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Identidade e cultura: reflexões sobre auto identificação racial no Brasil
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Evandro Finardi Sabóia

I. Resumo
Propomos a discussão da questão da identidade racial dos sujeitos, como
estes se percebem na sociedade brasileira, para tanto debateremos e
questionaremos o sistema classificatório do IBGE, buscando compreender como o
sujeito se autoidentifica quanto à cor/raça de acordo com os parâmetros do instituto.
Para entender como a autoatribuição se dá, faz se necessário compreender a forma
como a identidade desses sujeitos é construída, levando em consideração que esta é
resultado das interações entre sujeitos e sociedade a qual pertencem. Justamente o
sentimento de pertencimento coletivo que faz com que o processo de construção da
identidade passe por questões culturais. Sendo a cultura uma ponte entre os
indivíduos, que possuem suas individualidades e angústias, a identidade coletiva
aparece como um modo com o qual estes tentarão se encaixar e se perceber,
mesmo sabendo que muitas vezes tal identidade coletiva não os representará
completamente, buscando o pertencimento a determinado grupo.
A intenção é tentar compreender e analisar a construção da identidade racial e
o papel que a cultura tem nessa construção. Partindo dos critérios do IBGE para
classificações de cor/raça, caberá discutir dois critérios, os de preto e pardo,
entendendo que, em termos de identidade coletiva, estes são parte do grupo negro,
isto é, existe uma construção cultural de acordo com a qual pretos e pardos
pertencem ao mesmo grupo, o negro. Propomos analisar a construção dessa
identidade coletiva a partir da ideia de cultura, que entendemos funcionar como elo
entre os indivíduos autoidentificados como preto/pardo e o grupo negro.
Palavras-chave: Racismo, identidade, raça e cor.

II. Introdução
“Sem identidade, somos um objeto da história, um instrumento utilizado
pelos outros, um utensílio. E a identidade é o papel assumido: é como
numa peça de teatro em que cada um recebe um papel para
desempenhar" (Joseph Ki-Zerbo).

A epígrafe acima chama atenção para a construção da identidade como um
papel a ser assumido e desempenhado na sociedade, porém esse trabalho discutirá
o inverso, isto é, propomos que há de se compreender a identidade como um
processo, uma construção que está vinculada ao tempo e sociedade aos quais o
indivíduo pertence. A ideia de papel na construção do eu foi discutida e debatida na
antropologia clássica por Mauss (2003), em “Uma categoria do espírito humano: A
noção de pessoa, a de ‘eu’”. O autor parte da análise da ideia de persona encontrada

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Este texto é parte das reflexões desenvolvidas no âmbito da realização da pesquisa
A PERSISTÊNCIA DAS IDEIAS DE “RAÇA” E “DEMOCRACIA RACIAL”: UMA
ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES E PERCEPÇÕES SOBRE RACISMO E
PRÁTICAS RACISTAS NA CIDADE DE SÃO PAULO, realizada com bolsa do
Programa FESPSP - PIBIC/CNPq e vigência entre 2012-2013.

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na cultura latina, que se utiliza das máscaras que representam papéis, no cotidiano,
na sociedade. Podemos destacar o exemplo de Mauss (2003) referente aos grupos
zuni e pueblo, os quais possuem um estoque limitado de nomes próprios associados
à determinadas funções sociais, portanto, quem exerce uma dessas funções tende a
levar esse nome e não um outro. Logo, podemos perceber que nessas sociedades
há uma ideia de papéis fixos e imutáveis, como a ideia a que a epígrafe nos remete,
mas, se definimos a identidade como um papel assumido, estamos limitando a
identidade a uma característica fixa, imutável e estática que é o contrário do que
afirma a linha de pensamento a que nos afiliamos. Uma melhor definição e
interpretação para a ideia de identidade que utilizamos neste trabalho é a de
Castells:
“A elaboração de uma identidade empresta seus materiais da história,
da geografia, da biologia, das estruturas de produção e reprodução, da
memória coletiva e dos fantasmas pessoais, dos aparelhos do poder,
das revelações religiosas e das categorias culturais. Mas os indivíduos,
os grupos sociais, as sociedades transformam todos esses materiais e
redefinem seu sentido em função de determinações sociais e de
projetos culturais que se enraízam na sua estrutura social e no seu
quadro do espaço-tempo” (1999, p.18).
