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Edited by Foxit PDF Editor / Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 For Evaluation Only. _ APARTACAO fer O apartheid social no Brasil & , = Cristovam Buarque olegg o eb. ° 2h gi" @ @ iy «De B.S eirog P23? LEITURAS AFINS O Capitalismo Desorganizado Claus Offe A Comunidade Européia A construcdo de uma poténcia econémica Vera Thorstensen A Sociedade Informatica As consequéncias sociais da segunda revolucao industrial Adam Schaff A Divida e a Pobreza Miguel Darcy e outros Para Pensar 0 Desenvolvimento Sustentavel /- Marcel Burzstyn (org.) A Guerra dos Meninos Assassinatos de menores no Brasil Gilberto Dimenstein Criancas e Adolescentes no Mercado de Trabalho Cheywa Spindel Colecéo Primeiros Passos O que sao Direitos Humanos Joao Ricardo W. Dornelles O que sdo Empregos e Salarios Paulo Renato Souza O que é Cidadania Maria de Lourdes M. Covre O que é Participagéo Juan E. D. Bordenave Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. Cristovam Buarque O QUEE APARTACAO © apartheid social ne Br: 22 edicio editora brasiliense Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 * For Evaluation Only. Copyright© by Cristovam Buarque, 1993 Nenhuma*parte desta publicagéo pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrénicos, fotocopiada, ida por meios mecinicos ou outros quaisquer reproduzit c o t Oe sem autorizacao prévia do editor. ISBN: 85-11-01278-8 Primeira ediga@o, 1993 2% edigho, 1993 Preparagio de originais: Henrique Silveira Neves Revisiio: Carmem T. S. Costa e Denise Gutierrez Capa: Emilio Damiani brasiliense Av, Marqués de Sao Vicente, 1771 01139-903 - Sao Paulo - SP Fone (011) 861-3366 - Fax 861-3024 IMPRESSO NO BRASIL Para Jdlia e Paula, parte da face jovem Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. pep SUMARIO Uma cena de apartheid social .. 9 Apartheid: a origem do conceito.......... Vi Apartagao: a outra face do conceito fi MMMOERT cere --4- +e - nee 18 A logica da apartagao................. 27 A apartagao social no Brasil ............. 32 A fabricagao da apartagao no Brasil...... 52 As outras formas de apartagao........... 75 Os limites da apartagao 80 A modernidade ética............. : 83 Conclus&o: o vocabuldrio da apartagéo .... Ss Indicagdes para leitura ..............- 90 Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. UMA CENA DE APARTHEID SOCIAT Um dia destes, no estacionamento de un McDo- nald’s, em Brasilia, dois jovens dentro de um carro se divertiam despejando batatas fritas no chao para que pivetes pobres fossem atras catando. Quem assistia, se nao se divertia também, perguntava-se por que, no Brasil, isto 6 possivel. O,que faz com cu2 um gru po se divirta daquela forma e outro rasteje daquele jeito? Se se sentissem semeltiantes aos piveies, os jo- vens do carro e os que assistiam teriam alguma solidariedade com a pobreza. Os jovens nao fariam aquilo, ou os assistentes nao deixariam que eles ten- tassem. Por outro lado, os pivetes, se minimo de dignidade, teriam assaltado os donos do carro em vez de rastejar pelas batatas frites sem um 10 CRISTOVAM BUARQUE O que permitiu a cena repugnante foi que os donos do carro se sentiam diferentes dos pobres pivetes. E estes, além de terem medo dos atentos vigilantes, viam no lixo que vinha dos ricos a Unica forma de matar a fome. Apesar da lingua comum, da mesma barideira, de poderem votar no mesmo presidente, os dois grupos se sentiam apartados um do outro, como seres diferentes. E isso que caracteriza 0 apartheid. O que disfar- ¢a sua ocorréncia no Brasil 6 que os pivetes ainda podem chegar perto dos McDonald’s e muitas pes- soas ainda se chocam com uma cena como essa de Brasilia. Mas isso esta mudando. Pouco a pouco os brasi- leiros ricos e quase ricos comegam a assumir a dife- renga em relagdo aos pobres e se acostumar com a miséria ao lado, construindo mecanismos de