O PROGRAMA CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS COMO POLÍTICA DE

INTERNACIONALIZAÇÃO: ALGUMAS ANÁLISES
Josielle Soares da Silva – josiellesoares@gmail.com – UFRN
Alda Maria Duarte Araújo Castro – alda@ufrnet.br – UFRN
Eixo: Educação Superior, Profissional e Tecnológica
Resumo
O presente artigo apresenta uma reflexão sobre as atuais políticas que regem o ensino superior
com o foco de análise na internacionalização desse nível de ensino. Especificamente, discute o
Programa Ciência sem Fronteiras, criado em 2011 pelo governo federal através do Decreto nº
7.642 de 13 de dezembro, com o objetivo de promover a consolidação e expansão da
internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por
meio do intercâmbio e da mobilidade internacional. Como procedimento metodológico,
utilizou-se a análise bibliográfica e documental. O trabalho estrutura-se para debater, em caráter
introdutório, o contexto da globalização, evidenciando as repercussões para o ensino superior
e para a criação do Programa Ciência sem Fronteiras. Em seguida, apresentamos algumas
diretrizes internacionais que influenciaram as definições políticas para esse nível de ensino,
com destaque para os processos de internacionalização. No terceiro momento são apresentados
dados do Programa no que se refere ao número de bolsas implementadas e a sua distribuição
pelas áreas do conhecimento. Por fim, traçamos algumas considerações que procuram delinear
a importância do processo de internacionalização e a sua relação direta com a preparação de
profissionais mais qualificados numa sociedade cada vez mais exigente. O referido Programa
se insere nas políticas de internacionalização via mobilidade acadêmica, atendendo às diretrizes
internacionais, buscando contribuir para o fomento tecnológico e desenvolvimento das áreas de
maior crescimento no Brasil, as áreas de concentração do Programa, como Engenharias e
Ciências Naturais e da Terra. Evidencia-se, portanto, que, para o governo brasileiro, as áreas
do conhecimento que promovem o desenvolvimento estão ligadas à inovação tecnológica, em
detrimento das áreas de Ciências Humanas, as quais, também, poderiam contribuir para o
crescimento do país, mas que por motivos políticos e ideológicos estão à margem do Programa.
Palavras-chave: Internacionalização. Ensino Superior. Programa Ciência sem Fronteiras.
Elementos introdutórios e contextuais: globalização e internacionalização em debate
Discutir sobre a educação superior na atual sociedade capitalista conduz
inevitavelmente ao debate acerca das mudanças estabelecidas pelo processo de globalização e
as novas demandas para as instituições de ensino superior que fazem parte da tessitura complexa
e contraditória da sociedade. O fenômeno da globalização exerce densas pressões para as quais
as instituições de ensino superior, muitas vezes, não estão preparadas para atender,
principalmente os sistemas educacionais de países periféricos cujos problemas vão desde a
construção de adequadas bases materiais até a consolidação dos seus processos democráticos

