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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Geografia
Licenciatura em

ECONOMICA 2
Edu Silvestre de Albuquerque
Leonel Brizolla Monastirsky

pONTA gROSSA - PARANÁ


2009
CRÉDITOS
Universidade Estadual de Ponta Grossa
João Carlos Gomes
Reitor

Carlos Luciano Sant’ana Vargas


Vice-Reitor

Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos Colaboradores em EAD


Ariangelo Hauer Dias - Pró-Reitor Dênia Falcão de Bittencourt
Jucimara Roesler
Pró-Reitoria de Graduação
Graciete Tozetto Góes - Pró-Reitor Colaboradores de Informática
Carlos Alberto Volpi
Divisão de Educação a Distância e Programas Especiais Carmen Silvia Simão Carneiro
Maria Etelvina Madalozzo Ramos - Chefe Adilson de Oliveira Pimenta Júnior
Juscelino Izidoro de Oliveira Júnior
Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância Osvaldo Reis Júnior
Leide Mara Schmidt - Coordenadora Geral Kin Henrique Kurek
Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Pedagógica Thiago Luiz Dimbarre
Thiago Nobuaki Sugahara
Sistema Universidade Aberta do Brasil
Hermínia Regina Bugeste Marinho - Coordenadora Geral Colaboradores de Publicação
Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Adjunta Anselmo Rodrigues de Andrade Júnior - Diagramação
Edu Silvestre de Albuquerque - Coordenador de Curso ?????????????????? - Ilustrações
Denise Galdino de Oliveira - Revisão
Colaborador Financeiro Janete Aparecida Luft - Revisão
Luiz Antonio Martins Wosiak

Colaboradora de Planejamento Colaboradores Operacionais


Silviane Buss Tupich Edson Luis Marchinski
Joanice Kuster de Azevedo
João Márcio Duran Inglêz
Maria Clareth Siqueira
Mariná Holzmann Ribas

Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação


Sistema Universidade Aberta do Brasil

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA


Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD
Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR
Tel.: (42) 3220-3163
www.nutead.uepg.br
2009
APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL
Prezado estudante

Inicialmente queremos dar-lhe as boas-vindas à nossa instituição e ao curso que


escolheu.
Agora, você é um acadêmico da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG),
uma renomada instituição de ensino superior que tem mais de cinqüenta anos de história
no Estado do Paraná, e participa de um amplo sistema de formação superior criado pelo
Ministério da Educação (MEC) em 2005, denominado Universidade Aberta do Brasil
(UAB).

O Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) não propõe a criação de uma


nova instituição de ensino superior, mas sim, a articulação das instituições
públicas já existentes, possibilitando levar ensino superior público de qualidade
aos municípios brasileiros que não possuem cursos de formação superior ou
cujos cursos ofertados não são suficientes para atender a todos os cidadãos.

Sensível à necessidade de democratizar, com qualidade, os cursos superiores em


nosso país, a Universidade Estadual de Ponta Grossa participou do Edital de Seleção UAB
nº 01/2006-SEED/MEC/2006/2007 e foi contemplada para desenvolver seis cursos de
graduação e quatro cursos de pós-graduação na modalidade a distância.
Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC, a CAPES e
as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG, ao longo de sua trajetória, vem
acumulando uma rica tradição de ensino, pesquisa e extensão e se destacando também
na educação a distância.
A UEPG é credenciada pelo MEC, conforme Portaria nº 652, de 16 de março
de 2004, para ministrar cursos superiores (de graduação, seqüenciais, extensão e pós-
graduação lato sensu) na modalidade a distância.
Os nossos programas e cursos de EaD, apresentam elevado padrão de qualidade e
têm contribuído, efetivamente, para a democratização do saber universitário, destacando-
se o trabalho que desenvolvemos na formação inicial e continuada de professores. Este
curso não será diferente dos demais, pois a qualidade é um compromisso da Instituição
em todas as suas iniciativas.
Os cursos que ofertamos, no Sistema UAB, utilizam metodologias, materiais e
mídias próprios da educação a distância que, além de facilitarem o aprendizado, permitirão
constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação.
Este curso foi elaborado pensando na formação de um professor competente, no
seu saber, no seu saber fazer e no seu fazer saber. Também foram contemplados aspectos
éticos e políticos essenciais à formação dos profissionais da educação.
Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para facilitar o
seu processo de aprendizagem e que tenha muito sucesso na trajetória que ora inicia.
Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará parte de uma
ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco sempre que desejar, acessando
nossa Plataforma Virtual de Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias
disponíveis para nossos alunos e professores.
Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua aprendizagem é o nosso
principal objetivo.

EQUIPE DA UAB/UEPG
SUMÁRIO

■■ PALAVRAS DOS PROFESSORES 7


■■ OBJETIVOS E ementa 9

A Construção da nova economia mundial


■■ seção 1 - O espaço geográfico atual
11
13
■■ seção 2 - A reengenharia econômica norte-americana e mundial 17

A nova economia e a reorganização do


espaço geográfico 23
■■ seção 1 - O toyotismo e a reorganização dos espaços produtivos 25
■■ seção 2 - O toyotismo e seus desdobramentos sociais 28
■■ seção 3 - A sociedade da informação 35

O campo e o urbano na era pós-industrial 41


■■ seção 1 - A transição da geografia industrial para a pós-industrial 43
■■ seção 2 - A nova geografia agrária 45

A s novas redes do período técnico-científico-


informacional 51
■■ seção 1- A geografia das finanças globais e a teoria de redes 52
■■ seção 2- As modernas infraestruturas territoriais 56

■■ PALAVRAS FINAIS 63
■■ REFERÊNCIAS  65
■■ NOTAS SOBRE OS AUTORES 67
PALAVRAS DOS PROFESSORES

Caro(a) acadêmico(a)

O professor Milton Santos trouxe novo fôlego à Geografia brasileira e


mundial ao destacar a importância da evolução da técnica para o entendimento
da sociedade e do território. O que caracteriza as formas geográficas
contemporâneas – Milton Santos dizia “os objetos geográficos” - é a presença
de um conteúdo técnico e científico elevado, seja no interior da indústria ou nas
atividades agropecuárias.
Os meios de transporte e de geração de energia, os produtos da indústria
ou florestas plantadas e forrageiras para o gado são hoje formas desse “meio
técnico-científico-informacional”. Veja o caso da criação de gado bovino: no
passado era a seleção dos melhores indivíduos de cada raça a única forma de
melhorar a qualidade do rebanho, o que era feito no âmbito familiar e geração após
geração; hoje é a modificação genética (o elemento científico) e a inseminação
artificial (o elemento técnico) que garantem o aumento da produtividade e da
qualidade da carne, ao mesmo tempo que os mercados internacionais de carne
exigem a rastreabilidade do produto através da identificação de cada animal
para a construção de um banco de dados confiável (o elemento informacional).
Você pode substituir o exemplo do gado por qualquer outra mercadoria que irá
encontrar os mesmos elementos técnicos.
Esse “meio técnico-científico-informacional” representa verdadeira
base material do processo de globalização ou da constituição do que muitos
pesquisadores chamam de “economia-mundo”. Globalização esta que, por
um lado, traz modernidade e semeia o cosmopolitismo (na moda, na mídia, na
música, na alimentação, na vestimenta) e, por outro, aprofunda as desigualdades
territoriais e sociais porque reflete a hegemonia de grandes empresas e Estados
mais fortes.

Bom estudo!

Prof. Edu Silvestre de Albuquerque


Prof. Leonel Brizolla Monastirsky
OBJETIVOS e ementa

Objetivos

■■ Caracterizar as transformações recentes do espaço econômico e social mundial.

■■ Determinar o papel do Estado e do mercado no desenvolvimento econômico.

■■ Compreender as transformações locais a partir da dinâmica da economia-mundo.

■■ Identificar os determinantes econômicos na organização do espaço agrário e

urbano.

■■ Compreender a dinâmica das redes financeira e de infraestrutura.

Ementa

■■ O toyotismo e a reorganização da produção capitalista. As geografias

industrial, agrária, das redes de infraestrutura, do comércio e dos serviços.


UNIDADE I
A construção da
nova economia
mundial
Edu Silvestre de Albuquerque
Leonel Brizolla Monastirsky

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Caracterizar a nova economia e seus efeitos na reorganização do espaço

mundial.

■■ Determinar a importância do Estado enquanto ator econômico.

■■ Compreender o espaço geográfico a partir de fenômenos econômicos

multiescalares.

ROTEIRO DE ESTUDOS
■■ SEÇÃO 1 - O espaço geográfico atual

■■ SEÇÃO 2 - A reengenharia econômica norte-americana e mundial


Universidade Aberta do Brasil

Para início de conversa

Nesta primeira Unidade, você poderá identificar as principais


características da chamada nova economia, ancoradas na “revolução
tecnocientífica” em curso. A chamada nova economia veio a se
estabelecer mais decisivamente por volta da década de 1970, puxada pelos
extraordinários avanços nos ramos de informática e telecomunicações. O
computador, a internet, os robôs industriais e os satélites de comunicações
são algumas das principais inovações tecnológicas desse período.
Os computadores e a internet se tornaram comuns nas empresas e
nos lares, mas também reafirmaram as desigualdades sociais, já que os
índices de acesso variam enormemente entre os países e as classes sociais.
O alcance social da “revolução tecnocientífica” carece ainda de melhor
compreensão, com evidentes impactos sobre o processo educativo. O uso
para o bem ou para o mal do computador e da internet exige um maior
controle pelos pais com crianças e adolescentes.
As novas tecnologias de informação também revolucionaram o
ambiente produtivo, proporcionando a conexão contínua e em “tempo
real” entre a matriz e as filiais das grandes empresas, não importando os
pontos do globo onde estejam instaladas. O sistema financeiro se libertou
dos limites geográficos (a prisão da distância), alcançando se deslocar
de um espaço a outro tão logo algum investidor dê o comando através do
telefone ou do teclado de algum computador.
Mas aqui também se aprofundam as desigualdades entre empresas
(as mais competitivas e as menos competitivas) e países. É isto que
você poderá perceber ao recuperarmos a história dessa revolução
tecnocientífica em curso, que destaca o controle no desenvolvimento das
novas tecnologias por um seleto grupo de países e empresas.

Recupere sua experiência do Ensino Médio e descreva as formas de uso do


computador e internet por seus colegas. Como eram elaboradas as pesquisas
solicitadas pelo professor? Qual era o uso mais frequente do computador e da
internet realizado pelos alunos em seu tempo livre?

