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Extensao universitaria, politica institucional e inclusao social Edison José Cortés Resumo; 0 artigo apresenta o conceito atual dé extensio universitria definido pelo Férum de Pré-Reitores de Extensio das Universidades Publicas Brasileiras e analisa as demais visdes de extensio, como a assistencialista ¢ a prestadora de servigas. Aborda questdes que caracterizam a extensio, como hoje € entendida pelo Forum: a relagio social de impacto entre universidade e outros setores da sociedade; a bilateralidade; a interdisciplinaridade; a indissocisbilidade ensino-pesquisa-extensio. Defende, a0 concluir, a tese de que tais questdes devem estar em sineronia com os sistemas de desenvolvimento e de gestio de extensio, Pelavre-chave:extensbo universitria Abstract: The article presents the current concept of university extension, as itis defined by the Pro-Rectors for Extension belonging to the Forum de Pré-Reitores de Extensio das Universidades Pablicas Brasileiras, and it analyses the other visions of extension, such as the assistance and the subcontracted work. It deals with matters that characterize the extension, as the Forum presently sees it: the impacting social relation between the university and the sectors of the society; the bilateralism; the interdiseiplinary and the teaching-research-extension indissociability. It states, at the fend, @ thesis that these matters must be in harmony with the developing and managing systems for extension. ‘Keywords: university extension ‘Resumen: el articulo'presenta el conceplo actual de extensién universitaria, definido por el Forum de Pro-Rectores 4e Extensin de las Universidades Piblicas Brasileras, y analiza las demas visiones de extensién, como la asistencalista y Ia prestadora de servicios, Aborda cuestiones que caracterizan la extensién, como hoy es entendida por el Forum: la ‘elacin social de impacto entre Universidad y otros sectores de la sociedad; Ia bilateratidad; la interdisciplinaridad; la indisociabilidad ensefianzs-investigacién-extensién, Defiende, al concluir, la tesis de que tales gestiones deben estar en sincronia con los sistemas de desenvolvimiento y de gestion de extensi6n. Palabras claves exenein universitaria =a wn da rads Fava ru rah OF) Petia oR ri Ra Era ares ie do rts sO Est expresso no Plano Nacional de Extensio (1999) ‘omarco conceitual de que a “extensdo universitéria &0 processo educativo, cultural e cientifico que articula 0 ensino e a pesquisa de forma indissociavel e viabiliza @ relagdo transformadora entre a Universidade e a Soci- ‘edade”. Esse conceito tem sido apresentado pelo con- junto dos dirigentes da extensdo universitéria brasilei- ra.como uma referéncia que, mais do que um conceito acebado, deve ser entendida em um movimento de te- flexio ere-claboracio, face a questionamentos e novas concepgdes que apontam e reforgam caminhos € a en- tendimentos ainda correntes na sociedade, vistos como percepgdes a serem superadas. Colocada a questo do “equivoco da extensio”—no qual a extensio s6 teria razio de permanecer na pre- senga de uma pesquisa alienada e de um ensinoalienante, reafirmada a prescrigo constitucional da indissociabilidade ensino-pesquisa-extenslo, entendida a missdo social da universidade na sua integralidade institucional e considerada a necesséria superacao de uma presenga elitista ¢ hegeménica da universidade, resguardada em seus muras e “torres de marfim’, tal- vez se possa dizer hoje que a extensio universitiria é 0 processo educativo, cultural e ciertifico que, articula- da com o ensino e a pesquisa de forma indissociével, amplia a relagio transformadora entre a universidade e (0s outros setores da sociedade, Entre as pervepedes a serem rediscutidas e supera- das estéa visio da extenso como “repassadora a soci- edade do conhecimento gerado na universidade”, ou ‘como, de certa forma, “o setor que responde por uma pritica social”, dirigida a éreas marginais da socieda- de, fazendo cumprir a “responsabilidade social da