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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos

Remédios do Fundão do Cintra

Prefeitura Municipal de Ouro Preto


Secretaria Municipal de Cultura e Turismo
Departamento de Promoção Cultural
Programa Municipal de Patrimônio Imaterial
Dezembro/2009
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

SUMÁRIO

A – Agradecimentos 01

B – Lei do registro do imaterial 02

C – Introdução 10

1. O registro do patrimônio imaterial 10


2. Oralidade, identidade e memória 15
3. Metodologia e pesquisa 17

D – Contextualização 18

1. Histórico 18
1.1 Histórico do Município 18
1.2 Santo Antônio do Salto e Fundão do Cintra 30
2. A celebração 33
2.1 Devoção e celebrações em honra de Nossa Senhora dos Remédios
(Atividades correlatas) 34
2.2 Origem da festa no Fundão do Cintra 35
2.3 O espaço, o tempo e as celebrações 36
2.4 A capela e os bens tangíveis da celebração 37
2.5 Descrição, narrativas e transformações da celebração 41
2.6 Memórias e milagres 45
2.7 Passado devoto, presente profano? 48
2.8 Palavras finais: o registro da Festa de Nossa
Senhora dos Remédios 49

E – Acervo religioso da capela do Fundão do Cintra 53

F - Delimitação e descrição da área de ocorrência 64

G – Salvaguarda e Valorização 65

H – Documentação Fotográfica 66

I – Referências Documentais 83

J – Bibliografia 83

K – Anexos 85
1. Transcrição de entrevistas 85
2. Documentação técnica
3. Registro audiovisual 137

L – Ficha Técnica 138


Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

A- Agradecimentos

Toda comunidade de Santo Antônio do Salto, em especial às organizadoras da festa de Nossa


Senhora dos Remédios: Edir Bernardo de Souza Neto, Maria Aparecida Bernardo de Souza e Wanderléya
Aparecida da Silva Alcântara. Sempre presentes nos auxílios necessários durante os trabalhos e
responsáveis pela bela festa no Fundão do Cintra.

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B – Lei do registro do imaterial

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C - Introdução
1. O registro de patrimônio imaterial

A Prefeitura Municipal de Ouro Preto, dentro das orientações nacionais regulamentadas pelo decreto
3551/2000 e das orientações do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial do IPHAN, instituiu, em 2002, o
registro municipal de bens culturais de natureza imaterial ou intangível. A primeira ação no sentido de se
inventariar um bem e se elaborar um dossiê para o seu registro teve início em 2006, tratou-se da Tradicional
produção artesanal de doces de São Bartolomeu que, desde 2008, se tornou patrimônio cultural imaterial de
Ouro Preto, através do Decreto 1096 de 15 de abril de 2008 e sendo registrado no Livro de Saberes e
Celebrações do Município.
Na sessão do Conselho Municipal de Patrimônio em que foi apresentado e aprovado o registro do
primeiro bem imaterial do município, em 25 de março de 2008, foi também aberto o processo de inventário e
registro de seu segundo bem, a Celebração da Festa de Nossa Senhora dos Remédios, que acontece na
localidade do Fundão do Cintra, no distrito ouropretano de Santo Antônio do Salto. O dossiê que ora se
apresenta destina-se a ser apreciado como fundamentação para o registro dessa celebração como patrimônio
cultural imaterial de Ouro Preto.
Entre as diversas motivações da aplicação de uma política pública patrimonialista, temos a preocupação
em contribuir para a perpetuação da diversidade. Esse é apontado como um dos motivos pelos quais as políticas
patrimonialistas são um ponto de grande disputa e tensão entre a sociedade civil e o Estado. Dizer que a
questão patrimonial deixou de pertencer ao âmbito do cuidado com o passado, principalmente o passado da
nação, e se tornou uma preocupação com o futuro, começa a fazer muito sentido, principalmente quando
refletimos sobre questões como o patrimônio genético.
No entanto, quando tratamos do patrimônio imaterial e nos referimos à celebrações e festas religiosas,
como neste caso, os debates não são tão tensos quanto sobre patentes de curas fitoterápicas tradicionais, por
exemplo, pois esse debate envolve transações econômicas e discussões diplomáticas profundas, por se
envolverem questões sobre a biodiversidade ambiental, sendo disputas mais árduas.
O patrimônio imaterial ou intangível como definido pela Unesco1 representa:

O conjunto das manifestações culturais, tradicionais e populares, ou seja, as


criações coletivas emanadas da comunidade, fundadas sobre a tradição. Elas são
transmitidas oral e gestualmente, e modificadas através do tempo por um processo
de criação coletiva. Integram esta modalidade de patrimônio as línguas, as
tradições orais, os costumes, a música, a dança, os ritos, os festivais, a medicina
tradicional, as artes da mesa e o “saber-fazer” dos artesanatos e das arquiteturas
tradicionais.

Essa formulação é fruto das reivindicações de países do chamado terceiro mundo frente à organizações
internacionais, como a Unesco, para que a especificidade do patrimônio desses países fosse absorvida dentro
dessa nova modalidade de política pública, ação social e iniciativa privada, enfim essa nova prática social. No
Brasil, isso ocorreu gradualmente e o decreto 3.551 de Agosto de 2000 institui, finalmente, o registro do
patrimônio imaterial. Tal medida foi crucial para um arejamento das concepções e ações patrimonialistas que
continuam se modificando, ganhando novos objetos e métodos.

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As técnicas de registro progridem aceleradamente, assim como acontece com as tecnologias que as
aparatam. Se os órgãos os quais propõem patrimonializar não conseguem realizar a perpetuação da diversidade
cultural plenamente, ao menos, é possível dizer que eles podem registrar tal diversidade de maneira muito
eficaz. A orientação legal sobre políticas públicas patrimonialistas normatizam que além do registro há, também,
de se salvaguardar os bens registrados. Apesar do assunto já ter sido bem debatido, cabe ainda ressaltar o fato
de que o serviço de registro não precisa prejudicar a dinâmica da manifestação através do tempo, a intenção
não é congelá-la, tanto que outra orientação do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial é a da refeitura dos
registros, em um intervalo de no mínimo, a cada dez anos. Desde 2002, o IPHAN tem registrado bens culturais
imateriais na esfera federal, como o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras (dez./2002); a Arte Kusiwa dos índios
Wajãpi (dez.2002); o Samba de roda do Recôncavo Baiano (out./2004); a celebração do Círio de Nossa Senhora
de Nazaré (out./2005); e outros.
Além dos bens registrados nacionalmente, políticas de registro e salvaguarda nas esferas estaduais e
municipais vêm sendo implementadas. No Estado de Minas Gerais, por exemplo, o Modo de fazer queijo
artesanal da região do Serro se tornou patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais. Municípios mineiros
também têm adotado essa política, como o Festival da Jabuticaba, que foi registrado em 2007, como patrimônio
imaterial do município de Sabará, e a Festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito foi
registrada, em 2008, como patrimônio imaterial de Uberlândia. Como referência para o nosso trabalho,
escolhemos um dossiê do qual faremos menção no inventário da festa de Nossa Senhora dos Remédios, o do
Círio de Nazaré, pois são duas festas religiosas católicas, apesar de a segunda ter proporções
incomparavelmente maiores do que a primeira, mesmo assim, o processo de inventário e registro do Círio de
Nazaré se tornou uma referência no registro de festas religiosas por ter sido um bem registrado com êxito e cujo
material de divulgação pode ser consultado sem problemas.
No Pará, há uma lenda que remete ao achado da imagem de Nossa Senhora, na floresta da província
de Grão Pará e Rio Negro em 1700, por um caboclo chamado Plácido, esse teria tomado posse da imagem, ao
passo que a mesma retornara ao seu lugar de origem no dia seguinte. A Santa teria repetido essa mesma
façanha em outras ocasiões, o que deu origem à um dos elementos cruciais do que ficou conhecido como Círio
de Nazaré, a trasladação, repetida todos os anos, refazendo, em procissão, o retorno da Santa.
O Círio de Nazaré foi registrado como patrimônio imaterial brasileiro, através do livro de celebrações do
IPHAN em 2004. Tal medida foi tomada não em função da cautela sobre a possível extinção do bem, visto que é
uma manifestação que agrega um milhão e meio de pessoas em um só dia, mas tal instrumento pode servir para
garantir a legitimação e o apoio do Estado na sua realização. Como é afirmado no próprio dossiê:
O reconhecimento de um bem de natureza imaterial como patrimônio cultural
brasileiro, por meio do Registro, atribui a ele valor representativo da cultura e da
identidade brasileiras. Ao chancelar determinada manifestação cultural com esse
título, a União assume tanto a responsabilidade de acompanhar os possíveis
desdobramentos e reflexos desse ato sobre o bem, quanto o compromisso com a
sua preservação. Compromisso este que se traduz na sua divulgação e valorização,
e também na recomendação de ações para sua salvaguarda2.

A necessidade de registro de um bem, como medida profilática em relação à sua extinção suscita uma
série de debates sobre as características culturais da contemporaneidade. Em tempos de globalização, a
tendência geral é a da homogeneização dos modos de vida concentradas no consumo, desta forma, o registro
da diversidade cultural se torna imprescindível. Há, com certeza, a necessidade de relativizar essa assertiva,

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quando se pensa que o registro em si está dentro de um regime concebido por Pierre Nora, em seu texto
Lugares de Memória, como o regime de história e não o de memória, este último ao qual pertencem as
manifestações registradas. O registro pertence ao regime da escrita, menos espontâneo, e as manifestações ao
regime da memória sempre viva, dinâmica e mutante. A partir dessa perspectiva o registro, através de sua
produção de dossiês e documentos, poderia ser pensado como um lugar de memória. Estenderemos essa
reflexão inserindo elementos que a corroboram e que a problematizam.
Considerar as reflexões sobre nosso tempo a partir das ações em torno do patrimônio é importante para
contribuir para uma leitura mais crítica sobre as próprias práticas de registro e as suas funções e conseqüências
sociais. Para tanto, as elaborações de Pierre Nora e François Hartog têm de se fazer presentes:

Fala-se tanto de memória porque ela não existe mais... Há locais de memória
porque não há meios de memória [...] A memória é a vida, sempre carregada por
grupos vivos e, nesse sentido ela está em permanente evolução, aberta à dialética
da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas,
vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de
repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e
incompleta do que não existe mais3. (NORA, 1993. P 7, 9)

Portanto, precisaríamos registrar tudo quanto nos é distante ou inacessível, na esperança de que algum
dia pudéssemos juntar os fragmentos do passado e nos integrarmos a ele criando uma identidade coesa e
segura. Nessa interminável busca, o que temos em troca parecem ser simulacros tanto mais perfeitos quanto
menos espontâneos. No intuito de apreender um sentido para o que Hartog diagnostica como presentismo, são
elencados pelo autor elementos que comporiam essa realidade, e uma presença marcante é a da
“patrimonialização galopante”. Seguem questionamentos do autor que esclarecem suas posturas:

O que significou do ponto de vista do tempo, de sua ordem, o movimento de


extensão e de universalização do patrimônio, ao qual nós temos assistido há um
bom quarto de século? De qual regime de historicidade a patrimonialização
galopante dos anos 1990, como nós a qualificamos algumas vezes pode ser a
marca? Este gosto pelo passado vinha testemunhar repentinamente um tipo de
nostalgia por um antigo regime de historicidade, contudo, desde há muito fora de
uso? Inversamente como ele podia ainda se ajustar a um regime moderno que
tinha posto há dois séculos todo o seu “fervor de esperança” no futuro?4

Como defender a presença de uma política pública de patrimonialização frente à questionamentos como
esses? A princípio não faria sentido, pois esses argumentos dão margem para entender as medidas de registro
como mais uma forma de criar a “necessidade de memória”, que por sua vez significa uma “necessidade de
história”. Ou seja, se concebemos essa necessidade de história como algo que vai de encontro às manifestações
tradicionais, o processo de registro e patrimonialização não passaria de uma contradição em si.
No entanto, dentro da feitura de um processo de registro, principalmente no âmbito que nos cabe, o do
patrimônio imaterial, percebemos que os ganhos sociais vão além de um material com fotografias e textos sobre
determinada prática. O processo de registro do patrimônio imaterial pode se valer, em muitos casos, da
instituição que o respalda, no intuito de captar recursos para contribuir, em caso de necessidade, para a
manutenção da manifestação direta ou indiretamente. A chancela pública à manifestação cultural pode atuar
como representação de apoio e valorização da manifestação frente à sociedade, gerar assim um acréscimo na

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auto–estima das pessoas envolvidas com o patrimônio em questão, além de criar um instrumento de legitimação
que permite mais envolvimento e troca com outros setores da sociedade e o próprio Estado. O registro, portanto
pode servir para conferir um reconhecimento de valor a algo, mesmo que ele não seja uma mercadoria, o que
atualmente mostra uma exceção.
Registrar o patrimônio imaterial remete também à uma conscientização da sociedade sobre o valor das
manifestações tradicionais. Isso é importante porque essas últimas geralmente se mostram como formas de vida
que mantém uma relação sustentável com o meio ambiente. Criar um acervo sobre as manifestações tradicionais
é interessante não só se pautando no discurso na perda, mas também a partir do momento que se entende uma
necessidade de se registrar as mudanças das manifestações através do tempo, o que contribui para as futuras
gerações poderem refletir sobre o seu próprio contexto de maneira comparativa.
Se as representações do passado vêm progressivamente se modificando, se elas não abarcam mais
apenas a história dos grandes homens e das grandes instituições, o registro pode contribuir para uma
historiografia na qual os diversos conflitos e lutas populares marcam permanências e descontinuidades ao longo
do tempo. Essa transformação da historiografia fica bem exemplificada quando pensamos que as festas se
tornaram um objeto de estudo profusamente desenvolvido dentro das instituições. Apesar de esse tema ter sido
objeto de análise de viajantes e de estudiosos como Mário de Andrade e Câmara Cascudo,

Foi a partir dos anos setenta, entretanto, que os fenômenos festivos passaram a
configurar um campo específico de interesse da nouvelle histoire que, apesar de
abrigar diferentes vertentes teóricas, pautou o retorno à história “acontecimental”
ao preconizar uma abordagem antropológica dos fenômenos coletivos e da
politização da vida cotidiana5

José Ramos Tinhorão é um dos pesquisadores que realizou de maneira aprofundada o estudo sobre
festas no Brasil, em seu estudo sobre a temática no período colonial, caracteriza as festas como manifestações
devoto-oficiais, pois:
Assim, o que durante mais de duzentos anos se registra como aproveitamento
coletivo do lazer na colônia americana de Portugal não seriam propriamente festas
dedicadas à fruição do impulso individual para o lúdico, mas momentos de
sociabilidade festiva, propiciados ora por efemérides ligadas ao poder do Estado,
ora pelo calendário religioso estabelecido pelo poder espiritual da Igreja6.

As festas de santos, desde os tempos da colonização portuguesa, sempre foram momentos de


sociabilidade, de exibição pública do poderio e importância das irmandades, tanto pela qualidade e riqueza dos
festejos e ornamentos, quanto pela capacidade de se aglutinar pessoas em torno de sua celebração. Esses
aspectos não diminuem a devoção dos participantes e moradores das vilas e arraiais, pelo contrário, a própria
empreitada colonizadora teve em seu objetivo religioso uma de suas principais marcas, não por acaso a
nomeação de um local encontrado ou fundado se deu, muitas vezes, em função do santo do dia. A devoção
santeira trazida de Portugal ainda é presente em nossas cidades atualmente, e as celebrações em torno de um
orago possuem características muito próximas do culto público que este merece, especialmente através das
festas, aproximando os fiéis com os seus santos de devoção, como diz João José Reis:

Nessa visão barroca do catolicismo, o santo não se contenta com a prece


individual. Sua intercessão será tão mais eficaz quanto maior for a capacidade dos
indivíduos de se unirem para homenageá-lo de maneira espetacular. Para receber

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força do santo, deve o devoto fortalecê-lo com as festas em seu louvor, festas que
representam exatamente um ritual de intercâmbio de energias entre homens e
divindades7.

Recuar no tempo através da pesquisa é interessante para agregar possíveis elementos formadores da
manifestação, a festa em honra à Nossa Senhora dos Remédios apresenta características do que ficou conhecido
como catolicismo popular. Maria da Graça Coutinho de Góes, na sua dissertação de mestrado, elenca alguns dos
componentes dessa categoria, e dá destaque para o protagonismo de leigos na constituição dessa forma de
catolicismo, além do culto aos santos, que estabelece uma estreita relação entre este fenômeno e a prática de
promessas. No mesmo trabalho a pesquisadora traz várias referências sobre a questão:

A devoção, este sentimento religioso dedicado à Deus e aos santos, é o que move
o crente a demonstrar, em atos e ações de especial veneração, sua disposição
afetiva de adoração, utilizando-se dos ex-votos como objeto de agradecimento a
ser oferecido aos santos prediletos8.

A devoção é um traço marcante na festa, a efetiva crença em Nossa Senhora dos Remédios se
evidencia tanto através dos diversos relatos pessoais sobre graças atendidas quanto no próprio ritual, que é
composto por um cuidado especial com todos os detalhes da celebração, além do respeito dos organizadores
com todas as oferendas e ex-votos feitos à Santa, que são guardados e utilizados, cada um à seu modo. Como
os ex-votos são parte da devoção e do ritual, vale nos determos neles, a partir da mesma autora:

A oferta dos ex-votos para o crente representa o pagamento de uma promessa em


seu diálogo com Deus. Desta forma, podemos considerar que o hábito religioso da
gratidão e da oferta diante de uma graça alcançada, aos santos prediletos ou às
suas divindades, pode se caracterizar como uma troca de favores com o divino ou
com o espaço sagrado. Os sacrifícios geralmente executados nas romarias e
peregrinações; as homenagens, realizadas através das festas, novenas, cultos em
louvor; confraternizações e comunhões; as ofertas; oferendas e ex-votos entregues
em lugares sagrados são gestos simbólicos que o homem desenvolve com o divino
numa relação de agradecimento, saldando débitos com seus oragos9.

O culto a Nossa Senhora dos Remédios, e a celebração dele são manifestações, que a partir dessas
perspectivas, compõem a forma peculiar como grande parte do catolicismo se firmou no Brasil, e registrar tais
características podem auxiliar na formação e recriação desses elementos, a partir do momento em que o registro
se torna também um instrumento de reconhecimento dessa prática.
José Reginaldo Gonçalves, no texto “O patrimônio como categoria de pensamento”, discute o fato de a
categoria patrimônio imaterial derivar de um conceito moderno de materialidade:

Há uma diferença básica que reside entre matéria e espírito. Sabemos que a
concepção de uma matéria depurada de qualquer espírito é uma construção
moderna. O mesmo acontece com um espírito independentemente de toda e
qualquer materialidade. Não é a partir dessa dicotomia que pensam os devotos. É
necessário levar em conta esse fato, se quisermos entender a concepção nativa de
patrimônio10.

Tal concepção moderna de materialidade também não parece convencer os devotos de Nossa Senhora
dos Remédios, apesar do discurso do padre descrever os objetos sagrados como a coroa, o mastro, as bandeiras

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e a própria imagem da santa como símbolos com o propósito de que os fiéis possam concentrar a sua fé. Os
devotos de Nossa Senhora dos Remédios, tanto no nível atitudinal quanto no discursivo, se referem à santa
como uma manifestação divina e não só a imagem como os outros objetos envolvidos.
Dentro do culto a Nossa Senhora dos Remédios há um ritual onde as roupas e os cabelos da santa são
sempre renovados, e os fiéis que as oferecem, renovam também a sua fé. Nessa troca nada parece ficar no
âmbito das representações, e sim da manifestação ativa dos elementos divinos. O toque nos objetos sagrados e
a relação de proximidade com eles são entendidos como primordiais para que as graças sejam atendidas. Além
disso, a abstração da fé também tem os seus limites quando observamos diversos objetos dentro da capela da
santa, estes são deixados como agradecimento a um milagre alcançado, geralmente uma cura, ou como um
intermediário entre a aflição e a graça esperada.
O registro desse patrimônio imaterial exige que não só fotografias e documentos sejam guardados e
relacionados, pois a concepção é de que o patrimônio se configura também a partir da relação tão unificada
entre o espiritual e o material, portanto, esse patrimônio está intrinsecamente ligado a essa relação de devoção
tão peculiar. A festa de Nossa Senhora dos Remédios traz em seu seio uma tradição, conservada em alguns
aspectos e modificada em outros, com o seu âmago focado na devoção à Santa. As manifestações dessa
devoção estão na memória e no dia-a–dia dos devotos, assim como nos objetos ligados a essa fé, a saber, as
fotografias, os documentos e até a própria imagem, todo o ritual que cerca a devoção tem caráter de
continuidade com o passado e apresenta perspectivas de continuar a existir.

2. Oralidade, identidade e memória

Ouvir o que os fiéis, participantes e organizadores, antigos e atuais, têm a dizer sobre a festa e seu espaço
tornou-se fundamental neste trabalho. A devoção, os sentimentos e o tratamento com os objetos privilegiados
da fé se tornam mas próximos de nós quando ouvimos aqueles que vivenciam cotidianamente as práticas
religiosas. Daí buscarmos os relatos orais acerca da celebração da festa de Nossa Senhora dos Remédios.
A análise dos discursos orais nos remete à Antiguidade, mas foi a partir século XX, no bojo dos projetos da
Nova História que esta passou a ser encarada como um instrumento de grande relevância na escrita da história.
Através da gravação e análise das entrevistas, os pesquisadores procuravam expandir os objetos e as fontes que
poderiam ser consultadas e desta forma, encontrar uma maneira de contribuir com o estudo desenvolvido pelas
outras fontes. Marcadamente interdisciplinares os estudos com fontes orais mesclavam ferramentas teóricas da
Antropologia, Sociologia, Literatura, Psicologia e História para aproximarem-se de suas fontes
Os estudos utilizando entrevistas orais receberam críticas principalmente acerca da subjetividade do discurso
de seus objetos, assim ao selecionar informações o entrevistado faria com que o pesquisador produzisse
trabalhos imprecisos e por isso contestáveis. Porém, ao utilizar a história oral para encontrar as informações
esquecidas ou ocultadas, o pesquisador admite a imprecisão e a subjetividade deste e de todos os outros
documentos históricos, afinal

[...] nenhum documento pode nos dizer mais do que aquilo que o autor pensava –
o que ele pensava que havia acontecido, queria que os outros pensassem que ele
pensava, ou mesmo apenas o que ele próprio pensava pensar. Nada disso significa
alguma coisa, até que o historiador trabalhe sobre esse material e decifre-o11.

