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GANIZAGRO Antonio Arnoni Prado SERGIO BUARQUE DE HoLANDA O Espirito e a Letra Estudos de Critica Literaria I 1920-1947 ComPaNHtA Das LETRAS ORIGINALIDADE LITERARIA' Aemancipagao intelectual nao é, nem podia ser, um coro- io fatal dajemancipagao politica, Esta é um fator secundario, se to, na evolugdo do espirito de um povo. Mistral? com a sua a admirdvel na literatura provencal, demonstrou, a saciedade, a independéncia intelectual de um povo nao requer a eman- fio politica. O sr. F. Garcia Calderén}! considerado hoje, e justia, um dos mais notiveis pensadores e criticos da Amé- ‘a Espanhola, estuda, num ensaio publicado recentemente no (1) Este € 0 primeiro artigo escrito por Sérgio Buarque de Holanda e foi levado por seu pai a Affonso d’Escragnole Taunay, que 0 publicou no Correia ano. Sérgio tinha dezoito anos. Cf. Francisco de Assis Barbosa. “Verdes de Sérgio Buarque de Holanda” in Sérgio Buarque de Holanda — Vida e a, op. cit, p. 30. (2) Sérgio refere-se a Frédéric Mistral (1830-1914), escritor ¢ poeta francés de lingua provengal, autor de vasto trabalho lingiifstico-etnogréfico em que se i 0 Trésor du félibrige, dicionsio francés-provengal, de 1878, ¢ obras literdrias Calenda (1867), Les iles d’or (1876), coletinea de todos os poemas escritos de a juventude, Nerte (1894) e Les olivales (1912). Depois de sua morte apare- am as composigdes em prosa com o nome de Prose d’almanach (1926-27). (3) O autor indicado ¢ Francisco Garcia Calderon (1883-1953), oer e o peruano, que militou em favor do retor ina, opondo-se ao idedrio conservador da primeira geragio modernista. Paris, marcou no entanto sua presenca em defesa das origens ¢ do passado indigena como referéncia fundamental as artes. & cultura e & vida politica de seu * pais. Além de Idéas y impresiones, deixou El Peri contempordneo (1907), Las ‘racias en Latino-América (1912) e La creacion de un continente (1913). 35 volume intitulado Idéas y impresiones, a originalidade literaria da América, historiando detalhadamente todos os fatores que tém contribuido e ainda podem contribuir para a completa emanci- pagio espiritual do Novo Mundo, e, em especial, na porgao onde domina a lingua de Cervantes. O primeiro, 0 mais remoto fator da originalidade literdria, apareceu na América com a contemplagio, por parte dos euro- peus conquistadores, de uma nova flora mais grandiosa e magni- fica do que a que os cercara no ambiente primitivo; de uma fauna, sob todos os aspectos, mais rica e interessante que a européia e, principalmente, de nagGes selvagens desconhecidas até entao para eles, de costumes, tradig6es, idéias e crengas diversas das suas. Era natural que a impressdio causada pela observacao dessa natureza onfmoda convelisse as manifestag6es intelectuais dos conquistadores, dos moldes consuetudinérios. Os primeiros resultados dessa tendéncia produziram-se nos lugares onde 0 embate entre conquistadores e aborigines se deu com maior violéncia ou onde 0 estado de adiantamento e cultura social destes era relativamente elevado. Seus frutos principais foram a Araucana, de Ercila, e a Rus- ticatio mexicana, do padre Landivar.' Nesses poemas ha claros vestigios de americanismo, ha, diz Garcia Calderén, descrigdes, evocagées, assombro lirico ante 0 novo mundo descoberto. Eram, entretanto, produtos de um esforgo ingente da raga conquistado- ra. O/americanismo nao passou dai. ° (4) Sérgio refere-se a dois poemas épicos que tematizaram em enquadra- ‘mentos opostos a realidade latino-americana, O primeiro, Araucana, em 37 can- tos, foi escrito em 1569 pelo poeta espanhol Alonso Ercila y Zufiiga (1533-1596), pajem do infante d, Filipe, filho de Carlos v, que acompanhou a expedigao que 0 soberano enviou ao Chile, sob 0 comando de Aldrete, para estancar a ago dos araucanos sublevados, tendo um papel destacado na campanha. O poema inspi- ra-se nos sucessos da batalha, com largo excurso para a natureza virgem, mere- cendo de Cervantes o registro de que Ercila foi o primeiro poeta herdico a honrar a patria. O segundo poema referido por Sérgio, Rusticatio mexicana, de 1871, 6 obra do padre jesuita guatemalteco Rafael Landivar (1731-1793), conhecido como © “Virgilio americano”, e foi composto em quinze cantos em hexametros latinos, tendo por tema o sentimento nativista € a exaltagdo da natureza e da vida livre no campo, 36 Os poetas que se sucederam nao trataram de conservar essa tendéncia. Em vao, observa o critico peruano, em vao procurareis em suas obras o sentimento da natureza. “Os poetas imitam, em vez de descrever, 0 vasto cendrio que os rodeia. Raga/individualista, a espanhola, aventureira,e lutadora, ndo quer églogas nem aspira a confundir-se com a terra prédiga, num delirio pantefsta.”* Isso na América espanhola. No Brasil, o espetaculo divergiu bastante. O povo portugués, menos idealista e, se quiserem, mais priti- co que 0 espanhol, ndo teve uma impressao tao sutil da natureza do Novo Mundo como aquele. Além disso, as tribos selvagens e erradias que aqui habitavam nao podiam inspirar, aos domi- nadores, em geral incultos e rudes, sendo desprezo e Gdio. Por isso, afora as narragGes dridas e ingénuas dos cronistas, nao tive- mos nenhum poema ou epopéia dignos desse nome. Nem assunto havia para tal. A prosopopéia, de Bento Teixeira, é uma obra de pouco valor, além de iniciar 0 pensamento brasileiro em assuntos literdrios. Os primeiros poemas que merecem, com justiga, esse nome apareceram muito mais tarde, e sua origem devemos nds a fatores muito diversos dos que na América Espanhola produzi- ram a Araucana. Aqui, foi essa concepgo errénea do patriotismo a que os franceses denominam chauvinism, a sua causa princi pal. Rocha Pita, no seu estilo ruidoso, impregnado das locugdes |gongéricas tio apreciadas pelos escritos coetineos, dizia em 1724 “que a “Portuguesa América, na produgao de engenhosos filhos, podia competir com a Italia e Grécia”.® (5) Para Garcia-Calderén, na América espanhola, submissao intelectual ¢ autonomia republicana no se exclufam, mudando apenas a rota das influéncias, primeiro com matriz na Espanha e depois com a contaminacao dos modelos franceses. Mesmo assim, segundo ele, embora adotando com grande atraso 0 fi- gurino literdrio das escolas francesas, a tendéncia a partir do romantismo foi har- izar a diversidade das imitagdes numa espécie de espelho comum de que resultaria a nossa originalidade literdria. “La littérature du nouveau continent”, — diz ele — “envahie aujourd"hui par les idées et par les livres, suit une route paralléle a celles que suivent les littératures frangaise et espagnole. Toute nou- veauté y accede: de la diversité des imitations doit bientdt naitre l'originalité definitive.” Ver “La littérature des démocraties nouvelles” in Les démocraties latines de l’Amérique. Paris, Flammarion (1920), p. 227. (6) Esta passagem da obra de Rocha Pita, referida por Sérgio, encontra-se 37 Essas idéias desconchavadas foram se infiltrando de tal forma no espirito do povo que os/primeiros frutos da nossa literatura nada mais eram que um elogio burlesco e exagerado as nossas riquezas naturais. José Basilio da Gama e Santa Rita Durao foram os iniciadores dessa tendéncia americanizante da n Por isso, ocuparam po ‘a literatura. ‘igo primacial na chamada Escola Mineira. apes principal nos poemas dos dois classicos nao era panegiricar as nossas belezas naturais, que sé tiveram algumas poucas referéncias principalmente de Durao, mas, sim, 0 sel- vagem, @ hon homem a Americano, que os conquistadores encontraram nas terras descobertas. Raz6es de sobra tinha Goethe para afirmar que o homem é sempre © assunto mais interessante para o homem. Aquela tendéncia é que recebeu © nome de indianismo e representa 0 primeiro tentamen feito entre nds para a criagdo de uma literatura nacional. A/primeira fase do indianismo, no Brasil, nao passou de Basilio da Gama e Durio. Sem embargo dos louvores que mereceram dos mais nota- veis escritores portugueses, entre eles Garrett e Castilho, a pouca cultura literdria dos nossos compatriotas obliterou por completo os dois poemas. Por amor da justiga nao se deve negar, entretan- to, que em parte mereceram o olvido a que os votaram os nossos. antepassados. Em primeiro lugar, a lembranga de dotar-nos de um poema épico é infeliz, tanto sob o ponto de vista histérico, como lite- rario. Silvio Romero qualifica-a de infantilidade. A propésito do poema de Domingos Magalhaes, A confederagdo dos Tamoios, iz 0 maior historiador da nossa literatura que a auséncia de mitos, heréis populares e tradigdes nos impedia de possuir, defini- na Histdria da América Portuguesa desde 0 ano de mil ¢ quinhentos de seu descobrimento, até 0 de mil setecentos e vinte ¢ quatro. Lisboa, Oficina Joseph Antonio da Silva, 1730, Livro x, 112, em cuja pagina 655 podemos ler: “A nossa América Portuguesa (¢ principalmente a Provincia da Bahia), que na producao de engenhosos filhos pode competir com Itdlia e Grécia, no se achava com as Academias, introduzidas em todas as Reptiblicas bem ordenadas, para apartarem jade juvenil do écio contrario das virtudes, e origem de todos os vicios, e apu- rarem a sutileza dos engenhos” 38 tivamente, feigdes épicas. Como quase todas as produgGes india- nistas de nossa literatura; 0 Caramuru e 0 Uraguai pecam pela inexatidaio com que sio pintados|os caracteres étnicos de nossos selvagens e, principalmente, pela adulteragao com que sao pinta- dos fatos histéricos. O proprio Yarnhagen, notavel pela facilidade com que dé como exatos acontecimentos que repugnam a qual- quer pessoa de certo senso acreditar, é 0 primeiro a confessar a Verossimithanga da pretendida viagem de Caramuru a Franga, a qual sugeritvas mais belas paginas ao poema de Duro.” Gongalves Dias, com a publicagao dos Primeiros cantos, em 1846, inicia, no Brasil, a segunda fase do americanismo com 0 romantismo indianista considerado por José Verissimo|o tinico _ movimento literario aqui havido que pode merecer 0 nome de escola. E isto porque, apesar de sua clara importagio estrangeira € imitagio exdtica, € 0 nico em que pusemos algo de nosso, nesse caso, diz ele, 0 nosso indianismo. Gongalves Dias é, na opiniao de Garcia Calderén,' “o inicia- dor de uma literatura americana”. Anos mais tarde, Domingos José Gongalves de Magalhies publica a sua Confederagao dos Tamoios. Quando, porém, o indianismo atingiu o seu apogeu, no Brasil, foi justamente com José de Alencar. Acusa-se, largamente, este autor de ter imitado a Cooper e Chateaubriand, principalmente ao primeiro. Basta, entretanto, um ligeiro confronto da obra do escritor norte-americano com a de Alencar e saltam logo aos olhos as diférengas de assunto e de estilo. Os romances deste tiltimo, € ele préprio quem o diz, assemelham-se tanto aos de Cooper como as varzeas do Ceara as margens do Delaware. Ajobra do grande escritor.cearense €, pois, \original b nisso est4 seu maior mérito. Se Chateaubriand e Cooper (1) Ver de Francisco Adolfo Varnhagen. O Caramuru perante a historia Revista do Instituto Hist6rico do Rio de Janeiro, abril-maio-junho de 1848, vol. X, pp. 129 ss. (8) “Au Méxique, Espronceda et Lamartine inspirent Fernando Calderén et Ignacio Rodriguez; Zorilla trouve un disciple en Manuel Flores, le poéte de la sensualité ardente et de la nature sauvage. Le Brésil, aussi fécond en romantiques que Cuba, eut Gongalves Dias qui chante la tristesse et la nostalgie qu'exprime si bien ce mot de sa langue, ‘saudades’, la douleur, la délivrance par ta science, la consolation par les larmes.” La littérature des démocraties nouvelles, cit., p. 232. 39 nao houvessem existido, diz ele, 0 romance americano havia de aparecer a seu tempo. Como representagao étnica, o indianismo, tal qual existiu no Brasil, merece, em parte, as objurgatérias dirigidas por Silvio Romero ao poema de Domingos de Magalhies. E falso e é incom- pleto. “Falso, porque é inexata a pintura dos caracteres selvagens, incompleto, porque falta o elemento negro.”* Os tipos indigenas pintados por Magalhaes, diz o maior historiador da nossa literatu- ra, “sdo portugueses de classe média com cores selvagens”. E diversa a descrig&o que do selvagem brasileiro fizeram Alencar e Gongalves Dias. Contudo, por esse motivo, nao estao livres de censura. Intentaram poetizar uma raga cuja vida nao tem poesia, exagerando sobremodo suas qualidades e atenuando seus defeitos. ___ O propésito é sentimentalista e, qui¢, patridtico, porém fal- so, José Verissimo considera-o erréneo na inspiragdo, porém “fecundo no estimulo literfrio de nos dar uma ancianidade heréica e gloriosa no nosso préprio torrao, exaltar o indio e fazer-nos adoté-lo como nosso antepassado. Por isso, os primeiros frutos do nosso\Romantismo, pela feigio nista que tomaram, cons- titufram na opinido do notavel critico “o mais importante momen- to da nossa literatura”." © seu grande merecimento foi 0 cardter americano, foi a inspiragio nacional, que o distinguiram, E mais, © ter produzido uma escola, 0 que nao fizeram o indianismo de Cooper e 0 de Chateaubriand, nos paises onde medraram. O (9) Estas passagens citadas por Sérgio Buarque de Holanda estio no capi- tulo 2 da Historia da literatura brasileira, As objurgatérias indicadas por Sérgio aparecem nos seguintes comentirios de Silvio Romero sobre o poema A confe- deragato dos Tamoios, de Magalhies: “O episédio é bem escolhido, por ser um fato histérico, por colocar frente frente os conquistadores e os vencidos, por ser 0 momento da fundagdo do Rio de Janeiro, a grande cidade da América do Sul, e por trazer & cena a figura simpdtica do padre Anchieta, Mas que prosais- mo! que falta de vida! que situagdes falsas! E um grande cartapécio em dez can- tos em versos brancos, num estilo bronco e duro que raro methora. Poucos teriio ‘a paciéncia de levar-Ihe a leitura ao fim”. Cf. Silvio Romero. Histéria da litera- tura brasileira, 2 ed., Rio de Janeiro, H. Garnier Livreiro Editor (1902), tomo 1, p.23. (10) José Verissimo discute esta questdo em sua Histéria da literatura brasileira, ed. de Lisboa, Tipografia da Tlustragio, 1929, pp. 209 ss. 40 proprio Silvio Romero, a despeito das contumélias que freqiien- femente dirigia ao indianismo, nao deixou de afirmar ter sido util portuguesa era, para ele, inestimavel. A existéncia, entao,em Por- tugal, da famosa iriade romantica) dos Garrett, )Herculario ic astilho teria levado fatalmente os nossos escfitores-a imitar 0 romantismo lusitano, se 0 indianismo nao os tivesse levado a yeredas mais amplas e mais nacionai: Os trés corifeus lusos, como diz 0 autor da Histéria da lite- ratura brasileira, nunca tiveram admiradores ¢ imitadores entre nds, porque os talentos nacionais| embebidos na contemplagao da natureza € da vida americana, assim como nas belezas da literatu- ra fa européia, nao desceram até imitd-los. Por isso é justo que José Yerissimo qualificasse 0 nosso Romantismo de “o momento mais importante da nossa literatura”. “Para atingirmos a originalidade,| devemos, pois, nao esque- cer a obra do indianismo no Brasil. Sua restauragao hoje seria insensata ¢ estulta, mas a inspiragZo em assuntos nacionais nos varia a idénticos resultados por veredas mais suaves. A nacionalidade de uma literatura, como diz o autor das Provocagées a debates, nao € uma cousa para ser feita com as regrinhas de um programa. Nao hé quem deixe de apoiar Silvio Romero quando este declara que 0 nacionalismo ‘nado é uma questao exterior, é um/fato psicolégico, inte RE umn gusstie \\de idéias, € uma formagao demorada e gradual dos sentimentos. Ninguém deve, todavia, tomar ao pé da letra essas palavras. O pessimismo do autor da Histéria da literatura brasileira consumagio espiritual de uma nacionalidade. O Brasil ha de ter uma literatura nacional,\hd de atingir, mais cedo ou mais tarde, a originalidade literaria. A inspiragiéo em Assuntos nacionais, 0 respeito das nossas tradigdes ¢ a submissao As vozes profundas da raga /acelerarao esse resultado final.'" 2 de abril de 1920. (11) Publicado no jornal Correio Paulistano (sp): 41 {nossa literatura. A vantagem de/ter-nos afastado da imitagao \ impede-o de acreditar que 0 esforgo de um povo pode apressar a » ARIEL* digno de nota que quando uma/nagao/ atrafda pela grandeza ou pelos progressos de outra pertencente al raga\diversa da sua, é levada a imitar sem peias seus tragos caracteristicos € hacionais, procura especialmente as qualidades nocivas e as menos compativeis com a sua indole. Assim deu-se na Grécia quando ali penetraram os costumes orientais, assim deu-se em Roma quando esta foi conquistada pela cultura helénica e tem-se dado em todos os paises que pre- ferem perder seus caracteres nacionais/a deixar de importar cos- tumeS exdticos, Assim estd se dando em toda a América Latina com relagio a cultura dos Estados Unidos, No Brasil, 0 habito de macaquear tudo quanto é estrangeiro é, pode-se dizer, 0 tinico que nao tomamos de nenhuma outra/nagao. E, pois, 0 tinico trago ~ caracteristico que j4 se pode perceber nessa sociedade em for- magao que se chama: o/povo brasileiro} Arraigou-se de tal forma esse habito em ni s patrici que “lS 94 antes de expirar entre nés o regime ao qual devemos setenta, anos de prospet le, os propagandistas davam como principal razao a favor do novo regime, a da excec¢Ao na América! En- tretanto, ajnagid que, pelos seus progressos, conseguiu atrair melhor as;simpatias do governo e do povo brasileiro \foi justa- mente a menos digna de no: impatias, a mais impropria para (1) Publicado na Revista do Brasil (sp), v (53), vol. xiv: 85-7, maio de 1920. 