Você está na página 1de 60

VINICIUS SILVESTRE MOTTA

O PROGRAMA DE ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA APLICADO NO PLANO REAL

Monografia de Bacharelado em Economia

FEA PUCSP São Paulo

2013

VINICIUS SILVESTRE MOTTA

O PROGRAMA DE ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA APLICADO NO PLANO REAL

Monografia submetida à apreciação de ban- ca examinadora do Departamento de Eco- nomia, como exigência parcial para obten- ção do grau de bacharel em Ciências Eco- nômicas. Elaborada sob a orientação do Pro- fessor Doutor Jason Borba e Emerson Rildo Carvalho

FEA - PUCSP São Paulo

2013

Esta monografia foi examinada pelos professores abaixo relacionados e aprovada

com nota final

(

)

,

Orientador e demais membros da banca

Data

Assinatura do orientador:

/

/

Autorizo a disponibilização desta monografia na Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo para consulta pública e referência bibliográfica, mas sua repro- dução total ou parcial somente pode ser feita mediante autorização expressa do autor, nos termos da legislação vigente sobre direitos autorais.

Assinatura do autor:

Local e Data:

Aos meus pais Aglaé e Edson e minha com- panheira Karinne, pela força e apoio durante a realização deste trabalho.

MOTTA, V. S. O Programa de Estabilização Monetária Aplicado no Plano Real. São Paulo SP, 2013. [ Monografia de Bacharelado Faculdade de Economia, Ad- ministração, Contabilidade e Atuária Pontifícia Universidade Católica de São Pau- lo]

RESUMO

Este trabalho irá investigar os relevantes fatos econômicos vistos no Brasil, entre os finais de 1993 e o início de 1999. Este período ficou marcado por um importante programa de estabilização monetária que procurou combater o problema da inflação inercial, regularizar a situação fiscal e reconquistar o crescimento econômico. O pro- grama nasceu como parte dos objetivos políticos e econômicos do Plano Real, cria- do oficialmente em 1994, durante o primeiro mandato presidencial de Fernando Hen- rique Cardoso. O seu abandono foi concretizado em 1999, após uma marcante crise cambial e a inevitável flexibilização do câmbio.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1

CAPÍTULO I - OS REGIMES DE METAS CAMBIAIS E OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA ANCORADA NO CÂMBIO

3

1.1 - OS SISTEMAS CAMBIAIS

3

1.2 - OS REGIMES INTERMEDIÁRIOS DE METAS CAMBIAIS

5

1.2.1 - OS REGIMES DE METAS CAMBIAIS COM TAXAS FIXAS

10

1.3

- OS PROGRAMAS DE ESTABILIZAÇÃO SUSTENTADOS POR UMA ÂNCORA CAMBIAL

13

1.3.1 - O PROCESSO DE ANCORAGEM CAMBIAL

14

1.4

- RISCOS DE UM PROGRAMA DE ESTABILIZAÇÃO ANCORADO NO CÂMBIO

15

CAPÍTULO II - OS ANTECEDENTES DO PLANO REAL

17

2.1 - A ÁRDUA LUTA CONTRA A INFLAÇÃO

17

2.2 O PROBLEMA DA INFLAÇÃO

20

2.3 - PLANO COLLOR: O ÚLTIMO PLANO DE ESTABILIZAÇÃO ANTERIOR AO REAL

24

CAPÍTULO III - PLANO REAL: AJUSTE FISCAL, REFORMA MONETÁRIA, POLÍTICA CAMBIAL E

CRISE

28

3.1 AJUSTE FISCAL: SURGE O PLANO DE AÇÃO IMEDIATA

28

3.2 REFORMA MONETÁRIA: A CRIAÇÃO DA URV E A CONQUISTA DA ESTABILIDADE

32

3.3 POLÍTICA CAMBIAL: REGULAÇÕES DO BANCO CENTRAL

37

3.4 CRISE E IMPACTOS DA ÂNCORA CAMBIAL NA CONJUNTURA

41

CONCLUSÃO

48

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

51

LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS

INTRODUÇÃO

1

CAPÍTULO I - OS REGIMES DE METAS CAMBIAIS E OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA ANCORADA NO CÂMBIO

3

Gráfico 1 Bandas Cambiais

6

Gráfico 2 Banda Rastejante no Plano Real (1994-1997)

7

Tabela 1 Impactos de uma Moeda Sobrevalorizada

16

CAPÍTULO II - OS ANTECEDENTES DO PLANO REAL

17

Tabela 2 Variação do PIB Real (%) x Inflação (IPCA acumulado em 12 meses): 1981 a 1983 18

Gráfico 3 Inflação (IPCA acumulado em 12 meses) no Brasil: 1981 a 1983

19

Tabela 3 Balanço de Pagamentos: 1992

26

Tabela 4 Variação do PIB Real (%): 1990 a 1992

26

CAPÍTULO III - PLANO REAL: AJUSTE FISCAL, REFORMA MONETÁRIA, POLÍTICA CAMBIAL E

CRISE

28

Tabela 5 Evolução das Contas Públicas (% PIB): 1991 a 1998

31

Gráfico 4 IGP-M (1990 2012)

35

Gráfico 5 IPCA (1980 2012)

36

Gráfico 6 IPC (FGV) (1990 2012)

36

Gráfico 7 Taxa de câmbio nominal mensal comercial para venda: (R$) / (US$)

38

Tabela 6 Saldos Mensais da Balança Comercial (Jan/1994 Mar/1995)

39

Tabela 7 Reservas Internacionais do Banco Central Dez/1994 a Abr/1995

40

Gráfico 8 Comparativo das Taxas de Câmbio Real e Nominal (Jan94 Abr 99)

42

Tabela 8 Saldo da Balança Comercial, Transações Correntes, Conta Capital e Balanço de Pagamentos ( 1994 1998)

43

Tabela 9 Balanço Fiscal (1994 1998)

45

CONCLUSÃO

48

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

51

1

INTRODUÇÃO

O presente trabalho investigará os efeitos econômicos do programa de estabi-

lização utilizado no primeiro período do Plano Real (1994 1998). Embora bem su- cedido em solucionar o problema inflacionário, o programa trouxe consequências negativas à economia brasileira e levou o país a enfrentar uma dura crise cambial em 1998. Assim, quais os motivos que justificariam os prejuízos econômicos gera- dos pelo programa de estabilização? Como o governo brasileiro, através de suas atuações, direcionou a economia brasileira à crise de 1998?

Para responder as questões acima, será analisada a evolução da conjuntura brasileira acompanhada do amadurecimento do Plano Real. Ao longo deste período, os impactos no Balanço de Pagamentos, dívida pública, câmbio, cenário externo, nível de preços, taxa de juros e cenário político irão ser expostos. Permitindo uma visão ampla e clara do caminho para qual a economia brasileira estava convergindo e da postura que o governo e o Banco Central assumiram, conforme os impactos negativos surgiram.

O cenário vivenciado durante o período supracitado será criado através de

dados e relatórios emitidos pelo Banco Central do Brasil (Bacen) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Como apoio para a argumentação e defesa da análise feita a partir dos dados levantados, será realizada uma pesquisa bibliográfica que explorará o ponto de vista de importantes trabalhos já realizados sobre o assun- to, como Belluzo & Almeida (2002), Silva (2002), Ribeiro ( 2005), Modenesi (2004) , entre outros.

Antes de serem apresentados os eventos e as circunstâncias em que o Plano Real tomou forma, haverá a exposição dos antecedentes históricos que marcaram a economia brasileira. Nesta recapitulação, será introduzido o caloroso debate que percorreu o pensamento econômico brasileiro entre 1986 a 1994, protagonizado, principalmente por Lopes (1986) e sua postulação do “Choque Heterodoxo” e Pérsio Arida e André Lara Resende, criadores da proposta Larida.

Compreender este cenário anterior ao Real é fundamental para se situar em um fenômeno até então novo na economia brasileira e que persistiu sem soluções

2

eficazes durante seis planos econômicos - Cruzado (1986); Bresser (1987); “Feijao com arroz” (1988); Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991). Este fenômeno se caracterizou por um processo inflacionário que vinha assolando a economia brasilei- ra que, conforme apontaram Lopes (1986), Bresser (1989) e os economistas da pro- posta Larida (Cunha, 2004), foi diagnosticado com um caráter inercial que permitia que seu registro passado fosse continuamente projetado para o futuro.

O primeiro capítulo desta pesquisa será responsável por apresentar uma a- bordagem teórica a respeito dos diversos arranjos cambiais possíveis, segmentan- do-os, segundo a análise feita por Modenesi (2005), por ordem de rigidez. O capítulo terá sua análise focada nos regimes de metas cambiais, pois são através destes ar- ranjos que se encaixam as políticas cambiais vistas no Brasil entre 1994 e 1998.

Também dentro desta abordagem teórica, será apresentado o processo de ancoragem cambial, revelando os riscos inerentes a esta ferramenta, principalmente, quando aplicada sobre um câmbio artificialmente sobrevalorizado.

Ao final serão expostas as conclusões, onde serão respondidas as questões levantadas por este trabalho.

3

CAPÍTULO I

OS REGIMES DE METAS CAMBIAIS E OS FUNDAMENTOS TEÓRI- COS DA ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA ANCORADA NO CÂMBIO

A função deste capítulo será entender os fundamentos dos diversos arranjos

que se enquadram no regime de metas cambiais e as noções teóricas sobre a utili- zação de âncoras cambiais em processos de estabilização monetária. Finalmente, é válido ressaltar que, a partir de fins dos anos 1970 até finais dos anos 1990, estes programas foram comumente aplicados em economias com inflação crônica, onde podemos observar alguns exemplos no Chile (1978-1982), Argentina (1991-1996) México (1988-1994) e Brasil (1994-1998), sendo o último referente ao estudo de ca- so que será explorado nesta pesquisa.

1.1 - Os Sistemas Cambiais

Partindo-se da análise levantada por Modenesi (2005), é possível definir dez sistemas cambiais em ordem crescente de rigidez da taxa de câmbio nominal, são estes: (i) flutuação pura; (ii) flutuação suja (com intervenção do governo e/ou autori- dade monetária) ; (iii) banda cambial rastejante (crawlling band); (iv) banda cambial deslizante (sliding band); (v) banda cambial (target zone); (vi) minidesvalorizações (crawling peg); (vii) câmbio fixo ajustável; (viii) câmbio fixo ; (ix) conselho da moeda (currency board); e (x) dolarização plena.

A partir desta lista, é possível reunir os sistemas cambiais em três grandes

grupos, facilitando a compreensão da flexibilidade e dos reflexos sobre a política

monetária.

O primeiro grupo é formado pelos sistemas de flutuação pura e suja do câm-

bio. No sistema puro (modelo estritamente teórico, pois não é posto em prática em nenhum país), o câmbio flutuará livremente, isto é, a variação cambial irá ser deter-

4

minada pelo mercado, através da entrada e saída de moeda estrangeira. No segun- do caso, o Banco Central irá atuar de forma discricionária, comprando e vendendo divisas, controlando, assim, o nível de suas reservas. Desta forma, para evitar uma valorização cambial, a autoridade monetária irá atuar comprando moeda estrangeira, na situação oposta, para evitar uma desvalorização, o Banco Central irá atuar ven- dendo moeda estrangeira. Essa intervenção não visa manter o câmbio em um pata- mar especifico, apenas procura estabelecer uma taxa de câmbio favorável à econo- mia doméstica (Modenesi, 2005).

O segundo grupo é composto pelos sistemas de bandas cambiais e de mini-

desvalozações, corresponde aos itens (iii), (iv), (v), (vi) da lista supracitada. Nestes sistemas, o grau de flexibilidade à determinação da taxa de câmbio é moderado, proporcionando certa limitação, por parte da autoridade monetária, a uma política monetária ativa. Neste caso, o Banco Central irá se comprometer, seguindo um a- cordo pré-estabelecido, em manter a taxa de câmbio em algum nível, podendo ser um ponto ou um intervalo. (Modenesi, 2005)

O último grupo compreende aos casos mais rígidos de sistemas cambiais (i-

tens vii; viii; ix; x). Instaura-se um mecanismo automático ou uma regra de condução da política monetária: a oferta monetária é determinada pelo saldo total do balanço

de pagamentos, em outras palavras, a oferta monetária acompanhará o nível de re- servas internacionais. Assim, a oferta monetária será endógena, eliminando qual- quer ação discricionária da autoridade monetária (Modenesi, 2005).

É válido ressaltar que, com exceção do primeiro grupo, todos os demais sis-

temas se enquadram em um regime de metas cambiais, porém, que possuem dife- rentes graus de rigidez. A essência do regime de metas cambiais reside justamente na perda de graus de liberdade na condução da política monetária, decorrente do comprometimento da autoridade monetária em controlar a taxa de câmbio. Desta forma, no segundo e no terceiro conjunto apresentados, encontram-se os sistemas cambiais associados a regimes monetários que apresentam um crescente grau de ancoragem cambial. Portanto, quanto mais rígida a determinação da taxa de câmbio, maior o grau de ancoragem da economia, logo, as bandas cambiais irão representar os tipos mais flexíveis de regime monetário atrelado ao câmbio, enquanto que, o conselho de moeda e a dolarização plena representaram as formas mais rígidas de sistema cambial. (Modenesi, 2005)

5

Contudo, para cada economia, desenvolvida ou subdesenvolvida, as taxas de câmbio, sejam flutuantes, ou em um regime de metas cambiais, irão apresentar dife- rentes resultados. Por exemplo, um regime de metas cambiais se mostra, nos pri- meiros anos, favorável para certas economias em desenvolvimento, mas lhe provo- cam problemas quando se tornam mais expostas ao mercado global de capitais (Mi- les & Scott, 2005).

