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4 D E S TA Q U E

PÚBLICO•QUINTA-FEIRA, 20 NOV 2003 EURO 2004 E SEGURANÇA NOS ESTÁDIOS

P&R
Quais são os mecanismos de auto-regulação, ou “self-policing”,
previstos no “Manual Europeu sobre Prevenção da Violência e Desporto”?
O PAPEL DOS
MAGISTRADOS
O que é o “fan coaching”?
Pode ser traduzido genericamente como en-
quadramento de adeptos, por parte de adeptos
colaborando activamente na prevenção e
resolução de conflitos e problemas em que os
seus adeptos se vejam envolvidos, quer como
Como actua o “steward”?
Esta figura — que surgiu, pela primeira vez,
no início da corrente época desportiva — foi
NOS CONFLITOS
mais antigos. Segundo o “Manual do Conse- autores, quer como vítimas. No Euro 2004: introduzida no futebol português, e no direi-
lho da Europa”, “fan coaching” é “parte do associações e federações de adeptos checos, to interno tem a designação de “assistente de A segurança do Euro 2004 também
esforço tendo em vista uma prevenção social alemães, holandeses, ingleses, individual- recinto desportivo”. Trata-se de funcionários implica os magistrados, pois caso se
e educativa”. Tal só é possível com dois pré- mente ou em parcerias, com meios próprios com o estatuto e formação base de vigilante verifiquem casos de hooliganismo,
requisitos fundamentais: “Promover uma ou com apoios comunitários — como é o caso de segurança privada, que dispõem de for- a justiça terá de actuar o mais rapi-
cultura de adeptos positiva e criar condições do Programa AGIS, que financia iniciativas mação adicional em matéria de segurança de damente possível para evitar mais
satisfatórias para a estada de adeptos que de prevenção da delinquência e da crimina- recintos desportivos. Desempenham funções problemas, isto num país com uma
visitam o país”. Está especialmente desen- lidade —, deverão criar este tipo de estrutura de vigilância do recinto desportivo e anéis de legislação actualmente pouco prepa-
volvido e estruturado, com profissionais em várias cidades portuguesas. segurança, fazendo cumprir o regulamento rada para a violência associada ao
KAI PFAFFENBACH/REUTERS
interno; de gestão e controlo de acessos, não desporto.
só controlando os títulos de ingresso, como de- Neste contexto, em 17 de Outubro,
tectando e impedindo a introdução de objectos o Departamento de Investigação e
proibidos ou perigosos; e de acompanhamento, Acção Penal (DIAP) de Lisboa pro-
acomodação e informação dos espectadores, moveu uma mesa-redonda subordi-
prevenindo a ocorrência de incidentes. nada ao tema genérico: “A Violência
Associada ao Desporto”. Esta acção foi
E os “spotters”? enquadrada numa série de iniciativas
São agentes especializados em informações realizadas por ocasião do 15º aniver-
policiais, que integram as delegações poli- sário do DIAP.
ciais dos vários países e que, acompanhando A escolha da temática por parte
frequentemente os seus grupos de adeptos na- da coordenação do DIAP reflecte o
cionais, conhecem os seus hábitos e reacções. interesse e em certa medida a preo-
Actuando no terreno e, sendo bons fisionomis- cupação dos magistrados do Ministé-
tas, desempenham um papel importante na rio Público com intervenção na área
ligação com as suas delegações policiais e com penal, pelos actos de hooliganismo
as autoridades locais, na detecção e identifi- que podem vir a ocorrer no futuro,
cação de adeptos violentos, na prevenção de nomeadamente no Euro 2004.
actos de violência e na ligação entre os adeptos O jurista José Manuel Meirim con-
e as autoridades locais. sidera que “o objectivo da iniciativa
foi o de proporcionar aos magistrados,
O que significa “banning order”? diferentes e eventualmente mais
É uma decisão condenatória (não existen- próximas leituras desse fenómeno
te em Portugal), que pode ser de natureza [de hooliganismo]”. Além do jurista,
judicial, administrativa ou civil-desportiva ligado ao direito do desporto, também
(neste caso, aplicada pelo clube, por violação participaram na mesa-redonda Pau-
do regulamento interno do estádio), aplicada lo Gomes, secretário-executivo da
a adepto que comprovadamente praticou Comissão de Segurança para o Euro
actos de violência associada ao futebol, e que 2004, e uma socióloga do desporto com
se traduz na sua proibição, por tempo deter- vasta experiência neste domínio, Sa-
minado, de entrar em estádios de futebol ou lomé Marivoet.
em recintos desportivos. Em alguns países, Naquele encontro, foram abordados
como é o caso da Inglaterra ou Alemanha, o três factores relativamente à violência
adepto pode ser obrigado a apresentar-se em associada ao desporto: direito (legis-
departamento policial à sua escolha, nos dias lação desportiva), segurança pública
de jogo da sua equipa, podendo mesmo ser-lhe (perspectiva mais policial) e socio-
retido o bilhete de identidade ou passaporte, de logia, respectivamente associados a
modo a impedir a sua saída para o estrangeiro, cada um dos oradores.