antes. trazendo novos desafios para o ensino superior.. “As modernas e sofisticadas tecnologias não substituem a força de trabalho. Essas mudanças ocorridas na sociedade atual. O autor supracitado enfatiza que a globalização não é simplesmente a continuação da internacionalização tradicional. sendo rearticulado às exigências e possibilidades da globalização. Esse Estado. mas dependem de uma mão-de-obra cada vez mais qualificada e bem treinada” (CASTRO. ocasionadas pela globalização. debilitando-se”. altera a solidariedade dentro dos Estados e entre eles e atinge a constituição de identidades nacionais e de grupos de interesse. tendo em vista a sua relação direta com o conhecimento. a globalização é um processo que obscurece os limites nacionais.] como organização da sociedade para a produção capitalista. comportando uma dimensão ampla.]” (CASTANHO. também é papel da universidade “[. Nesse sentido. social e cultura. um fenômeno muito mais complexo e plurirreferencial. econômico. 2005a:165).. culturais e sociais.] e esta é uma bandeira histórica.” (DIAS SOBRINHO. Fatores de competitividade como o conhecimento. De uma forma geral. “[.. mais flexível... políticas. mas perde algumas das suas prerrogativas econômicas. Espera-se desse nível de ensino foco nas funções econômicas e laborais. que passa a ser responsável pela formação do novo trabalhador que atuará nessa nova conjuntura. a capacidade de aprender e sua aplicação intensificada com a interconectividade fizeram com que o ensino superior adquirisse uma enorme importância como instância . essencial e indescartável – elaborar uma compreensão ampla e fundamentada relativamente às finalidades e transformações da sociedade. pelo desenvolvimento das tecnologias provocam transformações nos campos econômico. “O Estado-nação não só é redefinido. conjunto dos instrumentos púbicos e privados de dominação burguesa [. De modo relativamente consensual. Ideias divergentes assinalam as posturas e compreensões relativas à globalização. no contexto do neoliberalismo. 2009:22. 2005). predominam hoje os julgamentos de que a universidade deve dirigir as transformações exigidas pela nova economia de mercado. grifo do autor) é levado a se reestruturar. claramente.sem que dificuldades como dívidas históricas. segundo Ianni (2011:41). avanços alcançados no âmbito das ciências. Nessa configuração. tecnologia. 2005a:164-165). Nessa direção. É. político e ético têm. Entretanto. a nova base material da produção criou condições necessárias para que o processo de trabalho se modificasse e passasse a exigir uma produção de conhecimento cada vez mais rápida. no campo social. efeitos sobre a educação superior.. As instituições de ensino superior exercem um papel central no paradigma econômicoprodutivo e sociopolítico. culturais e econômicas estejam satisfatoriamente dissolvidas (DIAS SOBRINHO.

2004). consequentemente. novas habilidades.. um espaço comum de educação. embora não seja consensual entre os autores que estudam o tema. Nesse sentido. A autora chama a atenção para a importância da definição . pesquisa e extensão e promove-se a inclusão institucional no contexto mundial da educação superior.produtora das fontes de riqueza. a internacionalização. (CASTRO e CABRAL NETO.] pode trazer para os alunos. por essa razão. mas surge como elemento imperativo das instâncias econômicas. o desenvolvimento de associações e colaborações no âmbito da política educacional se torna mais intensa e. no atual cenário. o termo internacionalização não é novo e sua definição. também. dimensão internacional. professores. tem despertado um admirável interesse dos diferentes países ao passo que a educação. Nesse sentido apresenta-se por meio de uma diversidade de termos. 2005a). a exigência de compatibilizar as qualificações. 2012). Por meio dessa visibilidade. Neste contexto. os sistemas educativos e de desenvolver padrões educacionais equivalentes. A internacionalização é compreendida sob uma variedade de aspectos e também é definida por uma ampla terminologia. Nessa lógica. Isso pode ser ratificado pela formação de blocos econômicos que passou a demandar. expandindo as inúmeras oportunidades para toda a comunidade científica. em seus vários níveis e modalidades. internacionalização da educação superior (MOROSINI. Isso leva as instituições de ensino superior a buscarem a internacionalização. a internacionalização do ensino superior torna-se um conjunto de esforços proativos das instituições de ensino superior para responderem às demandas competitivas e econômicas do mundo globalizado. A implicação dessa introdução no processo de internacionalização [. instituindo. passa a ser vista como um serviço internacional possível de ser comercializado como um bem de mercado. Compreendida sob diferentes aspectos. a instituição pode vislumbrar a sua interlocução com instituições e com redes acadêmicas universalmente reconhecidas. novos comportamentos que lhes permitam atuar de maneira mais eficaz em contextos multiculturais (STTALIVIERI. tais como: educação internacional. acadêmica e administrativa.. geradora e disseminadora de conhecimentos. da capacidade de utilizar os saberes adquiridos e de aprender ao longo de toda a vida (SOBRINHO. evoluiu durante a década de 1990. 2006). não advém de uma necessidade interna do campo acadêmico. em que fosse possível a livre circulação de serviços e capitais educacionais. Segundo Knight (2005). a internacionalização do ensino superior cria demandas para as instituições superiores na medida em que novas competências de cunho internacional vão sendo exigidas. uma vez que através dela pode-se assegurar o avanço da qualidade dos programas de ensino. pesquisadores e gestores a oferta de novos conhecimentos.