1.2 - Os Regimes Intermediários de Metas Cambiais

É comum, entre os analistas de economia internacional, a discriminação dos sistemas cambiais em apenas dois extremos, fixo ou flutuante. Contudo, o que se observa na realidade é que, grande parte das economias (aproximadamente 180 países) possuem arranjos intermediários entre os dois casos puros (Carvaho; Sou- za; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

São nesses regimes intermediários que se encontra o sistema de bandas cambiais. Este arranjo cambial pode ser interpretado como um sistema misto entre os dois extremos, pois, é um regime em que há uma paridade central e um intervalo de flutuação (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

Conceitualmente, em uma banda cambial, a taxa de câmbio irá flutuar, livre- mente, dentro de limites superiores (teto) e inferiores (piso), em torno de uma taxa de referência (FEER Fundamental Equilibrium Exchange Rate), subentendida co- mo a taxa que asseguraria os equilíbrios internos e externos da economia. Cabe à autoridade monetária intervir quando a taxa nominal de câmbio se aproximar de uma das extremidades da banda (Silva, 2002).

A importância macroeconômica das bandas é apontada por funcionar como âncora para as expectativas de taxas de câmbio de médio prazo, exercendo um pa- pel estabilizador e evitando a volatilidade que caracterizou o movimento das taxas cambiais quando foram deixadas a flutuar livremente após a derrocada, no início dos anos 1970, do sistema estabelecido em Bretton Woods, criado em 1944 (Silva,

2002).

Porém, embora a redução da volatilidade, quando comparadas às taxas flutu- antes, as bandas cambiais não conseguem amortizar completamente seu risco, pois,

6

como dentro dos limites estabelecidos a taxa se comporta de acordo com o merca- do, ou seja, de forma livre, o agente especulador ainda estará sujeito as variações possíveis dentro das extremidades da banda. (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Stu- dart, 2001).

O gráfico abaixo ilustra, de forma simplificada, uma estrutura de banda cam-

bial:

Gráfico 1 Bandas Cambiais

de banda cam- bial: Gráfico 1 – Bandas Cambiais FONTE: Elaboração própria No caso acima, está

FONTE: Elaboração própria

No caso acima, está ilustrado, de forma hipotética, a variação nominal do Re-

al (R$) em função do Dólar (US$), no período de um ano (Jan Dez), limitada a um

teto (R$1,15) e um piso (R$1,00) que correspondem às extremidades da banda

cambial.

As bandas podem assumir dois comportamentos, deslizante (sliding band) e rastejante (crawling band). No primeiro caso, não existe um padrão comportamental,

a banda caracteriza-se pelo fato de não haver comprometimento em estabelecer o

ponto central, ou, a amplitude do intervalo de flutuação da moeda doméstica. Ou seja, o intervalo (piso e teto) pode ser alterado a qualquer momento, de acordo com

7

a necessidade econômica, sem nenhum aviso prévio (Modenesi, 2005). No segundo caso, existe um padrão comportamental de variação do tamanho da banda. Desta forma, a amplitude da banda cambial rastejante vai, ao longo do tempo, evoluindo de acordo com uma regra preestabelecida, normalmente baseada nos índices de infla- ção e as nas expectativas dos agentes econômicos (Modenesi, 2005).

O gráfico abaixo exemplifica o caso da banda cambial rastejante que foi prati- cada no Plano Real. Ao longo do período exposto, a moeda doméstica (Real) foi so- frendo pequenas desvalorizações em uma média de 0,6% a.m e apresentou um comportamento, praticamente, linear ascendente.

Gráfico 2 Banda Rastejante no Plano Real (1994-1997)

Gráfico 2 – Banda Rastejante no Plano Real (1994-1997) FONTE: BACEN (1997). Acesso em 01/09/2012 Muitas

FONTE: BACEN (1997). Acesso em 01/09/2012

Muitas linhas de pensamento econômico colecionam críticas ao regime de bandas cambiais. Ortodoxos questionam a credibilidade das bandas, uma vez que, no caso das rastejantes, existe a necessidade de alterar suas extremidades, assim, essas alterações abalariam a confiança no regime. Os heterodoxos questionam o suposto equilíbrio prometido pelo regime, para onde a economia convergiria natu- ralmente no médio e longo prazo (Silva, 2002).

8

Reduzindo um pouco a flexibilidade do regime de metas cambiais, está o sis- tema de minidesvalorizações (crawling peg). Este tipo de arranjo cambial é tradicio- nalmente aplicado em países com históricos crônicos de inflação alta, com destaque para as economias latino-americanas, que procuram construir um método de compa- tibilizar a convivência de preços internos elevados com a sustentação da competiti- vidade internacional (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

Em outras palavras, como a inflação eleva os preços dos produtos domésti- cos, consequentemente, ocorre uma redução na diferença entre o produto estrangei- ro e o nacional, evidenciando uma perda de competitividade, ou seja, existe uma valorização da taxa de câmbio real, do ponto de vista doméstico. Essa elevação dos preços nacionais seria compensada com uma desvalorização no câmbio nominal, assim, embora o problema inflacionário não seja resolvido e o câmbio real se man- tenha valorizado, é possível garantir a competitividade externa controlando o câmbio nominal (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

O sistema de minidesvalorizações também é discriminado em dois tipos, pas-

sivo e ativo. No primeiro caso, a autoridade monetária apenas ajusta o câmbio con- forme a inflação passada, moldando a taxa segundo o cenário econômico. Na situa- ção ativa, não existem vínculos com a inflação passada, pois o objetivo desta políti-

ca é usar a taxa de câmbio como uma âncora para a estabilização progressiva dos preços domésticos. O segundo caso ficou muito popular com as tablitas empregadas em países latino-americanos no final da década de 70 e início da de 80, e pode, também, ser visto no Plano Real, entre 1996 a 1998, com a diferença que, no último caso, as políticas de desvalorização eram feitas sem anúncios prévios, enquanto que nas tablitas eram realizados anúncios explícitos antes de qualquer desvaloriza- ção (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

O regime de minidesvalorizações tem propriedades que o tornam mais seme-

lhantes a um regime de câmbio fixo do que a um regime flutuante, mesmo quando as desvalorizações se tornam muito frequentes. Essa definição é justificada porque, sob este arranjo cambial, o Banco Central é responsável por fixar a taxa de câmbio e, para manter o nível fixado, se obriga a comprar ou vender, passivamente, moeda estrangeira de forma a nivelar a demanda e a oferta de divisas (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

9

Nessas circunstâncias, as relações entre o mercado monetário e o mercado cambial, bem como o entre juros internos e externos, guardam maior proximidade com aquelas observadas sob um regime de paridade fixa. Contudo, o que caracteri- za este sistema em um nível intermediário, é o fato dos ajustamentos do balanço de pagamentos funcionarem como mecanismo de correção de desequilíbrios externos, característica dos sistemas flutuantes (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart,

2001).

Finalmente, o último regime cambial intermediário que, embora sua extrema rigidez, ainda possui um leve grau de flexibilidade é o intitulado câmbio fixo ajustá- vel. Neste arranjo é estabelecida uma paridade fixa para a taxa de câmbio nominal, porém, este fator não é definitivo, ou seja, a paridade pode ser eventualmente alte- rada pelas autoridades monetárias (Modenesi, 2005). O sistema estabelecido no acordo de Bretton Woods (1944) é um exemplo clássico de câmbio fixo ajustável, dada a sua enorme quantidade de adeptos e sua longa duração.

Em Bretton Woods, as principais nações do mundo deixaram implícito que es- tabeleceriam um sistema de taxas de câmbio fixas em relação ao dólar norte- americano e este com o ouro. A defesa das paridades pelos bancos centrais era fei- ta mediante a compra e venda de moeda nacional com dólares. Os EUA intervinham no mercado privado de ouro para manter a cotação do dólar em ouro no nível da paridade oficial. Somente em condições especiais, denominadas desequilíbrio estru- tural do balanço de pagamentos, os países poderiam desvalorizar sua moeda em relação ao dólar. A permissão seria concedida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição que futuramente se estabeleceria como a guardiã do sistema finan- ceiro internacional e dos regimes cambiais dos países signatários. O fim do sistema foi eminente a partir da década de 60, quando inúmeros ataques especulativos tor- naram cada vez mais difíceis a administração da ordem internacional (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001). Após a transição do padrão dólar-ouro para um sistema sustentado apenas pela fidúcia na moeda norte-americana, as principais relações monetárias internacionais passaram a se basear em um regime de flutua- ção cambial, predominantemente, suja.

10

1.2.1 - Os Regimes de Metas Cambiais com Taxas Fixas

Nesta sessão irão ser apresentados os sistemas mais rígidos dos regimes de metas cambiais, o câmbio fixo, o conselho monetário (currency board) e a dolariza- ção plena.

No sistema de câmbio fixo, a paridade entre a moeda doméstica e a moeda estrangeira é mantida indefinidamente. Contudo, é necessário que a autoridade mo- netária realize constantes intervenções para garantir a paridade estabelecida.

Em dois exemplos, a taxa de câmbio pode ser fixada abaixo ou acima de seu nível de equilíbrio. Se a taxa de câmbio é fixada em um nível onde a moeda domés- tica esteja sobrevalorizada, ou seja, abaixo da taxa de equilíbrio, haverá um excesso de demanda por divisas. Caso o Banco Central não intervenha, a taxa de câmbio irá se elevar, restaurando-se o equilíbrio, seguindo o movimento natural de uma flutua- ção pura. Assim, a autoridade monetária atua vendendo reservas, suprindo o exces- so de demanda (Modenesi, 2005).

No caso contrário, se a taxa é fixada em um nível acima da taxa de equilíbrio, ou seja, caso a moeda domestica esteja sobredesvalorizada haverá um excesso de oferta de divisas. Caso o Banco Central não venha a intervir, a taxa de câmbio irá se reduzir, valorizando a moeda doméstica. Assim, a autoridade monetária atua com- prando reservas, absorvendo o excesso de oferta (Modenesi, 2005).

Além da necessidade de constantes intervenções por parte da autoridade monetária, a adesão de uma taxa de câmbio fixa pode causar profundos impactos nas políticas fiscais e monetárias (Blanchard, 2007). Quando uma moeda domestica é atrelada a uma estrangeira sobre uma paridade fixa, o governo tem que garantir que o valor fixado realmente prevaleça no mercado. Para garantir o valor, ambos os países procuram igualar sua taxa nominal de juros, isso fará, também, com que as expectativas dos agentes econômicos fiquem mais estáveis. Desta forma, o país abre mão do controle de sua taxa de juros, pois, é obrigado a acompanhar os movi- mentos da taxa de juros externa, colocando em risco sua própria atividade econômi- ca (Blanchard, 2007).

11

No caso de uma expansão do PIB, o Banco central não poderia deixar o esto- que de moedas inalterado, isto faria com que a taxa de juros se elevasse e ficasse mais alta que a taxa de juros estrangeira. Assim, a única solução possível é aumen- tar a oferta de moeda proporcionalmente ao aumento da demanda por moeda, de modo que a taxa de juros de equilíbrio não se altere. De forma análoga, caso o go- verno execute uma política fiscal expansionista, o Banco Central seria obrigado, no- vamente, a acomodar esse aumento da demanda por moeda aumentando sua oferta (Blanchard, 2007).

Uma última crítica a respeito deste arranjo cambial, diz respeito a sua vulne- rabilidade aos constantes ataques especulativos, que se intensificaram no final do século XX. Depois da intensa integração financeira mundial, impulsionada por uma enorme desregulamentação que favoreceu um fluxo instantâneo de fundos entre os mercados financeiros e de divisas de cada país, as taxas de câmbio fixas ficaram mais expostas aos especuladores, não conseguindo mais, no longo prazo, se man- ter de forma confiável, salvo em casos com rígido controle sobre os movimentos de capital (Krugman & Obstfeld, 2001).

Os ataques especulativos se apresentam como um problema tão grave que, mesmo em uma economia que siga políticas monetárias e fiscais prudentes, os ris- cos não são eliminados. A razão se da pela possibilidade do país sofrer uma inver- são econômica no futuro, fazendo com que os especuladores monetários partam para a agressão, forçando, consequentemente, as taxas de juros internas a se ele- varem, provocando, assim, pânico econômico a ponto de o governo preferir abando- nar sua meta de taxa de câmbio (Krugman & Obstfeld, 2001).

No que diz respeito a um conselho de moeda, o Banco Central de um país ira se comprometer a trocar seus passivos monetários a uma taxa de câmbio fixa. Desta forma, a autoridade monetária apenas poderá emitir o mesmo volume de moeda in- terna que suas reservas em moeda estrangeira, conforme a taxa de câmbio fixa es- tipulada (Miles & Scott, 2005).

