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21º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

III-030 – SECAGEM DE UM RESÍDUO GALVÂNICO EM UMA CÂMARA SOLAR

Ivo André Homrich Schneider (1) Professor do Curso de Engenharia Civil da Universidade de Passo Fundo, Mestre e Doutor em Metalurgia Extrativa pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Minas, Metalúrgica e dos Materiais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ana Paula Kirchheim Engenheira Civil pela Universidade de Passo Fundo, Aluna de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço ( 1 ) : Universidade de
Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço ( 1 ) : Universidade de

Endereço (1) : Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Engenharia e Arquitetura, Campus I - Bairro São José, Passo Fundo-RS, CEP: 99001-970, Fone: 54-3168424, Fax: 54-3168211, E-mail:

ivoandre@upf.tche.br.

RESUMO

O presente trabalho tem por finalidade estudar a secagem de um resíduo sólido gerado na estação de tratamento

de efluentes de uma indústria de galvanoplastia. A secagem foi efetuada, comparativamente, em um leito convencional e em uma câmara solar. A secagem mostrou ser possível de ser realizada por ambos sistemas, porém a câmara solar apresentou melhor desempenho e facilidade de operação. A potencialidade de uso do sistema proposto na remoção de água de pequenos volumes de resíduos industriais é discutida.

PALAVRAS-CHAVE: Resíduo Sólido, Leito de Secagem, Energia Solar.

INTRODUÇÃO

A secagem de lodos gerados em estações de tratamento de efluentes é uma operação essencial para o manuseio

e redução do volume de resíduos. Convencionalmente, a remoção de água é realizada através de uma filtração seguida da disposição em leitos de secagem. O uso de leitos de secagem convencionais, onde a cobertura é operada manual ou mecanicamente, apresenta uma eficiência baixa nas condições climáticas do Rio Grande do Sul, principalmente no inverno.

Para muitas empresas, que geram pequenas quantidades de resíduos sólidos, o investimento em processos de secagem não é atraente, preferindo-se a estocagem do lodo úmido em recipientes por tempo indefinido ou optando-se pela coleta através de uma empresa credenciada. Porém, o alto índice de água presente no resíduo acarreta na necessidade de maior espaço físico de armazenamento e maior custo de descarte.

Esse problema é evidente em muitas empresas do setor de galvanoplastia (Imai, 1977), cujo tratamento gera um lodo contendo metais pesados que, quando descartado inadequadamente, causa graves problemas ambientais (Günther, 1999). A secagem é essencial para o manuseio e descarte em aterros ou em procedimentos de imobilização (Lange e Schwabe, 1999).

Portanto, o presente trabalho apresenta uma nova proposta de secagem, de baixo custo, através de uma câmara de secagem com alto aproveitamento da energia solar. O estudo foi realizado de forma comparativa com um leito de secagem convencional. O resíduo empregado no processo de secagem foi o lodo gerado em uma estação de tratamento de efluentes de uma indústria de galvanoplastia.

MATERIAIS E MÉTODOS

O resíduo sólido estudado foi o lodo gerado no tratamento físico-químico de uma indústria de galvanoplastia

localizado no Município de Passo Fundo, RS. Tipicamente, o resíduo é oriundo da precipitação de hidróxidos

metálicos, contendo predominantemente alumínio, ferro e cromo na forma trivalente.

   

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Foram projetados e construídos dois secadores, em escala piloto, na Universidade de Passo Fundo: uma câmara

 

de

secagem solar e um leito de secagem convencional.

 

A

câmara solar foi projetada usando o princípio dos coletores de calor por energia solar (Bezerra, 1982). Foi

 

construída em alvenaria, com paredes de tijolos maciços, pintada, internamente, com tinta preta fosca e,

 

externamente, com tinta acrílica amarela. A câmara apresenta formato quadrado com dimensões internas úteis

de

2,05 m. O lado mais alto possui 1,45 m e o mais baixo 0,46 m. Foi coberta com chapas de vidro, inclinadas

ao

norte, e colocadas de modo a deixar um espaço para circulação de ar. Assim, o calor fornecido pelo sol cria

um fluxo de ar quente, por convecção, no sentido de baixo para cima. Dentro da câmara foi instalada uma estrutura metálica de forma a permitir o encaixe de gavetas com dimensões de 40 x 40 x 15 cm. As gavetas possuem fundo fendido, que permite a drenagem da água, e foram pintadas de preto fosco, para trabalhar como uma chapa absorvedora de calor. Sobre o fundo foi colocado um tecido de polipropileno, para evitar a passagem das partículas. A temperatura na câmara solar foi monitorada interna e externamente, com dois

termômetros com faixa de medição de 0 o C a 60 o C e resolução de 0,5 o C. Um desenho esquemático da câmara

de

secagem encontra-se na Figura 1A.

O

leito de secagem convencional constitui-se em uma construção em forma de caixa, edificada em alvenaria,

com formato quadrado e dimensões internas úteis de 1,2 x 1,2 x 0,20 m. O piso é parcialmente cimentado e possui uma declividade de 4% para dois subleitos de brita, que têm por função a drenagem da água excedente. Sobre o piso foi colocado um tecido de polipropileno para não haver a mistura do resíduo com a brita. Sobre o

leito foi instalado um telhado de chapas metálicas. O telhado corre sobre trilhos, permitindo a abertura do leito, em dias ensolarados, e a proteção do mesmo, em dias chuvosos. O desenho esquemático do leito é apresentado

na Figura 1B.

Figura 1: Desenho esquemático da parte interna da câmara solar (A) e parte interna do leito de secagem convencional (B).