Desta forma, a identidade se produz na interação de um indivíduo com outro e
com a sociedade a qual pertence, portanto a alteridade será percebida e analisada
num contexto histórico e cultural de uma determinada época e compreendida na
forma como o indivíduo se identifica perante a mesma. Também podemos identificar
essa transformação na análise da noção de pessoa, proposta por Mauss (2003), na
qual a partir do momento que surge em Roma a ideia da pessoa jurídica, a pessoa
passa a ter direito a uma máscara própria e, consequentemente, será esta que será
apresentada à sociedade e não outra. Além disso, a partir do momento que se
reconhece esse direito, a pessoa passa a fazer parte de uma sociedade mais global,
a Roma nesse caso, e assim as suas relações sociais naquele meio irão determinar
e ajudar a construir uma identidade absolutamente individualizada, com o direito de
portar a máscara própria e falar em seu próprio nome, como romano.
Visando compreender e entender o processo de construção da identidade do
grupo negro na sociedade brasileira, analisaremos essa construção mencionando
desde a época das ideias eugênicas até chegar aos dias atuais quando o IBGE
discute a identificação cor ou raça em seus questionários censitários. Ao partir desse
levantamento histórico tentaremos traçar uma rápida percepção de como os negros
eram identificados e tratados, após a abolição da escravatura e consequentemente a
primeira República. Partindo dessa compreensão, verificaremos como essa
identidade em diversas épocas foi elaborada e qual o papel de nossa sociedade
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nessa construção. Após esse breve levantamento histórico, analisaremos o papel
que a cultura possui na construção atual da identidade negra visando à reflexão
sobre as categorias de cor ou raça propostas pelo IBGE e o modo como os sujeitos
se percebem e se autoclassificam, para, a partir daí, compreendermos a construção
da identidade no grupo negro nos dias atuais.

III. Construção Histórica
Iniciamos com um breve levantamento histórico para pontuar e caracterizar a
questão da construção da identidade negra. Esta questão está diretamente ligada às
ideias de eugenia
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, que quer dizer boa geração. A ideia de eugenia se fez presente
no final do século XIX e começo do século XX no Brasil e teve grande repercussão
na negação e, até mesmo, na legitimação da exclusão social de uma parcela da
população brasileira, gerando consequências que repercutem até os dias de hoje.
A história da eugenia se inicia na Europa com o médico inglês Francis Galton,
conhecido como pai da eugenia, que, segundo Diwan (2011), parte da seguinte
premissa em seus estudos: “A teoria evolucionista foi o pontapé que inspirou Galton
a dedicar-se ao desenvolvimento de uma teoria social que tivesse como objetivo
principal a evolução da raça” (2011, p.39). E é o princípio de necessidade de
evolução da raça que irá nortear os pensadores brasileiros, muitos desses
influenciados pelas ideias europeias e de pensadores que vinham ao Brasil para
compreender a miscigenação, como um dos mencionados por Schwarcz (1996); um
viajante suíço, que concluía em seu livro Viagem ao Brasil de 1865 afirmando que:
“‘Quem quiser ter um exemplo do que é a degeneração e a mistura racial extremada,
venha ao Brasil e terá a prova da degeneração local’.” (1996, p.171). Além disso, as
questões eugênicas sempre foram um problema para os intelectuais brasileiros, pois
a nossa população já era composta de uma maioria mestiça nessa época. Segundo
o recenseamento de 1872
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, tínhamos setenta por cento de nossa população
considerada mestiça, isto é, composta por negros, pardos e caboclos, logo, pensar a

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“Eugenia é o estudo dos meios de melhorar o patrimônio genético das populações,
ou de impedir que ele se deteriore. As medidas eugênicas tendem a elevar as
frequências de genes ou conjuntos gênicos benéficos, ou impedir que elas caiam
(eugenia positiva), e tendem a reduzir as frequências dos genes ou conjuntos
gênicos nocivos, ou a evitar que elas aumentem (eugenia negativa)” (FROTA-
PESSOA, 1996, p.37).