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unidade 1
Geografia Econômica 2
SEÇÃO 1
O espaço geográfico atual

As grandes corporações empresariais apresentam na atualidade


uma enorme capacidade de produzir e organizar o espaço geográfico
mundial (Ver caixa de texto As grandes corporações capitalistas). Se por
um lado as empresas trazem novas tecnologias e ofertam novos serviços,
por outro não podemos nos enganar quanto à finalidade última dessas
organizações: a produção de lucro. Cabe ao Estado nacional e à sociedade
regular o uso do território pelas grandes corporações empresariais, para
que sua função social não seja esquecida em nome do interesse privado.
O problema político de nosso tempo é que a escala de ação dessas
corporações transcende os limites do espaço nacional, já que a partir
das últimas décadas o processo de globalização da economia expandiu
extraordinariamente o tamanho de tais mercados para a escala global.
Como então regular os fluxos econômicos a partir do Estado nacional?
As empresas são compelidas a assumir novas estratégias
competitivas para vencer a
disputa por esses mercados
globais. A competição
intercapitalista reorganiza a
geografia do mundo, na qual
cada empresa procura os
lugares mais favoráveis para
localizar seus investimentos
produtivos, sejam plantas
industriais, prestadoras de
serviços ou áreas agrícolas, e
assim sair vitoriosa na disputa Legenda: No jogo do livre-mercado,
vence apenas o mais forte.
por mercado.
A localização das unidades produtivas, centros de pesquisa e
sede de comando estratégico dessas empresas aprofunda a divisão
internacional do trabalho e (re)cria um espaço geográfico desigual.
Antes da globalização, a divisão do mundo era mais simples, separando

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unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

países industrializados desenvolvidos de países produtores de matéria-


prima subdesenvolvidos. Com a globalização, é a questão tecnológica
que divide o mundo: enquanto o país-sede da multinacional continua
com o alto comando (funções gerenciais, financeiras e grande parte
da capacidade de pesquisa), agora as funções industriais podem ser
deslocadas para qualquer país subdesenvolvido a fim de se beneficiar
de vantagens competitivas, como menor custo da força de trabalho ou da
energia elétrica, ou ainda de leis ambientais menos rigorosas e beneficios
fiscais.
O espaço geográfico e as desigualdades sociais são, portanto,
produzidos a partir dessa seletividade espacial contida na estratégia
de investimentos das grandes corporações, que escapam cada vez mais
ao controle dos Estados nacionais com seus instrumentos clássicos de
controle. Seria possível reinventarmos o Estado assim como as grandes
corporações se reinventaram?
A disciplina de Geografia Econômica procura exatamente
compreender essa conexão entre a divisão do trabalho nas grandes
corporações empresariais e o processo de divisão internacional do
trabalho. A necessidade das empresas assumirem estratégias produtivas
mundiais para vencerem as concorrentes se traduz na busca de vantagens
de localização e de logística.
É assim que governos locais procuram anunciar as qualidades
do lugar para atrair poderosas corporações, muitas vezes oferecendo
imoralmente recursos públicos e isenções de impostos. Interessante notar
também que os políticos e a imprensa assumiram a agenda das grandes
empresas, ao cunharem a expressão “Custo Brasil” para se referir às
despesas que elas têm com aquisição de matérias-primas, produção e
transporte. A logística territorial é, assim, reduzida às necessidades
logísticas de tais corporações, necessidades de infraestrutura de
transportes e telecomunicações, armazenagem de matérias-primas,
ambiente de inovação tecnológica, etc. Mas a parceria entre empresa
e Estado não vale quando chega o momento do lucro, este continua
exclusivamente privado.

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unidade 1
Geografia Econômica 2
As Grandes Corporações Capitalistas

As grandes corporações operam desde o século XIX


como conglomerados financeiro-industriais (os trustes). A
partir daquele momento, as atividades de financiamento
(o crédito) aos lojistas e consumidores tornavam-se tão
importante quanto a produção industrial, fato que persiste
até os dias atuais.
Inicialmente, foi nos Estados Unidos que uns poucos
grupos empresariais passaram a controlar setores inteiros
da economia, como automobilístico, aviação civil, extração
e beneficiamento do petróleo e siderurgia. Por exemplo, as
gigantes Ford, GM e Chrysler puderam dominar rapidamente
o mercado automobilístico norte-americano e, a partir deste,
parte significativa do mercado mundial.
Do século XIX até a Segunda Guerra, a estratégia desses
trustes envolvia a integração verticalizada da produção, isto
é, cada grupo empresarial buscava dominar a totalidade da
cadeia produtiva, desde as fontes de matérias-primas até
o produto final. Assim, o grupo Ford investiu diretamente
até na produção de borracha, como no fracassado projeto
amazônico da Fordlândia, a fim de controlar a matéria-
prima para a produção de pneus.
A partir de fins do século XX, a maior oferta mundial de
matérias-primas e o acirramento da concorrência fizeram
com que as grandes empresas estimulassem estratégias de
terceirização, contratando fornecedores, para se dedicarem
apenas à montagem do produto final. A concorrência
globalizada também exigia das grandes corporações
investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento
tecnológico (P&D) com o objetivo de vencer a concorrência,
geralmente concentrada em seus países de origem ou com
alguma capacidade no setor tecnológico em foco.

Na realidade, o processo de inovação tecnológica como fator decisivo


na competição entre empresas e nações não é fenômeno novo, mas se
intensifica, a partir da década de 1970, com o desenvolvimento espetacular
de setores como informática, telecomunicações, microeletrônica,
novos materiais (ligas e semicondutores) e biotecnologia. Com efeito,
é desse momento em diante que se passa a falar mais enfaticamente
em nova economia ou reengenharia econômica puxada pelos setores
tecnológicos.

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unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

Legenda: As multinacionais norte-americanas


dominam os setores mais importantes da
indústria da informática e cibernética, como
a fabricação de microprocessadores (Intel) e
sistemas operacionais (Windows).
Foto do Autor.

Hoje, as sociedades desenvolvidas são exatamente aquelas que


souberam disseminar as inovações tecnológicas por todo o novo ambiente
produtivo local, cuja construção foi viabilizada pela aproximação entre
governos e grandes corporações privadas, casos do Japão e Estados
Unidos. O governo japonês soube pioneiramente estimular as empresas
a dominar o processo de desenvolvimento de circuitos eletrônicos,
especialmente sua aplicação nos ramos eletroeletrônico e automobilístico.
Já os Estados Unidos optaram por focar sua estratégia modernizadora no
desenvolvimento do complexo industrial-militar e no setor de serviços (as
novas tecnologias de informação), como será visto adiante.
Apesar de a ideologia neoliberal condenar a intervenção do Estado
na economia, foram os países desenvolvidos (como Japão e EUA, mas
também Inglaterra, França e Alemanha, dentre outros) que empregaram e
empregam estratégias variadas para apoiar suas corporações empresarias,
tais como:
• oferta de crédito público com juros abaixo dos praticados no
mercado;
Procure na Plataforma
Moodle o significado • compras governamentais orientadas para estimular tecnologias
dos seguintes verbetes,
em maturação pela iniciativa privada;
que foram baseados no
Dicionário de Política, de • formação de recursos humanos (nas universidades e escolas
Norberto Bobbio, e no
técnicas) para prestar serviços ou trabalhar diretamente nas
Dicionário do
Pensamento Marxista, empresas privadas.
de Tomas Bottmore:
Liberalismo -
Neoliberalismo -
Estado nacional -

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Geografia Econômica 2
SEÇÃO 2
A reengenharia econômica
norte-americana e mundial

A atual crise capitalista mundial, que começou como uma


crise financeira a partir da inadimplência no setor imobiliário norte-
americano, fez ressaltar uma característica recorrente do sistema: ajuda
governamental ao setor privado da economia. Embora o receituário
liberal negue a intervenção do Estado e enalteça as virtudes do livre-
mercado, foram liberados trilhões de dólares de recursos públicos para os
bancos, seguradoras e indústrias em crise. A General Motors foi uma das
contempladas com “algumas dezenas de bilhões de dólares” pelo Tesouro
norte-americano. Onde está a não-intervenção apregoada pelos liberais?
Em verdade, essa promiscuidade entre setor público (Estado) e
privado (grandes corporações empresariais) que envolve até mesmo (e
principalmente) a maior economia do mundo, é muito anterior à atual
crise sistêmica. O governo norte-americano tem estimulado fortemente
a capacidade econômica do país através de encomendas públicas ao
setor privado, como no caso da famosa NASA (National Aeronautics
and Space Administration). Outra forma de auxílio ao setor privado é
através de empréstimos com juros baixos, como o ofertado às corporações
exportadoras através do Eximbank (Export-Import Bank of the United
States of America), dentre tantos outros exemplos que poderiam ser aqui
citados.
Se voltarmos ainda mais na história, veremos que o Estado norte-
americano nunca deixou desprotegidas suas corporações empresariais. As
medidas protecionistas (taxas de importação elevadas) foram decisivas nos
Estados Unidos pós-independência para que pudessem surgir empresas
norte-americanas fortes em setores como naval e têxtil.
No período após a Segunda Guerra, os Estados Unidos assumiram
a hegemonia econômica mundial, atrelando a emissão de dólares
ao equivalente em ouro (daí a aceitação mundial de sua moeda) e
capitaneando instituições reguladoras da nova ordem econômica mundial
(casos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial). Claro

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unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

que apenas o Tesouro norte-americano pode emitir dólares...


Essa hegemonia mundial dos Estados Unidos foi questionada
durante a década de 1970, com a derrota militar no Vietnã (até hoje
exorcizada nos filmes de Hollywood) e o cartel dos países produtores
petrolíferos do Oriente Médio que elevou o preço do barril de petróleo
às alturas.
Mas você já deve estar se questionando sobre o que fizeram os
Estados Unidos para sair daquela crise. É que o governo norte-americano
e a iniciativa privada deram as mãos para iniciarem uma profunda
reengenharia de seu sistema econômico nacional. O economista brasileiro
José L. Fiori (2007) destaca que a tecnologia de celulares, de GPS (Sistema
de Posicionamento Global) e de internet foi originalmente desenvolvida
mediante encomendas do setor militar dos Estados Unidos, interessado
em sistemas de comunicações que não fossem paralisados em caso de
ataques inimigos e na maior precisão de suas novas armas de guerra.
Após esse “empurrão inicial” por parte do governo norte-americano, tais
tecnologias puderam, depois de devidamente adaptadas, ser lançadas no
mercado.
Os resultados principais dessa reengenharia econômica norte-
americana foram dois:
• uma nova onda de empresas norte-americanas de atuação global
(Microsoft, Apple, Raytheon, etc.);
• um crescimento espetacular do complexo industrial-militar
norte-americano.

A retomada do crescimento econômico norte-americano, ancorado


em tecnologias de ponta, trouxe ainda como consequência novas
possibilidades de crescimento da economia mundial, sobretudo para
aqueles países que souberam desenvolver suas economias a partir das
indústrias tradicionais, como a siderúrgica e a automobilística.
À medida que essas grandes corporações passavam a organizar
sua produção, tendo em vista estratégias globais, a concorrência
intercapitalista tornou-se mais acirrada. Na obra Miragens e Milagres, o
geógrafo francês Alain Lipietz (1988) situa o desenvolvimento econômico
de determinados países do Terceiro Mundo no âmbito do movimento de
deslocalização geográfica dessas indústrias que, até então, produziam

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Geografia Econômica 2
apenas a partir de países desenvolvidos. Assim, por exemplo, países
como México, Brasil, Argentina, África do Sul, Turquia, Índia e China
puderam ofertar mão-de-obra, energia e matérias-primas a baixo custo
para atrair esses investimentos industriais, como no caso do segmento
automotivo, que representaram importantes vantagens competitivas
para corporações como General Motors (EUA), Ford (EUA), Fiat (Itália),
Volkswagen (Alemanha), Toyota (Japão), etc.

