Você está na página 1de 13

_ SeCret.ria, ~o .

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO I T"l::bu~n""'!a/~P-/e-nõ-

PROCESSOTC N.o 02462/07

Objeto: Prestação de Contas Anuais


Relator: Auditor Renato Sérgio Santiago Melo
Responsável: Jugliel Lettieri Pereira Dantas

EMENTA: PODER LEGISLATIVO MUNICIPAL - PRESTAÇÃO DE


CONTAS ANUAIS - PRESIDENTE DE CÂMARA DE VEREADORES -
ORDENADOR DE DESPESAS- APRECIAÇÃO DA rVJATÉRIAPARA FINS
DE JULGAMENTO - ATRIBUIÇÃO DEFINIDA NO ART. 71, INCISO lI,
DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DA PARAÍBA, E NO ART. 1°,
INCISO I, DA LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL N.O 18/93 - Gastos
do Poder Legislativo acima do limite estabelecido - Insuficiência
financeira para saldar os compromissos de curto prazo -
Incompatibilidade entre as informações consignadas no relatório de
gestão fiscal do segundo semestre e aquelas apuradas na prestação
de contas - Ausência de empenhamento, pagamento e
contabilização de obrigações patronais devidas ao INSS - Carência
de equilíbrio entre as transferências recebidas e as despesas do
exercício - Falta de retenção e recolhimento das contribuições
previdenciárias dos agentes políticos - Não recolhimento das
contribuições previdenciárias efetivamente retidas dos servidores -
Imperfeições nos demonstrativos contábeis - Transgressão a
dispositivos de natureza constitucional, infraconstitucional e
regulamentar - Necessidade imperiosa de imposição de penalidade -
Eivas que comprometem o equilíbrio das contas, ex vi do disposto no
Parecer Normativo n.O 52/2004. Irregularidade. Aplicação de multa.
Concessão de prazo para recolhimento. Recomendações.
Representações.

Vistos, relatados e discutidos os autos da PRESTAÇÃO DE CONTAS ANUAIS DO


EX-PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE FREI MARTINHOjPB, relativa ao exercício
financeiro de 2006, SR. JUGLIEL LETTIERI PEREIRA DANTAS, acordam, por maioria, os
Conselheiros integrantes do TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA, em sessão
plenária realizada nesta data, na conformidade da proposta de decisão do relator a seguir,
vencida a divergência do Conselheiro Fernando Rodrigues Catão, que votou pela
regularidade das contas, em:

1) JULGAR IRREGULARES as referidas contas.

2) APLICAR MUL TA ao ex-Chefe do Poder Legislativo, Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas, no
valor de R$ 1.000,00 (um mil reais), com base no que dispõe o art. 56, inciso II, da Lei
°
Complementar Estadual n. 18/93 - LOTCE/PB.
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

3) CONCEDER-LHE o prazo de 60 (sessenta) dias para recolhimento voluntário da penalidade


ao Fundo de Fiscalização Orçamentária e Financeira Municipal, conforme previsto no art. 3°,
°
alínea "a", da Lei Estadual n. 7.201, de 20 de dezembro de 2002, cabendo à Procuradoria
Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele
período, velar pelo seu integral cumprimento, sob pena de intervenção do Ministério Público
Estadual, na hipótese de omissão, tal como previsto no art. 71, § 4°, da Constituição do
°
Estado da Paraíba, e na Súmula n. 40 do ego Tribunal de Justiça do Estado da
Paraíba - TJ/PB.

4) ENVIAR recomendações no sentido de que o atual Presidente da Câmara rVJunicipalde Frei


Martinho/PB, Sr. Altemiles Martins de Souza, não repita as irregularidades apontadas no
relatório dos peritos da unidade técnica deste Tribunal e observe, sempre, os preceitos
constitucionais, legais e regulamentares pertinentes.

5) Com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal, COMUNICAR
à Delegacia da Receita Federal do Brasil, em Campina Grande/PB, acerca da falta de
retenção e recolhimento das contribuições previdenciárias, devidas por empregado e
empregador, incidentes sobre os subsídios pagos aos Vereadores da Câmara Municipal de
Frei Martinho/PB, durante todo o exercício financeiro de 2006, bem como sobre o não
recolhimento das parcelas efetivamente retidas das remunerações dos servidores da
Edilidade, no mesmo período.