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Consultado no site do IBGE. Disponível em:
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/visualiza_colecao_digital.php?ti
tulo=Recenseamento%20Geral%20do%20Brasil%201872%20-
%20Imp%E9rio%20do%20Brazil&link=Imperio%20do%20Brazil# Acessado em
14/11/12.
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questão da eugenia nos moldes da perspectiva europeia não seria possível devido
ao alto número de mestiços. Uma vez que “segundo os modelos da época, pior do
que as ‘raças puras inferiores’, eram as raças mestiças, já que da mistura de
espécies muito diferentes só poderiam surgir produtos absolutamente degenerados”
(Schwarcz, 1996, p.172).
Os intelectuais brasileiros utilizaram das faculdades de direito e de medicina
para exporem e desenvolverem suas teorias eugênicas. Começamos por Recife, que
tinha Silvio Romero, um evolucionista social, cuja obra foi marcada por contradições,
muitas vezes defendendo o determinismo racial, mas ao mesmo tempo assumindo
que nosso futuro era mestiço, mas com a ressalva de que “apenas” em termos
culturais. Já em São Paulo tivemos alguns pensadores da escola de direito que
estavam ligados diretamente à antropometria, isto é, com a ciência que analisa a
potencialidade de uma raça a partir de estudos como o do diâmetro de crânios. Estes
intelectuais buscavam inspirações nos estudos e modelos do médico italiano Cesare
Lombroso, que utilizava a antropometria para fazer estudos de uma disciplina que
ficou conhecida como antropologia criminal. É por meio da antropologia criminal que
os intelectuais paulistas tentavam descobrir o “perfil craniano do crime”, o qual,
segundo Lombroso, estaria ligado às raças inferiores.
Mas os locais mais radicais quanto às teorias raciais e eugênicas, eram a
Bahia e o Rio de Janeiro. Na Bahia tínhamos o médico Nina Rodrigues, adepto das
teorias de Lombroso e da degenerescência, segundo as quais a mestiçagem era
considerada um mal. Já no Rio de Janeiro, tínhamos o médico Renato Kehl, que
pode se considerar pela história, um dos maiores entusiastas da eugenia. Kehl
pregou a implantação no Brasil da mesma política que se empregava na África do
Sul, o apartheid, além disso, foi presidente e responsável pela maioria dos
congressos nacionais em que se discutiram e pensaram as questões eugênicas
sobre e para nosso país. Kehl também é o autor de uma frase célebre, que irá
nortear toda a discussão sobre branqueamento: “a nacionalidade brasileira só
embranquecerá à custa de muito sabão de coco ariano”. (Kehl apud Diwan, 2011 e
Schwarcz, 1996).
O debate sobre o embranquecimento da população brasileira surgiu no início
do século XX, ganhou força em meados da década de 1930, e fez nascer em nossa
sociedade uma enormidade de gradientes de cor, que pretendemos debater a partir
da análise do quesito cor ou raça do IBGE. É preciso lembrar, porém, que foi
também o debate sobre a necessidade de embranquecimento de nossa população
que desencadeou, segundo Schwarcz (1996), o surgimento de uma nova vertente no
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debate, a de valorização da mestiçagem. Como propõe a autora, “o importante não é
ficar só delatando o preconceito, o que em si já é relevante, mas tentar entender qual
foi a química que aconteceu nos anos 30 que transformou esse cenário, de profundo
pavor da mestiçagem, na mística da democracia racial” (1996, p.176).

IV. Quesito cor ou raça IBGE

A questão da classificação de cor ou raça empregada pelo IBGE tem mais de
um século de história e não foi criada nem inventada do nada, ela parte da ideia de
que:
“era necessário caracterizar bem o fugitivo para que pudesse ser
identificado a partir do texto leva à elaboração de cores compostas, com
outros termos de cor definindo nuanças, ou como outras categorias de
termos étnico-raciais: pardo quase branco, preto retinto, cobre azeviche,
preta de angola, crioulo bem preto. (...) nessa grande variedade de
termos, três se destacavam de forma inequívoca como os mais usados:
preto, pardo e branco. Assim, no primeiro Censo oficial brasileiro,
realizado em 1872 esses vocábulos raciais de grande fluência social
foram os designadores das categorias da classificação racial” (Osório,
2003, p.18).