tradução nossa). entre os vários tipos de instituições que atuam nesse nível. A internacionalização ainda é um processo em construção no âmbito da educação superior e se caracteriza. segundo Barbalho e Castro (2010). que defende a relevância do ensino superior para o desenvolvimento das nações. as funções ou o oferecimento da educação superior” (KNIGHT. nem todas as instituições se inserem nesse processo em condições de igualdade. por sua complexidade e por inserir-se em um amplo contexto de políticas públicas. em 1998. Como forma de minimizar as desigualdades. para o progresso socioeconômico e cultural que esse nível de ensino pode proporcionar. Ainda para a autora. principalmente. e as instituições que se centram apenas no ensino. as universidades tornam-se protagonistas desse processo. para a diminuição das desigualdades existentes entre países do norte e do sul e. intercultural ou global com o objetivo. A compreensão de que as dificuldades . Diretrizes internacionais para a internacionalização do ensino superior No campo das políticas para o ensino superior na década de 1990. 1998. e propõe a seguinte definição prática: “o processo de integrar uma dimensão internacional. tradução nossa). 1). tornando-se instrumentais e sem condições de competir no mercado educacional. A primeira. 2005:12. A Declaração entende que. uma resposta. 2005:12. o processo de internacionalização é. Sem uma educação superior e sem instituições de pesquisa adequadas que formem a massa crítica de pessoas qualificadas e cultas. (UNESCO. É importante ressaltar que. genuíno e sustentável e nem reduzir a disparidade que separa os países pobres e em desenvolvimento dos países desenvolvidos. uma reação ad hoc e fragmentada ao grande número de oportunidades internacionais disponíveis. principalmente. 1998). na qual foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação (UNESCO. de duas conferências mundiais para discutir o ensino superior. direcionadas para a pesquisa. em Paris. merece destaque a realização. o documento aconselha o compartilhamento de conhecimentos entre as nações.do termo uma vez que “as definições podem moldar a política e a prática” (KNIGHT. o uso das novas tecnologias e o estabelecimento da cooperação internacional. Nesse cenário. o que pode contribuir para um maior aprofundamento das desigualdades e ampliar as distâncias estre as instituições de excelência. nenhum país pode assegurar um desenvolvimento endógeno. considerando a importância do seu papel no desenvolvimento da sociedade. com frequência. com financiamento garantido.

Nesse novo documento. sobretudo para os países em desenvolvimento considerando a atual crise econômica. 2008). Para atingir e manter a qualidade é necessário que o sistema de educação superior seja caracterizado na sua dimensão internacional. Nesse sentido. Muitas dessas recomendações postuladas pelo Banco Mundial e pela UNESCO serão acatadas no cerne das atuais políticas para o ensino superior. 193). essas são vistas como novas dinâmicas que estão transformando o cenário da educação superior e da pesquisa. também em Paris (2009). A urgência por inovação é declarada. a capacidade tecnológica e a inovação ganham maior importância em detrimento dos recursos naturais e dos fatores básicos de produção. regional e internacional são vistas como meio de garantir a qualidade dos sistemas de ensino superior. a regionalização e a globalização. traduzido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) o qual parte do pressuposto de que o conhecimento. é realizada. que passou a se constituir em outro marco de recomendações para esse nível de ensino e que vem reiterar as diretrizes postas na primeira Declaração de 1998. intitulada As Novas Dinâmicas do Ensino Superior e Pesquisas para a Mudança e o Desenvolvimento Social. mobilidade de professores e estudantes. por exemplo. as parcerias e ações em nível nacional. estão a internacionalização. . (BANCO MUNDIAL. 1998. a UNESCO (2009) coloca o ensino superior como um desafio. apesar dos avanços na abordagem de graves deficiências nas últimas décadas.” (UNESCO. no novo paradigma de produção capitalista. p. o parágrafo b do artigo 11 elenca os elementos principais para essa diretriz: “[. e projetos de pesquisas internacionais.econômicas. Como estratégia para essa orientação. a segunda Conferência Mundial sobre Ensino Superior organizada pela mesma agência. Dez anos após essa Conferência. Entre as estratégias que ganham destaque. sociais e políticas dos países em desenvolvimento seriam superadas somente com a cooperação internacional tornou-se consenso nas diretrizes elaboradas na Conferência. p.] intercâmbio de conhecimentos.. Desse modo.. Atualmente uma das recomendações mais enfatizadas diz respeito à inovação tecnológica para uma maior competitividade na economia mundial. é fundamental para gerar um alto crescimento no atual mundo globalizado e competitivo. criação de redes interativas. o sistema de educação continue a ser pouco produtivo. no documento do BM Conhecimento e Inovação para a Competitividade (BANCO MUNDIAL. Há uma preocupação de que o Brasil está preparado de modo inadequado para competir em um mundo cada vez mais globalizado e de que. 2008. levando sempre em conta os valores culturais e as situações nacionais.11).