Não deixe de ler o brilhante artigo de José L. Fiori, disponibilizado em PDF a partir da
Plataforma Moodle.
Navegue também pelo sítio www.wto.org/ da World Trade Organization (Organização Mundial do
Comércio), com versão em espanhol.

Os assuntos mais teóricos podem representar tarefa pesada para trabalhar com alunos do
ensino básico. Assim o professor pode pensar na possibilidade de utilizar charges. Veja na Plataforma
Moodle alguns exemplos que foram selecionados para você.

A globalização pode ser vista também de forma prática. O professor pode pedir aos alunos que
registrem os locais de origem dos diversos componentes de seu computador pessoal ou de sua
escola (monitor, drives, unidades periféricas). Pode pedir também que entrem nas páginas eletrônicas
das empresas de aviação Airbus (Europa), Boeing (EUA), Embraer (Brasil) e procurem descobrir em
quais lugares do mundo são produzidas as peças e sistemas desses aviões. Com essas informações
os alunos podem iniciar a elaboração de uma redação sobre a atual organização do espaço
econômico mundial. Veja exemplo na Plataforma Moodle.

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unidade 1
Universidade Aberta do Brasil

Seção 1
A reorganização do espaço econômico mundial se dá de forma a selecionar as atividades mais
intensivas em tecnologia nos países desenvolvidos, enquanto que certas atividades industriais
tradicionais são deslocadas para países subdesenvolvidos como o nosso. Ocorre que as inovações
tecnológicas são tão aceleradas que o que era ontem tecnologia de ponta, hoje pode ser considerado
setor tradicional. Assim foi o caso da venda da divisão de computadores pessoais (menos lucrativos
na atualidade) da IBM para uma empresa chinesa (Lenovo). A partir deste exercício você poderá
destacar as estratégias territoriais das empresas líderes mundiais no setor de celulares. Para tanto,
siga os seguintes passos:
a) Por meio de um buscador da internet procure a página eletrônica das principais empresas de
celulares (consulte as dicas na Plataforma Moodle).
b) Em seguida, identifique o país-sede (de origem) dessas empresas e os países que possuem
centros de pesquisa e plantas industriais das empresas em questão.
Agora, com base em tais informações, explore as diferenças atuais entre países desenvolvidos e
subdesenvolvidos partindo das estratégias das grandes corporações de celulares.

Seção 2
Pesquise em jornais (impressos ou internet) as variadas formas de ajuda de governos de todo o
mundo para suas empresas e quais foram os principais grupos beneficiados na atual crise econômica
mundial.

Ao ler esta Unidade, você pôde compreender de que forma os novos sistemas técnicos
(informática, microeletrônica e telecomunicações) permitiram que o capitalismo saísse da crise
dos anos 70. E que esta retomada da escalada do processo de acumulação de capital ampliou a
divisão internacional do trabalho (d.i.t.) partindo da seletividade territorial da localização dos novos
investimentos produtivos.
Você pôde ainda examinar em maiores detalhes a intervenção do governo norte-americano
na montagem da reengenharia econômica, centrada justamente naqueles setores mais tecnológicos.
Assim, você se tornou apto a entender o papel dos Estados nacionais na reorganização do espaço
mundial contemporâneo, onde manda quem pode mais (Estados Unidos, Japão e alguns países
europeus) e obedece quem pode menos (caso da África, América Latina e maior parte da Ásia).
A partir da Unidade II, você poderá avançar também no entendimento das mudanças
ocorridas no interior do ambiente produtivo e gerencial das grandes corporações empresariais.
Adiantamos que, assim como o método de produção fordista - baseado na distribuição dos operários
pelas linhas de montagem e na produção em massa de um mesmo produto – surge na indústria
automobilística, é novamente neste setor que se inicia o chamado método de produção toyotista.
Embora o Japão tenha saído à frente nas experiências do toyotismo, cedo as empresas norte-
americanas e de todo o mundo perceberam o papel revolucionário do novo método de organização da
produção e passaram a copiá-lo.

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Geografia Econômica 2

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unidade 1
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Universidade Aberta do Brasil

unidade 2
UNIDADE II
Geografia Econômica 2
A nova economia e
a reorganização do
espaço geográfico
Edu Silvestre de Albuquerque
Leonel Brizolla Monastirsky

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Determinar a importância do método de produção toyotista para a
reorganização da economia, da sociedade e do território.

■■ Relacionar a sociedade da informação com as novas tecnologias.

ROTEIRO DE ESTUDOS
■■ SEÇÃO 1 - O toyotismo e a reorganização dos espaços produtivos

■■ SEÇÃO 2 - O toyotismo e seus desdobramentos sociais

■■ SEÇÃO 3 - A sociedade da informação

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Universidade Aberta do Brasil

Para início de conversa

As revoluções tecnocientíficas alteram profundamente a dinâmica


da sociedade através de mudanças no padrão espaço-tempo. Mas o que
isso quer dizer? Primeiro, pense no tempo que uma caravela portuguesa
levava para chegar ao Brasil no período colonial... eram meses e meses.
Hoje, os modernos navios mercantes levam apenas alguns poucos dias
para vencer esta mesma distância. De forma similar, durante os séculos
XVIII e XIX, no antigo “Caminho das Tropas” se levava cerca de três a
quatro meses para transportar mulas dos Campos de Viamão (Rio Grande
do Sul) até as feiras de Sorocaba (São Paulo). Hoje, esse mesmo trajeto é
vencido em algumas horas por carro ou caminhão.
Em ambos os casos exemplificados, ocorreu a substituição da energia
da natureza (caravelas) e da energia animal (tropeiros) pela energia
mecânica dos motores. É essa inovação técnica – os motores a vapor
da Primeira Revolução Industrial e os motores a explosão da Segunda
Revolução Industrial - que permitiu o “encurtamento” das distâncias ao
“comprimir” o tempo necessário para o deslocamento entre um lugar e
outro. Assim, primeiro com a estrada de ferro (trens movidos a carvão
mineral), depois com as rodovias (caminhões movidos a óleo diesel), foi
possível avançar mais no interior dos continentes, incorporando novas
áreas à dinâmica mundial.
Ao mesmo tempo, as fábricas também puderam experimentar
avanços crescentes na automatização das linhas de produção, ocasionando
impactos profundos no mundo do trabalho e na organização social. São
esses os temas que você poderá agora estudar mais detalhadamente.

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Geografia Econômica 2
Seção 1
O toyotismo e a reorganização dos
espaços produtivos

A ampliação da produtividade no interior do processo industrial


pode ocorrer de duas formas: pela inovação tecnológica (automação
industrial) ou por novos processos de organização do trabalho. Quando
essas duas formas se encontram historicamente, temos uma verdadeira
revolução na produtividade; assim foi com o método taylorista, depois com
o fordismo e, finalmente, com o toyotismo. Na realidade, esses métodos
podem coexistir no tempo e no espaço, dependendo do setor produtivo e
do país em questão.

Taylorismo: no início do século XIX, Frederick W. Taylor concluiu


pela necessidade de especializar operários em tarefas específicas no
interior da fábrica, estabelecendo uma padronização do tempo para cada
etapa produtiva. Dessa forma, Taylor conseguiu elevar a produtividade
industrial através do controle do tempo dos trabalhadores, instituindo
o relógio-ponto e supervisores (capatazes) para vigiar os operários, e
demitindo aqueles que apresentassem produtividade abaixo da média.
Hoje, alguns autores utilizam a expressão “taylorismo sanguinário”
para definir as relações de trabalho nas indústrias têxteis de alguns
países asiáticos, justamente pela analogia com a exploração intensiva do
trabalho nas indústrias daquele início de século. Essa seria a base real da
vantagem competitiva de alguns ramos industriais de países como China,
Tailândia e Paquistão, por exemplo.

Fordismo: outro norte-americano, Henry Ford, levaria ainda mais


adiante o processo de controle do tempo de trabalho ao estabelecer, em
fins da década de 1920, a linha de montagem industrial, obtendo nova
economia de tempo do trabalhador ao tornar desnecessário o deslocamento
do operário para realizar sua operação específica, já que agora o produto
a ser montado é que vinha até ele. Esse método revolucionário fora
inspirado no processo de trabalho nos abatedouros do frigorífico Armour,

25
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

em Chicago, e depois, ganharia a indústria automobilística. Com o


fordismo, agora também os homens passavam a sofrer quase como o gado,
pois submetidos a jornadas exaustivas de trabalho sempre repetitivo, sem
espaço para desenvolver qualquer ato de criatividade.
O fordismo ampliou o número de operários nas indústrias, o que
acabou por possibilitar o adensamento de trabalhadores e permitir
movimentos grevistas nas cidades industriais. A saída encontrada pela
classe dirigente foi a adoção de estratégias de cooptação das lideranças
sindicais e de repressão policial aos movimentos grevistas. A manutenção
dos índices de produtividade do trabalho era obtida através da alta
rotatividade da força de trabalho. Tragicamente, alguns percentuais de
taxas de desemprego tornaram-se não apenas aceitáveis na sociedade
moderna, mas necessários ao bom andamento do sistema econômico.

Toyotismo: a partir da década de 1970, as novas tecnologias de


informatização e robotização permitiram novo método de organização da
produção, novamente a partir da indústria automobilística, com liderança
japonesa. O toyotismo foi inaugurado nas fábricas da montadora Toyota,
por isso recebendo esse nome.
A novidade histórica é que o avanço no controle do tempo do
processo de produção ocorria agora para além dos limites da fábrica,
de modo a envolver também a circulação e o consumo. As empresas
que adotaram o toyotismo continuaram ajustando com os fornecedores
a entrega de matérias-primas e componentes industriais, só que agora
na exata medida da necessidade de suas linhas de produção. Da mesma
forma, a indústria também passou a produzir conforme a necessidade
dos pontos de venda (lojas ou supermercados). Essa sinergia da nova
cooperação instituída entre fornecedores - produtores - consumidores
recebeu o nome de just-in-time ou “tempo justo”, mudança na cultura
empresarial que somente foi possível graças às novas tecnologias de
informação (Ver caixa de texto O código de barras). Quando você passa
um produto pelo leitor de código de barras do supermercado, está
vendo apenas uma ponta de todas essas mudanças operadas na cultura
produtiva.

26
unidade 2
Geografia Econômica 2
O código de barras

A fonte de inspiração do just-in-time foi o método de controle de


estoques praticado nos hipermercados. Qualquer produto (alimentos, bebidas,
livros) que receba na embalagem o código de barras pode ser registrado
instantaneamente ao passar pelo caixa, o que permite a constante e rápida
atualização das planilhas de estoques que, por sua vez, permite a adequação
entre os níveis de abastecimento das prateleiras e as novas remessas dos
fornecedores.