Após esclarecer a classificação que é utilizada até os dias de hoje pelo Censo
do IBGE, propomos analisar a questão do gradiente de cor que surge no senso
comum, e até mesmo dentro de algumas ideias de intelectuais que acreditavam que a
população brasileira dentro de alguns anos se embranqueceria. Segundo Guimarães
(2000), a democracia racial estaria pautada em alguns pontos e um deles é justamente
a questão do gradiente de cor e até mesmo o embranquecimento que era desejado
por parte da sociedade brasileira do começo do século XX. Deste debate, destacamos
os seguintes pontos que interessam a esse trabalho:
“[No Brasil] (a) a “cor” e a “aparência” são mais importantes do que a
“raça”; (b) a noção de cor é ambígua, existindo um contínuo de cor; (c) a
polaridade branco/negro organiza o gradiente de cor e de prestígio
social; (d) o embranquecimento, que antes significava tão somente
substituição da população negra pela branca ou, quando muito,
miscigenação biológica, passa a significar ascensão social e
aculturação dos negros e mulatos; (e) de que não existem,
propriamente falando, grupos raciais ou comunidade negra (...)”
(Guimarães, 2000, p.22).
Nota-se na passagem de Guimarães que quanto mais um negro, ou um
mestiço, ascende socialmente, automaticamente sua cor é negada e o mesmo passa a
ser considerado branco. Podemos identificar bem este processo na seguinte afirmação
de Darcy Ribeiro (1996):
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“Um dia Santa Rosa foi procurado por um negro do Itamarati, cujo nome
não vou dizer, e que lhe disse: ‘Como é difícil ser negro! Para nós tudo
é muito mais duro, temos de fazer muito mais força, é uma coisa
terrível’. Santa Rosa então disse: ‘Eu sei, eu também já fui negro!’. Quer
dizer, é evidente que um pintor exitoso não era mais negro coisa
nenhuma” (Ribeiro, 1996, p.211).
Essa frase de Darcy Ribeiro evidencia algo comum em nossa sociedade, que
rechaçava o negro e tinha como ideal o embranquecimento da população. Além disso,
podemos notar a presença desta perspectiva no “inconsciente” da população, a qual
corroborou, em muito, para manter viva a ideia e as práticas de democracia racial.
Assim, é com base nas ideias de branqueamento da população e de democracia racial
que se construiu culturalmente a identidade negra, identidade esta que propomos
entender como uma construção negativa, isto é:
“A afirmação ‘sou brasileiro’, na verdade, é parte de uma extensa cadeia
de ‘negações’, de expressões negativas de identidade, de diferenças.
Por trás da afirmação ‘sou brasileiro’ deve-se ler: ‘não sou argentino’,
‘não sou chinês’, ‘não sou japonês’ e assim por diante, numa cadeia,
neste caso, quase interminável. (...) Assim como a identidade depende
da diferença, a diferença depende da identidade. Identidade e diferença
são, pois, inseparáveis.” (Silva, 2000, p.75).