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Segundo Philippe Joutard os três objetivos iniciais e básicos da história oral seriam: "ouvir a voz dos
excluídos e dos esquecidos; trazer à luz as realidades "indescritíveis", quer dizer, aquelas que a escrita não
consegue transmitir; testemunhar as situações de extremo abandono"12.
Com o objetivo de dar voz aos diversos atores sociais, a história oral ganhou mais força com o
aperfeiçoamento técnico dos gravadores nos anos 1960, passando a privilegiar a visão histórica dos pobres, das
crianças, dos operários, das mulheres, ou seja, "os membros de grupos sociais, que em geral, não deixavam
registros escritos de suas experiências e formas de ver o mundo13.
Verena Alberti lembra que, no anseio de escrever uma História através da justiça social, a história oral
"militante" tendeu a uma polarização da sociedade, em minorias e maiorias. Equívoco este que ainda é apontado
pela maioria dos contrários à história oral, como uma de suas principais características. Como lembra Philippe
Joutard, a história das elites é tão importante quanto aquela contada pelas minorias, pois o compromisso de
ouvir os silenciados não está ligado às posições sociais, mas à relevância das informações "silenciadas" pelos
indivíduos em outros documentos históricos.

Não se pode esquecer que, mesmo no caso daqueles que dominam perfeitamente
a escrita e nos deixam memórias ou cartas, o oral nos revela o "indescritível", toda
uma série de realidades que raramente aparecem nos documentos escritos, seja
porque são consideradas "muito insignificantes" - é o mundo da cotidianidade - ou
inconfessáveis, ou porque são impossíveis de transmitir pela escrita. É através do
oral que se pode apreender com mais clareza as verdadeiras razões de uma
decisão; que se descobre o valor de malhas tão eficientes quanto as estrutura
oficialmente reconhecidas e visíveis; que se penetra no mundo do imaginário e do
simbólico, que é tanto motor e criador da história quanto o universo racional14.

Assim, o objetivo principal da história oral seria trazer a tona visões e informações esquecidas ou oprimidas
em outros documentos históricos, que venham de alguma forma ser importantes para as pesquisas. A
subjetividade dos discursos e da memória na pesquisa com história oral, por outro lado, torna possível o estudo
pormenorizado de mitos, identidades, costumes populares, de crenças metafísicas, de memórias grupais.

A memória é essencial a um grupo, porem está atrelada à construção de sua


identidade. Ela [a memória] é resultado de um trabalho de organização e de
seleção do que é importante para o sentimento de unidade, de continuidade e
coerência, isso é identidade. E porque a memória é mutante, é passível de ser
estudada por meio de entrevistas de História oral. As disputas em torno das
memórias que prevalecerão em um grupo, em uma comunidade, ou até em uma
nação, são importantes para se compreender esse mesmo grupo, ou a sociedade
como um todo15.

De acordo com Maurice Halbwachs, a memória de um entrevistado deve ser analisada pela visão individual
e subjetiva de cada um sobre as coisas. Mas dentro de cada visão subjetiva podemos também encontrar
elementos comuns aos grupos em que estas pessoas estão inseridas, estas experiências vividas em grupo ou
pelo grupo são reconhecidas como verdades entre seus componentes ao mesmo tempo em que os identificam
como pertencentes a eles16. Reiterando essa posição, Pollak afirma que:

Todos os que já realizaram entrevistas de história de vida percebem que no


decorrer de uma entrevista muito longa, em que a ordem cronológica não está
sendo necessariamente obedecida, em que os entrevistados voltam várias vezes
aos mesmos acontecimentos, há nessas voltas a determinados períodos da vida, ou
a certos fatos, algo de invariante. É como se, numa história de vida individual -
mas isso acontece igualmente em memórias construídas coletivamente houvesse

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elementos irredutíveis, em que o trabalho de solidificação da memória foi tão


importante que impossibilitou a ocorrência de mudanças. Em certo sentido,
determinado número de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da
própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos
possam se modificarem função dos interlocutores, ou em função do movimento da
fala17.

Para que a memória de um grupo seja aceita por um indivíduo “é preciso também que ela não tenha
deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para
que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum"18. Desta forma, o
indivíduo ao reconhecer uma similaridade nos discursos das pessoas que cercam-no, passa a adotar como
verdade também algumas informações que não foram vivenciadas por ele próprio.

São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou, mas que, no
imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que
ela consiga saber se participou ou não. Se formos mais longe, a esses
acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam
dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. É perfeitamente possível
que, por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um
fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que
podemos falar numa memória quase que herdada19. (POLLAK, 1992:201)

Na procura por informações perdidas ou esquecidas por outros documentos e por analisar as construções,
lendas e mitos construídos coletivamente, a história oral torna-se uma ferramenta essencial no estudo da festa
de Nossa Senhora dos Remédios, pois os documentos oficiais sobre a região da capela do Fundão do Cintra são
escassos, logo com a coleta de entrevistas podemos ter acesso às “informações esquecidas” às quais Joutard
mencionara. Porém, talvez a principal utilidade deste método para nosso estudo seja a análise de uma
celebração religiosa organizada e mantida por leigos, através de uma tradição coletiva daquela região. É claro
que o catolicismo formal participa emprestando seus símbolos, santos e celebrações. Porém existem outras
várias particularidades da festa que continuam se perpetuando através da manutenção de uma memória coletiva
do que é a Festa de Nossa Senhora dos Remédios

3. Metodologia e pesquisa

Na busca pelas informações e memórias da festa de Nossa Senhora dos Remédios, buscamos, inicialmente,
as atuais organizadoras da festa, as senhoras Aparecida, Edir e Wanderléya, que são também nascidas na
região. As primeiras entrevistas nos propiciaram o contato com outros antigos moradores, participantes e
organizadores da festa, além de pessoas que tiveram papéis importantes no cuidado com a capela do Fundão do
Cintra, principal bem material associado à celebração.
As informações acerca da festa que recolhemos com as entrevistas, em sua maioria, só poderiam ser
obtidas através dessas memórias, pois, como se disse acima, há uma grande escassez de informações
documentais sobre a celebração e mesmo da localidade em que a mesma ocorre. Nesse sentido, as entrevistas
acabaram excedendo o objetivo inicial e nos propiciou o levantamento de informações, memórias e discursos
não só sobre a celebração que é o alvo de nosso trabalho, como também da localidade e comunidades que lá
viveram, além de alguns aspectos da sociabilidade dos moradores da região.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Foram realizadas seis entrevistas, sendo que algumas contaram com mais de um entrevistado, totalizando
nove entrevistados. Esse corpus de entrevistas nos possibilitou o cruzamento de algumas informações
importantes sobre a celebração e a localidade, o que nos permitiu inferir algumas conclusões baseando-nos em
mais de um relato pessoal. Procurou-se, a todo o momento, cruzar essas informações com outros tipos de
documentação, entretanto, em poucos casos isso foi possível. Ao mesmo tempo, as próprias entrevistas nos
abriram as portas de uma documentação bastante relevante para o nosso trabalho e que, de outra forma,
dificilmente teríamos acesso. Trata-se dos arquivos da Conferência de São Vicente de Paula em Honra de Nossa
Senhora dos Remédios, que, atualmente, acontece na região do Baú, mas desde sua fundação, em 1925, até
meados da década de 1990 teve lugar na capela de Nossa Senhora dos Remédios, sendo uma das principais
atividades que ocorriam neste espaço. Foi em uma entrevista com a senhora Maria Aparecida Bernardo de
Souza, uma das atuais organizadoras da festa e atual presidente da conferência, que descobrimos a existência
dessa documentação e nos foi franqueado o acesso.
Deve-se ressaltar ainda, que pelas características próprias à atividade de pesquisa e registro de um bem
imaterial e sua política atual, as entrevistas são mais do que um recurso para busca de informações na falta de
documentação tradicional. Os discursos e memórias pessoais nos trazem elementos fundamentais que tangem a
importância local da celebração, os sentimentos que ela mobiliza e a própria construção cotidiana da cultura
local.
A festa foi acompanhada desde 2008, sendo que, neste período, acompanhamos suas realizações em 2008
e 2009, seus antecedentes e organização. Além dos momentos da celebração, foram feitas visitas à localidade
para realização de entrevistas, conhecimento do local e pesquisa da documentação local. Foram entrevistados
também ex-moradores que hoje residem no distrito sede de Ouro Preto e consultados arquivos de Ouro Preto e
Mariana.

D - Contextualização
1 - Histórico
1.1 Histórico do Município
Por Alex Bohrer e Bernardo Andrade.

1.1.1 BREVE APRESENTAÇÃO HISTÓRICA DO MUNICÍPIO

A povoação de Ouro Preto foi fundada pela bandeira de Antônio Dias em 24 de Junho de 1698 e elevada à
categoria de vila em 1711 com o nome de Vila Rica d’ Albuquerque. Em 1823 foi elevada à Imperial Cidade de
Ouro Preto. A antiga capital de Minas conservou grande parte de seus monumentos coloniais e em 1933 foi
elevada a Patrimônio Nacional, sendo, cinco anos depois, tombada pela instituição que hoje é o IPHAN. Em 1980
se tornou Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, sendo a primeira cidade brasileira elevada a tal.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

A cidade de Ouro Preto, sede do grande município, situa-se nas ladeiras do vale do Córrego Tripuí à cerca de
1060 metros de altitude (em média) e a 20o 23’ 28” de lat. S e 43o 30’ 20” de long. W. Nenhum outro município
brasileiro acumulou tantos fatos históricos relevantes à construção da memória nacional como este vasto
município. Destacam-se, como marcos importantes da história brasileira:

-Última década do século XVII e princípio do XVIII - clímax das explorações paulistas, sendo descoberto o Ouro
Preto;
-1708 - Guerra dos Emboabas; os atritos entre paulistas e ‘forasteiros’ atinge o ponto alto no distrito de
Cachoeira do Campo;

-1720 - Sedição de Filipe dos Santos; motins contra o Quinto da Coroa Portuguesa;

-1789 - Inconfidência Mineira; confabulação entre determinados segmentos da sociedade mineradora de então
para tornar Minas livre do jugo português.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Gravura de autor desconhecido, que retrata Ouro Preto em 1820


Fonte: Acervo Museu da Inconfidência

Gravura cujo autor é


desconhecido, que retrata Ouro Preto em 1856
Fonte: Acervo Bernardo Andrade

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

A Praça Tiradentes em 1870


Fonte: Acervo Museu da Inconfidência

Inauguração da Estátua de Tiradentes – 21 de Abril de 1894


Fonte: Acervo do IFAC

Em 1897 Ouro Preto perde o status de capital mineira, especialmente por não apresentar alternativas viáveis ao
desenvolvimento físico urbano, sendo a sede transferida para o antigo Curral Del’Rey (onde uma nova cidade,
planejada e espaçosa, estava sendo preparada). A antiga cidade continuou polarizando seus distritos, sendo,
contudo o município somente sombra do que foi outrora o Termo de Vila Rica. Em 1923, pela Lei N° 843 de 7 de

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

setembro, emancipa-se a antiga Itabira do Campo, atual Itabirito e em 1953 cria-se o município de Ouro Branco,
desmembrado do de Ouro Preto pela Lei N°1039, de 12 de dezembro.

Conjunto de fotografias de Ouro Preto Praça tiradas entre os anos de 1870/ 80, cujo autor é desconhecido
Fonte: Acervo Museu da Inconfidência

Atualmente são os seguintes os distritos de Ouro Preto: Cachoeira do Campo, Amarantina, Glaura (Casa Branca),
São Bartolomeu, Santo Antônio do Leite, Rodrigo Silva, Miguel Burnier, Engenheiro Corrêa, Santa Rita, Santo

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Antônio do Salto, Antônio Pereira e Lavras Novas.

Destes, os que têm origem colonial20 são: Cachoeira do Campo, São Bartolomeu, Glaura (Casa Branca),
Amarantina, Antônio Pereira, Lavras Novas. Tomaram vulto no século XIX pela atividade comercial: Santa Rita de
Ouro Preto, Santo Antônio do Salto, Santo Antônio de Leite. Desenvolveram-se no século XIX em conseqüência
da presença da ferrovia (com marcante presença de arquitetura ferroviária): Rodrigo Silva, Miguel Burnier,
Engenheiro Corrêa.

1.1.1.1 EVOLUÇÃO URBANA E HISTÓRICA DA SEDE

Mapa da evolução do traçado urbano de Ouro Preto desde a criação de Vila Rica até o ano de 1949
Fonte: Programa “Museu Aberto Cidade Viva”

Situado em terreno extremamente montanhoso, acidentado, somente a febre aurífera escolheria este rincão
como palco de uma cidade. A relação ocupação humana x relevo e geografia proporcionou a Ouro Preto algumas
especificidades históricas curiosas. A evolução histórico-urbana dos núcleos de povoamento pode, desta monta,
ser estudada por dois vieses: a ocupação gradual de determinadas áreas, segundo o relevo, e a formação de
caminhos-eixo que condicionariam a feição atual da cidade.21

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

A região do bairro Antônio Dias, vista em 1881


Fonte: Museu da Inconfidência

Ouro Preto e sua paisagem montanhosa, vista em primeiro plano do prédio da atual reitoria
(Primeira metade do século XX)
Fonte: Luiz Fontana - Acervo do IFAC

O primeiro foco de interesse - e o que mais óbvio nos parece - diz respeito, justamente, à ocupação dos morros
e encostas. Aportados aqui os primeiros exploradores - dos quais Antônio Dias e Padre João de Faria Fialho
parecem ser os mais importantes, emprestando seus nomes ainda à toponímia local - a ocupação deu-se de
duas formas: nas margens dos ribeiros, onde o ouro abundava, e nos morros que circundam a cidade, repletos
de minas e sarilhos. Nos tempos primevos tomaram vulto os arraiais que ocuparam as íngremes encostas.
Dominados por pequenas e pitorescas capelas e por extensas áreas mineradoras, estes arraiais fizeram o fausto
de vários aventureiros, alguns erigidos em verdadeiros potentados locais (neste pormenor destaca-se Pascoal da
Silva Guimarães, dono das minas do Ouro Podre, incendiadas a mando do Conde de Assumar em 1720). Estes

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

vários núcleos, de ocupação muito antiga22, teriam logo seu brilho ofuscado por outros, nascidos às margens dos
ribeiros, nos fundos dos vales que sulcam a cidade.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias - 1930


Fonte: Luis Fontana - Acervo IFAC

Dois arraiais se distinguiram fora das montanhas: o Arraial de Nossa Senhora do Pilar e o Arraial de Nossa
Senhora da Conceição de Antônio Dias.23 Suas duas capelas, situadas nas proximidades de córregos auríferos,
tiveram atuação preponderante na evolução urbana do núcleo maior que então se desenhava. Tanto isto é veraz
que em 1711, com a criação da Vila Rica, os dois núcleos foram eixo de discussão, e em 1724, com a instituição
das primeiras freguesias colativas das Minas Gerais, Pilar e Antônio Dias tiveram seus templos elevados à
categoria de igrejas paroquiais. Pouco tardou e as antigas matrizes foram postas em reconstrução vultosa. As
diversas irmandades que concorreriam no todo das obras são de fundamental importância para se entender a
sociedade ouropretana do século XVIII, síntese que é de toda sociedade colonial mineira. Várias destas
irmandades se encarregaram, posteriormente, da construção de novos templos, mais condizentes com a
realidade dos confrades. Juntamente com a arquitetura civil, esta arquitetura de caráter religioso, marco
indelével da paisagem, galgava novamente os morros...

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Matriz Nossa Senhora do Pilar – 1945


Fonte: Biblioteca Virtual Gilberto Freyre
O Pilar tem sua Mercês, Rosário e sua igreja de Ordem Terceira, o Carmo. Antônio Dias tem também sua Mercês
24
e Rosário (Santa Efigênia) e também sua representante de Ordem Terceira, São Francisco de Assis.25 Não é
coincidência que as duas Ordens Terceiras, rivais, se encontrem já à beira do topo do Morro de Santa Quitéria.
Naquele momento se delineava de vez a conformação urbana da velha capital: a Casa de Câmara e Cadeia
estava em construção e o Palácio dos Governadores já estava em uso. O Morro de Santa Quitéria teve seu cimo
terraplanado. A Praça, atualmente chamada Tiradentes, se tornava o ponto central e o clímax físico evolutivo do
período aurífero.

Praça Tiradentes e arredores da Escola de Minas – década de 1920/30


Fonte: Acervo IFAC

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Assim percebemos a evolução desta cidade, curiosa e irrequieta: das capelinhas das montanhas circundantes aos
fundos dos vales, dos fundos dos vales novamente ao cimo das montanhas. Este sobe/desce dos morros, além
de transportar técnicas e gentes, se reinventou nos estilos: do barroco simplório das capelinhas antigas, ao
fausto barroco das matrizes; do barroco paroquial, soberbo e taciturno, à elegância da curvilínea rococó de São
Francisco e Carmo. E na Praça, ponto convergente, a fachada da Casa de Câmara e Cadeia aspira ares
neoclássicos, enquanto o Palácio, mais antigo, herda sua planta das antigas fortalezas lusas. Isto sem falar dos
ecletismos que em tempos posteriores pontuariam as ruas e vielas de outras influências. Quanta herança
histórica e arquitetônica numa cidade que, longe de ser una e homogênea, trás no seu próprio cerne a marca da
heterodoxia e da mistura!

Casa de Câmara e cadeia – gravura de Dr. Hermann Burmeister - 1850


Fonte: BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: EDUSP/Editora Itatiaia, 1980.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Fotografia aérea de Ouro Preto tirada em 1935


Fonte: Acervo Museu da Inconfidência

1.1.1.2 DESCRIÇÃO FÍSICA GERAL DO MUNICÍPIO

O relevo do município de Ouro Preto varia desde as baixadas do Maracujá nos limites de Amarantina (900 m) e
os mais de 1700 metros do Pico do Itacolomi (do tupi, “menino de pedra”) e da elevada Serra de Rodrigo Silva
(da velha formação geológica do Alto da Varanda e do Alto da Figueira, ponto mais elevado da Central do Brasil
no país), passando para formações mais brandas no planalto cachoeirense (1100 m).

O relevo acidentado não favorece as atividades agropastoris em grande escala. As indústrias extrativas se
destacam: minério de ferro em Antônio Pereira; topázio branco e o famoso topázio imperial (único do mundo)
em Rodrigo Silva; calcário e mármore em Cachoeira do Campo e Miguel Burnier; pedra-sabão em Santa Rita
(processo artesanal) e em Cachoeira do Campo (processo artesanal e industrial). Vale ainda destacar a presença
da NOVELIS (antiga ALCAN) e da CVRD (esta, espalhada pelo município; a outra, grande metalúrgica, localizada
no Bairro de Saramenha na sede).

Os principais pontos turísticos do município são: Museu da Inconfidência (1784-1855), Museu do Oratório (único
deste tipo no mundo), Casa dos Contos (1787), Teatro Municipal (1770, primeiro teatro das Américas, em
funcionamento), Matrizes do Pilar (1711-1733) e do Antônio Dias (1727-1760), Igrejas de São Francisco de Assis
(1765-1810), do Carmo (1765) e do Rosário (1780), Capela do Padre Faria (1701-1710), Escola de Minas (1741-
1749), (todos em Ouro Preto); Matriz de Nossa Senhora de Nazaré (1700-1725), Igrejas de Nossa Senhora das
Dores (1756-1761) e das Mercês (1908), Capela do Bom Despacho ( 1a metade do século XVIII) e Colégio Dom
Bosco (1775-1779), (em Cachoeira do Campo); Matriz de São Bartolomeu e Igreja das Mercês (em São
Bartolomeu); Matriz de Santo Antônio (em Santo Antônio do Leite); Matriz de Santo Antônio (em Glaura); Matriz
de São Gonçalo e Museu das Reduções (em Amarantina); Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres (em Lavras
Novas). O turismo ecológico começa também a se destacar nas belíssimas paisagens entre Lavras Novas e

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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Rodrigo Silva.

Vista da “Casa dos Inconfidentes” nos anos 1910


Fonte: Acervo Bernardo Andrade

Nos fundos, Museu da Inconfidência (antiga Casa de Câmara e Cadeia) e Igreja Nossa Senhora do Carmo (década de 1930/40)
Fonte: Acervo do IFAC

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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1.2 Santo Antônio do Salto e o Fundão do Cintra

A festa de Nossa Senhora dos Remédios, em Ouro Preto, acontece no distrito de Santo Antônio do Salto,
mais especificamente na localidade denominada Fundão do Cintra. Santo Antônio do Salto é dos distritos mais
recentes de Ouro Preto, sua criação se deu em 1992, através da lei 78/92. Até então a área ligava-se,
administrativamente, à jurisdição do distrito de Antônio Dias, uma das duas divisões do distrito-sede do
município. Entretanto, a povoação do local é das mais antigas, com o estabelecimento de fazendas na região
ainda nas primeiras décadas do século XVIII. O Salto está localizado na zona rural de Ouro Preto, que,
atualmente, tem como principais atividades a agricultura, basicamente familiar; a produção de energia elétrica
nas três usinas da Novelis existentes na região (as usinas do Caboclo, do Salto e do Funil), cuja construção se
iniciou em fins da década de 1930; e um pequeno turismo ecológico.
O Fundão do Cintra encontra-se nos limites da divisão municipal entre Ouro Preto e Mariana, de fato, até a
década 1950 a região pertencia ao município de Mariana, sendo ligada ao distrito marianense da Vargem, daí a
denominação antiga da região como Fundão da Vargem.

