Você está na página 1de 9

1

CURSO TOGA

DIREITO CONSTITUCIONAL
Aula 1
Bibliografia:
- Gilmar Mendes e Alexandre de Morais.
- Informativos do STF.

TEORIA DA CONSTITUIÇÃO
Vamos encontrar basicamente três tipos de normas na CF:

1)

De organização do estado – tratam da estrutura do Estado. Exemplo:

competências do presidente, vide art. 62, 69, 22 e 84, CF. Assim, vemos que criar o
Estado é criar o exercício do poder, porém para criar um Estado democrático de direito
é fundamental que esse Estado já nasça limitado.

2)

De direitos fundamentais – vêm para limitar o Estado, como os direitos

individuais no art. 5º, CF, os sociais no art. 6º, os difusos ao meio ambiente, no art. 225,
CF. Ou seja, neste ponto vemos que a CF cria e limita o Estado.
O estado nasce já vinculado a direitos que a CF previamente a ele estabelece.
Acontece que para limitar de vez o Estado é preciso verificar as normas constitucionais
programáticas.
3)

Constitucionais programáticas – apontam os fins que o Estado deve

buscar, como: art. 23, X, CF; art. 3º, CF. É como se o Estado nascesse duplamente
limitado: vinculado a certos direitos e a buscar certas finalidades.
Mais uma vez falando: o Estado é criado pela constituição que o cria e de
imediato o limita à direitos a respeitar e à finalidades a buscar. É por isso que nosso
Estado pode ser chamado de Democrático de direito.

de modo que kelsen estava certo quando disse que ninguém aplica uma norma jurídica. um sujeito chamado Plessy.mutação constitucional ou método informal de alteração constitucional 1: o texto é o mesmo. Se o preposto da empresa faz esse tipo de pergunta à candidata. mas também ao particular (eficácia horizontal). que é só meu. ainda que eu não diga isso. até porque a CF às vezes muda porque sua interpretação se altera . Isto significa que toda vez que eu aplico uma lei. intimidade é algo pessoal. ainda que próxima a mim. mas que você compartilha com pessoas próximas excluindo terceiros. o que aplicamos é a interpretação dada aquela norma jurídica. mestiço. se mostrando também um estatuto para a convivência básica na sociedade.: processo seletivo em uma empresa que discrimina candidatas mulheres que pretendem casar e engravidar. e assim veremos o primeiro princípio para pensar a CF e definir seu conteúdo. vemos que para que a CF cumpra seu papel ela precisará ser impositiva. Princípio da supremacia: a CF está no ápice da ordem jurídica e por isso ela é o critério último de validade ou regra ultima de reconhecimento. Essa supremacia da CF fica muito vinculada a como ela é interpretada. ou seja. 2 . é algo pessoal. nas relações privadas. Prosseguindo. ao passo que privacidade. no final do século XIX. porém recebeu uma nova interpretação. e para isso temos que assumir que sua posição é de supremacia. entrou num bonde no estado de 1 Ao passo que o método FORMAL de alteração constitucional é a emenda. eu a considero constitucional.CURSO TOGA Esses direitos fundamentais que a CF consagra são oponíveis ao poder público. Caso mais famoso de mutação constitucional em termos históricos – A CF americana na sua redação inicial não dizia sobre igualdade de todos perante a lei. Assim. Somente para esclarecer. vimos qual o papel da Constituição: delimitação do Estado e regramento básico nas relações públicas e privadas. é invasivo à privacidade ou intimidade? Primeiro temos que saber o que intimidade e privacidade para responder esse tipo de questão. que não revelo a ninguém. Ex. Contudo. mas foi emendada (alteração formal) para fazer constar dessa premissa.