O trecho citado acima nos ajuda a compreender porque surge uma enorme
variedade no gradiente de cores em nossa sociedade, pois se o moreno não se
identifica com os negros ele nega sua negritude e acredita não fazer parte daquele
grupo, por se sentir mais próximo dos brancos, prefere se autoidentificar como
moreno, ao invés de pardo, ou preto, segundo as classificações do IBGE. Um estudo
do IPEA, realizado por Rafael Guerreiro Osório (2003), nos mostra que “a compilação
das respostas ao quesito de declaração livre revelou nada menos que 136 termos
distintos de identificação racial” (p.25), portanto a autoidentificação nos mostra que o
sujeito nega alguns atributos físicos e até mesmo de cor, e se identifica com outros,
diferentes daqueles propostos pelo Censo do IBGE. Além disso, pode-se notar como
afirma Maria Lúcia Montes, que:
“... a ideia do negro de alma branca constitui uma forma terrível de
expressão do preconceito. Mas ele explica também porque as pessoas
se desidentificam com a sua própria cor. A cor está aí, mas em suma:
será que basta ter a cor, basta uma característica biológica da raça,
para que as pessoas se identifiquem e sejam identificadas como
pertencentes a um determinado grupo étnico? O que estou tentando
mostrar é que há uma complexidade infinita de processos sociais que,
em contextos e situações determinadas, vão construir diferencialmente
sistemas de identificação, os quais vão permitir, em momentos distintos,
afirmação de identidade ou não-identificação.” (Montes, 1996, p.59).
Ao refletir sobre esse grande número de termos que surgiu na pesquisa livre, e
sobre essa “desidentificação” proposta por Montes (1996), podemos dizer que os
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sujeitos que se negam a se identificar seja como pretos ou como brancos, portanto,
poderiam ser identificados como mestiços. Mas qual é a identidade do mestiço?
Segundo Ribeiro (2010): “Posto entre dois mundos conflitantes – o do negro, que ele
rechaça, e o do branco, que o rejeita – o mulato se humaniza no drama de ser dois,
que é o de ser ninguém” (2010, p.223). O mulato desta citação representa o mestiço
como um todo, alguém que está entre os dois mundos que o originaram, ou seja, ele é
filho do cruzamento entre branco e preto do qual surge o mestiço, mas não se
identifica com nenhum destes mundos, não tem uma cultura a qual se sinta incluído.
Isto é, o branco tem a sua cultura, a “europeia”, e o grupo negro tem a sua cultura, a
“africana”, porém o mestiço é um híbrido e por isso pertenceria às duas formas de
cultura. Porém é Darcy Ribeiro (2010) que nos mostra que as culturas também foram
miscigenadas e também sofreram alterações. Assim o mestiço deveria se enquadrar
nessa cultura miscigenada proposta por Ribeiro, ou o seu lugar seria próprio e
diferente daquele do grupo negro?
Acreditamos que a resposta a essa pergunta é não, pois segundo Silva:
“Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade
específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades
são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa
identidade todas as características positivas possíveis, em relação às
quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa.
A identidade normal é ‘natural’, desejável, única. A força da identidade
normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade, mas
simplesmente como a identidade. Paradoxalmente são as outras
identidades que são marcadas como tais.” (2000, p.83 – grifos no
original)
Portanto, fica claro que há uma divisão da sociedade brasileira, a qual elegeu
como uma identidade natural, a identidade branca, e as outras sofrem uma
hierarquização “natural” que pode ser notada através do gradiente de cor, gradiente
esse que também pode surgir pelo simples fato de mestiços negarem ser negros,
como afirma Ribeiro (2010), e ao mesmo tempo serem negados pelos brancos. Assim
podemos entender que a identidade coletiva desse grupo, mestiço, está muito ligada
ao grupo dos negros, e essa ligação se deve pelo fato da discriminação, isto é, o
mestiço traz em seu fenótipo as marcas das origens afro-brasileiras e brancas, e é
justamente através das características físicas ligadas à sua ascendência afro-brasileira
que prevalecem que acabará por sofrer as mesmas discriminações e preconceitos que
o negro sofre. De acordo com Telles (2003):
“Em outras palavras, a discriminação contra os pardos é menor do que
contra os pretos, mas a renda dos pardos se aproxima da dos pretos e
não da dos brancos. Sendo assim, a principal segmentação racial se dá
entre os brancos e não-brancos, mesmo que, geralmente, os pretos
sofram mais discriminação que os pardos.” (2003, p.231).
