Você está na página 1de 12

O PROGRAMA CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS COMO POLÍTICA DE

INTERNACIONALIZAÇÃO: ALGUMAS ANÁLISES
Josielle Soares da Silva – josiellesoares@gmail.com – UFRN
Alda Maria Duarte Araújo Castro – alda@ufrnet.br – UFRN
Eixo: Educação Superior, Profissional e Tecnológica
Resumo
O presente artigo apresenta uma reflexão sobre as atuais políticas que regem o ensino superior
com o foco de análise na internacionalização desse nível de ensino. Especificamente, discute o
Programa Ciência sem Fronteiras, criado em 2011 pelo governo federal através do Decreto nº
7.642 de 13 de dezembro, com o objetivo de promover a consolidação e expansão da
internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por
meio do intercâmbio e da mobilidade internacional. Como procedimento metodológico,
utilizou-se a análise bibliográfica e documental. O trabalho estrutura-se para debater, em caráter
introdutório, o contexto da globalização, evidenciando as repercussões para o ensino superior
e para a criação do Programa Ciência sem Fronteiras. Em seguida, apresentamos algumas
diretrizes internacionais que influenciaram as definições políticas para esse nível de ensino,
com destaque para os processos de internacionalização. No terceiro momento são apresentados
dados do Programa no que se refere ao número de bolsas implementadas e a sua distribuição
pelas áreas do conhecimento. Por fim, traçamos algumas considerações que procuram delinear
a importância do processo de internacionalização e a sua relação direta com a preparação de
profissionais mais qualificados numa sociedade cada vez mais exigente. O referido Programa
se insere nas políticas de internacionalização via mobilidade acadêmica, atendendo às diretrizes
internacionais, buscando contribuir para o fomento tecnológico e desenvolvimento das áreas de
maior crescimento no Brasil, as áreas de concentração do Programa, como Engenharias e
Ciências Naturais e da Terra. Evidencia-se, portanto, que, para o governo brasileiro, as áreas
do conhecimento que promovem o desenvolvimento estão ligadas à inovação tecnológica, em
detrimento das áreas de Ciências Humanas, as quais, também, poderiam contribuir para o
crescimento do país, mas que por motivos políticos e ideológicos estão à margem do Programa.
Palavras-chave: Internacionalização. Ensino Superior. Programa Ciência sem Fronteiras.
Elementos introdutórios e contextuais: globalização e internacionalização em debate
Discutir sobre a educação superior na atual sociedade capitalista conduz
inevitavelmente ao debate acerca das mudanças estabelecidas pelo processo de globalização e
as novas demandas para as instituições de ensino superior que fazem parte da tessitura complexa
e contraditória da sociedade. O fenômeno da globalização exerce densas pressões para as quais
as instituições de ensino superior, muitas vezes, não estão preparadas para atender,
principalmente os sistemas educacionais de países periféricos cujos problemas vão desde a
construção de adequadas bases materiais até a consolidação dos seus processos democráticos