de modo que a CF deveria reproduzir a realidade em que ela se encontrava. em outro caso segregacionista. porém criar devaneios. Ou seja. E por 7 x 1 a Suprema corte disse que a noção de igualdade era conciliável com práticas segregacionistas. ou seja. Plessy recorreu à Suprema corte America alegando que a CF determinava igualdade de todos perante a lei. é que a Suprema corte americana disse que a igualdade é incompatível com práticas segregacionistas. mas também ser uma norma a frente de seu tempo. 3 . Ela é efetiva se o Estado cumpre suas finalidades respeitando os direitos. descobrimos que a vocação da CF é chegar à efetividade. A ideia de constituição é representar a realidade. Harlan. Nesse momento. é a aptidão/ potência que a CF tem para mudar a realidade encontrada. disse: “A CF americana é daltônica. Já falamos do conteúdo da lei maior. não vê cores”. Mas atenção! Isso não é uma certeza. À medida que CF vai sendo aplicada ela pode ir mudando a realidade que ela enfrenta. sul dos EUA – vigoravam leis segregacionistas. sem. uma aptidão. O único membro da Suprema corte que favoreceu Plessy. b) Conrad Hesse – escreve um livro chamado “força normativa da constituição”: a CF pode ser aplicada a mudar uma realidade encontrada. A CF tem a função de mudar a realidade que ela se encontra. Por esse fato ele foi levado à justiça e foi condenado. o que mudou foi a interpretação sobre ela. de modo que o objetivo da maioria de suas normas é chegar à máxima efetividade. o texto da CF americana não alterou seu texto.CURSO TOGA Louisiana. Ou seja. Ele entrou no bonde e sentou num lugar destinado a brancos. a relação existente entre os fatores reais de poder. Somente na década de 1950. falamos da sua supremacia. é um potência. e agora veremos a relação entre a CF e a realidade. duas figuras importantes entram em cena: a) Ferdinand Lassele – pai do constitucionalismo sociológico: “ninguém faz uma CF em um vácuo social”.

196.CURSO TOGA No nosso direito se faz uma diferenciação entre eficácia e efetividade: a) Eficácia (ou eficácia jurídica) . o que nos leva a uma aplicação imediata. cria.: art. cumprido. há um dever pro Estado brasileiro. e quem passou a ser titular do dever. Ou seja. Não Autoaplicável – é aquela que depende de complementação por regulamentação infraconstitucional. tratou o assunto com completude. as faculdades de agir que a norma abre. completude. CF – prevê que a saúde é dever do estado e direito de todos. é um conceito muito ligado ao que o direito prevê. Ou seja. O problema desse artigo é a falta de efetividade. No campo da eficácia vemos que essa norma criou o direito de pra quem é que porte a condição humana. b) Efetividade (eficácia social) . Já falamos das normas constitucionais quanto ao conteúdo: organizar o Estado. Agora vamos ver as normas constitucionais quanto à eficácia: a) Autoaplicável (autoexecutavel/ bastante em si mesma) e não Autoaplicável (não autoexecutavel/ não bastante em si mesma): Autoaplicável – é aquela que trata do assunto com integralidade. Ex. no campo da eficácia sabemos quem passou a ser o titular do direito. Você lê.tem a ver com os direitos que a norma cria. compreende e aplica. Plena – é a que basta em si mesmo. Isso não significa que ela é de fácil 4 . b) Plena. Quem passou a ser o titular da norma? Quem tem um dever a cumprir? Essa é a eficácia. 196. integralidade. com os deveres que ela impõe. com integralidade. XI.é ver se aquilo está sendo respeitado. 5º. Essa classificação não usa a palavra não. autoexecutável. definir direitos e os fins do Estado. Ex. A CF aqui tem uma força normativa que enfrenta uma duríssima realidade. é autoaplicável. art.: art. Esta norma não tratou o assunto com completude. contida ou limitada (José Afonso da Silva): não há norma desprovida de efeitos por si só.