A própria geografia urbana recebeu os impactos do toyotismo, já


que o resultado global alcançado foi uma enorme redução do volume
dos estoques, particularmente onerosos nas grandes cidades e em países
carentes de espaços físicos, como no Japão. Assim, áreas inteiras que
antes recebiam os galpões das distribuidoras se tornaram desnecessárias,
exigindo políticas públicas de reforma urbana.
A nova ampliação dos níveis de produtividade ocorreu através
da robotização em larga escala e da eliminação da produção de peças
defeituosas (a “qualidade total” da produção). A criação de círculos de
controle de qualidade aproximou operários e camada gerencial, de modo
a aperfeiçoar o processo produtivo e transmitir a idéia de trabalho em
equipe. No caso do Japão, os trabalhadores foram integrados aos esforços
de cumprimento de metas de exportação mediante remunerações extras,
enquanto na Europa, no geral, a opção foi pela participação dos operários
nos lucros.

27
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Seção 2
O toyotismo e seus desdobramentos sociais

As mudanças sociais são inevitáveis e profundas em cada novo


método de organização da produção, pois não apenas a fábrica, mas toda a
sociedade precisa se adaptar às novas tecnologias e formas de trabalho.
Alguns empresários perceberam que o sucesso de sua atividade
econômica ia para além do interior da fábrica, pois era o consumo da
sociedade que garantiria a realização de seus lucros. Assim, Henry
Ford se preocupava em “pagar bem” seus operários para que pudessem
consumir mais e, em decorrência, fazer crescer o mercado potencial para
seus automóveis.
Mas a grande crise mundial de 1929, que se iniciou a partir da
quebra da bolsa de valores de Nova York, fez com que a classe política e
empresarial percebesse que as ações individuais como as de Ford eram
insuficientes para garantir a expansão do ritmo da atividade industrial e
manter aquecido o mercado de consumo. Foi quando o célebre economista
John M. Keynes defendeu a necessidade de políticas públicas (subsidiando
ensino e saúde públicos) para elevar a renda dos trabalhadores e, assim,
aquecer o mercado consumidor (Ver caixa de texto Keynesianismo e
consumo).
Políticas keynesianas seriam implantadas mais tarde na Europa
Ocidental, a partir da vitória política de partidos social-democratas. Os
empresários europeus prontamente apoiaram essas idéias também por
temerem a ascensão em seus países de movimentos comunistas que
incorporassem ainda mais fortemente o aspecto social nas políticas
públicas.

Keynesianismo e consumo

Para o economista John Maynard Keynes, a crise de 29


sinalizava a incapacidade do setor privado encontrar por si próprio
alternativas para a retomada do crescimento econômico. Apenas o
Estado intervindo diretamente na economia, dizia Keynes, poderia
tirar a nação de sua crise estrutural. É importante lembrar que, até
então, a não-intervenção do Estado no mercado era verdadeiro tabu
entre os liberais.

28
unidade 2
Geografia Econômica 2
A integração de amplos segmentos sociais ao mercado consumidor
exigia que o Estado assumisse determinadas funções sociais, de
modo que os trabalhadores pudessem dispor de partes maiores de seu
salário para destinar ao consumo. O keynesianismo ainda defendia
o fortalecimento da organização sindical dos trabalhadores, também
como forma de elevar o poder de compra salarial.

Esse casamento entre fordismo e keynesianismo trouxe novo e longo


período de desenvolvimento econômico e estabilidade política ao mundo
capitalista. A explosão do consumismo puxada pelo desenvolvimento
dos mercados de massa ficou cristalizada no fenômeno da multiplicação
de shopping centers e fast-foods. Das compras aos lanches rápidos, tudo
passou a ser projetado tendo em vista a comodidade dos proprietários
de automóveis, o maior ícone da sociedade moderna de consumo. As
pessoas interessam ao sistema econômico mais como consumidoras que
como cidadãs.

Legenda: Na imagem, o shopping de Ponta Grossa - PR. O fenômeno da


construção de shopping centers se disseminou pelas cidades de todo o mundo,
inclusive nas cidades latino-americanas de porte médio. Foto do autor.

29
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Mas a lua-de-mel não duraria para sempre. O novo método toyotismo


se espalhou por plantas industriais de todo o mundo, trazendo as primeiras
rachaduras nesse edifício social. Afinal, as modernas plantas industriais
são concebidas com linhas de produção altamente automatizadas, onde a
robotização é levada ao extremo e uns poucos braços e olhos servem mais
como supervisores do processo industrial que como operários tradicionais
(Ver caixa de texto A automação na história). Aliás, as unidades industriais
modernas já foram definidas pelo pesquisador A. Sen como “fábricas-
naves sem tripulantes”.
O desemprego industrial causado pelo avanço da automação
é chamado de desemprego tecnológico, ou também de desemprego
estrutural, uma vez que cada vez mais a criação de postos de trabalho não
guarda mais relação direta com a melhora da atividade econômica. Em
outras palavras, o fato de uma planta industrial ampliar sua produção não
traz uma correspondente ampliação do número de empregados. Dados
da Organização Internacional do Trabalho (OIT) já apontavam, em 1997,
cerca de 1 bilhão de desempregados e subempregados no mundo, algo
equivalente a 30% da população mundial economicamente ativa.

Legenda: Os robôs substituem os operários nas linhas de


montagem toyotistas.

30
unidade 2
Geografia Econômica 2
A automação na história

A introdução dos teares mecânicos durante a Primeira


Revolução Industrial ampliou enormemente a produtividade
das indústrias têxteis inglesas, mas causou a dispensa de
centenas de milhares de trabalhadores. A reação inicial de
grupos de operários foi destruir as novas máquinas numa
tentativa desesperada de evitar o desaparecimento de seus
empregos. A palavra sabotagem vem exatamente dessa
tentativa dos operários europeus de danificarem as máquinas,
atirando suas botas nas engrenagens.

Com o acirramento da concorrência intercapitalista, as empresas


passaram a exigir de seus respectivos Estados nacionais a elaboração de
legislações trabalhistas mais “flexíveis”. Esse foi um dos objetivos das
chamadas “Reformas de Estado”, apregoadas pelo receituário neoliberal,
e que estão em nova rodada de negociações neste exato momento em
países como o Brasil. Assim, as empresas pedem a redução dos encargos
sociais que oneram o salário (esquecendo-se que tais recursos formam
os fundos públicos que visam à segurança do trabalhador e sua família),
além de ampliarem o número de trabalhadores temporários e terceirizados
(quando os trabalhadores são prestadores de serviços autônomos
fornecidos por meio de empresas contratadas). A nova realidade social é
que a precarização das relações trabalhistas tornou-se o fundamento da
competitividade de muitas empresas e países.
Para evitar um caos social maior e também garantir a manutenção
de um certo nível de consumo, o instituto do salário-desemprego tornou-
se política pública generalizada, primeiramente nos países da Europa
Ocidental, depois nos Estados Unidos. Para países subdesenvolvidos
como o Brasil, a questão do desemprego estrutural torna-se ainda mais
preocupante diante de um nível de informalidade da economia que vem
alto, já que os recursos governamentais são insuficientes para universalizar
o instrumento de proteção social do salário-desemprego (Ver caixa de
texto O setor informal nos países subdesenvolvidos). Com efeito, a renda
e o período assegurado pelo salário-desemprego no Brasil são bastante
inferiores aos praticados nos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, no

31
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

ano 2000, Índia, Brasil e Rússia ocupavam as três primeiras posições com
maior número de desempregados em números absolutos.

O setor informal nos países subdesenvolvidos

Nos países subdesenvolvidos, o desemprego conduz


parte significativa da população economicamente ativa à
subocupação, em atividades como contrabando (descaminho)
e trabalho informal. Essa situação acaba prejudicando ainda
mais aquelas empresas que produzem mercadorias a partir
do trabalho formal, além de causar perda de receita pública
(impostos que poderiam ser destinados ao social). Num país
como o Brasil, calcula-se que a economia informal movimente
algo como 40 a 50% do Produto Interno Bruto.
Torna-se evidente que o processo de globalização
inclui uma dimensão não-contabilizada e não-legalizada
da economia, reunindo “países produtores” como Taiwan e
China, passando por países que funcionam como “entrepostos
comerciais”, por exemplo, Cingapura e Paraguai, até
finalmente chegarem aos “países consumidores”, como o
Brasil.

O fenômeno do desemprego estrutural impacta os países também


de modo diferenciado. Enquanto nos países desenvolvidos, o setor terciário
é formado majoritariamente por serviços altamente especializados
e de elevado conteúdo tecnológico, nos países subdesenvolvidos é
fundamentalmente formado por empregos no setor público e atividades
de comércio informal (Ver caixa de texto Os setores da economia).

Os setores da economia

As atividades econômicas são usualmente agrupadas em


três setores: primário (atividades agropecuárias e extrativistas
mineral e vegetal), secundário (atividades industriais) e
terciário (serviços públicos, atividades bancárias e comércio).
Contudo, a necessidade de diferenciar no interior do setor de
serviços as atividades técnico-científicas tem levado muitos
autores a falar da necessidade de um setor quaternário.
O caso dos EUA é elucidativo. No comércio internacional
de mercadorias, o país acumula enormes déficits porque
importa mais do que exporta. Mas sua balança de serviços
acumula gigantescos superávits, exportando para todo o
mundo serviços financeiros, produtos culturais (músicas,
filmes), direitos sobre o uso de tecnologias e marcas
(royalties, franquias), dentre outros. Portanto, a natureza
dessas atividades do setor de serviços norte-americano é
radicalmente diferente daquelas atividades dominantes no
setor terciário dos países subdesenvolvidos.

32
unidade 2
Geografia Econômica 2
Mas a questão do desemprego preocupa também a sociedade de
consumo dos países desenvolvidos. A autora francesa Viviane Forrestier,
no livro O horror econômico, afirma que a presente crise econômica e social
(ela escreveu antes da eclosão da crise financeira de 2008) é indicativa de
uma “mutação violenta” da civilização ocidental até então assentada no
valor do trabalho (Ver caixa de texto Trabalhar para quem?).

Trabalhar para quem?

No século XIX, Karl Marx via no comunismo a


superação da sociedade capitalista baseada na geração
de valor pela exploração do trabalho. Era a pobreza das
classes trabalhadoras, dizia Marx, que garantia a riqueza da
privilegiada classe burguesa.
Com efeito, já era conhecido dos economistas da época
que o valor das mercadorias não advinha de sua raridade
ou beleza, mas do trabalho empregado na sua elaboração.
O problema central das sociedades capitalistas estaria no
fato de que os trabalhadores não ficam com os frutos de seu
próprio trabalho.
Contudo, Marx não defendia a ideologia do trabalho.
Ao contrário, acreditava que o desenvolvimento das forças
produtivas materiais no comunismo levaria à superação da
necessidade do trabalho e a um maior tempo ocioso para o
uso da criatividade.

Legenda: A ética protestante


fundou seus valores no
trabalho, influenciando
profundamente as
sociedades anglo-saxônicas
e, na sequência, o mundo
inteiro.

33
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

As desigualdades sociais crescem assustadoramente por todo o


primeiro mundo, seja Estados Unidos, Europa ou Japão. Os Estados
Unidos têm o maior índice de população carcerária do mundo (2,8% da
população total adulta): são 1,6 milhão de detentos e 3,8 milhões em
liberdade condicional (dados de 1996). Segundo dados de 2003, mais de
25 mil moradores de rua vivem nas grandes cidades japonesas. Até mesmo
as cidades européias já experimentam sinais claros de deterioração da
qualidade de vida, principalmente entre as comunidades de imigrantes.

