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Como eu não tinha o que fazer neste domingo e estando indignado com a forma como

a mídia vem abordando o tema e o descaso das autoridades de trânsito, resolvi tecer
meus comentários sobre o que determina a Resolução 277, do Conselho Nacional de
Trânsito. Deu nisso ai abaixo:

Resolução 277/CONTRAN, de 28 de maio de 2008

É uma resolução de mais de dois anos, prevista na sua aprovação, ter vigência, para
efeito de cobrança legal, 730 dias após a sua publicação... prazo final para as tomadas
de providências por parte dos envolvidos, autoridades de trânsito e a sociedade em
geral como maior beneficiária (será mesmo?!) Entretanto, como veremos, nenhuma
providência foi tomada por essas autoridades e pegou boa parte da população de calça
curta, como a criança do passado.
Dispõe sobre o transporte de menores de 10
anos e a utilização do dispositivo de retenção
para o transporte de crianças em veículos.
Esta resolução abrange quais tipos de veículos? Os condutores de carroças, veículo com
tração animal, também devem obedecer aos seus ditames? Sabemos que a carroça,
assim como as caminhonetes possuem apenas o banco da frente, para duas pessoas. A
criança deverá ficar de frente ou de costas para o rabo do animal? Qual tipo de
dispositivo de retenção é indicado para proteger a criança dos gases naturais e de outros
dejetos que podem ser arremessados a distância pelo animal? É necessário que seja
homologado pelo INMETRO, também será permitido usar produtos importados?

Art.1° Para transitar em veículos automotores, os menores de dez


anos deverão ser transportados nos bancos traseiros usando
individualmente cinto de segurança ou sistema de retenção
equivalente, na forma prevista no Anexo desta Resolução.

Percebe-se claramente a incongruência de informações na tentativa de definir o que


vem a ser sistema de retenção. O que é sistema de retenção equivalente? O
CONTRAN muda a palavra SISTEMA para DISPOSITIVO:
§1º. Dispositivo de retenção para crianças é o conjunto de elementos
que contém uma combinação de tiras com fechos de travamento,
dispositivo de ajuste, partes de fixação e, em certos casos, dispositivos
como: um berço portátil porta-bebê, uma cadeirinha auxiliar ou
uma proteção anti-choque que devem ser fixados ao veículo, mediante
a utilização dos cintos de segurança ou outro equipamento
apropriado instalado pelo fabricante do veículo com tal finalidade.

Se é equivalente, fica a pergunta: a quê? Há que se comparar a outros mecanismos, por


ventura existentes com a mesma função de proteger a criança menor de 10 anos?
§2º. Os dispositivos mencionados no parágrafo anterior são
projetados para reduzir o risco ao usuário em casos de colisão ou de
desaceleração repentina do veículo, limitando o deslocamento do
corpo da criança com idade até sete anos e meio.
Admira a precisão da faixa etária aqui tratada, será que seremos obrigados a portar,
juntamente com os documentos do veículo, as certidões de nascimento das crianças que
transportamos? E no caso de querermos dar uma carona a uma pessoa adulta
acompanhada de uma criança, esta ficará impossibilitada de ser transportada? Ou existe
uma permissão especial para estes casos?

§ 3º As exigências relativas ao sistema de retenção, no transporte de


crianças com até sete anos e meio de idade, não se aplicam aos
veículos de transporte coletivo, aos de aluguel, aos de transporte
autônomo de passageiro (táxi), aos veículos escolares e aos demais
veículos com peso bruto total superior a 3,5t.

Por que excluir a frota de táxi, de transporte coletivo, de transporte escolar e demais
veículos com peso bruto superior a 3,5 t? Terá sido em função de que os seus
condutores geralmente estão organizados em associações e outras agremiações que
poderiam estar contestando judicialmente esta resolução, ao contrário da grande massa
de condutores desprovidos ou desconhecedores dos seus direitos de cidadão?

Art. 2º Na hipótese de a quantidade de crianças com idade inferior a


dez anos exceder a capacidade de lotação do banco traseiro, será
admitido o transporte daquela de maior estatura no banco dianteiro,
utilizando o cinto de segurança do veículo ou dispositivo de retenção
adequado ao seu peso e altura.