42 ser imitada; foi a repiiblica dos Estados Unidos. Foi essa simpa- tia, e conseqiientemente essa imitagao, que criou em nés uma atragao infrene pelo /utilitarismo yankee! Um outro fator que influiu sobremodo para o desenvolvimento do utilitarismo no [povo brasileira e dessa nossa tendéncia natural para imitar tudo que é estrangeiro, foi a importagio do regime republicano, A’! ou despercebida a superioridade da monarquia ‘de uma facionalidade, A Suica depende intelectualmente da Alemanha como os Estados Unidos da Inglaterra, Notara o grande fildsofo germani- co que a seus patricios aparecem aquelas reptiblicas, dotadas de um realismo grosseiro, de um empirismo frio e prosaico e que, ao serem eles transportados a seu solo, falta-lhes essa atmosfera deli- cada que haviam respirado em sua patria. Nos Estados Unidos, — ha, além do mais, um ar infecto de corrupgao que exala das clas ses que governam, dificil de ser encontrado na Europa. O!utili- 06 io de ganhar dinheiro, a auri sacra fames, conquistaram os norte-americanos em detrimento do} fectual, da'moralidade politica\e da propria liberdade individual.) Isso deu azo a que Schopenhauer ys qualificasse de proletarios da humanidade. Seu cardter proprio, diz ele, é a vulgaridade sob todas as formas? /moral, intelectual, estética vulgaridade que se manifesta nado somente na vida privada mas também na vida publica, O autor de Die Welt als Wille atribuia essa vulgaridade em parte 4 Constituigao republicana dos Estados Unidos e, em parte, 4 sua origem, isto é, a terem sido no principio uma colénia penitencidria ou por possuirem por ascendentes, “homens que tinham razées para fugir da Europa”. _ Seja qual for a causa, o certo é que 0 utilitarismo| mais do que o de qualquer outro, j4 dominou o espirito do povo horte- (2) Referéncia ao escritor e dramaturgo alemao Emil Strauss (1866-1960) qe passou uma temporada como agricultor no Brasil, para retornar a Europa em. 1896, quando entdo decide se dedicar a literatura. Foi 0 criador do primeiro , “Schiilerroman” (Freund Hein, 1901) ¢ deixou intimeras pegas € romances, entre os quais se destacam: Don Pedro (1899), Hochzeit (1908), Der Schleier (1920) € Der Engelelwirt (1901). 43 nates * 6 \ragas opostas, sai, na melhor das ‘feliz. A atual ci americano. O nosso caminhow seguir deverd ser 0 mais conforme a nosso temperamento. (Nao possuimos a atividade, a disposigaio a certos trabalhos, de modo tao acentuado, como os habitantes das terras frias. a = 3 O utilitarismo yankeb nao se coaduna absolutamente com a indole do povo brasileiro)que nao tem semelhanga alguma com a do norte-americano da qual é 0 extremo oposto. A sua introdugao entre nés levar-nos-ia, naturalmente, a veredas diversas das que dirigiam os norte-americanos. E uma - ilusdo crer-se que adogao dele dar-nos-ia 0 vigor e a atividade na- turais nos yankees. Do contbio entre individuos pertencentes a ipdteses, o albino. Imagine-se 0 pandeménio que nasceria do entrelagamento de duas civilizagdes completamente diferentes. Tanto a reuniao entre individuos de racas diversas como entre civilizagdes opostas é sempre monstruo- Sa, OS seus produtos nao o podem ser menos. S6 0 desenvolvimen- to das qualidades naturais de um/povo pode torné-lo prdspero e zagio dos Estados Unidos é um exemplo disso. Os germens dou mo, ja os levaram consigo os passageiros do Mayflower e os colonizadores da Virginia. Desenvolveram-se naturakmente tornando-o numa qualidade inata e intri seca, na na- ¢ao, norte-americana. Ora, ‘ndo ha quem deixe de admirar 0 ex- traordinario poder de iniciativa, a consideravel atividade fisica, a incomparvel forga de organizaciio que caracterizam 0 povo norte- americano. Nao h4 quem, intimamente, deixe de admiré-lo, embo- Ta poucos sejam os que podem estim4-lo. No proprio Brasil ha homens que tém-se mostrado avessos & mania de americanizagao de tudo quanto é \nacional em des- proveito na nessa propria{ individualidade, Um deles, José Veris- izia, hd tempos: “Eu confesso, nao tenho pela desmarcada ima civilizagdo americana, sendo uma mediocre in- yeja. E, no fundo do meu coragio de brasileiro, alguma cousa ha que desdenha daquela nagao tio excessivamente pratica, tio emi- nentemente, perdoem-me a expresso, strug-forlista’”. Em outro lugar diz 0 notavel critico dos Estudos de literatu- 44 “Admiro grandemente aquele egrégio povo, mas nao o invejo , sobretudo — e isto para nés é o principal — nao creio aplica- vel utilmente ao Brasil quanto lhes fez o progresso admiravel nem quanto os desvanece a eles mesmos”.’ = Caso a civilizagao ) yankee fosse aplicdvel a nosso pais, 0 seu substractum, 0 que a torna grandiosa em sua patria, nunca apor- taria nas plagas brasileiras, porquanto de um povo nao se modifica tao facilmente a simples agao de agentes externos. Demais, as nossas Condigées climatéricas impediriam que iss desse. Quando muito seguirfamos a regra geral importando apenas. ‘as exterioridades que ela possui e que nao podia deixar de pos- ir dado o seu cardter enfatico e exagerado. Apenas serviria — Se isso significa servir — para fazer crescer as nossas desven- turas, parasitar esta civilizagao ja doentia e desidiosa, tirando- nos, mais, o{cardter de povo livre-moratmente,scardter que ja quase niio possuimos, e acelerar a formagio, de que no estamos longe, de um cadinho aberto aos defeitos de todos 08, povos, no qual s6 ficar defnacionala propriedade de saturar-se deles. O nosso desiderandum & 0 caminho que nos tragou a {hatureza, s6 ele nos fara prosperos e felizes, 86 ele nos dard um carater nacional \le que tanto carecemos. E 0 caminho que nos tragou a natureza é 0 que nos conduziré a Ariel, sempre mais nobre e mais digno do que Caliban. Ariel, 0 génio do at, em The tempest dé-Shakespeare, repre- senta a espiritualidade em contraposigao a Caliban, simbolo do ““ulilitarismo, e que além do mais é um savage and deformed slave. Ariel, diz(Clarin, no estudo publicado como Prélogo & mag- nifica obra do notdvel pensador uruguaio José Enrique Rodé, (3) Comentando o livro de Oliveira Lima Nos Estados Unidos — Impres- s6es politicas e sociais (1899), José Verissimd, malgrado apontar a discrimi- nado racial, a seu ver mais acentuada naquele pafs do que no Brasil, afirma cabalmente: “Estou convencido, como o sr. Oliveira Lima, que a civilizagao oci- dental $6 pode ser obra da raga branca) e que nenhuma civilizagdo se poderd Jevantar com povos mestigos”. Cf. José Verissimo: “O pais extraordinario’ Homens e cousas estrangeiras. Rio de Janeiro, Garnier (1902), pp. 183-201. 45 recentemente falecido, Ariel “ama a inteligéncia por si mesma, a \_beleza) ‘agraca dos puros - Eo velho e venerado mestre a que soiam chamar Prospero, por alusio ao sabio mago de A tempestade de Shakespeare, assim dizia 4 mocidade sul-americana prognosticando a vitdria, entre | nés, de Ariel sobre Caliban: “Costumo embriagar-me com 0 _ sonho do dia em que a realidade fara pensar, que a cordilheira que se ergue sobre 0 solo da América, foi talhada para ser 0 | pedestal definitivo desta estétua [a de Ariel], para ser a ara | imutivel de sua veneragao”.° (4) Leopoldo Alas (Clarfn). “Ariel” in Lunes del Imparcial, 23 abril de 1900. (5) Ver José Enrique Rods. Arie/. Montevidéu, Imprenta de Dornaleche y Reyes (1900), cap. 7, reproduzida na edigio da Biblioteca Ayacucho (prélogo de Carlos Real de Aztia, edigdo e cronologia de Angel Rama). Caracas, Grificas Armitano (1976), p. 55. 46 VARGAS VILA | Se ndo hd regra sem excegio, € das que melhor justificam 0 ditado. Certo, nunca 0 humo- o dos escritores ingleses vingara aqui ¢ com 0 vigo que Ihe da ‘a germanica] pois, como diz Taine, a palavra humouk & TAINS iduzivel para os povos latinos, pela simples razio de nao exis para eles essa coisa. Nao se diga porém que 0 humorismo seja ° patrim6nio dos escritores filhos das terras frias do norte da ropa ou da América e que aos latinos nao é dado cultiva-lo que moldado mais de conformidade com 0 seu gosto ou ntimento. Ques é errénea essa suposigdo, provam-no sobeja- , s pontos de vista, notdvel_bele- .' Neles se notam humour além de (1) Sérgio refere-se aqui ao colombiano José Maria Vargas Vila (1860- 33), escritor panfletario que resistiu A ditadura de Niifez ¢ teve de fugir para as por ocasido da Guerra Civil. Na Venezuela publicou seus primeiros tra- palhos, entre os quais a colegio de versos Pasionarias (1886). Expulso do pais em Zio de seus ideais libertérios, que defendeu a frente dos jornais La Federacién e Eco Andino, Vila segue em 1891 para Nova York, onde publica Copos de mma (1894) e fu ista Hispano America. Foi ainda c6nsul geral e mi- nistro do Equador em Roma, cidade para onde vai em 1898. Entre suas obras ” ncipais estiio Ibis (1889), Alba roja (1901), Ante los barbaros (1902), Laureles “rojos (1904), La republica romana (1908) ¢ La muerte del céndor (1914). 47 Gosey ‘ AS, cor ow) Assim, Vargas Vil la, apesar de latino-americano, conseguiu um lugar de destaque fora do torvelinho dos imitadores de toda a que foi um de seus maiores trunfos, pois contribuiu para o desen- volvimento de sua qualidade caracteristica, a originalidade) Este sainete inato nele resulta principalmente de sua maneira de pete I~ sar, completamente livre. Devido a sua forga de imaginacad, seus patricios nfo se contentaram em chamar-lhe de Hugo ameri- cano. Freqiientemente os admiradores, que os possui em c6pia, adicionam a seu nome 0 qualificativo enfatico de el divino. A despeito de algumas de suas qualidades serem mais comuns entre os escritores europeus que entre os do Novo Mundo, Vargas Vila é sob qualquer ponto de vista um Americano- Tatind e, mais do que isso, umfilho dos tropicos. Pode-se até dizer » que a feigdo européia de alguns de seus usos literarios nada mais *€ que uma hipertrofia de sua natureza de americano. De fato, 0 amor a liberdade é, nao se pode negar, um sentimento profunda- mente americano, ainda que as vezes mal compreendido. Vargas + 0%" Vila conheceu-o também, desenvolvendo-o mais tarde com 0 conhecimento das\modernas teorias libertérias| Daf 0 dio que se acostumou a nutrir por toda espécie de tirania e que fez com que se entregasse, desde ha quase trinta anos, a um exilio voluntario que concorreu bastante para aproximé-lo ainda mais daquelas (7) Cf. Ramé6n Palacio Viso. Prélogo a Pretéritas, de J. M. de Vargas Vila. V. de Bouret (1915). Mais tarde, apresentando a obra de Palacio Viso, Vargas Vila retribui, escrevendo uma espécie de parifrase laudatoria de seu livro de poemas Jardin lirico. A propésito deste livro, escreve Vargas Vila: “Abro el libro de un Poeta; armonias misteriosas y serenas melodias aqui vibran; como el arpa de David, ellas calman los delirios de la mente; ¢ iluminan con ternura tas penumbras dolorosas de ta vida”. Cf.Nargas Vila. “Ramén Palacio Viso” in De sus lises y de sus rosas. Barcelona, Ramén Sopena Editor (1921), p. 199. 50 jas. Diz, Bore’ que de cada mil pensadores existe apenas um ‘© exflio concorreu para que se descnvolvesse em (Vargas ofraro dom de pensar por si. Nao deixou de ser ridicularizado Como o so todos os originais. O sr. Gerardo de Matos Aviles, eseritor insonoro y amable, dizia em seu livro Del estilo y de la jdea, que “se Vargas Vila escrevesse em espanhol, seria o pri- ‘meiro escritor da América e ainda (sic) da Espanha”.’ Sem embar- dessa assergao irénica, o proprio sr. Aviles acha a prosa de Briss Vila de personalidade brilhante e tumultuosa. Essa ¢, alids, impressio de todos nés, ao lermos ao acaso qualquer escrito . Diz um escritor espanhol, citado por ele mesmo em seu livro ireles rojos, que ela é “contorsionada y luminosa como una ardiendo”, Outro afirmou ser ela “personal y sujestiva, tan ica y poética que lena sus frases con una eurritmia sana”. A impressdio que se sente ao ler os escritos de Vargas Vila é i mesma que ele préprio atribuiu aos de Carlyle. “Sentireis la resion de una mano que os estrangula para convencerlos, és de habernos abofeteado.”" Alias nao é essa a inica seme- a notavel entre o escritor colombiano e o autor dos Later- pamphlets. Existem, ao contrario, numerosas e pronunciadas. (8) Sérgio refere-se ao escritor e publicista alemao Ludwig Borne (1786- 137), fundador da revista Die Wange (1818-21), que se transferiu para Pari (0, convertendo-se numa espécie de porta- dog democratas alemaes no exilid, Seus Briefe aus Paris revelam o.engaja- eon {que o levou a opor-se 2 literatura oficial de seu tempo, af incluin- certo desprezo pela distincia olimpica do préprio —) que Borne Bestreve alinhado ao pa Defendeu sempre no trabalho do escritr a én im prio. de justica ede liberdade. (6) Fem abono de si mesmo que Vargas Vila menciona os elogios a ele “dirigidos por don Gerardo Matos Aviles, contrapondo-0s aos ataques dos “asnos ‘de alquiler” & sua obra “de escritor rebelde”. A passagem citada por Sérgio fetoma esse momento em que Vila diz ironicamente a seus leitores: “..a propdsi- to de un escritor insonoro y amable (que € ele mesmo, Vargas Vila]: don Gerardo Matos Aviles, en su libro Del Estilo y de la Idea concluye por asegurar que: ‘si Vargas Vila escribiera en espaiol, seria el primer escritor de América, y aun , (sic) de Espan Cf. “Para el Aurea mediocritas de Horacio” in Laureles tojos. cit., pp. 45-50. (10) Estas referéncias estiio em Laureles rojos, ¢ +p. 48. Sd Aili — A te a A A et MeN) A Outra feicao tropical de sua prosaé o entusiasmo que chega a transpor as raias do exagero. Até nesse ponto ha identidade entre os dois caracteres. Vargas Vila hao se rebuga em elevar as cumiadas um individuo, como nao tergiversa em chafurdé-lo no. lodo. Os elogios exagerados como as verrinas violentas sao fre- qiientes em seus escritos. Nao conhece meios-termos. Suas opinides sao sempre decisivas. alk ui Haja vista, por exemplo, o que nas suas|obras politicas\diz dos déspotas sul-americ nos, ou de alguns soberanos mais ou me: utos do Velho Mundo. Dentnedestes tiltimos, um dos mais alvejados foi o malogrado czar Nicolau,’ Assim o descreve: pequeiio, magro, de una palidez cerosa de idiotia, en que apenas parpadean dos ojos vagos, lagunares, de un verde turbio, de aguas muertas; una barba rubia de melaza, tenue, como adornando el mentén de un adolescente equivoco; una nariz mongolica, de fauces abiertas como de una bestia de presa. Los pomielos sa- lientes de animal carnicero; la boca, de una sensualidad feminil y brutal, al mismo tiempo; el cabello lacio e corto, algo erizado como una piel de chacal; lugubre y pueril; el especimen completo del degenerado de Lombroso." Por outro lado, é extraordindrio 0 modo por que louva seus admirados. Basta ler seu livro sobre Rubén Dario," que leva a alturas a que nunca autor algum colocou Homero ou Virgilio. De Zola, diz que confina, por um lado, com Homero, por outro com squilo. Carlyle, ao qual nio regateia elogios e a respeito de quem diz que desde Esquilo nenhuma voz soou tao alto, estupefica-lhe, todavia, pelo amor que dedica 4 forga, a ponto de fazé-lo dizer: “Carlyle que teve a paixaio da justiga, careceu da paixao da liber- dade”. — = ani — Odeia a todas as modalidades da forga, desde a dos atletas até a dos grandes guerreiros. Alexandre lhe parece um bruto béli- (1) Sérgio traduz aqui a impressionante descrigao do czar Nicolau que aparece em Laureles rojos, cit., p. 112. kt, (12) Sérgio refere-se ao ensaio de|Vargas Vila, Rubén Dario\ Madri, Edicién Vda. de Sanz Calleja (1917). = 52 ew al aii ML ar A A A co, em nada distinto do bucéfalo (palavras textuais). Jtilio César desperta-Ihe alguma admiragio, pela sua nobre intelectuali ~ 0 que nao o impede de reprovar o seu ato atravessando 0 Rubicon para assassinar a reptblica pompeana “ainda que esta fosse tao miserdvel e falsa como 0 chefe”. De Napoleao, a quem ele chama _ de “condottiere epilético”, nada admira, nem sequer o “imerecido de sua fortuna”."’ O édio a forga e também, conseguintemente, a tirania, éo-fundo de quase toda a sua obra, expresso na prosa enfatica de que ja falei, a qual, apesar disso, é incisiva, e toda ‘tociada de trocadilhos e metdforas de que 0 autor usa e até abusa. Os seus{arroubos de imaginag’o, quando ditados pelo sent de admiragio ou de ddio, atingem, nao raro, o/sublin InN} quero dizer, de romancista, n sta, poeta, Conteur, € mesmo, “na de fildsofo, que na de escritor politico ou de historiador. A”? icistica € a historia)sao, para ele, simples motivos para expan- = jOWe suas idéias em filosofia e estética A despeito disso, Vargas ja € 0 tipo do escritor combativo; em todas as suas obras se am resquicios de sua vida de combate. Se dele nao se pode ropriedade, que todas as suas obras sdo panfle- disse o autor de La philosophie de l'art, nio se pode negar que em todas elas ha um fim a atingir. Seus proprios romances e novelas, como os deZola) pugriam por um (13) No relato “Prosper Merimée — Sus eartas” (In De sus lises y de sus, as, cit.), Vargas Vila volta 2 carga contra Napoledo: “Merimée era un idedlo- como Napoledn era un idedfobo”. (14) Publicado no jornal Correio Paulistano (sp): 4 de junho de 1920. 