Em um exemplo prático, está o organismo monetário de Hong Kong (HKMA), que opera em conselho de moeda. Em 2001, o HKMA, se baseava em uma taxa de câmbio de 7,80 dólares de Hong Kong para 1 dólar americano. Hipoteticamente, ca- so o HKMA possuísse reservas de dólares americanos de 80 bilhões, ele iria poder emitir moeda interna equivalente a 624 bilhões de dólares de Hong Kong (7,80 x

12

80bi). Desta forma, a expansão monetária somente seria possível, além do equiva- lente a 624 bilhões, caso o HKMA recebesse mais dólares americanos. Caso contrá- rio, se suas reservas em moeda estrangeira caírem, o mesmo acontecerá com a o- ferta de moeda nacional (Miles & Scott, 2005).

O objetivo principal da adoção de um conselho monetário é importar a credibi-

lidade de uma moeda estrangeira, esta que servirá de âncora para a estabilidade dos preços domésticos. Portanto, este arranjo vai ser comumente visto em países onde há casos extremos de falta de credibilidade na moeda nacional e na sua capa- cidade em conduzir uma política monetária. Além disso, a conversibilidade plena, a

uma paridade fixa, da moeda local a uma de maior credibilidade, contribui para que seja indiferente aos agentes econômicos, pelo menos no curto-prazo, reter uma ou outra moeda (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Studart, 2001).

O último sistema, e também o mais rígido entre os arranjos de regime de me-

tas cambiais, corresponde a união monetária. Neste caso, a moeda doméstica é completamente substituída por outra tradicionalmente estável. Assim, após a troca do estoque monetário, a taxa de câmbio entre a moeda doméstica, já substituída, e a moeda do país-âncora deixa de existir (Modenesi, 2005). Este arranjo pode ser visto como uma radicalização do conselho de moeda, quando o país não possui pra-

ticamente mais nenhuma credibilidade a respeito da sua moeda doméstica. Esta si- tuação foi verificada no Equador no ano 2000 (Carvaho; Souza; Sicsú; Paula & Stu- dart, 2001).

O conselho monetário ou a dolarização plena, por estarem em situações ex-

tremas de taxas de câmbio fixas, irão implicar em custos altíssimos para a economia em caso de ruptura do regime, pois, um possível abandono do regime irá requerer não apenas a reconstituição dos instrumentos e das instituições de política monetá- ria, mas também a recriação da moeda nacional.

Contudo, não é impossível a uma economia abandonar esses dois arranjos. Por exemplo, o conselho monetário adotado pela Argentina em 1991, embora tenha apresentado bons resultados nos primeiros anos a inflação variou de 267%, em 4/1991, para 0,7 %, em 1998 (Miles & Scott, 2005) - foi abandonado de forma trau- mática em 2001. Na ocasião, o país foi obrigado a solicitar cooperação técnica do Brasil, a fim de recompor suas instituições monetárias (Modenesi, 2005).

13

Finalmente, é válido afirmar que, os regimes de metas cambiais, independen- te do seu grau de flexibilidade, não conseguem eliminar completamente o problema da falta de credibilidade da política monetária.

O problema é inevitável, pois, a existência de um diferencial entre a taxa de juros doméstica e a externa tendo em vista que é impossível diminuir o risco sobe- rano, principalmente em países emergentes casada com uma expectativa de des- valorização cambial, faz com que sempre exista uma sensação de instabilidade por parte dos agentes externos. Além disso, como a disciplina oriunda da adoção do re- gime monetário de metas cambiais é auto-imposta, ela será, portanto, passível de ser revogada a qualquer momento pela própria autoridade monetária, agravando a desconfiança dos agentes econômicos com relação à manutenção do regime (Mo- denesi, 2005)

1.3 - Os Programas de Estabilização Sustentados por uma Âncora Cambial

Os exemplos observados em economias da America Latina são os principais casos onde a utilização de uma âncora cambial, em processos de estabilização mo- netária, foi experimentada.

Nestes processos, o tamanho da base monetária não depende mais das deci- sões isoladas dos bancos centrais desses países, mas da quantidade de reservas internacionais acumuladas e das leis e regras que relacionam o estoque de reservas com a criação de moeda. Assim, as ações discricionárias da autoridade monetária são abaladas, porém, ao abrir mão da política monetária, o país importa a credibili- dade e estabilidade da moeda forte, na qual o câmbio foi atrelado. Em outras pala- vras, cria-se uma âncora cambial entre uma moeda “fraca” e uma moeda “forte”, a fim de se estabilizar todos os agregados monetários do país usuário da âncora, ga- rantindo, também, a credibilidade da moeda estrangeira à moeda doméstica. Este processo ficou popularmente conhecido como “programa de estabilização ancorado no câmbio” (Silva, 2002).

Historicamente, este tipo de programa de estabilização apresentou, no curto- prazo, efeitos macroeconômicos positivos em economias assoladas pela hiperinfla- ção, caso dos países latino-americanos, porém, se mostrou ineficiente e prejudicial

14

no médio e longo prazo. Os resultados foram positivos, em primeiro momento, nas taxas de crescimento, pois impulsionaram, em grande medida, o aumento do con- sumo privado. Contudo, posteriormente, observou-se um forte movimento recessivo. Este cenário foi vivenciado, por exemplo, no Chile (1978-1982), Uruguai (1978- 1982), México (1988-1994) e Brasil (1994-1998) (Ribeiro, 2005).

1.3.1 - O Processo de Ancoragem Cambial

É comum que países que apresentem problemas de inflação crônica, vivenci- em crescimentos constantes nos seus principais valores nominais (salários, preços, taxa de câmbio nominal e moeda). Essas variações não apresentam um comporta- mento justificável ou possuem alguma referência no passado, a única certeza são as expectativas de inflação futura dadas pela passada.

Desta forma, estes países precisam escolher alguma variável nominal, cujas variações futuras remetam a uma referência válida e crível para a evolução dos ou- tros conceitos nominais da economia (Ribeiro, 2005). No caso de uma âncora cam- bial, escolhe-se a taxa de câmbio como responsável por cumprir esse papel de refe- rência.

É importante destacar que a âncora cambial não precisa, necessariamente, ser aplicada de forma isolada. Ela pode estar presente dentro de um plano que en- volva, também, políticas monetárias e fiscais. Estas políticas, dependendo dos seus elementos constituintes, ou seja, ortodoxos (políticas restritivas), ou heterodoxos (políticas de rendas, congelamento ou desindexação), irão causar diferentes impac- tos macroeconômicos em conjunto com a âncora. Por exemplo, a aplicação de um programa de estabilização pautado na âncora cambial pode resultar em redução nas taxas de crescimento, se aplicado em conjunto com uma política econômica de cu- nho ortodoxo (Ribeiro, 2005).

Caso o país opte por uma âncora cambial, definindo a taxa de câmbio nomi- nal como referência básica para a evolução dos outros valores nominais da econo- mia, ele terá que seguir três passos até, finalmente, conseguir a concretização deste instrumento de estabilização. Os três procedimentos são: (i) Definir as regras para a determinação da taxa de câmbio; (ii) Definir o grau de convertibilidade da taxa de

15

câmbio ; (iii) Definir as relações entre o novo regime cambial e a política monetária (Ribeiro, 2005).

As regras para a determinação da taxa de câmbio a ser ancorada podem se- guir três formas: (i) Taxa de câmbio fixa; (ii) Prefixação das taxas futuras de desvalo- rização de forma crescente, ou seja, procede-se a uma valorização nominal e real da taxa de câmbio nominal; (iii) Assumir os comportamentos de uma banda cambial (ver sessão 1.2), seguindo uma trajetória de desvalorização nominal e/ou real, a taxas reduzidas, mantendo a variação dentro dos parâmetros estabelecidos pela banda cambial (Ribeiro ,2005).

Para definir o grau de convertibilidade da taxa de câmbio é necessário adotar um regime monetário especifico. Assim, cada grau de convertibilidade irá remeter a um grau diferente de independência da autoridade monetária para a condução da política monetária, sempre, contudo, respeitando o compromisso cambial estabele- cido. Por exemplo, para se adotar uma convertibilidade fixa, é obrigatoriamente ne- cessário adotar um regime cambial de taxas fixas (ver sessão 1.2) (Ribeiro, 2005). É importante salientar que os procedimentos (ii) e (iii) são realizados ao mesmo tempo, uma vez que o último é subordinado ao primeiro.

1.4 - Riscos de Um Programa de Estabilização Ancorado no Câmbio

Existem alguns riscos que a âncora cambial proporciona à gestão macroeco- nômica. Um deles é relativo a rigidez dos preços dos bens não comerciáveis inter- nacionalmente sobre a taxa de câmbio real e dessa sobre as transações correntes do Balanço de Pagamentos. Este problema irá forçar uma flexibilização nas regras definidas para a taxa de câmbio nominal, porém, é preciso ter cautela a respeito de quando e como a flexibilização será feita, para evitar maiores riscos ao processo de estabilização (Ribeiro, 2005)

Um segundo risco possível vai depender se o país, usuário da ancora, fixou um cambio fixo valorizado ou desvalorizado em relação à moeda estrangeira. Po- demos considerar que, especialmente para países em desenvolvimento, a ancora- gem cambial fixada em um câmbio valorizado pode vir a gerar, no médio prazo, um colapso do sistema cambial (Silva, 2002).

16

A sobrevalorização é algo alarmante e seus problemas vão se agravando co- mo uma bola de neve, conforme observado abaixo:

Tabela 1 Impactos de uma Moeda Sobrevalorizada

abaixo: Tabela 1 – Impactos de uma Moeda Sobrevalorizada Importações Exportações Déficit na Balança Comercial

Importações

Exportações

Déficit na Balança Comercial Déficits Crônicos em Transações Correntes Superávits na Conta Capital (Capitais de Curto Prazo, Empréstimos, Privatizações)

(Capitais de Curto Prazo, Empréstimos, Privatizações) Dívida Externa FONTE: Tabela – Elaboração própria;

Dívida Externa

FONTE: Tabela Elaboração própria; Dados SILVA (2002)

Continuando a argumentação, conforme o país vai intensificando sua posição de importador líquido de capital, dependendo, principalmente, dos fluxos de capitais de curto prazo, as taxas de juros internas precisaram ser mantidas em níveis bem mais elevados do que o normal, uma vez que, considerando os países em desenvol- vimento, é necessário embutir o risco soberano e o risco de desvalorização da moe- da nacional (caso o país, no futuro, não tenha mais como manter suas reservas in- ternacionais em níveis que condicionem o câmbio valorizado). (Silva, 2002).

Além de expor a vulnerabilidade do país a um ataque especulativo de fuga de capitais, o aumento constante da dependência dos capitais estrangeiros, sobretudo os de curto prazo, obrigam o país a aumentar, paulatinamente, suas taxas de juros. Como consequência, juros internos elevados aumentam o déficit, pois, encarecem o custo dos títulos do governo, prejudicam os investimentos, quebram empresas e bancos, geram desemprego e aumentam o risco de falência do governo (Silva,

2002).

17

CAPÍTULO II

OS ANTECEDENTES DO PLANO REAL

A partir deste ponto, esta pesquisa realizará um estudo de caso baseado na experiência brasileira em um programa de estabilização sustentado por uma âncora cambial. Portanto, serão apresentados, neste capítulo, os antecedentes que, não somente, criaram o drástico cenário macroeconômico visto em 1993, mas que, prin- cipalmente, formaram um novo pensamento econômico brasileiro, fundamental para a formulação do Plano Real. As raízes deste novo pensamento remetem a 1984, quando, em meio a um duro conflito contra uma rígida inflação crescente, surgem, no Brasil, postulações heterodoxas que revolucionariam o diagnostico inflacionário do país e serviriam de apoio para todos os planos econômicos brasileiros vistos en- tre 1986 e 1994.

2.1 - A Árdua Luta Contra a Inflação

Nos anos 80, o que se viu nos países centrais e que influenciaria posterior- mente os países emergentes, foi uma retomada dos preceitos neoclássicos e o a- bandono do pensamento keynesiano. A justificativa se da pelo esgotamento que es- te último vinha apresentando após a ocorrência simultânea de aceleração inflacioná- ria e pequenas taxas de crescimento do produto, fenômeno que ficou conhecido co- mo estagflação (staginflation) (Ribeiro, 2005).

Os diagnósticos conservadores a respeito da staginflation focavam suas críti- cas no crescimento da participação governamental, alegando que tal cenário teria raízes nas crises fiscais. É nesse contexto, que o discurso liberal, crítico ao Estado de bem-estar social, começa a ganha força e acumular adeptos em diversas partes do mundo (Ribeiro, 2005).

No Brasil, esse discurso volta a ganhar força política a partir de 1981, quando é possível ver uma forte ação de cunho ortodoxo para combater e explicar a violenta inflação brasileira. Essa influência pode ser vista nas políticas econômicas, após o

18

Brasil se submeter, até metade da década de 80, as sugestões de estabilização fei-

tas pelo FMI.

Contudo, em 1984, teria início um debate que mudaria as conduções tradicio-

nais de um programa de estabilização. Pela primeira vez, seriam descartados os

choques de demanda e oferta, comuns no diagnóstico ortodoxo, e entraria em cena

uma propriedade inercial existente na inflação brasileira. Essa nova abordagem foi

enriquecida com algumas análises, destacando-se a abordagem feita por Lopes

(1986) e a proposta Larida criada em conjunto pelos economistas Pérsio Arida e An-

dré Lara Resende (Cunha, 2004).

