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SELECOES , JURIDICAS DIREITO INTERNACIONAL DO TRABALHO Antecedentes histéricos, fundamentos e principios especificos OUTUBRO | 2016 80a 0 ge Cua) DOOR Gr Trey COUTTS) ert OVC a Poteet ee ccna eT Crone e yar Cree Rat C Core eee SMe Soc) ECCI NET a | 0 1N Ac | as A nova lei de repatriacdo de Capitais epois de anos de espera, finalmente entrou em vigor a to esperada Lei de Repa- triagdo. Desde que o Bacen pas- sou a mapear os estoques de ativos mantidos por investidores’ brasileiros no exterior, no ano de 2002, 0 volume de recur- sos so tem aumentado. No ano-base 2014, os ati- vos totais ultrapassaram USS 394 bilhdes e o nume- ro de declarantes chegou a mais de 37 mil.’ Todavia, como ja alertévamos em 2012,’ esses dados ofi- ciais servem apenas de estimativas para a verda- deira “cifra-negra” de divisas remetidas e manti- das no exterior a margem do controle por parte dos 6rgios oficiais. Fala-se em centenas de bilhdes de délares que teriam sido enviados ou auferidos no estrangeiro e nao regula- rizados por contingéncias econémicas brasileiras. A Lei 13.254, de 13 de ja- neiro de 2016, oriunda do PLS 298/2015 (de autoria do Senador Ranolfe Rodri- gues do PSOL/AP), man- teve o propésito inicial de regularizagdo e/ou repa- triamento de ativos ndo declarados no exterior, a fim de que possam ser reinvestidos internamen- te, trazendo beneficios ao Brasil,’ porém a redacdo final & muito distinta dos primeiros projetos (PLCs 113/2003, 5.228/2005 e PLSs 424/2003 e 43/2008), mais abrangente e com- pleta em alguns pontos. Como s6 ocorre em legis- lagdes polémicas (espe- cialmente do ponto de vista do princi nomia), apresenta falhas, fruto da auséncia de uma revisdo técnica adequa- da. Nao se pode dizer, contudo, que ndo houve tempo para o debate, afi- nal as primeiras propos- tas surgiram na Cémara dos Deputados em 2003 e, desde entdo, vinham sendo resgatadas em pe- rfodos de crise. Porém, “nunca antes na historia deste pais” vive- mos uma crise econémica to profunda e, portanto, 05 projetos foram ressus- citados no afa de injetar uma vultuosa quantia de recursos no pais, suposta- mente contribuindo para o aquecimento do merca- do. ‘So intimeras as questdes pendentes até a regula- mentagao (art. 10) da lei que cria o “Regime Espe- cial de Regularizagao Cam- bial e Tributaria” (RERCT) de recursos, bens ou di- reitos de origem licita, no declarados ou decla- rados incorretamente, remetidos, mantidos no exterior ou repatriados por residentes ou domici- liados no Pais. Creio que dois artigos me- recem elogios: “Art. 72, §12—Adivul- gagdo ou a publicida- de das informagdes presentes no RERCT implicardo efeito equivalente a quebra AD | Selecoes Juridicas | 45 | OPIN: A0 | do sigilo fiscal, sujei- tando o responsavel as penas previstas na Lei Complementar 105, de 10 de janeiro de 2001, e no art. 325, do Decreto-Lei 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Cédigo Penal), e, no caso de funcio- nario publico, 4 pena de demissao.” Nao tenho dividas de que a imprensa adoraria ter conhecimento daqueles que detém recursos no exterior irregularmente, ou seja, praticaram diver- sos crimes, porém estdo sendo “graciosamente” anistiados... No olvide- mos que quando se esta na esfera da chamada “criminalidade do colari- nho branco” as penas mais duras e simbélicas so aquelas que afetam a credibilidade e a confian- a nas pessoas e nas insti- tuigées envolvidas. “Art. 11 — Os efeitos desta Lei nao serao aplicados aos deten- tores de cargos, em- pregos e fungées publicas de direcao ou eletivas, nem ao