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BrP BIBLIOTECA DE PSICOLOGIA E PSICANALISE Directo: FERNANDO LEITE RIBEIRO (de Universidade de Sao Polo) MARIA HELENA SOUZA PATTO (organizadora) Volume 1 introducao a psicologia escolar 28 ediedo, revista 4 bat T. A. QUEIROZ, EDITOR Sio Paulo A psicopatologia do vinculo professor-aluno: 0 professor como agente socializante RODOLFO H, BOHOSLAVSKY* ee ( Prccetoap, Pt a TGS B.cubrc Um dos fendmenos mais notéveis nos ditimos anos, em todos os paises ¢ politica diversas), é 0 movi- Iitico e em relagdo as caracteristicas espec Porém, encerram também, a meu ver, um nivel de protesto contra a ‘maneira como 0 ensino tem sido levado a efeito. A investigagao psicol6- gica desta vertente do protesto ndo esgota o problema, mas na medida fem que esté presente & legitimo levé-la em consideracdo. O protesto que & também — embora "nfo s6” — protesto contra um sistema uni- . Mas, como conciliar a imagem da caduquice com formas organizacionais que pelo menos nos paises desenvolvidos alimenta-se com a melhoria das bidlio- tecas, o aumento das bolsas de estudo, o incremento de conforto ea ampliagio dos laboratérios, acumulando modernidade, tecnologia, ra- o mrelhoramento do sistema uni- rio pelo aedmulo de tais metas nao continua ocultando aspectos fundamentais da interagdo entre os que ensinam ¢ os que aprendem. \f deveriam ser sistematicamente esclarccidos? A confusdo desapare: ce quando deixamos claro que “'nflo éaduco” nia 6 sinénimo de tecno- Jeracia e que nenhuma reforma definida meramente em termos de uma ot como agent aiinans”. im Pre pr aill3 Taduplo de Maris Heda A interagao professor: tecnologia pedagégica pode ser lictamente considerada como uma mu- danga. © panorama 6 mais complexo nos paises dependentes onde, em fun- des, encontramos uma as € um vago “revolucionarismo” nas aulas, O 0 ¢ you me proteger da critiea de yue meu enfoque parcial, restringindo-me ao ponto que pretendo abordar neste traba tho: as relag6es humanas entre os que ensinam ¢ os que aprendem na universidade. AAs relagoes entre as pessoas podem set definidas por trés tipos de ‘inculos. Estes tréstipos de vinculos foram aprendidos no seio da fami lia, Ela 6 — ninguém o duvida — 0 primeiro contexto socializante. modelos internos que ela engendra configuram a trama de outras rel 8es interpessoais mais complexas ou sofisticadas. Estou me referindo 4 um vinculo de dependéncia (cujo modelo € intergeracional: pai filhos), a um vinculo de eoopera¢do ou mutualidade (Cujo modelo & i tersexual: casal e fraterno: irmao- ¢a.um vinculo de comperieao, rivalidade fraterna. As relagdes mais compleaas entre as pessoas no podem ser reduzidas a estes trés vinculos basicos mas mesmo nas relagBes mais intrineadas poceriamos ntrar resquicios destas trés formas ou estruturas bésicas de rela~ ‘Glo: embora seus contetidos variem de uma situago para outra, elas se mantém latentes; na medida em que sio estruturas arcaicas, muitas ve- es uma iinica leitura profunda revela-as ocultas sob o aspecto externo, anifesto, da interagio social, No ensino, seja qual for a concepeao de lideranga — democrat autocrdtic ou faites fare — 0 vinculo que se supde “natural” €0 vin: | A culo de dependéncia. O vineulo de dependéncia esté sempre presente no ato de ensinar e se manifesta em pressupostos do seguinte tipo: 1) sts profesee se mals gue aie 2) que «poeeaiar des peuingeT 4, K 10 no sentido de que este ndo cometa erros; 3) que o profes Definir a comut implica © estabele: contexto e da identidade dos participantes: 0 professor é quem regula 7 tempo, 0 espaco e os papéis desta relagao. Além disso, é 0 professor quem institui um c6digo um repert6rio possivel. Ao fazé-lo, integra os e6digos e repert6rios mais compartilhados da linguagem oral e escrits, somente através, suas metisagens podem ser compreendidas; ao mesmo tém- fa a ndo compreensdo dos mestios ¢, portanto, o adestramen- 0 sutile nfo consciente de quem aprende. E através do ndo compreen dido que as earacteristicas proprias do sistema social se infiltram no ato de ensinar; apesar das diferengas interpessoais, das diferentes ideo! Bias, dos compromissos afetivos, das metas e valores dos professores, etc,, estas caracteristicas sio transmitidas pelo simples fato de o profes ir 0 papel docente, Definir a comunicagto possivel com o alu- imultaneamente a cireulagao de uma série de metalingua- gens através das quais todos esses pressupostos “naturais” que enun ciei se transinitem e se instalam na ago educativa, como estrutura per- petuadora das relagSes presentes no sistema ue abrange a instituigko onde se ensi Em resumo, estou referindo-me a t fato de nfo ser dito. © professor pode achar que suas intengBes sfo "boas" — e real mente elas podem sé-1o a um nivel consciente — pode pretender deser volver no aluno a reflexdo critica, a aprendizagem criativa, o ensino at vo, promover a individualidade do aluno, seu resgate enquanto sujeito, mas uma vez definido o vinculo pedagégico como um vineulo de sub. ImissZo, seria estranho que tais objetivos se coneretizassem. No caso especifico do ensino primério, as alusbes do tipo 'a profedso: tornam clara a continuidade entre 0 ensino e set Vinculos arcaicos, aprendidos no sefo da familia. A psicologia e a psi quiatria nos mostram que a relagao familiar ndo é s6 0 vineulo que leva desenvolvimento das possibilidades humanas, mas que enquanto so- cializante € também um vineulo potencialmente alienante; dai pode- ‘mos coneluir que o ensino prolonga e sistematiza estes aspectos polares da relagdo que comeca a se formar no lar. Assim sendo, nfo é dificil re- velar contradigées entre 0 que se diz € 0 que se faz: por exemplo, atribui-se cada vez mais ao ensino contemporneo os méritos de uma \ aprendizagem ativa, Porém, em virtude da pressuposigto de uma de. ‘eee natural do aluno em relagdo ao professor, parece evidente que quanto mais passivo for o aluno mais se cumprem os objetivos. Pa- radoxalmente, quanto