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É exatamente essa segmentação entre brancos e não-brancos que faz com
que os pretos e pardos acabem por incorporar um mesmo grupo, o grupo dos negros,
e através desse grupo reivindicar o seu espaço e os seus direitos. Apesar de
sabermos que ainda hoje a conquista desses espaços é difícil, tornando a própria
construção da identidade negra complicada, uma vez que a ideia de democracia racial
ainda se faz presente no Brasil. Segundo Telles (2003):
“Um estudo baseado na observação participativa em uma pré-escola
particular de São Paulo revelou que os professores são mais afetivos
com as crianças brancas e que eles ignoram atos discriminatórios entre
os alunos, apesar de negarem que exista racismo em sua escola.
Cavalleiro (2000,2001) observou que os alunos negros da pré-escola
experimentaram e reconheciam discriminação racial pelo fato de serem
excluídos de jogos e amizades e até mesmo recebendo insultos
explicitamente racistas de outras crianças, na presença de professores
que se mostram indiferentes. (2003, p.239). (...)
Os negros não são retratados na televisão, filmes e na mídia. Nesses
veículos há uma super-abundância de pessoas brancas,
particularmente louras, apresentadas como símbolos de beleza e
usadas para retratar a realização dos sonhos da classe média. Modelos
negros estão virtualmente ausentes nos livros textos brasileiros e a
história africana raramente é ensinada nas escolas. As referências
negras, quando existem, tendem a ser nos esportes e na música
popular.” (2003, p.240-241)
Através dos exemplos citados acima podemos constatar que construir uma
identidade negra no Brasil ainda é extremamente complicado se entendemos que a
construção da identidade se realiza por meio de trocas com a coletividade. Como
aponta Adam Kuper (2002):
“... identidade não é apenas um assunto pessoal. Ela precisa ser vivida
no mundo, num diálogo com outros. Segundo os construcionistas, é
nesse diálogo que a identidade é formada. Mas não é dessa maneira
que ela é vivenciada. De um ponto de vista subjetivo, a identidade é
descoberta dentro da própria pessoa, e implica identidade com outros.
O eu interior descobre seu lugar no mundo ao participar da identidade
de uma coletividade.” (2002, p.298).
Ao participar do mundo o negro se “descobre”, se percebe e,
consequentemente, acaba por construir sua identidade, mas quando esse mundo no
qual ele está inserido, o renega ou o ignora como nos exemplos citados acima, a
construção de sua própria identidade se torna mais complexa e difícil, e é justamente
por isso que o ato de diálogo com os outros, como demonstrou Kuper (2002), acaba
por não existir. Logo, há de se construir essa identidade dentro de seu próprio grupo, o
grupo negro, o que acontecerá provavelmente dentro de sua própria casa e/ou em
eventos culturais realizados pelo próprio grupo. E, assim, segundo Cunha (2009),
estamos sempre construindo a identidade num jogo de contrastes, jogo esse no qual a
etnicidade é uma forma de protesto eminentemente político, que visa o
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reconhecimento e a resistência dos sujeitos para que sejam reconhecidos e notados.
Além disso, podemos ainda salientar que a construção de identidade também é
cultural, posto que a cultura e a identidade são constantemente reinventadas,
recompostas, investidas de novos significados numa dinâmica que não tem fim.
(Cunha, 2009)
Esse processo de reinvenção cultural, que consequentemente gera uma
reconstrução de identidade pode ser notado quando acontece uma organização
desses movimentos em grupos como, por exemplo, a onda Black is Beautiful dos anos
70, que fez com que salões de beleza da periferia de Belo Horizonte fossem
reinventados para atender a demanda do grupo negro (Gomes, 2003). Segundo
Gomes, esses espaços seriam locais de reinvenção da própria identidade do grupo
negro. De acordo com a autora:
“Nesses espaços, a identidade negra, enquanto processo, é
problematizada, discutida, afirmada, negada, encoberta, rejeitada,
aceita, re-significada e recriada. Tudo isso acontece ao mesmo tempo
e, nesse sentido, os salões étnicos nos colocam no cerne das tensões e
também das possibilidades de recriação vividas por homens, mulheres,
crianças, adolescentes, jovens e adultos negros.” (Gomes, 2003, p.179)
A passagem acima evoca a valorização pelo grupo negro de expressões
associadas imaginariamente à África que consequentemente correspondem a um
conjunto amplo de modificações e conquistas culturais que esse grupo vem galgando
e conquistando desde as primeiras lutas travadas pelos Movimentos Negros
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dentro
da sociedade brasileira, para conquistar seu espaço e mostrar a todos que eles
existem e querem ser reconhecidos enquanto negros por e em nossa sociedade.