sepa- ragao. Por isso, é preciso despertar para o problema. Entender o que esta ocorrendo e apresentar alterna- tivas. fo Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. = et | APARTHEID: A ORIGEM DO CONCEITO N&o se pode dizer que o apartheid comecou com os brancos da Africa do Sul. Os gregos aniijos acha vam que a espécie humana estava dividida em partes diferenciadas. Apesar de serem os criadores do humanismo, dividiam os homens entre eles e os ou- tros: os barbaros. Os primeiros nasciam aa liber- dade e a riqueza da cultura, os outros, pa: Ihar como escravos. | Aristoteles nao hesitou em afirmar que os homens Ss ndo ele: 9 livres eram superiores aos escravos. 5 “Alguns homens sao por natureza livres, e outros, escravos”. Nao se tratava apenas de desigualdade, mas de diferenca entre os homens. Com excecdo de grupos primitivos, cc indios, as sociedades costumam se dividir em partes diferenciadas: senhores e escravos; arisiocratas e ig CRISTOVAM BUARQUE Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. © QUE E APARTACGAO 19 servos; crist€os e pagaos; as castas que se obser- vam em sociedades orientais; o tratamento machista contra as mulheres. S6 a partir do ‘século XVIII 6 que alguns pensado- res, como Jean-Jacques Rousseau, passaram a de- fender direitos iguais para todos os homens. A Re- voltigéo Francesa implantou um regime com o lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A Europa, que ao longo de séculos usou a escravido, repudiava a dis- criminagao e a segregagao, mas sem abolir as desi- gualdades. Apesar da democracia que defendiam, os pais da patria norte-americana foram incapazes de sonhar com uma sociedade sem escravos. Ao contrario, de- fenderam como natural que o destino dos negros fosse a escravidao e o dos brancos, viver na demo- cracia. A Revolucgao Americana implantou a democra- cia tolerando a diferenca que justificava a escravidao. S6 muito recentemente, ha cerca de um século, foi que passamos a viver em um planeta onde os direi- tos iguais foram se afirmando de maneira genera- lizada.. A escravidao nao acabou, mas passou a ser vista como um fenémeno raro, indesejado, barbaro e repugnante. Mesmo assim, a desigualdade nao diminuiu. Apesar do fim da propriedade de seres humanos por outros, a desigualdade continuou, dependendo da nacao, classe social, raga, Sexo, OU simplesmente da sorte. E essa desigualdade cresceu. Ainda que os direitos sejam estendidos igualmente a todes, a civil zacao avangou aumentando a desigualcade. Quando comparamos al desigualdace »ntre um aristocrata e um camponés na Franga dos ternpos lu- xuosos do Rei Sol, percebemos uma disiancia menor do que aquela de hoje entre um pobre e uma pessoa de classe média, nao importa o pais em que estejam. Ha trezentos anos, os aristocratas usavam cilase o mesmo tipo de bens e servigos que eslava a disposic&o dos camponeses: os médicos de ricos e de pobres sabiam o mesmo e dispunham dos mes- mos equipamentos; em tempos de paz e aoundancia, a quantidade de alimentos nao variava muito confor- me as classes; 0 nivel educacional era parecido, quase todos eram analfabetos; apesar de alguns te- rem carruagens, os meios de transporte e7am iqual- mente lentos e desconfortaveis; 0 lazer pouia sei ieito na corte ou no campo, mas sem muita diferenga além da ostentagdo dos nobres. No século atual, o processo econémico passou a oferecer variadas possibilidades de consumo, restri- tas apenas a uma parcela da populagao. Em vez de criar a abundancia e satisfazer a necessidade dos mesmos e€ poucos produtos de antes, como muitos sonhavam, a industrializagdo ampliou a variedaue de produtos e assim aumentou as necessidades, em vez de diminui-las. 14 CRISTOVAM BUARQUE Gragas ao avango técnico, as reformas sociais e a disponibilidade de recursos naturais, os paises ricos conseguiram quase eliminar a pobreza, aumentar substancialmente o nivel de consumo da maioria