53 VNR , Fir dll i LN DAVID Mind SANTOS CHOCANO . — - Pouco nos interessam, alnés brasileiros,\os assuntos ameri- cano-espanhdis. Nossos olhares, nossos pensamentos, nossos/go: -tosembicam quase sempre para o Velho Mundo, para a Europa, que em nossa alma de americanos notou Nabuco'os resquicios de nossa origem européia. —_ Os mais dados &s longas itineragdes preferem quase sempre, ao sentir a majestade imponente dos Andes ou a magnificéncia mirifica da selva amazOnica, 0 gozar da civilidade serena das ruas londrinas ou da apatia risonha de Paris. - Pouco se nos dé que Carranza seja assassinado ou que Herrera destrone a Estrada; entretanto, todos vibramos de emo¢gio e ansiedade, se o sr. Deschanei despenca de um vagao de estrada _ de ferro recebendo aj ies eves Contes) Isso tudo vem abonar as opinides de Joaquim Nabuco, que constituem uma das paginas mais brilhantes do Minha formagdao. Aqui nao é o lugar de discutir se essa preferéncia dada a Europa sera para nés uma vantagem ou se, mais tarde, teremos de nos escarmentar dela. Para mim, seja dito de passagem, tenho que, ao contrario do que » muita gente supde, 86 lucrarem os. A despeito dessa opinitio que creio fundada, releva dizer que muito tesouro desconhecido, mormente no terreno das letras, existe af, & matroca, pelos paises da América espanhola. Se a ameaga de 6 morte a um poeta, na mintiscula Guatemala, consegue emocionar Ks ee gavk? as esferas intelectuais brasileiras,, ha razio sobeja para se acredi- 54 H a tar que esse poeta merecia. B, de fato, Santos Chocano é um dos mais notdveis temperamentos artisticos\deste continente.' Tendo nascido em 1875 na cidade de Lima, possui ja grande cabedal de poesias, ainda que nao se tome em conta as que se publicaram antes de Alma América, conforme ele proprio pediu. Seu anelo é ser 0 poeta por exceléncia latino. icano)“Walt Whitman)possui o Norte, mas eu'possuo 0 Sul”, disse uma vez. fendo muitos pontos de Contato com Hu: 20) de quem é dis- -cipulo, sua poesia nunca atingiu a desmandos semelhantes aos a que chegaram entre nés os chamados condoreiros que, sem ‘embargo dos Prometeus, dos Andes, do Himalaia e dos condores, oduziram um Castro Alves e um Tobias Barreto. Ainda que suas imagens degenerem freq freqiientemente em gon; gorismo, ninguém, no dizer de Garefa Cal fa Calderéa, ninguém Supera a ele quando da ao inanimado uma vida estranha e magni- “Seu canto sonoro, elogiiente, harmonioso”, diz o notavel ritico, “evoca um mundo desmesurado e épico como a India de ling”. O caracteristico mais notdvel em suas poesias € a forg: na a atengao para tudo quanto é grandioso e forte, que excita dmiragio pelo tamanho e pela magnanimidade. Garcia Calderén definiu-o bem: é um poeta titinico.* Nao se deixa levar pelo lir ‘mo amoroso nem pelo sentimentalismo idealista.)De { nulherdy, (4\sosan! Z do muito, inspira-o a amazona belicosa e feroz, e de flores 's6-a magnélia enorme Ihe impressiona. Tetras e a vida politica is Améica Lai participando das revo- heiro or Cabrera e acabou preso e condenado & morte por ocasiio de sua queda, $6 se sal- or intervencio do Vaticano e do rei da Espanha, d: Afonso Xt Chocano, ¢ morreu apunhalado dentro de um trem, versejava em estilo grandilogtiente e sobretudo nos temas do mundo pré-colombiano da fase dat con- fuista, transfigurado em geral pelo colorido das imagens € 0 dos trépi- 35. Além de /ras santas (1895), Las irgen 16) € Alma América (1906), o entre suas principais obras La epopeya del moiro (1899), El canto del siglo 900), o drama de 1906 Los conquistadors ¢ a Interpretacion sumaria de los ‘pios de la Revolucin Mejicana (1914). i (2) Cf.[Ventura Garcia Calderon, Del Romanticismo al Modernismo: Prosistas y poetas peruanos. Paris, Ollendorff (s. d. 5S rc - (subir peto talento e pela cultura) — IMACS SNe SS E um desses poetas que nunca perdem a oportunidade. Se daqui a séculos existir ainda a lingua espanhola, sera lido e admi- rado. E um poeta imortal, [Governichos ineptos e vis\podem arrancar-Ihe a vida; nunca porém conseguirao impedir que seja chorado por todos quantos participam do} isentimenta do belo Seu assassinato, se porventura se consumar, sera olhado pela posteridade como um dos mais hediondos crimes que jamais praticou um governo e constituird uma mancha perene para a hago que o levar a cabo. 7 Jé Rubén Dario, esse poeta excessivamente|imbele, nao pode conter um grito de justa indi ignacdo ao ver a ) ver a mac conta em que geralmente sao tidos{na América Central tral fags que conseguem Polya es duro decir que en aquella tierra dpenas conocida por el canal y por el café, no hay, en absoluto, aite para las almas, vida “para-et espirit, En un ambiente de tiempo viejo, el ardor de un cielo tibio y perezoso, reina la murmuracién dulica; la aristocra- cia advenediza triunfa; el progreso material va a paso de tortuga, y los mejores|talentos, las mejores fuerzas escapan de la atmés- fera de plomo, 0 sucumben en los paraisos artificiales, 0 mueren en guerras de hermanos comiendo-se el corazén uno a otro por que sea presidente Juan o Pedro.’ (3) Ver a respeito Rubén Darfo. Prosa Politica (Las reptiblicas ameri- canas). Ed. das Obras Completas. Madi, Editorial Mundo Latino, vol. xm. Sobre (O ambiente inteleciualme: 4S = CYL UAE estagnadojem que se criou 0 poeta, ver também o volume xv da mesma série, Autobiografia. nae (4) Publicado na revista A Cigarra (sp), vit (138): junho de 1920. Ott S <> AUAAS 4 : For t TOL Avy Feo ethyl poke TALENTO (COLTURA <» \sherte ver: If 56 Aa AA ASA UM CENTENARIO Emt boa hora, teve a Academia Brasileira\a lembranga de iro fundador « do Fomance nacional, Obs: ida pelo O autor da\Moreninha\ como diz o sr. Clévis Bevilacqua, sua tenda 4 margem do caminho, donde assistiu, em ban- tumultuosos, a passagem das escolas e dos partidos que sremiaram seus confrades (patricios, O lindianismo, esse produto um nacionalismo @ outrance, * “espécie de por portugués pintado ‘mucu”, segundo disse Arthur Orlando} teve uma importantis- ‘sima fungdo a exercer na nossa historia literéria. Era naturalissi- mo que a obra do autor da Moreninha permanecesse incompreen- 5, ida. pore ela entretanto nao{exerceu influéncia notdvel) na 1 asileira € afirmagao que nao calha bem com a ra quando dizia que por menos ae no conceito rm ja o autor da Moreninha, “a STS hi (1) Ver Franklin Tavora. “mento”. Revista do Instituto Histérico e Geogrdfico e Etnografico Brasileiro. Rio de Janeiro, Tipografia Universal (1882), tomo XLy, parte 1, p. 512. Devo a ‘referéncia a indicagdo de Flora Sussekind. 57 curso recitado na sesso magna de encerra- prir um m sagrado dever com a comemoracao do centendrio do * dety ~~ Newent —¥ GRayeer « SOC epAyES ¥ LeTpaS WSTAAS t Jee patriag, nao menos foi a impressio que deixou no! espirito do povo. As suas obras foram por mais de meio século a leitura ‘a, das “sinhazinhas” melancélicas e roméanti- = decessoras das nossas muito conhecidas inte! “melindrosas" ”. Eo Macedinho, como familiarmente 6 chamavam 0s coevos, tornou-se o mais Tido de nossos romancistas. José de Alencar lembra 0 entusiasmo com que em'S n|Sio Paulo seus compaitheiros de “reptiblica” se referiam ao “{dolo querido” de todos eles. E se hoje esse entusiasmo arrefeceu nos nossos patricios, € que a obra de Macedo constitui o espelho de época | que jd nao existe nas grandes cidade onde se Ié, de uma socied: de que desapareceu, ou, antes, que se retirou para os arrabaldes afastados e para as povoagoes do’ interior\pnde, livre do contato ~ [com orestrangeiro, ela conserva seu carater Primitivo. “Nés nao + ponderava Tavora jus- tificando assim a estranheza que poderia causar aos pésteros 0 © nos transformamos, nés nos formamos”,” lirismo de Macedo e com tal felicidade, que sua frase ainda é oportuna e 0 sera por muito tempo. S6 é explicavel, pois, a crenga de que alguns de seus lances sao forgados, em quem nao adi essasy transmutagoes i inevitaveis de Sociedade brasileira) ine “Se os criticos que assim pensam, desejam ver a Moreninha, que supdem morta e soterrada”, dizia o sr. Carlos de Lact no céle- bre *Microcosmo”, por ocasiao do falecimento do romancista, “eu posso mostré-la aos incrédulos, viva, alegre, ignorante, mas ingénua e tal como nos pintou Macedo... Nem é preciso muito para operar o prodigio: basta tomarmos o trem e irmos galhar- “© damente, eu e a critica feroz, como bons amigos que somos, até _ qualquer fazenda de serra acima!”* Outro fator, parece incrivel, que contribuiu para que hoje nao se cite 0 nome de Macedo ao lado dos nossos maiores ro- mancistas € a/sua naturalidade), Escrevendo sobre a Moreninha, disse Dutra e Melo)que reinam em todo o romance, além daquela, a harmonia € 0 aban- dono. Quando os poetas da época ¢horavam daquele choro fingi-" (2) 1d., ibid., p. 9. (3) Ver Carlos de Laet. “Microcosmo”, if Jomal do Commercio, (ns): 12 de abril de 1882. S yo Utell ~ £ fe see eter batt tS do autor da Moreninha seja digne de uth povo| que sé se preze de nto os poetas ‘lastimavam-se sendo na realidade felizes e se traidos quando as amantes mais morriam por eles, 0 da Moreninha, obedecendo a um temperamento jovial & ¢ hipocrita de que falou Franklin Tavora, Macedo) sorria. Por isso mesmo foi admirado ¢ também por isso foi descre- Representou aqui, no que se refere a aceitagdo de suas esse romancista feito uma aposta com om Aurelia 0 Scholl crit itor fr ancés mais apreciado do] povo, O mesmo, creio, se daria aqui, a respeito do autor do Mogo Tal foi a gasfieoendidede] gue na sua [larga obrajacham-se s os géneros literérios,.e em cada um . Por isso tinha Franklin Tavora toda sido de seu trespat se, dizia que o roma “o drama, um de dos cultores, a poesia uma de suas inspiragoes, a hist6ria ja, uma das suas autoridades, como a politica perdera um Eunoe a famflia um esposo exemplar e um irmao capaz de Sé iio houvesse outros titulos a exibir para que o centendrio stres, bastaria a a gloria « Sdo Paulo, 12 de julho de 1920 Moreninha” in Minerva Brasiliense, (24): 746-51, (4) Dutra e Melo IS de outubro de 1844. (5) Paul Stapfer. Des réputations littéraires, Paris, v. 1, p. 249. (N. do A.) (6) Cf. Franklin Tavora, op, cit. p. 508. (7) Publicado na revista A Cigarra, vit (140): julho de 1920. 59 0 papel de Ponson du Terrail. Refere Paul Stapfer que \e\"AS*? evo LETRAS FLORIDAS E tao desacertado, diria quase paradoxal, falar-se na verv do autor de Espumas comovverbi gratid no estilo de(Stendhi Percorra-se a sua nova obra cujo titulo encima estas linhas € ver- se- 0 que de raziio vai nesse asserto. A nao ser em um ou outro «°® ponto, e af mesmo, aparece mais pela forga das circunstancias, raro se topa uma boutade humoristica. O que se nao pode negar é que o sr. Amadeu Amaral prosador se revela passivel da mesma _ » . justa popularidade de que goza o sr. Amadeu Amaral poeta. Assim _. da involuntariamente um quinai Taine infringindo a equilibrio orgénico:: Disse Fn nt , € com fundament« nos escritos dos que se acdstumaram a pronunciar freqiientes arrazoamentos, inevitaveis lances orat6rios surgem a Jaan Da mesma maneira pode-se afirmar que nos escritos em pros de “Poetas, ha tragos particulares que os ¢ denunciam c claramente. As “conferéncias que enfeixa agora em volume, e que pronunciou no sarau inaugural-dal Sociedade de Cultura Artistica de Sa0 Paulo como as que modestamente intitulou palestras, traem amitide o autor dé NévoalIsso, entretanto, no impede que seja um eximio prosador, o que demonstra de sobejo o largo e progressivo ¢ Se tirocinio de que se pode ufanar, na-carreira jornalfstica, malgrado r © que dele disse o sr. Alberto de Souz2h' © Ofemalsmoy compara 0 toe} cenes banhos dos quais Ss (1) Ver a respeito Alberto de Souza: Amadeu Amaral e suas obras. Si0 Paulo, Imparcial (1918). se Qaeyery vr OT. Haste 4 SF 60 netegrtayi Ger se sai lépido e mais Agil. E incontestavel que o habito nessa carreira favoreceu nele certas qualidades: coma reine ‘expresso. Um de seus mais estimaveis predicados é o saber ferir os primeiros imeiros perfodos o 0 assunto principal e dele se ocupar ris ¢ tediosas. Poe 5 floridas,\como ja disse, denuncia certas vezes 0 poeta mas. Um exemplo? Leia-se a palestra que intitulou “A ci- a za e que melhor se poderia chamar “O elogio da_ 1 po eta\que no seja SEE ampere .|soube OA. €e ‘com extraordindrio atilamento e habilidade, defender a cigarfa sem fazer ao mesmo tempo a ‘moralidade fe da fabula. Muitos dos « § que conhecem as obras poéticas do A. terdo naturalmente a, predilecio por ele votada 4S “arvores.)Se nao, abra . Seu tiltimo livro de poesias, e encontrara por toda parte mo entre as srvores da palmeira. Mas é 0 préprio sr. spent mais ou menos a autoriza, quando afirma que ape- pelas suas longas palinas: E nao s6 é em eka Ha Vévoa francos resquicios dessa predilegao do A. pelos eonidin ie peincipalients nessa Arvoreda ie, disse saudi recorda ligeiramente Sully Prudhomme) , a interessante conferéncia sobre drvores © poetas aparece das “Flores e espinhos da arte” e “Epigramas e madrigais”, s de sugestiva erudiglo, ‘sao. do-género das ainda célebres xesp ritoresclarecido ye culto)é na mundo ee na em que estuda a\litera- Sut cia sobre Rai MMA Hoy. % ANEIWyn> Ol creto”. “A literatura da escravidio” sdo piginas que encantam pe- la\erudigdo & comovem pela singeleza. Si paginas : ‘As palavras com que remata 0 epilogo Tembram as dé Joaquim ficou do escravismo. RABUGICES DE VELHO Basta lé-las para se compreender atJembranga intima\inex- / s sy tinguivel que ficou no poeta de Espuma e Névoa, daquele espet&- / A SE a ae * culo gue lou na retin; le os verdes anos, ho E natural que quem as passou nas mesmas condigoes que | ele, quem bebeu a largos sorvos o'vento do ideal, que rodopiava por tudo e | zunia ial palais Natale de todas as frinchas, e chorou, ¢ exultou, ¢ riu, ¢ sofret, no ¢ ressado dal mbate-desinteressado das 1déias} pela sorte de uns tantos%: janelos Se alguém se desse aqui no Brasil 0 trabalho de traduzir em 2 ene tenha de arrastar sempre pela vida, onde tais situagdes de de férma af charlas\que por ai se ouvem a roda nos bondes, exaltagdo generosas sao passageiras e raras, a melancolia funda de tornar-se-ia 0 mais satirico da época. Isso explica 0 exis- um desencanto secreto de alguém que despertou de um grande m pessoas de: muito: bom gosto ‘ujo melhor divertimento ¢ ir sonho, a iffemediavel jd dewtrradg-ae-0ma ' - ane DE nea" © O novo livro do sr. ee y No outro dia assist a uma dessas conversas ¢ que deveras | nado é s6 uma coleténea i i incas. E hoje moda. Um a¢ao, Ha também nele}exal- jeito gordanchudo, espécie de conselheiro Acacio, gesticulava _tagao patriotica rito de revolta contra 0 desanimo amente e pronunciava de momento a momento os vocdbu- enon? fristeza ique se_aj lamente de gran arte de soe exiSte quem de coragio deixe de apoiar 0 em sua 2 Saale “As promessas do miada riotas, E preciso terem todos aie de si que s6 esses \ poderaio acabar_ com os descobridores de falsas mazelas, que os existem que s6 assim se ee me seen ‘desdém de seus proprios filhos.’ de conferéne Palavra, que me compadeci da “indecéncia”, tanto que me ram ganas de me postar ao seu lado contra os que com tanto ezo a tratavam. Nao tive coragem. Também nao tive cora- uma ATG Sao Paulo, 22 de julho de 1920 Diogo Suarez, Sua e colocava-a (2) Cf. Amadeu Amaral. “A literatura da escravidio” in Letras floridas. : ha, dam Rio de Janeiro, Leite Ribeiro & Maurillo (1920), p. 150. (3) Publicado na revista A Cigarra, vu (141): agosto de 1920. 62 SSH aE tO ESPAIIISM ays eAyO I UY Hira MOFTA sy ed EAT QUEL A OLN PASE BA Ox wort -cr)}f I q evr a wy me ose val wt aie poet es ‘Estados Unidos. A principio sua influéncia foi timida. ener a ae surgindo os cake-walk, 0: 0s sil do EXTREMA GRANDII LuCTUs.occuPaT. De feito, quem folhear awNova floresta\do padre Bemardes econtraré © terrivel andtema contra os dangantes: Que 0 que baila ¢ danga tem parte de Joucd €\furioso> dizia ele, basta de vé-lo de fora para confess4-lo. Aqueles mesmos movi- mentos de corpo tao varios, tao ligeiros, tao violentos, tao afeta~ dos, esto indicando que 0 siso esti movido algum tanto do seu assento. Muito mais quando a pessoa solitéria decora as ligbes deste exercicio; porque estudar com grande aplicagao e cansago a ser louco, quem duvida que € maior loucura?! JA nos primeiros quartéis do século passado os pares que ensaiavam a valsa e a contradanga nos salées chics da Europa tinham contra si os apologistas do minueto, da gavota, da fardn- dula, da sarabanda, da pavana, da seguidilha e que sei eu?. Veio a a polea que tudo revolucionou, sepultou em breve a contradanga. ¢ trouxe consigo a mazurca, a schottish, a varsoviana € outras; foi ainda maior 0 berreiro dos antediluvia \Soou e “enfim para a danga, como para tudo, a hora dos a fazer invocagées na valsa e na quadrilha. Pouco a pouco foram cake-walk, ep @ Os fox-trot que coadjuvam. com sucesso 0 que chamd Stead amercanizagao do mundo.” E a gritaria subsiste, com maior vigor, or, talvez, do que nunca, 0 impagavel € que todos os\inimigos-da-danga, silo como 0 homenzinho do bonde, rugem, bramam contra ela, 0 que nio os impede de confessar o terem-na praticado na mocidade. Porque afinal por menos “indecentes” que fossem as dangas antigas, tinham, igualmente contra si, a casmurrice dos velhos rabugentos do tempo. — (1) Manuel Bernardes. A nova floresta, Porto, Livraria Chardron (1909), tomo 2, 1, p. 8. (2) Referéncia de Sérgio a Willia ‘homas Stead (1849- 1912), publicista inglés que morreu no naufrdgio do avi Titanic e que, além de ter dirigido até 1889 a Pall Mall Gazette, foi fundador da Review of Reviews (1891) e da Ame- rican Review of Reviews (1904) ¢ autor de obras como The United States of Europe (1899) ¢ Le parlement de l’humanité (1907). 64 0, ipemelhantes aos ascetas _ Se que tiveram sua época ‘os quais a despeita de todo seu idealismo renunciador am suculentos bifsteaks ou au berre d’anchoies, regando- om aromatico Bordéus e fazendo-os preceder dos classicos bouillon ou das verdes ostras de Maremne. ‘Silo todos desta estofa. Depois de luxar e pandegar a rega- chegados que foram a placidez acaciana observada por mim iro de banco, caem de unhas e dentes sobre os que nanecem no estado por que eles proprios passaram na . Ao menos deixassem em paz os coitados... Mas nao Sao Paulo, 10 de agosto de 1920. 3) Literato aventureiro catalio (1848-1919) que mesclou & sua obra tica iicerta € original o interesse pela ficeo, o teatro e «historiografia.y Littré um prologo para o seu livto La mort et le diabble (1880), a seguiram, a0 Tongo de uma vida dificil e por fim arruinada, entre outros, ay (1885), Literaturas malsanas (1894), além do drama Senyors de paper’ ‘memérias Coses d'en peius (1920). ~ (4) Publicado na revista A Cigarra, vii (143): setembro de 1920. 