A Vargem já foi palco de explorações auríferas, como consta, por exemplo, no Pluto Brasilienses, do Barão
de Eschwege. Segundo sua obra, que trata das riquezas e explorações minerais no Brasil, a região da Vargem,
em Mariana, possuía, por volta de 1815, dois exploradores de lavras auríferas, Antônio de Freitas Ferreira e
Antônio Barbosa Coura26.
Santo Antônio do Salto, por outro lado, parece ter sido palco de tentativas de exploração mineradora, porém

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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sem maiores sucessos. No século XVIII, algumas cartas de sesmarias foram concedidas na região, entretanto,
nas fazendas instaladas, a produção agrícola teve uma importância maior, como se depreende da presença de
moinhos e ausência de menções a instrumentos e construções que se destinassem à extração de ouro. Exemplo
disso ocorreu em 1733, quando o Conde de Galvêas concedeu uma sesmaria em Santo Antônio do Salto a
Honorato Barcelos, Francisco Roiz Lima e Francisco Gomes de Oliveira. Segundo o documento, os três
suplicantes haviam adquirido o terreno que anteriormente pertencia a Pedro Gonçalves Passos e Francisco
Ribeiro Lamas, que já haviam construído um moinho no curso do rio Itacolomy, que cortava o sítio27.
Até as primeiras décadas do século XX, as principais referências documentais da região apontam para a
importância do local apenas como passagem e paragem de tropas que transportavam víveres para Vila Rica e,
posteriormente, Ouro Preto, sendo que os moradores sobreviviam basicamente da agricultura local. Mostram
isso, por exemplo, as constantes reivindicações dos moradores do local para se fazerem reparos nas pontes
sobre o rio Gualaxo, Maynart, ou também o chamado “rio do Salto”. Nessas reivindicações, percebe-se a
preocupação e importância dada à interrupção da comunicação entre as diversas localidades da região, como
Baú, Engenho, Fundão do Cintra, Salto, Vargem,Serra dos Cardosos, Palmital, Matipó, etc., entre si e com as
sedes de Ouro Preto e Mariana. Algumas petições e abaixo-assinados enviados à Câmara de Ouro Preto são
também assinados por moradores de localidades ligadas a Mariana, como o próprio Fundão da Vargem,
mostrando a ligação desses espaços tanto com um quanto com outro município28.

Trecho do rio Maynart, num ponto próximo ao Fundão do Cintra

Alguns de nossos entrevistados mais velhos, ao falar do local de sua criação e das atividades de seus pais
ressaltaram que cultivo de gêneros para a subsistência era a principal atividade desenvolvida. Como o senhor
Valdemiro de Jesus, de 87 anos:

VJ – Ele [seu pai] trabalhava na lavoura. Plantava um monte de mercadoria, arroz,


feijão, batata, cebola. Tudo quanto é verdura ele plantava.
JI - Mas era mais para consumo próprio da família ou era para vender?
VJ - Não, era só para a alimentação nossa, só por causa da família. Pra vender nunca
chegou a ponto de fazer grande quantidade não.
JI - A maioria do pessoal ali da região fazia assim mesmo, plantava era para a família

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

mesmo?
VJ - Para vender para fora... ali aquela povoação tanto a parte do Salto como toda
parte alí [do Fundão do Cintra], todo mundo só fazia para si próprio, de vez em
quando você vendia uma dúzia de ovos, dois ovos, mas para servir outros, vender
para essa quantidade grande nunca teve ninguém que pudesse possuir essa
quantidade grande para vender para fora não.
JI - Sim, criava um animal ou outro, um porco...
VJ - Justamente isso em quantidade menor, só para criar e manter a família29.

O caminho que levava ao Salto até as primeiras décadas do século XX também era problemático. A única via
de acesso era através da serra de Lavras Novas, um caminho tortuoso, íngreme e perigoso. A abertura do novo
caminho, passando pela Chapada e se encontrando com a estrada que liga Ouro Preto ao distrito de Santa Rita
se deu na década de 1930, em decorrência das obras de abertura do canal para construção das usinas
hidrelétricas na região30.
Santo Antônio do Salto sofreu uma sensível alteração com o início das obras de construção das três usinas
lá existentes, tanto pelo novo afluxo de pessoas para trabalhar nas obras, quanto pelo emprego de mão-
de-obra local nas mesmas. As usinas foram construídas pela ALCAN, companhia canadense de alumínios, e,
atualmente pertencem à Novelis, que as adquiriu. O Fundão do Cintra é cortado pelo rio Maynart que abastece
as três usinas e teve seu maior número de moradores exatamente no período de construção e implantação das
usinas, entre as décadas de 40 e 60, como nos contam dona Alaísa, moradora da única casa remanescente na
localidade, e dona Aparecida, moradora do Baú, outra localidade do distrito de Santo Antônio do Salto:

Veio o pessoal morar que veio trabalhar aqui pra construir a usina né? Tinha muito
barraco ali mas foi um pessoal passageiro, eles foram embora pra São João Del Rei31.

Então quando a Alcan veio para aqui os pessoal foram para trabalhar, as famílias aqui
deram muitas casas, a pessoa morava e veio para trabalhar e ai ficou, depois acabou
e o pessoal foi tudo embora.[...]Começou a dar mais emprego, porque tava lá só
construindo, começando32.

Obras de abertura do Canal no rio Maynart, (Fonte: Memória Viva: 50 anos da Alcan, Alumínio do Brasil em Ouro Preto).

Hoje em dia, praticamente todo o terreno compreendido pelo Fundão do Cintra é de propriedade de um

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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fazendeiro. A região, que chegou a ter, segundo os relatos, cerca de 10 famílias morando, hoje possui apenas
uma casa de morada, além da casa de administração da fazenda e a capelinha de Nossa Senhora dos Remédios,
que, embora esteja no interior da propriedade da fazenda, sempre teve acesso irrestrito dos fiéis. O fim das
obras nas usinas fez diminuir drasticamente o número de moradores do local, que foram procurar outros
espaços, principalmente o distrito sede de Ouro Preto. Como no relato de Girlene de Jesus, antiga moradora do
Fundão do Cintra e filha de seu Mário de Jesus, antigo zelador da capela de Nossa Senhora dos Remédios:

Ah tem bastante tempo... Tem um tempão que eu moro em Ouro Preto, tem 25 anos
que eu moro em Ouro Preto. E quando eu vim de lá [Fundão do Cintra] já não tinha
mais ninguém. Não, já não tinha mais ninguém. Só quando eu era menina, assim
menor sabe? É que tinha esse povoado. Muita gente. Aí depois começou a evoluir as
coisas sabe? Lá não tinha quase nada, os meninos começaram a crescer, vieram pra
estudar aqui em Ouro Preto, aí os pais achavam que não dava pra ficar e veio todo
mundo embora, igual meus tios mora tudo aqui, tem muito tempo...33.

2 – A celebração

Festas são momentos marcantes em qualquer comunidade, não importa qual seja o seu motivo.
Movimentam pessoas em suas organizações, quebram com o ritmo cotidiano dos acontecimentos, e marcam um
ciclo nos calendários. Como nos lembra Norberto Luiz Guarinello, “as festas não são dádivas de Deus, nem caem
dos céus segundo nossos desejos”, ou seja, envolvem um trabalho e um coletivo de pessoas empenhadas em
sua realização34. Pessoas e trabalho que encontram sentido, no caso de nosso estudo, na devoção local, na
tradição e na identidade criada pela celebração dentro de sua comunidade.
Ainda segundo Guarinello, a identidade surgida em torno da realização das festas não é uniforme e nem
homogeneíza seus participantes, pelo contrário, une as diferenças sem apagá-las. Durante as festas, para seus
partícipes, surge um novo tempo, em que novas relações de poder, influência e trabalho surge entre as
pessoas35.
Na construção de identidades, as festas são também espaços de se reavivar a memória coletiva, dado
que as próprias memórias individuais são também frutos do contato com as memórias e narrativas alheias.
Nesses momentos,
Passado e presente se encontram sempre entrelaçados, visíveis nas tradições que
continuam a ser seguidas e nas mudanças que são a elas incorporadas; misturam-
se na memória constantemente evocada e nas histórias que vão sendo construídas
a partir de pontos de vista e necessidades dos que as formulam36.

Como será possível observar nas narrativas acerca da festa de Nossa Senhora dos Remédios,
permanências e mudanças estão sempre presentes nas articulações dos participantes ouvidos. Suas histórias da
festa sempre remontam aos eventos diferentes que aconteciam ao se aproximar a festa, como ir a Mariana,
anteriormente, ou a Ouro Preto, atualmente, para tratar e buscar o padre, preparar a comida para ele e demais
participantes, etc. atividades que quebravam o ritmo normal dos acontecimentos do dia-a-dia. Além disso, cada
nova festa inseria novos fatos a serem narrados e são momentos privilegiados para se reativar conjuntamente
suas memórias acerca da festa e dos lugares por ela envolvidos. Somam-se a esses aspectos, a religiosidade de
nossa celebração, enquadrando-se também na análise feita por Marina de Mello e Souza das festas analisadas

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

para o caso de Paraty, festas que são

momentos de ruptura do cotidiano, apesar de se inserirem nele pela regularidade


cíclica com que ocorrem; são momentos de renovação dos laços com o sagrado
pelo cumprimento de promessas relativas a graças recebidas; são momentos de
exaltação da fé humana e da força e mistérios divinos; são momentos de reforço
de laços sociais e consumo comunitário de gêneros arrecadados para esse fim. Elas
são antes de mais nada religiosas, pois o alvo da manifestação são os santos, aos
quais se prestam homenagens e se dirigem pedidos, mas são também importante
momento de lazer da comunidade, que ao lado das rezas e procissões participa de
divertimentos que completam a festa. São, ainda, manifestações tradicionais,
obedecendo aos ensinamentos dos antepassados, transmitidas informalmente pela
observação, pelo gesto, pela fala, e aceitos por todos37.

Analisaremos agora como esses aspectos se encontram na realização atual da festa, em seu passado,
suas mudanças, suas memórias e algumas narrativas ouvidas sobre a celebração da festa de Nossa Senhora dos
Remédios.

2.1 Devoção e celebrações em honra de Nossa Senhora dos Remédios (Atividades correlatas)

A invocação da Virgem Maria como Nossa Senhora dos Remédios surgiu no século XIII com a Ordem
Hospitalar da Santíssima Trindade, fundada em 1198 por São João da Mata e São Félix de Valois. Os Trinitários
tinham por objetivo libertar os cristãos escravizados na África e no Oriente Médio, para isso precisavam de
grandes somas de dinheiro e muitas bênçãos, recorreram a Nossa Senhora, o remédio para todas as
necessidades. Como gratidão às graças recebidas, como a libertação de milhares de fiéis de seus cativeiros,
passaram a honrar Nossa Senhora do Bom Remédio, ou do Remédio, ou dos Remédios, como ficou mais
conhecida em Portugal e no Brasil.
Em Portugal, a devoção a Nossa Senhora dos Remédios foi trazida por trinitários franceses que
estiveram na Península Ibérica no século XIII. No Brasil, a devoção à Senhora dos Remédios também foi trazida
pelos irmãos Santíssima Trindade que, no período colonial, ergueram igrejas e capelas na região das minas e no
nordeste, sendo as mais importantes em Paraty, São Paulo e Fernando de Noronha38. Em Paraty, a segunda
aldeia formada ao lado do rio Paratyguaçu, recebeu o nome de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, porque
a sesmeira que doou as terras para construção da vila era devota da santa39.
As festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios chegaram ao Brasil por influência portuguesa. Em
Portugal, por exemplo, em Tortosendo, a festa de Nossa Senhora dos Remédios era realizada na quinta-feira da
Ascensão, entretanto, devido à importância desta data no calendário cristão, ela foi mudada para o domingo
anterior a esta data, como continua sendo realizada. A festa de Nossa Senhora dos Remédios de Tortosendo
possui uma relação direta com as tradições rurais da região, como a prática da sementeira dos campos e pinhas
ao redor da capela de Nossa Senhora dos Remédios, que sempre se realizava após a data da Ascensão, em que
também se realizava a festa, e a procissão que seguia o andor em que as pessoas levavam ofertas de “galinhas,
coelhos, pombos, pães-de-ló que ‘eram dadas pelas pessoas que viviam bem e por todas as que faziam
promessas por doenças, quando os filhos iam para a tropa ou por qualquer afronta’”40.
No Brasil, algumas irmandades de Nossa Senhora dos Remédios foram caracterizadas como irmandades
de negros, como as de Nossa Senhora do Rosário. Em São Paulo, por exemplo, vários irmãos inscritos nas

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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irmandades de São Benedito e na de Santa Efigênia e São Elesbão são os mesmos participantes da Confraria de
Nossa Senhora dos Remédios. Ainda em São Paulo, a igreja de Nossa Senhora dos Remédios era um dos
refúgios privilegiados dos escravos perseguidos nos últimos anos do Império, nota-se também a figura de
Antônio Bento de Souza e Castro que, no século XIX, participava do Centro Abolicionista de São Paulo, era
provedor da confraria de Nossa Senhora dos Remédios e protetor da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
de São Paulo. Já no Rio de Janeiro, a Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios era composta por africanos da
Costa da Mina41.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios em Minas Gerais chegou ainda no século XVIII, nas
primeiras décadas de sua colonização. Na atual cidade de Catas Altas da Noruega há uma capela de Nossa
Senhora dos Remédios que data de 1752. Outra capela em sua honra é bastante significativa da importância da
crença e devoção, pois nomeia o antigo arraial de Nossa Senhora dos Remédios, atual cidade de Senhora dos
Remédios. Aliás, a festa em honra da padroeira em Senhora dos Remédios, que sempre acontece no dia 1º de
setembro, tem recebido moradores e participantes da festa do Fundão do Cintra, que organizam caravanas para
celebrar sua santa de devoção num outro espaço. Coincidentemente, Catas Altas da Noruega, como Senhora dos
Remédios são também espaços que se marcaram pela produção agrícola e passagem de tropas para
abastecimento de outras áreas.

2.2 Origem da festa no Fundão do Cintra

A festa de Nossa Senhora dos Remédios no Fundão do Cintra era realizada, inicialmente apenas com
celebrações religiosas, terços, rezas e coroações que aconteciam na pequena capela da localidade. O incremento
da festa religiosa na capelinha de Nossa Senhora dos Remédios com uma banda civil ocorreu no momento
posterior à construção das usinas, em que seu Valdemiro de Jesus, então funcionário da usina da ALCAN, e
morador do Fundão do Cintra, resolveu, em ano em que era o festeiro, trazer uma banda para a festa, assim
como ocorria em outras celebrações que ele conhecia. Seu Valdemiro conta-nos também como foi a iniciativa e
os preparativos e as dificuldades que tiveram na primeira vez que veio a banda para festa:

Foi iniciativa de uns colegas que trabalhava comigo na usina. Agostinho Bernardo,
que também já morreu, foi um dos que também ajudou muito. Eu e ele éramos os
festeiros e mais o outro José Felinto, também já morreu. Nós três que éramos os
festeiros esse ano. Não sei como começou esse negócio... Antes de procurar a
banda, primeiro concordou com o povo, o pessoal concordava, uma banda era
cara, tinha despesa extra com alimentação e tudo. Aí tinha outros problemas,
resolvia lá, dormir lá e então vamos arrumar colchão, pegar colchão daqui e pega
de lá para eles dormirem lá. Tudo com muita colaboração. Mas custa muito por
causa deles, mas a primeira vez foi lá fui eu que... foi uma vez que fui eu e foi o
povo que ajudou, mas na primeira foi justamente nós três, os três fomos festeiros
reuniu com povo na festa de Nossa Senhora dos Remédios42.

E foi assim que, pela primeira vez, a Corporação Musical Santa Cecília, de Passagem de Mariana, alegrou a
festa. Até hoje a mesma corporação musical participa das celebrações no Fundão do Cintra. Segundo seu
Valdemiro, a festa já acontecia, mas era menos concorrida e se tratava apenas de orações e missas. Para ele e
outras pessoas ouvidas, a vinda das corporações musicais foi muito importante e inaugurou uma nova fase da
festa de Nossa Senhora dos Remédios, atraindo ainda mais pessoas da região para a festa:

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Festa... tinha missa e terço, missa e terço. A festa de Nossa Senhora é quando vai
a banda né? Quando vai a banda o pessoal fala que é a festa. Agora quando é
missa e terço o pessoal fala que é missa e terço. Ai mas o padre ficava lá, ele
chegava sábado e vinha embora de lá segunda feira43.

Apesar do esvaziamento sofrido pela localidade, a festa não deixou de acontecer, continuando a mobilizar
moradores das localidades vizinhas, ex-moradores do local, e demais fiéis que acorrem à pequena capela para
rezar, pagar promessas ou mesmo agradecer alguma graça recebida. Essa relação com milagres e graças
recebidas pelos fiéis é uma das principais peculiaridades da festa de Nossa Senhora dos Remédios do Fundão do
Cintra, principalmente no que toca diretamente à imagem de seu orago.

2.3 O espaço, o tempo e as celebrações

A festa de Nossa Senhora dos Remédios recebe todos os anos a visita de vários moradores de outras
localidades de Santo Antônio do Salto, vão ao Fundão do Cintra todo o final do mês de agosto, mas participam
também de outras celebrações que ocorrem no distrito, marcando o seu calendário festivo.
As festas, religiosas ou profanas, possuem essa característica de marcar o tempo das comunidades. Desde
as celebrações pagãs, que marcavam a entrada de novas estações ou mesmo celebravam as épocas de plantios
ou colheitas, aos calendários de festas das diversas religiões atuais, os momentos de preparativos e participação
nos festejos dão sentido à passagem do tempo para as pessoas. Mesmo para aquelas que não participam
integralmente dos festejos, mas sabem que aquela data é sempre marcada no calendário.
As organizadoras da festa de Nossa Senhora dos Remédios esperam passar a festa de Santo Antônio, o
padroeiro do distrito, que acontece em junho, para começar a organizar e arrecadar recursos para a realização
de sua festa. Afinal, cada uma tem seu tempo. Aliás, a própria definição da final de semana da festa é
determinado por uma outra, a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, que acontece no distrito vizinho do Lavras
Novas. Como é grande o número de moradores do Salto que vão a Lavras Novas, participar das celebrações, e
vice-versa, a festa no Fundão do Cintra sempre ocorre uma semana depois dos festejos de Lavras Novas.
O calendário festivo de Santo Antônio do Salto começa logo no início do ano, com uma de suas
manifestações mais tradicionais, a Folia de Reis. Segundo informações orais, a Folia de Reis de Santo Antônio do
Salto possui mais de cem anos e sai entre o Natal e o dia 6 de janeiro, quando se comemora o Dia de Reis. É
marcada pelos cantos improvisados que são entoados nas casas que pedem entrada, são “cânticos de pedido de
licença para entrar na casa; outro para agradecer pela doação e finalmente o de despedida. Há cânticos
especiais para enfermos, para criança pagã, para agradecer à dona da casa”44.
Durante a quaresma, nas vésperas da Semana Santa, o mesmo grupo da Folia de Reis volta às ruas com a
Charola em honra do Senhor dos Passos. Outra festa organizada no distrito pelo mesmo grupo é o “Congado de
Nossa Senhora do Rosário de Santo Antônio do Salto”. A Folia de Reis e o Congado locais se apresentam
18
também em outras localidades e em outros períodos, excetuando-se o tempo da quaresma . O calendário
religioso do local conta ainda com a celebração da Semana Santa e a já mencionada festa do padroeiro, Santo
Antônio.
Outros eventos que marcam o calendário festivo do distrito são o Festival de Culinária Típica e Cultura do
Salto, em que pratos típicos são levados a um júri, havendo também barraquinhas e shows musicais para os

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

participantes. Há ainda os campeonatos de futebol do Palmeiras Futebol Clube e do Alumina Futebol Clube.
Sendo um futebol muito uma prática muito marcante no distrito, ambos os clubes do Salto realizam em seus
aniversários campeonatos comemorativos que incluem além de partidas de futebol, baile, show, missa e o desfile
com eleição da “Rainha do Palmeiras” e da “Garota Alumina”45.

2.4 A capela e os bens tangíveis da celebração

A capela

A festa ocorre no adro e adjacências da pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios existente no
Fundão do Cintra. Atualmente, ela é um dos poucos bens imóveis da região. A construção da capela data do
final do século XIX. Em maio de 1890, foi recebida pela Arquidiocese de Mariana a seguinte petição:

João de Jesus, residente no Fundão da Vargem, desta parochia, representando o


povo deste logar, deseja erigir ahi uma Capella a Nossa Senhora dos Remédios, cuja
Imagem tem em sua casa, e vem supplicar a V. Exa. Rvma. licença para a ereção da
dicta capela; obrigando-se o mesmo a zelar da referida capella e de provel-a das
alfaias e de todo o guisamento necessarios46.

O pedido teve despacho favorável, pois assim se facilitaria “o pasto espiritual áquella parte do povo da Vargem,
de cuja Egreja acha-se distante 1 ½ legua, e rarissimas vezes ouvem Missa e se confessão por falta de
commodo, ou de uma uma [sic] Capella mais perto e pertencente a esta parochia”47. Nesse momento, a região
se encontrava nos limites do município de Mariana, estando ligada à Vargem, um sub-distrito da sede de
Mariana.