gov. Internacionalização no Brasil: analisando o contexto do Programa Ciência sem Fronteiras No âmbito das atuais políticas de ensino superior de incentivo ao desenvolvimento da ciência e tecnologia. Os dois quadros a seguir revelam. Recomenda que os países em desenvolvimento devam investir pesadamente em inovação e educação de qualidade em todos os níveis para que possam competir com economias avançadas. Foram estabelecidas áreas prioritárias de atendimento pelo Programa. segundo Santos Junior (2012).000 7. uma orientação ideológica concernente àquilo que o governo brasileiro entende como avanço científico. também. respectivamente. compara a evolução das economias de países que investiram em pesquisa e desenvolvimento.000 bolsas para fomentar a ida de estudantes para o exterior e contempla. O Programa prevê a utilização 101. com o objetivo de que pesquisadores de empresas recebam treinamento especializado no exterior. 2013 Número de bolsas 15. apresenta-se o Programa Ciência sem Fronteiras que oferece a proposta de intercâmbio e mobilidade com vistas à consolidação.440 64. adotando a estratégia de desenvolvimento impulsionado pelo conhecimento. as metas de bolsas do Programa por modalidade e a distribuição de bolsas implementadas por área prioritária: Quadro 1: Metas do Programa Ciência sem Fronteiras Modalidade Doutorado sanduíche Doutorado pleno Pós-doutorado Graduação sanduíche Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Exterior (empresa) Atração de Jovens Talentos Pesquisador Visitante especial Total Fonte: http://www.000 4. Acesso em: 31 out. o custeio da vinda de estudiosos ao Brasil por meio da modalidade da Atração de Jovens Talentos ou Pesquisador Visitante Especial. o que denota.060 2.000 101. buscando ampliar a inovação e a competitividade do Brasil.br/web/csf/metas.642 de 13 de dezembro de 2011.000 2.O documento. dentre outros elementos. expansão e internacionalização da ciência e tecnologia. ou seja. Além disso.500 6. tornando-o complementar às atividades desenvolvidas em cooperação internacional e concessão de bolsas pela CAPES e pelo CNPq. o Programa oferece a bolsa de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Exterior. O programa foi instituído pelo Decreto nº 7.000 .cienciasemfronteiras.