Esta nova corrente heterodoxa assinalou um evidente fracasso da política an-

ti-inflacionária ortodoxa (defendida nos preceitos neoclássicos) implementada desde

1980. Em sua crítica, a nova linha de pensamento atacava o preceitos neoclássicos

alegando não haver relação direta entre o déficit público e a inflação, muito menos

uma reação da inflação brasileira a uma contenção monetária (Modenesi, 2005).

Os números do PIB brasileiro, registrados entre 1981 a 1983, contra o índice

de inflação, com base no IPCA acumulado em 12 meses, observados no mesmo

período, dão sustento à crítica de Lopes.

Tabela 2 Variação do PIB Real (%) x Inflação (IPCA acumulado em 12 meses):

1981 a 1983

Ano

PIB Real (%)

IPCA (%)

1981

-4,25

95,62

1982

0,83

104,79

1983

-2,93

164,01

FONTE: IPEADATA. Acesso em 15/12/2013

Porém, a recessão de 1981 a 1983 não foi suficiente para intimidar os defen-

sores da política ortodoxa, que continuavam a afirmar seus pressupostos, reiterando

que os resultados não tinham sido obtidos ainda, pois, as dosagens de restrição

monetária e ajuste fiscal não haviam sido suficientes. É em meio a este debate que

Lopes ressalta a inexistência de um diagnóstico e de uma solução alternativa à infla-

ção, sem ser aquela defendida pela linha ortodoxa (Modenesi, 2005).

19

A discussão em torno da problemática inflação duraria até a concretização do Plano Real, onde inúmeras tentativas de estabilização seriam feitas. Entre 1986 e 1993, foram seis tentativas. Estão entre elas: Cruzado (1986); Bresser (1987); “Fei- jao com arroz” (1988); Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991).

Com base no Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), acumulado em 12 meses, é possível ver no gráfico abaixo que, neste período, a inflação apre- sentou níveis alarmantes chegando a um nível extraordinário em 1989, 1990 e 1993, quando são observados, respectivamente, 1972,91%, 1620,96% e incríveis

2477,14%.

Gráfico 3 Inflação (IPCA acumulado em 12 meses) no Brasil: 1981 a 1983

(IPCA acumulado em 12 meses) no Brasil: 1981 a 1983 FONTE : Dados: IPEADATA. Acesso em

FONTE : Dados: IPEADATA. Acesso em 15/12/2013. Gráfico: Elaboração própria

Cabe ressaltar que, o declínio visto entre 1990 e 1991, corresponde a instala- ção da Reforma Monetária do Plano Collor I (explicado com mais detalhes na ses- são 2.3). Neste episódio, a radical reforma (que confiscou ativos da economia brasi- leira) impactou drasticamente a atividade industrial, varejista e, principalmente, a renda disponível para consumo. Assim, a queda da inflação foi influenciada por uma súbita retração de liquidez da economia brasileira (Belluzo & Almeida, 2002).

20

2.2 O Problema da Inflação Inercial.

Todos os planos supracitados basearam-se no diagnóstico inercialista da in- flação, com exceção do pacote econômico feijão com arroz”. Neste último, não foi levado em conta os princípios do choque heterodoxo (discutidos a seguir), sendo, assim, adotado, pelo então Ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, um diagnósti- co mais ortodoxo de inflação de demanda (Modenesi, 2005).

Já nos demais planos, foram aplicados, como possíveis soluções, os postula- dos teóricos defendidos pelo choque heterodoxo, Lopes (1986). Em contrapartida, porém, partindo-se do mesmo diagnóstico inercial da inflação, surgiu, quase que ao mesmo tempo, a postulação criada por André Lara-Resende e Pérsio Arida, que fi- cou conhecida como proposta Larida (Cunha, 2004). Esta postulação somente viria a ser colocada em prática dez anos mais tarde, em 1994, com a instauração do Pla- no Real. É válido ressaltar que, embora ambas as propostas partissem da tese iner- cialista da inflação, elas defendiam diferentes procedimentos como solução, confor- me será visto a seguir.

Do ponto de vista de Lopes (1986), a proposta de um choque heterodoxo era válida, pois, a teoria econômica tradicional (ortodoxa) não conseguia explicar como a taxa de inflação não havia cedido depois que o governo brasileiro se submeteu as sugestões do FMI para contração da demanda agregada. São algumas destas re- comendações: (i) corte de gastos da administração pública federal; (ii) redução dos orçamentos das empresas estatais; (iii) aperto monetário; (iv) controle de reajustes salariais (Modenesi, 2005).

O componente inercial foi descrito como uma força pura que o processo infla- cionário adquire. Assim, a inflação continuaria a crescer mesmo sem haver pressão nos preços relativos, seja devido a um choque de oferta por exemplo, quebras de safra agrícola, aumento dos insumos industriais, desvalorização cambial e aumentos salariais acima do ganho de produtividade -, ou choque de demanda no seu caso mais comum, a existência de uma demanda acima da capacidade da oferta, que vem a surgir após um aumento da renda decorrente de uma expansão monetária e/ou uma elevação dos salários acima do aumento da produtividade (Modenesi,

2005).

21

Em linhas gerais, as duas formulações, citadas acima, tinham como objetivo promover uma desindexação completa dos agregados monetários. Esta desindexa- ção era uma forma de interromper a transmissão da inflação passada à presente. Porém, é na ferramenta de desindexação que Lopes e a proposta Larida se diver- gem e, inclusive, se contrapõem (Carneiro & Wu, 2011).

Para Lopes, era necessário instalar um congelamento generalizado, porém temporário, dos preços, pois, desta forma, era possível acabar com a indexação formal e informal que dificultavam a flexibilização da inflação, isto é, o congelamento romperia os alicerces de um sistema de preços baseado na determinação backward- looking (Carneiro & Wu, 2011).

No backward-looking, uma quantidade severa de esquemas de indexação fa- zem com que a inflação adquira um comportamento rígido, esses tipos de indexação podem ser de caráter formal correção monetária de componentes financeiros (poupança, títulos públicos ou privados) e ajustes salariais -, ou informal práticas políticas de recomposição de preços, recomposição, por parte das empresas, de mark-up e correção automática dos preços ofertados baseados na inflação passada (Carneiro & Wu, 2011). Consequentemente, um aumento de preços no passado sempre era refletido no futuro, pois, o processo de indexação, formal ou informal, fazia com que os preços se reajustassem constantemente, permitindo que a inflação se auto-alimentasse.

Em sua postulação mais radical, Lopes (1986), ressalta que o principal pro- blema da inércia inflacionária estava, contudo, na indexação informal. Defendia o economista que, os mecanismos de indexação formal apenas amorteciam os impac- tos de possíveis choques tradicionais, em outras palavras, choques de demanda e oferta. A indexação informal, portanto, sustentaria a base da inércia inflacionária, pois, seria uma prática espontânea, ou seja, independente de uma imposição legal, dos agentes econômicos que visavam repor ou manter sua participação na renda nacional (Modenesi, 2005)

Um sério problema da indexação informal, observado na economia brasileira era a existência de contratos, celebrados no passado, baseados na estimativa da inflação futura, isto é, contratos que tinham seus valores nominais valorizados, a fim de manter seu valor real no futuro (Carneiro & Wu, 2011). Este problema, em parti- cular, criava uma dificuldade para o próprio congelamento, pois, como é visto a se-

22

guir, os agentes ao saberem de um futuro congelamento, poderiam, de forma espe- culativa, aumentar as taxas de juros nominais no presente, para aproveitar altíssi- mos ganhos com as taxas reais de juros, já cristalizadas, no futuro, ou seja, quando o congelamento já estivesse em vigor (Carneiro & Wu, 2011; Modenesi, 2005)

Finalmente, antes de ser possível implantar a proposta de desindexação de Lopes, através de um congelamento generalizado, era necessário resolver dois im- passes. Primeiramente, a maior dificuldade era evitar efeitos distributivos possivel- mente perversos, devido ao simples fato de que, em qualquer ponto no tempo ao longo de um processo inflacionário, iriam surgir alguns preços e rendas que haviam acabado de serem reajustados (em momento de pico), enquanto outros estavam para serem reajustados (quando estivessem no vale dos seus valores reais). Assim, no momento do congelamento, alguns setores apresentariam preços no pico de seu valor real e outros no vale, graças à falta de sincronização dos ajustes realizados sobre a estrutura de preços dos diversos setores da economia, (Carneiro & Wu,

2011).

A segunda dificuldade era em relação ao próprio anúncio do congelamento. Caso fosse feito de forma antecipada, os agentes poderiam responder com ataques especulativos que desestabilizariam o programa. Porém, a tentativa de aplicar um efeito surpresa, seria rapidamente relevada por uma armadilha presente nas taxas de juros reais e nominais. Em uma situação de “congelamento-surpresa”, o governo impediria, por exemplo, que os contratos de crédito, com juros prefixados, tivessem um prazo superior a um mês, impedindo, assim, a transferência da inflação passada para o futuro, através dos juros estipulados antes do congelamento. Esta saída ob- via seria rapidamente identificada pelos agentes econômicos, pois, ficaria evidente a tentativa do governo de implantar, no curto prazo, um congelamento de preços (Mo- denesi, 2005).

Para o primeiro impasse, Lopes defendeu uma “fase de ressincronização de reajustes”, que deveria ser instalada antes do congelamento. Contudo, o próprio autor reconhecia que a prática de uma ressincronização perfeita, ou seja, que sin- cronizasse o reajuste de todos os preços da economia era impossível. Já em relação ao anúncio do congelamento, pelo menos no Plano Cruzado primeiro plano eco- nômico onde o choque heterodoxo é introduzido -, a decisão foi de anunciar publi- camente o programa. Fato que resultou em uma aceitação popular positiva, impulsi-

23

onada por ações explicativas por parte da imprensa, além do apoio de economistas que, inicialmente, eram contrários ao choque (Carneiro & Wu, 2011; Modenesi,

2005).

No que diz respeito à proposta Larida, a sugestão teórica apresentada defen- dia a criação de uma moeda indexada, possível com uma reforma monetária (Cu- nha, 2004). Como foi dito anteriormente, o objetivo de desmontar a armadilha de um processo inflacionário que se auto-alimentava era semelhante tanto para Lopes quanto na proposta Larida, porém, estes últimos rejeitavam a hipótese de um conge- lamento de preços defendido pelo primeiro. Sua principal crítica atava o ponto fraco do congelamento de preços, isto é, a falta de sincronia dos ajustes de preços, con- forme exposto acima, além de ressaltar a enorme dificuldade de instituir um controle administrativo que coordenasse e garantisse o congelamento de preços (Modenesi,

2005).

Foi a partir da crítica à falta de sincronia dos reajustes, que a proposta da moeda indexada tomou forma. Para evitar o efeito distributivo perverso que o conge- lamento traria, foi defendido na proposta Larida um meio de se instalar, do ponto de vista distributivo, um alinhamento de preços neutro, possível através de um indexa- dor universal, capaz de reajustar todos os preços e rendimentos ao mesmo tempo. Como consequência, ao reduzir os prazos dos reajustes, a memória inflacionária também seria reduzida. Seria, então, este indexador universal, uma moeda indexada que circularia paralelamente a moeda vigente (Modenesi, 2005).

Por fim, os pressupostos da proposta Larida eram: (i) introdução, via reforma monetária, de uma nova moeda indexada, que circularia paralelamente a moeda vi- gente (sistema bimonetário); (ii) um constante encolhimento da memória inflacioná- ria, possível graças à redução dos prazos dos reajustes de preços; (iii) substituição completa da moeda velha pela moeda nova, onde os preços estariam estabilizados. Vale ressaltar que, a reforma monetária proposta, não substituiria as tradicionais po- líticas monetárias de combate inflação, pois, ela se encaixaria como algo comple- mentar, destinada a garantir a estabilização e tratar o caráter inercial da inflação (Modenesi, 2005).

A proposta Larida só pode ser vista na prática em 1994, quando, finalmente, após cinco fracassadas tentativas de estabilização baseadas nos postulados de Lo- pes Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II

24

(1991) -, a proposta da moeda indexada conquistou a devida adesão política, ser- vindo, claramente, de apoio para a formulação do Plano Real. As tentativas frustra- das do choque heterodoxo criaram uma reação adversa, tal que, no Plano Collor II, após, novamente, a economia vivenciar uma frustrante experiência com o congela- mento, os ideais ortodoxos de combate a inflação voltaram novamente a ser utiliza- dos, contudo, o fator inercial empurrou, mais uma vez, os preços e inutilizou as fer- ramentas tradicionais. Assim, foi inevitável a volta da terapia heterodoxa em 1993. (Modenesi, 2005).

2.3 - Plano Collor: O Último Plano de Estabilização Anterior ao Real

É crucial estudar o período correspondente ao Plano Collor I (1990) e Collor II (1991) para que seja possível compreender como se formou o cenário político e ma- croeconômico visto em 1993, quando se começa, na verdade, o processo de estabi- lização monetária promovido pelo Plano Real. É, também, neste período que medi- das liberais voltam a fazer parte das políticas econômicas. Grande parte dessas me- didas, ilustradas abaixo, seriam mantidas durante o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso (Carneiro & Wu, 2011).