6) Também com base no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, cabeça, da Lei Maior, REMETER
cópias das peças técnicas, fls. 182/189 e 216/220, do parecer do Ministério Público Especial,
fls. 222/226, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba,
para as providências cabíveis.

Presente ao julgamento o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas


Publique-se, registre-se e intime-se.
TCE - Plenário Ministro João Agripino

João Pessoa, ,j C de de 2008

Conselheiro
p
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

---\
\
, )
~
! 1/11>17[' ~.
Auditor n t ergio~nlláM Melo
Relator

Presente: ~ 9 - r....( ~
Representante do Minis~o Es~
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

Tratam os presentes autos do exame das contas do ex-Presidente da Câmara Municipal de


Frei Martinho/PB, relativas ao exercício financeiro de 2006, Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas,
apresentadas a este ego Tribunal em 30 de março de 2007, mediante o Ofício n.? 029/2007,
datado de 26 de março do mesmo ano, fI. 02.

Os peritos da Divisão de Auditoria da Gestão Municipal VI - DIAGM VI, com base nos
documentos insertos nos autos, emitiram o relatório inicial de fls. 182/189, constatando,
sumariamente, que: a) as contas foram apresentadas ao TCE/PB no prazo legal; b) a Lei
Orçamentária Anual - Lei Municipal n. ° 96/2005 - estimou as transferências em
R$ 221.897,00 e fixou a despesa em igual valor; c) a receita orçamentária efetivamente
transferida, durante o exercício, foi da ordem de R$ 263.382,51, correspondendo a 118,70%
da previsão originária; d) a despesa orçamentária, realizada no período, atingiu o montante
de R$ 284.416,79, representando 128,18% dos gastos fixados; e) o total da despesa do
Poder Legislativo alcançou o percentual de 8,61% do somatório da receita tributária e das
transferências efetivamente arrecadadas no exercício anterior pela Urbe - R$ 3.302.201,04;
f) os gastos com folha de pagamento da Câmara Municipal abrangeram a importância de
R$ 171.477,97 ou 65,11% dos recursos transferidos; e g) a receita extra-orçamentária
acumulada no exercício, bem como a despesa extra-orçamentária executada no mesmo
período, atingiram, cada uma, a soma de R$ 33.387,96.

Quanto aos subsídios dos Vereadores, verificaram os técnicos da DIAGM VI que:


a) os Membros do Poder Legislativo da Comuna receberam subsídios de acordo com o
disciplinado no art. 29, inciso VI, da Lei Maior; b) os estipêndios dos Edis estiveram dentro
dos limites instituídos na Lei Municipal n.o 79/2004; e c) os vencimentos totais recebidos no
exercício pelos Vereadores, inclusive o do Chefe do Legislativo, alcançaram o montante de
R$ 140.560,00, correspondendo a 3,35% da receita orçamentária efetivamente arrecadada
no exercício pelo Município - R$ 4.200.714,29.

No tocante aos aspectos relacionados à gestão fiscal, destacaram os analistas da unidade de


instrução que: a) a despesa total com pessoal do Poder Legislativo alcançou a soma de
R$ 206.236,53 ou 4,99% da Receita Corrente Líquida - RCL da Comuna - R$ 4.131.457,98;
b) os Relatórios de Gestão Fiscal - RGF dos dois semestres do período foram enviados ao
Tribunal dentro do prazo, porém, sem comprovação das suas publicações; e c) a execução
orçamentária evidenciou, no final do exercício, a inexistência de disponibilidades financeiras
e a subsistência de compromissos a pagar de curto prazo, no montante de R$ 35.445,34.

Ao final, os inspetores da Corte apontaram as seguintes irregularidades: a) gastos do Poder


Legislativo em dissonância com o disposto na Constituição Federal; b) insuficiência financeira
para saldar compromissos de curto prazo, na importância de R$ 35.445,34; c) carência de
comprovação da publicação dos Relatórios de Gestão Fiscal - RGF do exercício;
d) incompatibilidade de informações entre o RGF - 20 semestre e a Prestação de Con s··
Anuais - PCA; e) ausência de empenho e pagamento de obrigações patronais, na soma de
R$ 21.034,28; f) incorreta elaboração dos RGF encaminhados ao. Tripal; g)

N. J
\~
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

orçamentário, totalizando R$ 21.034,28; h) despesa não licitada, no montante de


R$ 8.400,00; i) ausência de retenção da contribuição previdenciária dos servidores, na
quantia de R$ 13.212,64; j) carência de recolhimento da contribuição previdenciária retida
dos servidores, no total de R$ 14.411,06; k) escrituração incorreta de receitas e despesas
extra-orçamentárias; e I) elaboração incorreta de demonstrativos contábeis.