mais o aluno aceitar que 0 professor sabe mais, \que deve protegé-lo dos erros, que deve e pode jul: minar a legitimidade de seus interesses e que to de definir a comunicagdo possivel, mais o professor pode “ conhecimen- tos, “verter” na eabega do aluno (de acordo com a metifora do re piente e da jarra) os conteiidos de seu programa. Existe ainda uma ou- ‘tra contradigdo: preconiza-se uma democratizagdo nas aulas e uma gue deve deter: participagdo cada vez maior do aluno na aprendizagem, mas quem de- fine o processo de comunicagto é quem esti numa posigto superior es- te fato, condensado na imagem da jarra, mostra-i0s como muitas vezes chamamos de educag#o o que ndo passa de adestramento, consequén- cia inevitvel da forma em que a relagio se dé. A medida gue aprende, 0 aluno aprende a aprender de determinada mancira (deuteroaprendiza- gem) ea primeira coisa que o aluno deve apren poder”, £ o professor quem “tem a faca ¢ 0 queijo", pelo menos no que se re- fere & definigao dos critérios de verdade que vigorarfo na matéria que 0 aluno esté aprendendo, Estas colocagGes, aparentemente to coincidentes com a mancira co- mo o sistema define o ato de ensinar ‘opostas opines que me mostrassein © tema que estamos estudando, Jerry Farber (2) escreveu o seguinte, num peri6dico underground: “(u-) espera-se que um aluno da Cal State saiba qual € 0 seu lugar: chama aos membros da faculdade de senhor, doutor ou professor: sore passeia & por- a sala do professor enquanto espera permisséo para entrar; a faculéade Ihe ‘que curso seguir, Ine diz 0 que ier, © que escrever e, freqientemente, onde far 25 margens de sua maquina de eserever; dizem-the o que é verdadee0 que nfo €. Alguns professores afirmam que incentivam as discordancias mas quase sempre mentem e 0 a0 homem 0 que ele quer ouvir ou caia fora do curso, (..) Hoje outro professor comesou informindo a sua classe que nto gosta de barbas, bigodes, rapazes com eabelos compridos ¢ mocas de ealgas compridas e {que nto tolerard nentiuma destas coisas em sua classe. No entanto, mais desa- lentador que este enfoque estilo Auschwitz da educagto, 60 fato de os slunos 0 aceitarem; no passaram por doze anos de escola publica em vlo; talvez esta se- Jaa Gnica colsa que realmente aprenderam nestes doze anos; esqueceram a él- remediavelmente vaga de fea, acabaram por temer e odiar a literatura, escrevem como se tivessem passado por uma botomia mas, Jesus, como obedecem bem a ofdenst Portanto, a escola equivale ‘2 um curso de doze anos de "como ser eseravo”, para eriangas brancas enegras. De que outra maneira explicar o que vejo numa classe de primeiro ano? Téa 1 mentalidade dos eseravos, obsequiosa e bajuladora na superficie, hostile re» sistente no fundo. Entre outras coisas, nas escolas ocorre muito pouea educa ‘glo. Como poderia ser de outro modo? Nao se pode educar escravos, apenas Amestré-os o — usando uma palayra mais hortivel ¢ adequada — s6 se pode programi-los,” Tenho algumas experiéncias no sentido de tentar modificar este esta do de coisas, Quase sempre enfrentei dois tipos de dificuldades: em pt ‘meiro lugar, resistencias minhas a abandonar a seguranca oferecida Sa foutctoas on, Suh 2e 324 — Introdugao @ psicologia escolar por um vinculo definido verticalmente, 0 conforto decorrente de situa- p8es que vlo desde a tranqtilidade qué traz uma aula “armada” e pre- parada rigorosamente, na qual a ordem do pensamento € imposta pelo professor, até a comodidade de ser tratado a distancia, ov as gr ‘goes narcisistas derivadas da suposieio ou percepglo de quie os alunos ‘mantém uuma expectativa de onissapiéncia em relacio ao professor. Po~ xém, 08 maiores graus de resisté contrapunha-se @ rejeigao que a forma au pelo menos latente) de levar a efeito o ensino fomenta, Este vinculo dual fomenta uma complementaridade entre professores e alunos e ‘mesmo aqueles que se opbem de forma mais radical aw por um vineulo simétrico de co- ‘operagio complementar, no qual a autoridade ndo decorra do papel © ‘onde a competigo pelo papel e pelo poder que representa seja subst tuida por uma verdadeira competigo em relacéo ao conhecimento, co- ‘mo algo a ser criado “entre”. ‘© motor da aprendizagem, interesse auttntico da Pedag antigiidade, deveria ser tomado em seu sentido etimol6gico ‘eolocando o conhecimento nao atras do cen educative, mas em seu centro, situando o objeto a ser aprendido enire ‘os que ensinam e os que aprendem. As secuglo desta tarefa ndo podem ser atribuidas apenas as pessoas que ) participam da perpetuagdo deste estado de coisas. Tal enfoque psicolo- fista do problema ocultaria a maneira pela qual o sistema social, inter- nalizado pelas pessoas envolvidas no processo, opbe-se a uma modifica {lo do tipo de relagto vigente. Mesmo quando o professor e o aluno es- tivessem em condigges pessonis de aceitar novas regras do jogo, e sobre jas, penso que haveria por parte da instituigdo uma tenta- lar o novo ao velho, o que faria com que tais mo- s do que verter em garrafas novas 0 velho vi- fas nas quais algumas coisas seriam ivesse a mesma, a social e suas relagdes com 0 ensi- trés de suas earacter 10 € c) conservador, 5 €; queiramos ou no, a maneira como res mais claro que transporta estas caracterfs prias do “social” a estas “‘redes intrapessoais™ (padrées eu A interagdo prof posta, segundo Sullivan) que definem ov le Felagées verticals nos setores extrapedagégicos da realidade cultu (0 sistema € maniquefsta na medida em que considera que hi absolutamente verdadeiras (em si) e coisas falsas (em "més" de fazer as bilidade de submeter @ Nao é casual, portanto, que muitas das grandes inovagdes no plano das idéias tenham sido geradas & margem da atividade académica. O atra. so na aceitagdo da psicandlise por parte da Psi ciais oficiais € um exemplo nitido de que a ma de conservar a cultura — sua fungao exp uma pareela esps rém, para chegar a sé-lo ¢ a participar da uma série de obstéculos, Grande p: jade do pensamento acaba presa a estes