res- pectivo cénjuge e aos parentes consangui- neos ou afins, até o segundo grau ou por adocdo, na data de publicacdo desta Lei.” Embora tal artigo crie uma excecdo de duvidosa constitucionalidade, cer- tamente tem ampla apro- va¢ao publica, afinal, a titulo de curiosidade, um dos maiores defensores da repatriacéo é o hoje preso Senador Delcidio do Amaral (PT-MS), autor do PLS 254/2009 e de substi- tutivo ao projeto que aca- bou aprovado. Qualquer questionamento sobre a origem de recursos evadi- dos por politicos em geral ja determinou a criag3o de uma regra de afasta- mento do novo RERCT. Medida de carater exclu- sivamente politico e demagégico. Ainda, numa leitura répi- da da lei, fica a duvida de quem vai assumir o risco de confessar a proprieda- de dos ativos nao declara- dos nestas circunstancias: “prt. 42, §12—Adecla- ragdo de regulariza- cao de que trata o caput nao poderd ser, por qualquer modo, utilizada: |—como unico indicio ou elemento para efei- tos de expediente in- vestigatério ou proce- dimento criminal;”. A confisséo da proprieda- de dos ativos irregulares no exterior certamente coloca o interessado numa posicao de poten- cial investigado. O rol de crimes que serao anistiados no caso de quem conseguir vencer os diversos entraves legais (sendo 0 imposto ea mul- ta, alcancando o total de 30% dos recursos repa- triados ou aqui regulariza- dos, 0 de menos) é 0 se- guinte: “Art. 52 — A adesao ao programa dar-se-a mediante entrega da declaraco dos recur- sos, bens e direitos sujeitos a regulariza- Gao prevista no caput do art. 42 e pagamen- to integral do imposto previsto no art. 62 & da multa prevista no art. 82 desta Lei. § 12-0 cumprimento das condicées previs- tas no caput antes de decisao criminal, em relacdo aos bens a se- rem regularizados, ex- tinguird a punibilidade dos crimes previstos: I=no art. 12 e nos inci- sos|, le Vdoart.2°da Lei 8.137, de 27 de dezembro de 1990; [CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTARIA] 46 | outubro de 2016 Il—na Lei 4.729, de 14 de julho de 1965; [SONEGAGAO FISCAL] Ill = no art. 337-A do Decreto-Lei n® 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Cédigo Penal); [SONEGAGAO DE CON- TRIBUICAO PREVIDEN- CIARIA] IV — nos seguintes arts. do Decreto-Lei n® 2.848, de 7 de de- zembro de 1940 (Cédi- go Penal), quando exa- urida sua potencialida- de lesiva com a pratica dos crimes previstos nos incisos | a III: a) 297; [FALSIFICAGAO DE DOCUMENTO PU- BLICO] b) 298; [FALSIFICACAO DE DOCUMENTO PAR- TICULAR] c) 299; [FALSIDADE IDEOLOGICA] d) 304; [USO DE DO- CUMENTO FALSO] V-(VETADO); VI=no caput e no pa- ragrafo Unico do art. 22 da Lei n° 7.492, de 16 de junho de 1986; [EVASAO DE DIVISAS] VIl — no art. 12 da Lei 9.613, de 3 de margo de 1998, quando o objeto do crime for bem, direito ou valor proveniente, direta ou indiretamente, dos crimes previstos nos incisos | a VI; [LAVA- GEM DE DINHEIRO — dispositive nao ade- quado & nova Lei 12.683/2012, que pre- vé que qualquer infra- so penal pode ser antecedente da lava- gem] Vill - (VETADO).. § 22 — A extingdo da punibilidade a que se refere 0 § 19: |= (VETADO); ll — somente ocorrera se o cumprimento das condiges se der antes do transito em julgado da decisdo criminal condenatéria; Ill ~ produzira, em re- lagdo a administracéo publica, a extinc’io de todas as obrigacées de natureza cambial ou financeira, princi- pais ou acessérias, inclusive as meramen- te formais, que pudes- sem ser exigiveis em relagdo aos bens e di- reitos declarados, res- salvadas as previstas nesta Lei. § 32 - (VETADO). § 4° — (VETADO). § 5°— Na hipétese dos incisos