Processadas as devidas citações, fls. 190/195, o Chefe do Poder Legislativo durante o


exercício financeiro de 2006, Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas, e o Contador da Edilidade à
época, Dr. Orlando Araújo de Lima, apresentaram contestações e documentos, fls. 196/207
e 208/213, respectivamente. O primeiro argumentou, em síntese, que: a) a Resolução
n.O 26/2005 do Senado Federal suspendeu a execução das Leis Nacionais n.o 8.212/91 e
9.506/97, especificamente os dispositivos que tratavam da obrigatoriedade da contribuição
previdenciária dos agentes políticos, dada a sua inconstitucionalidade declarada pelo
Supremo Tribunal Federal - STF; b) o Município de Frei Martinho, através do Poder
Executivo, solicitou, em 23 de novembro de 2007, parcelamento de débito previdenciário, já
deferido, incluindo as contribuições devidas pelo Legislativo desde junho/2004, relativas aos
subsídios dos vereadores; c) a classificação do valor de R$ 8.750,00 como outros serviços de
terceiros decorreu da ausência de terceirização dos serviços prestados; d) a divulgação dos
atos administrativos do Poder Legislativo Municipal foram realizadas em local específico para
publicações (mural), conforme comprovam cópias de ofícios anexados; e e) foi contratada
empresa qualificada para prestação de múltiplos serviços técnicos, notadamente os de
assessoria técnica, financeira e legislativa, mediante procedimento de inexigibilidade de
licitação.

Já o responsável técnico pela contabilidade da Câmara Municipal, em relação às


irregularidades contábeis apontadas no relatório inicial, repetiu os mesmos argumentos
apresentados pelo gestor, acrescentando apenas que: a) o não empenhamento do valor de
R$ 21.034,28 como obrigações patronais não poderia prosperar, uma vez que tais despesas
inexistiram para que a classificação orçamentária fosse feita conforme reclama a equipe
técnica da Corte; e b) o Poder Legislativo, através da Presidência e com o apoio de todos os
demais Vereadores, optou pelo não recolhimento, à época, das suas contribuições
previdenciárias dos agentes políticos, por se tratar de assunto de grande controvérsia e
variadas interpretações, situação esta já sanada junto ao INSS com o parcelamento do
débito.

Encaminhados os autos à unidade técnica, esta, examinando as referidas peças processuais,


emitiu o relatório de fls. 216/220, onde considerou elididas as eivas concernentes à carência
de comprovação da publicação dos Relatórios de Gestão Fiscal - RGF do exercício e à
despesa não licitada, no montante de R$ 8.400,00. Em seguida, manteve in totum o seu
posicionamento exordial relativamente às demais máculas.

O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas, ao se pronunciar sobre a matéria, emitiu 0.__
parecer de fls. 222/226, opinando pelo (a): a) irregularidade das contas em apreço:
b) aplicação de multa ao Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas, com fulcro no art. 56, incis II,
da Lei Orgânica desta Corte; c) declaração de atendimento parcial aos ditames da
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

Responsabilidade Fiscal; d) envio de recomendações ao Presidente da Câmara Municipal de


Frei Martinho; e e) encaminhamento de representação à Delegacia da Receita Previdenciária.

Solicitação de pauta, conforme fls. 227/228 dos autos.

É o relatório.

Examinando o conjunto probatório encartado aos autos, constata-se que as contas


apresentadas pelo ex-Presidente da Câmara Municipal de Frei Martinho/PB, Sr. Jugliel Lettieri
Pereira Dantas, relativas ao exercício financeiro de 2006, revelam diversas irregularidades
remanescentes. Com efeito, conforme destacado pelos especialistas deste Sinédrio de
Contas, fI. 183, verifica-se ab initio que os dispêndios do Poder Legislativo da Comuna
apresentados na Prestação de Contas Anual - PCA, R$ 263.382,51, acrescidos das despesas
com obrigações patronais do exercício não contabilizadas, R$ 21.034,28, totalizaram
R$ 284.416,79, ou seja, 8,61% do somatório da receita tributária e transferências do
exercício anterior - R$ 3.302.201,04 -, infringindo, portanto, o disposto no art 29-A, inciso I,
da Constituição Federal, in verbis:

Art. 29-A. O total da despesa do Poder Legislativo Municipal, incluídos os


subsídios dos Vereadores e excluídos os gastos com inativos, não poderá
ultrapassar os seguintes percentuais, relativos ao somatório da receita
tributária e das transferências previstas no § 5º do art. 153 e nos arts. 158 e
159, efetivamente realizado no exercício anterior:

I - oito por cento para Municípios com população de até cem mil habitantes;

Da mesma forma, os peritos do Tribunal apontaram um déficit na execução orçamentária,


R$ 21.034,28, fls. 182/183, em razão da inclusão das obrigações patronais não
contabilizadas, de igual valor, que pertencem à competência do exercício financeiro de 2006.
Logo, fica claro o inadimplemento da principal finalidade pretendida pelo legislador ordinário,
através da inserção no ordenamento jurídico tupiniquim da festejada Lei de
Responsabilidade Fiscal - Lei Complementar Nacional n.? 101/2000 -, qual seja, a
implementação de um eficiente planejamento por parte dos gestores públicos, com vistas à
obtenção do equilíbrio das contas por eles administradas, consoante estabelece o seu
art. 10, § 10, verbatim:

Art. 10. (omissis)

§ 10 A responsabilidade na gestão fiscal pressupõe a ação planejad e


transparente, em que se previnem riscos e corrigem desvios capaze de ).--- \
afetar o equilíbrio das contas públicas, mediante o cumprimento de tas\ /' ~

I~
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

de resultados entre receitas e despesas e a obediência a limites e condições


no que tange a renúncia de receita, geração de despesas com pessoal, da
seguridade social e outras, dívidas consolidada e mobiliária, operações de
crédito, inclusive por antecipação de receita, concessão de garantia e
inscrição em Restos a Pagar.

No que se refere ao Relatório de Gestão Fiscal - RGF do segundo semestre do período,


fls. 102/111, foi observado pelos técnicos deste Pretória de Contas, fl, 187, que os dados
nele constantes apresentaram imperfeições técnicas, notadamente no que respeita à
ausência de registro de despesas com pessoal, na importância de R$ 29.784,28, sendo
R$ 21.034,28 relativos a obrigações patronais devidas no período e R$ 8.750,00 referentes a
gastos incorretamente contabilizados como OUTROS SERVIÇOS DE TERCEIROS - PESSOA
FÍSICA. Além disso, o valor da Receita Corrente Líquida - RCL informado no último RGF,
R$ 4.153.251,94, também diferiu do valor calculado pela unidade de instrução,
R$ 4.131.457,98, com base nos dados constantes no Sistema de Acompanhamento e Gestão
dos Recursos da Sociedade - SAGRES, fls. 180/181. Assim, enquanto os gastos com pessoal
do Poder Legislativo totalizaram, na verdade, R$ 206.236,53 ou 4,99% da Receita Corrente
Líquida - RCL do exercício, R$ 4.131.457,98, a importância registrada no RGF do 2°
semestre foi de apenas R$ 176.452,25 ou 4,25% da RCL nele informada, R$ 4.153.251,94.

Tal fato, além de demonstrar um certo desprezo da autoridade responsável aos preceitos
estabelecidos na lei instituidora de normas gerais de direto financeiro para elaboração e
controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito
Federal - Lei Nacional n. ° 4.320/64 -, prejudica a transparência das contas públicas
pretendida com o advento da Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF, onde o RGF figura como
instrumento dessa transparência, conforme preceituam o seu art. 10, § 1°, acima transcrito,
e o seu art. 48, verbo ad verbum:

Art. 48. São instrumentos de transparência da gestão fiscal, aos quais será
dada ampla divulgação, inclusive em meios eletrônicos de acesso público: os
planos, orçamentos e leis de diretrizes orçamentárias; as prestações de
contas e o respectivo parecer prévio; o Relatório Resumido da Execução
Orçamentária e o Relatório de Gestão Fiscal; e as versões simplificadas
destes documentos. (grifas nossos)