obsticulos. O sis- com os que encerrt, muitas vezes, parece acabar as- através de uma série de ritos de iniciagto nos quais, a medida q ‘aprende, se aprende a esquecer as formas compulsivas e violen através das quais a capacidade critica foi cerceada, Com isto quero rer que a cr i mente obstacularizada mas deve cindir-se a regras externas do jogo (aceitas “por prin que po- dem ser chamadas de metodologia, tecnologia ou estratégia de agdo € que de um modo inadvertido restringem a liberdade para a reformula Go de problemas Quanto A orientagdo gerontolégica, a forma pela {ual os cargos de maior responsabilidade sio preenchidos, através de concursos baseados, na maioria das vezes, na antigiidade e nos antece: dentes, & reveladora da pressuposigio, ainda presente numa sociedade moderna como a nossa, de que os velhos sabem mais. A imagem do ca tedrético como um ancido datado de tantos conhecimentos quanto de cabelos brancos e distrafdo, é a confirmagfo de que a maior responsa~ bilidade na transmissio de conhecimentos e padrdes de atividade est nas mos de pessoas que t8m mais condigSes de deseuidar do novo do aque de estimular sua procura. Quanto ao cardter conservador do ensi no, ndo cabe nenhuma divida de que sob a chamada resisténcia & mu danga imputivel as pessoas que convivem dentro de um determinado sistema, existe uma dimensdo latente — propriedade de toda estrutura = que compensa com movimentos em algumas partes as mudangas ha- vidas em outra. Por este motivo, eu dizia que qualquer inovagio pro- aceita qui forem neutralizadas e perderem, assim, seu caré Nao passario de reformas e methoramentos para que tudo continue co- mo estat al”, empregado repetidas veres neste artigo, refere-se a formas reiteradas de estabelecer uma continuidade entre uma geragéo Constitui um dos canais através dos quais se realiza a transmis- ode ser entiquecedor na medida em que cada ato ritual introduza ceracteristicas novas, caso contratio os rituais consistem em formas estereotipadas, mecanicas, desvitalizadas e empobrecedoras em relagdo aos membros que deles participam, O a aula inaugural, o ritual da primeira aula, o ritual do trabalho prético, o ritual form zado num programa, que determina a ordem em que os conteiidos de- vem ser aprendidos, o ritual dos exames, o ritual da formatura, o ritual dos trabalhos monograficos, as teses de doutoramento, so alguns exemplos das miltiplas formas que o ensino assume e que podem set consideradas em seus dois aspectos: socializagio humanizantee s zagAo alienante. Lamentavelmente, em geral se instituem como formas vazias de relago entre professores ¢ alunos, dai o cardter estereotipado do ensino. £ importante ressaltar novamente tudo o que é ensinado pela forma, através de forma pela qual se ensina. Jerry Farber destaca o seguinte: "Os casos mais tristes, tanto entre os escravos negros como entre os alunos escravos, so os dos individuos que internalizaram tio comple- tamente os valores de seus senhores que tod ase para dentro. (.,.) E.0 caso das eriangas para quem cada exame € uma tot +a, que gaguejam e tremem dos pés a cabeca quando dirigem a 10 professor, 3 entanto, 0 que ete alot quq est enfatzando €o ue Feud destaeou) precisa — em O malstar da cultura, pot exemplo — ao dewvendar as formas satis pelas quais as norma soe So internalizadas, estabelecendo-se “no interior do individue” com uma forma de conirole interno comparivel a um exérltoinsalada mma cidade conquistada: a agressto voltada para dentro, © gus leva 4 oorglo externa a sersubstitulda ou pela cepa ou pels vergonhn de cidos. imbricam com situagSes institucionais, determinando o “Nao sei ao certo porque os professores sfo tdo fracos;talvez a propria ins trupto académica os cbrigue a uma cisdo entre pensamento e agto, Talvez a se- guranga inabalével de um cargo educativo atraia pessoas timidas que no tém ‘seguranga pessoal e precisam das armas ¢ dos demais aderegos da autoridade, De qualquer forma, falta-Ihes munigdo. A sala de . 2.0 plo € mew NA.) I 328 — Introducdo 4 psicologia escolar {as paregam inacessives e remotas. Esconde a ignordncia maciga e ostenta seus conhecimentos inconsistentes. O mede do professor mescla-se de compreensivel de ser admirado e de se sentir superior. professor deveria minimizer a distancia entre ele e seus consclente pode se eter, o detejo de Ubertar seus alunos e 0 detejo de torné-ls Seusescravos." / Acho interessante a maneira simples como este autor descreve como (0 educador pode se ver motivado interiormente a exercer 0 poder de uma determinada maneira e como a organizagio da instituigdo acadé- mica pode incentivar o estabelecimento de um vinculo especial no qual seus conhecimentos s4o utilizados como um instrumento de agressio e pode ser conseguido se, esomente se, a condi- ‘io de esconder o que nao se sabe estiver presente. Vemos aqui formu- Tada, em relagdo a0 ensino, uma caracteristiea que até hd pouco era ‘apresentada como uma carseteristica dos alunos nos momentos de exa~ me. Qué situagio é reflexo de qual? Parece que grande parte da relacio ‘entre professores e alunos consiste em desatender sistematicamente, ig- norar continuamente 0 que se desconhece para que, assim, se possa trabalhar sobre o conhecido e seguro. Define-se assim, uma forma de | ae pestender oformater pergontes? A mur pare dence sit tempenhado em que cles déem respostas; e no qualquer uma, mas as que coincidam com as que nds como professores jé demos para um pro- bilema que escathemos ou que a matéria que ministramos destaca como importante. “Importante” segundo os critérios de relevancia baseados, tanto em postulados teéricas como em claras bases ideoldgicas, nem sempre bem definidos de um ponto de vista epistemoldgico nem orien- tados por uma atitude socialmente comprometida, axiolog - Portanto, ndo é dificil entender por que a estrutura aeadémica ‘ezes como uum empecilho & investigagdo ou, no mint- mo, como um sério obstéculo ao desenvolvimento das atitudes que, de uum