65 UM LIVRO UTIL! Entre os tipos dignos de figurar na longa galeria que nos deixaram Balzac) Flaubert Eca de Queirds, ficaria bem o antigo professor de gorrinho e palmatoria. O professor de gramética especialmente daria azo a uma das melhores cartas de Usback. Era de vé-lo impertinente e bisonho, a cabega {abeberada de idéias obsoletas; de esperangas confusas; de veleidades funambulescas; nt de tinherabos, non.tinherabos, de ironia ancenubiada de bondade protetora; mas sobretudo de ironia; ironia malévola; ironia des- A sua figura era de fazer rir 4s pedras. A cabega raro desapercebida do gorro negro vairelado de compridos fios de cabelos brancos que se deixavam ver em derredor. Cabelos com- pridos... compensacao, talvez mesmo complemento de suas idéias curtas, no sentido de restritas ao que Ihe ensinaram em pequeno e (ovo baie)que nas matemdticas n&io passava da taboada, na gramética, do Coruja ou algum mais rococé, na literatura do cénego Pinheiro, na justiga da varinha de bambu ou da santa-luzia. No mais era um homem como qualquer, apenas derreado as vezes pela velhi- ce, condi¢do indispensdvel para\merecer 0 titulo de professor. E preciso nao deixar em injusto blivio par de éculos que Ihe cin- gia o apéndice nasal. Por vezes eram até dois pares, 0 que Ihe dava um ar ainda mais ridfculo. Também impunha assim mais (1) Publicado na revista A Cigarra (sp), vl (144): 15 de setembro de 1920, TPS: Wd > culbelos vomPE bo; ito. Donde decorre a grandissima influéncia que exercem os Hos em nariz atucanado. O gorrinho, a palmatéria, a vara de bambu, o tinherabos, os belos compridos, o nariz e os dois pares de Gculos que Ihe cin- ecem resquicios dessa ago. Ea birra justificada que pelos s tomou toda a gente, a come © ines ei cctuais, Atualmente itor|que quiser popularidade,\é nao — — nesse caso acha-se 0 professor Marques da Cruz,*jautor de _ ro recentemente publicado, i Portugués . Trata-se de um homem que fez sua profisso a de ensi- ali as questOes mais transcendentes da lingua portuguesa, 0 debatidissimo problema da colocagao de pronomes até os de linguagem de que poucos tém tratado entre nds. E em (© que se acha, resumido, no titulo do presente artigo: um de subida utilidade nao s6 para ds letrados}como também ‘a todos os que desejam escrever corretamente a lingua por- encontrarem no livro alguns sende: Nao dispensou um capitulo sobre a formagao da lingua por- jesa vazando-o de conformidade-com Oo que tragou em sua itica expositiva 0 st. Eduardo Carlos Pereira.’ Esse méto- (2) Gramatico e poeta que entre 1911 € 194. blicou longa série de tra- thos, entre os quais, além do iv Pri pric citado por Sérgio ue de Holanda, se incluem: Lis'e Lena (1911), Vicios de linguagem (1920), da fonte (1932), Alma lusa (1935), Nossa Senhora Aparecida (1942) € dithas (1943). ° (3) Gramético e fildlogo mineiro (1855-1923), foi também ministro lico e professor do ensino oficial do Estado de Sao Paulo, ocasiao em que TAOS xommndgcs 97 \ s et { rou’ ews Vik PRU ve SSC oon mesma opiniao, emite a seguinte observagai \te dos primitivos é indispensdvel na evolugao da BSP ela ae de consumpgio ou de estupidez. So a.reserva — , deespontaneidade, de. vigepatniiantee 0 ae cone ela, com facilidade enferma ou moribunda”.* vn n-se muitos exemplos comprobatérios. A Bielicacto, Iogica desse fato esté em que, afastando-se “) ) homem) o(artista prim: o\se aproxima E nao é sé em pintura que se da isso. O proprio Beaunier 0 “il y a des primitifs perpetuels dans tous les arts, en ature, en poésie, au theatre, comme en peinture”. a ainda nao se assegurou desse fato, comparando a sen-” a.com a leitura da poesia simples e primitiva e se ou, por exemplo, a deixada pelo aig, de Bil? Botan ndo guarda consigo a/impressao inalienvel de dogura sandidez que deixam no intimo de quem os 1é os versos do u sertdo”, do “Sertao em flor”, da surpresa, do encantamen- da comogao que ficam de suas estrofes? NAcIONA tos ela serd mais n nacionalle nisso, afirmam, esté Hiatan (2¥André Beaunier (1869-1925), ensafsta ¢ critico literirio francés, autor, ‘outros, dos estudos La poésie nouvelle (1902) © Eloges (1909), escreveu ‘a vida de alguns escritores de importincia em obras como Trois amies de briand (1910) e Joseph Joubert (1918-23). Foi também romancista € “de Les trois Legrand (1903), Le roi Tobal (1905), L'amour et le secret 10) © L’homme qui a perdu son moi (1912). Sua admiragdo pelos artistas ivos, aqui lembrada por Sérgio, ele explica assim: “Autrefois, comme j'é- de l’emphase et de la virtuosité des faux j'ai aimé l'art concis et des primitifs, Fauite d’adresse ou vaillante possession de S07, ils nabusent — moyens dexpression que fournissent les arts divers; mais ils soumettent: de leurs doigts & la volonté de leur esprit. Je les louais pour tant d°é- Wante sagesse”. Ver William Bouguereau, in Eloges. Paris, Roger et F. (1909), p. 89 BSC treqniy! = wrvy Adent 73 Ph Wonk scr 1 flo 1 WA 1/8 oonnerz & be SWNT. RRS WUT € \ Ihante & que acabamos de registfar, experimentaram os aprecia- dores da poesia. No faltou quem a atribuisse 4 feitura mais sim- ples (mais primitiva, digo eu) dos novos poemas. 1s. Em uma d uma das notas a sua belissima coletiinea é que Hugo apresentou aos Coevos uma nova espécie“de_poemas-de forma-fixa, usada entre os * Por uma repetigio pausada e coordenada de” nalaios: o pantuni. ersos, © pantum produz um encanto singular para quem o 1é, se- melhante,\v"g, ao que nos deixa o Lesbos de/Baudelaire, de na-_ tureza idéntica.‘ Mais tarde compés Ch S um poema baseado-no-Pantum de Hugo. O mais bem-sucedido foi snoenmacenis si, que nos seus Poemes tragiques inseriu uma série ecinco Pantoums Malais. O tiltimo deles* nao ©) “Nous terminons ces extraits” — diz Hoge concluindo a sua nota — nel] “par sO has mala ne deliieasd orig »€ transcreve 0 seguinte poema de que nos fala Sérgio: Les papillon’ jouent a l’entour sur leurs ailes;/ Ils volent vers la mer, prés de la chaine des rochers./ Mon coeur s'est senti malade, dans ma poitrine,/ Depuis mes premiers jours jusqu’é Vheure présente// Ils volent vers la mer, prés de la chaine des rochers./ Le vautour dirige son essor vers Bandam./ Depuis mes premiers jours jusqu’a Uheure présente,/ J'ai admiré bien des jeunes gens.// Le vautour dirige son essor vers Bandam../ Il laisse tomber de ses plumes @ Patani/ J'ai admiré bien des. jeunes gens;/ Mais nul n'est a. comparer a Vobjet de mon choix.// Il laisse tomber de ses plumes & Patani.../ Voici deux jeunes pigeons!/ Aucun jeune homme ne peut se comparer a celui de mon choix, /Habile comme il est @ toucher le coeur// Ver Victor Hugo “Notes a Les orientales”. In Ocuvres poétiques, vol. 1. Paris, Gallimard, 1964, pp. 705-6, (4) O poema de Baudelaire a que Sérgio se refere comega com os versos: Mere des jeux latins et des voluptés grecques,/ Lesbos out les baisers, languis- sants ou joyeux,/ Chauds comme les soleils, frais comme les pasteques/ Font Vornement des nuits et des jours glorieux;/ Mere des jeux latins et des voluptés grecques.// Cf. Charles Baudelaire. “Pitces condamnées tirées des Fleurs du mal”. In Oeuvres completes, vol 1. Paris, Gallimard, 1987, pp. 150-2. (5) Charles Asselineau, aaui citado.por Sérgio, é-0-mesmo-poeta.e erudito em metrificagao que, ao lado ded e we de Bainville ensaiou a adaptagao da estrutura ritmica = antum malaio aos mecanismos da - aa a eae velado pela primeira vez aan aioe em prosa apensa as “Notes” das Orientales, de Victor Hugo (1802-85). O trabalho de Asselineau, Siefert e Banville acabou inspirando a Mice um rimador caprichoso, toda uma colegao de poemas do género, publi 888. (6) Os outros quatro pantoums inclufdos por Leconte de Lisle (1818-94) em seus Poemes tragiques so: “L’éclair vibre sa fléche torse”, “Voici des perles 74 > POEMAS ve Toman FRA wos MAINS Flatt furtamos ao prazer de transcrevé-lo inteiro, mesmo Porque _ pedagos perde toda a graga. E s6 transcrevendo-o jodemos N Sih jue € o pantum malaio: O mornes yeux! Levre palie! Jai dans Vame une chagrin amer. Le vent bombe la voile emplie, L’écume argente au loin la mer. J'ai dans l'éme un chagrin amer: Voici sa belle téte morte! L'écume argente au loin la mer. Le praho’ rapide m'emporte. Voici sa belle téte morte! J'ai l'a coupée avec mon kriss, Le praho rapide m'emporte En bondissant comme I'axis.” J'ai l’a coupée avec mon kriss, Elle saigne au mat qui la berce En bondissant come axis Le praho plonge et se renverse. Elle saigne au mat qui la berce: Son dernier rale me poursuit. Le praho plonge et se renverse. La mer bléme asperge la nuit. Son dernier rale me poursuit Est-ce bien toi que j'ai tuée? La mer bléme asperge la nuit, L’éclair fend la noire nuée. Est-ce bien toi que j’ai tuée? C ‘était le destin, je taimais! L’éclair fend la noire nuée, “Sous V'arbre oii pend la rouge mangue” e “Le hinné fleuri teint tes in Leconte de Lisle. Poemes tragiques. Paris, Alphonse Lemerre (s. d.), pp. 28-35. (7) Praho: embarcagio de piratas malaios (N. do A.) (8) Kriss: sabre de lamina ondulada (N. do A.) (9) Axis: espécie de veado das Indias Orientais (cervus axis). (N. do A.) 75 de 1920. L’abime s'ouvre pour jamais. C était le destin, je t'aimais! Que je meure afin que j’oublie! L’abime s’ouvre por jamais. O mornes yeux! Levre palie! (10) Artigo publicado na revista A Cigarra (sp), vit (147): 1° de novembro 76 O FAUSTO (A proposito de uma traducdo) Ao Fausto Penteado st. Gustavo Barroso € um dos escritores mais lidos e mais erdsos da nova geragao. E entre os beletristas que dirigem as tividades para diversas provincias literérias, compGe-se a maioria, pelo menos no Brasil, de diletantes, nos quais € a a erudicio. Tal nfo aconteceu, porém, ao sr. Gustavo , © que vem abonar 0 conceito em que é tido de lescritor , sob todos os pontos de vista. FE 0 que demonstram seus literdrios, a comegar pelas crénicas, escritas em estilo les e leve, mas claro e incisivo. Ainda ha pouco, entreteve- com os seus interessantes artigos a propésito da “imaginagao Flaubert”, em que demonstra, com extraordinaria clareza de a inequivoca utopia de se querer colocar entre as mais aveis do autor do Madame Bovary, aquela qualidade. Nin- pode deixar de concluir com 0 articulista, dada a sua 4vel autoridade no assunto, que do sublime Flaubert s6 ha, ammbé, a disposi¢ao ¢ a forma, a primeira feita com talen- a segunda gravada preciosamente como em baixo-relevo anti- ), mas imaginagdo\nenhuma. Acaba de prestar um servigo as nossas letras 0 autor da Terra com a tradug’o do Fausto, de Goethe. Ninguém o nega. cipalmente, quem a tiver lido. Sim, porque um tradutor smpre achard quem o acoime!de traditore, por muito que tenha, eito para nao merecer essa acusagio; e se a algum ela nao é eabivel, esse “algum” normal seré 0 sr. Gustavo Barroso. 7 O que Ihe permitiu, antes de tudo, aproximar sua tradugio o Boe escritores mais originais, os\criadores, Lessing, Klop- possivel do original, foi o té-la feito em -prosa, condigao indis- iller, Novalis — disse-o a respeito da literatura pensavel para esse efeito. Victor “Hugo afirmou alhures que uma mii o ja citado Emile Grucker —, sao, ao mesmo tempo, pen- traducdo em verso é sempre uma coisa absurda, impossivel e , fildsofos, estetas profundamente ‘versados na na historia e quimérica. E conclufa declarando, mais ou menos, que sé um segundo Homero traduziria condignamente o primeiro.' Donde se pode inferir que, por sua vez, s6 um outro Goethe traduziria com perfeigdo o autor do Fausto. Quigé nem esse. A razao desse fato estd na extraordinaria amoldabilidade a certas idéias e pensamen- tos filos6ficos que possui a lingua alemi e talvez s6 ela. Daf o ter dito Schopenhauer) que essa lingua é a tinica em que se possa escrever quase to bem como em grego e em latim, elogio que, continua ele, seria ridiculo fazer-se as outras principais linguas da Europa, “que nao séo mais do que patois”? E mme. De Stal também declara que o alemao possui uma construgao quase t40 sfbia como o grego.’ E notavel que lutam até os proprios alemaes para para compreen- der certos trechos do Fausto, especialmente a segunda parte. Ai, como diz E, Grucker, esqueceu-se Goethe do conselho que colo- ca na boca de Mefist6feles: *Grau, Freund, ist alle Theorie/ Und mies: | ificar as Fovbedupbes posticas ae ale cee siio com- 2 mais frequientemente, para demonstrar a verdade e a ém de} lendas populares |conhecidissimas. Porém, 0 mai el aqui € que a Tenda do doutor Fausto eo diabo ja dera gem a dramas, poemas e romance: quando veio a luz_a obra griin des lebens goldner Baum”) ~ Em 1797, quando 0 autor do Fausto _pensava em rever a primeira parte de seu drama, escrevia-lhe Schiller que o assunto O primeiro escrito onde trata dela foi, segundo: Henry Moiley, © forgaria a tratar filosoficamente e a imaginagdo seria obrigada a ntado em’ 1537, na feira de Frankfurt, pelo livreiro Johann se colocar ao servigd da da raz 10, A tnica cépia completa desse livro, deyautor descc “E verdade”, conclufa o autor do Guilherme Tell, “que nada Morley, é a existente na Biblioteca Imperial de vos digo de novo, porquanto nas partes j4 concluidas do vosso os ser a Histéria von Dr. Johan Fausten des weir berchreyten Poema preenchestes perfeitamente essa condigao.”* Nao sao de uberer und Swartzkunster, atribufda por muitos a um tal “Vil- admirar essas palavras, pois houve quem dissesse humoristica- Em) 1588 ou 1589, foi traduzida para o inglés (The history e dammable life and deserved death of dr. John Faustus — " ly printed, and in convenient places impertinent matter mente que os personagens de Schiller sao baldes cheios de gds nded, according to the true copy printed at Frankfurt, and metafisico. nslated into English by P. R. Geito). Em 1589, finalmente, foi ublicada a tradugao francesa do pastor protestante Pierre Palma) (1) Victor Hugo. Litérature et philosophie melées. Paris, Editions Nelson, p. 130. (N. do A.) (2) A. Schopenhauer. Ecrivains et style. (N. do A.) (3) Mme. Staél. De I’Allemagne. Paris (1834), p. 435. (N. do A.) (4) Ver a respeito F. Schiller. Briefwechsel zwischen und Goethe in den Jahren 1794 bis 1805. Stuttgart u. Tubingen, J. G. Cotta’sche Buche (1828-29). (5) Emile Grucker. Histoire des doctrines littéraires et esthétiques en . Paris, Berger-Levrault (1883). (N. do A.) 78 WI CA “cuja obra logrou subsistir foi Rowlezo Caye (Historie prodigeuse et lamentable du docteur Jean Faust, magicien, avec son testament et son oeuvre épouvantable). A lenda do doutor Fausto ainda deu lu; lugar, nos fins do século xvill € principio do xtx, ao livro.de/Muller (1778) e ao de Max Klinger (1790), como ao de Lessing, ao-de Klingermann, % ao de Grabbe! Contudo, de todos os Predecessores de Goethe, o.tinico larlowe. O Fausto de Marlowe, saido 4 luz pela primeira vez, cremos que em 1604, foi em 1894 Publicado ao lado da tradugao do Fausto, ¢ de Goethe, por John Austin, sob 0 titulo de The tragical history of doctor Faustus. No conjunto, é pequena a 1 diferenca entre a tragédia de Marlowe ea de Goethe. Em ambas, o doutor vende a alma ao diabo, com a condi¢ao deste Ihe servir como escravo por certo tempo. Marlowe fixa esse tempo em vinte e quatro anos, durante os quais 0 doutor possui um poder ilimitado sobre a terra, do qual abusa em exces- so. Passado 0 tempo estipulado, chega 0 momento em que 0 diabo deve vir 4 busca da alma do pobre doutor. Vem entio 0 remorso, que Marlowe descreve admiravelmente. Faltava apenas uma hora para 0 momento fatal. O doutor exclama: Oh Fausto, nao tens sendo uma hora de vida, e estas condenado para todo o sempre! Parai-vos, astros, a fim de que 0 tempo cesse de caminhar e que 0 minuto jamais venha! Levanta-te, divino sol, olho brilhante da natureza, levanta-te ainda para nos dar um dia sem fim ou, entio, faze que essa hora seja um ano, um més, uma semana, um dia, a fim de que Fausto também possa se arrepender e salvar sua alma! Mas 0s astros seguem 0 seu curso, o tempo se precipita; a hora vai chegar, 0 dem@nio viré e Fausto sera condena- do!... Oh meu Cristo... Ndo me dilacere 0 coragio, Liicifer, por haver apelado para 0 Cristo: eu desejo chamé-lo ainda. Oh Lucifer, poupa-me! Onde se acha ele agora? Tera partido?... La esto seus bragos ameagadores, seu semblante inimigo!... Vade montanhas e colinas! desabai sobre mim e ocultai de meu rosto a célera do céu. Nada! 6 fera, fende-te, para que cu me afunde em tuas entranhas! No, ela no me quer receber! Vés que pre mento, vés que me destinastes & morte no inferno, atraf para vos Fausto, como um vapor leve nos flancos de uma nuvem espessa, a fim de que, quando vés 0 vomitardes nos ares, seus membros Fh Yh = 80 espedacados caiam de vossa boca fumegante e que sua alma possa se elevar e atingir os céus!... (O reldgio bate onze e meia). Oh! meia hora passou-se, breve ir-se-d a hora toda... Oh! se minha alma __ deye sofrer pelo meu pecado, dai um termo a meu castigo!... Que Fausto viva no inferno mil anos, cem mil anos, ¢ que, afinal, seja salvo!... Mas, ai de mim!, ndo se da termo as punigdes de almas condenadas!... Oh Fausto!, por que nao és um ser criado sem alma’? ‘ou por que essa alma que lhe foi dada é imortal? Malditos sejam ‘os pais a quem devo a vidal... J4 estamos na hora. Agora, meu corpo, desaparece nos ares ou o demO6nio vai carregar-te para os fundos do inferno! Oh minha alma, transforma-te em qualquer gota de Agua e cai no Oceano para que te nao tornem a encontrar. (Soa a hora, arrebenta-se a fafsca, entram os dem6nios)* Quanta energia, quanta belezainédita hesse epflogo. Por ele se vé que o.Fausto-de Marlowé)foi condenado como Klinger. O préprio Goethe, na primeira parte de seu poema, té-lo condenado. - e unda pa parte; escrita muitos anos apés e quase inde- dente da primeira, o grande sé sil atinge a salvacao, vie Em Goethe, como em Marlowe, o personagem principal da gédia € Mefist6feles; naquele, Fausto ¢ Margarida saojseres famente humanos. Possuem todos os defeitos, todos os jada pelo doutor, durante o tempo em que Mefisto fosse seu eravo, nunca se realizou por completo. Até nisso hé o sinal de , (Fausto era um hot rem. COMO OS demais, insacidvel, 4 espera m tem sido 0 objeto fae muitas obras-primas, mesmo no |. Tém-na comparado a pombas que, despertadas pela ma- yoam uma por uma dos seus pombais; a navios que deixam (6) Cf. Christopher Marlowe. The tragical history of doctor Faustus. The of Christopher Marlowe (edigio de C. F, Tucker Brooke). Oxford, Clarendon Press (1953), pp. 192-4. 