Ve Vi do § 12, a extingdo da punibili- dade ser restrita aos casos em que os recur- sos utilizados na ope- rag3o de cambio nao autorizada, as divisas ou moedas saidas do Pais sem autorizacao legal ou os depésitos mantidos no exterior endo declarados a re- partico federal com- petente possuirem origem licita ou forem provenientes, direta ou indiretamente, de quaisquer dos crimes previstos nos incisos |, I, HL, VIE ou VII do. § 19.” Conforme o caput do art. 12 (E instituido o Regi- me Especial de Regulari- zagao Cambial e Tributd- ria — RERCT, para decla- ragdo voluntaria de recur- sos, bens ou direitos de origem licita, no declara- dos ou declarados com omissao ou incorrecdo em relagao a dados essen- ciais, remetidos ou manti- dos no exterior, ou repa- triados por residentes ou domiciliados no Pais, con- forme a legislaco cam- bial ou tributaria, nos ter- mos e condigdes desta COAD | Selecdes Juridicas | 47 | OPIN: A0 | Lei) os recursos devem ter origem licita e, de acordo com 0 § 2° do mesmo arti- go esta condic&o precisa- rd ser provada. Ora, talvez ai resida um dos maiores empecilhos a efetividade da legislacao, qual seja, 0 de provar a origem de um recurso que jé estava sen- do mantido de forma obs- cura no exterior, possivel- mente em algum “paraiso fiscal”. ‘Amaior incongruéncia re- side, porém, no § 52 do art. 12, quando prevé que “Esta Lei ndo se aplica aos sujeitos que tiverem sido condenados em aco pe- nal”, tendo sido vedado o inciso |, que previa a ne- cessidade de transito em julgado da condenacao para a exclusao. Ora, sen- do suficiente a mera con- denacio em 12 grau vio- la-se frontalmente o prin- cipio da presungao de ino- céncia, expresso na Cons- tituigdo e em acordos internacionais firmados pelo Brasil. ‘A despeito dessas consi- deracées, e muitas mais que certamente virdo e chegarao ao Poder Judi- cidrio, a estratégia é vali- da, mesmo sob o ponto de vista politico-criminal (es- tratégia de enfraqueci- mento de organizacées criminosas), e benéfica ao pais, amoldando-se a poli- ticas j4 devidamente tes- tadas com &xito no exte- rior (v. g. Italia, Portugal, México, Argentina, Ale- manha, Estados Unidos, Turquia, Suica etc.). Carlo Velho Mais Advogado criminolista ~ Mestre em Ciéncias Criminals pela PUCRS ~ Especialista em Direito Penal € Politica Criminal: Sistema Constitucional e Direitos Humanos pela UFRGS ~ Pés-graduando em Direito Penal Econémico pela Universidade de Coimbra (Portugal) e em Ciéncias Penais pela PUCRS NOTAS 1. Pessoas fisicas e juridicas resi- dentes, domiciliadas ou com sede no Pals, assim conceitua- das na legislacao tributéria, 2. Resultado CBE 2014. Disponi- vel em: http://wwwd.bcb.gov. br/rex/CBE/Port/Resulta- doCBE2014p. pdf. 3. MASI, Carlo Velho. Criminali: dade econémica e repatriacéo de capitais: um estudo & luz da politica criminal brasileira. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2012 4,"“Arepatriagao de ativos finan- ceiros injetaré uma grande quantidade de recursos no Pais, © que contribuird para 0 aqueci- mento da economia brasileira. A par disso, a expectativa é que haja uma considerdvel arrecada- 40 de impostos, o que possibili- tard maiores investimentos em diferentes setores da sociedade brasileira (educagdo, satide, in- fraestrutura etc.). Por acreditar que o presente projeto de lei traré resultados positivos para o sistema financeiro do Pais, con- ‘clamamos os nobres pares a vo tarem pela sua aprovacao”. (Jus- tificativa do PLS 298/2015, disponivel em http://www.se- nado.leg.br/ atividade/rotinas/ materia/getTexto.asp?t=1660 23&c=PDF&tp=1) 48 | outubro de 2016