Foi em novembro de 1989, através do Consenso de Washington, que as eco- nomias latino-americanas receberiam, novamente, uma forte avalanche de ideais liberais. Estas ideias foram publicadas pelo economista John Williamson, responsá- vel pelo termo “Consenso de Washington”, e estipulavam dez ações que promoveri- am a estabilização econômica dos países em desenvolvimento.

O Consenso, em linhas gerais, propunha equilíbrio fiscal, desregulamentação, liberalização do comércio exterior, recepção e repatriamento dos fluxos de capitais externos e privatização (Ribeiro, 2005).

Já no Brasil, essas medidas seriam implantadas no Plano Brasil Novo, lança- do pelo presidente Fernando Collor, em março de 1990. Embora tenha sido oficial- mente lançado como Plano Brasil Novo, este plano seria, no futuro, comumente co- nhecido como Plano Collor, devido a forte associação a figura de Collor.

Neste período, foram aplicadas quedas nas tarifas de importação, eliminação de incentivos às exportações e modificações institucionais na regulação do comércio

25

exterior (desburocratização). A redução da participação do Estado resultou em acú- mulos de superávits primários e aumento nas privatizações, iniciadas anteriormente em 1981 pela Comissão Especial de Privatização, que retornaram com força em empresas dos ramos siderúrgico, petroquímico e fertilizantes, gerando uma receita total de US$ 8,6 bilhões, entre 1991 e 1994 (Ribeiro, 2005).

A tentativa de estabilização da inflação também se baseou em um congela- mento de preços, porém, este foi aplicado em conjunto com um confisco de ativos, onde a liquidez da economia foi reduzida drasticamente. O governo Collor tentaria, posteriormente, um novo congelamento de preços com um novo pacote, intitulado Plano Collor II, em janeiro de 1991 (Ribeiro, 2005). No caso deste último, é impor- tante ressaltar a mudança política que ocorreu no Ministério da Fazenda, onde a Mi- nistra da época, Zélia Cardoso, deixou seu cargo, em 10 de maio de 1991, sendo substituída por Marcílio Marques Moreira.

Essa mudança no Ministério da Fazenda refletiu uma volta da aplicação orto- doxa nas políticas monetárias e fiscais, em um momento onde, novamente, questio- nava-se a influência do Setor Público no processo inflacionário (Modenesi, 2005). A partir de então, o governo abandonou os congelamentos, passou a controlar forte- mente as contas públicas com medidas restritivas mais intensas e voltou a lidar com a inflação considerando choques de demanda, ignorando seu fator inercial. No fim, o que se observou foi um retorno poderoso da inflação no ano seguinte, conforme ilus- trou, anteriormente, o gráfico 3. Este cenário conseguiu agravar a situação política do governo, fato que culminaria no impeachment do Presidente Fernando Collor, em setembro de 1992 (Carneiro & Wu, 2011).

Em uma análise geral, as medidas fiscais restritivas, em conjunto com a retra- ção de liquidez aplicada no aplicada no Collor I, resultaram em taxas negativas do crescimento do PIB, entre 1990 e 1992 (vide tabela 4, abaixo). Porém, com a ativi- dade econômica reduzida, simultânea a uma taxa de câmbio alta, foi possível obter vultosos superávits comerciais. Como consequência, este resultado positivo na Ba- lança Comercial possibilitou a ocorrência de um superávit em transações correntes do Balanço de Pagamentos em 1992 (Ribeiro,2005), conforme é possível ver abaixo:

26

Tabela 3 Balanço de Pagamentos: 1992

Balanço de pagamentos - US$ milhões

 

Discriminação

1992

Balança comercial (FOB) Exportação de bens Importação de bens Serviços e rendas (líquido) Serviços Receita Despesa Rendas Receita Despesa Transferências unilaterais correntes 1/ TRANSAÇÕES CORRENTES CONTA CAPITAL E FINANCEIRA Conta capital 2/ Conta financeira Investimento direto Investimento brasileiro direto Participação no capital Empréstimo intercompanhia Investimento estrangeiro direto Participação no capital Empréstimo intercompanhia Investimentos em carteira Investimento brasileiro em carteira Ações de companhias estrangeiras Títulos de renda fixa Investimento estrangeiro em carteira Ações de companhias brasileiras Títulos de renda fixa Derivativos Ativos Passivos Outros investimentos Outros investimentos brasileiros Outros investimentos estrangeiros ERROS E OMISSÕES RESULTADO DO BALANÇO

15239

35793

-20554

-11336

-3184

4080

-7264

-8152

1115

-9268

2206

6109

9947

37

9910

1924

-137

-137

0

2061

1580

481

14465

0

0

0

14466

1704

12762

3

3

0

-6482

29

-6510

-1386

14670

FONTE: BACEN SERIE HISTÓRICA DO BALANÇO DE PAGAMENTOS. Acesso

 

em 02/02/2013.

Tabela 4 Variação do PIB Real (%): 1990 a 1992

Ano

PIB Real (%)

1990

-4,35

1991

1,03

1992

-0,54

FONTE : IPEADATA. Acesso em 02/02/2013.

Após o impeachment de Fernando Collor, a presidência fica a cargo do então

vice-presidente, Itamar Franco. Este é responsável por nomear Fernando Henrique

Cardoso como Ministro da Fazenda, em maio de 1993. O programa de estabilização

que estruturou o Plano Real começa a ser criado a partir deste momento, contando

27

com a participação de uma qualificada equipe econômica. A questão era complexa, pois, tratava-se de tornar possível uma desinflação radical em meio a dois proble- mas políticos: (i) A desmoralização e a queda do governo Collor; e (ii) A grande de- cepção com os primeiros meses do governo Itamar Franco, que se mostrava incapaz de encontrar seu caminho. (Carneiro & Wu, 2011).

O histórico passado também não era dos melhores, os agentes econômicos brasileiros já tinham mostrado, sobretudo, no Plano Collor II, que uma política de congelamento de preços não seria bem aceita. Fora isso, os rumores de que a eco- nomia brasileira pudesse aderir a uma dolarização plena, tornavam as expectativas futuras mais precárias, pois, neste caso extremo, a dolarização representaria a total falta de capacidade do governo brasileiro em administrar a sua moeda (Carneiro & Wu, 2011).

Por fim, embora o problema da inflação persistisse, é válido ressaltar que o choque heterodoxo aplicado nos planos passados, com suas devidas exceções, evi- tou que o país encarasse uma situação de hiperinflação. Se o país sucumbisse a tal situação, a moeda doméstica perderia suas três funções reserva de valor, unidade de conta e meio de troca -, tendo que ser substituída, consequentemente, por algu- ma outra que sustentasse uma boa credibilidade entre os agentes econômicos, no caso mais provável, o dólar (Modenesi, 2005)

28

CAPÍTULO III

PLANO REAL: AJUSTE FISCAL, REFORMA MONETÁRIA, POLÍTICA CAMBIAL E CRISE

O nascimento do Plano Real marca o início da conquista tão esperada pela

estabilização. A equipe econômica responsável pela criação do programa que estru- turou o Plano Real foi composta de notáveis economistas, tais como: Pérsio Arida, Gustavo Franco, André Lara Resende, Edmar Bacha e Pedro Malan. Ao longo do seu desenvolvimento, diversas políticas foram adotadas, destacando-se a inovadora reforma monetária que deu origem a URV e, posteriormente, ao Real, a Política Cambial que, em conjunto com a reforma monetária, iniciou o processo de ancora- gem cambial e o ajuste fiscal, responsável por regularizar a situação fiscal brasileira. Conforme será exposto a seguir, outras medidas vão sendo adotadas, posteriormen- te, pelo governo, como forma de contornar os prejuízos que estavam começando a surgir na economia brasileira. Estas novas medidas vão ser, em grande parte, radi- cais e contribuirão negativamente para o colapso de 1998.

3.1 Ajuste Fiscal: Surge o Plano de Ação Imediata

O momento político que oficializa o início da elaboração do que viria a ser o

Plano Real ocorre quando, em maio de 1993, o então Presidente Itamar Franco no- meia o seu Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, ao cargo de Ministro da Fazenda. Esta seria a quarta substituição no ministério em apenas oito meses de mandado do Presidente, o que causou certa incredulidade por parte dos agentes econômicos a respeito de como seriam conduzidas as novas propostas

de estabilização econômica (Bacha, 1995, p. 2).

A primeira medida tomada pelo novo Ministro da Fazenda e sua equipe eco-

nômica foi o Plano de Ação Imediata (PAI), focado no ajuste das contas do Setor

29

Público, pois, acreditava-se que o desequilíbrio fiscal tinha uma parcela de culpa, considerável, sobre a inflação crônica brasileira (Ribeiro, 2005).

O economista integrante da equipe econômica do Ministério da Fazenda, Ed- mar Lisboa Bacha, analisou, em um artigo publicado na Revista de Economia Políti- ca (Bacha, 1994), um efeito curioso que relacionava de forma positiva o déficit or- çamentário e a inflação, ou seja, Bacha constatou que o governo se aproveitava da inflação para reprimir seu déficit. Esta análise foi crucial para a formulação do PAI e fundamentava-se na seguinte afirmação:

A inflação ajuda de duas formas na redução do déficit orçamentário

Primeira, o orçamento embute uma previsão inflacionária bem me-

nor do que a inflação efetivamente observada. Isso reduz o valor real das despesas executadas, mesmo sem controle do caixa. Já as recei- tas, por estarem indexadas, pouco sofrem com a inflação maior do que a orçada. Segunda, através do controle do caixa, o Ministério da Fa- zenda, adia a liberação das verbas orçamentárias para o final do ano ou mesmo para os restos a pagar no ano seguinte, desse modo fazen- do com que o valor real dessas despesas seja adicionalmente reduzido pela inflação. Todo o processo é eventualmente legalizado por um de-

]. [

creto de contingenciamento, uma lei de reprogramação orçamentária” (Bacha, 1994, p. 5-6)

Em suma, as receitas, em média, sendo mais indexadas do que as despesas, em um cenário de alta inflação, propõem um equilíbrio orçamentário sustentado pelo imposto inflacionário e a redução do gasto real (Bacha, 1994, p. 3).

Este fenômeno ficou conhecido como efeito Oliveira-Tanzi às avessas. O ter- mo “as avessas” surge em razão de ser o oposto observado pelo economista italia- no, integrante do FMI, Vito Tanzi, que, ao analisar a economia da Argentina, em me- ados de 1970, constatou uma relação negativa entre inflação e a arrecadação fiscal. Neste caso, ao invés da inflação favorecer a receita fiscal, através do imposto infla- cionário, ela irá, ao longo do tempo, corroer as arrecadações do governo. Assim, um recrudescimento da inflação reduziria o valor real das receitas, tendendo a deteriorar as contas fiscais (Modenesi, 2005).

30

De volta ao Brasil, cabia, portanto, ao governo, através do PAI, eliminar do or- çamento fiscal os excessos de gastos que eram financiados pelo imposto inflacioná- rio e posteriormente deteriorados pela inflação. Isto iria causar uma boa impressão aos agentes econômicos, contudo, iria exigir uma reprogramação do orçamento para o ano seguinte, 1994, assim como a criação de reformas constitucionais que asse- gurassem o equilíbrio fiscal de forma duradoura (Ribeiro,2005).

O ajuste fiscal deveria ser contínuo e duradouro, pois, no momento em que a inflação fosse estabilizada, haveria uma elevação do valor real das despesas do go- verno federal e, consequentemente, uma deterioração das contas públicas. Assim, o previsível crescimento do valor real dos gastos públicos deveria ser compensado por um ajuste no Setor Público (Modenesi, 2005).

Desta forma, partindo-se do levantamento feito por Ribeiro (2005), no que diz respeito às reformas constitucionais, o Plano de Ação Imediata propôs as seguintes medidas:

(i) Federalismo Fiscal: fim do conflito em relação às transferências entre União, estados e municípios. Também foi sugerida uma ma- nutenção dos gastos com encargos sociais pela União, pois, par- tes destes encargos correspondiam a recursos que deveriam ser transferidos para os estados e municípios.

(II) Realismo Orçamentário: diminuição do grau de vinculação das

receitas fiscais da União

(iii) Reforma tributária: simplificação da estrutura tributária via di-

minuição dos números de tributos, aumento da base de arrecada- ção e da progressividade do sistema tributário.

(iv) Modernização da economia: retomada dos processos de priva-

tização e promoção da igualdade jurídica entre capital nacional e estrangeiro

(v) Reforma administrativa: redefinição das formas de gestão do

funcionalismo público

(vi) Previdência: substituição do sistema calcado nas aposentado-

rias por tempo de serviço e na concessão de aposentadorias es- peciais por um sistema de aposentadorias definidas por tempo de serviço e idade.

Embora as propostas fizessem parte de um plano de caráter e- mergencial, a reforma tributária (iii) e previdenciária (vi), expostas

31

acima, só seriam concretizadas em 2002. As únicas medidas que

foram efetivamente aplicadas, em primeiro momento, foram as re-

ferentes à modernização da economia.(Ribeiro, 2005, p. 91-92).