81 Anat uk 0s portos, e nao mais voltam etc. Essa felicidade com que so- nhamos é a mesma que o sr. Vicente de Carvalho tao bem com- parou a uma drvore, que supomos carregadas de dourados pomos, mas que nunca chegamos a alcangar. Todos conhecem, ao menos de nome, o célebre drama da negagio da vida, de Calderén de la Barca (La vida es suefio), onde ele da uma definigao que os poe- tase filésofos da mais remota antigiiidade conheciam e expu- nham com freqiiéncia: ‘Qué es la vida? un frenest. Qué es la vida? una ilusion, una sombra, una ficcién, y el mayor bien es pequeio; que toda la vida és sueno, y los suefios, sueiios son.’ < Pe a ——— Essa nogdo, cremos ser de origem semiticay Schlegel) no seu Curso de literatura dramatica, observa que os arabes exerceram grande influéncia sobre os escritores espanhdis dos séculos XVi € “xv, despertando-Ihes, entre outros, o gosto-das-hipérboles. E no- ta essa influéncia no contempordneo Francisco Villaespesa) “Vil- laespesa”, diz, “es un Iranio cruzado de arabe, representa su al- ma y se siente la confusa nostalgia arabigo andalusa de meidas.”* Nao seria de esperar que essa influéncia se tenha feito sentir na maioria dos grandes escritores da raga espanhola. Quem nao a nota, por exemplo, no original colombiang Vargas Vila? A sim- ples leitura de um trecho seu, com a singular disposigao das idéias © nas frases, lembra 6 ee dos profetas da Biblia: oles, de que fala Schlegel, constituem o fundo das obras do grande escritor ibero-americano. Diga-se se nao existe um parentesco entre a definigdo de Calderén e esta idéia do ja citado Villaespesa: ) “El passado és una sombra,/ és una niebla el. futuro/ yun relam- ago ellpresente 2 —— . (7) Cf. Don Pedro Calderén de la Barca, La vida es suefto in Obras com- pletas — dramas (edigio de Luis Astrana Marin). 3* ed., Madri, M. Aguilar- Editor (1945), p. 237. (8) Pompeyo Gener. Amigos ¢ maestros. Barcelona (1915), p. 340. (N. do A.) (9) Ver Francesco Villaespesa. Flores de Almendro — 1893-1897 (prélogo de Pompeyo Gener), Madri, M. Garcia y Séez (1916). 82 jogdo da vida, forga é reconhecer, é de origem semiti- om freqiiéncia se encontra no livro de J6, no Eclesiastes ‘alomio, Arthur Farinelli afirma que era Imitivos arianos. c ore Nei primi ini vedici e nel Rigveda era ancora fiducia e piacere alla Vita; la fantasia dei primi poeti dell’ fndia, rare volte turbata dal -pensiero pessimistico, spaziava ancora libera per amplissimi campi, abbraciava cielo e terra, II visible e l'invisible con slancio possante e tempravasse gagliarda e forte, al fluido vitale che anima Ja natura. Rare erano ancora quelle note de sconforto e di dolore che echeggiano insistenti nell’opera del Kalidasa e in tutti 1 mag- giore poemi, nel Mahabarata, nel Ramayana." primeiras épocas do cristianismo, que aportou a Europa ndo consigo a influéncia semftica, exclamava sao Joao jomo, com a mesma imagem empregada, séculos apés, por Jerén: “A substancia do homem nada mais é que cinza e pé e 0 e sombra, e se pode haver outra coisa ainda mais va, sera O™mal du siécle” nao foi mais do que uma revivescéncia da) | igi pessimista dos semitas produzidas pelo romantismd, | fontes mais abundantes foram as lendas ci Ja Idade — um resultado da influénei i reus. Essa\ gran tempo l’Oriente manda all’Occidente, con le sue i raconti e le novelle, i messagi di saluto all’anima, le te morali ¢ ascetiche, \le grande tristeze e malinconie”.""O.- o-brasileird, 0 inico que se aproxima um pouco da —, iiéncia de grandes pensadores que vai de Taine aRené oy. passando por Sainte-Beuve, Brandes, Gener, A. Hamon, ,.. » winelli e alguns ne eee JGnior)j4 notara esse pessimis- 0 semita em uma série i licados na Revista we ‘i = ‘ iva de Verissimo sob 0 titulo de: “A estética de Poe”. Ali sa- ita ele aexisténcia desse mesmo pessimismo nos grandes (10) Arturo Farinelli, La vita é un sogno. Turim (1916), vol. 1, p. 16. (N. do A.) (11) Arturo Farinelli, op. p. 60. (N. do A.) PUK ITA 83 PSCENCIA Nos] We WW > oe peenictes dor meio- -dia da Euroy sop, mais sujeitos que os do Norte influéncia semitica. Em Dante, por exemplo. Poucos escritores souberam descrever, com tamanha hediondez, os saurios, os monstros noturnos, os vespertilhos e as Geriontes, que enchem as paginas do “Inferno”.'* O diabo de Dante atinge por vezes a culminancia do risfvel." Assim também o de Miguel Angelo re- presentado no “Giudizio”."* Os génios do.mal dos antigos assirios ¢ fenicios sao ainda mais nefarios, especialmente se comparados aos dos povos indo-germanicos. No homem do norte da Europa a concepgao do diabo diverge profundamente da dos povos do meio-dia em que a influéncia semita se fez sentir com maior viru- léncia. Os monstros da Divina comédia, & Araripe quem o diz, “evolufram para-o-Satands de Milton, que é um diabo luminoso, belo, humano, se nao a transformagado de Apolo”.'’ Mme. de Staél também afirma que o autor do The paradise lost fez Sata maior que o homem. Diante das varias concepgdes do deménio, que posigao terd o Mefisto da lenda de Fausto? Afirma ainda mme. de Stai] que o Mefist6feles de Goethe.é um diabo civilizado, De fato, sem o exterior horrivel do monstro de Dante, sem a beleza apolinea do demén de Milton, o Met que dao as escrituras a Sata de “ol gral tiroso’, eut eufemizado na ironia ferina de todas as suas sentengas. S6 quem percorreu com atencao todo 0 poema de Goethe, medi- tando sobre cada um _dos seus s simbolos, tompreenderd que ele seja, como dine Fein Biota mundana dos alemaes e dara razio As suas pal i vasto como a Biblia, e, como | ela braga oO as e terra com 0 homem e st nem € sua exegese”. (12) Cf. Araripe Jtinior. “A estética de Poe” in Revista Brasileira (ns), tomo 1, 15 fev.-15 mar. 1895, pp. 228-35 em seqiiéncia no tomo (1896) com indicagdo remissiva, material também publicado no ensaio do mesmo autor inti- tulado /bsen. Porto, Chardron (1911), p. 43. (13) Enrico Sannia. 1! comico, l'umorismo e la satira nella Divina comme- dia, Milao, U. Holipi (1909). (N. do A.) (14) Ver Arturo Farinelli. Michelangelo ¢ Dante e altri brevi saggi: Michelangelo poeta, la natura nel pensiero e nell'arte de Leonardo da Vinci. ‘Turim, Fratelli Bocca (1918). (N. do A.) (15) Cf. Araripe Junior, “A estética de Poe” in Revista Brasileira, cit. 84 ‘Nu lenda popular, como no livro de Klinger, que a reproduz } fidelidade, o Fausto é condenado. Assim também no drama Murlowe, como ja temos visto anteriormente, e na primeira do de Goethe. Em Marlowe, porém, o doutor em vao deses- e ao lembrar-se de que nao se sentira feliz durante os vinte e anos do contrato e que afinal iria em breve ser vitima de iedade. Em Goethe (aqui nos referimos ao primeiro do encerra a grandiosidade do de Marlowe;.em. ico, devido principalmente ao episédio a Em todo o seu poema 0 autor do Werther se mostrou obscurd, executando mais ou menos fielmente 0 lho célebre de Verl: ne, ‘enunciado w um | século | quase e aps, e intenso na segunda parte do as muitos anos. imeira. Foi terminada quando 0 autor ja se achava na- lk fenta anos| A despeito de sua bbscuridade, ou talvez ido a ela, o segundo Fausto é a parte mais apreciada dos n Ai € que se acham as palavras célebres do deménio, traduzidas pelo sr. Gustavo Barroso» “O passado! Por que Palavra imbecil! O passado é o nada. No entanto, algo és dos mundos, houvesse 0 vacuo complet; eterno. Para a njaioria dos criticos alemies, é essa parte que, 4 conta curidade, € 0 terror dos tradutores € em que reside a do-sew-autor— fa constitui, conforme G. Weber) um melee de vista retros- tivo sobre seu passado e sobre as transformagées sofridas pelo eu espirito e pela sua poesia desde que ele saira do perfodo tene- oso em que fora composta a primeira parte.'’ Aqueles a quem arte é incompreensivel poderia Goethe, e com razao, repetir (17) Ver Georg Weber. Histoire de la littérature allemande depuis son gine jusqu’ a nos jours. Paris, Librarie Internationale (1867). (N. do A.). MOS fuxy 85 (16) Ver Goethe. O segundo Fausto (tradugio de Gustavo Barroso). Rio de Janeiro, Garnier (1920), p. 217. % as palavras de Preault: “L’art c'est cette étoile; je la vois, et vous ne la voyez pas”. E € natural, como diz Rodenbach, que os mes- tres percebam muita coisa que aos outros escapa.'* Quase todas as tradugées francesas, pelas quais, como pela de Castilho, é conhecido o grande poema no Brasil, a de Stapfer, a de Saint Aulare, de Gerard de Nerval, a de Lespise, a de Cavagnac, a de Margueri, a de Porchat e outras, transcuraram quase por completo o segundo Fausto. E verdade que algumas delas foram anteriores a ele. Porém, os que porventura a traduzi- ram, muito se afastaram do original, que ficou assim quase obli- terado nos pafses latinos. A unica tradugio francesa feita quase ao pé da letra, e onde se acha inclufda a segunda parte, é talvez a, alids pouco conhecida, de Henri Blaze, escrita em prosa. A tra- ducdo portuguesa de Castilho compreende s6 a primeira parte, que a segunda, afirma ele, ao Fausto da velhice de Goethe nao se atreveu, porquanto seria trabalho ainda mais fragoso e, quando as dificuldades se vencessem, menos condigGes apresentava para ser bem aceito de seus patricios. O tradutor portugués nao concebe que, como afirmam os alemies, se tenha Goethe despendido mais, nessa segunda parte, em gentilezas e esmeros liricos; assim pelo menos nao 0 parece, contemplado através dos refletores. Demais, diz ele, quando essas exceléncias “acidentais e de mera forma”, pouco traduziveis, te- nham esse valor que Ihe querem dar, so tais no tiltimo Fausto os enigmas filos6ficos, tao abstruso o senso das feigdes mesmas, tao desnaturais, tio inverossimeis, tio imposs{veis, tio absurdas quase, que 0 bom gosto e o bom senso, “que tao benévolos per- doaram e receberam a lenda velha do doutor Fausto, talvez no se haveriam bem com o Fausto tiltimo. O primeiro”, diz ainda Castilho, “foi um gigante, o dltimo seré o homunculo, produto absurdo das forgas da arte”.” Sem apoiar seus exageros, achamos, todavia, que a critica de Castilho apresenta razes justas e abun- dantes contra a tradugdo integral do segundo Fausto. Entretanto, pelo resumo que dela fez o sr. Gustavo Barroso, os leitores (18) Cf. Georges Rodenbach. L’élite. Paris (1899), p. 274, (N. do A.) (19) Ver “Adverténcia do tradutor” in W. Goethe. Fausto (trad. port. de Ant6nio Feliciano de Castilho). Porto (1871). (N. do A.) 86 ileiros poderao doravante ter uma perfeita idéia do seu entre- ). E essa é uma das vantagens da nova tradugdo. A outra van- sm, assaz aprecidvel, é a de, como poucas, se aproximar do ‘inal e muito mais que a de Castilho. Nessa, mais de uma vez -deparam algumas das extravagancias de que seu autor usou a «lo em todas as suas tradug6es, talvez devido as necessidades tima e do ritmo. Assim, surpreendendo-lhe o ter Goethe subs- ido por Lilith o nome mais conhecido da primeira mulher e ymo, segundo ele, a absurdidade casa-se bem com a absurdi- , acrescenta a esse nome um apelido vulgarissimo, entre os patricios, mas justificével pelo apelido que a Eva deu o sis... Por paralelismo fez 0 mesmo a Adio: “A Lilitha da sta, nado te lembras? a primeira mulher de Adao de Barros”, . (p. 352). No segundo ato, na parte intitulada “Noite de Walpurgis, do Hars, Schierke e Elend”’, excluiu Castilho de um dos o Fogo Fatuo que ai deve cantar alternativamente com Fausto isto, na seguinte disposi¢do que nao existe no original: MEFISTOFELES Ui! que algaravia Bufidos e pios silvos e assobios cada vez mais perto! dé antes do dia cd neste deserto gaios, papafigos. Que sdcios amigos as c'rujas nio tem! FAUSTO E aqueles pernudos ascosos pangudos, nas moitas além... serdo salamadras? E aquelas malandras que rompem das grades fazendo ameacos 87 ha b langando mil bragos qual povo traidor! etc. O sr. Gustavo Barroso € que, desta vez, como em quase todos os pontos onde ha que rimar, foi infeliz, nao tendo conseguido traduzir com a perfeigdo necessdria. Assim mesmo, no deixam de ter seu valor alguns dos versos. Leia-se, por exemplo, este trecho: Sdo os cipés ¢ as ratzes Que nem serpentes lustrosas, De variegados matizes, Armadilhas perigosas A quem passa por aqui! Pelo chao correm bichinhos E voam moscas dali Com suas asas radiosas Huminando os caminhos. Avangamos ou recuamos Perante suas ameagas? Tudo anuncia desgragas Pela rota que levamos E esses fogos que andam no ar Queimam sem iluminar.,. Os “bichinhos” af representam as de Castilho; ou ainda como Toupeiras e ratos Ralé variegada... no musgo dos matos na lama encharcada sem conta esfervilham (20) W. Goethe. Fausto (tradugio bras. de Gustavo Barroso). Rio de Janeiro, Gamier (1920), 11, pp. 169-70. 88 .. ces taupes bigarrées Sur la bruyere egarées La mousse humide grattant Broutant, trottant, valetant. Stapfer;" ou sx tous les rats en escouades, Mulots, foines et souris Vetus de rouge et de gris, de Henri Blaze; que Sven vont trottant par myriades. speito de um ou outro sendo, como 0 a que nos aca- os de referir, a tradugiio do sr. Gustavo Barroso, mais de acor- ym o original que a de Castilho, é excelente e utilissima. acaba-se de encher um vazio que ha muito se fazia notar sas letras. Refere Eckermann que em uma de suas conver- Goethe, este, ao ter noticia da pouca idade de seu tradu- rd de Nerval, afirmou surpreendido que esse jovem seria mais puros escritores da Franga.” Se 0 autor do Fausto se hoje vivo, seria possivel que afirmasse do novo. tradutor n dos autores de maior futuro do Brasil, 0 que nao deixaria extempordineo, pois, desde seu primeiro livro, o sr. Gustavo oso é considerado, e com razao, um dos nossos mais bri- es literatos, pelas suas idéias, pela sua erudigao e originali- _ pela sua linguagem tersa, simples, clara e correntia.* (21) Ver Paul Stapfer. Goethe et ses deux chefs-d’oeuvre classiques. Patis, hbacher (1881). (22) Cf. Henri Blaze. Le Faust de Goethe. Paris, Michel Lévy Freres p. 134. (23) Ver a respeito J. P. Eckermann. Gespriiche mit Goethe in den letzten ‘seines Lebens 1823-32 (1836-48, 3 Bde., hg. u. aus dem Nachl. erg. H. H 1925, 1948, 1 Bd., wiederh. 1962). (24) Publicado no jornal Correio Paulistano (spy. 15-6 de novembro ¢ 6-9 zembro de 1920. 89 Passa e deixa um perfume de saudade, Purificado em légrimas de dor. Gastei meu sangue na intrangitilidade De busca-la, insensato sonhador! Ela é opala do Sonho, a leviandade. Passa de mao em mao, muda de cor Deixa que $6 me iluda em procuré-la. Felicidade é a sombra que nos fala, Que nos maldiz na vida ou nos bendiz... Efemera e imprecisa como um beijo, Ela esta quase sempre é no desejo Louco que a gente tem de ser feliz!” (13) Cf, Olegério Mariano. “Felicidade” in Agua corrente, ed. de Toda wma vida de poesia (1911-1955). Rio de Janeiro, vol. 1, p. 138. 104 José Olympio Editora (1957), PPECA ONC bn A DECADENCIA DO ROMANCE Yanquismo em literatura... Eis a dltima modalidade da lei enor esforco aplicada as letras. Todo 0 mundo conhece as Bearatics que em dato a humanidade desde que a americani- zagiio do globo se vem tornando um fato incontestavel. Em ane pouca gente tem atentado, é na manifesta invasdo, por esta neti ta avalanche de um terreno até ha pouco considerado imune: 9 das letras. Ja pressentiram os Mercier e os Wells niorte-ameri- canos\a substituigado do livro pelo | ic como infalivel. Quando esse prognéstico for realidade, outros augures haverd, por se que pressagiem a queda da literatura de idgias. Isso dard lugar substituigéio dos homens de letra: pelos s imples reporters ¢ pelos ticiasinhadores de jornais. Coisas de americano... ; rar pouco nos interessa indagar do futuro quando muito ha que saber do presente. O que éfatoe ninguém negaéa viruléncia 7 com que gafou as nossas letras, 0 yanguismo. Uma de suas vari ‘ festagdes mais evidentes é o notavel incremento que toma atual- 7, mente entre nds 0 conto leve e curto, com prejuizo do romance. Pode-se dizer que 0 conto € um proto, » dg realisiiio, como € do-romantismo) o romance. A existéncia, antes do advento daquela escola de contistas notaveis até 0 autor do Decameron, nada prova contra esse arresto. Desde que Guy de Maupassant meteu-se a virar as cabegas de nossos romani estes apaixo- naram-se de tal forma pelo conto que-este-em-breve se tornard uma verdadeira praga. Os letrados nao tém Paciéncia para perder tempo com ridicularias quando o tempo € dinheiro. E 0 romance, 105 Romy ie WANTS. \ 7 Xe y pian in = ikea :\ eitor. 'E assim nestas épocas de corre-corr . eae vai insen- _Sivelmente tomando o lugar do romance. Jé o: Zolas de hoje nio- bem pensado, dizem, é um acréscimo estafante de pormenores intiteis ao conto que s6 fazem tomar tempo ao ocupadissimo mais podem dizer que o romance tornou-se a ferramenta do sécu- lo, a grande investigagdo sobre 0 homem, como o diziam vinte anos atrds. E que tomado no sentido geral de literatura amena, ele € menos um espelho da sociedade contemporanea que uma narragao inveridica em que o autor Procura fazer ressaltar o entrd- cho. Na Franga-ainda aparecem de quando em vez um Romain Rolland ou am Barbusse. No mais, todos os grandes romancistas contemporaneds-eicito es dernas geracde Os France, os Bourget, os Lotinos Bordea , pode-se dizer, j nao pertencem & atualidade, Mas na Franga nao é tao notavel essa Substituigao do romance pelo conto. A Inglaterra, pais extraordi- nariamente tradicionalista, ainda contaré Por algum tempo de cer- to, os seus Hall Caine. A Itélia nao foi completamente invadida pela praga. Ainda soa 14, bem alto, o nome de ’Annunzio com ° Fuoco e 0 Forse che si, forse che no.' ee necessario pois ii entre n6s a queda do romance, | que fez a gloria da literatura do século passado. E certo que al em cima a berrar|com todo o vigor o seu J must eat my dinner Nao sacrifiquemos Porém a essa fome selvagem (1) Fuoco, de 1908. 