ponto de vista psicol6gico, deveriam definir um pesquisador (des confianga diante do ébvio, do que " logmatismo rad hd divides de numa situagio privileg 1nd decorre apenas do fato de serem poucos os que tm acesso ao ensi- no superior, mas da possibilidade de o estudo supostamente brindar 0 ‘universitério com sua incluso, uma vez formado, entre os que mais co- \nhecem a totalidade do sistema cultural A interagdo professor-aluno — 329 Esta afirmagio deve, no entanto, ser tomada com cautela, Esse privi- légio se relativiza quando observamos que esse sistema que pode ser considerado como um mosaico complexo de relagdes entre fendmenos, s6 pode ser armado e compreendido quando se possui todas as pecas, -cubegas: porém, para 5 tals que s6 per ‘com nogdes pai tam compreendé. de brindar 0s alunos com cor compreensio e eventual mo de um cerceamento da po: tais que permitem uma capt desse sistem: que fido se ensina; muitas vezes 0 vital €0-que/fdo se ensina,-A-distor- fo-aeademicista € Teonocritiea do ensino nada mais & do q exemplo da maneira como estimulamos profundas entre a 50s, Serf perpetuadores efi ste uma série de argumentos que, baseados na complexidade atual da cultura, defendem a especialistas. Mas, a desvincul 0 € intrincados que dao sen em relagdo aos aspectos mais com> io ds partes s6 pode ser defendida as fendem a necessidade de marginalizar jarda num outro contexto, a esta biente “impregna” ao espe- se a restricdo dos graus de liberdade do pensamento autd- , conformando de “dentro” dos espe: is seus modos de pensamento e aco, cessidade de promover a formacio de / as regras bisicas que surgem da reago maciga de seus colegas faze ilhin conscincias, O especialista é a homem que se mantém permanentemente ‘Com isto, nao estou defendendo a necessidade de prescindir das ins- nsino e de remeter a atividade dos técnicos, cientistas € flexiva, Ao contrério, entendo que deve- 1mos visar formaglo de universitérios capazes de entender e de assu- sir sua atividade com o sentido de uma auténtica praxis e que a forma ‘fo deste tipo de intelectual nq pode se dar através das formas tr Gionais que ainda hoje impregnam o ensino, traduzidas no vinculo professor-aluno. O que desejo destacar no texto citado € 0 risco envol do no conceito de amador. ‘Ao estudar biografias de grandes descobridores ¢ inventores, sempre | ‘me chamaram a atengfo as lutas internas (muitas vezes externas) que ‘travam contra o aprendido (que €0 reflexo do contexto ambiental inter- nalizedo), [As descobertas ou compreensbes mais importantes a respeito das re lagGes entre os homens ou deles com a natureza ou a cultura sio prece digas de sérias crises internas, Este fendmeno é nezado quando se enfe tiza que o descobrimento consiste de um ato int i que as grandes idéias ou concepgdes sfo produto de um ato a ‘Ao contrario, parecem estar baseadas numa elaboragio trabalhosa na qual o acidental ou 0 casual s6 deseneddeiam um processo quando ocorrem diante de disposigdes especiais, Em alguns casos o “acidente” cumpre a fungdo de enfraquecedor, por oposigao frontal, da rede fe- chada de idéias racionais que impediam o acesso a esse descobrimento. ‘Apesar dos miiltiplos pontos obscuros que a anélise psicolégica do “contexto do descobrimento” apresenta, existem algumas evidéncias biogréficas que nos permitem pensar que, as vezes, € somente através ‘a carga emocional que se pade romper este esqueleto ", “o verdadero eo falso" de das ciéncias muitas vezes alimentaram uma falécia experimen falsa nogdo de que a teoria sempre flui diretamente do experimento. Basta examinar a prépria explicaco de ciéncia para refutar este pont de vista. O préprio Einstein, por exemplo, diz que “nfo ha um cami- tho légico para a descoberta destas leis elementares, existe apenas 0 (caminho da intuiclo”. Seja isto correto ou ndo, parece que s6 uma ruptura (via acidente ou YY intuicdo) com as nogdes intelectuais internalizadas permite chegar & uma compreensio mais penetrante dos fenémenos. Mas, voltando ao nosso universitirio, 0 que observamos? A medida que transcorrem 05 anos de sua formagiio académica per- iva da engenhosidade ¢ da originalidade, is a ago é orientada por valores proprios (Mareuse, 7), tais como o adiamento da satisfago das necessidades, uma restrigdo do prazer na aprendizagem, ‘uma maior fadiga e uma énfase na produtividade (desde as notas até ti tulos para incluir no curriculo). Estas caracteristicas observaveis n sua formagio, mostram claramente “superego cientifico”, no qual 0 conhecimento se base “Saber & poder". Deste modo, a relagio estabelecida entre o professor € 0 aluno no plano interpessoal, no qual 0 suposto saber do professor & ‘o instrumento de coergao com 0 qual ele pode instaurar o poder na sala de aula, traduz-se no plano interpessoal em maneiras progressivas de | castragio intelectual. A que se reduzem, entio, os privilégios de um j aluno universitario? Que recursos sociais intervém neste process0, ou / melhor, qual a utilidade para o sistema dos privilégios outorgados aes tes que tém acesso aos cursos universitarios? Referindo-se & situagio nos paises desenv: ‘aul Goodman (4) nos oferece uma pista que revela como o privil jusdrio do ponto de vista da mudanga estru- ‘ural: grupo dos jovens € o maior grupo excl quenta por cento da populagto tem menos de Jar em geral & uma maneira de maater os jovens ue ocorre tem valor educative e voea 1s & necessario confinare proces sara todos em escolas durante tn por ce to do grupo etério um pouco mais velho desperdica outros quatro anos nos inst tutos de ensino superior." © ensino universitério apresenta-se, portanto, como um organismo duplamente repressivo. De um lado, a partir da marginalizacto da ati: 332 ~ Introdugao 4 psicologia escolar tam de forma suit de trés manciras, pelo menos: a) a instaurago de uum superego cientifico contra o qual, como vimos, é dificil rebelar-se ) a distorgao tecnocratica que forma especialistas num setor da re dade na qual os