O outro ponto restante, relativo à redefinição da proposta orçamentária para

1994, defendeu um corte de US$6bilhões nos gastos públicos. Contudo, mesmo com um corte expressivo, ainda era possível observar que o Estado não conseguiria recursos tributários suficientes para financiar todos seus gastos sociais.

A falta de capacidade do governo, mesmo com reduções em seu déficit orça- mentário, em financiar seus gastos sociais está relacionada com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que aumentara o volume de receitas da União vincu- ladas a gastos específicos, principalmente, para as áreas de saúde e educação. A fim de diminuir esta rigidez orçamentária, responsável por travar 80% das receitas federais de natureza tributária, estas obrigadas a serem destinadas a setores espe- cíficos, foi criado o Fundo Social de Emergência (FSE). O FSE permitia que o gover- no desvinculasse 20% das receitas federais para os dois anos seguintes, 1994 e 1995 (Modenesi, 2005).

O FSE, além de diminuir a excessiva rigidez existente sobre os gastos da U-

nião, forneceria um aumento no grau de liberdade na condução de políticas fiscais e

estabeleceria um compromisso do governo federal de abandonar práticas orçamen- tárias dependentes da inflação (Bacha, 1995). Sua inauguração oficial foi feita em fevereiro de 1994, via emenda constitucional aprovada no Congresso.

Porém, embora, aparentemente, mostrasse fatores favoráveis para o controle do déficit, tanto o FSE quanto o PAI, não conseguiram ajustar as contas públicas no curto prazo (1994-1995), nem foram capazes de garantir um equilíbrio fiscal dura- douro (Modenesi, 2005). Os números que comprovam esta afirmativa são os seguin- tes:

Tabela 5 Evolução das Contas Públicas (% PIB): 1991 a 1998

Composição

Média 1991 a 1994

Média 1995 a 1998

Diferença

NFSP* Déficit Primário** Despesa com Juros Reais

0,4

5,2

4,8

-2,9

0,2

3,1

3,3

5,0

1,7

*NFSP corresponde a Necessidade de Financiamento do Setor Público

FONTE: Modenesi (2005).

32

O aumento do NFSP, de 0,4% do PIB, no período de 1991 a 1994, para 5,2% em média, no período de 1995 a 1998, correspondente à fase a de implantação do

Plano Real, revela um aumento na composição da Dívida Líquida do Setor Público. Embora os recursos das privatizações, possíveis após a ampliação do Programa Nacional de Desestatização (PND), fato que será abordado com mais detalhes nas sessões seguintes deste trabalho, tenham ajudado a abater parte da dívida pública,

o reconhecimento de dívidas passadas e a utilização de altas taxas reais de juros (vide “Despesas com Juros Reais”, na Tabela 5) colaboraram para o aumento do endividamento público (Ribeiro, 2005; Modenesi, 2005)

Enquanto isso, após 1995, também se observa uma reversão do resultado primário, onde há a transformação de um superávit, de 2,9% do PIB, em déficit, de 0,2% do PIB, revelando um aumento nos gastos em relação às receitas (Modene-

si,2005). Essa reversão pode ser justificada, principalmente, pelos seguintes moti- vos: (i) Aumento dos salários pagos ao funcionalismo público em 1995, responsável por um aumento real de 16% nas despesas federias e de 20% nos gastos estaduais

e municipais; e (ii) Aumento real de 42% do salário mínimo, em maio de 1995, fato

que implicou em fortes pressões sobre as despesas federais, em especial sobre os

gastos previdenciários (Ribeiro, 2005).

Por fim, mesmo sem conseguir um bom e duradouro ajuste fiscal, os formula- dores do Plano Real decidiram iniciar a segunda etapa do processo de estabilização. Esta nova fase correspondia a eliminação do fator inercial da inflação por meio de uma reforma monetária, inspirada na formulação teórica da moeda indexada, vista na proposta Larida (Cunha, 2004).

3.2 Reforma Monetária: A Criação da URV e a Conquista da Estabilidade

A fase do Plano Real que apresentou os resultados macroeconômicos mais significativos à economia brasileira foi àquela correspondente a aplicação de uma reforma monetária cuidadosamente criada. É válido ressaltar seu caráter “cuidado- so”, pois, após as fracassadas tentativas de estabilização vistas nos planos anterio- res, os agentes econômicos estavam cautelosos em relação a qualquer política eco-

33

nômica que poderia ser apresentada pelo governo, criando, assim, para o cenário vigente, uma considerável instabilidade política e incerteza a respeito da estabilidade futura.

As tentativas anteriores de congelamento de preços serviam como evidência para mostrar que os agentes econômicos não iriam reagir positivamente à outra polí- tica de estabilização semelhante. Além disso, a crítica existente na proposta Larida a respeito do efeito distributivo perverso causado pelos congelamentos em um sistema econômico onde os preços e rendimentos eram reajustados de forma dessincroniza- da, isto é, em diferentes períodos, se mostrou válida (Cunha, 2004). O que se ob- servou nos planos anteriores foi que, após a intervenção abrupta do governo via congelamento de preços, alguns contratos, preços e rendimentos se encontravam no pico do seu valor real, ou seja, haviam acabado de serem ajustados, enquanto que outros estavam em seu vale, pois ainda não haviam sido ajustados. Consequen- temente, no momento seguinte a intervenção nos preços, a renda era distribuída de forma desfavorável àqueles agentes que não tinham recebido ajustes em seus pre- ços e rendimentos. Cientes de terem sido prejudicados, estes agentes passavam a exigir um reajuste em seus agregados monetários, pressionando, assim, a inflação e instabilizando o congelamento (Bacha, 1995).

Sem a opção das propostas sugeridas por Lopes (1986) e encarando uma in- flação que se auto-alimentava, impulsionada por um sistema de indexação formal e informal traiçoeiro à estabilidade dos preços (Carneiro & Wu, 2011), o comitê criador do Plano Real encontrou esperanças na proposta Larida e sua inspiradora moeda indexada.

A proposta se encaixava perfeitamente para o atual problema inflacionário brasileiro. Diferente do congelamento visto em Lopes (1986), a proposta Larida con- seguia, através da sua sugestão de se criar um indexador universal, apresentar uma solução cabível ao problema do desalinhamento dos preços relativos e da hiperinde- xação. Este indexador iria servir como referência para que todos os preços, rendi- mentos e contratos fossem ajustados de forma padronizada em uma mesma data, ajustados com a menor defasagem possível. Contudo, para que este indexador fos- se bem aplicado, seria necessário atrelá-lo a uma moeda forte, referencial, neste caso o dólar, que daria credibilidade aos níveis de preços dos agregados monetários indexados ao indexador universal (Modenesi, 2005).

34

Os formuladores do Plano Real decidiram, assim, em 1º de março de 1994, criar a URV, o indexador universal responsável por alinhar os preços domésticos brasileiros. A URV tinha a função de ser um indexador contemporâneo que iria ajus- tar os preços, contratos e rendimentos em uma mesma data com uma defasagem técnica de dez dias e com seu valor corrigido diariamente (Modenesi, 2005). A cor- reção diária apresentou uma ótima solução para a hiperindexação, uma vez que a “correção diária permitiria aos agentes transferir seus contratos para essa nova me- dida de valor, de tal sorte que desvinculassem os contratos da inflação passada” (Ribeiro, 2005).

A URV, contudo, não se caracterizava como uma moeda propriamente dita

ela não desempenhava a função de meio de troca caracterizava-se apenas como unidade de conta e, portanto, não circulava em paralelo ao cruzeiro, moeda em uso na época, assim, não colocava a economia em um sistema bi-monetário, conforme propunham os postulados originais da proposta Larida (Modenesi, 2005).

Para garantir credibilidade a URV, seus valores foram plenamente vinculados à taxa de câmbio nominal. Desta forma, todos os agregados econômicos brasileiros indexados a URV acompanhariam o valor do dólar. Criava-se, assim, uma espécie de dolarização artificial da economia, onde o câmbio seria o principal responsável por alinhar os preços relativos, formar os preços e formar as expectativas inflacioná- rias (Modenesi, 2005).

A paridade estipulada pelo Banco Central foi a de URV/Dólar = 1, portanto, a

autoridade monetária seria responsável por controlar as reservas brasileiras, a fim

de garantir a paridade citada. A intervenção teria que ser bem administrada, pois toda a credibilidade da URV ficaria centrada no nível das reservas internacionais brasileiras (Ribeiro, 2005).

O processo seguinte foi estipular a conversão compulsória de todos os contra-

tos vigentes em URV, possibilitando a conversão facultativa dos novos contratos a serem criados, e a conversão compulsória de todos os salários à URV, conforme a média do salário real do quadrimestre anterior. O setor privado produtivo também converteu seus custos salários e tarifas públicas - em URV (Ribeiro, 2005). Todas essas conversões permitiram que a inflação passada fosse “deixada para trás” e se tornasse irrelevante no futuro, isto é, os agentes, após as conversões em URV, não

35

estariam realizando uma projeção backward-looking, possibilitando que o momento futuro estivesse isento da inflação passada (Carneiro & Wu, 2011).

Em 1º de julho de 1994, a URV foi convertida, via reforma monetária, na moe- da Real, assumindo, finalmente, as funções plenas de uma moeda unidade de conta, meio de troca e reserva de valor. Como a inflação passada tinha sido contida e não havia sido projetada para “frente”, a inflação, após a conversão da URV para Real, foi apenas a taxa de inflação da própria moeda, isto é, somente aquela vista no presente momento, sem ser alimentada pelos índices passados.

Este momento encerrava a etapa mais eficaz, em termos de resultados eco- nômicos, do Plano Real. A estabilidade finalmente fora alcançada, através de uma política monetária engenhosamente criada que conseguiu alinhar os preços, desin- dexar a economia e evitar os efeitos distributivos causados pelo congelamento. A estabilidade atingida nesta época se mantém até os dias de hoje, conforme mostram os gráficos abaixo, referentes aos três índices de preços mais utilizados no Brasil:

Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e Índice de Preços ao Consumidor (IPC).

Gráfico 4 IGP-M (1990 2012)

e Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Gráfico 4 – IGP-M (1990 – 2012) FONTE: IPEADATA.

36

Gráfico 5 IPCA (1980 2012)

36 Gráfico 5 – IPCA (1980 – 2012) FONTE: IPEADATA. Acesso 20/07/2013 Gráfico 6 – IPC

FONTE: IPEADATA. Acesso 20/07/2013

Gráfico 6 IPC (FGV) (1990 2012)

FONTE: IPEADATA. Acesso 20/07/2013 Gráfico 6 – IPC (FGV) (1990 – 2012) FONTE: IPEADATA. Acesso em

37

Contudo, conforme a análise de Ribeiro (2005), apresentada na sessão 1.5, ao se controlar os agregados monetários ancorando-os ao câmbio, observa-se, no médio prazo, um movimento econômico característico, onde o final sempre é repre- sentado por um processo recessivo. Além disso, para manter a taxa de câmbio no- minal sobrevalorizada, de forma que esta possa guiar os preços domésticos com

credibilidade, é necessário, por parte do Banco Central, uma considerável regulação

e normatização dos fluxos de capitais externos para o país em conjunto com um

constante controle intervencionista da taxa de câmbio. Desta forma, antes de se analisar os impactos da âncora cambial na conjuntura, é necessário compreender como a autoridade monetária brasileira controlou, regulou e interviu na taxa de câm- bio nominal.

3.3 Política Cambial: Regulações do Banco Central

O início da ancoragem cambial se da em 1º março de 1994, em conjunto com

a criação da URV. Considera-se este o marco inicial, pois, a partir desta data, todos os contratos, salários e rendimentos passariam a serem indexados na URV e esta ao câmbio nominal, cotado em dólar norte-americano. Assim, a “medida de referên- cia para as variações dos valores nominais da economia estava calcada na taxa de câmbio nominal” (Ribeiro, 2005).

O Banco Central do Brasil estipulou, a priori, que a taxa de câmbio nominal respeitaria um teto de URV/Dólar = 1 e, posteriormente, em julho de 1994, R$/Dólar

= 1, enquanto que, abaixo deste nível, a cotação seria determinada livremente via

mercado. Em outras palavras, o Banco Central apenas atuaria para honrar o com- promisso de se manter o teto da paridade estipulada, em outras situações, a cotação deveria ser determinada conforme os fluxos de capitais e os níveis de reservas in- ternacionais.

Até outubro de 1994, o Banco Central manteve sua postura liberal no merca- do cambial, evitando uma ação intervencionista que vinha sendo adotada nos anos anteriores. Contudo, o cenário em que os países subdesenvolvidos estavam inseri- dos no contexto internacional, prejudicou as intenções liberais da autoridade mone- tária. Isto ocorre, pois, a partir de 1992 e até meados de 1994, se observou um re-

38

torno dos países subdesenvolvidos aos fluxos de capitais internacionais. Porém, até março de 1994, o Banco Central ainda se propunha a manter a taxa de câmbio está- vel. Consequentemente, após sua decisão de liberar o câmbio abaixo da paridade R$/Dólar = 1, o acúmulo de reservas pressionou uma forte valorização cambial na ordem de 10% entre julho de 1994 e outubro de 1994 (Ribeiro, 2005).