para assistir a jogos da sua equipa. É o que, “Procurei dar conta da falência prá-
para o Euro 2004, previsivelmente, acontecerá tica da legislação portuguesa, a qual
nesses dois países, com os adeptos registados não goza de muita efectividade”, refe-
como os mais violentos. riu ao PÚBLICO José Manuel Meirim,
relativamente aos aspectos jurídicos
O que diz a “Convenção Europeia discutidos na mesa redonda. O jurista,
sobre a Violência e os Excessos que também é professor auxiliar da
dos Espectadores por ocasião Faculdade de Motricidade Humana,
de Manifestações Desportivas considera que “a legislação portugue-
e nomeadamente de Jogos de Futebol”? sa é um morto-vivo nesta matéria [de
Na sequência dos incidentes do Heysel Park, hooliganismo]” e isso “redobra de
em Bruxelas, em Maio de 1985, o Conselho da importância e urgência a adopção de
Europa aprovou, em Estrasburgo, em 19 de medidas que possam oferecer resposta
Agosto desse ano, um instrumento de direito minimamente aceitável no quadro de
internacional contendo medidas concretas e uma competição desportiva interna-
imperativas, sob a forma de convenção, para cional desta envergadura”.
especializados em aspectos sociais e educa- Para que serve o CCIP? combater a violência e a insegurança nos Nesta iniciativa também foram
cionais, na Bélgica, Alemanha, Holanda e O Centro Coordenador de Informações Poli- estádios de futebol. Portugal foi um dos referidas as vias possíveis de pu-
Inglaterra. São os líderes das associações de ciais funcionará como centro nacional de in- primeiros Estados-membros do Con- ição dos diferentes actos de
adeptos que costumam coordenar este tipo de formações policiais sobre violência associada selho da Europa a assinar e ratifi- violência associada ao des-
actividades. No Euro 2004, estes mecanismos ao futebol, tendo em vista o Euro 2004. Ficará car esta convenção. Entretanto, foi porto, havendo referência a
deverão ser utilizados, designadamente, sob sediado em Lisboa e incluirá não só oficiais aprovada a Resolução do Conselho recentes criminalizações de
a forma de “fan embassies”. de ligação das forças e serviços de segurança da União Europeia, de 6 de Dezem- algumas manifestações de
portugueses, como oficiais de ligação de todos bro de 2001, que veio homologar um violência em outros países.
E o que são as “fan embassies”? os países participantes no torneio. Funcionará manual com recomendações para Paulo Gomes deu o exemplo
São uma forma de pôr em prática o “fan co- como verdadeiro centro nevrálgico de gestão e a cooperação policial internacional o que acontece em países
aching”. Verdadeiro mecanismo concreto e troca de informações policiais sobre violência e medidas de prevenção e luta contr o Alemanha ou Inglaterra,
visível de auto-regulação, constituídas pelas no futebol, estando ligado, em permanência, violência e os distúrbios associados aos jogos em que o sistema legal “permite res-
organizações de adeptos e um canal de co- aos centros congéneres nos países europeus, de futebol com dimensão internacional em tringir os adeptos com antecedentes
municação com as autoridades locais. Estas às células locais, instaladas em cada cidade que, pelo menos, um Estado-membro se en- violentos, através da apreensão dos
embaixadas nacionais são, por natureza, iti- anfitriã, bem como às sedes das várias forças contre envolvido. Seguiu-se, em 25 de Abril passaportes, proibição de entrada nos
nerantes, podendo consistir em autocarros e serviços de segurança portugueses que o de 2002, o primeiro documento comunitário estádios, entre outras”. A socióloga
ou casas pré-fabricadas, que são instalados integram. com carácter vinculativo, neste domínio: Salomé Marivoet contribuiu com uma
em zonas centrais das cidades anfitriãs, a Decisão do Conselho da União Europeia, perspectiva mais social da violência
com o objectivo de prestarem todo o tipo E os CLIP? relativa à segurança por ocasião de jogos de associada ao desporto.
de apoio aos próprios adeptos nacionais, à Estas são Células Locais de Informações Po- futebol com dimensão internacional, que vem Acabaram assim por ser expres-
medida que se deslocam pelo país anfitrião, liciais, que serão oito, uma em cada cidade impor aos Estados-membros a criação de um sas várias preocupações sobre o
desde logo, informação turística e desportiva. anfitriã do Euro 2004, e estarão ligadas ao ponto nacional de informações policiais sobre “caso especial” que vai constituir o
Têm a vantagem de conhecerem o idioma, CCIP. Recebem e transmitem, para o centro futebol, de natureza policial, que funcione co- Euro 2004, isto apesar de ainda não
os hábitos, a mentalidade e as necessidades nacional, toda a informação policial relevan- mo ponto de contacto directo e central para se saber muito bem que alterações
dos seus adeptos, constituindo-se, assim, te sobre a preparação ou ocorrência de actos o intercâmbio das informações pertinentes legislativas estão a ser pensadas de
como interlocutores privilegiados com as violentos perpetrados por adeptos, para que e para facilitar a cooperação policial inter- forma a obter respostas céleres e efi-
autarquias locais, as forças de segurança se possa planear e/ou coordenar uma inter- nacional no âmbito de jogos de futebol com cazes para combater os fenómenos de
e as embaixadas oficiais dos seus países, venção policial adequada. dimensão internacional. J.T. hooliganismo. ■.J.T.