formados podem se inserir, com a condigio de que abram mio de uima percepe4o profunda e critiea da realidade; c) as formas ritualizadas de relagZo que fomentam a meta-aprendizagem do que nko deve ser conhecido (por exemplo, a maneira pela qual (a) ¢ (b) tém lugar). Estas caracteristicas geralmente cindidas e obscurecidas na descrigao da realidade universitaria sto ativadas através do exercicio da atividade docente. Nés professores somos responsaveis por muitas destas situagSes, Tal- vez 0s comentarios de Farber sobre caracteristicas pessoais possam es- Clarecer por que ocorre uma adequagdo nitida entre o sistema académi coe alguns de seus membros, no caso professores. E possivel que estes comentarios pequem por serem excessivamente psicologistas ¢ 0 pro- blema néo é tio simples. Porém, hé um ponto absolutamente claro ‘com 0 qual concordo plenamente: a dentincia do nitido isomorfismo ‘entre as relagdes do sistema social da sociedade global e as relagBes que imperam em sala de aula, Somenie através da percepcio deste parale- lismo € que poderemos nos livrar do papel que somos induzidos a de- sempenhar. Caso contrério cairemos na situagio magnificamente des- ita por Brecht em O preceptor: a castragio fisica do protagonista é 0 imbolo da castragio mental, o que assegura o sistema representado por um personagem de quem este preceptor se tornou um professor ideal. Tudo 0 que dissemos até aqui pe por terra a imagem romfintica se- gundo a qual a educagdo é um ato de amor. Caso seja, 0 € somente de acordo com a caracterizagao de Laing (8): “Mas ninguém nos faz sofrera violencia que perpetramase nos inligimos; as reeriminagées, reconciliagdes, a agonia 0 éxtase de uma relacdo de amor baseiam-se na ilusio sociaimente condicionada de que duas pessoas verdadeiras se relacionam, Trata-se de um estado perigoso de alucinagdo ou ilusto, de uma misceldnea de fantasias, explostes e implosOes de coragbes destropados,ressar- cimentos e vingangas (..). Mas quando a violéncia se disfarga de amor, e urna ver produzida a cisdo entre o sere ou. 0 interior 0 exterior, o bem eo mal, to- do o restante nao passa de uma danga infernal de falsas dualidades. Sempre se soube que quando se divide o ser pela metade, quando se insste em arrebatar isto sem aquilo, quando nos apegamos ao bem sem o mal, rejitando um em fa- vor do outro, o impulso mal dssociado, agora mal num duplo sentido, retorna ‘para impreghar e apossar-se do bem ¢ dirgi-lo para si mesmo,” Mas, o que hé de mau — muitos poderiam nos perguntar neste mo- mento — no ato de ensinar? Onde se encontra a agressio se consciente- mente tais efeitos nos sao alheios? A interagdo professor-aluno — 333 Bastaria ler alguns dos testemunhos registrados na bibliografia re- ente para nos darmos conta de que a maior parte dos atos educativos esto mais impregnados de violéncia do que de amor: evidentemente, ‘do poderia ser de outro modo, se aceitarmos que o ensino nao pode ser entendido isolado do contexto social mais amplo que o engloba. A vi éncia e a contravioléncia do sistema social esto presentes inevitavel- mente nas aulas, Para mencionar apenas um autor, vejamos como Henry (5) descreve 0 ensino na escola priméria “Um observador acaba de entrar na sala de aula de uma quinta série para completar 0 periodo de observagio. A professara diz: “Qual destas crianeas boas e corteses quer pegaro casaco do abservador e penduré-io?" A julgar pelas ‘mos que se agitam parece que todos reivindicam esta honra. A professora esco lhe um menino e este pega o easaco do observadar. A professora conduz grande parte da aula de aritmética perguntando: “Quem quer dar a resposta do proxi ‘mo problema?" A pergunta segue-se o habitual conjunto de maos que se agi tam, competindo para responder. O que nos chamoU a stenglo, neste caso, ¢ a pprosisio com que a professora conseguia mobilizar as potencialidades de uma ‘onduta social correia nas eriangas, assim como a veleeidade com que respon diam, O grande némero de mios que se agitaram era absurdo mas no havia temnativa, O que aconteveria se permanecessenintgveis em sous lugares? Ui professor especializado apresenta muitas situacJes de maneira tal que uma at ‘tude negativa sé pode ser concebida como uma traiglo. As perguntas do tipo — qual destas criangas boas e corteses quer pegat’o easaco do observador pendurilo? — cegam as criangas até o absurdo, obriga-as a admitir que o ab surdo é existéncia, que ¢ melhor um existir absurde do que um nio e Ikitor deve ter observado convite « partcipar do grupo. O problema essencial é que nada existe, excelo 0 ue se faz por alquimia do sistema. Numaisociedsde'em-queweompetigdo pelos sebensculturais bésicos € unv plv0 Ue-agloy ndo é-possivel ensinar as pessoas ase. ? ‘eamarem, Assim, tornarse-necessério-que & escola ensine as etiangas-a-odiarem “sem-que isto se tome evidente, pois nossa cultura nao pode __Gule as-criangas Se odeiem. Como a escola consegue esta-ambigiidade J * Acredito que a repressao esta presente na maior parte das agdes edt cativas que empreendemos e ndo poderemos encontrar perspectivas, & “menos que neguemos a forma pela qual as selecionamos, arvorandi ‘nos como autoridades que devem opinar sobre a validade ou nao vali dade das perspectivas. Enquanto continuarmos, como professores, a { selecionar as alternativas possiveis, estas ndo passardo de imposigdes e a liberalizagao das aulas ndo sera mais do que uma forma sutil e eng: ‘nosa de continuar operando como agentes socializantes no sentido re- | Pressivo do termo, 2 334 — Introduedo a psicologia escolar Na medida em que a repressto ¢ tanto mais perigosa quanto mais culta ou velada para os repressores e os reprimidos, ereio que deveria- ‘mos refletir sobre as relagies existentes entre a aprendizagem e a agres- sto. na , i is fontes de agressio na tarefa educativa poderiam ser iro lugar, o vinculo que configura a trama na qual a agdo educativa tem lugar, que assume a forma de dependéncia na qual se troea a seguranga pela