s

do edifício . Com efeito, quando se mexe no limite, na fronteir

aentreascoisas, tudosedesmoronaoudissolveinstantaneamenten a

maior das confusões . Á começar pela clara distinção entre o fora e o dentro, e por conseguinte, necessariamente, entre as noções at é

agora essenciais de entrada e

Tudo o que implicava

porta, mas também, desta vez à escalaanecessidadearquitetônicada

ur-

banística, a do porto e do aeroporto, desaparece ante a emergênci a do teleporto, «cadeia de fabrico» da imagem e do som à escal arquitectura da era da chegada generalizada, tão reveladoranacional, hoje como o foi a gare na época do caminho-de-ferro, ou a gara- gem na do automóvel . Assim, neste fim de século que inaugura a segunda revoluçã o

dos transportes, o transporte imóvel , a iluminação electrónica da s

câmaras, dos monitorres, reproduz especularmente os efeitos d

a

a

(01) La Troisième Fenétre, Paul Virlio. Cahiers du cinema, n. 322, 1981.

electrificação das cidades e dos campos no início do século, abrin- do a casa a uma nova luz artificial, a uma «claridade electrónica » que suplanta a luz eléctrica, como esta suplantou outrora o nascer

do dia . De facto, as propriedades da óptica activa

(da electrónica e ,

amanhã, da fotónica), não dizem já essencialmente respeito à fun- ção de iluminação ou, por outras palavras, à dissipação das trevas , mas sim à dissipação do obstáculo da distância, da imensidão de um dado território, levando a abertura do ecrã a substituir não j

como antes dela o haviam

feito o candeeiro d áapenasa«janela»,

a lâmpada eléctrica de Edison, mas doravante epetróleoedepois tam-

bém a «porta», assim revolucionando a própria natureza do s

edifícios . Significativamente, no momento em que o tele-trabalho ao do- micílio dá os seus primeiros passos, em que surge a possibilidade d e nos reunirmos à distância no quadro de tele-conferências, assiste-se em paralelo a uma mutação do encarceramento : em França, com a instalação, a partir de 1986, de televisores nas celas dos condena - dos, com o objectivo confesso de combater a «síndrome do isola - mento», mas visando sobretudo evitar o consumo excessivo de psi -

cotropos

instalar televisões, não já unicamente nas salas comuns mas na s próprias celas dos detidos, representa uma mutação reveladora. Es- tamos, de facto, acostumados, desde Bentham, a identificar a pri- são com o famoso panóptico, isto é, com essa vigilância central em

que os prisioneiros se encontram sempre sob o olhar, no campo de visão dos seus guardas .' Doravante, os detidos poderão por seu turno vigiar

aatualidade, osacontecimentostelevisivos constatação demasiado evidente para sublinhar que assim que o s

telespectadores acendem os seus receptores são eles, presos ou nã o presos, que ficam no campo da televisão, um campo de percepçã o sobre o qual não têm evidentemente qualquer poder, senão o de o

interromperem

;' amenosqueinvertamosest

Afinal pouco analisada, esta repentina decisão d e

a