0.primeiro tinico dos Romanzi del Melagrano, do es- eritor italiano Gabgiele D’ Annunzio (1863-1938) e tem por fulero 0 tema da do, minagio insacidyel, represeniada na luta do artista Stelio Effrena, uma espécie Cahn D'Annunzio, em busca do poder antistico transcendental, simbolo da vida e do espiito que paira acima dos homens e do préprio mundo, Forse che si, forse che no, de 1910, &tido como 0 mais denso dos romances de D’Annunzio, ¢ nele joga-se o drama de uma viiva esperta Isabela, e de sua irma Vana, donzela ingénua, ambas em disputa pelo amor do aviador Paolo Tarsis, cuja inconstancia leva a segunda ao suicidio e ndo evita, malgrado o paroxismo a obsessdo sexual, que a primeira acabe enlouquecendo. Publicado na revista 4 Cigarra (se), vit (156), 15 de margo de 1921. ©) Sérgio refere-se aqui a fome selvagem de Caliban, o monstro disforme, Gio do diabo e da feiticeira Sicorax, de The tempest (1611), comédia de Shakespeare, cuja fala citada estd numa cena do primeiro ato em que Caliban 106 Moret); dos alimentos de que tanto carece 0 nosso espirito! Nao, nao mos pérolas_aos_porcos {Devemos ser egotstas em certas ocasies. Sejamo-lo nesta!" desdenha das imprecagdes que Ihe dirige Prospero, de quem & oats be sure, to-night thou shalt have cramps, Side-stitches that sal pena 5: urchit hat vast of night that they may work, ses up; urchins/ Shall, for f prrpulsineets ; thou shalt be pinch’d/ As thick as honeycomb, To ban that made’em’. A resposta de Caliban comega ae bee i island's mine, by Sycorax my mother. io: “I must eat my dinner. This island's mine, " ane Shakespeare. The complete works (introdugao, glossério e notas de Peter ). Londres e Glasgow, Collins (1975), p. 6. Se hablo na revista A Cigarra (sp), vit (156), 15 de marco de 1921. 107 O GENIO DO SECULO Bisogna ridiventare un pd barbari — magari un po beceri — si vogliamo rinovare la poesia. G. Papini Ha muito quem diga e creia que o peri 0 foi o mais notavel na literatura do tiltimo século; ha quem prefira © grupo de Médan} com toda a enorme procissio dos Rougon- Macquart e dos adultérios. Nés lembramos antes esse tio debati- do fin-d Como © mais esquisito na sua Originalidadéle o mais interessante em sua esquisitice, Mais interessante e mais digno de atengao. Ao menos nao sera numa época de literaturas malsas tanto quanto pensava Gener,’ hem, e menos, numa fase de (1) Sérgio alude aqui a Les soirées de Médan (1880), colega i ; ; L |, colecao de seis nove- las, precedidas por uma espécie de manifesto, em que €. Zolale alguns diseipu- los como que experimentam 9 projeto naturalista. Constamda antologia as nove- las L'ataque au moulin, de E. Zola (1840-190: ‘Maupastant (1850-1893); Sac au dos, de J-K. Hui 3 , l ins (1848-1907); Saignée, de Henry Céard (1851-1924); L'affaire due Grand Sept, de Léon Hennique ass. 1935), e Apres la bataille, de Paul Alexis(1847-1901). Zola, que vivia na ocasiaio © sucesso de L’ Assomoir, costumavafeunir-se com os seus amigos ora em Paris, ora em Médan, onde adquirira uma propriedade. ni (2) Referéncia ao critico espanhol Pompeyo Gener (1848-1920), que, a exemplo de Max Nordau, também lembrado por Sérgio, tomou a si a tarefa de expurgar a literatura, a sociedade e a arte-de seu tempo dos “desvios patolégi- Cos” que supostamente as infestavayn. Gener dloutorou-se em medicina em Paris, 2 ae 108 Se como andou dizendo a critica rabugenta do sr. im do século nunca perdera a gloria de ter produzido ; - Nerlaine; 0 Villon dos tempos modernos, nem Wilde, esse artista y. “yaro e arisfocratico’como-nao-houve outro, nem Huysmans; esse mistico incomparavel que s6 0 retrato de Des Esseintes*teria cele- brizado, nem Maeterlinck, 0 dramatista que faz pensar nos maiores sem imitar nenhum, nem Moréas, esse grego maravilho- so que mereceu bem o ter sido chamado 0 Ronsard do simboli mo, nem Corbitre, esse vagabundo-quase genial, nem Rimbaud, outro boémig-de talento,-nem Laforgue, nem Merril, nem Kahn, nem Mallarmé, nem Régnier, 6 que cdda um deles tem sual if ~vidualidade| propria, sua maneira, seu ‘modo de dizer, seus tics, ~ suas excentricidades. E entretanto como tabem tao bem todos eles nesse delicioso ¢ birbaro fim de século! Como se combinam tdo harmoniosamente jepender um de outro! Como assim congregados guardam tao avaramente 0 tesouro precioso de sua Sersonalngadet Cidade em que também estudou ling ec religido. Além de traduzir A origem das espécies, de Darwin, para 0 espanhol, € de escrever sobre as artes vivas e mortas, encarregou-se da critica cientifica da Exposicdo Universal de Paris em 1889. Amigo de Victor Hugo e de Sara Bernhardt, freqiientou as rodas literérias da Franga, combinando ceticismo, fio e vida boémia. Entre seus livros, escritos em francés, espanhol e catalio, contam-se La mort ¢ le dia- ble (1880), Leyendas de amor (1887), Literaturas malsanas (1911) Patologia literéria (1915). Em cataltio seu livro mais famoso € Els cent consells del Consell de Cent, uma coleténea de pensamentos e méximas humoristicas. (3) Max\Norda, pseudOnimo de Max Simon Stidfeld (1849-1923), hiin- garo radicado em Paris depois de 1880, onde passa'@ produzir ensaios criticos, estudos de sociologia-e filosotia, além de contos, romances, pecas teatrais ¢ historias as. Com as obras As mentiras convencionais da nossa civil cacao (1883), Paradoxos (1885) e particularmente Degeneracdo (1893), ganhou celebridade pelos ataques radicais que dirigiu aos costumes de sua época, nos quais de um modo geral combinava intolerdncia e azedume positivista. (4) Alusiio de Sérgio ao condeean des Esseintes, protagonista do romance A Rebours, de Yoris“Karl Huysmans (1 7), 0 demiurgo solitirio do ideal de perfeigao decadentis rocura substituir o natural pelo artificial, nutrindo versio definitiva ao equilfbrio da ordem burguesa. “Anarcdide sob a capa dourada do parnasianismo”, fechado em seu castelo, inebria-se de sinfonias e de prazeres, ‘mergulhado no universo independente dos poetas sensacionistas ¢ nefelibatas. WHAYYPOMA hy 108 UPI WA \pabe ‘ + tio ANYL yyit{ ov } wy \t sh fk NV go? or RAYNE Asycbt-s Ha com certeza um segredo em tudo isso, em toda essa ) maranha inefavel. Ou por outra, j4 houve, mas hoje 0 decurso dos acontecimentos.decifrou o enigma. Tratava-se, nao de uma época de decadéncia nem mesmo de um desses perfodos de floresci- mento efémero sem resultado notavel. Foi muito mais um prelui- literatura revotucionaria do: SECUIOXX. Foi uma consagrago maravilhosa das duas grandes qualidades _que-caracterizam 0 novo sceul:< ebeldial a fontmsicaino sentido mais lato, tam- _bém mais petite de faaaling" Qs aecernoy tém desprezado sem motivo essa nunca assaz louvada \virtude social que € 0 jfanatismo, a mesma que s6 por si desculpa e quase santifica os Torquemadas e as Inquisigdes. . am relance sobre a atividade literdria e artistica do curto periodo que nos separa do inicio do século é o bastante para mostrar que aquelas duas qualidades 0 tm n domin alsINGSe cael © lugar de repetir os ataques dos que véem, numa aglomeragao de as mal. Pensamos antes que elas so atestado sério le indepen léncia de espiritd.e que embora’$ génio nunca acom- , panhe escolas, estas sio-sempre agentes dis grandes idéias. H4 a ui, todavia, um mal-entendido. Muitas das atuais|escolas sro ~Sio no significado menos geral de agregacio de artistas obede= cendo todos'a0 prdprio temperamento-e-mesmo, até certo ponto, As proprias idéias desde que nao se achem em flagrante desaeor-— do com as do grémio._ = igang Todos sabem que $ futurismb, exalta principalmente o perigo, a forga, a luta e a guerra, sola igiene del mondo, como disse 0 primeiro manifesto.’ Isso nao o impede de acolher em seu seio artistas que sigam uma estética completamente diversa e até, em certo ponto, oposta, como esse Simpaitico poeta Aldo Palazzeschi.”) ___ (3) “Noi vogliamo glorificare la guerra — sola igiene del mondo —, il militarismo, il patriotismo, il gesto distruttore dei libertari, le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna", é 0 trecho que interessa a Sérgio nesta pas- sagem e que pode ser lido no primeiro manifesto futurista, publicado em Paris no jornal Le Figaro: 20 de fevereiro de 1909, (6) Aldo . chamado.Palazzeschi (1885-1974), escritor italiano que evoluiu do rat dos primeiros tempos (L’ incendiario, 1910, € Il codice di Perel, 1911) para o fabuldrio romanesco de obras como II fratelli Cuccoli HO >the a* Vv FAME eeittyp SQE\0 L Ny & MODE Ne Abate: offici \adamipetonismo,' tinico, desde Os noivos de Manzoni, que possa ser lido com prazer sempre crescente por um. amante da arte ver- dadeira e genuina. O mesmo que Papini, aquele Giovanni Papini cuja recente conversio & religido catélica comoveu tao-profunda- mente os\circulas intelectuais do Velho Mundo, considera o me- Thor poeta italiano da atualidade e também 0 mais lido, o mais dis- cutido, o mais imitado da tiltima geragao. . E ainda Papini, e ainda a propdsito de Palazzeschi, quem afirma que}hao s har o futurismo como uma escola\de poesia que da receitas sobre a maneira de fazer os versos ou que impée 0 assunto dos novos cantos. © futurismo uer simples- (1948), II doge (1967) e Stefanino (1969). Aliou-se aos futuristas em 1909 € mi- litou na revista Lacerba (1913), mas logo se tornou independente, rompendo com o movimento e mantendo-se aberto para outros experimentos de vanguarda, ‘como © que se Verificou na Europa nos anos de 1960. Foi um mestre no retratar com humor o absurdo e 0 grotesco como o revela a leitura de sua prosa em It palio dei buffi, de 1937, ¢ I buffo integrale (1966). No romance citado por Sérgio, Il ede di Perel (1911), que alias reescreveu em 1955 com o titulo de Perel, uomo di fumo, imagina num pais de fantasia as peripécias de um homem de fumaga que, amado por todas as mulheres da corte, tem sobre os ombros a responsabilidade de escrever um novo cédigo para 0 reino. (7) Sérgio nos fala de lengo Soffici (1879-. Academia de Belas Artes de Florénga-que; depois de longa temporada em Paris, entre 1903 icaba escrevendo tm relato autobiogréfico L’ ignoto Toscano, que o aproxima dos intelectuais italianos e em particular de rere i, cujo estilo entio contribufa para a renovagio do gosto literdrio na Italia. Fascinado depois pelo radicalismo imagindrio dé Arthur Rimbaud; Soffici adere & vanguarda litestia.e participa da fundagdo, em Florenga,, disevista Lacerba (1913), a0 lado de(Palazzeschi e do proprio Papini) Q/adampetonismo) aqui referido por Sérgio (6 parafuturista (depois enfeixado como capitulo ze, Vallecchi Editore, 1919) de riria”, langado gn T9TS por Soffici sttror nr que proclamava, para a literatura ¢ as lartes, 4 aboligao do passat irezal o EXagero formal, d\citadinismd, ofen- x | ig ee sok Vain Vio dade, Soffici deixou ainda Demmonio Boreo (1912), Arlecchinno (1914), Giornale di bordo (1915), La giostra dei sensi (1919), Taccuino d'Armo Borghi (1933), L'uva e la croce (1915) e Il salto vitale (1954). ACTH aaa a © jovem pintor da_ Rent esmo cujo romance O cédigo de Perela é, na opiniao de 4», RTD » ista-cismatico do grupo da Lacerba e fundador do. ————— Lk GR ROM 4 THN! Vuk AC PWotu5W] mente livrar os poetas de certos preconceitos tradicionais. Ele encoraja todas as tentativas, todas as pesquisas) ele incita a todas OF 140MM as afoutezas, a todas as liberdades. Sua divisa € antes de tudo Lat Sob esse ponto de vista é legitima e louvavel a aspiragao of futurista. O préprio sr.Marinetti b sanciona, dizendo, como disse ha tempos, entrevistado por-um jornalista francés, que anova ™ ye escola “é apenas a exaltacio dalorigi alien ag petsonac 4 i nO " Alestética apregoada & possivel e provavel qué nao vingue, mas a k aX preg possive gu ay reagdo terd 0 efeito de despertar os artistas do ramerrao habitual. a » Note da Titeratura de fic¢a0, por exemplo, muito ja fez e os <@ contempordneos podem orgulhar-se de obras-primas Como o y Cédigo de Perela, de Palazzeschi, e 0 Poeta assassinado, de Guillaume Apollinaire; ha também os poemas de Fort e 0 teatro de Claudel, que demonstram o grau adiantado a que alguns escritores de pulso tém feito subir a literatura contemporanea. Resta entretanto muito ainda que fazer. Resta combater toda sorte de imbecilidades que continuam a infestar a7Arte moderna,) como sejam © realismo, 0 naturalismo, 0 vulgarismo, 0 pedan- tismo, a fim de que se possa erguer bem alto 0 monumento que ~simbolizaré a/Arte do futuro{e'no quat'se-verd, escrito em carac- teres de fogo, o seu scograstay Tiberdode estética =F Fantasia) itimitada®) -o tavern SEY. comeayere (LEC) sa Ace m0 WL deen ATO NoUMely Stivkous 40 Topo No qual, on Cerens vm vena” ince BSRFACA TANTAS(D WM rR (8) Publicado na revista A Cigarra, vin (167): 1° de setembro de 1921. 12 > FOWESM > oR|gINDUdHE > Lomhdis po: Pats GUILHERME DE ALMEIDA A la fin u es las de ce monde ancien. G. Apollinaire a) Se acompanharmos a evolugio da poesia de Guilherme de ; * Almeida desde os primeiros sonetos do Nds, chegaremos a con- |)!" Miuy i > cluir que essa evolucao foi no sentido da afirmagao incontestavel de sua propria individualidadé, E ela deu-se de tal modo que ja \ hoje se pode dizer, sem receio de errar, do autor do Era uma vez... O00 que é um dos tas-mais.originais. i Hi dias, falava-me ele aqui no Rio sobre o[perigo das rodi- we (OAS ——nhas Titerdrias, que vio fatalmente a0 os eae rsona-! | lidade-do autor. E Guilherme preza como poucos a dade. Segu laveis, acepgao demasiado estreita, que o préprio Marinetti ja condenou em uma célebre entrevista concedida ao Tempo, mas como um# exaltagao da originalidade; —s Maior exagero cometeu no outro dia oti Pichia, ) Henri jusse! O iz Tavis an oreg fikuyy ‘io de Andrade que, \¢1 ‘ 0 fal, em um dos seus interess: publicados nd-Jornaldo Commerci de Sao Paulo saiu-se com tina dal mesmaar aia quando disse que Max Jacob, 0 célebre_ Ace oy M3 adage —> We , : —> ORL SINK Us ae (NDI Dodd “Me FLAN TC FLOR A _cubista que escreveu Phanérogame e Le Cornet a Dés, também & futurista! Demais nao chegamos a afirmar positivamente que Gui- Therme seja_un um futurista pelo menos um futurista como os {| outros.|E apenas um original, um raro, aqui est4. Além disso,foi f _notando, ‘naturalmente, como jé 0 tinha notado o futurista Boccio- peri de existir um\ptblico moderno-na vidaye pas - . tingiufeigao nova, to caracteristica no Era ee as suas necessidades e cria- ~ iS Versos COMO unca se vi, i, E os taxis, os { “telefones, os fox-trots, os jazz bands ete. surgem neles a cada passo. E € sob esse-aspecto que a nova obra de Guilherme podia ser chamada futurista._ Vejam-se por exemplo estes versos: Entre couros € mica 0 amor inatingtvel roda pela cidade. Uma noite insenstvel vai enfiando a colar de globos cor de lua na longa perspectiva elétrica da rua Roda a carruagem... Roda, enquadrando a silhueta dupla de um beijo no cristal. A luz violeta PUES Khe das estrelas artificiais, cortada no alto kDUTO pelos platanos, faz futurismos no asfalto\..’ L etc... a ca ooMUN. ia E preciso saber-se que se trata de cenas comuns)na P: Paulicéia, © HS" da projecdo da luz dos “globos cor de lua” sobre o asfalto, através dos galhos dé plitand, € muito conhecida de nés paulistas. al Qua feicdo original Ja poesia de Guilherme é a sua espon= \*™ taneidadeS Nao direi :i simplicidade, que a simplicidade ném sem- pre € 2 ‘ideal da poesia, mormente quando significa Vulgaridade . ou bu uesismo. Também espontaneidade nao fica 14 muito bem, a “ren ivel. Quero referir-me a quase TeIeREDE POE e também dos es FORME MU]: PLURAL He Pettitte hers £2. © nao pode explicar porque ainda € nao inventou-umar palais que exatamente a exprimisse. I at ; ‘al Fos toms pos mas conservou alguma! OC coisa gi ata trazem e que os poetas @e fee) 2” “sam a despeito so Ghee a oa Nao usa ; esse quase “alguma coisa’ Fetanto|conserva w forma poétical seja 0 verso verso regular, seja c seja 0 verso livre. eee anan refaciando o primeiro volume das Baladas Srancesas fri m que os'poenias d& Fort exigem nao sé a licgao_do verso, mas a da prosa til Caf pemne tee se nao perceba quase isso. Ele proprio 0s recita como se sstivess si 1 . E muitas vezes ee tica, o que lembra um pouco cer- ocesso) empregado por iS is beTOs poemas — “Les Guieme apn um de seus femmes”. Nao duvidamos que haja muito quem por aqui nao suporte 0 eratam Taguanie 30 Era mar vez:..; 6 publicty quase sempre, € mau juizie principalmente um piiblico que ainda Wevora Julio. iy PR | Dantas. Mas esperamos ardentemente que desta vez nao seja.” ~~” HOsico 4 Ie S0v: (2) Publicado na revista Fon-Fon (Rs), xv (36): 3 de setembro de 1921. Zo TORI WER ENOCH teetict EPO eer] GAs sense SAFE QO Gh denier y. PLAGIOS E PLAGIARIOS T HP Pligio! Poucas palavras possuem tao notivel elasticidade de_ we poder e tao extraordinario poder de elasticidade como essa. Também poucas tém sido aplicadas tio erroneamente pelos zoi- . , los de todos os tempos. Qualquer idéia de um autor que se encon- tra expressa de maneira idéntica em outro anterior, é por eles logo marcada com 0 eee fatal. E todavia muito comum 6 plagio s/de boa nota. E muito facil mesmo Mlerar-Re Ge i idéias alt eben ye’ gas que aparecem ex, ¢ maneira idéntica em mais de um oe) scritor, Isso de modo algum constitui plagio. Acontece, também, pie apropria de uma idéia alheia expondo-a porém ra de forma, como acontece com 0 “Mal muito melhor que) Sio.