submissio; em segundo lugar, a aprendiza- mplica sempre uma reesteuturagto ti {0s adquiridos como das relagses que os beleceram com estes conhecimentos. Esta reestruturagio abrange — ou pode abranger — desde a perspectiva do aprendiz, suas fanta atague to conhecido, e sobretudo sentimentos de frustracto ligados & neeessidade de moditicar, as vezes substancialmente, seus pontos de vista quando nao percebe simultaneamente quais s80 0s novos pontos de vista pelos quais deverd substituir os antigos. De outro lado, a subs- tituigdo de determinados conhecimentos por outros pode ser demorada «© pressupée 0 desafio da capacidade egéica do educando de tolerar a ambigiidade e a consequente ansiedade que ela suscita. Ambas as fon- tes de agressio, dirigidas tanto contra o professor como ao aluno, per- manecem camufladas sob um sistema de racionalizagbes ¢ justificai- vas. Tanto para um como para outro os designios “saber é poder" e “a, ignordncia justifa a submisso" passaram a fazer parte do prépr sangue. O conhecimento implica, portanto, direitos nio s6 sobre a rea idade que possa ser conhecida © modificada como também sobre ‘A maheira como se exerce 0 poder € que outorga a relagai Juno as earacteristicas de vinculo alienante. ‘A agressao assume formas ditetas e indiretas. Para registré-la em sua forma direta, basta observar a maneira pela qual um professor se i comporta em situagSes de exame, na comunicagdo em sala comunieagdo informal com seus alunos, para perceber uma mi fusa de desejos e dificuldades de se aproximar dos alunos. Funciona co- ‘mo uma muleta nos didlogos nos quais o professor leva desvantagem, 'Voc® sabe com quem esti falando?" Esta forma o recondua & cétedra, ancia da situagto de conflto interpessoal com que se defronte ¢ assim o situa numa posigdo superior. Tomando a eétedra como baluar- te, faz contestagdes oraculares. Esta situagio tem sua contrapartida na forma habitual com que os alunos se dirigem a seus professores, levan- do em consideragio fundamentalmente suas facetas relerentes 40 exer- cicio da autoridade e articulando a maneira autocratica, demagog paternalista, etc.. com que 0 professor exerce seu poder. Dai res que 08 alunos consideram o professor como uma autoridade que aléry disso ensina, da mesma maneira que para o professor 0 aluno é um su- bbordinado que além disso aprende. Seria desnecessirio fazer referencia A agressto sob a forma de casti- ‘gos, sangées, prazos ou limitagdes por parte dos professores; € mais in- teressante refleir sobre suas formas indiretas ou latentes, Uma das for ‘mas mais interessantes que a agressfo indireta assume €a maneira pela qual o professor demonstra a sabedoria que alcangou € possui e como exeluido; ao definir 0 canada e supostamente motivar o al este conbecimento, colo termediatio que a0 mesmo tempo ei mento como meta pode ser apresentado a0 aluno como vel que estimula sua frustraglo sem Ihe possibilitar, simul entender seu significado. O carter agressivo de tal conduta nao est frustragdo que a acompanha, pois é inegavel que 0 professor sabe que o aluno e € o intermedifrio entre 0 aluno e a matéria, com que esta modalidade de ado se converta num ataque direto visivel é a falta de sentido para o aluno ow a falta de consciéncia que ele tem desta distancia em relagdo ao objeto, da possibilidade real de encurté-la sueessiva e paulatinamente ¢ de que 0 professor nao ¢ 0 pos- suidor deste objeto mas um facilitador de sua aproximacio a ele Quando o aluno néo pereebe o professor, ou o professor se coloca numa posigio de barreira ou filtro, o que ocorre é uma paralizacdo total ou parcial do aluno. Quando esta forma de agresséo do professor para com o aluno se consuma, 0 aluno pode ser levado a aprender como deve ser, a partir deste momento, seu relacionamento com a ciéncia e com a matéria que esti estudando e o que nao deve estar presente nesta rela- ‘40, O aluno converte-se num aluno universitério ngo s6 quando define Vocacionalmente suas aspiragdes em relagdo a determinado setor da realidade mas também quando acata a autoridade (ou a instituiglo su- pe que sera assim) e acata a idéia de que a relagto com o que ensinam © 0 que serd aprendido deve estar baseada num modelo triangular ‘que 0 professor possui o objeto que ele aspira e, portanto, é preciso ten: tar assemelhar-se a ele como pré-requisito para também possuir 0 obje to. O aluno deve aprender, antes mesmo da matéria, que somente se chegar a ser como 0 professor tera direito a conhecer. Que o professor seja um modelo de identificagto, é fato conhecido de todos. O que i ressa pesquisar é com que caracteristicas 0 aluno se ide! nis pelos quais esta identificagao ocorre €0 presenta mais su modelo parcial e supostamente onis DOOUOOOUSGOOUS USES UE SSEEELEEULLELELDLUEEED A rroducio & psicologia escolar ‘obter fragmentos de conhecimento numa determinada or- lagdo. Esta € uma outra maneira pela qual o professor eerce controle se converte no portiro do ingresso do alino na cultu- eeego mesmo tempo, num sentido inverso, no controlador da chegada {lo conhecimento na consciéneia do altno ‘Assim definida a relagZo, ndo restam dividas de que passardo no rito de iniclagdo os menos valentes, 0s menos originals, os menos revolucl ndrios; a universidade, convertida numa f -a de conformistas, & ‘uma instituig&o conservadora e perpetuadora por exceléncia, formado- singe especialistas que conhecendo setores isolados da reslidade, inseremae na Tealidade social como meros executores de decisbes. (0 cientifcismo, repetidas veres denunciado como ume enfermidade de nosso ensino universitirio, revela-se assim ndo s6 como uma vertente pedagégica ligada a uma concepgao alienada de ciéncia € see teas também em pelo menos um de seus significados politicos. Sto de Lucien Goldmann (3) as seguintes palavras ode alguns clcuos over duridos, obomem, © foro cada ven menor a stores da vida seciel nos quals pode ter inicativaecesponsa {Endo nam sera quem s6se pede que execste decstestmadas