000 serão financiadas com recursos do governo federal e 26. de empenho e de pagamento fixados anualmente.045 2.Das 101. de acordo com a página eletrônica do Programa. há uma maior distribuição no número de bolsas no nível de graduação.277 1. e II . 75. 14: Art.000 bolsas oferecidas.645 6. A participação do âmbito privado é estabelecida no decreto que institui o Programa. O segundo quadro demostra a disposição das bolsas por área prioritária do Programa. O Programa Ciência sem Fronteiras será custeado por: I . com um total de 64. Ciências Biomédicas e da Saúde Ciências Exatas e da Terra Indústria Criativa Computação e Tecnologias da Informação Produção Agrícola Sustentável Não informado Biotecnologia Fármacos Biodiversidade e Bioprospecção Energias Renováveis Ciências do Mar Nanotecnologia e Novos Materiais Novas Tecnologias de Engenharia Construtiva Petróleo.000 serão concedidas com recursos da iniciativa privada.Dados atualizados até Setembro/2013 Como se pode perceber do primeiro quadro acima apresentado. (BRASIL. 14. provenientes de entidades públicas e privadas.202 934 821 568 493 363 303 302 257 175 171 119 85 2 1 1 Fonte: Data Mart do Ciência sem Fronteiras (consolida dados de bolsas implementadas pelo CNPq e CAPES) . independente da .099 3.dotações orçamentárias da União consignadas anualmente aos órgãos e entidades envolvidos no Programa. observados os limites de movimentação. nos parágrafos I e II do art.outras fontes de recursos. 2011) Quadro 2: Distribuição de bolsas implementadas por área prioritária Engenharias e demais áreas tecnológicas Biologia.000. Gás e Carvão Mineral Tecnologia Aeroespacial Tecnologias de Prevenção e Mitigação de Desastres Naturais Formação de Tecnólogos Tecnologia Mineral Prevenção e Controle a Poluição Aquática Gerenciamento de Água e Governança Tecnologia da Informação e Comunicação 15.729 3.680 1.

por quem. o conhecimento é reconhecidamente um propulsor da economia em que as novas tecnologias. na divisão social do trabalho e no consumo. Nesse sentido. na implementação do Programa. os países que possuem em seu poder as inovações tecnológicas. atualmente.. Dessa forma. gradativamente. o valor e os usos [. Isso gera uma mudança significativa. na produção e distribuição de mercadorias. Além disso. incorpora os avanços tecnológicos. Assim sendo. Observa-se. desfrutam do poder de direção geral do domínio político e econômico. pois a capacidade de produzir conhecimento será decisiva nesse novo contexto. a produção no sistema capitalista explorou. na análise das autoras.] [do] capital. particularmente as da informação. Nesse contexto. portanto que o país está buscando. entende-se que a implementação do Programa Ciência sem Fronteiras se insere em um contexto de busca pela maior inserção do Brasil na chamada “sociedade do conhecimento”. uma vez que o desenvolvimento econômico está ligado à capacidade de investimento na produção conhecimento e inovação. numa fase inicial. os principais destinos dos bolsistas estão em países cujo desenvolvimento tecnológico e científico é mais avançado. conforme demonstra o gráfico abaixo com os dez países para os quais mais bolsistas são destinados: . tendo como finalidade o máximo de produtividade e lucro. definem as formas e padrões de produção e de acumulação.modalidade. Assim também determinam o tipo de conhecimento que tem valor. modifica as relações sociais dentro e fora do processo produtivo. Neves e Pronko (2008) explicam que. conforme Dias Sobrinho (2005b). encontraremos enormes desigualdades nesse processo em relação ao nível de apropriação do conhecimento e da informação no âmbito geral das nações. uma vez que mais da metade das bolsas estão em áreas estratégicas para o desenvolvimento econômico.. visto que se configura como uma importante política de inserção e consolidação do país no processo de internacionalização por meio da mobilidade acadêmica. poucas nações detêm o pensamento científico hegemônico em um momento em que o valor do trabalho intelectual superou o do trabalho manual. de todas as formas a mão-de-obra e. através do Programa. como assegura Dias Sobrinho (2005b. como e quando deve ser produzido e consumido. no qual se pode notar a preponderância da área de Engenharias e demais áreas tecnológicas como o principal foco. 75): Quem detém o conhecimento também tem o poder de criar e assegurar as normas e direitos que regem a posse. Atualmente assistimos as forças econômicas e produtivas assimilarem os avanços científicos de forma a conduzir mudanças intensas na sociedade. Nesse caso. uma maior competitividade e inovação. o que.