Ex. CF relevância e urgência para a edição de MP. 62. Ex. CF – grave comprometimento da ordem pública. Ou seja. vimos que esse tipo de norma pode ser restringida por uma lei. III. Ainda sobre isso. XI. Muitas vezes essa restrição PODE ser feita pela lei. já eles podem e não tem que ser restringidos. o que é casa? Para o STF casa é equiparável a: cabana. Outro ponto: já ouvi gente falar – se é eficácia plena não se faz lei sobre o assunto! Gente. A própria palavra tem uma elasticidade de significado. mas não porque se equipara a casa. 5º. art. Ou seja. de eficácia zero. escritório de advocacia ou consultório medico. violação de domicílio.CURSO TOGA interpretação. Limitada – não há norma desprovida de eficácia.: art. só que não é lei para regulamentar! Contida – a norma de eficácia contida. Atenção! Para haver violação por omissão certa medida deve ser adotada e não pode. quarto de hotel. na verdade. 5º. CF. podendo sim apresentar problemas no campo interpretativo. art. CF. XIII.: art. VIII. ou seja. XI. então não estamos aqui no campo da violação por omissão. o CP fala sobre entrar na casa do outro.: art. 5 . Ocorre que essa norma também pode restringida por conceitos jurídicos indeterminados: expressão que tem uma acentuada elasticidade de significados. Ele os considera invioláveis. pois esses profissionais cumprem um dever. Maria helena Diniz sugere a nomenclatura “norma de eficácia restringível”. O professor critica essa equiparação ao escritório de advocacia ou consultório medico.: art. ela não vai precisar de regulamentação. Só que é uma eficácia plena que pode sofrer restrições. Toda norma terá eficácia. 34. Aqui a edição da lei é de cunho discricionário. nasce com eficácia plena. 5º. Ex. CF – mas o que é dia? O conceito de dia aqui é naturalístico ou horário? O conceito de dia aqui é naturalístico. você pode fazer lei. Comporta duas espécies: de princípio institutivo e de principio programático. 5º. ainda que limitada. mas por conta de uma figura chamada sigilo profissional. Ex.

mesmo a norma não tendo regulamentação ela influencia na compreensão do direito. e a obrigação que nasce é do Estado agir em busca daquela finalidade. um MP atuante. os juízes interpretavam o CC/16 com espírito protetivo ao consumidor. A verdadeira compressão da lei maior é ser compreendida como unidade. a norma mesmo não regulamenta da cumpriu a finalidade de influenciar na interpretação do direito. CF – combate à pobreza e fatores de marginalização: uma lei pode declarar que ninguém mais é pobre? A norma quando é programática se diferencia no conteúdo . como um só conteúdo. Apesar da eficácia limitada.criar um dever para que o Estado rume naquela direção. e nos efeitos . e assim. uma justiça vigilante.: 23. Se então a norma chegar à eficácia plena é porque chegamos à própria efetividade porque conseguimos mudar a realidade. . Ex. uma fiscalização eficiente.indicar os fins do estado. Ex. mas enquanto não vem a regulamentação a porta está aberta para manejar instrumentos processuais – mandado de injunção e ADO. Resumindo: quando uma norma é programática. Aqui sim teremos a hipótese da inconstitucionalidade por omissão. Desse modo. Norma limitada e princípio programático – precisa-se mais que regulamentação.: como se faz para chegar a busca do pleno emprego? É preciso ter um legislador que legisle protegendo o emprego que existe.6 CURSO TOGA Norma de eficácia limitada e princípio institutivo – não autoaplicável. Norberto Bobbio diz que a compreensão do direito implica o ver como um todo. aqui há a busca de uma finalidade. com fundamento no art. depende de regulamentação em que a CF exige a feitura. Quando a norma não tem essa regulamentação ela possui uma eficácia negativa. ela aponta para o Estado um fim a ser alcançado. X. um executivo com políticas públicas que aqueçam a economia para gerar postos de trabalho. 5º da CF. Ex. etc. não havia lei protegendo o consumidor. ou seja.: no intervalo entre a edição da CF/88 e a vigência do CODECON. Aqui a norma chegará a eficácia plena por meio de uma regulamentação que a CF exige.