Para entender melhor os assuntos trabalhados nesta Unidade, sugerimos os


seguintes vídeos, cujos trailers podem ser acompanhados na Plataforma Moodle:

• Ou tudo ou nada: Comédia inglesa de 1997, retrata a curiosa estratégia de


sobrevivência de um grupo de desempregados de uma siderúrgica em uma
pequena cidade. O pano de fundo é a reestruturação do setor siderúrgico
inglês, que acarretou a demissão de milhares de metalúrgicos.
• Segunda-feira ao sol: Filme espanhol de 2002, sobre o cotidiano de estivadores
desempregados com a modernização dos portos e pela concorrência
internacional. Entre os protagonistas, o inconformado Santa se recusa a admitir
a nova situação.
• O homem sem passado: Drama finlandês de 2002, sobre um homem que
perde a memória após espancamento e tenta recomeçar sua vida. O filme
nos faz refletir que o fenômeno do desemprego e da falta de perspectivas na
globalização é mundial, assolando mesmo uma nação rica.

O professor pode também trabalhar a questão do toyotismo a partir do código


de barras de embalagens trazidas pelos alunos. O professor deve auxiliar no
levantamento do significado da numeração (A caixa de texto O código de barras
desta Seção pode lhe servir de guia).
Para iniciar a aula, poderá fazer uma analogia com os números de nossa carteira
de identidade.
Uma visita dirigida da turma a uma fábrica com linhas de montagem automatizadas
também poderá ser interessante para que percebam os efeitos sociais desse
processo. É importante pedir um relatório individual trazendo as observações e
entrevistas realizadas com os técnicos da fábrica, bem como uma reflexão sobre a
questão da tecnologia/robotização e o emprego industrial. Na Plataforma Moodle,
você poderá realizar um tour virtual por uma dessas fábricas automatizadas.

34
unidade 2
Geografia Econômica 2
Seção 3
A sociedade da informação

Inovações como satélites artificiais, antenas parabólicas, fibras


óticas e microcircuitos eletrônicos foram aplicadas aos setores de
telecomunicações e informática, extravasando o ambiente empresarial
para criar novas formas de sociabilidade baseadas na interatividade. Os
celulares e a internet rapidamente tornaram-se meios de comunicação de
enorme aceitação entre todas as nacionalidades e faixas etárias.
As expressões “era da informação” e “sociedade da informação”
surgiram justamente para tentar definir essa nova situação. Todos os dias
somos convidados a obter informações de eventos distantes por meio dos
telejornais ou da rede mundial de computadores (a internet). A idéia de
“aldeia global”, empregada pela primeira vez pelo canadense Marshall
McLuhan, ainda na década de 1970, compara a sociedade globalizada da
era da informação com a aldeia primitiva, onde todos os indivíduos estão
próximos.
Com efeito, as novas tecnologias da informação ampliam quase
ilimitadamente a quantidade e a velocidade do fluxo de informações.
Entretanto, se praticamente todos os lugares do planeta estão interligados
pelas novas tecnologias, grande parte da humanidade ainda tem acesso
precário ou está sem acesso a serviços como telefonia e internet, seja
porque estes são serviços pagos ou porque tais pessoas não reúnem
habilidades culturais fundamentais para receber essas informações
(sistemas de ensino deficientes).
Há também a questão do controle (poder) da informação por
determinados grupos empresariais e midiáticos e por governos. Esses
poderosos grupos econômicos e políticos podem controlar o que vai ser
notícia e seu conteúdo, e proliferam tanto em sociedades fechadas (China,
Cuba e Rússia) quanto em sociedades abertas (Estados Unidos).

35
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Legenda: O poder político da Rede Globo


de Televisão já foi objeto de diversos
artigos e livros.

Por todas essas razões, parece


evidente que o salto para uma “sociedade
da informação” exige a readaptação
do sistema de ensino, bem como a
implementação de políticas públicas
que incluam normas sobre o papel social
da mídia e dos grupos econômicos.
Formas de autorregulamentação, por
exemplo, não podem ser consideradas censura. Não basta ao cidadão
saber operar esse novo ambiente tecnológico-informacional, é preciso
que desenvolva capacidade de filtrar as informações para construir seus
significados.

Legenda: Até mesmo os terminais eletrônicos bancários exigem alguma


informação mínima para operações, o que explica a dificuldade de pessoas mais
idosas, por exemplo. Foto do autor.

36
unidade 2
Geografia Econômica 2
A dificuldade reside no fato de que cada novo desenvolvimento
tecnológico na área das comunicações aprofunda as diferenças entre
incluídos e excluídos, tanto nos países subdesenvolvidos quanto nos
desenvolvidos. Falar em e-cidadania é algo complicado quando mais da
metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia
(dados de 2005), sendo que um terço dessa massa de excluídos vive em
áreas rurais sem acesso à água potável e esgoto, principalmente na Ásia,
África e América Latina.

O professor pode usar o rico ambiente virtual que está à disposição. Evidentemente, antes
de mais nada, é preciso realizar uma pesquisa sobre o acesso dos alunos a computadores e internet,
o que vai variar conforme a renda familiar e o equipamento da escola. Havendo a possibilidade, seria
interessante criar grupos de discussão em torno de temas de interesse escolar, organizar saídas de
campo virtuais, etc. É preciso dar espaço no saber escolar para as novas formas de comunicação dos
jovens. Veja alguns exemplos na Plataforma Moodle.

Seção 1
Procure descobrir, conversando com seus vizinhos, parentes e conhecidos, quantos trabalham em
fábricas, e dos que trabalham nesses locais, em quais atividades. Em seguida, faça um breve relato do
resultado das conversas para seus colegas de curso na Plataforma Moodle.

Seção 2
Procure identificar na sua cidade quais são os produtos ofertados no comércio informal local:
Se tiver a chance pergunte aos trabalhadores informais sobre a origem de suas mercadorias.
Verifique, nas embalagens e produtos, o país onde as mercadorias foram fabricadas.
Com base nas informações obtidas, faça um breve relato do resultado das conversas para seus colegas
de curso, na Plataforma Moodle.

Seção 3
Pesquise na página de Prefeituras de sua região quais as políticas públicas de inclusão digital e de
e-cidadania em curso (existência de telecentros, prestação de contas pela internet, atendimento on line
ao cidadão, etc.).
Procure entrar numa sala de bate-papo estrangeira e pergunte sobre as características do sistema
de ensino e as formas de realização da sociedade da informação nos países em questão. Depois
compartilhe as informações com os demais colegas através da Plataforma Moodle.

37
unidade 2
Universidade Aberta do Brasil

Nesta Unidade você pôde perceber o potencial transformador – do espaço e da sociedade –


contidos nas novas tecnologias. Pôde ainda avaliar o poder das grandes corporações privadas no uso
de recursos públicos (dinheiro do contribuinte) e no controle da informação.
Assim, as noções de “revolução tecnocientífica”, “aldeia global” e “sociedade da informação” não
podem ser usadas acriticamente. São noções que precisam ser analisadas profundamente no
ambiente da sala de aula para que não se reforcem certos mitos, fazendo-se a apologia do processo
de globalização em curso. O professor Milton Santos lembrava que informação não significa
exatamente comunicação. A sociedade da informação gerou novas possibilidades de interatividade,
mas também aprofundou a estratificação social em função das possibilidades de uso/decodificação
das novas tecnologias.
As profundas mudanças no sistema produtivo trouxeram impactos sociais violentos, aprofundando
as desigualdades sociais existentes e criando novas. As formas de degeneração social derivam da
decadência do mundo do trabalho, que ocorre a partir da automação do processo industrial tanto nas
sociedades dos países desenvolvidos quanto dos subdesenvolvidos.

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unidade 2
Geografia Econômica 2

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Universidade Aberta do Brasil

unidade 2
UNIDADE III
Geografia Econômica 2
O campo e o urbano
na era pós-industrial

Edu Silvestre de Albuquerque


Leonel Brizolla Monastirsky

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Caracterizar o processo de reestruturação econômico-territorial no meio
urbano.
■■ Caracterizar o processo de reestruturação econômico-territorial no meio
agrário.

ROTEIRO DE ESTUDOS
■■ SEÇÃO 1 - A transição da geografia industrial para a pós-industrial

■■ SEÇÃO 2 - A nova geografia agrária

41
unidade 3
Universidade Aberta do Brasil

Para início de conversa

O campo brasileiro sempre foi visto como reduto da miséria e da


ignorância. O personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato, falava
da simplicidade quase boçal de nosso homem do campo, o que ajudou a
disseminar esse mito pela sociedade brasileira. Mas a questão é bem mais
profunda, pois a miséria do campo é produto de sua precoce modernização.
Como isto? Desde o período colonial, o campo brasileiro foi preparado
não para produzir alimentos, mas mercadorias para o mercado mundial
(as plantations ou monoculturas tropicais de exportação). As plantações
de cana-de-açúcar, e depois de café, e as fazendas criação de gado, foram
os primeiros empreendimentos econômicos em terras brasileiras, e até
hoje marcam nossa paisagem regional.
Apesar da abundância de terras, a propriedade privada fundiária
trouxe a monopolização do acesso às terras, excluindo os brasileiros pobres.
Não restava a esses gentis cidadãos outra alternativa a não ser trabalhar
a troco de nada nas fazendas dos senhores de terra. Para completar a
tragédia, o poder público esqueceu-se desses brasileiros por séculos, lhes
negando-lhes até mesmo o direito fundamental da alfabetização e do
atendimento médico básico.
O campo sem gente se modernizou a tal velocidade e de tal forma que
hoje nosso país defende a completa liberalização dos mercados agrícolas
mundiais, contrariando abertamente o interesse dos países ricos, que
“teimam” em proteger seus pequenos agricultores (principalmente no
caso europeu) contra o avanço da mecanização. Assim, quando o assunto
é mercado agrícola, parece que os papéis nacionais estão invertidos na
Rodada de Doha, promovida pela Organização Mundial do Comércio
(OMC).
Mas você já parou para se perguntar onde estão os brasileiros
famélicos se o campo está cada vez mais esvaziado? O espetacular
crescimento das taxas de urbanização brasileira nas últimas décadas
fornece importante pista a respeito. O êxodo rural fez as cidades
“incharem” e criou o vergonhoso processo de favelamento na sociedade
brasileira. Hoje, a miséria do campo encontra a nova miséria gerada nas
próprias urbes, já que a industrialização tardia (e, por isso, já com fábricas

42
unidade 3
Geografia Econômica 2
automatizadas) não gerou empregos suficientes, jogando grande parcela
da população em atividades informais e ilegais. Novamente, o egoísmo
do Primeiro Mundo busca transparece nos mecanismos de proteção de
suas sociedades contra a entrada de novos imigrantes provenientes do
Terceiro Mundo.
Procure na Plataforma Moodle o significado dos seguintes verbetes,
que foram baseados no Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, e no
Dicionário do Pensamento Marxista, de Tomas Bottmore:
• Modernização
• Monopólio
• Liberalização
• Primeiro Mundo
• Terceiro Mundo
• Rodada de Doha
• Mais-Valia

Seção 1
A transição da geografia industrial para
a pós-industrial

Por todo o século XIX e primeira metade do XX, a fábrica era o


elemento central da organização do sistema capitalista. A formação da
mais-valia ocorria através da exploração do trabalhador no interior do
processo industrial. O filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, ilustra
bem essa situação ao demonstrar a exploração do trabalho na grande
indústria (Ver trecho do filme na Plataforma Moodle).
As indústrias daquele período eram empreendimentos individuais,
isto é, propriedade de familiares (hoje as fábricas são organizadas em
sociedades anônimas, cuja propriedade pertence a diversos acionistas).
Eram também empreendimentos organizados na escala nacional (hoje
são organizadas em escala multinacional).
É no transcurso do século XX que se consolidam por todos os
domínios econômicos os elos sociais de produção em detrimento de

43
unidade 3
Universidade Aberta do Brasil

qualquer empresa ou tarefa individual (AUED, 1999). As fábricas passam


a funcionar interconectas a outras fábricas, e todo esse sistema produtivo
representa apenas uma parte da realização da mais-valia. Em outras
palavras, a acumulação de capital avançou para além do universo fabril.
David Harvey (1993, p. 266) elaborou o conceito de regime de
acumulação flexível para tentar dar sentido teórico à enorme gama de
formas de extração de mais-valia da atualidade:

Surgem novos conjuntos industriais, por vezes


a partir do quase nada (como os vários vales e
planícies do silício), mas com mais frequência
a partir de alguma mistura preexistente de
habilidades e recursos. A “Terceira Itália”
(Emilia-Romagna) se baseia numa mistura
particular de empreendimentismo corporativo,
trabalho artesanal e administrações comunistas
locais ansiosas por gerar empregos, e insere
seus produtos de vestuário, com incrível sucesso,
numa economia mundial altamente competitiva.
Flanders atrai capital externo com base numa oferta
de trabalho dispersa, flexível e razoavelmente
habilidosa, profundamente hostil ao sindicalismo
e ao socialismo. Los Angeles importa os sistemas
patriarcais de trabalho altamente bem-sucedidos
do sudeste asiático por meio da imigração em
massa, enquanto o celebrado sistema paternalista
de controle do trabalho dos japoneses e de Taiwan
é importado pela Califórnia e pelo sul do País de
Gales. É uma história diferente em cada caso, o
que dá a impressão de que a peculiaridade desta
ou daquela circunstância geográfica importa
muito mais que antes. Contudo, ironicamente,
isso só ocorre por causa da queda de barreiras
espaciais.

A globalização significa que, assim como as empresas, os lugares


também acabam obrigados a disputar uns com os outros a melhor inserção
produtiva possível (ou aquela que seus dirigentes julgam ser a mais
interessante). Assim, as municipalidades e governos estaduais oferecem
isenções de tributos e doam infraestrutura logística para atrair as grandes
empresas. Também, cada vez mais frequentemente, os governos locais
se esforçam na implementação de políticas de formação de um “meio
técnico-científico-informacional” adequado para essas empresas e para a
geração de inovações tecnológicas aplicáveis ao sistema produtivo.
O geógrafo Milton Santos chamava tais espaços de “territórios
inteligentes” que, dotados de sistemas tecnocientíficos mais modernos,

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unidade 3
Geografia Econômica 2
servem de suporte à atuação globalizada das grandes corporações
empresariais. Esses espaços são formados por infra-estrutura de
telecomunicações (infovias e teleportos), computadores de grande
capacidade, serviços especializados, etc., tudo para permitir a competição
empresarial no ambiente da economia globalizada.
Nessa estratégia territorial, as universidades, centros de pesquisa,
incubadoras de empresas e polos tecnológicos se tornam elementos
centrais para disseminar o conhecimento exclusivamente voltado ao setor
produtivo. O elevado conteúdo técnico, científico e informacional dos
lugares também representa novas possibilidades de extração de mais-
valia de trabalhadores que não apenas operários. Afinal, cada vez mais,
o trabalho excedente de técnicos, cientistas e “fazedores” de informação
compõe a mais-valia global (SANTOS, 1997a). Aliás, fenômeno que, ao
lado do processo de “esvaziamento” das fábricas, explica o menor peso
político do movimento operário na atualidade.

A partir da Plataforma Moodle, você pode navegar por sítios de incubadoras


tecnológicas de alguns municípios brasileiros. É o caso da incubadora tecnológica
de Porto Alegre (http://www.tecnopole.palegre.com.br/), localizada no Distrito da
Restinga. A municipalidade deseja transformar a realidade do bairro pobre através
de empresas baseadas no desenvolvimento técnico-científico.

Também é interessante que você conheça a experiência do centro de


biotecnologia inaugurado pelo governo federal em plena Amazônia. Vamos ver se o
contingenciamento de recursos federais não acaba prejudicando o projeto, vital para
utilizarmos os recursos da floresta amazônica.

Seção 2
A nova geografia agrária

Já foi mencionado no início desta Unidade que o campo


brasileiro nasce moderno e vinculado às demandas do mercado mundial
(mercantilismo europeu), e que o precoce cercamento dos campos
(propriedade privada) está na raiz do esvaziamento demográfico do meio
rural.
Muito já foi discutido se havia relações sociais feudais ou modo

45
unidade 3
Universidade Aberta do Brasil

de produção escravista no Brasil colonial-imperial. Na obra O Povo


Brasileiro, Darcy Ribeiro (1995) destaca que não existe luta de classes
na história dos trópicos, e que esta é uma situação social válida apenas
para o contexto europeu. Jacob Gorender também defende que havia um
modo de produção escravista colonial.
Ora, se o pagamento de juros já estava contido na produção
canavieira, e depois cafeeira, colonial-imperial (a compra de escravos era
viabilizada por financiamentos de investidores europeus), a questão do
assalariamento é menor para determinar se estávamos diante de relações
capitalistas no campo brasileiro naquele período histórico. O escravo
brasileiro era tão-somente um investimento em capital fixo para o senhor
de terra, e isto não tem nada a ver com modo de produção escravista, é
capitalismo puro. (FIGUEIRA & MENDES, 1977).
O produto da monopolização das terras por uma reduzida elite
econômica foi a precoce geração de miséria no campo brasileiro; afinal, a
população rural não tinha outra opção senão produzir mercadorias para
os proprietários de terras, vivendo de favor em ranchos no interior do
latifúndio (daí essas relações serem confundidas com feudalismo).
Hoje essa discussão intelectual nos parece cada vez mais estranha,
ainda mais que acompanhamos ano a ano sucessivos recordes de produção
agrícola estimulados pelo crescimento da oferta de crédito bancário. Foi
assim com as exportações de soja, primeiro no Sul do Brasil, e depois
no Centro-Oeste. Na década de 1970, a produção de soja ainda estava
praticamente confinada ao Rio Grande do Sul, mas passados 20 anos já
estava circundando a floresta amazônica. E assim se anuncia agora para
as lavouras de cana em São Paulo e no cerrado do Centro-Oeste, voltada
quase exclusivamente para a geração de etanol.
No Sul do Brasil, parte significativa do crédito rural foi orientada
para cooperativas de agricultores, que passaram a produzir soja e trigo
(cultura de inverno). Situação similar ocorreu com a criação de frango,
que rapidamente conquistou mercados mundiais, cujas agroindústrias
(Sadia, Perdigão, Doux-Frangosul) puderam economizar custos com
mão-de-obra ao terceirizarem a produção (os “contratos integrados” com
os pequenos proprietários familiares).

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unidade 3
Geografia Econômica 2
Legenda: Estímulos governamentais (política de crédito) viabilizam a produção
das indústrias de tratores e implementos agrícolas modernos.

A partir da década de 1970, a expansão do crédito agrícola e a


chegada de importantes agroindústrias de capital externo costumam
ser lembradas por seu papel na implantação da chamada “Revolução
Verde” no Brasil, que trouxe espetacular aumento da produtividade
agrícola através do uso intensivo de adubos químicos e da mecanização.
Mas desde as primeiras décadas do século XX, as lavouras de arroz do
pampa gaúcho experimentaram vultosos investimentos em irrigação e
mecanização, mostrando que mesmo a técnica moderna chegou ao campo
brasileiro bem antes do que parece.
De qualquer forma, os altos valores envolvidos no financiamento da
produção agrícola moderna exigem cada vez mais a expansão do crédito
público e privado. Investir no campo não é mais um negócio para os
pequenos produtores, salvo se também forem capazes de mobilizar força
política para obterem acesso ao crédito público.

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unidade 3
Universidade Aberta do Brasil

Seção 1
Na Plataforma Moodle, você vai encontrar mapas com as principais culturas agrícolas do Brasil. Procure
identificar os padrões espaciais principais para cada cultura e o padrão geral da agricultura brasileira.
Com base nas informações obtidas, elabore um texto de uma lauda (20 linhas) sobre a espacialidade
da agricultura brasileira.

Seção 2
Escolha um dos endereços eletrônicos das grandes corporações do setor agroindustrial disponibilizados
na Plataforma Moodle. Procure mapear a logística utilizada por esse grupo (de produção, processamento
e/ou escoamento) e descreva seu interesse no território nacional.

Nesta Unidade, você percebeu a importância das inovações tecnológicas e da automação do


processo industrial na transformação dos espaços urbanos e na reestruturação da sociedade. Talvez
agora fique mais fácil entender o apelo do conceito de “sociedade pós-industrial”.
Outra noção da ciência geográfica pode agora também ser melhor compreendida: o movimento
de Territorialização - Desterritorialização – Reterritorialização (TDR). Com efeito, o chamado estágio
de acumulação capitalista flexível exige a contínua destruição das formas produtivo-territoriais para
a afirmação de outras formas, estas mais condizentes com os novos sistemas técnicos criados (e os
novos patamares de lucro projetados no sistema capitalista).
O complexo mosaico de paisagens produtivas urbanas e agrárias aparece unificado pelo
fato de elas se inserirem na dinâmica do capital financeiro (o capital produtor de juros). A geografia
da globalização integra todas as forças produtivas em escala mundial, ainda que reafirmando as
desigualdades territoriais e sociais.
A inserção do Brasil na economia-mundo sempre foi através da exportação de commodities
(produtos agrícolas ou minerais de baixo valor agregado), amparadas em nossas vantagens
comparativas de solo e clima. Os investimentos públicos e privados atuais no meio rural visam tão-
somente à atualização da tecnologia e da logística necessária ao desenvolvimento das atividades
agrícolas. Como lembra o professor Milton Santos, é no campo que as modernizações econômicas
se fazem mais aceleradas, justamente porque a destruição de capital fixo é sempre menor quando
comparada aos investimentos nas formas urbanas.

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unidade 3
Geografia Econômica 2

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unidade 3
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Universidade Aberta do Brasil

unidade 3
UNIDADE IV
Geografia Econômica 2
As novas redes do
período técnico-científico-
informacional

Edu Silvestre de Albuquerque


Leonel Brizolla Monastirsky

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
■■ Compreender o uso da teoria de redes na Geografia.

■■ Caracterizar as novas redes técnicas do sistema financeiro.

■■ Caracterizar as novas redes logísticas.

ROTEIRO DE ESTUDOS
■■ SEÇÃO 1 - A geografia das finanças globais e a teoria de redes

■■ SEÇÃO 2 - As modernas infraestruturas territoriais

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unidade 4
Universidade Aberta do Brasil

Para início de conversa

Conforme você viu nas Unidades anteriores, o capital financeiro está


no centro do processo de acumulação capitalista e representa o principal
vetor estruturante da economia-mundo, denotando também a causa
primeira da criação-destrutiva das formas produtivas territoriais. Pode-se
dizer, sem exagero, que o capital financeiro é o principal responsável por
redesenhar sucessivamente a geografia planetária.
Nessa perspectiva, o “meio técnico-científico-informacional”
não passa de uma materialização (a conexão geográfica) desse capital
financeiro em busca de novas formas produtivas. Afinal, o meio logístico
das grandes corporações empresariais envolve, cada vez mais, ambientes
de pesquisa e desenvolvimento técnico-científico.
Para entender a nova realidade produtiva, a geografia precisou
avançar para além do usual conceito de território. Não que este tenha
se tornado obsoleto, mas sozinho torna-se insuficiente para entender o
mundo produzido pela aceleração dos “fluxos” em detrimento dos “fixos”
geográficos. Assim, a teoria de redes emerge na ciência geográfica
justamente na tentativa de capturar o movimento dos fluxos financeiros
(dos bancos e outros investidores), informacionais (como as redes de
telecomunicações) e de mercadorias (comércio exterior).

Seção 1
A geografia das finanças
globais e a teoria de redes

Se o sistema financeiro é puro movimento, como captar através da
geografia essa nova realidade do mundo?
O processo de reestruturação econômica e territorial que levou
à formação da economia-mundo atual foi e é feito através de volumes
de financiamento inéditos na história. Os Estados tiveram que

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unidade 4
Geografia Econômica 2
desregulamentar os mercados financeiros nacionais para permitir a maior
fluidez desses fluxos financeiros (Ver caixa de texto A geopolítica das
finanças globais).

A geopolítica das finanças globais

Os Estados Unidos, durante o governo Ronald Reagan


(1980-88), foram o pioneiro na abertura de seu mercado
financeiro para receber investimentos estrangeiros. A
estratégia foi repatriar os “eurodólares” e “petrodólares”,
isto é, parte do dólares acumulados nas reservas de países da
Europa e Oriente Médio, respectivamente.
Na década seguinte, esse modelo de remoção das
amarras nacionais à livre circulação de capitais estrangeiros
foi copiado por governos de todos os continentes, iniciando
pela Inglaterra de Margareth Tatcher (conhecida como “a
dama de ferro”), e depois, também pela periferia mundial.
No Brasil, a liberalização do mercado financeiro ocorreu
durante o governo Fernando Collor, que mais tarde sofreu um
processo de impeachment por indícios de corrupção política
ligados ao financiamento da campanha eleitoral.

Através da criação de mercados financeiros globais, da interligação


das bolsas de valores locais e da extensão do poder do sistema de crédito
(baseado em umas poucas moedas), a idéia de economia-mundo está
bastante próxima de realizar-se por completo. Os bancos são apenas uma
das dimensões – a mais visível – do sistema financeiro globalizado, mas
os fundos de pensão (fundos de previdência privada) e outros clubes
de investimentos também já respondem por importantes fatias dos
investimentos internacionais.
A partir da liberalização do mercado de capitais, o processo de
globalização intensificou-se numa escala nunca antes vista. Nem
mesmo a economia norte-americana está a salvo dos acontecimentos
em outras partes do mundo, embora sejam os países subdesenvolvidos
os mais vulneráveis a crises financeiras (quando o movimento de saída
de dólares supera o de entrada a ponto de comprometer sua balança de
pagamentos). A balança de pagamento é uma espécie de “caixa” do país,
e que, de forma semelhante ao de uma empresa privada, não pode operar
por longo período no terreno do vermelho. A balança de pagamentos

53
unidade 4
Universidade Aberta do Brasil

inclui o comércio exterior, o investimento estrangeiro direto, a remessa de


lucros das multinacionais, o pagamento de juros da dívida externa, etc.
O aumento da liquidez do sistema econômico permitiu nova expansão
das transnacionais e do comércio internacional, mas também tornou as
economias nacionais mais dependentes dos fluxos financeiros. Apesar
do Fundo Monetário Internacional (FMI) ter sido criado especialmente
para socorrer países em dificuldades financeiras, muitas vezes a ação
reguladora dessa instituição tem se mostrado insuficiente em períodos
de crise aguda.
Mas por que os temores quanto a crises financeiras internacionais
se ampliaram? Quando uma crise financeira eclode num determinado
país, os investidores podem deslocar suas aplicações para outro mercado
onde o risco de perdas parece ser menor. Mas quando nenhum lugar
parece seguro, então a crise se torna global.
Até 2008, as crises financeiras tinham ficado restritas a determinados
países ou regiões (o “efeito contágio”). Por isso, acabavam recebendo um
nome associado ao país em que se iniciou, como no caso do chamado
“efeito tequila”, crise financeira que atingiu o México (1995) e que causou
especial temor na América Latina. Crises financeiras graves também se
sucederam na Coréia do Sul (1998), Rússia (1998) e Argentina (2001),
apenas para citar alguns casos famosos.
A vulnerabilidade financeira de determinados países é tanto maior
quanto o volume de capitais especulativos de curto prazo em seu sistema
financeiro. O capital especulativo forma a maior parte do dinheiro que
circula freneticamente nas bolsas de valores de todo o mundo, também
chamado de capital volátil ou “dinheiro quente” (hot money). Mas nos
países subdesenvolvidos esse capital é majoritariamente de curto prazo,
portanto, mais suscetível à fuga de capital em massa. Por essa razão,
países como o Brasil são obrigados a lançar títulos públicos no mercado
internacional com taxas de juros maiores, pois os investidores potenciais
esperam lucros mais altos para cobrir riscos de perda.

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Geografia Econômica 2
Legenda: A montanha-russa das crises econômicas capitalistas

Como deter a fuga de capitais? O retorno à regulamentação financeira


nacional é situação que parece improvável diante da dimensão mundial
alcançada pela economia. O caminho então seria uma reengenharia para o
mercado financeiro global. É nesse sentido que alguns governos de países
subdesenvolvidos e organizações internacionais não-governamentais
- como a Associação para a Taxação das Transações Financeiras para a
Ajuda aos Cidadãos (Attac) - defendem a adoção de um tributo sobre as
operações financeiras globais, destinado ao combate da fome no mundo
(também chamada de tarifa Tobin, em homenagem ao norte-americano
ganhador do prêmio Nobel de economia).
Mas, voltando à nossa questão inicial: como a ciência geográfica
pode mapear os fluxos financeiros internacionais à medida em que seu
movimento não mais está confinado ao território nacional? O conceito
de redes emerge para tentar solucionar a questão, propondo obter um
registro o mais fiel possível dos movimentos do capital financeiro.
Sendo o capital financeiro, e não mais as fábricas, quem comanda
o processo de acumulação de capital, os processos criativo-destrutivos
operados pelo capital tendem a se acelerar (e da mesma forma o movimento
de desterritorialização-reterritorialização). Daí que a teoria de redes
demonstra a dinâmica do sistema financeiro atual, em que os países e
lugares (os pontos da rede) estão sujeitos às determinações desses fluxos
financeiros globais.

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Universidade Aberta do Brasil

Navegue pelo sítio www.attac.org/(clicar em “Attac em el mundo” e depois em


“Brasil”). O acesso pode ser a partir da Plataforma Moodle.

Leia a obra Por uma outra globalização, de Milton Santos (Editora Record). O autor
aborda a globalização enquanto projeto hegemônico, encerrando perversidades
que precisam ser enfrentadas pela sociedade.

Seção 2
As modernas infraestruturas
territoriais

O padrão altamente tecnológico do capitalismo moderno exige


níveis de financiamento inéditos, em muito superiores às possibilidades
de um único empreendedor capitalista. A construção desse novo meio
geográfico, mais denso em técnica e informação, corresponde às novas
necessidades logísticas das grandes corporações empresariais para
a competição intercapitalista. Na dimensão da economia-mundo, os
circuitos espaciais de produção e círculos de cooperação (SANTOS,
1994; 1996) formam escalas produtivo-territoriais bem mais amplas
que aquelas das tradicionais solidariedades produtivas em base local e
regional.
Nem sempre os bancos privados podem ou estão dispostos a fornecer
os capitais necessários para tal expansão empresarial e infraestrutural.
O Estado aparece então enquanto centralizador de capitais através da
constituição de fundos públicos, formados por impostos e empréstimos
do capital financeiro.
Outras vezes ainda o Estado é chamado a atuar como agente regulador
do mercado. Por exemplo, quando o governo brasileiro desregulamentou
os serviços de telefonia para permitir a entrada de capitais externos na
privatização do setor, reservando ao poder público apenas a tarefa de
fiscalização através de uma agência reguladora específica. Portanto, cada
nova realização da mística da (re)criação da máquina produtiva nacional
exige dos planejadores a viabilização de uma intromissão “rápida e brutal
do grande capital”, seja ele público ou privado. (SANTOS, 2003, p.13).

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unidade 4
Geografia Econômica 2
A matriz energética

A logística empresarial não se restringe a estruturas de armazenagem


ou infraestrutura de circulação (ferrovias, rodovias, portos). O
desenvolvimento da economia urbano-industrial está intimamente ligado
também à matriz energética. Esta depende não só das necessidades de
consumo e das disponibilidades de reservas naturais de cada país, mas
principalmente do volume de capital que pode ser “acessado” para esse
fim.
O sistema de geração de energia elétrica brasileiro está assentado
principalmente na força hidráulica, com as demais fontes de energia
usadas em caráter complementar, como nas termoelétricas a carvão
mineral, gás liquefeito de petróleo (GLP), petróleo ou energia nuclear.
As fontes alternativas, como a solar e a energia eólica, são ainda pouco
exploradas. A hidroeletricidade apresenta menor custo que outras fontes
como petróleo e energia nuclear, constituindo-se numa importante
vantagem competitiva do parque industrial brasileiro.
Mas para movimentar a frota automobilística nacional ainda
dependemos enormemente do petróleo, em que pese o avanço do etanol
(álcool) e biodiesel. O etanol já responde por metade do consumo nos
postos de gasolina do país.
Os Estados Unidos são o maior importador de energia do planeta,
ainda que também apareçam como grande produtor. O consumo per
capita do equivalente de petróleo de um cidadão norte-americano é
mais de 1.000 vezes superior ao de um somali. Também os países mais
industrializados da Europa Ocidental (Inglaterra, Alemanha, França e
Itália) e da Ásia (Japão, Coréia do Sul, China e Índia) consomem muito
mais energia do que produzem. Diante da redução brutal das novas
descobertas de jazidas de petróleo, os Estados Unidos e outros países
desenvolvidos começam a investir em fontes alternativas de energia, caso
do etanol. Os investimentos no setor canavieiro e em usinas de álcool
explodiram no Brasil em virtude dessas expectativas.
No século XIX, o carvão representou o combustível da Primeira
Revolução Industrial, pois era o combustível dos motores a vapor que
impulsionava trens e navios. A partir do século XX, o petróleo tomou o
lugar do carvão mineral e catapultou a Segunda Revolução Industrial.