Os analistas da unidade técnica apontaram, ainda, uma insuficiência financeira para saldar
compromissos de curto prazo, da ordem de R$ 35.445,34, fl. 188. Enquanto o saldo
financeiro conciliado em 31 de dezembro de 2006 era ZERO, fl, 118, os compromissos, a
título de OUTRAS OBRIGAÇÕES FINANCEIRAS A PAGAR, somaram R$ 35.445,34,
evidenciando uma insuficiência de mesmo valor. Tais compromissos referem-se ao somatório
das contribuições previdenciárias dos segurados, devidas e não recolhidas ao Instit o
Nacional do Seguro Social - INSS, R$ 14.411,06, e das obrigações patronais devida à
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

autarquia federal e não empenhadas, R$ 21.034,28. Sendo assim, fica caracterizada


flagrante transgressão ao estabelecido no art. 42, da reverenciada LRF, verbum pro verbo:

Art. 42. É vedado ao titular de Poder ou órgão referido no art. 20, nos
últimos dois quadrimestres do seu mandato, contrair obrigações de
despesas que não possa ser cumprida integralmente dentro dele, ou que
tenha parcelas a serem pagas no exercício seguinte sem que haja suficiente
disponibilidade de caixa para este efeito.

Parágrafo único. Na determinação da disponibilidade de caixa serão


considerados os encargos e despesascompromissadas a pagar até o final do
exercício.

Neste sentido, é importante frisar que a referida mácula, de tão grave, constitui crime contra
as finanças públicas previsto no art. 359-C, do Código Penal brasileiro (Decreto-lei n.O 2.848,
de 07 de dezembro de 1940), incluído pela Lei Nacional n.? 10.028, de 19 de outubro de
2000, ipsis /itteris.

Art. 359-C. Ordenar ou autorizar a assunção de obrigação, nos dois últimos


quadrimestres do último ano do mandato ou legislatura, cuja despesa não
possa ser paga no mesmo exercício financeiro ou, caso reste parcela a ser
paga no exercício seguinte, que não tenha contrapartida suficiente de
disponibilidade de caixa:

Pena- reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Igualmente inserida no grupo das irregularidades constatadas na instrução do feito, tem-se a


falta de empenhamento, pagamento e contabilização das contribuições previdenciárias
patronais devidas pelo Poder Legislativo ao Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, no
valor de R$ 21.034,28, fls. 186/187. A citada eiva, além de provocar inúmeros reflexos
negativos nas contas, conforme já comentado, representa séria ameaça ao equilíbrio
financeiro e atuarial que deve perdurar nos sistemas previdenciários, com vistas a
resguardar o direito dos segurados em receber seus benefícios no futuro, tudo em ardente
desrespeito ao disposto no art. 195, inciso I, alínea "a", da Carta Constitucional, c/c o
art. 22, incisos I e Il, alínea "a", da Lei Nacional n.? 8.212/91 (Lei de Custeio da Previdência
Social), respectivamente, in verbis.

Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma
direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos
orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípias, e
das seguintes contribuições sociais:
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

I - do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da


lei, incidentes sobre:

a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou


creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviços, mesmo
sem vínculo empregatício;

Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social,


além do disposto no art. 23, é de:

I - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou


creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e
trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o
trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos
habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de
reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo
tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da
lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou
sentença normativa.

II - para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da


Lei n.O 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do
grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos
ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas,
no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos:

a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o


risco de acidentes do trabalho seja considerado leve; (grifamos)

Além do mais, a ausenca de contabilização das obrigações patronais devidas em 2006,


R$ 21.034,28, resultou na imperfeição dos demonstrativos contábeis que compõem a
Prestação de Contas Anuais - PCA, que deixaram de refletir a realidade orçamentária,
financeira e patrimonial do Poder Legislativo Municipal. Essa omissão termina por prejudicar
a análise dos inspetores da Corte e compromete sobremaneira a confiabilidade dos registros
contábeis da Câmara Municipal de Frei Martinho, ficando novamente caracterizado o
desprezo da autoridade responsável aos preceitos estabelecidos na já referida Lei Nacional
n.O 4.320/64.

Na realidade, o profissional de contabilidade não registrou as informações contábeis na


forma prevista nos arts. 83 a 106, da referida Lei Nacional n.o 4.320/64, bem como elaborou
os Balanços Orçamentário, Financeiros e Patrimonial sem observar os princípios
fundamentais previstos nos artigos 2° e 3°, da Resolução do Conselho Federal de
Contabilidade n.O 750, de 29 de dezembro de 1993, devidamente publicada no Diário Oficial
da União de 31 de dezembro do mesmo ano, senão vejamos:
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

Art. 2° - Os Princípios Fundamentais de Contabilidade representam a


essência das doutrinas e teorias relativas à Ciência da Contabilidade,
consoante o entendimento predominante nos universos científico e
profissional de nosso País. Concernem, pois, à Contabilidade no seu sentido
mais amplo de ciência social, cujo objeto é o Patrimônio das Entidades.

