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Sujeita

nin

os poetinhas, horrorosos, que me perdoem, mas beleza é fundamental.

ela é fundamental porque se origina do meu seio de Mulher − e de tantas, de tantas − ela escorre dos meus lábios ar dos meus lábios palavra dos meus lábios sangue.

escarro tua ideia de beleza

: porque a Mulher que somos é a beleza inteira

não é objeto dos olhos nem dos verbos nem dos versos. não é ingrediente de receita nunca vai ser alva, nunca vai ser pura nem argila, nem costela tua

não Nos meça não Nos impeça

nossos úteros milenares choram a tua crueldade NADA nos "é preciso" porque nossa beleza não não é necessária

: ela é essencial

porque vem da nossa essência

somos nós que perfumamos as flores com nossos próprios hálitos

e

pesamos toneladas

e

temos rugas do tamanho de trincheiras

curvas e abismos inimagináveis nas quais fazemos guerras o tempo todo (é a origem também desse teu umbigo de ego)

não temos a cores das tuas aquarelas nem a forma das tuas mãos calosas

nem as poses do teu imaginário vulgar nunca realizado

: tua ideia não nos molda não nos submete.

somos sujeito da poesia somos a poesia toda , encarnada, autoras das nossas linhas traçadas trançadas transadas bocas e pernas abertas

com serpentes na órbita de nossas cinturas guardando nossos ventres lunares temos a fome de leões famintos

a

febre da língua dos dragões

e

os olhos de morcegos debaixo dos lençóis.

a casa caída I nin

A terra estava tremendo. O chão sob meus pés cedia e havia uma atmosfera densa

de fim de mundo. Estava escuro e no meio do silêncio era possível identificar os estrondos

e de onde vinham. O teto rangia e eu não mais podia me apoiar nas paredes. Eu estava presa no meu quarto térreo e só, mas o chão se abria numa escada sem degraus. Alguém

conhecido e ao mesmo tempo modificado pelos tremores me dizia numa voz inquieta que tudo iria ficar bem. Havia em mim, sobretudo, uma presença divina. Esta não me permitia impedir a catástrofe, mas senti-la para muito além do meu corpo. Sentia-me cada pedaço da casa que ruía. Através de uma rachadura sobre mim vi uma noite de quatro luas. Esvaziava, desaparecia em fogo, lentamente reaparecia e, enfim, plena. Caso tudo ali queimasse, sentiria o fogo superficial e profundamente, pois eu seria também o próprio fogo. Acordei com um mau pressentimento e os olhos ensopados e tortos e a certeza de que algo aconteceria. Fora um aviso.

O quarto, não mais povoado de meus demônios, permanecia escuro. Noite fria.

Não tenho dormido mais que hora e meia. Estar acordada me dava a segurança de controlar o meu mundo que no sonho me doía inteiro. Não havia símbolos. A mensagem era literal: está para acontecer um desastre. Busquei com o quadril o corpo que me divide a cama, encontrei pés gelados, apesar de tomar-me toda a coberta. O tiquetaquear do relógio denunciava um tempo a conta-gotas. Afasto-me com asco e sem proteção. A luz da rua não atravessa a árvore sem folhas que então me alcança o pé na cama. Horror. Ela se desconfigura em garras medonhas. Eu me mantenho inerte na cama. O ronco dele denuncia um sono gozado e satisfeito. Eu permaneço inerte ao seu lado. Não ousaria lhe negar depois de um dia derrotado. Procurei buscar identificação com as zonas tropicais desse lugar de calor e umidade. Eu estava seca. Seca como a árvore da janela que me torturava. Aquele amor me devastava. Desarraiguei da cama e percorri labirintos até o quarto vazio dos filhos que ainda não tenho. Lá pude percorrer outros labirintos e entregar-me a um sonho, gozoso e satisfatório. Lençóis inundaram-se e povoei o quarto de gemidos baixos, a princípio pelo prazer experimentado e em seguida pelo prazer que continuamente não experimento, nem experimentarei. Lembrando as horas tortuosas que me deixo estar sob ele. Lembrando a guerra, a invasão de territórios. A conquista. A sujeição. Se ao menos nossa significação

fosse recíproca. Acontece que há anos não somos. Se é que fomos. Nunca fomos. Esvaziamento. Acontece que nunca me fui por inteira, assim como nunca fomos inteiros um para o outro, também. Acontece que agora aquele quarto estava ocupado. A densidade dessa ocupação mal me cabe na ponta do dedo. Brilha na noite a aliança dele, aliança que não levo. Eu sou o próprio fogo, destruindo a casa e me queimando por inteiro. Ele me propunha quando em vez jantares e cinema e forjava um hábito, um lar. Tenho algo a dizer. Coragem. Nunca ousei admitir para mim mesma o quanto eu forjei ali sua naturalidade. Ele nunca me foi necessário. Eu pareci sê-lo por um instante. Senão eu, outra e outra e outras sempre o são. Acontece que fiquei ali. Sem vínculo algum. Mas agora, havia. O mais grotesco de toda a história é parecer ter tido opção de escolha em algum momento. E tive. Escolhas. Conselhos. Métodos. Acontece que em algum momento da vida tudo falha e a gente se vê perdido e tudo ao redor em chamas e tudo cede. E de uma rachadura é possível vislumbrar uma lua sangrenta. Alguma das noites sem prazer fora certeira. Aquele quarto estaria ocupado em alguns meses. Já imagino o discurso. Pode contar comigo. Estarei aqui para o que precisar. Tem certeza que é isso que você quer? Algumas tardes dos finais de semana. Alguns dinheiros. Nenhuma entrega. Nenhum prazer. Dedicação integral a ser o que ele sempre se mostrou. O nada ao qual me mantive presa sem correntes, sem algemas, sem sentimentalismo algum. Eu abdico a vida. A vida de ser inteira para ser clandestina em todas as instâncias de minha clandestinidade. Há um segredo na noite. Do quarto se desdobra uma escada alçada ao nada, tudo cede e eu me queimo por inteira.