grifo do autor) é levado a se reestruturar. que passa a ser responsável pela formação do novo trabalhador que atuará nessa nova conjuntura.] como organização da sociedade para a produção capitalista. claramente. Nesse sentido.. a globalização é um processo que obscurece os limites nacionais. sendo rearticulado às exigências e possibilidades da globalização. Ideias divergentes assinalam as posturas e compreensões relativas à globalização. É. antes.] e esta é uma bandeira histórica.” (DIAS SOBRINHO. efeitos sobre a educação superior. 2005a:164-165). O autor supracitado enfatiza que a globalização não é simplesmente a continuação da internacionalização tradicional. 2005).. 2005a:165).sem que dificuldades como dívidas históricas. a capacidade de aprender e sua aplicação intensificada com a interconectividade fizeram com que o ensino superior adquirisse uma enorme importância como instância . Nessa direção. pelo desenvolvimento das tecnologias provocam transformações nos campos econômico.. Fatores de competitividade como o conhecimento. essencial e indescartável – elaborar uma compreensão ampla e fundamentada relativamente às finalidades e transformações da sociedade.. culturais e econômicas estejam satisfatoriamente dissolvidas (DIAS SOBRINHO. predominam hoje os julgamentos de que a universidade deve dirigir as transformações exigidas pela nova economia de mercado. Espera-se desse nível de ensino foco nas funções econômicas e laborais. culturais e sociais. também é papel da universidade “[. As instituições de ensino superior exercem um papel central no paradigma econômicoprodutivo e sociopolítico. altera a solidariedade dentro dos Estados e entre eles e atinge a constituição de identidades nacionais e de grupos de interesse. político e ético têm. social e cultura. ocasionadas pela globalização. econômico. políticas. segundo Ianni (2011:41). a nova base material da produção criou condições necessárias para que o processo de trabalho se modificasse e passasse a exigir uma produção de conhecimento cada vez mais rápida.. no campo social. Entretanto. De modo relativamente consensual.. Essas mudanças ocorridas na sociedade atual. conjunto dos instrumentos púbicos e privados de dominação burguesa [. 2009:22. Esse Estado. mas perde algumas das suas prerrogativas econômicas. mas dependem de uma mão-de-obra cada vez mais qualificada e bem treinada” (CASTRO. trazendo novos desafios para o ensino superior. “O Estado-nação não só é redefinido. De uma forma geral. mais flexível. um fenômeno muito mais complexo e plurirreferencial. comportando uma dimensão ampla.]” (CASTANHO. “[. debilitando-se”. avanços alcançados no âmbito das ciências. Nessa configuração. no contexto do neoliberalismo. tendo em vista a sua relação direta com o conhecimento. tecnologia. “As modernas e sofisticadas tecnologias não substituem a força de trabalho.

2012). mas surge como elemento imperativo das instâncias econômicas. da capacidade de utilizar os saberes adquiridos e de aprender ao longo de toda a vida (SOBRINHO. o desenvolvimento de associações e colaborações no âmbito da política educacional se torna mais intensa e. a internacionalização do ensino superior torna-se um conjunto de esforços proativos das instituições de ensino superior para responderem às demandas competitivas e econômicas do mundo globalizado. acadêmica e administrativa. Nesse sentido apresenta-se por meio de uma diversidade de termos. Isso pode ser ratificado pela formação de blocos econômicos que passou a demandar. consequentemente. embora não seja consensual entre os autores que estudam o tema. (CASTRO e CABRAL NETO.produtora das fontes de riqueza. novos comportamentos que lhes permitam atuar de maneira mais eficaz em contextos multiculturais (STTALIVIERI. pesquisadores e gestores a oferta de novos conhecimentos. Isso leva as instituições de ensino superior a buscarem a internacionalização. 2004). professores. a instituição pode vislumbrar a sua interlocução com instituições e com redes acadêmicas universalmente reconhecidas.] pode trazer para os alunos.. instituindo. não advém de uma necessidade interna do campo acadêmico. A internacionalização é compreendida sob uma variedade de aspectos e também é definida por uma ampla terminologia. em que fosse possível a livre circulação de serviços e capitais educacionais. uma vez que através dela pode-se assegurar o avanço da qualidade dos programas de ensino. internacionalização da educação superior (MOROSINI. A implicação dessa introdução no processo de internacionalização [. geradora e disseminadora de conhecimentos. no atual cenário. evoluiu durante a década de 1990. os sistemas educativos e de desenvolver padrões educacionais equivalentes. um espaço comum de educação. 2006). novas habilidades. a internacionalização. pesquisa e extensão e promove-se a inclusão institucional no contexto mundial da educação superior. dimensão internacional. a internacionalização do ensino superior cria demandas para as instituições superiores na medida em que novas competências de cunho internacional vão sendo exigidas. passa a ser vista como um serviço internacional possível de ser comercializado como um bem de mercado. a exigência de compatibilizar as qualificações. em seus vários níveis e modalidades. por essa razão. 2005a).. tais como: educação internacional. Nessa lógica. Nesse sentido. Por meio dessa visibilidade. tem despertado um admirável interesse dos diferentes países ao passo que a educação. expandindo as inúmeras oportunidades para toda a comunidade científica. o termo internacionalização não é novo e sua definição. Neste contexto. Compreendida sob diferentes aspectos. Segundo Knight (2005). também. A autora chama a atenção para a importância da definição .