de suas populagées e diminuir a desigualdade in- terna. Dentro dos outros paises, a maioria continuou pobre, mesmo que uma minoria tenha conseguido atingir os padrdes de consumo dos paises ricos. Mas no conjunto o mundo ficou mais desigual. Durante décadas, essa desigualdade n&o criou qualquer dificuldade ao funcionamento da sociedade de cada pais, porque os pobres ainda conservavam resquicios do conformismo imposto aos escravos e servos, ou ja tinham adquirido esperanga de serem inclufdos nos privilégios. A partir de meados deste século, as coisas come- garam a mudar. A urbanizacgao mostrou o mundo mo- derno para todos, criou desejos adicionais e reduziu 0 conformismo; cresceram as tenses sociais, os po- bres ameagaram com revolucées, os ricos se defen- deram com ditaduras. Essa situagao ocorreu de maneira mais dramatica na Africa do Sul. Até o final dos anos 40, a desigual- dade econémica entre brancos e negros existia sem necessidade de leis especiais que separassem fisica- mente uns dos outros; a populacao negra se subme- tia a discriminac&o exercida pela minoria branca. Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. O QUE E APARTAGAO 15 A urbanizagao, o crescimento econdmico concen- trado para os brancos e a rebeldia da maioria negra forgaram a implantag&o, em 1950, da Le! do Registro de Populagdo. Criou-se um sistema lega e man- tinha os grupos sul- africanos separados. Um con- junto de leis explicitou, determinou e regulou a se- paracao entre as partes da sociedade. A nova lei classificou os habitantes da Africa do Sul ern trés ca- tegorias: os africanos ou negros, os de cor ou gos e os brancos. A esse sistema deu-se 0 nome de ar no idioma africaner, falado pelos brancos sul-airica- nos, quer dizer separagdo, apartacao. Novas leis surgiram complementando 0 desenvolvi- mento separado na Africa do Sul. Foram regulamen- tadas as areas onde as pessoas poders 4 trabalhar e circular conforme sua cor; consolidou-se a necessidade de passaportes para os ni0-b circularem entre as areas; proibiram-se cont sociais, inclusive casamentos, entre pessoas de ragas diferentes; foram estabelecidos sistemas segregados de educagao com diferentes padrées qualidades; definiram-se tipos de emprego para cada n restringidos os movimentos sindicais de trabalnado- res ndo-brancos; e negou-se a participacao politica aos n&o-brancos nos processos parla’ ras @ go vernamentais. 16 CRISTOVAM BUARQUE Uma lei de 1951 estabeleceu uma organizacao politica para os habitantes negros separada da dos brancos. Foram criadas dez “nagdes” que dariam ci- dadania aos habitantes negros da Africa do Sul, in- dependentemente de onde eles morassem. Com isso, Os Negros perderam a cidadania sul-africana, tornan- do-se instrangeiros, estrangeiros no préprio pais, o que legalizou a sua exclusdo do processo politico sul- africano. O sistema foi implantado visando garantir e ampli- ara concentracao dos privilégios dos brancos. Nao foi o apartheid que causou a desigualdade entre bran- cos e negros na Africa do Sul. Foi a desigualdade crescente que levou os brancos a implantar o apar- theid, como forma de conservar e ampliar seus privi- légios, invidveis se fosse feita uma distribuigao eqiii- tativa dos resultados do progresso. Depois, 0 apartheid aumentou a desigualdade, mantendo uma crescente diferenciagao no bem-estar, no acesso a propriedade, nos beneficios sociais, con- forme o sul-africano fosse de raga branca, negra ou mestiga. A educagao ficou obrigatéria para todas as criancas brancas, em escolas com qualidade equiva- lente as dos paises-com-maioria-rica; para as outras criangas, a escola era opcional, em condigées preca- rias e com um numero de vagas que crescia mais lentamente do que o numero de criangas; o sistema de servigo social beneficiava diferentemente cada © QUE E APARTACAO, 17 pessoa conforme sua raga; o setor uroano branco dispunha das mais modernas