Capela de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra / 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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A partir desse documento de 1890, as referências documentais mais antigas da capela tratam-se das atas e
demais livros da Conferência de São Vicente de Paulo em Honra de Nossa Senhora dos Remédios, cujas
reuniões ocorriam no consistório da capela e a fundação data de 1925. As atividades das conferências de São
Vicente de Paulo foram muito importantes na região, além do Fundão, várias localidades do entorno, como
Matipó, Vargem e Palmital, em Mariana; e Baú, Salto e Serra dos Cardosos, em Ouro Preto, possuíam
conferências vicentinas, sendo que a circulação e visitas de membros de uma conferência a outra eram muito
comuns, como se pode perceber pelas atas da conferência de Nossa Senhora dos Remédios.
Em sua fundação, em 26 de julho de 1925, com o nome de Conferência de São Vicente de Paulo em Honra
de Nossa Senhora dos Remédios e São Geraldo, as reuniões eram realizadas no distrito marianense do Matipó.
Entretanto, poucos meses depois, no dia 25 de outubro do mesmo ano, a conferência foi instalada no Fundão,
tendo suas reuniões na capela de Nossa Senhora dos Remédios48.
As reuniões da conferência continuaram acontecendo na capela até o ano de 1986, quando passaram a ser
realizadas no Baú49, localidade próxima ao Fundão, onde morava a maior parte dos membros, dado o
esvaziamento dos moradores do Fundão do Cintra. Inicialmente, no Baú, as reuniões da conferência se deram
na casa do presidente, mas, a partir de 1991, passou a ser realizada na Casa de São Vicente50, um espaço
comunitário que passou por uma reforma e hoje é a capela de São Vicente de Paulo, que continua abrigando as
reuniões da Conferência em Honra de Nossa Senhora dos Remédios.

Capela de São Vicente de Paulo no Baú - 2009

A conferência instalada no “Fundão da Vargem” assumia também o cuidado com a capela de Nossa Senhora
dos Remédios, como se percebe na ata de 29 de novembro de 1925, em que se nomeiam senhoras para se
responsabilizarem pela limpeza da mesma:
O Prezidente Nomeou para zeladeira desta capella de Senhora dos remedios as
Exma. Senhoras D. Brandina da Costa reis D. Celeste da Costa reis D. Elena Ferreira

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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de Guimaraes i [sic] D. Maria da Conceição [...]51.

Nessas primeiras décadas do século XX, além das reuniões da conferência, havia algumas missas e rezas na
capela, principalmente no mês de maio, o “Mês de Maria”, e as celebrações em honra de Nossa Senhora dos
Remédios, entretanto, essas se constituíam de novenas, rezas do terço e missas.

A imagem de Nossa Senhora dos Remédios

A origem da imagem de Nossa Senhora dos Remédios existente no Fundão do Cintra é imprecisa. Como foi
dito acima, o antigo morador do Fundão da Vargem, João de Jesus, que fez o pedido para construção da capela,
afirmava ter em seu poder a imagem da Santa, que se acredita ser a mesma que existe atualmente na capela,
dado a ausência de relatos, mesmo dos moradores mais antigos, de qualquer troca da imagem. Há relatos de
que a mesma teria sido da à filha de um fazendeiro da região por tropeiros que passaram por sua fazenda.
Posteriormente, alguns missionários que passaram pela fazenda defenderam que aquela imagem não deveria
ficar dentro de uma casa e sim em uma igreja ou capela. Daí sua chegada ao Fundão do Cintra e a construção
da capela. Trata-se de uma imagem de roca, em madeira esculpida e pintada, usando peruca de cabelo natural
e indumentária toda branca, carrega um menino Jesus em madeira esculpida e pintada. Tanto a imagem quanto
a capela são cuidadas atualmente por três moradoras locais, as mesmas que se dedicam a organizar a festa.

Imagem de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra

O sino

Outro importante bem material associado à celebração é o sino presente na capela e que marca os ritos de
suas celebrações. Colocado num campanário contíguo à capela de Nossa Senhora dos Remédios, trata-se de um

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sino de bronze fundido com uma cruz e motivos florais em alto-relevo, e a inscrição da data de 1836, que deve
indicar o ano de sua fundição. Segundo relatos, o sino não faz parte da construção original da capela, ele existia
em uma fazenda que já estava desativada e, como não havia nenhum sino na capelinha do Fundão do Cintra, foi
levado para lá e, nesse momento, foi construído a pequena estrutura que o sustenta. Essa versão pode explicar
a anterioridade da data inscrita no sino em relação à construção da capela.

Sino da Capela de Nossa Senhora dos Remédios com suas inscrições – 2009

Capela e pequeno campanário montado para sustentar o sino. Foto: Elisângela R. Silva Araújo

O cruzeiro

Marca tradicional da presença do sagrado nos adros das capelas, o cruzeiro também se faz presente no
Fundão do Cintra. A alta cruz de madeira encimada pela imagem de um galo, símbolo de um dos momentos da
Paixão de Cristo, recebe adornos e também é utilizada nos dias de festa como um dos suportes para as
bandeirinhas que enfeitam o adro da capela.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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Cruzeiro no adro da capela de Nossa Senhora dos Remédios – 2009

2.5 Descrição, narrativas e transformações da celebração

O culto à Nossa Senhora dos Remédios já existe há muitos anos antes de haver a festa em sua honra.
Os pais e avós, da geração que iniciou a festa há cerca de 60 anos, já se reuniam ao menos uma vez por ano
para rezar e acompanhar missas na pequena capela do Fundão do Cintra. A celebração tinha um caráter
religioso mais acentuado do que lúdico, não poderia ser caracterizada como uma festa, no entanto, os esforços
para a realização desse encontro devocional não podem ser desprezados.
Ainda hoje o acesso à essa comunidade não é dos mais fáceis, a estrada é de terra, na qual há trechos
de risco. Os padres costumavam ser buscados em Mariana ou Ouro Preto por leigos fiéis, estes últimos que são
protagonistas, ainda hoje, da organização da festa. Os relatos dos moradores da região sobre o transporte dos
padres, que ocorria à cavalo, vão do cômico ao trágico: A vinda de uma figura de tanto prestígio de maneira tão
precária faz surgir essas memórias ora constrangidas, ora engraçadas, mas também orgulhosas dessa ação.
Providenciar o transporte e a estadia do padre que viria à cavalo das redondezas para celebrar as missas
durante os dias de festa era, pois, das mais importantes tarefas, que já foi assumida por seu Mário de Jesus:

(...) Ah carreguei muito um tempo, uma porção de padre lá pra Mariana. (...) É,
carregava, de cavalo. Vinha pela estrada, e chegava, de cavalo e levava depois ele
dormia lá e depois....segunda-feira e trazia ele de cavalo outra vez, é uma coisa
louca52.

Vários eclesiásticos de Mariana e Ouro Preto já celebraram missas na capela de Nossa Senhora dos
Remédios, inclusive o cônego D. Oscar de Oliveira que posteriormente se tornaria o arcebispo de Mariana.
O contato com a geração que organiza a festa ainda hoje pode revelar aspectos que remetem há pelo
menos 60 anos atrás. Os fiéis vestiam suas melhores roupas e se congregavam para rezar, realizar procissões,
coroar Nossa Senhora, ouvir às pregações e socializar. Essa manifestação sempre representou um momento
composto de lazer, uma oportunidade de troca de experiências com quem vinha de fora, ou internamente, de

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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uma maneira diferente, afinal o momento é especial.


Os dias de festa eram também momentos importantes da sociabilidade local. Antigos participantes
relembram de como a festa reúne pessoas nos espaços da celebração, voltam antigos moradores, fiéis e demais
participantes. Para os filhos de algumas famílias, a festa de Nossa Senhora dos Remédios, assim como os demais
momentos de celebração, como as coroações do mês de maio, era um dos poucos momentos em que se podia
circular no espaço público, encontrar outras pessoas, namorar:

E tem vizinho também lá e deve lembrar da festa, né? Guiomar, elas tudo caçava
confusão com festa, que elas namoravam muito nessa festa, arrumava namorado
demais e nem ficava na festa. E tem essa Alaíde[...]. E mais um montão, que
chegava dia de festa pra gente ir, a reza do mês de maio. O pai deixava a gente sair
só ocasião de reza, uai?[...] Tinha que aproveitar53.

Os festejos possuíam também elementos profanos. O encontro das pessoas, muitas que se viam apenas
nesses momentos, era também a oportunidade de se divertirem e beber com os amigos. Durante as festas eram
montadas barraquinhas onde se vendiam comidas e bebidas para os visitantes, estas acabaram tornando-se
espaços de confraternização “ou não”. Alguns acabavam exagerando durante os festejos:
É a ponte ali... Tinha umas, o povo bebia caía lá em baixo da ponte, dentro d´água.
Tinha um cara meu filho, que vinha lá pela Vargem ali, tinha um cara que chamava
Crispim, ele batia um boteco ali meu filho, que tava fervendo de gente, tinha o
pessoal passava ali na ponte e quando ia passar na ponte caia dentro d´água... É
meu filho... [...] O pessoal vinha com, punha assim uns boteco né? Era muita gente,
pra sustentar os pessoal que vinha pra festa... Tinha aqui Aparecida, uma vez eu
contei, tinha cinco boteco. É, cinco boteco. Depois foi acabando né? Depois seu
Toninho que punha boteco... Não põe mais não...54

Seu Mário também nos narra alguns contratempos que ocorriam devido à bebida durante a festa:

Ah brigava. Juntava muita gente de fora né? Palmital, Pombal, pegava uma
coragem no álcool, que dá uma força danada né? Falava com um o outro... o
bambu caía mesmo (risos). Agora não, agora é beleza pura. Não tem negócio de...
para poder olhar a festa55.

Atualmente o caráter da homenagem continua marcadamente religioso, os elementos desse


acontecimento são em sua maior parte relacionados ao sagrado, à manifestações de devoção.
A festa em honra à Nossa Senhora dos Remédios é organizada por leigos, não há registro nem relatos
deles haverem se organizado em uma irmandade. Os recursos provém de doações, esmolas, e mais
recentemente de ajudas de instituições, como a Prefeitura de Ouro Preto, e empresas privadas, como a Novellis,
que tem instaladas três usinas no local (as usinas do Salto, do Caboclo e do Funil). Porém todos esses recursos
são captados com muito esforço e perseverança, apesar das dificuldades, a festa nunca deixou de ser realizada
por falta de meios. As doações dos fiéis, da comunidade em geral, mesmo que não residente são essenciais para
a realização do evento.
Como é uma festa organizada pela população local, a arrecadação para a realização da festa deve
começar muito cedo, através da eleição dos dois festeiros e da nomeação dos mordomos da festa, eles são
responsáveis por andar pela região colhendo mantimentos e esmolas dos antigos e atuais moradores,

Aí já começa sair as cartas pra mordomo, pede o padre Marcelo, assim ou o padre de outra
paróquia pra dar ordem, começa as carta de mordomo, os protetores que saem pra dar

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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esmola, né? Aí já vai juntando, aí tudo que vai juntando, já vai... Sai com a lista também, com
o caderno pedindo ajuda, quem pode dar mantimento dá, que não pode aí, nós já vamos... o
almoço da banda, o que sobra faz cesta pra pôr no leilão, o dinheiro do leilão já serve pra
nós56.

A gente convoca os mordomos de mastro, e ai pede um tanto para eles. (...) Tipo assim, tem
uma bandeira de Nossa Senhora dos Remédios, a gente levanta ela no sábado, aí os
mordomos, sabe o que você faz? Cada pessoa colabora com dez reais, e esse dinheiro ajuda,
esse dinheiro ajuda para continuar a festa. A Novelis também a gente pede, escreve carta
pedindo também e ela ajuda. (...) Ai eles ajudam também. E tem umas pessoas que a gente
pede, que é daqui, que foi um dia e morou aqui e mora em Ouro Preto, outros lugares, a
gente pede ajuda para eles também. Escreve uma carta pedindo para eles que eles foram
convidados para ser protetor de Nossa Senhora dos Remédios, aí no dia pode esperar que a
esmola chega, com fé ela chega57.

Outra forma utilizada pelos festeiros para ajudar a arrecadar fundos era leiloar produtos locais, como
bolos, ovos e pequenos animais, sendo o dinheiro revertido também para a festa,

VJ – (...) rezava, depois tinha o publico, tinha leilão que a festa que fazia em setembro,
outubro e dava os leilões, o pessoal cantava leilão, uns cantavam...
JI – Leilão assim, animado?
VJ – Faziam: é cinco, o outro, é dez, o outro é quinze, outro, quinze, outro, vinte. Ai é o
seguinte, arrematava o leilão e as vezes o camarada... se pudesse pagar, pagava na hora, e se
não pudesse, ficava escrito no papel lá, no dia da festa aquela pessoa ficou devendo aquele
resto dos leilões que arrematava. Tudo bonitinho.
JI – Leiloava o que, animais?
VJ – Não, animal não, coisas pequenas: um queijo, era um doce, era um pacote de um
mantimento qualquer, era mais bolo, mais era bolo, frango, essas coisinhas assim
arrematava... coisa grande não, era coisinha pequena (risos). Era uma frango, uma dúzia de
ovos, por exemplo, mas mais a freqüência era um bolo. Fazia aqueles bolos arrumadinhos ai o
pessoal arrematava, e um frango58.

Nos dias de festa a capela e os caminhos para chegar até ela são ornamentados. A comunidade se
reúne em um conselho e divide tarefas, algumas delas são: enfeitar o mastro e as bandeiras, que são a de
Nossa Senhora dos Remédios e de Santo Antonio, essas bandeiras além da decoração com papel colorido são
contornadas por fogos de artifício que darão destaque à elas no final da procissão noturna do sábado. Os
trajetos das procissões são enfeitados com bandeirinhas e tochas, que iluminam o caminho dos fiéis e o altar é
decorado com flores naturais e tecidos, assim como os andores. Os cuidados com a vestimenta da santa, vão
além de uma tarefa, é um processo que envolve a experiência de um grupo mais seleto de devotos, apesar de
não ser fechado, mas sim orientado, além de ser um momento de expectativa de que os mais jovens aprendam
e se envolvam com tal prática.
A participação dos mais jovens é essencial para a preservação das tradições, assim aconteceu com
Dona Aparecida que desde criança ajudava sua mãe na ornamentação da festa e hoje se tornou uma das
organizadoras da celebração.

JI – E nessa época já tinha coisa de cortar e trocar o cabelo [da imagem]?


MS – Ah já tinha, já tinha. Eu era pequenininha eu lembro que tinha uma senhora
ela morava lá em cima no Salto lá, a hora que ela tava sentada e colocando a
cabeça, eu ficava olhando...
JP – A senhora já vinha participar então, acompanhar?
MS – Já pequenininha vinha segurar as bandeirinhas para as mais velhas colocar. E
eu lembro que eu era pequenininha ainda, deixava cair e o vento levava59.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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Apesar de o principal foco de mudança ser a presença da banda, podemos elencar, a partir dos relatos,
alguns outros:

Vinha o padre sexta-feira, tinha missa de noite, no sábado era missa de Santo
Antonio, domingo era Maria Concebida, e na segunda- feira era missa do São
Sebastião, agora acabou tudo, não tem nada disso mais. Ai menino, eu me alembro
como que é hoje, minha tia coava café prum pessoal comungar, confessavam à
noite, no domingo de noite e segunda-feira, eles confessavam, de noite, domingo,
e na segunda-feira eles comungavam, era de véu, de jejum, era tão bonito menino,
era lindo demais60.

Não há mais a mesma diversificação de Santos homenageados, além de Nossa Senhora, apenas Santo
Antonio é homenageado, carregado, assim como a Santa nos andores nas procissões. Mas se alguns elementos
foram extraídos, outros foram agregados. Afinal é uma tradição viva, portanto mutante por natureza.
Atualmente a festa acontece no final de agosto, inicia-se na sexta-feira e tem o término no domingo, no final da
tarde. Há procissões no sábado e no domingo, missas, quando há as coroações, e as celebrações.
As procissões homenageiam fiéis e apoiadores ao partir da residência de um deles ou incluir em seu
trajeto determinada localização. A principal procissão ocorre no sábado à noite, é no momento em que se
observa a chegada de muitos devotos de diversos lugares, os quais se concentram em uma residência,
embalados pela música tocada pela banda civil, então ocorre um momento de descontração através de
conversas e dança. Esse momento é suspenso pela reza do terço e logo após inicia-se a procissão ritmada pelos
trombones e bumbos regidos pelo maestro da corporação musical.
O trajeto dessa procissão é intercalado entre a música e a reza ao passo que os responsáveis pela
primeira, organizados em filas, se esforçam para ler suas partituras criativamente localizadas nas costas dos
companheiros, ao mesmo tempo em que caminham através das curvas do caminho de terra iluminado por
tochas de bambu. Quando se chega à capela, que se destaca na noite rural pela iluminação e o colorido das
bandeiras, é celebrada uma missa, essa que é terminada com muitos “vivas” à Nossa Senhora dos Remédios e
Santo Antonio. Chega a vez do levantamento dos mastros e queima dos fogos de artifício, o que fica sob
responsabilidade dos mordomos, e então começa o momento mais descontraído da festa, quando tocam a
apresentação de algum grupo musical, que, pelo gosto da maioria, prefere-se um grupo de forró.
As procissões realizadas durante o dia fazem a paisagem do fim de outono ficar colorida pelos
disputados andores e os fiéis reunidos, o período diurno da festa também é animado pelas bandas, mas há um
momento bem especial, aonde todos se reúnem com muito prazer pra saborear o alimento oferecido
gratuitamente à todos os participantes da festa.

Culinária ao ar livre

As cozinheiras da festa, quando questionadas, respondem que já o fazem há anos na festa, e com
prazer, mas esse trabalho também pode aparecer como uma forma de pagar promessas. A idéia do
oferecimento de refeições durante a festa parece ter sido concebida inicialmente como forma de gratidão aos
músicos, no entanto a prática se expandiu para todos os presentes. Antes da construção da casa paroquial os
alimentos eram preparados nas casas dos fiéis, agora existem 2 espaços anexos à casa paroquial. Em um deles

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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há um fogão feito de barro, e ao redor dele é que as mulheres se reúnem para cozinhar nos panelões, que
depois de “barrelados” são diretamente expostos ao fogo. E é de onde vem a gostosa comida que será disposta
à todos no segundo espaço anexo, aonde se reúnem para almoçar ou jantar.
Os alimentos preparados provêm daqueles arrecadados também para os leilões. Se, a princípio, esta
cozinha da festa se destinaria a alimentar o padre e a banda, na prática, comem todos aqueles que
freqüentarem a festa. Segundo os relatos não há um prato típico do festejo, na maioria das vezes é servido aos
visitantes tutu e carne de panela.
No momento das refeições podem surgir formas discretas de arrecadação de meios para a festa,
através de pequenos leilões e rifas. Tal prática tão comum em festas populares atravessa também os momentos
mais remotos dessa festa, marcando continuidades. Entretanto, existem também as mudanças criticadas pelos
antigos, como falta de participação dos jovens em alguns rituais.

Coroar Nossa Senhora dos Remédios

Durante o mês de maio, há pelo menos 20 anos atrás, Nossa Senhora dos Remédios era coroada todos
os dias, assim como havia também reza de terço. Atualmente, nesse mês, isso só ocorre aos finais de semana.
Essa é a principal queixa relatada pelos fiéis sobre as mudanças ocorridas através do tempo no conjunto dos
elementos de culto à Santa. Os jovens e os novos tempos são alvo de algumas lamentações:

Todo o ano tinha. A reza do mês de maio também tem, ainda tem ainda. Tinha
coroação todo dia, que tinha muito menino no Baú, né? Que coroava, agora é
pouco. É só fim de semana que tem...61

A mesma dona Edir, antiga moradora do Baú, relata que ela e a irmã começaram a coroar ainda com
dois anos de idade, situação que era comum às demais crianças do local. A mudança nesse perfil pode ser vista
pelo prisma do significado que esse momento tem para cada geração, o mês de Maria era o momento de
socialização mais forte para uma comunidade envolvida com o trabalho familiar na agricultura e com
possibilidades de locomoção relativamente restritas. Em maio, e na festa era uma excelente oportunidade de se
conhecer pessoas novas. A atual geração tem mais possibilidades de vínculos afetivos, tem mais contato com
outras comunidades.
Entretanto, a prática não se encerrou. A coroação das crianças, mesmo em menor número ainda ocorre
no mês de maio e nas celebrações da festa em honra da Santa. Mas não só as crianças vestidas de anjo coroam
Nossa Senhora dos Remédios, essa homenagem também é prestada pelas mães devotas, momento em que é
possível se ver mães e filhas, que já coroaram quando crianças, prestando juntamente suas homenagens a
Nossa Senhora dos Remédios. A coroação é parte essencial da festa e tal prática atravessa as gerações de fiéis.

2.6 Memórias e milagres

Entre as belas paisagens de Minas há essa pequena comunidade chamada Fundão do Cintra, composta
pelas montanhas, cachoeiras e pelo rio Gualaxo, preservando também um ambiente de árvores e plantas
diversas. Hoje em dia pouco habitado, mas já abrigou diversas famílias as quais em grande parte migraram.

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Nesse lugar há uma capela, e dentro dela, assim como das mentes e corações dos devotos, está a imagem de
Nossa Senhora dos Remédios.
Pela devoção à santa, todos os anos grande parte dessas famílias retornam para cumprir promessas e
reencontrar suas origens. O momento da festa é de alegria, geralmente nesse momento são rememorados o
passado de quem já esteve lá, assim como os milagres de quem já foi agraciado pela santa.
Nossa Senhora dos Remédios do Fundão do Cintra tem devotos espalhados por diversos lugares, os
apelos para a santa acontecem nas mais diversas situações, que vão desde, nos momentos de aflição, a
esperança em uma situação de risco da saúde, até problemas mais simples que surgem no cotidiano dos
devotos.
A pequena imagem de roca de Nossa Senhora dos Remédios tem origem incerta, são mais conhecidos
os seus milagres. Em agradecimento a eles, junto ao seu altar, estão diversos objetos, símbolos materializados
que representam uma graça atendida. Entre eles há bilhetes, comprimidos e até um colete de correção de
coluna. No entanto, os maiores esforços para homenageá-la parecem ser as tantas rezas, a festa e o especial
cuidado com o qual a santa é tratada.
À Santa, todos os anos, são doados cabelos e vestimentas. Essas doações são também ex-votos, e a
singularidade destes está na tradição de seus fiéis, cuidadosamente, a vestirem e recolocarem sua nova
cabeleira. A imagem é ornamentada com uma delicada vestimenta branca composta de saiotes, anáguas e
vestidos confeccionadas por uma das senhoras que cuida da imagem e da capela, dona Edir, cujos tecidos são
doados por fiéis. Invariavelmente a santa recebe mais de um conjunto de roupas, as quais são objeto de
cuidado. Todos os ornamentos recebidos pela santa no determinado ano serão utilizados por ela nos dias da
festa, fazendo com que as organizadoras troquem a roupa da santa de forma que ela use todas as roupas
doadas pelos fiéis:

Troca, durante os três dias de festa troca de roupa. A gente troca na sexta, e no
sábado e no domingo de manhã. Nos três dias de festa é com vestimenta nova. A
capa, os cestinhos, a coroa, o pessoal dá, a palma. Ela passa os três dias de festa
dela, todinha novinha (risos)62.