Criança é no banco traseiro ou dianteiro? Por que é dada essa permissibilidade, se a


resolução visa a proteção da criança menor de 10 anos? Os riscos ficarão afastados nas
condições acima?! Supondo que a criança de maior altura não comportar o uso do cinto
de segurança, mesmo assim é permitido usar este equipamento de segurança?

A permissibilidade condicional prevista no Art. 2º põe em cheque a real preocupação


dos legisladores responsáveis pela elaboração desta resolução. Ao meu ver, se é por
questão de segurança, em nenhum momento poderia ser permitido o transporte de
criança menor de 10 anos no banco dianteiro. O que eliminaria o seu parágrafo único, in
verbis:

Parágrafo único. Excepcionalmente, nos veículos dotados


exclusivamente de banco dianteiro, o transporte de crianças com até
dez anos de idade poderá ser realizado neste banco, utilizando-se
sempre o dispositivo de retenção adequado ao peso e altura da
criança.

Segundo momento no qual é dada a permissão para que esta resolução não seja levada a
termo, dita por ela mesma.

Art. 3°. Nos veículos equipados com dispositivo suplementar de


retenção (airbag), para o passageiro do banco dianteiro, o transporte
de crianças com até dez anos de idade neste banco, conforme
disposto no Artigo 2º e seu parágrafo, poderá ser realizado desde que
utilizado o dispositivo de retenção adequado ao seu peso e altura e
observados os seguintes requisitos:

Mais uma vez constatamos a exceção à regra, agora com o agravante da contradição
encontrada no texto que ressalta os requisitos referidos no caput do artigo 3º.
I – É vedado o transporte de crianças com até sete anos e meio de
idade, em dispositivo de retenção posicionado em sentido contrário
ao da marcha do veículo.

Caso a intenção do legislador tenha sido a de disciplinar o modo como as crianças, com
idade entre um e sete anos e meio, devem ser acomodadas no assento, não seria
necessário esse item... imagine a ginástica que teria que ser feita para colocar esta
criança sentada de costas para o motorista??? Onde seriam acomodados os pés dessa
criança, no alto do encosto do banco traseiro, por sobre o painel traseiro ou pra fora do
carro pela janela?

II – É permitido o transporte de crianças com até sete anos e meio de


idade, em dispositivo de retenção posicionado no sentido da marcha
do veículo, desde que não possua bandeja, ou acessório equivalente,
incorporado ao dispositivo de retenção;

Existe ou não contradição nos textos acima, itens I e II. Extrai-se de ambas as situações
que ao passar marcha ré a criança deverá ser mudada de posição previamente, a fim de
evitar o descumprimento desta resolução.

III - Salvo instruções específicas do fabricante do veículo, o banco do


passageiro dotado de airbag deverá ser ajustado em sua última
posição de recuo, quando ocorrer o transporte de crianças neste
banco.
Em primeiro lugar não devemos considerar a possibilidade de transportar crianças
neste banco, sendo este individual, portanto, projetado para uma única pessoa. E mais
uma vez temos o flagrante da permissibilidade, do jeitinho de fazer as coisas acontecer
ao arrepio da lei. Pode ou não pode conduzir criança no banco dianteiro, eis a questão.
Art. 4º. Com a finalidade de ampliar a segurança dos ocupantes,
adicionalmente às prescrições desta Resolução, o fabricante e/ou
montador e/ou importador do veículo poderá estabelecer condições
e/ou restrições específicas para o uso do dispositivo de retenção para
crianças com até sete anos e meio de idade em seus veículos, sendo
que tais prescrições deverão constar do manual do proprietário.