1998. as funções ou o oferecimento da educação superior” (KNIGHT. merece destaque a realização. nem todas as instituições se inserem nesse processo em condições de igualdade. considerando a importância do seu papel no desenvolvimento da sociedade.do termo uma vez que “as definições podem moldar a política e a prática” (KNIGHT. 1998). em Paris. que defende a relevância do ensino superior para o desenvolvimento das nações. genuíno e sustentável e nem reduzir a disparidade que separa os países pobres e em desenvolvimento dos países desenvolvidos. Nesse cenário. Sem uma educação superior e sem instituições de pesquisa adequadas que formem a massa crítica de pessoas qualificadas e cultas. com frequência. segundo Barbalho e Castro (2010). entre os vários tipos de instituições que atuam nesse nível. Como forma de minimizar as desigualdades. o que pode contribuir para um maior aprofundamento das desigualdades e ampliar as distâncias estre as instituições de excelência. A internacionalização ainda é um processo em construção no âmbito da educação superior e se caracteriza. principalmente. uma reação ad hoc e fragmentada ao grande número de oportunidades internacionais disponíveis. em 1998. 2005:12. tornando-se instrumentais e sem condições de competir no mercado educacional. o uso das novas tecnologias e o estabelecimento da cooperação internacional. por sua complexidade e por inserir-se em um amplo contexto de políticas públicas. A Declaração entende que. as universidades tornam-se protagonistas desse processo. 1). Diretrizes internacionais para a internacionalização do ensino superior No campo das políticas para o ensino superior na década de 1990. 2005:12. A compreensão de que as dificuldades . uma resposta. com financiamento garantido. A primeira. nenhum país pode assegurar um desenvolvimento endógeno. para o progresso socioeconômico e cultural que esse nível de ensino pode proporcionar. de duas conferências mundiais para discutir o ensino superior. e as instituições que se centram apenas no ensino. na qual foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação (UNESCO. Ainda para a autora. tradução nossa). e propõe a seguinte definição prática: “o processo de integrar uma dimensão internacional. tradução nossa). principalmente. intercultural ou global com o objetivo. (UNESCO. para a diminuição das desigualdades existentes entre países do norte e do sul e. o processo de internacionalização é. direcionadas para a pesquisa. o documento aconselha o compartilhamento de conhecimentos entre as nações. É importante ressaltar que.

o sistema de educação continue a ser pouco produtivo. Há uma preocupação de que o Brasil está preparado de modo inadequado para competir em um mundo cada vez mais globalizado e de que. Entre as estratégias que ganham destaque. e projetos de pesquisas internacionais. a capacidade tecnológica e a inovação ganham maior importância em detrimento dos recursos naturais e dos fatores básicos de produção. p. Para atingir e manter a qualidade é necessário que o sistema de educação superior seja caracterizado na sua dimensão internacional. sociais e políticas dos países em desenvolvimento seriam superadas somente com a cooperação internacional tornou-se consenso nas diretrizes elaboradas na Conferência. Atualmente uma das recomendações mais enfatizadas diz respeito à inovação tecnológica para uma maior competitividade na economia mundial. 1998. que passou a se constituir em outro marco de recomendações para esse nível de ensino e que vem reiterar as diretrizes postas na primeira Declaração de 1998. é fundamental para gerar um alto crescimento no atual mundo globalizado e competitivo. 2008. intitulada As Novas Dinâmicas do Ensino Superior e Pesquisas para a Mudança e o Desenvolvimento Social. Nesse novo documento. 193). no novo paradigma de produção capitalista. sobretudo para os países em desenvolvimento considerando a atual crise econômica. apesar dos avanços na abordagem de graves deficiências nas últimas décadas. mobilidade de professores e estudantes.econômicas. Dez anos após essa Conferência.. é realizada. 2008). p.. regional e internacional são vistas como meio de garantir a qualidade dos sistemas de ensino superior. a regionalização e a globalização. a UNESCO (2009) coloca o ensino superior como um desafio. também em Paris (2009). a segunda Conferência Mundial sobre Ensino Superior organizada pela mesma agência. . traduzido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) o qual parte do pressuposto de que o conhecimento. Como estratégia para essa orientação.” (UNESCO. Muitas dessas recomendações postuladas pelo Banco Mundial e pela UNESCO serão acatadas no cerne das atuais políticas para o ensino superior. por exemplo.11). essas são vistas como novas dinâmicas que estão transformando o cenário da educação superior e da pesquisa. (BANCO MUNDIAL. o parágrafo b do artigo 11 elenca os elementos principais para essa diretriz: “[. Desse modo. levando sempre em conta os valores culturais e as situações nacionais.] intercâmbio de conhecimentos. no documento do BM Conhecimento e Inovação para a Competitividade (BANCO MUNDIAL. estão a internacionalização. Nesse sentido. as parcerias e ações em nível nacional. criação de redes interativas. A urgência por inovação é declarada.