Tendo em vista a necessidade de se intervir para evitar uma exacerbada valo- rização cambial (vide gráfico 7), que já começava a prejudicar a Balança Comercial em seus saldos mensais (vide tabela 6), o Banco Central atuou realizando leilões de compra de dólares, porém, apenas conseguindo neutralizar a valorização, mas sem conseguir reverter a sobrevalorização, situação dificultada “devido a uma situação de liquidez muito favorável nos mercados internacionais" (Modenesi, 2005).

Gráfico 7 Taxa de câmbio nominal mensal comercial para venda: (R$) / (US$)

(Jun/1994 Mar 1995)

comercial para venda: (R$) / (US$) (Jun/1994 – Mar 1995) FONTE: Dados – IPEADATA. Acesso em

FONTE: Dados IPEADATA. Acesso em 25/07/2013 . Gráfico Elaboração própria

39

Tabela 6 Saldos Mensais da Balança Comercial (Jan/1994 Mar/1995)

Período

Saldo

   

Period

Balance

( US$ million)

 
   

Mensal

Acumulado

12 Meses

   

Monthly

Accumulated

12 Months

1994

     

*

Jan

 

978

 

978

13

262

Fev

748

1 726

12

553

Mar

1

102

2 828

12

147

Abr

1

483

4 311

12

727

Mai

1

237

5 548

12

669

Jun

1

229

6

777

12

952

Jul

1

224

8

001

13

523

Ago

1

506

9

507

13

867

Set

1

521

11

028

14

160

Out

656

11

684

13

669

Nov

-

409

11

275

12

129

Dez

-

809

10

466

10

466

1995

     

*

Jan

-

304

- 304

9

184

Fev

-1 061

-1 365

7

375

Mar

-

922

-2 287

5

351

FONTE: BACEN(1996b).Acesso em 25/07/2013

No final de 1994, o Banco Central se viu novamente obrigado a mudar a sua conduta em relação à política cambial. O problema desta vez era que o quadro de liquidez, antes extremamente favorável, sofreu um abrupto revez devido à crise me- xicana, em dezembro de 1994 (Modenesi, 2005). Com isso, o Brasil começou a ver os efeitos adversos da crise mexicana em suas reservas internacionais e nos fluxos de capitais estrangeiros, fazendo com que o país perdesse, aproximadamente, US$ 7 bi entre dezembro de 1994 e abril de 1995 (vide tabela 7).

40

Tabela 7 Reservas Internacionais do Banco Central Dez/1994 a Abr/1995

 

US$ milhões

US$ million

Fim de

Caixa

Balanço de pagamentos

Liquidez

período

Cash

Balance of payments

Liquidity

End of

     

period

     
   

1/

2/

3/

1994 Dez

36

471

38

487

38

806

1995 Jan

35

929

37

959

38

278

 

Fev

35

750

37

687

37

998

Mar

31

530

33

431

33

742

Abr

29

918

31

580

31

887

FONTE: BACEN(1996b). Acesso em 25/07/2013

As consequências desta subtração das reservas podem ser confirmadas no gráfico 7, onde se observa uma desvalorização de 5% do Real (cotado em R$/US$ = 0,896 em março de 1995) em relação a fevereiro de 1995 ( quando o Real estava cotado em R$/US$ = 0,851). Para controlar estes desequilíbrios, o Banco Central decidiu, em março de 1995, criar um sistema de bandas cambiais que definiriam o monitoramento da autoridade monetária sobre a evolução da taxa de câmbio nomi- nal, dados os limites da banda, isto é, seu teto e piso (Ribeiro, 2005). Os limites es- tipulados para a livre flutuação do câmbio dentro das bandas ficaram entre R$/US$ = 0,86 (piso) e R$/US$ = 0,90 (teto). Em seguida, ainda no mesmo mês, estes valores foram corrigidos para R$/US$ = 0,88 e R$/US$ = 0,93, os limites das bandas seriam constantemente modificados no futuro, criando um caráter móvel rastejante (vide capítulo 1), explicado com mais detalhes a seguir (Silva, 2002).

Em conjunto com a nova medida cambial, a fim de controlar os impactos ne- gativos que vinham sendo observados na Balança Comercial (tabela 6), o Banco Central optou por elevar as tarifas de importação de determinados produtos (Mode- nesi, 2005).

A partir da criação das bandas cambiais, a política cambial brasileira foi pas- sando por uma gradativa modificação que acompanhava a capacidade do Banco Central em manter o Real artificialmente sobrevalorizado através, principalmente, do

41

monitoramento e controle constante das reservas internacionais e da taxa de câmbio nominal. Conforme foi exposto no primeiro capítulo deste trabalho, os regimes de metas cambiais podem assumir diferentes graus de rigidez sendo assim, completa- mente plausível a existência de adaptações gradativas ao longo do regime.

Também já adiantado no primeiro capítulo, o sistema de bandas cambiais brasileiro se caracterizou por um comportamento rastejante (gráfico 2), acompanha- da de constantes minidesvalorizações de 0,6%a.m do Real que definiram a trajetória ascendente da taxa de câmbio. Este sistema se manteve até a crise cambial em ja- neiro de 1999, sendo flexibilizado ao longo do tempo. Alguns fatos merecem desta- que a respeito do arranjo cambial que foi adotado no Brasil neste período:

(I) O limite superior da banda cambial formou uma escada refletindo as elevações do ponto médio da banda; e (ii) a dis- tância entre o piso e o teto foi crescendo ao longo do tempo, is- to é, a amplitude do intervalo de flutuação do real se estendeu paulatinamente.(Modenesi , 2005)

Como o Banco Central, ao longo do regime de metas cambiais, dependia da conjuntura para tomar suas decisões de controle e regulação, os recursos emprega- dos sempre dependiam do fluxo de capital estrangeiro. Em momentos de alta quan- tidade de recursos externos, “atuou-se no sentido de controlar as modalidades de aplicação desses recursos, sejam por meio de definições de prazos maiores de re- patriação e/ou amortizações, seja, pela redefinição dos seus custos tributários (IOF), seja ainda, por maiores restrições à aquisição de determinados ativos mobiliários” (Ribeiro, 2005). Em cenário contrário, “optou-se pela redução dos prazos mínimos médios para amortizações e diminui-se a alíquota de IOF para recursos que perma- necessem mais tempo no país, além de outras medidas” (Ribeiro, 2005).

3.4 Crise e Impactos da Âncora Cambial na Conjuntura

Os impactos de um programa de estabilização ancorado no câmbio na con- juntura econômica seguem padrões comportamentais. No Brasil, assim como em outros países da America Latina, a situação vivenciada não fugiu a regra, culminan-

42

do, no final, em uma crise cambial profunda levando o país a voltar para o câmbio flutuante em 1999.

No Brasil, o primeiro ponto a ser discutido e também o ponto de partida para

os demais, é o câmbio nominal sobrevalorizado. Após a conversão da URV em Real,

o país vivenciou uma defasagem considerável da sua taxa de câmbio nominal e real (gráfico 8).

Gráfico 8 Comparativo das Taxas de Câmbio Real e Nominal (Jan94 Abr 99)

das Taxas de Câmbio Real e Nominal (Jan94 – Abr 99) FONTE: Silva (2002) Os impactos

FONTE: Silva (2002)

Os impactos de uma moeda sobrevalorizada no Balanço de Pagamentos já foram apresentados na Tabela 1 e seus resultados foram refletidos no Balanço de Pagamentos brasileiro. O aumento das importações, o aprofundamento de déficits na balança comercial e os crescentes déficits nas transações correntes resultaram em saldos negativos no Balanço de Pagamentos, vistos a partir de 1997 (tabela 8). Estes saldos ampliaram a necessidade da economia brasileira por recursos externos

e constantes fluxos de capitais estrangeiros, isto é, o país se via obrigado a manter saldos positivos cada vez maiores em sua conta capital (Silva, 2002).

43

Tabela 8 Saldo da Balança Comercial, Transações Correntes, Conta Capital e Balanço de Pagamentos ( 1994 1998)

Discriminação

1994

1995

1996

1997

1998

1999

TRANSAÇÕES CORRENTES

-1811

-18384

-23502

-30452

-33416

-25335

BALANÇA COMERCIAL (FOB)

10466

-3466

-5599

-6753

-6575

-1199

CONTA CAPITAL E FINANCEIRA

8692

29095

33968

25800

29702

17319

RESULTADO DO BALANÇO

7215

12919

8666

-7907

-7970

-7822

FONTE: BACEN. Acesso em 02/08/2013

A administração do plano de estabilização também dependia destes fatores,

pois, com uma queda nas reservas, se tornaria impossível sustentar as bandas

cambiais, por mais flexíveis que estas pudessem ser.

A dificuldade em tentar manter uma taxa de câmbio sobrevalorizada, enquan-

to que um crescente desequilíbrio ia tomando conta do Balanço de Pagamento, foi

percebida, infelizmente, pelos agentes externos que, quase que imediatamente, co-

meçaram a retirar seus recursos do Brasil. O início da fuga de capital obrigou o go-

verno a realizar manutenções em suas taxas de juros internas elevando-as a níveis

bem acima da Libor (principal taxa de juros internacional). As taxas elevadas se tra-

duziram em um encarecimento dos serviços da dívida pública interna e externa e em

desestímulos aos investimentos (Silva, 2002).

Paradoxalmente, enquanto o governo procurava, através das altas taxas de

juros, manter o fluxo de capital estrangeiro, ele, simultaneamente, transmitia menos

confiança aos agentes externos, que tinham suas expectativas em relação à econo-

mia brasileira cada vez mais abalada, conforme o governo ampliava sua divida e não

mostrava condições de solucionar os desequilíbrios do Balanço de Pagamentos (Sil-

va, 2002).

Embora prejudicial a divida pública, as taxas de juros altas foram um dos prin-

cipais instrumentos que o governo brasileiro utilizou para “convencer” os agentes

externos a manterem seus recursos no país. “Caso contrário, a mera perspectiva de

desvalorização da moeda interna desestimularia a entrada” (Silva. 2002) e perma-

nência destes agentes. Observa-se também que, com um fluxo de recursos estran-

geiros intermitente, o governo se via amarrado em uma espiral crescente da sua ta-

xa de juros. Ao mesmo tempo, a entrada de novos recursos ampliava a base mone-

44

tária que, para evitar efeitos inflacionários, era absorvida via esterilização emissão de títulos públicos para controle da liquidez (Meurer & Samohyl, 2005) , conse- quentemente, a dívida pública era novamente impactada, porém, em um serviço ca- da vez mais caro que acompanhava o aumento paulatino da taxa de juros.

[

bio era útil para baixar a inflação, por outro exigia taxas de juros enormes, tolhendo ao longo do tempo o crescimento. A queda do crescimento no Brasil foi responsável pela elevação da taxa de

desemprego (

se fez sentir na expansão do déficit nominal do governo e no au- mento da dívida pública interna líquida, que de uma cifra de me- nos de 23,7% do PIB em 1994 atingiu mais de 35% em 1998, aca- bando por fragilizar financeiramente o governo, tornando-o refém

da armadilha dos juros elevados(Silva, 2002, p 13-14)

Além disso, o impacto das altas taxas de juros

por um lado a entrada de capitais sobrevalorizando o câm-

]se

).

Contudo, a taxa de juros não foi a única ferramenta que proporcionou ao governo, mesmo que a um custo elevado, acesso aos recursos externos. Outra importante ferramenta e bem expressiva no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso foi a abertura da economia através da expansão de amplo programa de privatização que já tinha sido iniciado durante o período Collor, contudo, sobretudo em 1997, o programa foi levado a amplas dimensões, como constatam Belluzo & Almeida (2002).

Desde que foi iniciado este programa, em 1991, até 1998 a re- ceita de vendas somou US$ 68,6 bilhões entre empresas fede- rais (US$ 46,2 bilhões) e estaduais (US$ 22,5 bilhões) e mais um total de US$ 16,5 bilhões em dívidas transferidas ao setor privado. As privatizações foram muito expressivas em telefonia (US$ 28 bilhões), setor elétrico (US$ 21,7 bilhões), siderurgia (US$ 5,6 bilhões), mineração (US$ 3,3 bilhões), petroquímica

(US$ 2,7 bilhões), ferrovias (US$ 2,3 bilhões) e setor financeiro

(US$ 1,3 bilhão). (

As receitas das vendas , nos dois anos de

auge do processo de privatização (1997 1998), corresponde- ram, em média, a 3% do PIB em cada um desses anos(Bel- luzo & Almeida, 2002, p. 391)

)

45

Mesmo com números tão vultosos, o desequilíbrio nas contas públicas após

o início da ancoragem cambial era de tal tamanho que conseguia tranquilamente

neutralizar toda a receita gerada pelas privatizações. O impacto da ancoragem na

dívida somente não causou o colapso da economia, pois, anteriormente, já havia sido feito um ajuste das contas públicas através do Plano de Ação Imediata, bene- ficiado também com os superávits acumulados no período Collor, que conseguiu rebaixar, embora momentaneamente, substancialmente o valor da dívida (Belluzo

& Almeida, 2002). A tabela 9, a seguir, retrata a situação da dívida brasileira no pe-

ríodo.