em outas ins {Efcus o's quem em toca, se divs garntla da possiblidade de aumento de ‘Sisto, Efe sapdo raz em seu bojo um estetamento e um empobreci- Sfunte perigooe vulloso de sua personalidade, E presto acresentar que este fendmeno tinda nfo afngin toda a Sua forga mas ameaca asumie proporgies {ada ver raiores, A medida que o eaptalismo de organizasto se desenvlver. EEnibors' prodagdoem massa jé ocora ern mtasesferaseabarque td © tipo de bens, o verdadeiro capitalismo de organizagao ou de produgdo em massa, cj predugta tlvee este muito limitada mas que ameaga desenvolver-se no funare€ odo especialsta que simultaneamente & uma espécie de anallabeto¢ ty formado pla universiade. Exe &um homem ques farliarizow com uma rea de prod e que possul grandes conhecimentos profisionais que lhe pe filtem exeutar de modo stisttle es vees, excelente a tarefas que he sto Tinbutdse mas que progessivamente est perdendo conto com o Tesante da Tahaan ec penne send rma crerem rat m0." Os alunos que em nimero cada vez maior se aproximam das carrei- ras humanisticas —e isto em todos os paises do mundo — revelam-n0s dima procura do homem cada vez mais distante das universidades ou das carreras pretensamentecientfices ou técnicas. Lamentavelments, tudo possivelrecuperar o homem através de uma carrera, As cincias thumanas, infeizment, ndo sto mais humanas que as demais, As mes- ins observag&es registradas até aqui aplicam-se a elas, igualmente in- ‘luidas na necessidade de uma revisto critica sistematica de seus objet tos e conteidos. Recuperar 0 homem é a tarefa de todas as care le e arti A interagdo professoraluno — 337 sobretudo se levarmos em conta que a alienaggo ndo é um fendmeno Meetrito a0 plano do vinculo professor-aluno. E uma procura que ultra- passa a escolha desta ou daquela earreira. Trata-se ndo de um uma pst no sentido de incluir matérias filos6ficas ou substituir estes con qeudos por aqueles 20 nivel dos estudos, mas de um humanismo que presente o conhecimento como uma construgio humana que assim co wipode contribuir para melhorar, entiqueeer e humanizar a vide dos homens, pode desempenhar o papel de reforco ideo! car uma escraviddo progressiva, Voltando ao ambito estrito da sala de aula, vemos que estes proble masse traduzem em atitudes ou manifestagdes especificas dos que ens rate estas manifestagdes definem-se de acordo com a forma com que jade um se posicionow frente a0 conflito basico entre ensinat — no sen- fido lato de mostrar, fazer ver, ampliar perspectiva — ¢ ocultar — no sentido de reter, distorcer, controlar, eclipsar, obscurecer, parcializar -om0 (0 entre ensinar ocultar ad: Gos, institucionalizados, racionalizados. Expressam-se durante fos anos que franscorrem desde que o aluno ingressa na escola até o dia fm que at forma e deve se integrar no mundo ocupacional. Hé rituais hos quais predomina a agressio sobre o amor: rituais nos quais a pas: Sagem para uma nova situagio bastia-se no ocultamento, na parcial setgo, na rentincia a pedacos de si prdprio;rituais nos quais se encobre Gelematicamente a maneira pela qual se procura adequar o individuo a Sim estado de coisas no qual deve se limitar a ser um mero executor de Yoeiedes. & valido aplicar aqui a interpretagdo freudiana segundo @ (Qual of ritos de iniciagdo seriam representag6es ou expressbes de um “terificio que de forma direta ou indireta procura amedrontar aos de- nals e assim instaurar o tabu, sancionar a norma, evitar o parricidio. Seria lamentavel que os ataques as figuras poderosas, detentoras do der produzissem como resposta um aumento da culpa ¢ um fortalec mento de novas restrigSes Nao € necessério continuar si demica coercitiva, Resumindo, glo assume e trés respostas possiveis 1) Em primero lugar, existe uma restriglo que poderiamos chamar de fsica, que consiste na exclusto da vida civil (como vimos em Good- swan). Esta restrigdo varia de pais para pais ¢ tem um sentido especifico a nosso [Argentina], no qual o ingresso e sobretudo a permanéncia na sublinhando que considero a ordem aca- (quero apontar trés formas que a restri- ‘esta restrigao. 338 — Introdugdo a psicologia escolar Universidade € de certo modo um privilégio. A exclusto da vida civil as sume diferentes formas ideologicas, desde o “‘chegar-se & universidade para estudar" até uma concep¢io de universidade como ilha (seja de moeritica, seja revolucionéria). A resposta a este tipo de restrigdo é a politizagto progressiva, com a qual se faz crescer a preocupagdo com 0 que estd fora da universidade e se rompem os limites da universidade enguanto ilha de cultura dentro de uma comunidade onde se dio acon- teelmentos de natureza politica, que dizem respeito somente aos "gran. " ou a0s “politicos”, tas através da fragmentagdo do conheci- | tui de conheeimento por uma france transmissio Jde ideotogia é uma forma indireta de restrigao. Neste caso, a resposta requerida € uma critica filobfico-cientfica que revele os aspectos ideo- légicos e os pressupostos que dio sentido a0 que é ensinado. 3) Outra forma indireta de restrigfo resulta da maneira como se en ina que, como vimos, constitui uma fonte de aprendizagem de manei- ras de ser e de relagdes através das quais se metaaprendem modelos que reproduzem a verticalidade externa no ambito universitério. Sao ‘um reflexo do autoritarismo social e politico, ao mesmo tempo em que se articulam com modelos internos, areaicos, préprios das primeiras ,as da socializagio no grupo familiar. A resposta a este tipo de res- glo s6 pode advir de um saneamento, esclarecimento e modificayao do papel docente, que quebre 0 citcuito de que participamos inadverti- damente. Ensinar 0s alunos a pensar e a exéreer a feflexdo critica é uma meta que freqientemente mencionamos como inerente a funglo docente, No entanto, muites vezes isto nfo passa de uma formulagdo bem- intencionada, O produto ligico das maneiras como ensinamos, que por sua ver tefletem a maneira como aprendemos, so individuos que repe- tem em vez