Além disso.060 2.000 . as metas de bolsas do Programa por modalidade e a distribuição de bolsas implementadas por área prioritária: Quadro 1: Metas do Programa Ciência sem Fronteiras Modalidade Doutorado sanduíche Doutorado pleno Pós-doutorado Graduação sanduíche Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Exterior (empresa) Atração de Jovens Talentos Pesquisador Visitante especial Total Fonte: http://www. Foram estabelecidas áreas prioritárias de atendimento pelo Programa.000 101.000 7. 2013 Número de bolsas 15. dentre outros elementos. uma orientação ideológica concernente àquilo que o governo brasileiro entende como avanço científico. apresenta-se o Programa Ciência sem Fronteiras que oferece a proposta de intercâmbio e mobilidade com vistas à consolidação. O Programa prevê a utilização 101. expansão e internacionalização da ciência e tecnologia. o custeio da vinda de estudiosos ao Brasil por meio da modalidade da Atração de Jovens Talentos ou Pesquisador Visitante Especial. também. Recomenda que os países em desenvolvimento devam investir pesadamente em inovação e educação de qualidade em todos os níveis para que possam competir com economias avançadas.642 de 13 de dezembro de 2011. ou seja.gov.000 4. buscando ampliar a inovação e a competitividade do Brasil.O documento. o Programa oferece a bolsa de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Exterior.500 6. Acesso em: 31 out. Internacionalização no Brasil: analisando o contexto do Programa Ciência sem Fronteiras No âmbito das atuais políticas de ensino superior de incentivo ao desenvolvimento da ciência e tecnologia.cienciasemfronteiras. tornando-o complementar às atividades desenvolvidas em cooperação internacional e concessão de bolsas pela CAPES e pelo CNPq. respectivamente. segundo Santos Junior (2012). O programa foi instituído pelo Decreto nº 7. o que denota. Os dois quadros a seguir revelam.440 64.br/web/csf/metas. com o objetivo de que pesquisadores de empresas recebam treinamento especializado no exterior. compara a evolução das economias de países que investiram em pesquisa e desenvolvimento.000 2.000 bolsas para fomentar a ida de estudantes para o exterior e contempla. adotando a estratégia de desenvolvimento impulsionado pelo conhecimento.