A cabeleira, que é renovada também para a festa, é feita com o cabelo de fiéis que retiram uma parte
de si, das próprias madeixas para integrarem, com esse pequeno gesto, o universo do sagrado. Alguns costumes
surgiram e outros desapareceram dentro desse ritual, uma fiel relata sobre um dos que não existe mais: O
privilégio da doação da cabeleira utilizada pela santa estava relacionado à conduta moral da possível doadora.
Hoje em dia esse padrão não é mais tão rigoroso. Sobre a utilização de cabelos como ex-votos, José de Souza
Martins afirma:

Esse velho meio de afirmação da fé, como deixar crescer os cabelos para doá-los a
uma santa como peruca, é forte costume colonial, sobretudo entre mulheres: uma
troca de partes do corpo, entre o corpo profano e mortal e o corpo sagrado e imortal.
O milagre é um momento de promiscuidade entre o sagrado e o profano, e resulta na
sacralização parcial do corpo, na captura do sagrado pelo profano, que é ao mesmo
tempo o seu contrário. Há um certo reconhecimento de que a parte do corpo que foi
objeto do milagre por meio dele se sacraliza63.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Léia nos conta também algumas curiosidades sobre doadoras de mechas os tipos de cabelo que melhor
se adaptam à cabeleira da santa:

É, por exemplo, tem lá, alguém chega e fala assim: “ah, eu quero... eu fiz
promessa. Você põe um pouquinho do meu cabelo aí?”. Ela traz um pouquinho do
cabelo, você arranja um jeito lá, a gente coloca ele direitinho. Entremeia um e
outro lá, né? A gente põe. A gente prende ele lá. Porque muito liso assim demais,
ele num pára muito tempo, tem ser mais encaracoladinho64.

É impossível tratar separadamente a devoção a Nossa Senhora dos Remédios e sua imagem, a
religiosidade dos devotos leigos em Fundão do Cintra pode ser avaliada como catolicismo popular, o que vê nas
imagens e objetos sagrados não só representações, mas materializações da divindade. Percebemos isso, por
exemplo, nas palavras de dona Edir, que confecciona as roupas da santa e desde criança esteve ligada a mesma
com coroações. Segundo a mesma, que está acostumada com a imagem, é possível identificar se ela está ou
não satisfeita com os preparativos da festa e se quer ou não a celebração:

Eu estou acostumada com ela, mas aí quando a santa fica a festa dela assim, a
gente vê o rosto dela mais estranho, aí minha mãe manda falar: “ih, ela num quer
festa não”, fala assim65.

Manifestações de afetividade, fé e zelo. Doar tecidos, cozer as roupas e vestir a imagem criam uma
relação de afeto dos devotos entre si, assim como deles com a imagem. É toda uma série de delicados cuidados
repetidos anualmente, os quais tem sido praticado por algumas pessoas “autorizadas”, ou seja, que possuem um
passado de cuidado com a santa e trabalho em sua festa. Saberes que vêm sendo transmitidos através de
gerações. Assim como a montagem da sempre renovada cabeleira, que permite aos fiéis se doarem de forma
muito íntima aos mistérios do sagrado, compondo com uma parte do próprio corpo, a figura feminina da Santa.
Além das vestimentas e dos cabelos, a Nossa Senhora dos Remédios de Fundão do Cintra recebe flores,
que são usadas na ornamentação do altar e do andor que sai na procissão, e outros tipos de ex-votos, como o
narrado por D. Edir Bernardo:

Até remédio muita gente traz pra pôr. Flor, eles dão flor, quando está coroando,
muita flor de plástico, né? Muita promessa que faz, e eles alcançam a graça, né?
Agora no mês de agosto apareceu até um remédio lá, comprimido, que está lá
debaixo dela ainda, que um homem trouxe, que alcançou graça, câncer, sabe? (...)
Os bilhetinhos que eles deixam debaixo dela também quando vai visitar o Fundão.
Mesmo com a igreja caindo, suja igual está, vem muita gente visitar lá. Deixa assim
uns bilhetinhos lá, pedindo graça, alcançar alguma graça, que alcançou66.

Agradecer uma graça recebida e pagar promessas podem acontecer de formas diferentes e originais, e
não apenas através de ex-votos. São narradas histórias de pagadores de promessas que todos os anos
percorrem a procissão descalços e levando velas; mandar confeccionar bandeirinhas em honra de Nossa Senhora
dos Remédios de distribuí-las entre os participantes; realizar o seu casamento na capela do Fundão do Cintra; e
uma interessante que nos foi narrada por dona Alaísa:

47
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Eu lembrei, a mulher fez promessa se Nossa Senhora curasse ela, de varrer a Igreja e
juntar os ciscos no colo, coitada, a mulher... Ela morreu com 105 anos, a mãe de
Filinto. Como é que ela chamava? Oh meu Deus do céu... Como ela chamava? Ela
morreu com 105 anos... [...] É Lorinda, aí o filho dela deu uma doença muito grave
né? Aí ela rogou com Nossa Senhora que curasse ele, e ele foi curando, daí ela veio e
varreu a Igreja no mês de Maria menino, varreu a Igreja e juntou os ciscos no colo,
promessa né? Juntou os ciscos na porta da Igreja ali ó, e jogou os ciscos pra lá.
Varreu toda a Igreja aqui coitada67.

Para os devotos de Nossa Senhora dos Remédios, que deixam todos esses tipos de ex-votos e pedidos,
a cura de problemas de saúde, tradicionalmente associada a essa invocação de Nossa Senhora, não é a única
graça pedida em Santo Antônio do Salto. D. Edir, novamente, traz um relato das mais diversas graças que são
pedidas e que os devotos afirmam receber ao ser questionada se já recebeu alguma graça:

Ah, muita coisa, ano passado mesmo eu consegui uma. O carro daqui estava na
oficina e num achava a peça, eu pedia ela, achou. Conseguiu achar a peça, pôs no
carro, achou a peça pra pôr. Assim, quando está armando muita chuva também, em
ocasião de festa, pro pessoal também, pelo menos num acontecer barro, essas
coisas... (...)
Tudo que for difícil (...) Pede para Nossa Senhora dos Remédios dar, que vai dar
certo68

Seu Mário, 81 anos, foi, durante décadas, o zelador da capela do Fundão do Cintra. Até os 78 anos foi
morador da região, há três anos mora em Ouro Preto para poder cuidar melhor de sua saúde. Ele nos conta que
freqüentemente eram chamados em sua casa por pessoas que queriam visitar a capela e pagar alguma
promessa:
Eu ia lá,abria, eles agradeciam muito, cumpriam a promessa, deixavam esmola às
vezes e eu passei a chave para Alaíde [sua irmã], que está mais perto[...]69
.
Sua filha Girlene também se lembra dos pagadores de promessa que batiam em sua casa e relata outro
tipo de promessa de graça associada a Nossa Senhora dos Remédios, alcançar o casamento:

É muito milagre mesmo que ela faz, às vezes tem gente que vai lá cumpre promessa
e nem fala pra gente. É muito milagre mesmo... Eu lembro quando eu morava lá: “Oh
seu Mário, abre a Igreja aí pra gente...” [...] Ia lá e cumpria promessa, mas às vezes
não comentava com a gente. Muita gente que vai lá pra cumprir promessa, muita
gente que casa... Às vezes faz uma promessa... “Ah se eu conseguir casar...” E vai lá
e realiza o casamento, batizado. É muito milagrosa mesmo aquela santa70.

2.7 Passado devoto, presente profano?

O culto à Nossa Senhora dos Remédios e o momento que ele proporcionava eram o centro da vida
religiosa e afetiva da comunidade do Fundão do Cintra e dos devotos da Santa. Apesar de oficialmente, no
passado, o encontro de devotos não ter como atrativo elementos lúdicos e festivos, nas memórias, esse
momento ficou marcado como de muita alegria são só por proporcionar um espaço de convivência voltado para
o sagrado, as socializações, reencontros e oportunidades de troca aparecem de forma mais ampla em várias
formas as quais as relações humanas acontecem.
No presente, que se formou a partir da gradual incorporação de formas festivas mais evidentes,

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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algumas características do passado foram abandonadas e/ou transformadas. Principalmente a partir de 1999,
quando Wanderléya Aparecida, a Léia, passou a fazer parte da organização e começaram a vir outras bandas
para animar a festa. Sem deixar de lado os elementos religiosos, que dão sentido à festa, essa incorporação
trouxe novos olhos e mais gente para a festa. Como Léia nos contou, ao se aproximar a festa, hoje em dia,
muitos a procuram perguntando: “quem vai cantar”71. Essa novidade, que vem sendo incorporada também por
muitas outras festas religiosas tanto de Ouro Preto quanto de outros municípios, é mais uma mostra da
vivacidade e plasticidade das celebrações populares.
Mesmo com essas incorporações e novidades, as manifestações de devoção permanecem no centro,
não só da festa, mas dos discursos de jovens e velhos que residem ou retornam ao Fundão do Cintra para rezar,
festejar e perpetuar sua tradição.

2.8 Palavras finais: o registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios

Abrigada num espaço em que a capela, diante do esvaziamento de moradores, é a principal razão da
mobilização de pessoas, a festa de Nossa Senhora dos Remédios é fruto do trabalho, empenho e devoção das
organizadoras e demais membros da comunidade que tomam para si também a responsabilidade associada aos
costumes de irem para o Fundão todo final de agosto, dando suas parcelas de colaboração para que tudo ocorra
da melhor forma possível.
Desde a retirada dos bambus que sustentarão as tochas da procissão, o corte de bandeirinhas, a
arrecadação e preparação dos alimentos, até confecção da vestimenta da santa, tudo é cuidado para melhor
festejar e celebrar Nossa Senhora dos Remédios e receber os demais fiéis que a ela vêm agradecer e louvar.
Típica manifestação de devoção popular, a festa de Nossa Senhora dos Remédios tem em sua santa
protetora, bem como na imagem de seu orago, um objeto especial. O sagrado ali está. A ela se recorre nos
momentos difíceis e a ela se devotam as provas das graças atingidas, colocadas como ex-votos a seus pés ou
mesmo sob seu véu; e, principalmente, das maneiras mais solenes, com a doação de mechas de cabelos e as
roupas ou tecidos para sua ritual vestimenta. É também em sua honra que se repete ano a ano a sua
celebração, marcando o ciclo do calendário local e da vida dos demais fiéis que lá acorrem.
Foi possível perceber que a festa celebrada atualmente não é mais como era, afinal a vida que pulsa na
celebração e nas pessoas que fazem parte da mesma não possibilitaria um ritual inerte. Entretanto, isso não faz
com que haja uma morte ou mesmo uma deturpação da tradição, pelo contrário, mostra sua permanência e
constância diante das novas situações que são, por vezes, assimiladas, e por outras, rejeitadas. Mostra também
a luta anual para que a mesma se concretize, as diferenças, que porventura se notem de um ano para outro,
são também fruto das dificuldades que as organizadoras encontram para garantir a festa de sua padroeira e
para que todos os fiéis encontrem seu espaço e momento especiais para honrá-la, que é a festa.
Ao receber ex-moradores, parentes e amigos, a festa de Nossa Senhora dos Remédios é um
reencontro, que identifica a localidade e aqueles que têm em Santo Antônio do Salto e no Fundão do Cintra um
de seus espaços de referência. Como nos relatou a senhora Alaísa de Jesus, que se converteu à religião
evangélica e não mais participa das celebrações, a festa vai à sua casa, pois nesses dias ela fica cheia de filhos,
noras e netos que retornam ao Fundão do Cintra.
A festa de Nossa Senhora dos Remédios confere, pois, uma identidade ao local e marca a memória

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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daquele espaço e de sua gente, como se pôde conferir através dos relatos e narrativas de moradores,
participantes e organizadores.
Celebração eminentemente religiosa não deixa de possuir, entretanto, elementos profanos. Assim como
as pessoas que dela fazem parte e que vivem entre essas duas esferas. A alegria das conversas e brincadeiras
enquanto se cozinha e se aprecia a boa comida; a cantoria e diversões enquanto se estica os barbantes para
receber as bandeirinhas e, posteriormente, pendurá-las nas árvores do caminho da procissão; por fim, a música
que finaliza a noite de sábado, normalmente um forró, para atender a preferência dos participantes.
Com o registro da festa de Nossa Senhora dos Remédios, Ouro Preto recebe e divulga uma importante
manifestação de seu povo. A chancela do registro e a produção deste dossiê não pretendem transformar a
celebração em algo fixo, o que não cabe em um manifestação cultural desta natureza, mas garantir meios de se
salvaguardar este bem cultural imaterial, acompanhado suas realizações e fazendo dele um patrimônio do
Município de Ouro Preto.
Se a importância da festa é clara para os participantes e demais pessoas diretamente envolvidas em
sua realização, o registro cumpre um papel do poder público de estender o conhecimento das manifestações
culturais de seu povo para toda a sua população. A festa de Nossa Senhora dos Remédios deve ser reconhecida,
pois, em toda sua representatividade para a identidade e cultura ouropretanas.

1
UNESCO, 1993 apud ABREU, Márcia. “‘Tesouros humanos vivos’ ou quando as pessoas transforma-se
em patrimônio cultural – notas sobre a experiência francesa de distinção do ‘Mestres da Arte’”. In:
ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de
Janeiro: DP&A, 2003, pp. 81-82.
2
IPHAN. Círio de Nazaré. Rio de Janeiro: Iphan, 2006. – (Dossiê Iphan; 1)
3
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, (10)
dez. 1993, p. 7.
4
HARTOG, François Tempo e patrimônio. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 22, n.36, jul/dez, 2006,
p. 265.
5
JANCSÓ, Istvan; KANTOR, Irís. Falando de Festas. In: JANCSÓ, István; KANTOR, Íris (Orgs.).
Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec: Editora da Universidade de
São Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial, 2001, p. 971.
6
TINHORÃO, José Ramos. As festas no Brasil colonial. São Paulo: Ed.34, 2000, p 7
7
REIS, João José. A morte é uma festa. apud SOUZA, Marina de Mello e. Paraty: a cidade e as festas.
Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2008, p. 72.
8
GÓES, Maria da Graça Coutinho de. Ex-votos, promessas e milagres: um estudo sobre a Igreja de Nossa
Senhora da Penna/ Maria da Graça Coutinho de Góes. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 2009.
Dissertação (Mestrado Profissionalizante em Bens Culturais e Projetos Sociais) Fundação Getúlio Vargas
(CPDOC), Rio de Janeiro, 2009.
9
Ibidem, p. 19
10
MAUSS, Marcel apud GONÇALVES, José Reginaldo. “O patrimônio como categoria de pensamento”.
In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de
Janeiro: DP&A, 2003, p. 26.
11
CARR, Edward. O que é história. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1982.
12
JOUTARD, Phillipe. “Desafios à História Oral do Século XXI”. In: FERNANDES, T.M.; ALBERTI,
V. (orgs.). História Oral: desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo
Cruz/CPDOC-FGV, 2000, p. 33.
13
ALBERTI, Verena. “Histórias dentro da História”. In: PINSKY, Carla (org.). Fontes históricas. São
Paulo: Contexto, 2005, p. 157.
14
JOUTARD, Phillipe. op. cit., pp. 33-34.

50
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

15
Ibidem, p. 34.
16
HALBAWCHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
17
POLLACK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, n.3,
p. 201.
18
HALBAWCHS, Maurice. op. cit., p. 12.
19
POLLACK, Michael. op. cit., p. 201.
20
Origem colonial no sentido da existência como povoado, com arruamento e característica urbana (e não
somente com presença de fazendas e paragens).
21
Estes caminhos, como salienta Sylvio de Vasconcelos, condicionariam a formação de praticamente toda
vila e arraial das Gerais. O que é Ouro Preto senão um caminho que vai das Cabeças (passando pelo
Rosário, Pilar, Praça, Antônio Dias) ao Padre Faria? Nem só o ouro condicionou a evolução urbana das
minas, mas as rotas de abastecimento e escoamento também.
22
O provável primeiro núcleo, desenvolvido ao redor da capela de São João, teve origens por volta de
1698.
23
Não se deve esquecer a presença do Arraial do Padre Faria, cito no fundo de um vale, no caminho
antigo para Mariana. Porém, nada se compara ao papel preponderante dos dois núcleos citados no texto.
24
O culto de Nossa Senhora do Rosário tomou força entre os negros, não sendo coincidência a evocação
popular de Santa Efigênia (uma santa negra) à esta igreja do Rosário.
25
Estas igrejas foram escolhidas para demonstrar como a evolução dos dois núcleos se corresponde e se
rivaliza.
26
ESCHWEGE, Barão de. Notas Geognosticas e Montanisticas sobre as lavras de ouro de Minas Geraes.
Traducção do cap. 5º parte 3ª do Pluto Brasilienses. In: Revista do Arquivo Público Mineiro, Ouro Preto,
v. 2, out./dez. 1897, p. 638.
27
Cartas de sesmaria. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, v. 4, 1899, p. 860-861.
28
Ver, dentre outros, Arquivo Público Municipal de Ouro Preto. “Obras Públicas” Cx.1, Pasta (1893) e
Pasta (1897).
29
Entrevista com senhor Valdemiro de Jesus. 54 min., Ouro Preto; Júlia Indira Peixoto e Tadeu
Pamplona Pagnossa; 20/06/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N.
Sra. dos Remédios.
30
FORTES, Solange. Ouro Preto conta Ouro Preto: tradições da Terra do Ouro. Ouro Preto: Escola Dom
Pedro II, 1996.
31
Entrevista com dona Alaísa de Jesus Ferreira, estando presente também dona Maria Aparecida
Bernardo.40 min., Santo Antônio do Salto – distrito de Ouro Preto; João Paulo Martins, Júlia Indira
Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 09/06/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto.
Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.
32
Entrevista com dona Maria Aparecida Bernardo de Souza. 25 min., Santo Antônio do Salto – distrito
de Ouro Preto; João Paulo Martins, Júlia Indira Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 09/06/2009.
Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.
33
Entrevista com senhor Mário de Jesus e sua filha Girlene das Graças de Jesus. 1h 18 min.,Ouro Preto;
Júlia Indira Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 26/06/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro
Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.
34
GUARINELLO, Norberto Luiz. Festas, Trabalho e Cotidiano. In: JANCSÓ, István; KANTOR, Íris
(Orgs.). Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec: Editora da
Universidade de São Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial, 2001, p. 971.
35
Idem.
36
SOUZA, Marina de Mello e. Paraty: a cidade e as festas. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2008, p. 27.
37
Ibidem, pp. 30-31.
38
ORIGENS da Devoção a Nossa Senhora dos remédios. Disponível em
<http://www.trinitarios.com.br/5.%20Espiritualidade/Nossa%20Senhora%20do%20Bom%20Remedio.sw
f> Acesso em 10 dez. 2008.
39
SOUZA, Marina de Mello e. op. cit. , p. 63.
40
ORIGENS da Devoção a Nossa Senhora dos remédios. op. cit..
41
QUINTÃO, Antônia Aparecida. Professora, existem santos negros? Histórias de Identidade Religiosa
Negra. Disponível em <http://www.usp.br/neinb/?q=node/187> Acesso em 10 dez. 2008.
42
Entrevista com senhor Valdemiro de Jesus.
43
Entrevista com senhor Valdemiro de Jesus.

51
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

44
INVENTÁRIO DO POTENCIAL TURÍSTICO: Santo Antônio do Salto. Ouro Preto (Agosto-Outubro
2004). Agradecemos a Cláudia Coimbra à cessão deste material.
45
Idem.
46
Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana. Códice n. 3651 “Ereção de capela”.
47
Idem.
48
“(...) o Prezidente declarou que achase [sic] instalada a conferencia de São Vicente de Paulo em honra
de Senhora dos Remedios no lugar Denominado Fundão Districto de Marianna”. Livro de Atas da
Conferência São Vicente de Paulo em honra de Nossa Senhora dos Remédios (1925-1927). fls. 5v-6.
Arquivo da Conferência São Vicente de Paulo em Honra de Nossa Senhora dos Remédios (Santo Antônio
do Salto – Baú e Fundão do Cintra), Livro 2, Cx. 1. Será usado ACSVP nas referências posteriores a este
arquivo.
49
Livro de Atas da Conferência São Vicente de Paulo em honra de Nossa Senhora dos Remédios (1985-
1991). fls. 5v-6. ACSVP, Livro 3, Cx. 2.
50
Livro de Atas da Conferência São Vicente de Paulo em honra de Nossa Senhora dos Remédios (1925-
1927), fl. 98. ACSVP, Livro 2, Cx. 1.
51
Idem, fl. 7v.
52
Idem.
53
Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto.
54
Entrevista com dona Alaísa de Jesus Ferreira, estando presente também dona Maria Aparecida
Bernardo.
55
Entrevista com senhor Mário de Jesus e sua filha Girlene das Graças de Jesus.
56
Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto.
57
Entrevista com dona Maria Aparecida Bernardo de Souza.
58
Entrevista com senhor Valdemiro de Jesus.
59
Entrevista com dona Maria Aparecida Bernardo de Souza.
60
Entrevista com dona Alaísa de Jesus Ferreira
61
Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto.
62
Entrevista com dona Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara. 16 min., Santo Antônio do Salto –
distrito de Ouro Preto; João Paulo Martins e Sidnéa Francisca dos Santos; 11/02/2009. Acervo da
Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.
63
MARTINS, José de Souza. A imagem incomum: a fotografia dos atos de fé no Brasil. Disponível em <
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142002000200015&script=sci_arttext&tlng=pt> Acesso
em 15 dez. 2008.
64
Entrevista com dona Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara.
65
Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto. 22 min., Santo Antônio do Salto – distrito de Ouro
Preto; João Paulo Martins e Sidnéa Francisca dos Santos; 11/02/2009. Acervo da Prefeitura Municipal
de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.
66
Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto..
67
Entrevista com dona Alaísa de Jesus Ferreira.
68
Idem.
69
Entrevista com senhor Mário de Jesus e sua filha Girlene das Graças de Jesus.
70
Idem.
71
Entrevista com dona Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara.