@xprimir a idéia contida nestes ver- sos do italiano, indieades-géralmente como fonte do belo soneto que constitui uma das j6ias mais mimosas da lingua de Camées: Se a ciascun interno affano Si legesse in fronte scritto, Quanti mai, che invidia fanno, Ci farebbero pieta! Si vedria che i lor nemici MEV) sre wo trewyoty > Ett —> Lomrnnton L' Hanno in seno; e si riduce Nel parere a noi Jelici Ogni lor felici A justiga mesmo, da acusagao que Ihe levantaram de se ter servido da idéia de Metastasio, é contestavel e, muito provavel- mente, injusta. Charles Nodier® cita uma frase de Philippe de Commines' que se encontra expressa da mesma maneira em nada menos detrés, ¢ dos maiores, escritores da Antiguidade: Tacito, Séneca e Cicero. Hé aqui, é o proprio’ Nodier quem o afirma, um simples parentesco de pensamento, extremamente hatural Os criticos franceses por muito tempo acusaram a/Calderén de ter plagiado o Comeille de Heraclius em sua comédia En esta vida todo es verdad y tod y todo mentira. Existem, com efeito, versos intei ros que parecem}transladados palavra por palavra, quase, da tragédia de Corneille. Acham-se, por exemplo, nos mesmos ter- mos, em Calderdi, este; versos célebres da mesma tragédia: “O malhereux Phoeas! 6 trop heureux Maurice!/ Tu recouvres deux Jils pour mourir aprés toi/, Et je n’en puis trouver pour régner apres moi™.* E improcedente porém, nesse caso, a acusacio de plagio feita a Calder6n, porquanto a sua comédia foi representada qua- tro lustros antes de aparecer o Heraclius, quando,Corneille era apenas um adolescente, embora $6 a tenha publicado vinte anos: (1) Pietro Metastasio. “Giuseppe riconosciuto”, parte prima in Tutte le opere (ed. de Bruno Brunelli). Mildo, Arnoldo Mondadori (1947), pp. 608-9. (2) Escritor, jornalista, fildlogo e historiador francés (1780-1844), foi tam- bém poeta satirico (La Napoléone, 1902) ¢ autor melodramatico (Le vampire, 1820, e Bertram ou le chéteau de Saint-Aldobrand, 1821), combinando escapis- tico e reconstituigdo livre mesmo nas suas obras de historiador, entre as quais L’histoire du roi de Boheme et ses sept chiteaux (1830), La fée aux miettes (1832). Deixou ainda romances (Les proscrits, 1802, e Le peinire de Salzhourg, 1803), além de um curioso Dictionnaire raisonné des onomatoppées (1808). (3) Cronista e historiador francés (1447-1511) conhecido por ter enfeixado suas Mémoires (1489-1498) em varios volumes, seis dos quais referentes a0 reinado de Luis x1 e dois dedicados & expedigao de Carlos vi a Itilia, (4) CI. Pierre Corneille. Heraclius empereur d’Orient, 1, 4, vv. 1384- 1386 in Oeuvres completes (George Couton, ed.). Paris, Gallimard (1984). 117 depois deste o ter a sua, isto é, em 1664. O problema até hoje continua sem solugdo apesar deo terem longamente discutido, varios criticos, entre eles Voltaire, Vignier, JE. Hartzenbuche A. de Latour’ O que parece mais provavel 6 terem ambos se inspi: radon agua fonte antiga que até agore ainda nao foi encon- x _trada, E esta também a opinizio agit Nao era entao virtude mui idade a\Montaigne vangloriava- se de plagiar Séneca e Plutarco) Moliére dizia’a seu turno: prends mon ey, Zo — O cavalheiro D’ Acelley escrevia versos desta estofa: RE Si je fais par rencontre une assez bonne piece, Lantiquité me dit d'un ton appesanti Que je vais la piller jusqu'au pays de Grece, Sans le respect de la vieillesse Je dirais.qu‘elle en a menti. E ainda o mesmo D*Acelley quem escreve esta estrofe: Je n'ai pas fait un epigramme, Que Uantiquité ta réclame Et me dit d'une figre voix: Mon ami, c'est la vieille gamme Pour cela tu me la dois Elle a menti la bonne femme Ce n'est pas la premiéze fois. O proprio Calderén também nao era 14 um modelo de hones tidade, como nao eram seus Contemporaneos € compatriotas em geral. O critico Arthur Farinelli assim se refere aos{habitos, I literdtios dar época &-doambientelem que vivera o grande come- didgrafo: Una comédia rappresentata era patrimonio commune specie, di venzione-messa al mercato; ed ere natural provedersi di quanto pid sembrava convenire per opera novella. II plagio non impensieri- wa perché-correntissimo; ne si riteneva tule ailora waTists tutta dal l’interiore la creazione drammatica, raggruparia attorno (5) Veja-se deste 0 livro: Espagne religieuse et litéraire — Pierre Corneille et J. B. Diamante. Paris (1863), p. 113. (N. do A.) 118 Sua vez nao era influenciado por nenhum de ad un unico centro di vita. Si sceglievano scena, episodi, piccoli quadri, immagini, e si aggiungevano al quadro 0 all’azione princi- pale, senza preoccuparsi gran fatto dell’harmonica fusione dell’in- sieme.* O grande comedidgrafo ican em seu a de (Absalao ¢opia ‘cenas inteiras de/Tirso de Molina. Em outros luga- res plagia\com preferéncia Lope de-Vega, Mira de Amescua e outros. George Brandes descobre_reminiscéncias do Falstaff de Shakespeare, “incomparavelmente, a figura mais alegre, a mais concreta e mais interessante na comédia européia”, no Gracioso S AYE HaeatP | —~v Peonwedkh de Cereeca emo no Moron de Moliérey»mas logo retifica seu assertoy fizendo ser certo, entretanto, que ne a be nem/" ak Moliérey conheceram Shakespeare ou Falstaff. Shakespi are, por a a fla parte cémica, quando concebeu 0 seu célebre personagem. Um dos poucos grandes escritores que 0 antecederam, os quais, sabe-se que conheceu, fot Rata, devido a aludir a ele em As you like it (1.2), onde Celiadiz; quando Rosalinda faz-Ihe uma dizia de perguntas e pede a sua resposta em uma palavra: “You must borrow me Gargantua’s mouth first: tis a word too great for any mouth of this age’s size”. ae Brandes faz sporiparapa entio cue alee €Pantirgia. Se core Falstaff a Panirgio vemos que ‘abe ais fica para igantesco, desproporcionado, potente, mas disforme. ‘espeare & menor e menos excessivo, mais pobre em idéias, embora mais rico em fantasia, e moldado com muito maior firmeza de contornos. Logo adiante diz: “A rudeza de Shake- speare comparada a de Rabstais € uma estrumeira comparada. a Cloaca Maxima”. Depois de ter experimentado toda sorte de com- paragées entre o autor do Hamlet e o de Pantagruel, em que este parece guardar a dianteira, o grande critico dinamarqués estaca repentinamente com esta frase stibita: “Mas Shakespeare era 0 que nao foi Rabelais, umyartisiase como artista ele era um ver- dadeiro Prometeu em séu poder de criar seres-humanos . Além (6) Arturo Farinelli. La vita @ un sogno.Turim (1916), vol. , pp. 255-6. (N. do A) 9 ‘us predecessores, f Zeon | b Mreesl Raeents Cine iet RID KSI MaIRA CAtror disso, como artista ele possui a exuberante fertilidade de Rabelais, e chega até a ser-lhe superior, Max Muller notou a opuléncia de seu vocabulério, em que ele pareee-ser maior que qualquer outro escritor. Um libreto de opera italiana raramente contém mais de seiscentas ou setecentas palavras. Um inglés ilustrado usa atual- mente, nas relagdes sociais, raramente mais de 3 mil ou 4 mil. Calculou-se que,pensadores finos e grandes oradores na Inglaterra, sao _mestres de 10 mil palavras, O Velho Testamento possui 5642. akespearg, em seus poemas e pecas teatrais, empregou mais de \5smil-palavras\’ Nada disso, entretanto, quer dizer que grande poeta inglés tenha deixado de sentir a influéncia de escritor algum. A de Montaigite, por exemplo, é insofismavel. F, Michel prefa- ciando-umatraducao francesa de suas obras nota qué Shakespeare copiou uma passagem do primeiro livro das _Jia conversa entre Gonzalo, Antonio e Sebastiao na pmne cob) \ ~ Feis em seu livro sobre Shakespeareje Montaigne estuda deta- Thadamente as analogias entre Os dois eScritores. Alguns outros procuraram ligar o poeta inglé OLENA 0 Vooriste Giordano Bruno.* Em tudo isso hé certamente algum exagero. Malone, jodavia, estudando pacien- temente 6043 versos do autor do Hamlet, como se fizesse uma andlise clinica, chega a este interessante resultado: 1771 per- tencem a predecessores de‘Shakespeare; 2373 foram apenas modi- ficados_porele; 1889, finalmente, apenas, puderam ser atribufdos ao grande poeta e mesmo esses se houvesse elementos mais Seguros para se investigar a sua origem talvez. nao pertencessem a ele, afirma aquele critico. Por outro lado os imitadores ou sequi ~pedi lo grande poeta siio numerosissimos. Brandes compara 0 trio de Goethe,.Fausto, Margarida e Valentim,-a6 de Shakespeare, Hamlet, Ofélia e Laertes, e estuda largamente a sua influéncia so- bre os fnodemos es s-russos'e polacos,) Dumas pai foi acusa- do de ter transposto para-suas obras, cenas inteiras de Schillet e _ muitos trechos de Wane Scop! Se formos nos reportar mate ~ dade, Yeremos que 0 maior poeta depois dé” Homero também foi “acusado de plégio: Macrébio afirma que Virgili nas Bucdlicas tou Tedcrito, nas Gedrgicas, Hesiodo e nesta Ultima obra tirou (7) George Brandes. William Shakespeare. Londres (1917), p. 182. (N. do A.) (8) Vide R. Beyensdorff. Giordano Bruno und Shakespeare. Oldenburg (1889). (N. do A.) 120 os prognésticos das tempestades e da serenidade, do Livro dos fenémenos de Arato. Transcreveu, afirma ainda o autor das Saturnais, quase palavra por palavra a Pisandro na descrigio da ruina de Tréia, 0 epis6dio de Simon e do cavalo de madeira e enfim tudo 0 que compée o livro da Eneida. Os combates da Eneida sio tomados da Iliada e as viagens de Enéas sao imitadas das de Ulisses. Macr6bio transcreve uma centena quase de pas- sagens da Eneida que foram traduzidas mais ou meno: mente de Homer, reconhecendo embora que-Virgilioem alguns deles exprime-se de modo superior a0 imortal poeta grego. Além dessas de Homero encontrou na obras eat 25 passagens deEnio? catorze-de icrésjo, cinco de Furie, duas de Lucilio, uma de uma-de Suévio, uma deNaévio, duas de Vario, duas de Catulo-e cinco de Accio. Ao t ¢ 8 passagens, Calder6n 0 plagio nao era crimé. mais, que tomou muita cor Jas escritores mesmo latinos em que encontrou algo que lhe conviesse. - Se Virgilio foi um plagidrio, o foram tambéra Dante’e Ca- 0 yin tare vi s passagens. Ja se tém encontrado semelhangas entre‘Cambes e Petrarch, o que nao é de admirar vis- ) to a grande influéncia que a poesia italiana exerceu sobre os qui- nhentistas portugueses. No mais célebre soneto do grande vate portugués, o “L”, hd muitas analogias com estes versos de Par: Quest’anima gentil che si disparte/ Anzi tempo chiama- ‘altra vita, Carolina Michaelis indica como fonte do célebre soneto xIx Os versos- “gran padre schernito/ che non si pente e d’aver non ef sette e sett'anni per Rachel servito”.” O srYoao Ribeiré nega porém a fonte petrarquiana desse soneto dizent i, antes, deve alguma coisa ao Génesis: “vide- bantur illi pauci dies pro amoris magnitudine”, que corresponde ao Ultimo terceto da poesia de Cambes ‘Comegou a servir outros (9) Francesco Petrarca. Il canzoniere. Parte prima (In vita di. madona Laura), Xxx1. Milao, Ulrico Hoepli (1908), p. 45. my ROMANS Roi comet E verdade que nessa época como na de Montaigne e na de | Adfanius, comedidgrafo latino, {\ Eee respondia aos que 0 acusavam de ter plagiado a Menandro, e diz “= te 1 Tat He qu ent sete anos,/ Dizendo: mais servira, se nao fora/ Para tio longo amor tao curta a vida!”."° O sr. Alberto-de Farid indica por seu lado a origem de varias passagens de-Cami eu estudo “Fontes camonianas” a pagi- na 267 das Aeri Itontambém foi acusado de ter pla; Ko no Paradise lost a0 de(Andreinie a Sarcotis de Masi ¢ -se, plagiou em sua obra De augmentis scientiarum a no tratado Masenius das vicissitudes das ciéncias. Esta obra também forneceu a Brerewood) seu ensaio sobre as diversidades das religides e das lin; acing, imitou a Rotrowe Ra loliéré a Scarron, Plauto a Tirso) Corneille a Guilhem dé Castro/e Diamante. Nodier Afirmava qi eee lesse-com escrupulosa atengdo os Essais de Monta igne e as Pensées de Pascal yeria que este plagiou abundantementte aquele. E assim sconelui: “Toutes reflexions faites, je me crois obligé de recon- naitre que le plagiat de Pascal est le plus évident et le plus ma- _nifestement intentionnel dont les fastes de la littérature offrent exemple”. Ha, sem dtivida, certo. xagero nesse asserto, 0 que nao nos impede de afirmar que Baudelaite plagiou com freqiién- y cia Lamartine, Sainte-Beuve e outros.-E’essa acusagdo como a de imoralidade a pre que consiste na re, io freqiiente de frases feitas e de lugares - comuns e até mesmo de pensament le idéias e de expressdes ja empregadas pelo proprio(autor, ‘arinelli" cita de Calderén a expressiio “vibora humana” “usada m ‘vezes em fras’s-seme- Ihantes no sentido, em La vida és suefio, La hija del aire, En esta (10) Joao Ribeiro, “Sete anos de pastor...”. Revista do Centro da Socieda- de, Letras e Artes de Campinas, 3\ de margo de 1916. (N. do A.) (11) Arturo Farinelli, anteriormente citado por Sérgio, foi ensafsta, fil6lo~ 20. professor italiano (1867-1948) que estudou na Franga com\o mestre Gaston. Paris, indo depois ensinar filologia romanica em Innsbruck, de\onde regressa a Turim para ocipar a citedra-de literatura alema na Universidade, cargo que ‘ocupou até (1937. E autor de ensaios eruditos escritos em portugues, espanhol, italiano e alemao, cabendo destacar entre eles os estudos na rea de literatura comparada, como Don Giovanni (1896), La vita & sogno di Calderén (1916), Danie in Spagna, Francia, Inghilterra, Germania (1922) e Il romanticismo nel mondo latino (1921). «Ber > BHIEIRE tLroyoo LewAtetidl aa vida todo és verdad y todo mentira, Las manos blancas no ofen- den, Los tres aspectos de amor, El mayor monstruo los celos, La devocién de La Cruz, Duelos de amor y lealtad, Los encantos de la culp Faget mum artigo publicado em 1910 na Révue, a Feet livrinho de A. ae ¥ Bertaut, t, Fepete as ny acusagées de Brunetiére’ contra Ovatitor das Fleurs-du mal e diz, © entre outras cofsas;que esse inovador nao possui idéia alguma nova." E preciso, afirma, deVigny, chegar até Sully Prudhomines, para encontrar idéias nov: Snes poetas franceses—“Jamais Bau- delaire ne traite que le lieu commum fripé jusqu’a la corde.” E exemplifica, procurando demonstrar que as.mais notaveis poesias i mae genera tidos por todos os yescritores que o antecedera Um\critico italiano aplicando 9 — a “mesmo sistema chega & 2 conclusio de que as maiores obras-pri- “Tas nunca sairam_ do ambito estreito do lugar-comu: 1. /Em “La Ginestra”, de Leopariia a natureza nao cuida dos homens, Em “I ) Sepoleri”, de Foscolo, os povos civilizados devem honrar os 24 tumulos. Em “La mort du loup”, de DeVigny,/o homem deve so- ov! frer e morrer em siléncio. Em “Moise”; do mesmo: a grandeza e o dominio fazem o homem solitario e infeliz. E termina: “E todos os maiores poemas, da Divina Comédia ao Fausto, que outra cou- sa seriam, mais que uma aglomeragao de tais vulgaridades?”.” "Se podem nos Teportarmos a mais alta Antiguidade veremos que d ibeleza Tm Vali, feminina’ foi sempre 0 motivo preferido dos poetas e escrifores de todos os tempos,Mantegazza estabeleceu esta equagdo que ele chama inexordvele-que em 10 modo justifica a preferéncia a que nos referimos: “II bello — il piace: Helena, Circe, Laura, Beatriz, Ignés de Castro, Julieta, Margarida e Eleonora nao serao, acaso, tio imortais como Home- ‘to, Petronio, Péetrarca, Dante, Camoés; Shakespeare, Goethe ¢ Poe? ads ca ‘O-amor, que foi cantado do por todos os poetas e sempre o sera, Ais ee ao" nao é por acaso uf tema inesgotavel ¢m todas as suas numerosas <1 variagbes e er mod: lidades? O adultério que alguns deram como (12) Cf. Emile Faguet. “De l’influence de Théophile Gautier”. Révue des Deux Mondes, Lxxx1 (4): 327-41, julho de 1911. (13) Cf. A. Soffici. Satatue e Fantocci. Florenga (1919), p. 180. (N. do A.) EEE Ox 123 SION + Narotow ] iss" ave quis 4 \ uma corivepgio sua com a ate nuova, invengao da escola naturalista também nao sera um velho tem: Ja nao foi cantado por Homero na Iliada e por Dante no impe- recfvel canto v da Divina comédia? O episddio de Paolo Mala- testa e Francesca de Rimini nao se repete hoje em quase todos os dramas, em quase todos os romances? Nesse caso nao se pode considerar nenhuma das modali- dades e conseqiiéncias do belo feminino, seja este 0 belo classi- co, 0 belo sensual ou o belo gracioso, as trés formas fundamen- _tais-em que o divide Paes temas gastos para a arte. juzir nela a beleza sensual, segundo dignava-se contra os amores descritos pelos poetas anteriores, os quais tendiam a fazer da poesia um mar de leite e mel. Caiu, entretanto, como em geral escrifores natura NO Extremo oposto, também censurdvel. os escritot As poesias que se seguiram ao Postuma ficaram sendo, em gran- de parte, um mar de veneno e fel. Abominava o sentimentalismo amargo e plangente dos poemas anteriores: cant e hipocrisia que eram algados as honras de cinones da arte, dizia ele. Nos poetas anteriores, Virtorell)* triunfava, ¢ Nice Silva, l'amica lontana, eram os perpétuos modelos. Os mais audazes chegavam até a Elvira de(Camartine. O que se tornava necessério introduzir na arte, isto é, “a Verdadeira mulher com suas fraquezas, a filha de Eva como a fez a natureza”, foi o que tentou, Mas fechou-se nesse (14) Referéncia a0 livro L'amore, de Paulo Mantegazza, escritor antropélogo italiano que esteve em contato com os indios da América do Sul (1854) e depois criou o Museu Antropolégico e Etnografico de Florenga, em cuja universidade inaugurou a cétedra de Antropologia. Divulgador das teses de Charles Darwin, Mantegazza deixou obra polémica em livros como Igiene dell'amore e Fisiologia dell’amore (1873), Il secolo tartufo (1888), L’arte de prender moglie (1892), entre outro: _ (15) Pseud6nimo.deOlindo Guerrini)( 1845-1916), poeta, ensafsta ¢ escritor italiano que publicou em-+4877, sabro titulo de Pdstuma, um livro de ver- sos que atribuiu a certo Lorenzo Stechetti, nome que acabou adotando regular- mente como pseuddnimo e sob 0 qual passou a assinar 0 resto de sua obra, em geral vazada num tom blasfematério e escandaloso, de que so exemplos os livros Polémica (1878), Chloe (1879) e Rime di Argia Sholenti (1898). (16) Referéncia a Jacopo Virtorelli (1749-1835), poeta anacredntico ita- liano cujas primeiras rimas, de cardter satirico e burlesco, comecam a circular por volta de 1784. rf 124 circulo estreito. “Se ve que su conciencia se adapta a su pequeno mundo de imagi ne voluptuosas o ironicas, como la ranaa su eye charco”, disse Rods, “No aspira a nada mds.” Cafra por sua vez >o em outra séri Sce-ifwares-conatins diversa da que combatia. O No grande pensador uruguaio teve para isso uma expresso feliz, das que se encontram a ufa em toda a sua obra admirdvel. Escolheu para a poesia do autor das Rimas de Argia Sbolenfi, 0 qualificati- vo df “poesia de galinheiro”. Explica todavia que ninguém pode negar que nos galinheiros caiba também sua espécie caracteristi- ca de poesia. “Imaginai, sobre um quadro de sol e de verdura, 9 pt Of galo hicido, altivo e ardente; com o seu cortejo de esposas; — langando ao ar matinal, o clangor vibrante de seu clarim, e reco.