facilidades médicas, en- quanto as areas negras continuavam cor ta in- cidéncia de mortalidade infantil e doengas eridémicas, como conseqliéncia da precariedade dos servigos médicos. Foi gragas a esse sistema que a economia sul-afri- cana desenvolveu-se e enriqueceu, do pon'o ce vista dos brancos. Impedindo a ameaga politica que ocor- reria em um sistema nao apartado, 0 aperheid foi o sistema social que permitiu o surto de desenvolvimnen- to econémico da Africa do Sul. Evitando a distribuigao da renda, garantiu a formagao de uma base de con- sumidores de alta renda e os recursos necessdarios aos investimentos. O que mudou com o apartheid nao foi o aumenio da desigualdade, mas a afirmagao da diferenga ®, com esta, a aceitagao sem constrangimento da J gualdade crescente. Ao se sentirem diferentes em relacdo aos negros, os brancos incorporaram uma nova ética que lhes permitiu nao sentir responsabilidade nem culpa dian- te da desigualdade. Da mesma forma coro os curo- peus nao sentiam antes com os escravos ou com os indios das Américas. E como os ricos brasileiros co- mecam a nao sentir diante da pobreza urbana, da fome ao redor, da mortalidade infantil, do assassina- to de meninos de z a a Pe BD Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. © QUE E APARTAGAO 19 APARTACAO: A OUTRA FACE “DO CONCEITO DE APARTHEID O sistema de segregacao racial na Africa do Sul re- cebeu o reptidio do mundo todo. Em 1950, a humanidade acabava de sair de uma guerra mundial contra o nazismo, que tinha entre ou- tros defeitos o racismo, o culto A supremacia da raca ariana. O mundo inteiro estava horrorizado com os he- diondos crimes contra judeus e outros grupos étnicos ou politicos. Os Estados Unidos estavam lutando con- tra a segregacao racial dentro de seu territério. Os pa- ises da Africa e da Asia passavam por um processo de descolonizagao. A América Latina fazia sua deco- lagem para o desenvolvimento econdmico. No outro polo ideolégico, o socialismo se consolidava como alternativa para a implantagdo de sociedades sem desigualdade. Em todas as partes, 0 mundo vivia a eso ga de construir uma humanidade integrada, sem diferencgas nem desigualdades. Ao consolidar 0 ape anos 50 e 60, a Africa do Sul caminhava contrario ao de todo o mundo. Para todos, 0 apartheid era um anacronismo e uma aberracao. Mas a humanidade que se chocava com 0 que era cometido na Africa do Sul nao percebia sue os po- vos caminhavam para uma crescente desiguaidade econémica e social, que terminaria por impor um ou- tro tipo de separagao: social e econémica, em vez de racial. Em cada um dos pa/ses-com-maioria-pobre, uma elite nacional assumiu 0 mesmo papel dos coloniza- dores estrangeiros e passou a explorar e e usufruir a potencialidade do pais, sem distribuir os rosu't usando métodos t&o ou mais brutais do antigos colonizadores. Nos paises da Améric da Asia e da Africa formaram-se elites « »S mos padrées de consumo dos paises ricos, mas a custa de imoral concentracao da renda nacional. Nos paises socialistas, a construgao da nova socie- dade foi utilizada para justificar a abolicdo das liber- dades individuais, construindo-se privil S politicos tao absurdos quanto os privilégios dos gru- pos econdémicos e das aristocracias medievais Apesar disso, 0 otimismo dos anos 50 dia a realidade da construgao de desigualdades cres- centes. ‘OSs oc os dos 2a Latina, 20 CRISTOVAM BUARQUE Mesmo quando estudavam, constatavam e denun- ciavam a desigualdade decorrente da concentragao da renda, os economistas e socidlogos caracteriza- vam a desigualdade distintamente do apartheid, por- que pensavam que a ascensdo social permitiria aos pobres saltar o muro que os separava dos ricos. Até os anos 60, havia a crenga de que todos os paises doé-mundo e as suas populagées atingiriam os mes- mos padrées de consumo dos Estados Unidos. © que mudou nos Ultimos anos foi a consciéncia da impossibilidade