431 bolsistas e. 2014. demonstra que os estudantes brasileiros. conforme Lima e Maranhão (2009). A internacionalização não tem atingido apenas a mobilidade de estudantes e professores. optaram pelos os Estados Unidos para a complementação de seus estudos. no Programa Ciência sem Fronteiras.130 estudantes do Programa.882 bolsistas e logo após Austrália e Alemanha com 4.675 bolsas e pelo Canadá com 6. a Irlanda que recepcionou 2. pois promove a interação e compreensão das diferenças culturais entre os países. em décimo. além de impulsionar a formação e inovação nas diferentes áreas do conhecimento. . 2005).879 bolsas concedidas. O segundo país que aparece na preferência dos estudantes brasileiros é o Reino Unido com 8. respectivamente. se trata de um processo que se estende também a programas e instituições. 15. apresenta-se a França que recebeu 5.cienciasemfronteiras. Em sétimo e oitavo lugar estão Espanha com 3.gov.208. professores e pesquisadores em geral. Em quarto lugar.Gráfico 01: Distribuição de bolsas implementadas por país de destino Fonte: Disponível em: http://www.221. na sua maioria. Itália aparece em nono com a recepção de 2. A mobilidade estudantil internacional desempenha um papel central na internacionalização do ensino superior. embora se saiba que não é um fenômeno recente na história visto que já havia contato intercultural entre os povos antigos (Fainholc. Esse processo pode ser dividido em ativo e passivo. registram-se. O gráfico 01.166. É um reflexo da educação no atual estágio em que se encontra a sociedade.br/web/csf/painel-de-controle Acesso em: 05 ago.940 e 4. Enquanto a internacionalização ativa reflete a capacidade de determinado sistema de educação atrair estudantes. além de comercializar serviços educacionais.854 bolsas e Portugal com 3. nesse sentido.

em resposta às prioridades estabelecidas pelo Estado. entre outras ações de internacionalização. O Programa Ciência sem Fronteiras se insere nas políticas de internacionalização via mobilidade acadêmica. analisadas e solucionadas. bem como o desafio de construir redes solidárias de cooperação e produção do conhecimento ou submeter-se ao processo hegemônico de integração econômica global. quando o processo de globalização e a massificação do acesso à informação já não nos permitem conviver com fragmentos significativos do mundo acadêmico nacional afastada do contexto global no qual as necessidades a serem atendidas pelos profissionais são produzidas. em detrimento das áreas de Ciências Humanas. Podemos concluir a partir dessa constatação que. conforme o conceito apresentado pelas autoras acima citadas. busca contribuir para o fomento tecnológico e desenvolvimento das áreas de maior crescimento no Brasil. e abre campo para a inovação de ações entre órgãos governamentais. Nesse sentido. O Programa interage com diferentes esferas de poder.a internacionalização passiva retrata a tendência de exportar estudantes e acolher programas e instituições estrangeiras. por meio de uma construção coletiva dos atores acadêmicos do continente latino-americano para enfrentar os ditames da desregulação econômica liderada pelos países dominantes. atendendo às diretrizes internacionais. observa-se. pois busca através da mobilidade estudantil. as áreas do conhecimento que promovem o desenvolvimento estão ligadas à inovação tecnológica. Pode-se depreender disso que o Brasil ainda se encontra em um estágio de internacionalização passiva. Portanto. as áreas de concentração do Programa. o processo de internacionalização passou a ter vida própria e a impor-se em todo o meio acadêmico nacional que começou a reagir e a criar seus mecanismos de adequação. Considerações Finais O processo de transnacionalização lança importantes desafios para as instituições de ensino superior exercerem uma leitura crítica dos novos caminhos a serem percorridos mediante a construção da regionalização da produção do conhecimento. a ampliação de conhecimentos em áreas estratégica e em nações cujo conhecimento científico e tecnológico é avançado. . claramente. como Engenharias e Ciências Naturais e da Terra. para o governo brasileiro. Nos últimos decênios. a preocupação pela inovação na área de ciência e tecnologia em países em que os indicadores de qualidade da educação superior são mais elevados. as quais. No contexto de uma educação densamente regulamentada. o processo de internacionalização do sistema brasileiro de educação superior se inicia de maneira induzida.

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