Ao meu entender, aqui o CONTRAN deixa de forma explícita nas mãos dos fabricantes
e/ou montadora as “condições” nas quais devem ser utilizadas os sistemas de proteção
às crianças que eventualmente são transportadas nos veículos automotores, quando estas
deveriam cumprir as exigências emanadas daquele órgão regulador. Um flagrante da
contra-mão da história, a legislação deve ser nas duas vias para evitar a complicação no
fluxo.
Art. 5º. Os manuais dos veículos automotores, em geral, deverão
conter informações a respeito dos cuidados no transporte de
crianças, da necessidade de dispositivos de retenção e da importância
de seu uso na forma do artigo 338 do CTB.

Sem comentários.

Art 6º. O transporte de crianças em desatendimento ao disposto


nesta Resolução sujeitará os infratores às sanções do artigo 168, do
Código de Trânsito Brasileiro.

E as permissões que aqui foram ressaltadas como elas serão tratadas? Como deverá
proceder o agente fiscalizador?

Art 7º. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação,


produzindo efeito nos seguintes prazos:

I – a partir da data da publicação desta Resolução as autoridades de


trânsito e seus agentes deverão adotar medidas de caráter educativo
para esclarecimento dos usuários dos veículos quanto à necessidade
do atendimento das prescrições relativas ao transporte de crianças;

Ora a presente resolução data de 28 de maio de 2008 e não me consta que tenha havido
qualquer medida nesse sentido por parte das autoridades de trânsito.

II - a partir de 360 ( trezentos e sessenta ) dias após a publicação


desta Resolução, os órgãos e entidades componentes do Sistema
Nacional de Trânsito deverão iniciar campanhas educativas para
esclarecimento dos condutores dos veículos no tocante aos requisitos
obrigatórios relativos ao transporte de crianças;

Como já dito, nenhuma campanha educativa foi feita aqui no Brasil visando orientar a
forma de conduzir as crianças menores de 10 anos. A prática de conduzi-las no banco
traseiro vem desde a entrada em vigência da Lei Nº 9.503, ocorrida em 23 de
setembro de 1997.

III - Em 730 dias, após a publicação desta Resolução, os órgãos e


entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito fiscalizarão
o uso obrigatório do sistema de retenção para o transporte de
crianças ou equivalente.

Nos últimos dias a imprensa tem se valido desse tema alardeando o fato de que passará
a vigorar a exigência do uso das cadeirinhas para o transporte de crianças até sete anos e
meio de idade. Educação que é bom nada.
Com a falta da campanha também ocorreu a falta de planejamento dos pais de família
com crianças nessa faixa etária, digo crianças, porque há casos de família com mais um
filho. Agora, já partir da próxima semana, essas pessoas serão cobradas a dotarem seus
veículos desses dispositivos de segurança.
Concluo dizendo ser favorável a adoção de toda e qualquer medida de segurança para
todas as crianças, não só as aqui especificadas, mas também aquelas relacionadas com
as demais atividades pertinentes à infância.
A minha crítica é quando percebemos que estamos vivenciando uma situação permeada
de vícios que perniciosos à boa fé do cidadão. Esta exigência, da forma como vem
sendo posta, nos faz relembrar o kit contendo material para a prestação dos serviços de
primeiros socorros no caso de um acidente. Foi assim, do nada, sem nenhuma
orientação, apenas veio a exigência de adquirirmos as abençoadas caixinhas e milhões
de unidades foram vendidas país afora, beneficiando unicamente os seus fabricantes.
Encerro com uma pergunta, que pode aparentemente estar fora do contexto, mas é da
alçada do CONTRAN, por que foi permitido aos fabricantes e/ou montadoras dotarem
os seus veículos com extintores de incêndio descartáveis? Quando o que acompanhava o
veículo podia ser recarregado anualmente? Você sabia disso?

1 – As Crianças com até um ano de idade deverão utilizar, obrigatoriamente, o


dispositivo de retenção denominado “bebê conforto ou conversível” (figura 1)

2 – As crianças com idade superior a um ano e inferior ou igual a quatro anos deverão
utilizar, obrigatoriamente, o dispositivo de retenção denominado “cadeirinha” (figura
2)

3 – As crianças com idade superior a quatro anos e inferior ou igual a sete anos e meio
deverão utilizar o dispositivo de retenção denominado “assento de elevação” (figura 3)