52
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

E – Acervo religioso da capela do Fundão do Cintra


Município Ouro Preto
Distrito Santo Antônio do Salto
Designação Capela Nossa Senhora dos Remédios
Endereço Fundão do Cintra, s/nº
Propriedade/situação Paróquia de Santa Efigênia
Responsável Edir Bernardo de Souza Neto, Maria Aparecida Bernardo de Souza e Wanderléya
Aparecida da Silva Alcântara
Situação de ocupação Ocupado
Uso atual Capela
Análise de entorno-situação e ambiência:
Localizada em região afastada da entrada do distrito, a igreja está implantada em terreno natural, próxima
a um rio. A estrada que dá acesso à igreja, não possui pavimentação e tem topografia em aclive. Possui
iluminação pública e a água de abastecimento é provida por mina. No entorno possuem algumas
edificações afastadas umas das outras. Todas de tipologia simples e características contemporâneas.
Documentação fotográfica:
Referência: C:\Documents and Settings\user\Meus documentos\Fotos Santo Antônio do Salto
Fonte: Elisângela R. Silva Araújo
Data: 18/03/2008

Fachada lateral e principal

Fachada principal Interior da Capela (Altar Mor)

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Histórico:
A Capela de Nossa Senhora dos Remédios foi erigida entre o final do século XIX e início do século XX,
observando, entretanto, algumas características arquitetônicas e construtivas do século XVIII. O principal
registro documental de sua datação é o pedido de autorização para construção da mesma, realizado em
1890. Segundo alguns dos moradores do distrito, os arredores dessa capela eram repletos de casas,
principalmente de trabalhadores das usinas hidrelétricas existentes no distrito de Santo Antônio do Salto.

Descrição: O lote é construído ocupado por dois imóveis. O lote possui um jardim frontal espaço para
garagem em ambos os lados da construção. O terreno tem configuração irregular, apresentando
fechamento em arame farpado. O embasamento da construção é em pedra, a soleira da porta é cimentada.
A igreja está no mesmo nível do terreno, tendo um platô de pedra, de forma a nivelá-la. Tem acesso direto,
sem o uso de escadarias ou algum adro. Sua planta não segue a tipologia tradicional de cruz, romana ou
grega. Sendo que a mesma também não segue uma simetria. Seu estilo é simples, sem muitos ornamentos
ou decorações. Não possui espaço específico para o coro, a nave está no centro, o altar aos fundos e a
sacristia ocupa a porção lateral. . O piso do átrio é em cerâmica, e do púlpito de madeira. A sacristia é de
cimento queimado. Existe forro apenas no púlpito, sendo este em madeira. A pintura da fachada é látex. As
cores predominantes da fachada é branca e das esquadrias marrom. Os vãos da fachada são em madeira,
assim como as esquadrias e os pilares de sustentação. O Beiral é acachorrado e o coroamento é em
madeira. As telhas são do tipo cerâmico e curvas. A verga das janelas e da porta lateral é reta e da porta
principal é de arco abatido.

Proteção legal Nenhuma


existente
Proteção legal Inventário
proposta
Estado de Ruim
conservação
Análise do estado de Rachaduras e fissuras nas paredes; descolamento de pintura e reboco; telhas
conservação quebradas; degraus da escada do altar e o forro se encontram deteriorados.
Fatores de Falta de manutenção
degradação
Medidas de Deve-se fazer uma manutenção periódica dos aspectos físicos, estruturais e
conservação compositivos da Capela.
Intervenções – Inexistente
Responsável/Data
Referências Bibliográficas
- BOHRER. Imaginário da Paixão de Cristo. Cultura Artística e Religiosa no Alto Rio das Velhas nos Séculos
XVIII e XIX. Mariana: ICHS/UFOP (Monografia de Bacharelado), 2004.
- CADERNOS DO IFAN - USF N. 02. Arte Sacra. In Iconografia Religiosa: história e teologia dos
crucifixos franciscanos. Por Orlando Bernardi. Bragança Paulista, 2000.
- CUNHA, Maria José de Assunção da. Iconografia Cristã (caderno de pesquisa) - UFOP / Int. de artes
e cultura. 1993.
- LURKER, Manfred, Dicionário de Figuras e Símbolos Bíblicos. São Paulo, Paulus.1993.
- LUXIKON, Herder. Dicionário de Símbolos . São Paulo, Cultrix. 1990.
- MARTINS, Judith. Dicionário de Artistas e Artífices dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais. Rio de
Janeiro: Publicações do IPHAN, 1974. 2 vols.
- PETROBRÁS, Inventário das Festas Religiosas de Ouro Preto.
- TRINDADE, Cônego Raimundo. Archidiocese de Marianna; Subsídios para a sua História. Belo Horizonte:
Imprensa Oficial, 1929. 3v.
- ________. Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde,
1945.

54
Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Informações Inexistente
complementares
Planta baixa
CAMARIM

CAPELA-MOR
SACRISTIA

TELHA CERÂMICA CURVA

TELHA CERÂMICA CURVA


I=50%

I=50%
NAVE
Adobe

TELHA CERÂMICA CURVA

TELHA CERÂMICA CURVA


Alvenaria tijolo cerâmic

I=50%

I=50%
Esteio em madeira

Planta Baixa Planta de Cobertura


1m 0 1 2 3m

Fachada Lado Epístola


Fachada Frontal

NAVE
SACRISTIA CAPELA-MOR
LATERAL

Corte AA' Corte BB'

Ficha Técnica Arquitetura:


Lev. Campo: Elisângela R. Silva Araújo, Data: 31/10/2007 e
Fernanda Alves Costa da Silva, Gláucia Ribeiro e 18/03/2008
Lívia M. Hannes
Elaboração: Elisângela R. Silva Araújo e Lívia M. Data: 30/11/2007 e
Hannes 24/03/2008
Revisão final: Elisângela R. Silva Araújo Data: 24/03/2008
História:
Lev. Campo: Bernardo Andrade Data: 05/03/2008
Pesquisa documental: Vanalyse Emery Data: fevereiro e março de
2008
Elaboração e Revisão Final: Bernardo Andrade Data: 03/04/2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Informações Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara Data: 18/03/2008


prestadas por: José Antônio Bernardo Data: 04/04/2008
Benvindo Motinho Data: 04/04/2008
Lino Xavier da Purificação Data: 02/04/2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Município Ouro Preto


Distrito Santo Antônio do Salto
Acervo Capela Nossa Senhora dos Remédios
Endereço Fundão do Cintra, s/n°
Propriedade/situação Paróquia de Santa Efigênia
Responsável Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara, Edir Bernardo de Souza Neto e
Maria Aparecida Bernardo de Souza
Designação Imagem de Nossa Senhora dos Remédios
Localização Altar Mor
específica
Espécie Imaginária
Época Provavelmente século XVIII
Autoria Autoria desconhecida
Origem Origem desconhecida
Procedência Procedência desconhecida
Material/técnica Madeira
Marcas/ inscrições/ Imagens sem legendas ou inscrições
legendas
Documentação fotográfica:
Referência: C:\Documents and Settings\user\Meus documentos\Fotos Santo Antônio do Salto
Foto: Elisângela R. Silva Araújo

Imagem Nossa Senhora dos Remédios

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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Vista lateral esquerda e direita

Vista posterior

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Dezembro/2009

Vista frontal e lateral (sem vestimenta)

Vista frontal e lateral (sem vestimenta)

Descrição Imagem de roca, onde apenas o busto, os braços e a cabeça são entalhes,
assim como a imagem que ela carrega no braço esquerdo. Essas partes são
sustentadas por uma estrutura de metal amarrado por cordas a uma base de
madeira. Os braços são articulados nos cotovelos e nos ombros. O capelo
parece ser natural. A imagem esta vestida com um manto branco e tem sobre
a cabeça um vel rendado.

Condições de Precárias
segurança
Proteção legal Nenhuma
existente
Proteção legal Inventário
proposta
Dimensões Altura (H): 50,0cm
Base (B): 48,0cmx34,0cmx17,0cm

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

O Menino Jesus tem H: 15,0cm


Estado de Regular
conservação
Análise do estado de A imagem apresenta problemas na articulação dos braços e a pintura do rosto
conservação está danificada.
Intervenções – Não foram encontrados registro de intervenções
Responsável/Data
Características Imagem de roca.
técnicas
Características A imagem possui características típicas do século XVIII, provável época de
estilísticas sua manufatura.
Características A imagem fica exposta no altar da capela, de onde é retirada apenas para
iconográficas eventos religiosos.
Dados históricos Não foram encontrados registros históricos sobre essa peça ou sobre as
circunstâncias de sua incorporação ao acervo da capela.
Referências Bibliográficas:
- ÁVILA, A. E GONTIJO, João. Barroco Mineiro – Glossário de Arquitetura e Ornamentação. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro. 1980.
- Bazin, Germain. A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Ed. Record, Volume I e II. 1984.
- BECKÄUSER, Alberto. Santo Antônio Através de suas Imagens. Petrópolis, Vozes, 1998.
- CADERNOS DO IFAN - USF N. 02. Arte Sacra. In Iconografia Religiosa: história e teologia dos
crucifixos franciscanos. Por Orlando Bernardi. Bragança Paulista, 2000.
- CUNHA, Maria José de Assunção da. Iconografia Cristã (caderno de pesquisa) - UFOP / Int. de
artes e cultura. 1993.
- DICIONÁRIO DE FIGURAS E SÍMBOLOS BÍBLICOS. Manfred Lurker. São Paulo, Paulus.1993.
- DUCHER, Robert. Características dos Estilos. 2 ed.; São Paulo, Martins Fontes. 2001.
- LUXIKON, Herder. Dicionário de Símbolos . São Paulo, Cultrix. 1990.
- MAWE, John. Viagem ao interior do Brasil. [trad: Selena Benevides Viana]. Coleção Reconquista do
Brasil, v.33. São Paulo: USP, 1978. 243p.
- OZZORI, Manuel. Almanack. Administrativo, mercantil, industrial, scientifico e litterario do
Município de Ouro Preto. Ouro Preto: Typographia d’A Ordem: 1890.
Informações Não há informações complementares.
complementares
Ficha Técnica Arquitetura: Data: 18/03/2008
Lev. Campo: Elisângela R. Silva Araújo e Fernanda
Alves Costa da Silva Data: 24/03/2008
Elaboração: Elisângela R. Silva Araújo
História:
Lev. Campo: Bernardo Andrade Data: 05/03/2008
Pesquisa documental: Vanalyse Emery Data: fevereiro e
março de 2008
Elaboração e Revisão Final: Bernardo Andrade Data: 03/04/2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Município Ouro Preto


Distrito Santo Antônio do Salto
Acervo Capela Nossa Senhora dos Remédios
Endereço Fundão do Cintra, s/n°
Propriedade/situação Paróquia de Santa Efigênia
Responsável Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara, Edir Bernardo de Souza Neto e
Maria Aparecida Bernardo de Souza
Designação Sino
Localização Campanário contíguo ao lado direito da Capela.
específica
Espécie Objeto Litúrgico
Época 1836
Autoria Autor desconhecido
Origem Origem desconhecida
Procedência Procedência desconhecida
Material/técnica Bronze/ bronze fundido trabalhado
Marcas/ inscrições/ O sino apresenta cruz ladeada por decoração floral e na metade inferior a
legendas datação de 1836.
Documentação fotográfica:
Referência: C:\Documents and Settings\user\Meus documentos\Fotos Santo Antônio do Salto
Foto: Elisângela R. Silva Araújo

Visão geral, mostrando a estrutura que sustenta o sino.


18/03/2008 - Fotos: Elisângela R. Silva Araújo

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Detalhes da decoração do sino


18/03/2008 - Foto: Elisângela R.Silva Araújo

Descrição Sino de bronze fundido, ornado com florais e motivos religiosos em relevo,
assim como a provável data de sua produção.
Condições de Regular
segurança
Proteção legal Nenhuma
existente
Proteção legal Inventário
proposta
Dimensões Diâmetro máximo(D): 26,0cm
Altura (H): 23,0cm
Suporte de sustentação do sino: 2,28m
Estado de Bom
conservação
Análise do estado de Apesar de sujo devido à exposição ao tempo, a peça apresenta bom estado
conservação de conservação.
Intervenções – Não há registro de intervenções
Responsável/Data
Características Sino de bronze fundido e trabalhado, com bojo voltado para baixo e badalo
técnicas central de ponta em bola.
Características Estilo característico da provável época de fundição
estilísticas
Características A tradição dos sinos é uma herança antiga do catolicismo português, trazida
iconográficas para o Brasil ainda no século XVI. Seus diferentes toques regiam a vida do
cristão, transmitindo mensagens e comunicados através do badalar codificado
dos sinos. Em Minas Gerais, essa tradição se enraizou profundamente,
transformando-se em um dos principais patrimônios religiosos do estado.
Principalmente na região das lavras, onde a grande quantidade de ouro

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

ergueu matrizes, igrejas e capelas magníficas.


Dados históricos Não foram encontrados registros históricos sobre essa peça ou sobre as
circunstâncias de sua incorporação ao acervo da capela.
Referências Bibliográficas:
- ÁVILA, A. E GONTIJO, João. Barroco Mineiro – Glossário de Arquitetura e Ornamentação. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro. 1980.
- Bazin, Germain. A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Ed. Record, Volume I e II. 1984.
- BECKÄUSER, Alberto. Santo Antônio Através de suas Imagens. Petrópolis, Vozes, 1998.
- CADERNOS DO IFAN - USF N. 02. Arte Sacra. In Iconografia Religiosa: história e teologia dos
crucifixos franciscanos. Por Orlando Bernardi. Bragança Paulista, 2000.
- CUNHA, Maria José de Assunção da. Iconografia Cristã (caderno de pesquisa) - UFOP / Int. de
artes e cultura. 1993.
- DICIONÁRIO DE FIGURAS E SÍMBOLOS BÍBLICOS. Manfred Lurker. São Paulo, Paulus.1993.
- DUCHER, Robert. Características dos Estilos. 2 ed.; São Paulo, Martins Fontes. 2001.
- LUXIKON, Herder. Dicionário de Símbolos . São Paulo, Cultrix. 1990.
- MAWE, John. Viagem ao interior do Brasil. [trad: Selena Benevides Viana]. Coleção Reconquista do
Brasil, v.33. São Paulo: USP, 1978. 243p.
- OZZORI, Manuel. Almanack. Administrativo, mercantil, industrial, scientifico e litterario do
Município de Ouro Preto. Ouro Preto: Typographia d’A Ordem: 1890.
Informações Não há informações complementares
complementares
Ficha Técnica Arquitetura: Data: 18/03/2008
Lev. Campo: Elisângela R. Silva Araújo e Fernanda
Alves Costa da Silva Data: 25/03/2008
Elaboração: Elisângela R. Silva Araújo
História:
Lev. Campo: Bernardo Andrade Data: 05/03/2008
Pesquisa documental: Vanalyse Emery Data: fevereiro e
março de 2008
Elaboração e Revisão Final: Bernardo Andrade Data: 03/04/2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

F - Delimitação e descrição da área de ocorrência

Santo Antônio do Salto localiza-se a 30 Km do distrito sede, incluindo o trecho Ouro Preto – Ouro Branco do programa
estadual da Estrada Real, com acesso pelo distrito de Lavras Novas passando por Chapada. Ou então percorrendo 18 km a partir de
Santa Rita de Ouro Preto.

O distrito tem como extensão, aproximadamente 57 Km², incluindo a Serra de Lavras Novas, cuja topografia foi responsável
pela tímida ocupação do núcleo urbano, que somente tomou força a partir das construções das usinas hidrelétricas no início do século
XIX. Assim, com o desenvolvimento das obras do canal Maynart, o núcleo urbano foi preparado para receber as novas atividades
além do garimpo de ouro e da agricultura.

No centro urbano, se situa a igreja matriz de Santo Antônio, que já foi descaracterizada, mas que guarda a localização da
antiga capela de mesmo nome de onde se desenvolveu o distrito.

Como o rio Maynart e o canal de mesmo nome passam pelo centro do distrito, apesar da restrição de ocupação às suas
margens, observa-se, até o presente momento, a tendência de ocupação ao longo desse eixo.

O distrito compõem-se ainda das localidades do Baú, Cláudio Sousa, Engenho e Fundão do Cintra, onde ocorre a celebração da
Festa de Nossa Senhora dos Remédios.

O terreno do Fundão do Cintra é, atualmente, praticamente compreendido pela fazenda do Fundão do Cintra, possuindo, além
capela e da casa paroquial, apenas mais duas moradias, a sede da fazenda e construções destinadas ao tratamento dos animais lá
criados. A área é cortada pelo rio Maynart, os caminhos são de terra, sem iluminação elétrica, mas há energia nas construções.

1. Mapa do distrito de Santo Antônio do Salto

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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2. Mapa destacando o Fundão do Cintra

Área onde acontece a Festa de Nossa Senhora dos Remédios do Fundão de Cintra

G – Salvaguarda e Valorização
IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMAS

Baseando-se na observação e acompanhamento da celebração da festa de Nossa Senhora dos Remédios no Fundão do Cintra, e pelos
relatos dos participantes e organizadores, os principais problemas detectados na mesma e para sua continuidade foram:
• o mal estado de conservação da capela de Nossa Senhora dos Remédios;
• a dificuldade para arrecadação e recursos para se contratar a apresentação musical que acontece no sábado da festa, e para
se trazer as bandas civis que tradicionalmente acompanham a celebração.

PLANO DE AÇÕES

Dentro desse diagnóstico, a proposta da Prefeitura de Ouro Preto para salvaguarda e valorização da celebração, prevê as seguintes
ações:

1. Conservação da capela de Nossa Senhora dos Remédios no Fundão do Cintra;


2. Divulgação da celebração em rádios, jornais e outras mídias locais, destacando o registro da celebração como
patrimônio cultural imaterial do município;
3. Acompanhamento e registro das atividades da celebração desde sua organização;
4. Apoio logístico e cultural à celebração mediante o contato e acompanhamento das atividades dos organizadores.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

CRONOGRAMA SALVAGUARDA (2010)

Ações/meses jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
1 x x x x x x x x x x x
2 x x x
3 x
4 x x

H – Documentação Fotográfica

Vestimenta da imagem de Nossa Senhora dos Remédios - 2008

Vestimenta do Menino Jesus que compõe a imagem de Nossa Senhora dos Remédios

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Dezembro/2009

Vestimenta da imagem de Nossa Senhora dos Remédios - 2008

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Dezembro/2009

Peças que compõem a vestimenta da imagem de Nossa Senhora dos Remédios na capela do Fundão do Cintra – 2009.

Andor de Santo Antônio ornamentado com flores doadas por fiéis – 2009

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Dezembro/2009

Ornamentação dos caminhos da procissão das bandeiras - 2009

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Dezembro/2009

Ornamentação do mastro da bandeira de Nossa Senhora dos Remédios - 2009

Ornamentação do adro e do cruzeiro da capela de Nossa Senhora dos Remédios – 2009

Enfeite do mastro de Nossa Senhora dos Remédios - 2008

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Dezembro/2009

Adro da capela de Nossa Senhora dos Remédios - Organização da festa - 2008

A cozinha da festa – 2009

A cozinha da festa - 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Procissão noturna com as bandeiras de Nossa Senhora dos Remédios e Santo Antônio – 2009

Celebração no adro da capela de Nossa Senhora dos Remédios após a chegada da procissão das bandeiras – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Celebração no adro da capela de Nossa Senhora dos Remédios após a chegada da procissão das bandeiras – 2009

Levantamento do mastro com as bandeiras de Nossa Senhora dos Remédios e Santo Antônio – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Queima de fogos após o levantamento do mastro – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Missa festiva no Fundão do Cintra – 2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Carregamento do adro na procissão de Nossa Senhora dos Remédios – 2008

Toque do sino na missa festiva – 2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Procissão no Fundão do Cintra – 2008

Carregamento do adro na procissão de Nossa Senhora dos Remédios - 2008

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Adro da capela de Nossa Senhora dos Remédios – Festa 2008

Andor com as imagens de Nossa Senhora dos Remédios e Santo Antônio - 2008

Procissão com as imagens realizada no domingo da festa – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Procissão com as imagens realizada no domingo da festa – 2009

Procissão com as imagens realizada no domingo da festa – 2009

Coroação da imagem de Nossa Senhora dos Remédios pelas crianças da comunidade – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Coroação da imagem de Nossa Senhora dos Remédios pelas mães da comunidade – 2009

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Cartaz da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – 1993


Arquivo Público Municipal de Ouro Preto

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Dezembro/2009

Cartaz da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – 1994


Arquivo Público Municipal de Ouro Preto

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Dezembro/2009

I- Referências Documentais
Arquivos consultados

Arquivo da Conferência São Vicente de Paulo em Honra de Nossa Senhora dos Remédios (Santo Antônio do Salto – Baú e Fundão do
Cintra)

Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana

Arquivo Público Municipal de Ouro Preto

Revista do Arquivo Público Mineiro

Entrevistas

Entrevista com dona Alaísa de Jesus Ferreira, estando presente também dona Maria Aparecida Bernardo.40 min., Santo Antônio do
Salto – distrito de Ouro Preto; João Paulo Martins, Júlia Indira Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 09/06/2009. Acervo da Prefeitura
Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.