uni- versidade”, visdes das quais nascem as relagdes unidirecionais, apratica assistencialistae até uma certa filantropia académica, ou mesmo a visio da extensio como a vitrine ea validagdo social da universidade. Mais recentemente ¢ incluida no debate a questio da prestagio de servigos, especialmente na articulago com 0s setores de inovagao tecnolégica e os de gestio do desenvolvimento do setor prodtutivo, bem como na ofer- ta de cursos pagos. Se vinculadas a uma extensio es- sencialmente captadora de recursos extras para ani versidade, possivelmente reforgada por baixas condi- Ges salariais e de aportes orgamentirios restritos, Conflita com a concepgao da extensio, ¢ da universida- de, compromissada com os mais prementes problemas ‘mundiais, nacionais, regionais ¢ locas. Ao passo dessas discussbes, originaram-se de uma elaborago e aprovacao coletiva, coordenada pelo Forum de Pré-Reitores de Extensio das Universidades Pablicas Brasileras, trés publicagdes bdsicas: Plano ‘Nacional de Extensio Universitaria, Sistema de Dados ¢ Informages da Extensfo e Avaliago Nacional da ‘Exensio univers, poten nsthucons! eines socal | 18 Extensfo. Mesmo com atualizagées que vio se toman- donecessirias, slo documentos bisicoseessenciais para a extensio universtiria brasileira, enquanto constru- io conceitual ¢ instrumentalizacao da agao politica pactuada no Forum de Pré-Reitores. Seja na vertente da institucionalizagao da extensio ou na relagdo de {impacto com os outros setores da sociedade, essas pu- blicagdes norteiam diretrizes que permitem, em cada universidade, formalizar uma politica de extensio nos ‘ordenamentos juridicos ¢regimentaise nos instrumen- tos institucionais de gestdo. Da mesma forma, sistema tizam as agdes de extensio, colocando a organizagio administrativa a servigo da indugGo ¢ implementagio de uma politica institucional Como um conjunto — que deve ser de conhecime to e de referéncia para todos que lidam com a exten- io, desde participantes dos projetos, coordenadores, ‘gestores intermediarios e equipe das pré-reitorias — 0 ‘marco "conceito da extensio” se complementa com “diretrizes” que podem ser agrupadas, didaticamente, cem quatro prospectivas segundo as quais toda e qual- quer agdio de extensio deve ser orientada: a relagdo so- cial de impacto, abilateralidade, a interdisciplinaridade ©. indissociabilidade ensino-pesquisa-extensio. A relag&o social de impacto entre universidade © ‘outros setores da sociedade deve ser, antes de qualquer ‘outra intengao, transformadora, ou seja, instrumento dde mdanca em busca de melhoria da qualidade de vide. ‘A atuagdo havera de ser deliberada, voltada para os interesses e necessidades da maioria da populagao, ali- ada a movimentos sociais de superacio de desigualda- des ¢ exclusio ¢ implementadora do desenvolvimento regional e de politicas publicas. A bilateralidade deve ser uma das caracteristicas da relago com os outros setores da sociedade, em que a universidade ha de construir uma associagio no hegeménica (mas de interagdo com grupos sociais), bidirecional (de mio-dupla, de troca de saberes — po- pular e académico), aplicando metodologias participativas e favorecendo, como conseqiénci democratizagio do conhecimento, a participacio efeti- va da comunidade na atuagdo da universidade e uma produgdo resultante do confronto com a realidade. A interdisciplinaridade pode ser caracterizada como interacéo de modelos e conceitos complementa- res, de material analitico ¢ de metodologias, buscando uma consisténcia teérica e operacional que estruture o trabalho dos atores do processo de extensio. Frente complexidade e dimensdo das questdes a serem abor- dadas, a interdisciplinaridade se impde como diretriz bisica desse processo. A pratica dessa interdisciplinaridade e da interago com outros setores sociais conduz a interprofissionalidade © & interinstitucionalidade. E, ainda, a uma das mais difi- Fe Brae, Extonafo Univarstara, vt, n:, . 