“ Ihendo, sem perder seu garbo nem seu entono, os dourados graos Rg Ch espalhados pelo solo.” Ha nesse quadro, sem diivida, peleza, (ha on graga, hd expr . Mas € que “acima desse agradivel cercado, “ estd 0 espago imenso onde a asa da dguia quebra os ventos e as nuvens e onde cantam, entre as copas das arvores, os pi Floreal”.” gee na poesia italiana combatera_o motivo que se ©, tornou lugaf-comum. Em Portugal o sr. Elgtnio de Casto com- bateu as expre: s lugares-comuns. E cit jas que em ~ % verdade eram vifornellos ¢ 4 poesia luso-brasileira. E ) prosseguia 0 autor de Belkiss em seus ataques & pobreza franc cana das rimas ¢ 4 no menos franciscana pobreza do vocabuldrio. O interessante é que osfinovadore inimigos de tugares-comuns, / s, parnasianos, simbolistas, decadentes e misticos, se oe RARER parece ter saido da boca de um bosa: “O sr. Zola € 0 Je, oF Crist6vao Colombo, 0 Vasco da Gama,0 Magalhiaes, ograndeo00”"\ Albuquerque do lugar-comum”. E no mesmo tom, continua: “Ele equipa uma frota de trezentos navios ¢ adianta um exército de 30 (17) José Henrique Rods. El camino de Paros. Valéncia (1918), p. 161. (N. do A.) i 125 SPE Yo Hoye _shodd mil homens temerdrios para descobrir que ‘na vida nem tudo sao rosas’, que ‘ndo se é sempre jovem’ ou que ‘o dinheiro no faz a felicidade’”.'* Descontando os exageros do célebre fandtico, vé-se que até certo ponto ele esté com a razao e a leitura meditada de qualquer obra de seu “Crétin des Pyrenées” dé-nos a impressio de que descobriu afinal 0 verdadeiro calcanhar-de-aquiles do pai dos Rougon Macquart. Bloy em algumas paginas de Lourdes recolhe dezenas de exprestses’ desta marca: “L'histoire ne retourne pas en arriére”, “U’humanité ne peut revenir a l'enfance”, “Uinex- pliqué seul constitue le miracle” etc., etc., etc. Se Virgilio foi foi um plagiario, se o foram igualmente Dante e “ \" t amos, Shakespeare e alae sai Montaigne e Corneille, Raci oa, ligre, Milton & Pascal) sé o foram quase todos os grandes ay y Ten o de todas as raturas, se quase o foram todos os is v ee 10} be sone asses ¢ incorrigiveis de idéias e a OF-AW AUDA, MWS. =: _ideal. Um dos seus chefes é Menotti Del Picea, ja conhecido ‘asil como autor do lindo poema “Juca Mulato” e alhagada “Lajs”. Outro nao menos ilustre é vel tos qui Constituir a Trilogia do exilio: Os condenados, A estrela de absinto e A escada de Jacé, Ha ainda muitos outros, como. ario de Andrade, do Conservatério de Sio Paulo, que lo Conservatori escreveu hétempes ima série de artigos de sensagao sobre! Os Nao é preciso citar sud visao estética originalissi _to. Guilherme, que possui um: prontas obras do valor de Scherazada, das Cangdes gregas, de A flor que foi um homem e reserya-nos ainda grandes surpresas Seria injusto-esquecer snomes de _yalor- loacyr, e ibeiro Couto,Agenor Barbosa ¢ Afonso Schmidt, que, embora nao sejam todos paulisi 10 io residam em S86 Paulo, nem por is isso. deixam ¢ de. colaborar ativamente para o's orseul progres- ‘© fora do movimen- turismo 1as_uma reacdio medrosa como tantas outras que tém surgido entre nds e que quase infalivelmente terminaram como as comédias de Betqui num “Prenez garde: voila mon mari”.’ (2) Sérgio nos fala aqui das solugdes cémicas de Henri-Frangois-Becque (1837-1899), teatrélogo francés cujas pecas Le corbeau (1882) ¢ La parisienne (1885) estio entre as principais experiéncias realistas no teatro europeu do sécu- lo xix. Becque notabilizou-se pelo estilo seco, direto livre no recorte preciso das limitages da criatura humana no contato com o dia-a-dia, 0 que 0 levou a superar Dumas Filho e preparar o caminho para André Antoine. (3)'Publicado na revista Fon-Fon (RJ), XV (50), 10 de dezembro de 1921 com 0 titulo de “O futurismo paulista”. Sérgio recordard este breve escrito que prenunciava a Semana num artigo publicado no Didrio Carioca de 17 de fevereiro de 1952, por ocasido dos trinta anos do Movimento de 22, revelando algumas coisas interessantes. “E mais ou menos conhecida” — € 0 que entao dizia — “a crénica desses sucessos. Meu proprio depoimento pessoal, depoi- mento antes de espectador interessado, mas que no chegou a participar deles, nem sequer do maior, que foi justamente a Semana de Arte Moderna, quase nada Ihe acrescentaria. O interesse pela literatura moderna viera-me principalmente das conversas com Guilherme de Almeida. Em seu escritério de advocacia, & rua 2G Muvtarm gf33, own $0 MONET ¥ M alma de artista Como poucos) tem e ilherme de Almeida}que, alids, com a O61 WADA f. y progressoani- Jy) Quinze, assisti mesmo a elaboragdo do projeto de capa de Klaxon, inspirado, por sua vez, na capa do poema de Blaise Cendrars, ‘La fin du monde racontée par Tange”, que eu descobrira casualmente em uma livraria. Por esse tempo vim a travar relagées com Menotti e, através deste, com Mario ¢ com Oswald de Andrade, Uma conseqiiéncia desses encontros foi certo artigo, sem diivida bem canhestro, escrito com dezenove anos de idade, que, ji de mudanga para o Rio, Publiquei em 1921 no Fon-Fon e de que s6 guardo lembranga do titul “Futuristas da Paulicéia’ (sic). Outra conseqiiéncia” — completa Sérgio — “foi 0 ter sido escolhido para representante, no Rio de Janeiro, do mensério que seria 0 Porta-voz da revolugao modernista.” (Sérgio refere-se a revista Klaxon.) 134 ROBERT DE MONTESQUIOU HA trés dias o faconismo burgués feia-telegriifica anunciava © falecimento do conde Robert de Montesquiou- ea pie estivéssemos talvez ee cleewdeen ia-dézia de palavras do telegrama, 0 que é regra entre nés nestes casos, resolvemos fazer agora uma excegao. E Montesquiou bem a merece. Descendente de uma ilustre familia francesa, que produziu, ma a-do marechal Monttuc) do marechal s mosqueteiros, d nou, marechal de Luis xiv, de Anne- Pierre de Montesquiou, conquistador de Sabdia, do abade Montes- quiou, ministro de Lufs xvul, 0 autor das Hortensias bleus, : se dizer, To ES pts Cl soem msl Podia-se orgulhar Montesquiou de ter sido a origem de uma interessante série de personagens de romance, dos quais o pri- meiro foi decerto o célebre duque Jean Floresses des Esseintes, do A rebours. E notavel a discussdo que se tem feito na Franga em torno da figura aristocratica do persona; Huysmans.) Ha perto de dois anos, tendd-Pierre Li8vig escrito um artigo sobre o incompardvel romancista do La“bas, um individuo man- dou uma carta 4 redagaio de Les Marges ondendo as diividas que 0 autor do artigo punha sobre se Monee, servira ou nao de modelo para Des Esseintes.' ——__— (1) Pierre Liavre rastreia os precursores da preciosidade de Des Esseintes =P Rohs OBA AINA A NODA 135 Prep MANUEL BANDEIRA one ERECTA QuALUTDADE Eonbancyne Iwo, es rderg y 4 Bee, 8s alguma razio de ser. M: sat quem primeiro enunciou faueta teoria célebre, hoje batidissima, “alguna riod Alias, dos raros «| = ——— E = Pree RQ que ficou, até ha bem pouco, ca, a poesia cientifica.e outras tolices\do mesmo jaez, A frase de Fes tio mal interpretada, nao é muito mais do que uma variaiitedaquele principio: “Um belo verso que nada significa é inferior a um verso menos belo que significa alguma coisa”. — S6 ee mom porém, alguns poetas tiveram cons- ia do preceito do autor dos aes zeschi, por exemplo, possuiu-a sempre no mais alto grau. ente a propésito del 9 homem mais inteli- ~ range gente da Itilia, expos aquela i idéia interessa @ que dio” toler a idéia do diverti- mento relo divertimento. A\estética-dé Palazzeschi coaduna-se ©" m com essa teoria. Ele proprio diz em poemeto admirdvel: “Chi y,,, a yen, sono?/ I saltimbanco dell'anima mia”. (A) Sérgio refere-se a obra Ppottica de de Théophile Gautier, decisiva na con- sim cl ela arte, escrita entre 1852 € ‘completada em seis edi “Ses que 0 autor enriquecia de Novas pegas, Tani aperfeigoar ) projeto original de perfeigao técnica e de suas variantes) o que 0 Jevou a aum Zoito poemas da edicdo de 1852 para 47 na edigao de 1872. (2) Cf. Aldo Palazzeschi. Poemi, Florenga (1909). A referencia’: riestetica 141 ere Noe ST OTE =» baw welstibo 5 WS Acaya ler + CAthau yoRSAH2O$ gyre actual ® Puxsceit 5 foes co s ~ Kn. pt Foi Pech como nota 0 mesmo Soffici, quem como APE “© nenhum outro; talvez, usou de uma poesia ‘ompreendida como iL ~ simples capricho, como mera efusdo de um estado lirico qualquer ~) , que este seja, sem nenhum escopo, sem nenhuma razao de ser reine Valores Soins coments RS rasil quem se.acha mais precisamente nesses casos é, { sem ee eae © poeta do Carnaval, Nao quero Wdouwiea dizer que ele seja ‘Pigono do criador de Perela. Ao contrario, _. Sua obra reveste-se de_tak Een Ge originate inati que é indtil GON) irmos procurar guem mais influéncia exerceu sobre ele. Hé nela i eye y, 4M pouco dessarmetancolia muito brasileira que existe por exem- i plo naquele verso, o tiltimo do seu tltimo livro: meu Carna- ‘Yzacilelgo Val sem nenhuma alegria!...”’ Essa melancolia é porém mais acentuada em sua primeira obra, A cinza das horas, onde hd estes versos que poderiam servir de epigrafe ao Tivro: “Fecha o meu livro, se por agora/ Nao tens motivo nenhum de pranto”.* No Carnaval, talvez por exigéncia do assunto, essa melan- colia quase desaparece. Citei essa\parti precisa- mente para mostrar que a influéncia de‘Palazzeschi nao existe af. E sabido que o criador de Pereld nao admite a tristeza como ele- mento de emogao artistica. Em seu manifesto futurista de dezem- bro de'1913, declara sem ambages que o soliléquio de Hamleto, NevACOUR = BRASILE YO - Wkcloli i citime de Otelo, as ftirias de Orestes, o fim de Margarida 2p tier, os gemidos de Oswald, acompanhados por um publico igente,| devem suscitar as mai: isadas.” E diz mais: que as maiores fontes da alegria humana\estio no homem que chora e no homem que morre. Nada disso se deduz da poesia de uel Bandeira. iy MBs Ela é, antes de rsa wr Georges Brandes, 0 gran- Peep, o i de critico dinamarqués, em seu ensaio sobre A nota — | que os Xerdadeiros autores se conhecem pelo los de | | seus escritos sé poderem ser escritos por eles e por ninguém. ” | is.’ Por alguns de seus poemas, por todos eles, pode-se dizer N45, Vem apy raque cabe bem entre eles, entre os verdadeiros auto- hibhace | res. Quem senio ele poderia ter escrito, por exemplo, para s6 } falar em sua ultima obra, a magnifica “Baladilha arcaica”, 0 sen- / timental “Poema de uma quarta-feira de cinzas”, 0 “Sonho de \P\7 of Uc uma terga-feira gorda”, em que ol verso livre foge'a todas as regras : See * etudindrias e mesmo aquele belo “Rimancete”, embora lem- c. um pouco Aa ion 10 Nobre? A Xen ‘Bandeiracabe, pois, atualmente, uma bela posigio (5) “L’uomo che ride del riso stesso, 0 servendosi della gioia gia scavata da aliri, 0 é un poltrone o un impotente |...| il Soliloquio di Amleto, la gelosia di Otello, la pazzia di Lear, le furie di Oreste, i gemiti di Osvaldo ascoltati da un pubblico intelligente devono suscitare le pitt clamorose risate.” Cf. “Il controdo- a Giornale futurista (36): Florengay 1913, ho quak Patazzesem ‘Procuri mostrarque a verdade trigica do mundo vulgarizada pelos academic ino passava de hipocrisia sob a aparéncia de sofrimento, o que imp0e reconhecer, segundo ele, que “nulla, di una solenne tradizione storica, pud sfuggire alla cari- catura”. Ver a respeito Ruggero Jacobbi: “Per una rilettura della poesia futurista”” in Poesia futurista italiana, Parma, Guanda Editore (1968), p. 30. (6) Georges Brandes (1842-1927) foi eritico do hebdomadrio ftiustrerer de Copenhage, onde comegou sua Carreira intelectual sob Torte influén=— cia se Hesgseer en Especializado no conhecimento das literatu- ras europeias modernas, ibém ensafsta dedicado-ao-estudo-dos temas tempo afastou-se do determinismo de Taine,’ cujas almente em 1870 na Escola de Belas Artes de Paris, e c he) com quem chegou a travar relagdes que o levaram ¢ 3 no estudo das grandes’ Vi lidades, como Shakespeare, eethe) Voltaire, Ibsen, Anatole France e 143 ura nacional: a de iniciador do-movimento modemnistal x vy Cie do Carnaval dew o primeiro golpe na poesia idiota da 4 €poca em que ainda se usava 0 guarda-chuva, que é positivamente {N\A eNol Umarprova-evidente do mau gosto estético dos Noss0s aVOs.] SP Oy| nT owtayer A Fours Na a Beas @ Prowy Mi) @DStO tAAENOE Ao ase (7) Publicado na revista Fon-Fon (ki): 18 de fevereiro de 1922. 144 BNE? ~ FONE TTIEH WN) LoVwOp, A # Qiolenr AS Unt, ENEAS FERRAZ — “HISTORIA DE JOAO CRISPI e possuir critério Se er a aS a Tee rt as i islatas a da Sujei¢ao-do-autor, em geral, as regras {\ A S stabelecidas pelos criticos e por estes julgadas infaliveis e jas. E quelo criti¢o na maioria dos casos e de um modo en naturalmente em posigio inferior do autor. Os Foie : rém, nao se conformam com isso, achando que os autores. gcse A Bl se devem amoldar fas. pontos de vista, geralmente estrei- suas idéias absurdas, aos seus preconceitos idiotas, ds suas ome rh suas burrice: . Odever cg € emitir um juizo imparcial sem se preocupar com Cr ILO de acordo com o seu modo de ver. isto € occamiano! demais. itir que o critico seja um) doutrinario| E el, y rue Boum ic. BS Fa) Pelavea praticamenteilegivel na c6pia digpontve) Poet vel refertncia jovem Sérgio ao occamismo, doutrina de Guilherme de Oceai (1300-1350), lésofo inglés para o gual eram muito remotas as possibilidadés de demonstrar_ (2) Critico € Tterato francés (1846-1917) de formagdo catslica, conhecido “por sua jmondacidade de panfletistn incontido e autor, entre outros, dos livros Les ‘un entrepreneur de démolitions (1884), Mon journal (1904) e Au seuil G3) Critico francés (1860-1937) di de Brunetiére e membro da Aca- QDIEL I Fis Darcy © sev Hever. lbém esclarecer que pxbrosenieeie esate € 0s lesde qué\0 criticolseja conscientemente enfatico. O sempre condendvell Dos dois processos aceitéveis prefiro porém adotar o pri- 4 -¥) meiro, porquanto Ado sou doutrindrio e nunca fui critico\ Devo, wy porgm, esclarecer que nao me seduz o processo adotado por ¥ érraz na composi¢ao de seu romance. Acho ojrealismo fima / mancira falha e destinada a desaparecer em pouco. Creio per- ey — =< feitamente razoavel a pergunta dos expressionistas alemae}: verdade esta aqui: para que repeti-la? Uke 15 ‘ermaz € um artista confessado: adota ainda a teoria ja batidissinr do\romance experimental.) v Apesar disso e com tudo isso ja no seu primeiro livro se P mostra um romancista forte e original, tanto quanto essas duas qualidades se podem exigir de um estreante, embora j4 se mostre um romancista considerdvel como neste caso. A Histéria de Jodo Crispim nao € um livro vulgar, ao con- trario, sai da incrivel mesmice em que caiu a maioria dos nossos romances ultimamente publicados. Nao existe ali a intriga e a anedota com 0 sal do adulteriozinho que € o|leit-motiv e 0 ritor- nello da quase totalidade dos romances ultimamente publicados. ; Além disso, 0 romance de Ferraz é uma obra caracteristica-_ ys!" mente’carioca. E mesmo uma das poucas que podem figurar neste ciate YeAN Gas OTHE dele s6 conhego no género dos nossos romances sks SRST Te gaat arg ¥ des cidade’. Assim como soube criar 0 éafajeste, personagem 1} genuinamente carioca, criou também o filésofo vagabundo, espé- iL) yh cie de Didgenes barbaro, tipo interessantissimo e nao aproveitado ainda em obras de ficgdo antes de Joao Crispim. A figura central © do romance foi tragada com figorosa observacao., ed A sua vida, toda a sua vida, é descrita com uma precisio “ ~ extraordindria. Joao Crispim € um personagem vivo. Creio que se 4 HU)! demia Francesa, da qual foi eleito secretério perpétuo. Foi diretor da Revue des Qecepse, Deux Mondes e autor de De Scribe a Ibsen (1893), Etudes sur la littérature _frangaise (1896-1908), além de outros ensaios entre os quais se incluem os estu- dos sobre a obra de Lamartine, George Sand e Saint-Simon. ASA 146 — Yea kid —VERCPEP HY : CLPEEGQLON ST A Oa perguntdssemos ao A. em que género colocaria seu livro, ele res- ponderia como Roel oleae “Queira por qué? Quando vedes um homem, perguitais-the se é um romance ou um poema?”, Enéas Ferraz realiza em ponto grande [...],° contentou-se em observa-la e descrevé-la, fazendo uma biografia fiel demais para uma obra apenas de observagiio. Porque Crispim existe de fato. No mais 0 A. nao se contentou com esse estudo integral de um individu, fez um romance profundo, de done de melancolia, embora a primeira impressiio nao seja essa. 7s Enéas Ferraz realiza em ponto grande 0 que os-cfiticos\tém © dito do homem. Seu romance nao € propriamente humoristico, mas no conjunto realiza perfeitamente a idéia que impera no | humor. Talvez Ihe venha essa atitude de sua longa residéncia na Inglaterra em fungdes diplomaticas. Em todo 0 caso, a Historia de Joao Crispim € uma obra que interessa pelo seu grand MSEC “moral'e certamente satisfaré a todos que a leiam sem precon- ceitos.” (4) Periodo empastelado na c6pia impress disponivel. (5) Publicado no Rio-Jornal (x3): 29 de margo de 1922 147