Entrevista com dona Edir Bernardo de Souza Neto. 22 min., Santo Antônio do Salto – distrito de Ouro Preto; João Paulo Martins e
Sidnéa Francisca dos Santos; 11/02/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.

Entrevista com dona Maria Aparecida Bernardo de Souza. 25 min., Santo Antônio do Salto – distrito de Ouro Preto; João Paulo
Martins, Júlia Indira Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 09/06/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da
festa de N. Sra. dos Remédios.

Entrevista com dona Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara. 16 min., Santo Antônio do Salto – distrito de Ouro Preto; João Paulo
Martins e Sidnéa Francisca dos Santos; 11/02/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos
Remédios.

Entrevista com senhor Mário de Jesus e sua filha Girlene das Graças de Jesus. 1h 18 min.,Ouro Preto; Júlia Indira Peixoto e Tadeu
Pamplona Pagnossa; 26/06/2009. Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.

Entrevista com senhor Valdemiro de Jesus. 54 min., Ouro Preto; Júlia Indira Peixoto e Tadeu Pamplona Pagnossa; 20/06/2009.
Acervo da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Registro da festa de N. Sra. dos Remédios.

J - Bibliografia
ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

ALCAN. Memória Viva: 50 anos da Alcan Alumínio do Brasil em Ouro Preto. Ouro Preto: ALCAN, 2000.

ARÉVALO, Marcia C. da Massena. Patrimônio Imaterial: os debates, os critérios, e o histórico de uma política cultura. 2007.
Monografia (Bacharelado) – Universidade Federal de Ouro Preto, Instituto de Ciências Humanas e Sociais.

CAVALCANTI, Maria Laura V. de Castro; FONSECA, Maria Cecília Londres. Patrimônio Imaterial no Brasil: Legislação e Políticas
Estaduais. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008.

CARR, Edward. O que é história. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1982.

CUNHA, Maria José da Assunção da. Iconografia Cristã. Ouro Preto, Ufop/Ifac: 1993.

DOSSIÊ EX-VOTOS. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Ano 4, nº 41, fevereiro/2009.

FERREIRA, Marieta Morais, AMADO, Janaina (orgs.). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

FERNANDES, T.M.; ALBERTI, V. (orgs.). História Oral: desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo
Cruz/CPDOC-FGV, 2000.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

FORTES, Solange. Ouro Preto conta Ouro Preto: tradições da Terra do Ouro. Ouro Preto: Escola Dom Pedro II, 1996.

GÓES, Maria da Graça Coutinho de. Ex-votos, promessas e milagres: um estudo sobre a Igreja de Nossa Senhora da Penna.
Dissertação (Mestrado Profissionalizante em Bens Culturais e Projetos Sociais). Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 2009.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como patrimônios. Horizontes
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HALBAWCHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

HARTOG, François Tempo e patrimônio. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 22, n.36, jul/dez, 2006.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Círio de Nazaré. Rio de Janeiro, 2006. (Dossiê IPHAN I).

INVENTÁRIO DO POTENCIAL TURÍSTICO: Santo Antônio do Salto. Ouro Preto (Agosto-Outubro 2004).

JANCSÓ, István; KANTOR, Íris (Orgs.). Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec: Editora da
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MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Loyola, 1996.

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MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares no Brasil. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.

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POLLACK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, n.3, 1989, 3-15.

PREFEITURA MUNICIPAL DE OURO DE OURO PRETO. Inventário da Tradicional produção de Doces Artesanais de São Bartolomeu.
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QUINTÃO, Antônia Aparecida. Professora, existem santos negros? Histórias de Identidade Religiosa Negra. Disponível em
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Dezembro/2009

K - Anexos
1. Transcrição de entrevistas
Entrevista com a senhora Dona Alaísa de Jesus Ferreira (AJ), estando presente também Maria Aparecida Bernardo Sousa (MS). Na
capela de Nossa Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: João Paulo Martins(JP), Julia Indira Peixoto (JI) e Tadeu Pamplona Pagnossa(TP).
Realizada no dia 09/06/2009

AJ - [inaudível] religioso né meu filho, juntava gente demais. Vinha o padre sexta-feira, tinha missa de noite, no sábado era missa de
Santo Antonio, domingo era Maria Concebida, e na segunda- feira era missa do São Sebastião, agora acabou tudo, não tem nada
disso mais. Ai menino, eu me alembro como que é hoje, minha tia coava café prum pessoal comungar, confessavam à noite no
domingo de noite e segunda feira, eles confessavam, de noite, domingo, e na segunda- feira eles comungavam, era de véu, de
jejum, era tão bonito menino, era lindo demais. Aí menino, minha tia ganhou uma roupa, com mais de, com quase cem anos, vinha,
ela coava o café alí, todo mundo que jejuava, que comungava, tinha o café e a merenda pra todo mundo. Era bonito Aparecida, não
era? Era muito bonito. Aí os velhos que morou aqui acabou tudo uns foram embora pra Ouro Preto, os de mais idade já morreram
tudo... Mas aqui dia de festa era muito bonito meu filho, nossa, Deus, hum! Era lindo!
JP - As missas todas que a senhora falou São Sebastião, Santo Antonio... Eram todas durante a festa de Nossa Senhora dos
Remédios?
AJ - Durante a festa... A festa era marcada, quer ver? Era agosto ou setembro desses meses não passava. Agosto ou setembro não é
Aparecida?
MS - Por causa da chuva né? [inaudível] agosto chove mesmo...
AJ - Então menina, era uma maravilha, juntava gente que não era brincadeira, o adro da igreja nunca vi de gente, era gente demais.
Tinha o padre que vinha de Mariana, primeiro era o padre Oscar. Já morreu né? O Dom Oscar, depois veio o padre Paulo, depois do
padre Paulo foi o... depois que mudou passou pra Ouro Preto né? Esse negócio de política eu não sei, que passou a... os padres
daqui... Aqui era Mariana né?Depois passou pra Ouro Preto. Agora, depois que passou para Ouro Preto... porque antigamente vivia
aqui a revelia, ninguém tomava nota de nada né? Ninguém marcava. Agora vai saber por que mudou né? Mas eu vou te falar bobo,
aqui no dia de festa isso aqui era bonito demais.
JP - E a senhora foi nascida aqui não é?
AJ - Nascida e criada aqui.
JP - E desde pequena a senhora participava?
AJ - É participava. Coroava, coroei muito aqui né Aparecida? Aí depois passou uns anos, eu quer ver, tem... agora eu sou evangélica.
Tem quase trinta anos, mas graças a Deus vivo alegre e satisfeita com todo mundo como a palavra de Jesus diz: “Amará o teu
próximo como a ti mesmo, Amarás uns aos outros como eu vos amei”. Ele está ensinando, a gente não pode ficar malvado com
ninguém, a gente tem que viver direto e reto em parte com ele não é meu filho? É muito bonito a pessoa saber né, porque
antigamente, ninguém sabia de nada brigava , xingava, é isto aí minha filha.
[inaudível]
AJ - Aí depois que começou a andar aqui se Ouro Preto foi Padre Martins, D. Barroso
MS - D.Veloso
AJ - D.Veloso, D. Veloso morreu em Itumbiara de Goiás né menina? D. Veloso foi até padrinho de Chiquinho, meu menino. E o
negócio é o seguinte bobo, o pessoal gostava muito quando marcava missa que o padre Barroso vinha que ele pregava muito não é?
E o D.Veloso já pregava mais pouco. Eles gostava é da pregação não é menina? É isso aí eu alembro uma vez que foi até buscar o
padre lá em Mariana uma vez né menina? Buscou não buscou? Geraldo Camello né menina? Mas os padre sofria bobo, mas sofria
mesmo. Aquela ocasião era tudo assim, o povo aqui vivia com aquela emoção, com aquela fé grande. Enchia de gente aqui, o adro
da igreja nem cabia de gente, é mesmo, é isso aí.
JI - E senhora se lembra de seus pais participarem da festa?
AJ - É meu pai, minha mãe era cozinheira do padre minha filha.
JI - Ah é, você comentou mesmo...
AJ - Pois é minha filha. O padre penava tanto nem condução pra trazer... nem tinha estrada, viajava assim pelo caminho de cavalo.
Uns animal mansinho que vinha buscar ele.
JP - E não tinha essa estrada que a gente faz agora pra ir pra Ouro Preto não é?
AJ - Ah... Sei lá... Não lembro... Fez depois que veio a companhia aqui que abriu estrada pra todo lado bobo, Alumina Minas Gerais
né? Depois passou pra Alcan, depois passou pra Novellis.
MS - O pessoal falava que passava por Lavras Novas passava.
AJ - É isso aí, era por Lavras Novas mesmo.
JP - Acho que estrada podia ser essa que passava aqui por dentro mesmo, pela Vargem... Sai lá por Mariana já...
AJ - Pra ir pra Mariana, o pessoal não tinha estrada né? Eles caminhavam para aqueles alto tudo. Não tem aqueles altos que por lá
avista o Areião? O caminho pra ir pra Mariana era lá minha filha. Vinha aqui travessava lá em cima e descia.
[inaudível]
JP - Seu pai quando morava aqui trabalhava com o que?
AJ - Ele mexia assim com lavoura...
JP - Ah é?

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AJ - Depois os filhos cresceu né? Foi procurar emprego, aí foi melhorando as coisas...
JP - Aí eles tiveram que sair daqui ou arrumaram emprego aqui mesmo?
AJ - Não, os meus irmãos, meu pai foi nascido e criado aqui, aí depois que criou os filhos todos, os filhos acostumou arrumar
emprego na companhia né? E depois... Aqui não tinha dono de terreno não né minha filha? Não tinha papel, nem documento, nem
nada não. Aí apresentou um moço aqui pra comprar o terreno, Juca Maia. Morou aqui muitos anos, aí meus irmãos empregaram na
companhia e pegou e foram embora pra Ouro Preto, os meninos foram tudo embora pra Ouro Preto meus irmãos.
JP - Eles viviam aqui?
AJ - Morava aqui... Juca Maia comprou esse terreno daqui. AÍ depois mandou cercar esse terreno aqui, a terra em volta aqui ele doou
pra Igreja, Juca Maia trocou, trocou o terreno daqui com Jarbas, Jarbas Niquini . Depois de Jarbas entrou Antonio Camello. Camello
está até hoje, ele mora em Mariana. Já passou na mão de três meu filho.
JP - É o irmão de Roque não é?
AJ - É o Irmão de Roque, Roque Camello.
MS - É muito boa pessoa não é?
AJ - É, é muito boa pessoa minha filha, quando adoece pessoa, ele dá leite pra pessoa alimentar né minha filha?
MS - Bondoso ele né?
TP - Ele vem aqui bastante na festa?
AJ - Toda festa que tem ele vem meu filho. Ele vem, o Camello né? Tem sete ou oito anos que a Dinorá morreu, ela morreu, ela
morreu eu acho era vinte e cinco de maio.
MS - É sete, eu lembro eu tava trabalhando no grupo, tem seis ou sete anos, é por aí...
TP - Ele também ajuda bastante, financeiramente na festa?
MS - Quando assim manda carta pra ele... Ele não nega ajuda não.
AJ - Quando a mulher dele tava viva...
MS - Quando a mulher dele tava viva era mais ainda.
AJ - Ela que pagava a banda. Eu amei, acho que foi na primeira festa que teve aqui, acho que você não era nascida ainda não...
Valdemiro, que criou, meu irmão, a banda veio pra aqui sexta- feira acho e foi embora domingo à noite, dois dias de banda , de
festa, sexta- feira veio né? Ficou sábado, domingo e foi embora à noite. A banda de Passagem, procurou lugar nas casas pros músico
dormir né minha filha? Muita gente minha filha é... Era muito movimentado bobo. Agora o povo ta assim, mais fraco né Aparecida?
MS - Igual eu falei, sábado de noite dá mais gente por causa da festa de rua né?
JP - Depois que começou a vir a banda de Passagem né?
AJ - Agora os músico que vinha aqui primeiro já morreu tudo, agora a banda é renovada né? Acabou tudo, tem muitos anos né? Deve
ter uns quarenta anos que começou essa festa aqui, não parou mais, Valdemiro levantou, deve ter uns quarenta anos.
MS - Não, tem mais, deve ter mais de quarenta anos... Porque eu lembro de pequenininha e eu to com 56 já...
AJ - É deve ter uns quarenta e cinco... Por aí ou mais... Depois dessa data que meu irmão levantou a festa aqui não parou mais. Aí a
Aparecida a Léia tudo ajuda demais né? Corre atrás e busca mesmo.
MS - Eu fui antes, a Léia desde 99 que ela entrou.
AJ - Você entrou primeiro, né Aparecida?
JP - Então a senhora lembra quando não tinha a festa ainda?
AJ - Ah lembro. Não tinha a festa ainda, eu sei que meu irmão Valdemiro que trabalhava na usina, operador na usina, que falou
assim: “Ô pai eu to com vontade de fazer uma festa que é que o pai acha?” Meu pai falou assim: “Ô meu filho o gosto é seu. No que
nós puder te ajudar, nós te ajuda”. Aí ele foi em Mariana, tratou o padre né? Tratou a banda, aí foi três dias de festa. O padre veio
sexta- feira, de cavalo, coitado. Já pensou?
MS - O padre era gordão, pra vir de cavalo... o padre não usava calça, era aquelas roupas.
AJ - Vinha de batina né Aparecida? Por baixo era roupa normal, por cima tinha a batina. Os padre não andava assim sem batina não
né minha filha...
MS - Hoje anda normal, antes você sabia que era padre por causa da roupa, hoje você não sabe mais quem é padre não... se você na
cidade, numa rodoviária você não sabe não.
AJ - A gente conhecia que era padre por causa da roupa, hoje, às vezes é um padre que tá vindo lá você não sabe que é padre...
JP - E o seu irmão Valdemiro é mais velho que a senhora?
AJ - Valdemiro está com 86 anos.
JP - Ah é? E ele não mora por aqui?
AJ - Mora lá na Vila Aparecida, em Ouro Preto. Lá em Ouro Preto, na Vila Aparecida que ele mora, Valdemiro. E ele deve saber muita
coisa dessa igreja, que ele é muito... Como é que chama rua que ele mora Aparecida? É... Deixa eu ver se eu lembro, menina... Acho
que é... Rua Santo Antonio do Leite. É Santo Antonio do Leite, onde é que ele mora ali Valdemiro. É ele já tem muitos anos que ele
foi embora daqui né minha filha.
JP - Mas ele não vem mais pra cá, pra festa ainda ou já não vem mais?
AJ - Agora ele está muito doente. Tem 2 anos que ele ta com negócio de câncer né Aparecida? Deu na próstata né? Tá vivo ainda,
anda a pé pra todo lado mas...
JP - Não é fácil né?
AJ - Se vocês chegarem até lá é capaz de ele dar alguma explicação melhor bobo, dessa Igreja aqui. Ele é mais velho.
JP - Pois é, vamos tentar conversar com ele então.

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TP - E a senhora estava falando... Qual parte aqui da Igreja que decora, tem alguma decoração, alguma bandeirinha, decora aquela
cruz ali?
AJ - Na festa?
TP - Isso.
MS - Aqui dentro não coloca bandeirinha não... Ah sim, aonde a procissão vai passar...Coloca arranjo por fora, aí coloca os arranjos
que a gente compra...
JP - Na época, tiram as flores artificiais...
MS - Pois é, aí coloca as flores que compra na floricultura... Difícil comprar, sempre tem alguém, esse ano parece que tem duas
pessoas já que prometeu pra Nossa Senhora...
AJ - Seu menino né?
MS - Um é Vanderlúcio. Dois anos já que Vanderlúcio dá. Ano passado foi um rapaz de Santa Rita. Esse ano é ele e acho que Nádia
também já falou comigo que vai. Aí combina, um compra uma coisa, outro outra coisa, daí troca...
AJ - Deus ajuda muito quem tem aquela fé viva não é minha filha?
JP - E a senhora morava já naquela casa que a gente passou ali perto?
AJ - Não, a casa do meu pai já não existe mais, agora é plantação de, aquele negócio, braqueara, capim né? Depois que eu casei eu
morei na casa, na terra do meu marido três anos, daí nós voltou, tem 39 anos que eu moro aqui denovo, eu morei três anos lá
naquela casa do Palmital, na casa de minha sogra. Aí ele veio trabalhar na companhia e nós viemos pra cá.
JP - Ele trabalhou na companhia?
AJ - Pois é trabalhou na companhia, agora ele está aposentado, já vai fazer 74 anos também.
JP - E o seu pai mexia com roça, com lavoura lá na casa dele né?
AJ - Ele mexia assim, ele era meio carpinteiro fazia casa pros outros né? Plantava milho,
Feijão, arroz... E aqui nesse fundo era pura plantação dele, plantava muita coisa né?
MS - Eu lembro da mãe dela, mas do seu pai eu não lembro não...
AJ - Você não conheceu mamãe não, conheceu?
MS - Sua mãe, muito.
AJ - Conheceu minha filha? Ah... Mamãe tem 27 anos que ela faleceu. Lá em Ouro Preto, na casa da minha irmã.
MS - Ela mudou, mas ela vinha pra festa.
AJ - Ela gostava de fazer as coisas pra ajudar aqui na Igreja né minha filha?
JP - E o seu pai tinha essa roça só pra sua casa mesmo?
AJ - É plantava milho, feijão, arroz, mas alguma pessoa que necessitasse vendia né? Mas era pro nosso gasto mesmo meu filho.
Morava o outro irmão dele aqui o João de Jesus, e meu pai morava ali do outro lado do ribeirão.
JP - Ah tá, e esse irmão que você tava falando, o João de Jesus que era da fazenda... AJ - É meu tio, irmão do meu pai.
JP - Ah é?
AJ - Meu pai também é José de Jesus e João de Jesus morava aqui, onde é que fez a casa paroquial a casa dele era aqui. Eu alembro
uma vez que eles vieram pra qui, Antoninho do Salto, vieram dar uns retoque na Igreja né? Antoninho irmão de seu Mota né? Tirou
as imagens todas e mandou passar clara de ovo nas imagens pra lustre né? Isso acho que você não lembra não é do seu tempo né?
MS - Eu conheci o Antoninho, mas eu não lembro dele aqui não...
AJ - Pois é, ele trabalhou aqui.
JP - E a senhora sabe... Nós conversamos com dona Aparecida já, sobre histórias a respeito da imagem, a senhora lembra que
alguma história sobre a imagem?
AJ - Muitas pessoas vem cumprir promessa não é? Pede e alcança aí vem cumpri promessa né Aparecida? Muitas pessoas vem meu
filho.
JP - Mas sobre ela, de onde ela apareceu...
AJ - Ah meu filho isso daí num... que antigamente, estou falando pra você que era tudo assim... ninguém num preocupava com
nada... Vem vem, não vem, não vem... ninguém tomava atitude, ninguém preocupava com nada... Ninguém sabe né Aparecida...
Eles falam que foi o pai de Bemvinha que deu essa imagem pra Igreja...
MS - Isso, que o pai dela, que ela era afilhada de um homem lá... aí deu para ela. Aí passou essa gente, como é que fala?
Missionário, que andava rezando, pregando, e falou que essa imagem não devia ficar em casa, devia ficar na igreja, aí ele estava
vindo pra cá.
JP - E esse seu tio João de Jesus é mais velho que o seu pai?
AJ - É, é mais velho. Bem mais velho que o meu pai. Meu pai era mais novo...
JP - Não sei se é o mesmo né? Porque a gente achou um documento falando que o João de Jesus pediu a construção da capela e que
ele tinha a imagem no poder dele, que tinha uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Achei um documento lá em Mariana, mas
eu não sei se é o seu tio, porque esse nome pelo jeito repete não é? João de Jesus...
MS - Tem seu tio, seu irmão com o mesmo nome...
AJ - Mesmo nome não é? Justamente...
JP - É, porque inclusive, a gente achou um também sobre a ponte, um abaixo- assinado pedindo pra construir a ponte sobre o rio
Gualaxo, porque o pessoal tava sem ter saída daqui. De 1894, e no abaixo-assinado tinha a assinatura do José de Jesus e do João de
Jesus.
AJ - João de Jesus, onde é que essa ponte Aparecida?

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JP - É uma ponte, disse que essa ponte tava difícil de...


