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QUEBRA DE PATENTES E O DIREITO DE ACESSO A MEDICAMENTOS

Débora Paulino Oliveira

A Convenção Internacional em Viena, a Convenção da União de Paris para a

Proteção da Propriedade Industrial (1883) e a Convenção de Berna para a Proteção de Obras Literárias e Artísticas (1886) foram esforços internacionais visando o direito a invenção e a proteção da propriedade intelectual. Neste sentido foram ainda criados e estabelecidas normas jurídicas internacionais da propriedade Intelectual tais como o acordo TRIPs -“Trade Related Aspects of Intellectual Rights”. No Brasil foi estabelecida a Lei sobre Propriedade Intelectual 9.279/96. As normas de proteção a propriedade intelectual originaram o instrumento de patente, e podem ser categorizadas como patentes de invenção (com validade de 20 anos da data do

depósito) e patentes de modelos de utilidade (com validade de 15 anos da data do

depósito), concedem prioridade a exploração durante certo período ao inventor (MELO

& PAULO, 2012).

A Lei brasileira sobre Propriedade Intelectual 9.279/96 contempla também a

possibilidade de proteção aos produtos e processos dos setores farmacêutico e de biotecnologia apesar de estas estarem inseridas no contexto de patentes de invenção. Lei brasileira sobre Propriedade Intelectual de 1996 está também amparada pela

Medida Provisória nº 2.006/1999 que criou a figura jurídica da anuência prévia, posteriormente consolidada pela Lei nº 10.196, de 2001, que torna obrigatória a análise de patentes de medicamentos pela ANVISA (MELO & PAULO, 2012).

O desenvolvimento e patenteamento dos medicamentos até o lançamento comercial do produto pode levar até quatro anos com custos elevados envolvidos no processo. Logo, o laboratório farmacêutico terá efetivamente cerca de seis anos de proteção exclusiva do medicamento desenvolvido para obter no mercado o retorno do investimento. A partir da perda de validade da patente, o medicamento estará sujeito à concorrência de produtos similares e genéricos que contenham princípios ativos encontrados no original (O GLOBO, 2013). Assim, devido aos altos custos, as empresas que estão no topo da indústria farmacêutica são grandes grupos internacionais, ficando os laboratórios regionais mais voltados para a produção de genéricos e similares, o que favorece a formação de oligopólios, no qual as empresas prevalecendo-se da concentração do mercado em determinado medicamento, as empresas favorecidas pelo poder de detenção exclusiva do fármaco exercem a exploração do mercado de forma abusiva, a fim de obter o retorno financeiro dos gastos na produção e comercialização dos medicamentos, em um curto período de tempo (MELO & PAULO, 2012).

O art. 31 do Acordo TRIPS, permite o licenciamento compulsório ou quebra de

patentes, mediante certas condições resumidas em: 1) uma licença compulsória deve

ser considerada em função de suas características próprias; 2)antes de pedir a licença compulsória, o interessado deve solicitar a concessão de uma licença voluntária por parte do detentor da patente; 3)a licença compulsória se limita ao objetivo para o qual

a mesmo foi autorizada e cessará uma vez que deixe de existir a causa que levou a

sua concessão; 4) licença compulsória terá caráter não exclusivo; 5)a licença compulsória não será transferível; 6) a licença prioriza o abastecimento do mercado interno do país que a autorize; 7) o titular da patente receberá uma remuneração adequada tendo em vista o valor econômico da outorga da licença em questão, e 8)a

validade jurídica relativa à transferência de licença compulsória estará sujeita a revisão judicial (MELO & PAULO, 2012). Assim, o Estado visando corrigir o exercício abusivo dos direitos de patentes; pode recorrer a chamada licença compulsória, autorização de uso a terceiros, sem a prévia liberação do titular; buscando reparar a falha de mercado

e nas políticas públicas de saúde.

O Brasil já recorreu a essa decisão extrema em relação ao medicamento Efavirez, um antiretroviral usado no tratamento de pacientes portadores do vírus HIV induzindo a freduçaõ de preços do medicamento e economizando aproximadamente US$ 1,2 bilhão. A experiência brasileira mostrou que o poder de barganha criado somente pela possibilidade legal de licença compulsória, e pode beneficiar países em desenvolvimento mesmo onde a patente não está garantida (Monteiro, 2013). O tema voltou à tona depois que a suprema corte da Índia não reconheceu como inovação um medicamento para tratamento de câncer que o laboratório suíço Novartis considera evolução do seu fármaco original, Glivec. A patente foi reconhecida nos Estados Unidos e em outros 39 países, o que provocou a polêmica (O GLOBO, 2013).

Neste sentido apesar de polêmica a quebra de patente de medicamentos é um valioso instrumento e deve ser empregado a fim de garantir a sustentabilidade das políticas públicas de saúde e acesso da população aos medicamentos, como no caso do antiretrovirais. A possibilidade de licenciamento compulsório de um medicamento fornece poder de barganha ao Estado em face do uso abusivo sobre a patente de uma medicamento, garantindo continuidade do tratamento com o acesso ao medicamento a população economicamente menos favorecida.

No entanto, o uso da licença não pode ser banalizado, e o direito a propriedade intelectual devem ser respeitados dados os custos elevados no desenvolvimento de um novo medicamento, sendo legítima a necessidade de empresa farmacêutica obter

o retorno financeiro dos gastos com o desenvolvimento e a produção do medicamento, assim pode-se afirmar que o acesso direto e ininterrupto a medicamentos demanda uma sintonia afinada entre políticas de saúde pública, direitos de propriedade intelectual e políticas comerciais (MONTEIRO, 2013).

REFERÊNCIAS

Galvão, Jane. “A política brasileira de distribuição e produção de medicamentos anti- retrovirais: privilégio ou um direito?”. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 18(1):213-219, jan-fev, 2002.

Editorial O Globo. “Volta a polêmica sobre patente de remédios”. O Globo. Publicado em 7/04/13-0h00 e Atualizado em 5/04/13-19h23. Disponível em:

http://www.oglobo.globo.com/opiniao/volta-polemica-sobre-patente-de-remedios. Acessado em: 28/08/13 - 19h33.

Melo, Milena Barbosa de; Paulo, Christiane Ramos Barbosa de. “O desequilíbrio entre

a função social das patentes de medicamentos e o interesse individual das empresas

farmacêuticas”. Âmbito Jurídico, 15(98), 2012. Disponível em: http://www.ambito-

8. Acessado em 01/09/13 - 19h25.

Monteiro, Denise. “Brasil é citado como exemplo positivo de quebra de patentes”. REDESFITO-Portal de difusão de notícias, eventos e novidades sobre

http://www.

fitomedicamentos. Disponível

em: