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ÌKÓÒDÍDẸ: A PENA SAGRADA

Por Thonny Hawany

Introdução

Inicialmente, pretendíamos escrever apenas para falar sobre o conceito, a


origem, as características, os significados e os usos da pena do papagaio
cinzento africano, chamada de ìkóòdédẹ nos terreiros de Candomblé; no
entanto, quando me deparei com o histórico biológico do odídẹ, nome pelo qual
os africanos chamam essa ave, entendemos que não seria possível falar da
pena, sem antes falar do pássaro de onde ela é proveniente.

A existência da pena como símbolo religioso está intimamente ligada à ave e


as suas características e habilidades biofisiológicas. Assim sendo, sem
conhecer a ave com toda a intimidade necessária, dificilmente, entenderíamos
a importância de sua pena nos ritos de passagem do Candomblé.

O odíde

O papagaio cinzento ou papagaio-do-congo, conhecido entre os africanos por


odídẹ, pertencente à espécie psittacus erithacus, é uma ave de porte médio
que mede aproximadamente 34 centímetros de comprimento, da ponta da
cauda a ponta do bico, e que pode viver entre 50 e 75 anos.

Diferente do que imagina quem só conhece a pena ritualística, o odídẹ tem a


cor cinza predominante em todo o seu corpo, exceto na cauda, onde se
localizam as penas vermelhas, cujos segredos são guardados a sete chaves
pela maioria dos bàbálòrìṣá(s) e ìyálòrìṣá(s).

Conforme nossas pesquisas, o odídẹ, apesar de viver em grandes bandos, é


monogâmico e, por isso, é fiel ao seu parceiro/parceira a vida inteira. Segundo
o site de um zoológico português (Zoo de Lagos), não é rara a morte de um
dos membros do casal depois da morte ou de ausência acidental do parceiro. É
característica dessa ave, por ocasião do acasalamento, o casal afastar-se do
bando para se revezarem nos cuidados com os ovos e, a posteriori, com os
filhotes.

ATENÇÃO! Observe que são características importantes do odídẹ: a


longevidade (1), viver em sociedade (2), ser fiel ao parceiro ou parceira a vida
inteira (3), dedicar-se aos descendentes (4) e também ser capaz de nutrir
sentimentos quase humanos de saudade (5) que pode levá-lo a morte pela
falta do parceiro.

O odídẹ é tido pela maioria das fontes que pesquisamos como sendo uma ave
muito inteligente, capaz de nutrir sentimento de afeto, não só por seus pares,
mas por humanos com os quais pode viver numa relação de cumplicidade.
A inteligência dessa ave faz com que ela se diferencie das demais que podem
repetir vozes de outros animais, ou palavras e frases decoradas depois do
convívio com humanos, a exemplo do papagaio doméstico brasileiro. Segundo
importantes pesquisas, sua capacidade cognitiva e de fala vai muito além de
meras repetições.

O odídẹ é capaz de aprender e de demonstrar conhecimento sobre o que


aprende ao ponto de inferir uma ideia nova a partir da combinação de duas
ideias colocadas, a priori, como premissas. O odídẹ está entre os animais mais
inteligentes segundo os estudos de Irene Pepperberg, ilustre pesquisadora
associada e professora da Universidade de Harvard em Cambridge (on line)[1].

ATENÇÃO! Nos três últimos parágrafos, apresentamos outras importantes


características do odídẹ que merecem destaque, são elas: habilidades que
denotam capacidade de inteligência (6), habilidade para sentir afeto e para se
comunicar (7), competência para demonstrar que aprende e que é capaz de
fazer algo com o que aprende, ao ponto de combinar saberes diferentes para
criar algo novo (8).

Consideramos muito relevante prestar atenção aos itens, enumerados acima, a


respeito das características do odídẹ para, mais tarde, compreender melhor a
aplicação que faremos para justificar a importância do uso do ìkóòdédẹ nos
ritos de passagem.

Antes de passarmos para o próximo assunto, queremos ainda apresentar e


analisar, mesmo que superficialmente, um ìtàn que versa sobre a existência do
odídẹ e a relação que ele tem com o sagrado.

Segundo relatos, certa feita, Olódùmarè promoveu uma competição para saber
qual pássaro era o mais bonito entre todos. Sabendo do concurso, todos os
pássaros existentes passaram a investir esforços para melhorar sua aparência
e beleza. Naquele tempo odídẹ tinha suas penas todas brancas e reluzentes.
Tanto era a beleza de odídẹ que todos os concorrentes ficaram preocupados e,
para se certificarem que não perderiam em beleza para aquele impoluto
papagaio; arquitetaram um plano que consistia em jogar cinzas sobre as alvas
penas de odídẹ. Assim foi feito e o vendo se incumbiu de dispersar e espalhar
as cinzas jogadas uniformemente tornando o odídẹ um pássaro acinzentado.
Insatisfeitos, os pássaros então procuraram um feiticeiro que lhes deram um
preparado mágico para tingir as penas da cauda de odídẹ de vermelho, fato
que, certamente, o tiraria do concurso. A passarada ficou confiante que odídẹ
não participaria do concurso. Para surpresa geral, ele não só participou como
ganhou. Ao final do concurso, Olódùmarè o premiou como o pássaro mais belo
entre todos, dizendo que odídẹ era o mais bonito visto que a verdadeira beleza
é a que estava dentro dele. Desse dia em diante, passou odídẹ a ser um
pássaro sagrado que representaria as belas qualidades internas de todos os
seres.

ATENÇÃO! O que significa dizer que “a verdadeira beleza é a que está no


interior do ser?” Isso quer dizer que o indivíduo pode não ter nenhuma beleza
exterior conforme se exige o padrão e a cultura, mas é alguém íntegro, probo,
benevolente, respeitoso, de coração puro, fraterno, entre outros. Em síntese,
ser um indivíduo bom significa o que Olódùmarè chamou de beleza interior (9).
Ser bom é ter em si a semente para ser sagrado (10).

O ìkóòdéde

Para justificar inicialmente o que vamos escrever a respeito do uso do


ìkóòdédẹ nos cultos afrodescendentes, queremos afirmar que nós, de cultura
africana, de modo geral, somos panteístas e animistas. Ao mesmo tempo em
que somos monoteístas, porque acreditamos na existência de um único Deus
criador, somos panteístas em face de acreditarmos que esse mesmo Deus
(Òlódùmarè) é essência pura que se estende para tudo o que criou, cria e
transforma; igualmente, somos membros de uma sociedade animista, porque
acreditamos que tudo o que existe possui um tipo de vida, um sopro celestial,
independente de ser animal, vegetal ou mineral.

Esse modo de crer no sagrado nos faz entender que todos os elementos
utilizados, em nossos cultos, são dotados de poderes especiais de criação e
transformação: o àṣẹ, a exemplo do ìkóòdéde.

Do ponto de vista semiótico, o ìkóòdédẹ é o ícone, o índice e o símbolo daquilo


que representa para quem o utiliza como objeto sagrado. Trata-se de um
importante signo de representação, visto que carrega em si, ainda que
separada, a mesma energia primordial do ser a que representa: o odídẹ.

A pena do odídẹ é o signo revelador do sagrado, é o eco das características


biofisiológicas do pássaro. O ìkóòdédẹ não é odídẹ, mas seu ícone por
similaridade, haja vista que nele há, não só a genética e parte das
características físicas do pássaro, mas também a personificação de tudo o que
odídẹ é para ser considerado especial para o sagrado e para ciência.

O ìkóòdédẹ, ao ser usado sobre a cabeça de alguém, não pretende significar o


pássaro em si, mas um poderoso índice remissivo às qualidades do pássaro.
Não se trata de uma representação por semelhança, mas por contiguidade.

O ìkóòdédẹ tem o poder de nos fazer ser odídẹ em seus atributos; é,


sobremaneira, nossa relação contígua com o sagrado. Quando no pássaro, a
pena aponta para baixo, quando em nós, para cima mostrando o caminho para
onde vão os que se comportam como odídẹ.
Como símbolo, o ìkóòdédẹ é um signo mental, uma proposta artificial de
caráter arbitrário que representa o que está consignado no pensamento e na
razão do coletivo.

O ìkóòdédẹ não representa o odídẹ fisicamente, mas tudo o que ele significa:
longevidade, sociabilidade, afetuosidade, capacidade para nutrir bons
sentimentos, responsabilidade, inteligência, poder de comunicação, destreza,
bondade, responsabilidade, dedicação, sacralidade, ou seja: tudo o que se
espera de alguém que nasce para o àṣẹ na sua mais profunda acepção.
A associação do ìkóòdédẹ às qualidade interiores do odídẹ está no campo das
ideias e do sagrado e não na mera associação material. Assim sendo, quando
usamos o ìkóòdédẹ na cabeça de um iniciado, quer seja em suas obrigações
iniciais, quer seja nas de maior graduação, espera-se que haja uma troca de
energias vitais entre o odídẹ e o humano a fim de que este adquira e
represente tudo o que há de melhor naquele.

Os objetivos do ìkóòdédẹ são os mesmos nos ritos de passagem relacionados


à morte. Em nossa cultura, a morte é meramente um portal pelo qual passamos
para alcançar o òrun com o intuito de continuar a jornada iniciada aqui no àiyé.
É prudente que sejamos lá, onde quer que seja, também um odídẹ para que,
na forma de espíritos, não nos verguemos diante das dificuldades que
podemos encontrar.

O ìkóòdédẹ, para nós povo de àṣẹ, funciona como uma espécie senha de
acesso ao sagrado; nós o usamos em razão do pacto estabelecido por Òṣùn
depois do episódio da visita de Òṣàlá ao seu reino e para ser reconhecidos
pelos nossos ancestrais.

Conta-se um ìtàn que certa feita, por ocasião da visita de Òṣàlá, Òṣùn
preparou um grande festa, convidou a todos os òrìṣà(s), mas não convidou as
Àjẹé(s) que para vingar, lançou um feitiço sobre o trono de Òsùn fazendo com
que ela sangrasse ao se sentar. Todos sabem que Òsàlá tem aversão a sangue
e ao vermelho. Isso causou, então, muitos constrangimentos. Para se livrar do
constrangimento a que foi submetida por Ìyámi, Òṣùn transformou o pano sujo
de sangue em odídẹ, pediu a Èṣù que espalhasse por todos os cantos que
daria uma festa e que todos poderiam entrar, contanto que usassem uma pena
vermelha da cauda do odídẹ. A festa aconteceu, todos os òrìṣà(s)
compareceram e usaram a pena, inclusive Òṣàlá. Òṣùn reverteu, com isso, o
constrangimento. De igual modo, contam os mais velhos que Òṣùn ao iniciar o
primeiro ìyawo instituiu o uso do ìkóòdédẹ para que esse novo Ser fosse
reconhecido por todos como sendo iniciado.

No mito em que Èṣù respeita o tabu para ser elevado a condição de mais velho
entre os demais òrìsà, há elementos suficientes para justificar o uso do
ìkóòdédẹ nos ritos de passagem como símbolo de submissão. Aquele que está
com o ìkóòdédẹ colocado na altura da testa, não pode carregar nada mais
sobre a cabeça. Èṣù fez o ebóé indicado pelo bàbáláwo com o propósito de
conseguir respeito e consideração, usou o ìkóòdéde e, por isso, recebeu do
próprio Olòdùmarè a prerrogativa de ser homenageado antes dos demais. Veja
que no mito temos duas informações importantes: a primeira sobre o uso do
ìkóòdéde e a segundo que nos fala porque Èṣù é homenageado antes de
todos os demais òrìṣà.

O ìkóòdédẹ é, entre as demais penas ritualísticas do Candomblé, a que


representa a fecundação, a menstruação, a gestação e o nascimento. É ele
quem representa o poder feminino. Conforme se sabe o ìkóòdédẹ é, para além
de tudo o mais, símbolo de realeza e de nobreza. É a máxima representação
da fidelidade. Usado no ìyawo e nas demais obrigações, pode significar, além
de tudo o que já foi dito, mudança de status: de abian para ìyawo, de àbúrò
para egbomi e assim por diante.

Considerações finais

Em face de todo o exposto, esperamos ter contribuído com o conhecimento


dos irmãos que ainda estão trilhando os primeiros passos dentro das religiões
de matriz africana, elucidando que o ìkóòdédẹ não constitui um mero adorno de
cabeças, mas um objeto com significação que vai muito além daquilo que se vê
apenas com os olhos.

De igual modo, esperamos ter despertado nos irmãos mais experientes a


vocação para que também escrevam e publiquem os conhecimentos que têm a
respeito da cultura religiosa africana para que tais saberes não se percam para
sempre envoltos no manto fúnebre do egoísmo.

ATENÇÃO!

Depois das pesquisas e de conversas com irmãos versados no àṣẹ, chegamos


à conclusão que o ìkóòdédẹ não poderia ser assunto de um único texto tendo
em vista a exiguidade do tema.

Se imprimíssemos nesta proposta todas as informações colhidas, certamente,


escreveríamos um trato e, por isso, inviabilizaríamos o nosso objetivo que,
desde o início, era escrever um texto de fácil leitura e de compreensão
imediata para os nossos leitores.

Assim sendo e como de costume, queremos consignar que este texto não está
acabado e que o assunto, por ser extremamente amplo, deverá ser retomado
depois de verificada a procedência das informações encontradas em nossa
pesquisa. Há alguns ìtàn(s) e relatos orais que ainda não tiveram sua
veracidade atestada. Assim que isso ocorrer, retomaremos o texto para agregar
mais informação.

APELO: Pedimos a contribuição de todos que quiserem nos ajudar na


construção deste texto.

REFERÊNCIAS

PASSAROS EXÓTICOS. Papagaio do Congo – Guia Completo de Criação


Com Fotos. Disónível em: http://passarosexoticos.net/papagaio-do-congo/
Acesso em: 28 de junho de 2016.
ZOOLAGOS. Papagaio cinzento africano, Disponível em
http://www.zoolagos.com/pdf/BIRDSPT/Info-A4-papagaio-cinz-african.pdf.
Aceso em 28 de junho de 2016.