Retomando a questão do quesito cor ou raça do IBGE, conforme refletimos
acima e segundo Osório:
“a agregação de pretos e pardos e sua designação como negros
justificam-se duplamente. Estatisticamente, pela uniformidade de
características socioeconômicas dos dois grupos. Teoricamente, pelo
fato de as discriminações, potenciais ou efetivas, sofridas por ambos os
grupos, serem da mesma natureza. Ou seja, é pela sua parcela preta
que os pardos são discriminados” (2003, p.24).

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Este trabalho não pretende descrever e nem levantar a história dos Movimentos
Negros, apenas constatar que eles foram e são de extrema importância para a
construção da identidade negra no Brasil. Uma discussão detalhada sobre o
movimento negro no Brasil pode ser encontrada em: COSTA, Sérgio. O movimento
negro e as conquistas anti-racistas In: Dois Atlânticos: Teoria social, anti-racismo,
cosmopolitismo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006 p.142-149; SANTOS, Ivair
Augusto Alves dos. O Movimento Negro e o Estado (1983-1987): O caso do conselho
de participação e desenvolvimento da Comunidade Negra no Governo de São Paulo.
São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.
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Esta justificativa só vem a corroborar qualquer ação que visa reverter esse
quadro histórico que está posto em nossa sociedade, lembrando sempre que “é
também por meio da representação que a identidade e a diferença se ligam a sistemas
de poder. Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e determinar a
identidade.” (Silva, 2000, p.91) E é justamente através dessa unificação de pretos e
pardos por meio do grupo negro, que a luta por efetivação de direitos e uma maior
representatividade será possível em nossa sociedade, pois, como afirmamos
anteriormente, a identidade que é imposta é a branca e as outras compreendem o
grupo dos não-brancos. Logo a “busca de identidade representa uma luta existencial
desesperada para criar um estilo de vida que pode ser sustentado pelo menos por um
breve momento” (Kuper, 2002, p.302), isto é, como constatamos anteriormente, a
identidade juntamente com a cultura está em constantes transformações e se o grupo
negro reivindica seu espaço na sociedade brasileira hoje, num futuro próximo esse
espaço pode já estar posto. Sem querer fazer um exercício de futurologia, é
importante destacar que os recentes avanços nos governos Lula (2002-2006 e 2006-
2010) e no atual governo Dilma Roussef de um lado permitem vislumbrar o
adensamento da identidade negra, e de outro o risco de desarticulação política do
movimento negro, uma vez que ao o respeito aos direitos serem conquistados e a
representatividade dos negros em diferentes âmbitos da sociedade brasileira
garantida, temos o risco de renovação dos mecanismos que “embranquecem” os
negros que são socialmente e economicamente “bem sucedidos”. Isto porque,
conforme Silva:
“A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica,
transcedental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma
construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato
performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada,
inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas
discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistemas de
representação.” (2000, p.97).
Assim a inclusão de pardos e pretos, categorias do IBGE, no grupo negro, é
apenas uma forma de se conquistar direitos perante uma sociedade na qual a
identidade normal, a branca, os renega e os rejeita. Portanto, como Silva (2000)
afirma, por a identidade e a sociedade brasileira estarem em constante mudança,
podemos constatar que nos últimos anos o grupo negro tem conquistado algumas
políticas afirmativas que visam incluir e diminuir sua falta de representatividade nos
mais variados espaços da sociedade brasileira. Acreditamos que a identidade negra
deverá sofrer alterações num futuro próximo, graças às conquistas dos movimentos
negros e das ações afirmativas que o governo implantou em nossa sociedade, só o
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tempo dirá como será essa identidade negra no futuro, afinal a representatividade e os
discursos estão sempre se modificando.
V. Referências Bibliográficas
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