12-15, dee 2008 14 | commer cs ceis questdes que a pritica coloca no dia a dia, o desen- volvimento das relagSes interpessoais. Assim, a interaao de modelos, conceitos, materiais ¢ metodologias & construida na interagao e inter-relagao de instituigdes, profissionais e pessoas. A Indissociabilidade ensino-pesquisa-extensio reafirma a extensio como processo académico ¢ Ihe justifica oadjetivo universitaria: a principio, nenhuma gio de extensio pode estar desvineulada do processo de formagdo © da geragéo de conhecimento. A participacio do aluno nas atividades de extensfo serd mandatora, parte essencial de sua formagao técnica e cidadi. Da mesma forma, so indissociveis da extensio a investigagao € a difusio de novos conhecimentos © 0 arvango conceitua Em relagdo ao ensino, a extensio pode trazer uma rica experiéneia acumulada: 0 deslocamento do eixo pedagégico classico professor-aluno para o eixo alu- ‘no-comunidade, com um novo conceito de sala de aula; com a-atuacio do professor como co-participante, orientador, educador, tutor, pedagogo; com a ampli- ‘agdo do conceito de educador - por atuar em rede so- cial - para o de uma rede de educadores. Na gestio do processo educacional, # extensio pode ainda dar valor relativo a normas como earga horéria, grade curricular, controle académico, verifleaglo de fieqiéncia ¢ de ren- dimento escolar, avaliagdo formal por provas e trabalhos escolares, por valorizar mais os processos quaitativos tomaraavaliaeio como processo prospectivo eformativo. Aspecto fundamental a ser inovado e desenvolvido & aabertura dos projetos e agées de extensio i participagao de um numero grande de estudantes em um processo de flexibilizagdo na formago académica, com a devida integralizagio de créditos curriculares. Para tanto, toma-se necesséria a implementagdo de um plano didatico-pedagdgico em cada programa ou projeto de extensio, contemplando, entre outros aspectos, oestudo de bibliografia minima, a orientagdo docente € a avaliagdo. Processos de avaliagao objetives, como elaboragdo de instrumentos didéticos, preparagio de monografias, textos, artigos e comunicagdes deverio ser atividades-meio no processo formativo ¢ de cconstrugio da critica e da meméria das ages. Processos de avaliagio subjetivos, baseados no interesse, assiduidade, dedicagio, ética, auto-avaliagio, desenvolvimento de potencialidades de lideranga - especialmente dos alunos-monitores - deverio ser didaticamente desenvolvidos. A avaliago académica deverd também estar articulada ao cumprimento de ‘objetivos do programa ou projeto ea avaliagao externa. Desse processo é parte essencial, em um sistema de avaliagdo permanente, a avaliagao externa, na qual se inclui o controle social fev. 8135, Eatensto Univeral, . 1,2 1. 1246, hbtee 2008, Ernrelagio i pesquisa, especial atengo deve ser dada 4 produgio do conhecimento na inter-elagio universi- dade-comunidade, com aplicagio de metodologias participativas, e &criaeo de processos e instrumentos, inovadores e repliciveis, que instrumentalizem avan- 0s nas praticas sovais,culturais e teenologicas. A di- fusdo do conhecimento gerado deveré creditar eica- ‘mente todos os envolvidos, inclusive os participantes externos & universidade. ‘Uma atuagio de impacto ¢ transformadora da uni- versidade demanda que a abordagem dos problemas da comunidade seja feita segundo uma visio abrangente da realidade social na qual esté inserida, relacionando a particularidade desses problemas & complexidade das relagBes socio-econémicas ¢ politicas. Ademais, no deve ser substitutiva a responsabilidade de ago dos gestores de politicas piiblicas e das organizagdes soci ais, mas parceira e contratual. Possivelmente a extensdo deve superar a cultura de projetos pontuais e desarticulados, no vinculados a programas e de pequena contrbuigdo conceitual ou de ppouca contribuigdo &transformaca0 e &inclusto social. Do ponto de vista da atuagio deliberada e planejada, deve atuar segundo linhas programéticas estratégias, representadas por programas de extensio que nucleiem projetos e outras agdes (cursos, eventos, prestagio de servigos,elaboragdo e difusio de produtos), segundo a