Art. 3° - São Princípios Fundamentais de Contabilidade:

I) o da ENTIDADE;
11) o da CONTINUIDADE;
I1I) o da OPORTUNIDADE;
IV) o do REGISTRO PELO VALOR ORIGINAL;
V) o da ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA;
VI) o da COMPETÊNCIA e
VII) o da PRUDÊNCIA.

Quanto à ausência de retenção e recolhimento das contribuições previdenciárias incidentes


sobre os subsídios pagos aos agentes políticos do Poder Legislativo da Urbe, na soma de
R$ 13.212,64, fl. 170, verifica-se que tal procedimento vai de encontro ao preconizado no
art. 195, inciso II, da Constituição Federal, c/c o estabelecido no art. 12, inciso l, alínea "j",
da Lei Nacional n. o 8.212/91 - Lei de Custeio da Previdência Social -, na sua atual redação
dada pela Lei Nacional n.O 10.887, de 18 de junho de 2004, verbatim:

Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes


pessoas físicas:

I - como empregado:

a) ( ...)

j) o exercente de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que


não vinculado a regime próprio de previdência social; (grifas nossos)

Além disso, os especialistas deste Sinédrio de Contas destacaram a ausência de recolhimento


das contribuições previdenciárias retidas dos servidores da Edilidade, no total de
R$ 1.198,42, f!. 173. Esse valor deixou de ser registrado como receita extra-orçamentária
não somente no SAGRES, fI. 130, mas também nos demonstrativos que compõem a PCA,
fls. 59 e 65, comprometendo, mais uma vez, a fidedignidade das informações prestadas pelo
gestor a esta Corte de Contas.

Com efeito, deve ser ressaltado que o não repasse das contribuições previdenciárias retídas
dos funcionários da Câmara Municipal ao Instituto Nacional do Seguro Social - LNSS
caracteriza a situação de apropriação indébita previdenciária, consoante estabelete o
i
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

art. 168-A do Código Penal Brasileiro, dispositivo este introduzido pela Lei Nacional
n.o 9.983, de 14 de julho de 2000, verbo ad verbum:

Art. 168-A, Deixar de repassar à previdência social as contribuições


recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional:

Pena- reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa,

§ 10 - Nas mesmas penas incorre quem deixar de:

I - recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à


previdência social que tenha sido descontada de pagamento efetuado a
segurados, a terceiros ou arrecadada do público;

Também é importante frisar que todas as situações ora descritas, que dizem respeito às
contribuições previdenciárias, devidas por empregado e empregador, e não recolhidas à
Previdência Social, podem ser enquadradas como atos de improbidade administrativa que
atentam contra os princípios da administração pública, conforme estabelece o art. 11,
inciso I, da lei que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de
enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na administração
pública direta, indireta ou fundacional - Lei Nacional n.O 8.429, de 02 de junho de 1992 -,
verbum pro verbo:

Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os


princípios da Administração Pública qualquer ação ou omissão que viole os
deveres da honestidade, imparcialidade, legalidade e a lealdade às
instituições, e notadamente:

I - praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso


daquele previsto, na regra de competência; (grifos ausentes no original)

Feitas essas colocações, merece destaque o fato de que sete das eivas encontradas nos
presentes autos são suficientes para o julgamento irregular da prestação de contas
sub judice, conforme determinam os itens "2", "2.5" e "2.9" c/c o item "6" do parecer que
uniformiza a interpretação e análise, pelo Tribunal, de alguns aspectos inerentes às
Prestações de Contas dos Poderes Municipais (Parecer Normativo PN - TC - 52/2004),
ipsis /itteris.

2. Constituirá motivo de emissão, pelo Tribunal, de PARECERCONTRÁRI~à-


aprovação de contas de Prefeitos Municipais, independente de imputaçãde
débito ou multa, se couber, a ocorrência de uma ou mais das irregularid des /' .:
a seguir enumeradas: " / ~

'\\',S./.'·~\
-r-,
"

~ ..
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

2.1. (omissis)

...
( )

2.5. não retenção e/ou não recolhimento das contribuições previdenciárias


aos órgãos competentes (INSS ou órgão do regime próprio de previdência,
conforme o caso), devidas por empregado e empregador, incidentes sobre
remunerações pagas pelo Município;

( ...)