de pensar, que recebem passivamente, em vez de avaliar. Portanto, quando falo da necessidade de esclarecermos a maneira co. ‘mo nos inserimos nesta trama repressiva de relagbes ¢ de tomarmos consciéncia dela, estou me referindo a algo mais do que estudar peda- ‘gogia ou aprender as melhores formas de transmitir conhecimentos; es- Cloupensando na posibildade de recordar como dnico antidoto contra repetigao, Se o docente se colocar numa situagio de recordar, sua clusdo inconsciente e perpetuante no sistema de relagdes pode ser rede- finida, Afigura-se como uma necessidade imperiosa nfo negar o vincu- lo de dependéncia (conseqiiéncia inevitavel de havermos comegado a conhecer a matéria antes dos alunos) mas recordé-lo e mudar seu signi- ficado. Trata-se de voltar a pensar e a sentir como jinica maneira de | converte stuagto de aprendizagem numa situagio autoconsciente, através de uma critica sistematica dos contetidos e de uma autocritica YOUU SEES SS A interagdo professor-aluno ~ 339 dos métodos que utilizamos para transmitir estes contetidos. Nao se trata de negar a autoridade — fazé-lo, equivaleria a embarcar na fieglo de um nAo poder, com suas variantes de liberdade irrestrita, demago- ‘gia ou populismo. Critico a autoridade como principio e certas formas de autoritarismo por prineipio. Coneordo com Cooper (1) em que, “no fundo, o problema consiste em distinguir a autoridade auténtica da |. A autoridade das pessoas que dela se investem geralmente Ihes foi outorgada segundo definigbes sociais arbitrdrias ¢ nfo a partir de qualquer aptidao real que possuam.' Quanto 20s professores, vale a adverténcia do autor: “se as pessoas tivessem a coragem de abandonar esta posigdo falsa de que a autorida~ de se investe através de papeis definigdes sociais arbitrarias, poderia descobrir fontes reais de autoridade, (...) A caracteristica essencial da lideranga auténtica é a rendncia ao impulso de dominar. Dominagao significa controle do comportamento dos outros quando este comporta- ‘mento representa para o lider aspectos projetados de sua propria expe- ranga, valeria a sobre 0 modo como o controle do outro & expressto da fo ma pela qual o lider produz em si mesmo a ilusio de que sua pr6y organiaagao interna esta cada vez mais perfeitamente ordenada. Desta forma, diante de um mundo contraditério, eaético, no qual ndo sorios totalmente donos de nossas decisées, nem criadores de nossa histéria podemos manter a ilusdo de que, a partir de nosso baluarte catedriti €0, conhecemos, controlamos e manipulamos, quando estamos apen: 1 prdpria submissto, nosso proprio éesconhe- cimento e nossa propria incapacidade de intervir de uma forma mais ativa na modificagio da cultura e da sociedade de que fazemos parte, Reconhecer este fendmeno implica duas dficuldades: 1) a necessida- dle de nos darmos conta de que devemos renunciar — e para sempre — 2 ingenuidade de pensar o ensino como algo que se refere exclusiva- ‘mente a0 fmbito educativo. Como tentei mostrar através de fdéias pré- prias ealheias, remeter a tarefa educativa ao plano exclusivo da relagao professor-aluno 6 uma coneepeto ao mesmo tempo ing2nua e irrespon- vel; 2) 6 nossa responsabilidade assumir esta relagao como parte do al, © que nos coloca diante do imperativo de nos posicionar: icamente frente a ele. € 0 sentido que se pode dar a esse papel politica. Seremos perpetuadores deste estado de coisas e formaremos cada vez mais individuos ndo pensantes, analfabe 340 — Introducdo d psicologia escolar tos eseolarizados, ou, pelo contrério, inscreveremos nossa agdo educati- ‘ya num contexto desalienante, com todos 05 riscos internos ¢ externos que tal decisao contém? Se educacio € frustraglo, agressdo ¢ repressdo, isto ocorre nao sé porque o professor a propée desta maneira. Ela é assim porque traduz, hho momento em que ocorre, uma realidade social e politica que deve Ser entendida nao s6 como 6 “contexto” em que o comportamento do professor se insere, mas também como a trama real e profunda que dé Sentido ao que ele realiza em seu papel. Nio esiou propondo que se lute pela politizagio de nosso sistema educativo, pois nosso sistema educativo ¢ politico, O que se deve propor “segundo Marcuse (7) — é “uma contrapolitica que se oponha a poli- tiea estabelecida e, neste sentido, devemos enfrentar esta sociedade da mesma maneira como ela 0 faz, através de uma mobilizagao total. De- vemos enfrentar a doutrinagdo para a serviddo com a doutrinagao para faliberdade. Devemos gerar em nés mesmos e nos outros a necessidade instintiva de uma vida sem medos, sem brutalidade e sem estupidez: devemos perceber que podemos produzir uma repugnancia intelectual e instintiva diante dos valores de uma opuléncia que propaga a agres- so e a submissio pelo mundo inteiro.” ‘A tarefa assim proposta ultrapassa, por definigdo, os limites das es- colas e das universidades,e seria estéril se assim nfo fosse. No entanto, ha muito por fazer nas escolas, nos institutos e nas uni- versidades, Trata-se de esclarecer 0 sentido desta politica e a maneira pela qual os professores esto dispostos a ser auténticos educadores, Fatingindo 0 corpo e a mente dos alunos, seu pensamento e sua imagi ago, suas necessidades intelectuais e afetivas”, a fim de converté-los tem verdadeiros sujeitos, Recuperar o aluno como pessoa, como eixo de nosso trabalho pedagégico para, assim, incorpori-lo, mas de um modo mais consciente e mais critico, na sociedade a que pertence. Nosso dadeiro compromisso é triplice: como cientistas ¢ educadores, eriar ‘uma nova imagem do homem (papel desmistificante); como auténticos humanistas, criar a imagem de um homem novo (papel ‘como cidadaos, contribuir para o nascimento de um REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 1. D. Cooper, Psiguiatra y Antipsiquiaria, Buenos Aires, Paidés, 1971, P ante es un negro”. Em J. Hopkins, libro hippie. Bue- a, 1969, p- 186 e segs. i Goldmann, "Critica y dogmatismo en literatura”, Em D. Cooper ¢ ot age 3