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unidade 4
Universidade Aberta do Brasil

Ainda hoje, o mundo depende do petróleo e seus derivados (diesel e


querosene de aviação) nos transportes, mas também na construção
civil (betume), nas indústrias de plásticos, de fertilizantes e de borracha
(ligadas ao complexo petroquímico).
A indústria do petróleo movimenta trilhões de dólares no
desenvolvimento de infra-estruturas de pesquisa, prospecção,
armazenagem, refino e distribuição. Os investimentos em pesquisas de
novas jazidas são de alto risco (fator alegado para a quebra do monopólio
do petróleo no Brasil). A montagem das torres e das plataformas de
extração de petróleo também não é nada barata, assim como o transporte
por meio de superpetroleiros e de extensos gasodutos e oleodutos; mas
geram grande número de empregos (felizmente a Petrobras passou agora
a investir na indústria da construção naval brasileira). Da mesma forma,
o refino do petróleo exige alguns bilhões de dólares para a obtenção dos
derivados como gasolina e nafta (a matéria-prima mais importante dos
polos petroquímicos), e vários bilhões de dólares a mais para a instalação
dos complexos petroquímicos, que concentram as plantas industriais
fornecedoras de matérias-primas (obtidas a partir de processos de quebra
da molécula do petróleo) para diversas indústrias.
Tanto a opulência de cidades como Dubai (Emirados Árabes) quanto
a retomada do crescimento econômico de países como Rússia, Venezuela
e Nigéria deve-se fundamentalmente à exploração de suas riquezas
petrolíferas. O petróleo e o gás correspondem a mais de 60% do consumo
mundial de energia, impulsionando a economia moderna, seguidos pelo
carvão com 27%, pela energia nuclear com 7%, e pela energia hidráulica
com 3%.

Para entender melhor os assuntos trabalhados nesta Unidade, sugerimos os


seguintes vídeos, cujos trailers podem ser acompanhados na Plataforma Moodle:
• Narradores de Javé: Filme de Eliane Caffé (2004) para quem já está cansado
dos estereótipos do sertão nordestino. A história se passa num povoado que
vai desaparecer sob as águas para a construção de uma hidrelétrica.
• Voz de Ludmila: Documentário de 2002 que apresenta de forma comovente os
dramas pessoais das vítimas da tragédia de Chernobyl.

Navegue também no sítio www.petrobras.com.br/ (clique no ícone SALA DE AULA


para obter informações sobre o processo de formação dos hidrocarbonetos, o refino
do petróleo e a importância da petroquímica para o dia-a-dia).

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Geografia Econômica 2
As infovias

Por modificarem profundamente o padrão espaço-tempo, as ferrovias


representaram as espinhas dorsais da Primeira Revolução Industrial, e as
rodovias, as da Segunda Revolução Industrial. Mas qual seria a revolução
dos transportes da era da globalização?
A Revolução Tecnocientífica, assentada no desenvolvimento da
informática (chips) e das telecomunicações (satélites), tem revolucionado
novamente o padrão espaço-tempo. Mas, desta vez, o centro do
processo não ocorre no transporte de mercadorias, e sim no transporte
de informações. Portanto, são as infovias (vias de transmissão de dados)
que possibilitaram a fabulosa ampliação da capacidade de transmissão
de informações vitais para o andamento da nova economia, criando uma
malha verdadeiramente global e complexamente integrada.
O espetacular crescimento do mercado financeiro e das
multinacionais somente foi possível a partir do desenvolvimento das
infovias. Nessas “estradas da informação”, os investimentos de capital
que sustentam o sistema financeiro global e os comandos técnicos e
gerenciais que permitem a sincronia entre as filiais multinacionais são
convertidos em sinais eletrônicos e assim conseguem libertar-se dos limites
geográficos e temporais contidos nas formas de transporte convencionais
(navio, trem, carro e até avião).
O transporte de mercadorias físicas (soja, vinho, celulares, calçados)
também exigiu o aperfeiçoamento das infraestruturas ferroviária,
rodoviária, marítima e aérea. Essa é a razão das periódicas melhorias na
infraestrutura de transportes de todos os países, inclusive as reformas
brasileiras do setor portuário, para permitir a automatização do processo
de carga-descarga dos navios (comprando briga com os sindicatos de
estivadores) e investimentos privados. A infraestrutura “nacional” não
é pensada para os cidadãos do país, mas para as grandes empresas e os
mercados globais.

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Universidade Aberta do Brasil

Para entender melhor os assuntos trabalhados nesta Unidade, sugerimos os seguintes


sítios, que podem ser acessados também a partir da Plataforma Moodle:
• www.transportes.gov.br (página do Ministério dos Transportes)
• www.mme.gov.br (página do Ministério das Minas e Energia)

Para entender a importância da indústria do petróleo, o professor pode agendar uma visita
técnica com a turma a uma refinaria ou polo petroquímico. Nunca esquecendo que deve ser
pedido um relatório individual de cada aluno. Veja algumas dicas na Plataforma Moodle.

Seção 1
O mercado acionário transformou-se numa alternativa importante para ganhar (e perder) dinheiro
através da especulação. Tendo em vista essa questão, execute os seguintes passos:
Pesquise na internet o que é uma ação e quais as principais bolsas de valores mundiais.
Procure o significado do termo especulação financeira (se necessário, busque auxílio na Plataforma
Moodle).
A partir das informações obtidas, elabore um texto de até 10 linhas com sua opinião sobre o papel
produtivo (expansão de plantas industriais) e especulativo dos mercados acionários no mundo atual.

Seção 2
Procure nos sítios (veja endereços eletrônicos na Plataforma Moodle) do CNPQ, CAPES, Embrapa,
Ministério da Ciência e Tecnologia informações acerca da distribuição geográfica (regional) da pesquisa
e desenvolvimento tecnológico (P&D) no Brasil. Deixe sua opinião sobre esse padrão geográfico da
P&D para compartilhar com seus colegas no ambiente da Plataforma Moodle.

A geografia do mundo tem mobilizado entre a comunidade geográfica dois conceitos: o de


território (para captar a distribuição e o sentido dos fixos) e o de rede (para captar a distribuição e
o sentido dos fluxos). A teoria de redes surge exatamente para tentar dar conta dessa efemeridade
das formas geográficas, produto de uma realidade cada vez mais fundada nos fluxos materiais
(mercadorias) e imateriais (finanças e informação) em detrimento dos fixos geográficos (indústrias e
redes de infraestrutura física).
Nesta Unidade IV, você foi levado ao mundo dos fluxos financeiros, buscando sua gênese tanto na
revolução do ambiente técnico (da associação entre informática e telecomunicações) quanto na
reforma do ambiente político nacional (desregulamentação dos mercados financeiros). A expansão do
sistema financeiro permitiu que o meio geográfico alcançasse a escala da economia-mundo, através
da viabilização da ampliação da logística dos grandes grupos industriais e do setor de serviços.

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PALAVRAS FINAIS

Neste livro de Geografia Econômica II você pôde aprofundar


seus conhecimentos acerca da nova economia mundial, bem como seus
reflexos na reorganização do espaço geográfico e da sociedade moderna.
O processo de globalização foi analisado em torno de seus vetores
mais significativos: as inovações técnicas, a liberalização dos mercados
financeiros, a abertura comercial, a nova logística da produção e a
expansão das multinacionais.
Você deve ter percebido também que os impactos sociais da
globalização são positivos, como no desenvolvimento de novas tecnologias
e disponibilização de novos produtos em mercados mundializados, e
negativos, como no fenômeno do desemprego estrutural produzido pela
automatização e informatização da sociedade. Você é agora convidado
a refletir sobre que outra globalização é possível, e o que a sociedade
civil organizada pode fazer a respeito, principalmente a partir das
particularidades do lugar onde mora e/ou exercerá sua atividade
docente.

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PALAVRAS FINAIS
Geografia Econômica 2
REFERÊNCIAS
CHESNAIS, F. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã Ed., 1996 (1994).

DINIZ, C. C. & CROCCA, M. A. Reestruturação produtiva e novos distritos industriais


no Brasil: o novo mapa da indústria brasileira. Curitiba: Ipardes, 1995.

DINIZ FILHO, L. L. A nova geografia da industrialização brasileira. In: ALBUQUERQUE,


E. S. de (Org.). Que país é esse? Pensando o Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora
Globo, 2005, p. 63-100.

FIGUEIRA, P. A. & MENDES, M. C. Estudo preliminar. In: BENCI, J.S.I. Economia cristã
dos senhores no governo dos escravos (Livro brasileiro de 1700). São Paulo: Editorial
Grijalbo, 1977.

FIORI, J. L. A nova geopolítica das nações e o lugar da Rússia, China, Índia, Brasil e África
do Sul. In: Oikos - Revista de Economia Ortodoxa, n. 8, ano VI, 2007, p.77-106.

GERTEL, S. Globalização e meio técnico-científico: o nexo informacional. In: SANTOS, M.


et alii. Fim de século e globalização. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 2002, p. 188-200.

HARVEY, D. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1998.

HOBSBAWN, E. A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 (1977).

LIPIETZ, A. Miragens e milagres: problemas da industrialização no terceiro mundo.


São Paulo: Nobel, 1988.

PIQUET, R. Cidade-empresa. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

SANTOS, M. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2004.

______. Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e Meio Técnico-Científico-Informacional.


São Paulo: Hucitec, 1996.

SANTOS, M. et al (Orgs.) Fim de século e globalização. São Paulo: Hucitec-ANPUR,


2002.

SANTOS, M. & SILVEIRA, M. L. O Brasil: território e sociedade no início do século


XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

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REFERÊNCIAS
Geografia Econômica 2
NOTAS SOBRE OS AUTORES

Edu Silvestre de ALBUQUERQUE


Licenciado e Bacharel em Geografia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Geografia Humana pela Universidade
de São Paulo (USP) e Doutor em Geografia pela Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC). Professor Adjunto da UEPG-PR. Organizador e
autor da coletânea de ensaios Que País é Esse? (Editora Globo, 2006),
indicado pelo MEC-2008. Autor dos paradidáticos de Ensino Básico A
Revolução Farroupilha (Editora Saraiva, 2003), indicado ao PNLD-SP, e
A Geopolítica do Brasil (Editora Atual, 2007), indicado pela Secretaria de
Educação do Espírito Santo.

Leonel Brizolla MONASTIRSKY


Licenciado em Geografia e Bacharel em Administração de
Empresas, ambos pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG),
Especialista em Geografia Humana pela Unicentro (PR). Mestre e Doutor
em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Professor da UEPG. Participação da equipe de implantação do Plano
Diretor de Antônio Carlos (SC). Conselheiro do Conselho Municipal do
Patrimônio Artístico e Cultural de Ponta Grossa (COMPAC). Co-autor do
livro Espaço e Cultura (Editora da UEPG).

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AUTORes