e quando entram em conflito se aplica o critério da validade. Assim. ou até mesmo suprem as regras que não existem. palavras que para o professor são sinônimas 2) e aí o critério será o da ponderação. Dados objetivos que colidem: um fica e o outro sai. CF deve ser interpretada com base nos princípios. 2 Contudo.: direito a vida. no que eu avancei. 37. Portanto. Mas atenção! Isso é uma via de mão dupla.: regra da contratação temporária do art. Ex. eu não posso retroceder – princípio da vedação do retrocesso. Ex. regras são normas constitucionais cujo conteúdo é marcado pela objetividade. ou até mesmo que eles coexistam. 7 . já que os princípios comportam medidas de aplicação. ela aponta para o Estado um fim a ser alcançado. Quando estas entram em conflito a lógica a ser aplicada é a da validade .CURSO TOGA Ponto importante: norma limitada e princípio programático. Não podemos ter uma compreensão objetivada disso. e esse fim impõe ao Estado brasileiro como um todo. Em alguns casos pode ser que um princípio pereça e outro sobreviva. de modo que uma entra e outra sai. e em princípio. já que as regras também influenciam na compreensão dos princípios. Princípios – a palavra princípio aqui tem um significado mais amplo. IX. regra posterior revoga a anterior. moralidade. há autores que distinguem e dizem que regras entram em conflito e princípios entram em colisão. Passemos a outra classificação: regras X princípios Regra . vemos que os princípios são postulados de otimização.tem a marca de o conteúdo ser objetivo. Dados do próprio caso concreto ajudarão na ponderação.tudo ou nada. intimidade. Ex. uma vez que aumentam a capacidade de compreensão dos dados objetivos. ou seja. vide EC19. será qualquer norma marcada por juízo de valor. os princípios vão influenciar na verdadeira compreensão das regras. Esses valores podem entrar em colisão (ou conflito.: estagio probatório de servidor civil quando a CF foi promulgada era de 2 anos e agora é de 3 anos. Além disso.

já que este entende que ambos os direitos são a mesma coisa. Dentro dos direitos fundamentais há alguns direitos que não são exclusivos do ser humano (ex. Estes quando são positivados são manifestações meramente declaratórias. afirmam o que já existia antes. e em razão de estarem na CF. ou seja. Ao passo que os direitos fundamentais nascem quando são positivados. Dois problemas desta tese: 1) não dá para o direito impor a gerações futuras concepções do presente. ao passo que se está na CF é direito fundamental. e estes são positivados para proteger o ser humano em função do momento historicamente em que ele vive. da condição humana. ou seja. afirmando que são os direitos essenciais para a dignidade humana e pro Estado democrático de direito. Mas também são fundamentais aqueles direitos que de forma implícita extraímos da CF. Sistemático – são direitos fundamentais todos os direitos que estão na CF. assim como direitos previstos em normas infraconstitucionais. já que há expressa previsão elencada na CF. Essência – afirma que direitos humanos são direitos próprios do ser humano. Ainda. 2) leva a discussão para um campo filosófico. essência e sistemático. formal. E os direitos que estão previstos tanto em atos internacionais e na CF? Também não explica bem esta distinção. Formal – afirma que se está em ato internacional é direitos humanos. caminha por uma idéia jusnaturalista.: direitos da PJ). o que vai variar de pessoa pra pessoa e época pra época. Ocorre que os direitos que vêm por atos internacionais também são fundamentais. vamos falar de outro assunto importante: Direitos Fundamentais e Humanos Como diferenciar esses direitos? Há quatro caminhos para explicar a diferença entre direitos fundamentais e direitos humanos: fungibilidade. Fungibilidade – o professor não aconselha adotar esse posicionamento.8 CURSO TOGA Nessa lógica de teoria geral do direito. afirma que direitos fundamentais são uma categoria mais ampla e direitos humanos uma categoria mais restrita. mas outros .

Esses direitos que são só dos seres humanos é chamado de direitos humanos. são direitos fundamentais e humanos do ser humano como trabalhador. trabalho digno). são humanos os direitos que tem por titular exclusivamente o ser humano. educação.CURSO TOGA que são dos seres humanos (ex. 7º. 9 . O art. Ou seja.: direito a saúde. por exemplo.