Tabela 9 Balanço Fiscal (1994 1998)

Dívida Interna Líquida

Déficit Nominal

Déficit Operacional

Déficit Primário

 

US$ Mi

%PIB

%PIB

%PIB

%PIB

1994

128.917

23,7

26,5

-2

-5,1

1995

175.325

24,8

7,1

4,9

-0,3

1996

228.770

29,5

6,08

3,88

0,1

1997

241.884

30,1

6,14

4,33

1,02

1998

272.199

35,08

8,06

7,52

-0,01

(+) Déficit; (-) Superávit FONTE: Silva(2002)

Por fim, o processo de ancoragem cambial armou uma dependência excessi- va dos fluxos de capitais externos, levando o governo a tomar medidas em sua polí- tica monetária contrárias à estabilização macroeconômica (Silva, 2002). Em outras palavras, para sustentar a ancora o governo abriu sua economia via privatizações e uma constante redução na tarifa das importações -, aumentou radicalmente sua taxa de juros, ampliou substancialmente sua dívida e fragilizou a economia em ter- mos financeiros, tornando-a muito vulnerável ao setor externo. Embora, através do aumento da concorrência interna, impulsionado pela entrada expressiva de capital e tecnologia estrangeira, a abertura econômica tenha favorecido a estabilidade dos preços (Modenesi, 2005), as demais ações tomadas pelo governo apenas contribuí-

46

ram para desequilibrar a conjuntura brasileira vale ressaltar que o governo brasilei- ro teve que, após 1995, com a crise bancária, abrir caminho para uma enorme des- nacionalização do setor, permitindo que os bancos estrangeiros “resgatassem” os bancos nacionais comprando, até 1998, cerca de 35% dos ativos bancários. Os de- mais ativos “podres” remanescentes foram custeados pelo Banco Central, que arcou com um custo relativo de 10% do PIB (Belluzo & Almeida, 2002). Desta forma, com dívidas públicas insustentáveis em todos os níveis (Federal, Estadual e Municipal), obrigando, inclusive, renegociações entre a União e os estados, um sistema finan- ceiro desestabilizado, uma exposição externa exagerada, um desequilíbrio no balan- ço de pagamentos, taxas de juros atingindo níveis altíssimos, um desequilíbrio cada vez maior no Balanço de Pagamentos e uma expectativa cada vez pior dos agentes externos em relação à capacidade do país em manter seu regime cambial, restava apenas uma pequena faísca para que toda a crise desencadeasse.

O impulso final para o início à crise começou no segundo semestre de 1997, com o estouro da crise asiática, e, em seguida, agravado com a crise russa em a- gosto de 1998. Depois destas duas crises, a quantidade de capital estrangeiro inte- ressada nos países emergentes foi praticamente nula.

Sem possibilidade de financiar seu Balanço de Pagamento e sustentar seu câmbio de valorizado, o Brasil se viu, graças ao fim dos fluxos de capital estrangeiro, obrigado a formalizar um acordo com o FMI, em dezembro de 1998, na ordem de US$ 41, 5 bilhões, com parcelas do FMI, BID, BIRD e bancos centrais coordenados pelo BIS (Belluzo & Almeida, 2002). Após o acordo, a desconfiança, que já era gran- de, apenas aumentou por parte dos agentes externos, resultando em uma fuga em massa muito mais agressiva da que já vinha ocorrendo.

Não era mais possível manter a âncora cambial, o país já havia perdido cerca de US$50 bilhões em reservas internacionais, porém, até o início de 1999, a âncora ainda seria mantida, através de um custo extraordinário que impactaria drasticamen- te as conduções das políticas econômicas da futura fase que iria nascer no Plano Real a partir de 1999 (Silva, 2002).

Finalmente, para se entender as razões de se prolongar, mesmo em um ce- nário tão adverso, a taxa de câmbio sobrevalorizada e o processo de ancoragem cambial, é necessário sair do âmbito econômico e compreender o cenário político. Tratava-se de um ano de eleições, onde Fernando Henrique Cardoso pleiteava seu

47

segundo mandato. Assim, não seria apropriado aprovar políticas polêmicas que comprometessem sua campanha eleitoral, muito menos que causassem impactos visíveis à população após o abandono da âncora, o Real sofreu uma desvaloriza- ção cambial de 63%, indo de R$/US$1,21 (cotação do último dia antes da mudança do regime cambial) para R$/US$ 1,98(cotação um mês após a liberação cambial) (Belluzo & Almeida, 2002)

Passado o período político e já em seu segundo mandato, Fernando Henrique Cardoso em conjunto com sua equipe econômica optou por liberar o câmbio em 15 de janeiro de 1999. Para iniciar esta nova etapa do Plano Real, após a desastrosa crise cambial, o governo teria que superar alguns graves problemas, entre eles: o baixo nível das reservas (US$ 30 bilhões), o setor público completamente endivida- do, o fato de o Real ter perdido 63% do seu valor e o desafio de restaurar a credibili- dade da economia brasileira que estava completamente abalada (Silva, 2002).

48

CONCLUSÃO

O trabalho exposto demonstrou os impactos de uma política de estabilização apoiada em uma ancoragem cambial na conjuntura econômica brasileira, durante o primeiro período do Plano Real, isto é, entre 1994 a 1998. Para obter mais clareza nas análises realizadas neste trabalho, foi necessário criar um primeiro capítulo com uma abordagem completamente teórica. Nele foram estudados os possíveis arranjos cambiais, diferenciados em graus de rigidez. Os principais arranjos abordados, para fins conclusivos deste trabalho, foram os regimes intermediários de metas cambiais, sobretudo, o sistema fundamentado em bandas cambiais e as minidesvalorizações, ambos aplicados na política cambial vigente no Plano Real, dentro do período estu- dado.

Apoiando-se nos resultados vistos na bibliografia apresentada, complemen- tou, também, este primeiro capítulo, os efeitos macroeconômicos de uma ancora- gem cambial, em países subdesenvolvidos, casada com um câmbio artificialmente sobrevalorizado. A análise apresentada foi conclusiva em estabelecer um padrão econômico cronológico, onde, através deste tipo de programa de estabilização ob- serva-se, inicialmente, uma leve prosperidade econômica, possível através da esta- bilização dos preços e do aumento do consumo privado, porém, resultando, no final, em uma crise cambial de grandes proporções que desajustam a dívida pública, tra- zem graves déficits às transações correntes e, consequentemente, impactam o Ba- lanço de Pagamento e as reservas internacionais.

Na segunda parte do trabalho, foi introduzido o debate a respeito da inflação brasileira que vinha, a partir da década de 1980, crescendo violentamente e parecia ser resistente a qualquer política econômica. Basicamente, neste período, a popula- ção em geral, o governo brasileiro e os principais agentes econômicos dos setores financeiros e produtivos aprenderam a sobreviver em meio a um cenário instável visto entre os planos Cruzado (1986) e Collor (1990 1992).

Dentro desta turbulência, foram expostas as políticas heterodoxas aplicadas antes da chegada do Plano Real, destacando-se o congelamento de preços. Ineficaz e causador de um efeito distributivo perverso, graças à incapacidade da proposta em

49

conseguir alinhar os preços simultaneamente, o congelamento logo perdeu sua força

e passou a ser visto como uma estratégia temida pelos agentes econômicos.

Uma vez apresentado o embasamento teórico e os antecedentes históricos e econômicos, a problemática a ser estudada por este trabalho foi desenvolvida no terceiro e último capítulo. Nesta parte foi possível ver os desdobramentos políticos e econômicos que levaram a formulação de um plano de estabilização eficaz no con- trole da inflação, porém, prejudicial para diversos outros fatores da conjuntura como Balanço de Pagamentos, dívida pública, expansão do PIB, nível de investimento e cenário externo. Desta forma, dada à vontade de se entender as contradições de um programa que, na mesma moeda, controlou formidavelmente a inflação, porém, le- vou o país a uma severa crise cambial em meados de 1998, foram exploradas todas as conduções, regulações e decisões tomadas ao longo do Plano Real.

Ao longo dos desdobramentos do Plano Real, pode se afirmar, sem surpre- sas, que a sua capacidade em estabilizar os preços foi um sucesso. A inflação vem se mostrando controlada até os dias de hoje, graças à inovadora ideia da URV, a- poiada, em termos teóricos, na proposta Larida e sua concepção da moeda indexa- da. Contudo, para dar credibilidade ao indexador universal criado, foi necessário rea- lizar uma defasagem cambial considerável. A sobrevalorização do câmbio nominal foi o princípio do que viria a ser a ruína da ancora cambial.

Conforme exposto, não demorou muito para que as reservas brasileiras co- meçassem a se esvaziar, dado o elevado desvio da demanda para as importações,

e a piora na Balança Comercial começasse a prejudicar as transações correntes. A

partir de então, o Brasil passou, cada vez mais, a depender dos fluxos de capitais estrangeiros, trazidos por agentes externos descrentes da capacidade do governo brasileiro em sustentar sua política cambial. Esta dependência custou ao país políti- cas monetárias contracionistas, onde as taxas de juros cresceram paulatinamente,

prejudicando os investimentos, a expansão econômica, o consumo e encarecendo a dívida. O déficit público, por exemplo, aumentou de tal forma que conseguiu anular a incrível receita arrecadada pelo governo com a expansão do programa de privatiza- ção.

O custo da estabilização estava registrado, a dívida pública, insustentável, le- vou o país a realizar dois acordos com o FMI, o câmbio foi, em 1999, flexibilizado e a âncora abandonada.

50

Conclui-se que, o período estudado foi um marco histórico para o país, mos- trando a relevância de estudá-lo. A inflação, que antes era um assunto “incurável”, mostrou seu ponto fraco e um longo debate finalmente fora encerrado. Contudo, isto envolveu uma política econômica radical que custou praticamente todo o segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso. O Brasil somente voltou a ver boas perspectivas de expansão econômica a partir de 2002.

51

Referências Bibliográficas

BACHA, E. L. O físico e a inflação: uma interpretação do caso brasileiro. Revista de

economia

<http://www.rep.org.br>.

política,1994.

V.14,

N.1(53),

Jan-Mar.

Disponível

em:

BACHA, E. L. Plano Real: uma avaliação preliminar. Revista do BNDES, 1995. V.2, N.3 P. 3-26, Jun. Disponível em:< http://www.bndes.gov.br>.

BANCO CENTRAL DO BRASIL (BACEN). Série história do balanço de pagamentos, 1947-2013. Disponível em:< http://www.bcb.gov.br/?SERIEBALPAG>.

Boletim do Banco Central Relatório Anual, 1997. Disponível em:

Boletim do Banco Central Relatório Mensal, 1996a Disponível em:

.

Boletim do Banco Central Economia Brasileira Relatório Anual, 1996b. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/?BOLETIM1996>.

BELLUZO, L. G. e ALMEIDA, J. G. Depois da queda: A economia brasileira da crise da dívida aos impasses do Real. Cap VIII, p. 357-403. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

BLANCHARD, O.

2007.

Macroeconomia. 4ª edição. São Paulo: Pearson Prentice Hall,

52

BRESSER, L. C. A Teoria da Inflação Inercial Reexaminada, São Paulo: Editora Bi-

em:

enal,

1989.

Disponível

A Descoberta da Inflação Inercial. Revista de Economia Contemporânea, Rio de Janeiro, 2010. V. 14, n. 1, p. 167-192, jan./abr. Disponível online em:

CARNEIRO, D. D. e WU, T. Política Macroeconômica: A experiência brasileira con- temporânea. Rio de Janeiro: LTC, 2011.

CARVALHO, F. J. C., SOUZA, F. E. P., Sicsú, J., Paula, L. F. R. e Studart, R. Eco- nomia monetária e financeira: Teoria e política. Rio de Janeiro: Campus, 2011.

CUNHA, P. H. F. A Estabilização em Dois Registros, Julho, 2004. Disponível em:

IPEADATA. Disponível em: <http://www.ipeadata.gov.br/.>

KRUGMAN, P. R. e OBSTFELD, M. Economia Internacional: Teoria e poítica. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2001.

LANDI, M. A evolução do Programa Nacional de Desestatização (PND) e seus prin- cipais resultados e desdobramentos na infraestrutura”. In: MARQUES, Ferreira (org.). O Brasil sob a Nova Ordem: A economia brasileira contemporânea Uma análise dos governos Collor a Lula. São Paulo: Saraiva, 2009. P.119-165.

53

LOPES, F. O choque heterodoxo: combate à inflação e reforma monetária. Rio de Janeiro: Campus, 1986.

MEURER, R. e SAMOHYL, R. W. “Política Monetária e Dívida Pública: O que mudou com a alteração do regime cambial?”. In: Planejamento e Políticas Públicas,

em:

2005.

N.28,

jun-dez.

Disponível

MILES, D. e SCOTT, A. Macroeconomia: compreendendo a riqueza das nações. São Paulo: Saraiva, 2005.

MODENESI, A. M. Regimes monetários: Teoria e a experiência do Real. 1ª edição. São Paulo: Manole, 2005.

RIBEIRO, F. Política cambial, establização monetária e balanço de pagamentos na América Latina e no Brasil. São Paulo: PUC-SP Educ, 2005.

SILVA, M. L. F. Plano Real e Âncora Cambial. Revista de economia política, 2002. V.22, n.3(87), jul-set.