(A) e parte interna do leito de secagem convencional (B). A eficiência dos secadores foi monitorada

A

eficiência dos secadores foi monitorada através de medidas da umidade do material espessado. Três amostras

de

cada gaveta da câmara, três amostras do leito e três amostras de uma gaveta deixada no laboratório (controle)

foram coletadas por dia, durante um período de oito dias, a fim de quantificar o valor médio da umidade e o erro experimental. Foi comparada as eficiência dos dois secadores bem como da câmara solar com diferentes volumes de resíduo por unidade de área.

A umidade (%) foi determinada como segue:

onde:

Umidade =

(

Mu

-

Ms

) x100

Mu

Mu – massa da amostra úmida Ms – massa da amostra seca

equação (1)

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As Figuras 2 e 3 mostram dados de desempenho da secagem no leito convencional e na câmara solar. Para fins

de controle, uma amostra foi colocada para secagem em laboratório, protegida das influências do tempo.

 

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Experimentalmente, observou-se que, em ambos os sistemas, no primeiro dia de secagem houve a remoção de parte da umidade pela passagem da água no tecido de polipropileno. Após esse período, a remoção de água ocorreu, predominantemente, por evaporação. A taxa de evaporação mostrou-se dependente das condições climáticas, sendo favorecida nos dias ensolarados e com maior temperatura.

favorecida nos dias ensolarados e com maior temperatura. A Figura 2 apresenta dados comparativos entre a

A Figura 2 apresenta dados comparativos entre a câmara solar e o leito convencional de secagem. O volume de

resíduo por unidade de área, em ambos os secadores, foi de 25 L/m 2 (em base úmida). Pode-se observar que, tanto na câmara solar como no leito convencional, houve significativa vantagem em relação à secagem em laboratório (controle). Comparando a câmara solar e o leito convencional, a câmara solar apresentou melhor desempenho.

A Figura 3 mostra um gráfico comparando o efeito da variação do volume de lodo por unidade de área na

câmara solar. Averiguaram-se os seguintes volumes de resíduo em base úmida: 15 L/m 2 , 25 L/m 2 e 35 L/m 2 . Como esperado, quanto maior o volume de resíduo por unidade de área, mais lenta é a secagem do material. Entretanto, a diferença foi pequena, mostrando que o sistema comporta valores de carregamento de lodo da ordem de 35 L/m 2 .

Figura 2: Estudo comparativo entre o leito convencional e a câmara solar. Volume de resíduo por unidade de área igual a 25 L/m 2 . Período: 16/08/2000 a 24/08/2000.

100 90 80 Controle 70 60 Leito de secagem convencional 50 40 Câmara de secagem
100
90
80
Controle
70
60
Leito de secagem
convencional
50
40
Câmara de secagem
solar
30
20
10
0
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Umidade (%)

Dia

Figura 3: Estudo comparativo entre diferentes carregamentos de resíduo na câmara solar (volume de resíduo por unidade de área). Período: 16/08/2000 a 24/08/2000.

100 90 80 Controle 70 35 L/m2 60 25 L/m2 50 15 L/m2 40 30
100
90
80
Controle
70
35 L/m2
60
25 L/m2
50
15 L/m2
40
30
20
10
0
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Umidade (%)

Dia

 

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O melhor desempenho da câmara solar pode ser explicado pela maior temperatura interna, principalmente nos dias ensolarados, conforme demonstra a Figura 4.

 

Figura 4: Temperatura interna e externa da câmara de secagem solar.

 
50 Sol Chuva 40 30 Temperatura interna da câmara 20 Temperatura externa 10 0 11
50
Sol
Chuva
40
30
Temperatura interna
da câmara
20
Temperatura externa
10
0
11
0
13
1
15
2
17
3
19
4
21
5
23
6
01
7
03 05
8
9
10 11 12
07
09
11
Temperatura (oC)

Hora

Adicionalmente, reparou-se que, além de energeticamente mais eficiente, a câmara solar é operacionalmente mais prática, pois não precisa o acompanhamento das condições do tempo para operação, como ocorre no leito convencional. Em termos de custo de implantação, ambos se eqüivalem, uma vez que o custo por unidade de área do leito convencional foi estimado em 279,72 R$/m 2 e o da câmara solar em 269,06 R$/m 2 . Entretanto, esses custos podem ainda ser minimizados , usando materiais de construção de menor preço.

Por fim, cabe ressaltar que os dados apresentados neste trabalho são do mês de agosto de 2000. Atualmente, são levados a efeito estudos para avaliar o desempenho dos secadores nas condições climáticas no período de um ano.

CONCLUSÃO

Os resultados da presente pesquisa mostram que a secagem do resíduo pode ser realizada tanto no leito de secagem convencional como na câmara solar. Porém, a câmara solar apresentou melhor desempenho e facilidade de operação. Em termos de custo, ambas as propostas se eqüivalem. A câmara solar demonstrou ser um sistema adequado e de baixo custo para remoção de água de pequenos volumes de resíduo.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao CNPq, à Fapergs e à Universidade de Passo Fundo pelo auxílio financeiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BEZERRA, A.M. Energia solar. Curitiba: LITEL, 1982.

Área contaminada por disposição inadequada de resíduos industriais de

galvanoplastia. 20 o CONGRESSO BRASILEIO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL. 1999. Anais. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

3. IMAI, Y. Treatment of electroplating waste water. Technocrat, v.10, n.4, p.44-48,1977.

4. LANGE, L.C.; SCHWABE, W.K. Estudo dos efeitos da carbonatação acelerada nas propriedades físico- químicas de resíduos galvânicos solidificados em matrizes de cimento. 20 o CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL. 1999. Anais. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

2. GÜNTHER, W. M. R