independente da . de empenho e de pagamento fixados anualmente.outras fontes de recursos.099 3. 14: Art. provenientes de entidades públicas e privadas. 75.645 6.680 1.729 3.000 serão financiadas com recursos do governo federal e 26.dotações orçamentárias da União consignadas anualmente aos órgãos e entidades envolvidos no Programa. de acordo com a página eletrônica do Programa.045 2. Ciências Biomédicas e da Saúde Ciências Exatas e da Terra Indústria Criativa Computação e Tecnologias da Informação Produção Agrícola Sustentável Não informado Biotecnologia Fármacos Biodiversidade e Bioprospecção Energias Renováveis Ciências do Mar Nanotecnologia e Novos Materiais Novas Tecnologias de Engenharia Construtiva Petróleo.Das 101. 2011) Quadro 2: Distribuição de bolsas implementadas por área prioritária Engenharias e demais áreas tecnológicas Biologia. nos parágrafos I e II do art. e II .202 934 821 568 493 363 303 302 257 175 171 119 85 2 1 1 Fonte: Data Mart do Ciência sem Fronteiras (consolida dados de bolsas implementadas pelo CNPq e CAPES) .Dados atualizados até Setembro/2013 Como se pode perceber do primeiro quadro acima apresentado. A participação do âmbito privado é estabelecida no decreto que institui o Programa.277 1. Gás e Carvão Mineral Tecnologia Aeroespacial Tecnologias de Prevenção e Mitigação de Desastres Naturais Formação de Tecnólogos Tecnologia Mineral Prevenção e Controle a Poluição Aquática Gerenciamento de Água e Governança Tecnologia da Informação e Comunicação 15. observados os limites de movimentação. (BRASIL. O Programa Ciência sem Fronteiras será custeado por: I . 14.000. com um total de 64.000 bolsas oferecidas.000 serão concedidas com recursos da iniciativa privada. há uma maior distribuição no número de bolsas no nível de graduação. O segundo quadro demostra a disposição das bolsas por área prioritária do Programa.

Isso gera uma mudança significativa. Observa-se. desfrutam do poder de direção geral do domínio político e econômico. no qual se pode notar a preponderância da área de Engenharias e demais áreas tecnológicas como o principal foco. como e quando deve ser produzido e consumido. a produção no sistema capitalista explorou. os principais destinos dos bolsistas estão em países cujo desenvolvimento tecnológico e científico é mais avançado. Nesse sentido. na divisão social do trabalho e no consumo.. modifica as relações sociais dentro e fora do processo produtivo. Neves e Pronko (2008) explicam que. o que. Assim sendo. através do Programa. os países que possuem em seu poder as inovações tecnológicas. uma vez que mais da metade das bolsas estão em áreas estratégicas para o desenvolvimento econômico. Nesse contexto. conforme Dias Sobrinho (2005b). portanto que o país está buscando. definem as formas e padrões de produção e de acumulação. uma vez que o desenvolvimento econômico está ligado à capacidade de investimento na produção conhecimento e inovação. por quem. como assegura Dias Sobrinho (2005b. Atualmente assistimos as forças econômicas e produtivas assimilarem os avanços científicos de forma a conduzir mudanças intensas na sociedade. incorpora os avanços tecnológicos. tendo como finalidade o máximo de produtividade e lucro. atualmente. Nesse caso. particularmente as da informação. o conhecimento é reconhecidamente um propulsor da economia em que as novas tecnologias. Dessa forma. gradativamente. visto que se configura como uma importante política de inserção e consolidação do país no processo de internacionalização por meio da mobilidade acadêmica. de todas as formas a mão-de-obra e. pois a capacidade de produzir conhecimento será decisiva nesse novo contexto.] [do] capital. Além disso. Assim também determinam o tipo de conhecimento que tem valor. encontraremos enormes desigualdades nesse processo em relação ao nível de apropriação do conhecimento e da informação no âmbito geral das nações. na produção e distribuição de mercadorias. na implementação do Programa. 75): Quem detém o conhecimento também tem o poder de criar e assegurar as normas e direitos que regem a posse. na análise das autoras. conforme demonstra o gráfico abaixo com os dez países para os quais mais bolsistas são destinados: . numa fase inicial. poucas nações detêm o pensamento científico hegemônico em um momento em que o valor do trabalho intelectual superou o do trabalho manual. o valor e os usos [.modalidade. entende-se que a implementação do Programa Ciência sem Fronteiras se insere em um contexto de busca pela maior inserção do Brasil na chamada “sociedade do conhecimento”.. uma maior competitividade e inovação.