de que uma parte consideravel dos pobres possa saltar esse muro. Constatou-se que o crescimento econdémico apresentava limites e que pelo menos quatro razdes impedem que o padrao de consumo dos ricos se espalhe para todos os habitan- tes do mundo: A -raz&o ecoldgica: diversos estudos realizados no final dos anos 60 permitiram a descoberta de que os recursos naturais disponiveis no mundo nao seriam suficientes para continuar 0 crescimento econdmico no mesmo ritmo das décadas anteriores. E menos ainda para que todos os habitantes pobres do mundo pudessem consumir a mesma quantidade que os habitantes ricos. Faltariam imediatamente petrdleo, Agua, arvores, ar. Sem uma radical e imediata revo- lugao tecnoldgica, ainda que fosse possivel atender a necessidade desses recursos, a vida no planeta fi- caria insuportavel pela poluigao do ar e da agua. Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. O QUE E APARTACAO. 21 A razao econémica: a realizagao do processo pro- dutivo nos moldes dos paises ricos exige ura cispo- nibilidade de capital que nao existe no ee nem existira por muitas décadas no futuro. Mesmo que nao houvesse limites fisicos ao consumismo para todos os habitantes do mundo, a realidade econémica impe- diria que todos os pobres atingissem o nivel d= rique- za dos ricos. A raz&o tecnoldgica: 0 que faz a situagaio de hoje diferente da dos tempos dos gregos 6 que /4 ndo ha mais necessidade de escravos, nem mesmo de mui- tos trabalhadores. O avanco técnico permite que os ricos n&o necessitem de pobres para o trabalho: as maquinas fazem o papel que antes era reservade aos escravos e depois aos pobres. Em vez de nscessitar de trabalhadores, o sistema permite a sua exclusdo. Os “barbaros” podem morrer fora — na Airice na Asia, na América Latina — ou como sern-ieto nas ruas e bairros pobres das grandes cidades dos pai- ses ricos. A raz&o social: com 0 avango técnico, as conauis- tas sindicais e a necessidade de deme dare ab- sorver os produtos do sistema econémico, criou-se uma aristocracia operaria com niveis de renca e con- sumo distanciados da maioria da populacdo ial. O resultado 6 que estas parcelas passam a necessi- tar de apartagao como forma de defender seus privi- légios. Como os operarios brancos na Africa do Sul, 22 CRISTOVAM BUARQUE os trabalhadores integrados ao setor moderno po- dem ser os primeiros defensores do apartheid. Sua renda esta apenas imediatamente acima da linha que separa os incluidos dos exclufdos, e os bens e servigos a que tém acesso serao os primeiros a ser demandados pelos novos inclufdos. Por essa razdo, esta entre os trabalhadores europeus o maior apoio as propostas neonazistas contra os imigrantes. Essa sifuagao péde ser observada no plebiscito entre os brancos para abolir 0 apartheid racial na Africa do Sul. Segundo pesquisas de opiniao publica, foi entre os operarios brancos que houve menos apoio as medidas para abolir a segregacao. Sao eles que vao enfrentar a disputa salarial, 0 espaco urbano, os servicos sociais com a populagao negra, quatro vezes maior do que a populagao branca, enquanto os ricos continuarao com sua renda e seus saldarios assegurados pelo nivel de qualificagao exclusiva que receberam e pelo resultado dos investimentos que fizeram. Com o fim das leis do apartheid, a apartagao sera feita pelo mercado: independentemente da cor de sua pele, cada rico comprara os privilégios que até aqui eram garantidos pelas leis conforme a raca de cada um. Da mesma forma como os sul-africanos brancos conviveram com os habitantes de cor negra enquan- to estes nado ameagavam seus privilégios, os paises Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. O QUE EAPARTAGAO 23 europeus conseguiram conviver com imigrantes en- quanto estes eram poucos e se comportav2n dentro da cultura européia; os Estados Unidos puderam dar- se ao luxo de abolir as leis de segregagao racial e tolerar a imigragao