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Esqueça o estereótipo de que para ser feliz é preciso ter estabilidade financeira

e casar. O estresse também não faz mais parte da vida do novo jovem, que
passou a ser mais confiante e mais otimista em relação ao futuro. Essas
descobertas fazem parte da pesquisa “Juventude 30 Quilates”, que entrevistou
28 mil pessoas em 18 países. Tudo para descobrir uma única coisa: quem é o
jovem de hoje?

“Ele habita em um mundo com excesso de informações, acontecimentos e


demandas. Um mundo virtualizado em que aspectos tecnológicos são
extremamente envolventes, ao passo que os relacionamentos humanos se
tornam cada vez mais complicados”, arrisca o psicólogo e professor
universitário André Camargo. “É um reflexo: tenta dar conta de tudo ao mesmo
tempo em que procura compreender quem é e qual seu papel no mundo.”

A diferença para os jovens de décadas passadas está justamente na farta


oportunidade de informação. Se você precisa saber algo (nem que seja por
curiosidade), onde procura? Nos sites de busca rápida. Sem perder tempo,
esmiúça o assunto. E como era no passado? Alguém ainda consegue se
imaginar indo a bibliotecas públicas e percorrendo corredores de velhos e
desatualizados livros?

“O jovem já vem com uma mala de informações e possibilidades enormes, mas


a grande sacada é saber utilizar tudo a seu favor e da vida profissional. Há 20
anos não dispunha de todos estes recursos para se antenar com o mundo e
aprender com outras culturas e possibilidades. Isto é, sem dúvida, um
diferencial”, avalia a psicóloga Silvana Martani.

Geração Y
Na pesquisa, os próprios entrevistados se definem com menor pressão para
casar e formar família, com uma maior liberdade sexual, com desapego às
crenças religiosas, maior permanência na casa dos pais e falta de interesse ou
envolvimento na política. “É o reflexo do tempo e da sociedade em que se vive.
A velocidade marca a vida moderna e impede frequentemente as vinculações
psicossociais estáveis e prolongadas em todos os âmbitos da vida”, comenta a
psicóloga Maria Cristina Capobianco.

Nada pode ser longo ou demorado. A velocidade de ação permeia as relações


também, seja no campo afetivo ou profissional. “Para este jovem ficar em uma
empresa, é necessário que a instituição acolha suas ideias e saiba reconhecer
seu trabalho em curto espaço de tempo. De preferência, deve ser colocado em
mais de um projeto ao mesmo tempo – senão, fica aborrecido”, completa Maria
Cristina.

Cerca de 78% dos brasileiros entrevistados na faixa dos 25 a 34 anos dizem


que pensam no futuro o tempo todo, sendo 74% otimistas com relação ao que
virá pela frente. Antigamente a pressão social era grande, casar e ter filhos
depois dos 20 era quase uma obrigação. O trabalho era mais valorizado do que
os estudos e, em média, ficavam no mesmo emprego por 25 anos.
Mudanças
A pressão social hoje é bem menor – ou exerce bem menos influência. Testar
relacionamentos antes de se “amarrar” é natural. O crescimento profissional
exige mobilidade e muito estudo. Casamento é coisa para depois, bem depois
dos 30. Claro, que a pesquisa aponta que eles se preocupam em ser bons
pais/mães (88% dos brasileiros afirmam isso); ter casa própria (88%) e
sustentar a família que construiu (83%); tomar conta dos pais (80%); e estar
com a pessoa com quem possa passar o resto da vida juntos (87%).

“É uma contradição. Uma mulher de 25 anos mal pensa em se casar, mas


antigamente já seria velha para o casamento. Na época existia pressa, no
sentido de poder viver tudo antes dos 40 ou 50 anos. Hoje sabemos que a vida
só começa nesta fase ou quando queremos que comece”, avalia a
psicoterapeuta Andrea Pavlovitsch. “Neste momento, o autoconhecimento é a
coisa mais importante. E, claro, saber que temos tempo de pensar e escolher.
Não é necessário sair correndo. Calma é outro diferencial que o jovem precisa,
mas, como em outras épocas, ainda não desenvolveu”, brinca a especialista.