879 bolsas concedidas. embora se saiba que não é um fenômeno recente na história visto que já havia contato intercultural entre os povos antigos (Fainholc. além de comercializar serviços educacionais. O gráfico 01. professores e pesquisadores em geral. Em sétimo e oitavo lugar estão Espanha com 3.130 estudantes do Programa.Gráfico 01: Distribuição de bolsas implementadas por país de destino Fonte: Disponível em: http://www. se trata de um processo que se estende também a programas e instituições.208. apresenta-se a França que recebeu 5.166. pois promove a interação e compreensão das diferenças culturais entre os países.431 bolsistas e.cienciasemfronteiras.854 bolsas e Portugal com 3.940 e 4. demonstra que os estudantes brasileiros. registram-se. É um reflexo da educação no atual estágio em que se encontra a sociedade. 2014.br/web/csf/painel-de-controle Acesso em: 05 ago.882 bolsistas e logo após Austrália e Alemanha com 4. a Irlanda que recepcionou 2. no Programa Ciência sem Fronteiras. A internacionalização não tem atingido apenas a mobilidade de estudantes e professores. na sua maioria.675 bolsas e pelo Canadá com 6. Enquanto a internacionalização ativa reflete a capacidade de determinado sistema de educação atrair estudantes.221. respectivamente. além de impulsionar a formação e inovação nas diferentes áreas do conhecimento. conforme Lima e Maranhão (2009). 2005). Itália aparece em nono com a recepção de 2. Em quarto lugar. em décimo. optaram pelos os Estados Unidos para a complementação de seus estudos. O segundo país que aparece na preferência dos estudantes brasileiros é o Reino Unido com 8. Esse processo pode ser dividido em ativo e passivo. .gov. A mobilidade estudantil internacional desempenha um papel central na internacionalização do ensino superior. nesse sentido. 15.

. analisadas e solucionadas. entre outras ações de internacionalização. busca contribuir para o fomento tecnológico e desenvolvimento das áreas de maior crescimento no Brasil. a preocupação pela inovação na área de ciência e tecnologia em países em que os indicadores de qualidade da educação superior são mais elevados. como Engenharias e Ciências Naturais e da Terra. O Programa Ciência sem Fronteiras se insere nas políticas de internacionalização via mobilidade acadêmica. atendendo às diretrizes internacionais. as áreas do conhecimento que promovem o desenvolvimento estão ligadas à inovação tecnológica. Nesse sentido. Nos últimos decênios. bem como o desafio de construir redes solidárias de cooperação e produção do conhecimento ou submeter-se ao processo hegemônico de integração econômica global. observa-se. o processo de internacionalização passou a ter vida própria e a impor-se em todo o meio acadêmico nacional que começou a reagir e a criar seus mecanismos de adequação. Pode-se depreender disso que o Brasil ainda se encontra em um estágio de internacionalização passiva. conforme o conceito apresentado pelas autoras acima citadas. em detrimento das áreas de Ciências Humanas. Portanto. as quais. em resposta às prioridades estabelecidas pelo Estado. por meio de uma construção coletiva dos atores acadêmicos do continente latino-americano para enfrentar os ditames da desregulação econômica liderada pelos países dominantes. Podemos concluir a partir dessa constatação que. O Programa interage com diferentes esferas de poder. claramente.a internacionalização passiva retrata a tendência de exportar estudantes e acolher programas e instituições estrangeiras. No contexto de uma educação densamente regulamentada. para o governo brasileiro. a ampliação de conhecimentos em áreas estratégica e em nações cujo conhecimento científico e tecnológico é avançado. pois busca através da mobilidade estudantil. e abre campo para a inovação de ações entre órgãos governamentais. as áreas de concentração do Programa. quando o processo de globalização e a massificação do acesso à informação já não nos permitem conviver com fragmentos significativos do mundo acadêmico nacional afastada do contexto global no qual as necessidades a serem atendidas pelos profissionais são produzidas. o processo de internacionalização do sistema brasileiro de educação superior se inicia de maneira induzida. Considerações Finais O processo de transnacionalização lança importantes desafios para as instituições de ensino superior exercerem uma leitura crítica dos novos caminhos a serem percorridos mediante a construção da regionalização da produção do conhecimento.