porque a absorgao de negros ¢ es- . trangeiros nfo ameagava o padrao de vida cos bran- cos. | Nos ultimos anos, quando o numero de imigrantes comecou a ameagar a estabilidade democrafica e cultural, os europeus passaram a assumiy medi protecionistas, restritivas, que aos poucos se transfor- maram em um novo tipo de apartheid. Os europeus, que imigraram para todo o mundo, quando na Europa havia fome, desemp: © re- cessao, e que receberam mao-de-obra de iouo o mundo, quando dela a Europa necessitou para sua reconstrugao, passam agora a assumir «xolicita- mente a necessidade de a Europa proteger-se con- tra os pobres do mundo. Os Estados Unidos, que foram construidos por imi- grantes, comegam a murar suas fronteiras com o México, e a guarda marinha passa a funcicrar como protetora contra os boat-people que chegam em fra- geis embarcagdes pelo Caribe. Hong Kong faz o mesmo contra os vietnamitas; a Italia, contra os albaneses. Na Alemanha, os neonazistas passam a perseguir os imigrantes com a conivéncia de policiais e possivelmente com o apoio de grande parte da AS 24 CRISTOVAM BUARQUE populagao, que fica contra os métodos nazistas mas nao contra os que visam proteger seus privilégios con- tra os estrangeiros. As populagées européia e norte-americana passam a viver uma ambiglidade que certamente foi vivida na Africa do Sul por muitos brancos antes dos anos 50. Ja sentem a necessidade de isolar-se do resto do mundo para proteger seus privilégios exclusivos, mas ainda querem manter a aparéncia dos valores éticos da igualdade e do internacionalismo, que eles pro- prios inventaram ha trezentos anos. Essa ambigili- dade esta sendo pouco a pouco desfeita. A solu- gao sera criar leis que legalizem e legitimem a separacao. Na Franga, os lideres de direita propdem medidas restritivas e os de esquerda s&o obrigados a copiar. Portugal, pais que sobreviveu gragas aos délares re- cebidos por seus emigrantes no exterior, inclusive no Brasil, passa a maltratar os brasileiros que tentam entrar na Europa por Lisboa. Até prova em contrario, os brasileiros passam a ser sinénimo de prostitutas, de travestis, de bandidos, de miseraveis em busca de emprego. Em sintonia com 0 processo de desenvolvimento d6s anos 50 e 60, a Europa e os Estados Unidos re- pudiam o racismo sul-africano mas praticam um clas- sismo com as mesmas conseqtiéncias, a mesma se- gregag&o, apenas substituindo a diferenga racial por Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Corporation, 2003 - 2010 - For Evaluation Only. O QUE E APARTACGAO, 25 uma diferenga social e econémica entre os que con- somem o luxo e€ os que vao em busca de sobreviver do lixo. A Europa se sul-africaniza. Ja nao 6 0 apartheid racial, mas um apartheid social. Nao se trata do racismo tradicional. As proposias de novas leis para imigragcaéo nao visam impedir entrada de estrangeiros conforme a race, fies con- forme a renda. Os Estados Unidos dao direiio de re- sidéncia permanente_a qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade ou raga, desde que ingresse com certo montante de ddlares. Na Inglaterra, os guardas das fronteiras fiscalizam mais 0 cartao de cré fo que © passaporte dos turistas que desejam enirar no pais. Enquanto isso, surge nesses paises um crupo de estrangeiros nao apenas tolerados mas !espeliacos, porque sao empresarios e intelectuais bem-sucedi- dos. A literatura inglesa 6 hoje feita especialmente por estrangeiros, que nao sofrem maior preconceito. A Africa do Sul pode seguir o mesmo caminho. Abolir 0 apartheid racial e no seu lugar impor o apar- theid social. Os negros ricos|poderao morar em bair- ros de ricos, e os pobres brancos deverao !7 bairros de pobres. A Africa do Sul se brasil O avango técnico integrou os paises e as pessoas do planeta, mas dividiu-os socialmente, fazendo da Terra um Mundo Terceiro-Mundo. O apartheid renas- ceu com outra forma, e em dimensdo plane