2.9. incompatibilidade não justificada entre os demonstrativos, inclusive


contábeis. apresentados em meios físico e magnético ao Tribunal;

( ...)

6. O Tribunal julgará irregulares as Prestações de Contas de Mesas de


Câmaras de Vereadores que incidam nas situações previstas no item 2, no
que couber, realizem pagamentos de despesas não previstas em lei,
inclusive remuneração em excesso e ajudas de custos indevidas aos edis ou
descumprimento dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e de decisões
deste Tribunal. (grifos inexistentes no texto original)

Por fim, ante as transgressões a disposições normativas do direito objetivo pátrio,


decorrentes da conduta implementada pelo ex-Chefe do Poder Legislativo da Comuna de Frei
Martinho, Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas, resta configurada a necessidade imperiosa de
aplicação da multa de até R$ 2.805,10 - valor atualizado pela Portaria n. 039/06 do °
TCE/PB -, prevista no art. 56, inciso II, da referida Lei Orgânica do TCE/PB - Lei
Complementar Estadual n.O 18/93, in verbls:

Art. 56 - O Tribunal pode também aplicar multa de até Cr$ 50.000.000,00


(cinqüenta milhões de cruzeiros) aos responsáveis por:

I- (omissis)

II - infração grave a norma legal ou regulamentar de natureza contábil,


financeira, orçamentária, operacional e patrimonial;

Ex positis, proponho que o Tribunal de Contas do Estado da Paraíba:

1) Com fundamento no art. 71, inciso II, da Constituição Estadual, e no art. 1°, inciso l, da
Lei Complementar Estadual n.O 18/93, JULGUE IRREGULARES as contas do ordenadorr~'''--'
despesas da Câmara Municipal de Frei Martinho/PB, durante o exercício financeiro de 20 6, .:
Vereador Jugliel Lettieri Pereira Dantas. ~~~~

, \ W
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO

PROCESSOTC N.o 02462/07

2) APLIQUE MUL TA ao ex-Chefe do Poder Legislativo, Sr. Jugliel Lettieri Pereira Dantas, no
valor de R$ 1.000,00 (um mil reais), com base no que dispõe o art. 56, inciso II, da Lei
Complementar Estadual n.o 18/93 - LOTCE/PB.

3) CONCEDA-LHE o prazo de 60 (sessenta) dias para recolhimento voluntário da penalidade


ao Fundo de Fiscalização Orçamentária e Financeira Municipal, conforme previsto no art. 3°,
°
alínea "a", da Lei Estadual n. 7.201, de 20 de dezembro de 2002, cabendo à Procuradoria
Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele
período, velar pelo seu integral cumprimento, sob pena de intervenção do Ministério Público
Estadual, na hipótese de omissão, tal como previsto no art. 71, § 4°, da Constituição do
Estado da Paraíba, e na Súmula n.o 40 do ego Tribunal de Justiça do Estado da
Paraíba - TJ/PB.

4) ENVIE recomendações no sentido de que o atual Presidente da Câmara Municipal de Frei


Martinho/PB, Sr. Altemiles Martins de Souza, não repita as irregularidades apontadas no
relatório dos peritos da unidade técnica deste Tribunal e observe, sempre, os preceitos
constitucionais, legais e regulamentares pertinentes.

5) Com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal,
COMUNIQUE à Delegacia da Receita Federal do Brasil, em Campina Grande/PB, acerca da
falta de retenção e recolhimento das contribuições previdenciárias, devidas por empregado e
empregador, incidentes sobre os subsídios pagos aos Vereadores da Câmara Municipal de
Frei Martinho/PB, durante todo o exercício financeiro de 2006, bem como sobre o não
recolhimento das parcelas efetivamente retidas das remunerações dos servidores da
Edilidade, no mesmo período.

6) Também com base no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, cabeça, da Lei Maior, REMETA
cópias das peças técnicas, fls. 182/189 e 216/220, do parecer do Ministério Público Especial,
fls. 222/226, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba,
paraas pro dênCiaze:iS.

'"{\(j ,
-~ ..