3. CABRAL NETO. C. 164-173. v. 13. Decreto nº 7. A. Globalização e educação superior: discutindo tendências de internacionalização. Natal: EDUFRN. p. 2012. Globalização. O ensino superior: a mobilidade estudantil como estratégia de internacionalização na América Latina. J. In: LOMBARDI. 49. 188. 2013./mar. Sorocaba. Disponível em: <www. O ensino superior no Brasil e em Portugal. 2009. Revista Lusófona de Educação. 2008. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. D. ed. Jane. poderiam contribuir para o crescimento do país. 2010. Dilemas da educação superior no mundo globalizado: sociedade do conhecimento ou economia do conhecimento? São Paulo: Casa do Psicológo. Brasília. Avaliação e Políticas Públicas em Educação. M. Brasília: CNI.14. ______. Alda Maria Duarte Araújo. 583-610. José. Referências BANCO MUNDIAL. O sistema de educação superior mundial: entre a internacionalização ativa e passiva. Educação superior.planalto. p. Bras.2005. 69-96. Manolita Correia. 3. IANNI. Campinas: Autores Associados.Los nuevos escenarios de La educación superior internacional y su problemática actual. Rio de Janeiro. Mudanças tecnológicas e suas implicações na política de formação de professor. 2005. Tradução: Confederação Nacional da Indústria. 2005a. n. REBELO. P. mas que por motivos políticos e ideológicos estão à margem do Programa. out 2005. n. Revista Avaliação. v. 14. DIAS SOBRINHO. A. A sociedade global./abr. S. filosofia e temas transversais. de 13 de Dezembro de 2011.642. P. 2005b. LIMA. FAINHOLC.ve> Acesso em: 26 ago.gov.org. . jan. Globalização./fev. Beatriz. Un modelo de internacionalización: respuesta a nuevas realidades y retos. S.br/ccivil_03/_Ato20112014/2011/Decreto/D7642. p. D. Alda Maria Duarte Araújo. BRASIL.iesalc.. Acesso em: 20 out 2013. Qual universidade? Educ. São Paulo. A. MARANHÃO. v. G. Carolina M. nº 28. pós-modernidade e educação: história. ed. de Albuquerque. Conhecimento e inovação para a competitividade. CASTRO.também.. In. BARBALHO. ______. V. 21. p. 2011. Educación Superior em América Latina La dimensión internacional. redefinição do Estado nacional e seus impactos. M.htm>. C. In: CABRAL NETO. KNIGHT. O. CASTRO. globalização e democratização. 2011. Antônio. Disponivel em: <http://www. CASTANHO. 2009.: Banco Mundial.unesco. Institui o Programa Ciência sem Fronteiras. M.

Revista de Políticas Públicas. v. STALLIVIERI. 2008. Luciane. jul/dez 2012.MOROSINI. Ciência sem fronteiras e as fronteiras da ciência: os arrebaldes da educação superior brasileira.pdf>. Educar. Marcela Alejandra. Declaração Mundial sobre Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação. 107-124. 2013. 1998. Lúcia Maria Wanderley. Paris.br/onu12-2. Acesso em: 10 out. 2009.br/Comum/midias/646f3952-c261-4e13-9aae83c2b99e5c7c/Vers%C3%A3o%20em%20Portugu%C3%AAs.ufrj. PRONKO. C. NEVES. SANTOS JUNIOR. n. M. São Luís. p. p. UNESCO. O mercado do conhecimento e o conhecimento para o mercado: da formação para o trabalho complexo no Brasil contemporâneo. Caxias do Sul: Educs. Disponível em: <http://www. Curitiba. . Estado do conhecimento sobre internacionalização da educação superior: conceitos e práticas. 2013. 2004. 2006. J. Estratégias de internacionalização das universidades brasileras. ______.feevale. 16. Paris. Rio de Janeiro: EPSJV. Conferência Mundial sobre Ensino Superior 2009: As Novas dinâmicas do Ensino Superior e Pesquisas para a Mudança e o Desenvolvimento Social. L. Acesso em: 25 out. 2.nepp-dh. Disponível em: <http://www. 341-351.html>.