AJ - Ah meu filho! É aquela ponte ali ela era um pau assim ó, pra passar. Eles pediram pra fazer essa ponte Aparecida! A ponte ali no
ribeirão ali... É foi mesmo...
[inaudível]
AJ - É ele achou, é verdade meu filho.
JP - Eles estavam falando que estava difícil pro pessoal do Salto chegar para ver o Baú, Cintra, Vargem... Porque estava com a ponte
quebrada...
AJ - É a ponte ali... Tinha umas, o povo bebia caía lá em baixo da ponte abaixo, dentro d´água. Quando tinha festa meu filho.
JP - A festa de Nossa senhora os Remédios?
AJ - É justamente meu filho. Tinha uma cara que vinha lá pela Vargem ali, aquela Vargem ali tinha um cara que chamava Crispim, ele
batia um boteco ali meu filho, que ficava fervendo de gente, tinha o pessoal passava ali na ponte, bebia ali e quando ia passar na
ponte caia dentro d´água... É meu filho... Tinha muita plantação aqui... Laranja, mexerica, muita fruta né Aparecida? Foi acabando o
verde foi acabando tudo... Mas aquela ponte ali... Ele achou escrito Aparecida... É João de Jesus e José de Jesus, meu pai e meu tio.
Né meu filho? É isso aí...
JP - Tem outros moradores que assinou... É um abaixo- assinado pedindo pra prefeitura fazer...
AJ - A ponte.
JP - É porque a ponte estava estragada, não estavam conseguindo... O pessoal do Salto chegar aqui... no Fundão, no Baú , na
Vargem... Do Cardoso, o pessoal não conseguia chegar...
MS - Cardoso, pro lado de Santa Rita né?
JP - Então aqui... Você estava falando que em época de festa enfeitava o adro, tinha o bar ali... O que mais que movimentava o lugar
assim na época?
AJ - O pessoal vinha com, punha assim uns boteco né? Era muita gente, pra sustentar os pessoal que vinha pra festa... Tinha aqui
Aparecida, uma vez eu contei, tinha 5 boteco. É 5 boteco. Depois foi acabando né? Depois só Toninho que punha boteco... Não põe
mais não...
MS - Colocava pro lado do Baú ali, aqui embaixo, colocava ali também, onde descia que era diferente, tinha casa do outro lado de
Geraldo Sabiá né?
AJ - Tinha só aqui no fundo tinha 6 casas né boba? Tinha Valdemiro, Pedro, Antonio Sabiá, de Zé, Agostinho, e a casa de meu pai e
de meu tio que morava aqui né?
MS - Lá tinha o pessoal que morava da usina também.
AJ - Veio o pessoal morar que veio trabalhar aqui pra construir a usina né? Tinha muito barraco ali, mas foi um pessoal passageiro,
eles eram de São João Del Rei.
JP - Eles só vieram, construíram, e depois foram embora né?
AJ - É, foram embora
MS - Os trabalhadores levavam a família também morava né?
AJ - É justamente, é isso aí Aparecida
JI - É então o pessoal do boteco, como a senhora falava também preparava um alimento né?
AJ - É, justamente, é minha filha, tinha a comida, o café. Às vezes dava, às vezes vendia... Justamente minha filha é... Hoje não
aparece mais, quem vendia aí não... Mas era um tempo muito alegre quando tinha festa... Nossa Senhora... Juntava gente demais,
nossa, Deus...
JP - E esse monte de gente vinha de onde, vinha do Baú, vinha gente da Vargem...
AJ - Vinha do Salto, Lavras Novas, é Palmital, é lá pro lado da Serra do Cardoso, Cláudio...
MS - Vinha gente de Cardoso...
AJ - Pois é, quanta gente não vinha pra casar aqui... Na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios?
JP - Vinha gente de onde, lá de Mariana mesmo?
AJ - Vinha os homens a cavalo e as mulher tudo à pé (risos).
JP - Porque elas não andavam a cavalo não?
AJ - Difícil né meu filho? Muito difícil...
JP - A senhora não anda de cavalo não?
MS - Não, meu marido é que anda a cavalo...
TP - Então Nossa Senhora dos Remédios tem muitos devotos longe?
AJ - É meu filho, longe demais, nossa, Deus... E a gente fazia promessa de varrer a Igreja, de juntar os ciscos assim no colo... Você
alembra? Promessa...
JP - Ah é? Essa de juntar os ciscos no colo eu não sabia ainda não.
AJ - Não meu filho? Ô Aparecida você alembra? Eu lembrei, a mulher fez promessa se Nossa Senhora curasse ela, de varrer a Igreja e
juntar os ciscos no colo, coitada, a mulher... Ela morreu com 105 anos, a mãe de Filinto? Como é que ela chamava? Oh meu Deus do
céu... Como ela chamava? Ela morreu com 105 anos...
MS - É Lorinda
AJ - É Lorinda, aí o filho dela deu uma doença muito grave né? Aí ela rogou com Nossa Senhora que curasse ele, e ele foi curando,
daí ela veio e varreu a Igreja no mês de Maria menino, varreu a Igreja e juntou os ciscos no colo, promessa né? Juntou os ciscos na
porta da Igreja ali ó, e jogou os ciscos pra lá. Varreu toda a Igreja aqui coitada.

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JP - Então tem várias formas de pagar promessa aqui né?


A, MS - Tem.
MS - Andar descalço na procissão.
AJ - Andar descalço na procissão.
MS - Andar descalço na procissão com vela acesa é o que mais vê...
JP - É, essa eu já ouvi.
AJ - Pois é meu filho.
JI - Hoje em dia a senhora acha que vem menos gente na festa?
AJ - Menos gente... E a dona do... A cunhada do Antonio Camello, a Naná, ela tinha colete, pra segurar a coluna, então meu filho, ela
fez promessa de dar uma quantidade de pano pra Igreja, pra fazer anjo, pra fazer coisas pras menina coroar né? E fez promessa...
Tá alí, ta ali ó... [mostrando o colete cervical que está entre os ex-votos na capela] É isso aí, aí ela fez promessa pra Nossa Senhora,
que se ela fosse curada que ela ia trazer o aparelho que ela usava pra ela por na Igreja, e ela foi curada, ela mora em Belo Horizonte
hoje, Naná, cunhada de Antonio Camello, pode perguntar pra ele que ele vai saber melhor ainda de que eu...
MS - Ela agora está com a coluna perfeita, pra dormir ela sofria...
AJ - Sofria, usava colete, coitada... Ela tirou, deixou aí, porque ela curou né? É bobo...
JP - Ela vinha nessa época na procissão, desde a época, que usava o colete...
AJ - Justamente, né meu filho, na festa, ela veio aqui pedir...
MS - Desde a época, que usava o colete.
AJ - Já voltou sem o colete...
JP - Ela vinha de B.H prá cá?
AJ - Ela morava em Mariana, aí depois que a irmã dela morreu, a esposa de Antonio Camello, a dona Dinorá, ela mudou pra Belo
Horizonte, porque ela tem uma menina deficiente né? Aí ela mudou prá lá.
JP - Ela é irmã da mulher do Antonio Camello?
AJ - É, dona Dinorá, é.
JP - Ela mora com a filha dela agora?
AJ - É, ela mora em Belo Horizonte com a menina dela, ela é deficiente, coitada.
JP - A senhora se lembra de alguma reforma que foi feita aqui na Igreja?
AJ - Ah bobo, tem muitos anos, muito tempo que Léia está pedindo, coitada, está pingando aqui dentro. Léia falou assim: “Estou
cansada de pedir, mas não alcancei ainda”. Pode ser que de agora em diante pode alcançar alguém pra tirar as pingueiras e retocar
aqui, olha vê como está descendo lá...
JP - É por isso que está sujando...
AJ - É, sujando meu filho... Limpa muito, mas... Tempo de sol tudo bem, só tem teia de aranha, poeira, pois é bobo...
MS - É uma chuvinha que dá cai tudo. Olha como está lá em cima, lá. A santa ficava lá em cima, mas agora ta com medo de cair em
cima na cabeça dela.
JP - É, ela está tombando já...
MS - Fica com medo de cair, aquela lâmpada ali já não acende mais. Aí a gente deixa ela aqui em baixo.
JP - Quem se preocupou em colocar os documentos no quadro?
MS - Dona Dinorá, a esposa do Camello. Tava estragando tudo, aí um dia ela pediu, levou para Mariana.
AJ - Tava o papel assim, muito antigo né? Dona Dinorá que colocou, ela e Naná.
JP - E tinha mais documentos sobre a capela de onde tirou esses aí?
MS - Não, acho que só esses aí, de quando se tornou agregada.
AJ - Que eu conheço dessa igreja esses quadros que está aí.
MS - Aí, ela levou lá e ficou assim.
JP - Devia ter mais papéis né? Junto com esses...
AJ - É, meu filho devia ter mais né?
MS - Livro de conferência mais antigo. Deve ter mais no livro de conferência no Baú.
AJ - É Aparecida, ta lá no Baú.
MS - As fotos que não revelou que o padre pediu pra deixar aqui. Pra fazer catecismo...
AJ - Aparecida, quem sabe na diocese de Mariana o ano que fundou aqui?
JP - É isso que estou procurando.
AJ - Pertencia lá, depois que passou pra Ouro Preto.
MS - Tinha padre Armando, minha mãe contava dele...
AJ - Tinha o padre Armando né minha filha? Ele ainda falava assim, ele cantava violão né, viola, violão (canta) “Chove, chove chuva
fina lá pro lado aonde eu vim, pra tampar o meu rastro pra ninguém saber de mim” (risos). Padre Messias, um morenão alto né
minha filha? Messias, de Mariana, minha filha.
MS - Padre Messias... era de Mariana.
AJ - Ele só veio aqui uma vez, ele adoeceu, foi embora pra longe, nunca mais voltou aqui... Eu alembro mais aqui é Dom... Dom
Veloso, padre Barroso... Que eles comia lá em casa né? Zé Martins, Dom Oscar...
MS - Padre Armando né?
AJ - Padre Amando é o primeiro que andava... De Palmital também ele vinha né?

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JP - Mas a conferência vocês levavam documento sobre a Igreja?


MS - Não. Não é documento não, sempre que tem conferência, tem que fazer a ata né? Anotar no caderno, fazer chamada com os
nomes das pessoas.
JP - Ah e a senhora é quem cuida lá?
MS - É
JP - E a gente podia dar uma olhada lá?
MS - Pode, pode ver.
JP - De repente tem alguma coisa falando da Nossa Senhora dos Remédios, alguma ata mais antiga né...
MS - É... Escrevia com aquela pena assim... Que fazia, escrevia a tinta.
AJ - É aquela pena né Aparecida?
JP - Então foi recolhido para lá pra ir pra lá... Fica lá no Baú.
MS - Tem uns cadernos lá. Fica lá no Baú...
JP - Tem uma parte que eu procurei lá na arquidiocese, mas teve ter ficado local, nas próprias paróquias, administração da própria
Igreja mesmo...
MS - Que tem os cadernos de atas. Que a conferência antes era... que a primeira igreja da conferência nessa região daqui, é essa
daqui. Ela é de 26, 24 de julho de1926, 24, 24, agregada em 26.
AJ - Ô Aparecida, antes de passar a paróquia pra, não como é que fala, passou não... Meu Deus do céu...
MS - Passou pra distrito de Ouro Preto?
AJ - É. O padre de Santa Rita vinha muito aqui.
MS - Padre Jésus já veio aqui também? Já foi prefeito de Itabirito. [inaudível]
JP - Mas não tem tanto tempo não né? Tem uns 15 anos...
AJ - Ele vinha muito aqui no Salto fazer festa. É padre Antonio Jésus o nome dele né?
JP - Eu estive lá conversando sobre a festa de Santa Rita, aí eu conheci ele.
TP - Como faz pra divulgar a festa? Vocês fazem uma programação, algum folheto?
AJ - O bobo, a Léia, o marida da Léia é encarregado, eles correm muito atrás, mas vai atrás mesmo! É Cooperouro, é prefeitura, é
companhia, tanto que no dia da festa ela agradece aqui.
MS - Na hora ela agradece aqui.
AJ - É meu filho, ela vai atrás mesmo. Muita coisa a gente esquece, mas eu estou lembrando de tudo!
MS - Faz uns folhetos com o programan, né? Distribui.
TP - E sobre os mantimentos...
AJ - Pede e ganha, recebe.
AJ - Distribui os mantimentos, que ganha. Ela corre atrás mesmo!
JP - Ela tava falando que a comida era pra ser pros músicos, mas no final das contas vai pra todo mundo. Todo mundo come.
AJ - É isso mesmo. O que sobra ela dá pros outros né Aparecida?
MS - Comer em casa, mas na hora todo mundo come, que a gente já pediu as coisas pra gente daqui...
AJ - Todo mundo come e bebe né Aparecida?
JP - Na festa que vem nos vamos estar aqui, se Deus quiser.
AJ - Ela falou que já vai tratar em Ouro Preto...
MS - É, ela falou que já vai começar mesmo...
AJ - É, é que hoje já é nove de junho né? Agorinha mesmo termina o mês né? Agosto ta aí né?
JP - É só esperar a festa de Santo Antonio né? Pra num...
MS - Isso. Espera passar primeiro.
JI - Na sua casa...
AJ - Na minha casa fica cheio menina, mais que se tivesse aqui na igreja... A casa fica assim de gente! Todo mundo come, bebe e
dorme. Os meninos falam assim: “Mamãe é pequenininha, mas não pode troca mamãe por uma grande não, mamãe sabe agradar
todo mundo”.
JP - A senhora não atravessa a rua, mas a festa vai lá pra sua casa[inaudível]
AJ - Ah vai! Come, bebe e dorme, aí quando o pessoal vai embora a casa fica vazia...
JP - São quantos filhos?
AJ - Nove, 6 homens e 3 mulher.
JP - E na festa vem todo mundo prá cá...
AJ - Vem os solteiros com as namoradas, os casados, vem pra cá com os netos, com tudo né? Fica tudo lá em casa, graças a Deus.
JP - Então a festa apesar de estar assim ainda é um momento que junta a família não é? Isso acontece em outras casas aqui
também, né? A festa é um momento de reunir a família
AJ - Justamente, meu filho. É, isso aí. Vem os amigos que tá longe, a gente fica conhecendo, bate um papo, conhecendo os amigos
que está longe, comemora com eles ali não é meu filho?
MS - Vem a filha, vem bisneto. Aquela que estava aqui vem, sábado e domingo não vai trabalha né . Agora [inaudível] trabalha de
horário, nem sempre dá para ela vir não, mas aí ela vem.
TP - Mas a festa não se estende até muito tarde né? Acaba 10, 11 da noite né?
AJ - É isso aí minha filha.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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JP - A festa acaba no domingo...


AJ - A festa acaba no domingo. Sete horas que termina.
MS - Mas ainda fica a semana assim fazendo as contas, entregando alguma coisa que pegou emprestado assim, pagando as contas.
JP - É, porque a dona Edir mesmo que me falou que antigamente a última missa era na segunda de manhã né?
AJ - Isto, antes era, agora é domingo.
JP - Acabava na segunda de manhã, depois da missa oito horas.
MS - Depois da procissão.
AJ - Depois do almoço o padre ia embora a cavalo pra Mariana. Depois ele passou a vir de carro e tudo e melhorou muito. De Santa
Rita, Ouro Preto...
AJ - Depois melhorou muito, que aí vinha de carro, e tudo, né? Aí eles vinha pra ficar não né? Vinha e voltava.
MS - Agora já vem e volta. Num dorme não.
JP - Mas parece que vocês arrumaram essa casa [referindo-se à casa paroquial construída pela comunidade], para ele ficar também
né?
MS - A casa né? Se quiser ficar.
AJ - É porque cozinhava bobo, na festa, pros musico e tudo né? Lá na frente, era longe, e a Léia, muito inteligente né? Pediu pra
fazer aqui, a casa paroquial né? Aí o pessoal come e bebe aqui nessa casa paroquial.
JP - Bem melhor né?
AJ - Mais perto da Igreja né meu filho? É certo... É isso aí...
MS - [inaudível] bucado de gente né? Aí, agora aqui fica mais à vontade.
JP - Então dona... É Alaísa né?
AJ - Alaísa
JP - Seu nome é Alaísa...
AJ - Alaísa de Jesus Ferreira. Meu pai é José de Jesus e meu marido é Ferreira. Nelson Estanislau Ferreira aí tem que puxar o marido
né? Nelson Estanislau Ferreira.
JP - E ele participava ou participa da festa ainda?
AJ - Ah ele não é muito assim participador, nada né Aparecida?
MS - Não se envolve não...
AJ - Ele não é católico nem é crente, porque quem écatólico tem que confessar, comungar e ele não faz nada disso. Ele é um bom
senhor, ele é responsável, é trabalhador, é muito honesto né? Mas não é católico nem evangélico. Ele não confessa, tem que
confessar... Todos nós temos que ter uma religião né meu filho? Ele não vai à missa, não confessa né?
JP - É... Está bem... Mas é um marido bom?
AJ - Graças a Deus é.
JP - É isso que importa né?
AJ - (risos) É isso aí meu filho...
JP - Olhe dona Alaísa, muitíssimo obrigado viu? Agora gostaria de ver o contato do seu irmão...
AJ - Valdemiro, né meu filho. Ele fez a primeira, pergunte pra ele lá... Fala com ele lá: “nós teve na casa de sua irmã Alaísa ela falou
que a primeira festa lá na capela do Fundão, na capela de Nossa Senhora dos Remédios foi criada por você. Ela queria saber o
endereço de lá dos antigos...”.
JP - Muito bom falar com você...
AJ - Você me perdoa que a gente é grosseiro, não tem leitura, não tem nada pra falar... A gente
fala aquilo que Deus põe na língua da gente né? Mas a gente não tem aquela... Aquela educação, né Aparecida...
JP - Que isso... Foi ótimo... Muito bem, muito obrigado mesmo.
AJ - Obrigada você meu filho.

Transcrição: Júlia Indira Peixoto


Revisão: João Paulo Martins e Tadeu Pamplona Pagnossa

Entrevista com a senhora Edir Bernardo de Souza Neto, moradora do distrito de Santo Antônio do Salto, sobre a festa de Nossa
Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: João Paulo Martins e Sidnéa Francisca dos Santos
Realizada no dia 11/02/2009

ES - É, agora a festa agora está mais, antigamente era mais, o pessoal tinha mais influência assim né? Mais, mais religião que eu
falo, mais católico.
SS - Ah tá.
ES - Mas era só mais o pessoal do Baú e do Fundão, e aqui do Salto era bem mais pouca gente. Agora nós vamos mais daqui do que
do Baú. Mas a festa era três dias seguidos, agora é mais pouco, é dois dias. Antigamente a gente começava no sábado e terminava
só segunda-feira de manhã, tinha missa 8 horas, que terminava. Mas tinha coroação... era a mesma coisa... eu comecei a coroar com

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

2 anos de idade.
SS - Dois anos? A senhora já vestia de anjinho?
ES - É. Eu tinha foto coroando aqui, mas de modo assim, que mudou muito. Assim, o pessoal tem fé, muita fé em Nossa Senhora dos
Remédios, faz muita promessa, vem gente de fora.
SS - A senhora acha que hoje vem mais...
ES - É, morador do lugar também quase, não tem quase mais, só uma né? Mas tinha mais gente. Em volta da igreja tinha muita casa.
SS - Tinha casas em volta da igreja?
ES - Tinha, onde que é aquela casa do salão lá.
SS - Salão paroquial.
ES - Ali mesmo morou uma família.
SS - Ah, é mesmo?
ES - Morava, morava. Muita gente morou ali.
SS - Na subida do Baú tem uma casa também.
ES - Tem. Ali, aquela fazenda já passou em mãos de muitos, muitos donos, agora está com o Camêllo, Antônio Camêllo.
SS - E sempre foi essa procissão...
ES - Procissão...
SS - Alvorada?
ES - A banda, né? Que vinha
(Adentra a sala o seu Vicente, marido de dona Edir).
SS - Tudo bom?
ES - (inaudível) Bom Jesus das Flores, São Sebastião, né? Geralmente era as mesmas que vinha. Só agora que tem uma banda de
Santa Rita, que chama ela também, né?
SS - É a banda que, é, foi revitalizada, né? A Sociedade Musical Santarritense, agora eles que vêm para a festa?
ES - Eles vêm também, convida eles também. Vêm à festa...
SS - E vem de Mariana também? Ano passado tinha uma banda de Mariana, né?
ES - Vem a São Sebastião de Passagem de Mariana.
SS - Ah.
ES - Mas assim a... as missas tudo, agora é mais pouca missa, que os padres estão correndo, né? Mas antigamente vinha padre de
Mariana.
SS - Tinha missa todo mês?
ES - Todo o ano tinha. A reza do mês de maio também tem, ainda tem ainda. Tinha coroação todo dia, que tinha muito menino no
Baú, né? Que coroava, agora é pouco. É só fim de semana que tem...
SS - Que tem os anjinhos.
ES - Os anjinhos. Mas era bom demais, eu cresci assim, eu lembro: fazia roupa nova, aquilo quando tinha festa, comprava aquilo...
SS - Comprava o tecido pra fazer a roupa para a festa.
ES - Fazia para os três dias... era o lugar que a gente tinha!
JP - E a senhora morava lá mais perto?
ES - Morava no Baú, mais perto. É, depois que eu casei que eu vim pra cá. Ele é daqui (se referindo ao marido em frente).
SS - Ele que foi lá e tirou a senhora do Baú (risos).
ES - Só que eu moro aqui, direto aqui nessa casa tem vinte e cinco anos, né? Mas eu morei lá perto, lado de Santa Rita, naquela
barragem lá, ele trabalhava lá na Alcan.
SS - Ah, a senhora morou lá em cima, então.
ES - Isso, morei. Mas mesmo assim, eu nunca larguei lá no Fundão não. Sempre eu vinha, de fora, e nós que ia lá arrumar tudo,
vestir a santa...
SS - Ainda é até hoje, né?
ES - Eu faço até hoje as roupas dela, eu faço até hoje. Às vezes o pessoal paga promessa, né? Dá pano, e eu faço a roupa...
SS - E a senhora que serve que... costura a roupa?
ES - Costuma ter roupa pra vestir os três dias na festa.
SS - Ah, ela muda de roupa até durante a festa, né? Num dia ela veste mais de uma roupa.
ES - Veste porque é mais gente que dá, né? Pra vestir aquele dia. Até remédio muita gente traz pra pôr. Flor, eles dão flor, quando
está coroando, muita flor de plástico, né? Muita promessa que faz, e eles alcançam a graça, né? Agora no mês de agosto apareceu
até um remédio lá, comprimido, que está lá debaixo dela ainda, que um homem trouxe, que alcançou graça, câncer, sabe?
JP - Dá como um ex-voto, né?
ES - É. Os bilhetinhos que eles deixam debaixo dela também quando vai visitar o Fundão. Mesmo com a igreja caindo, suja igual tá,
vem muita gente visitar lá. Deixa assim uns bilhetinhos lá, pedindo graça, alcançar alguma graça, que alcançou.
SS - E a senhora sabe como é que essa santa chegou aqui?
ES - Ah não, assim como ela chegou aqui, toda a vida eu conheço ela assim. Agora lá no Baú, alguns mais velhos devem saber o
modo, de onde que ela veio...
SS - Quem trouxe...
ES - Quem trouxe, né?

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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SS - E já existiu uma irmandade? Assim, vocês já formaram uma irmandade de Nossa Senhora dos Remédios?
ES - Não. Sempre lá assim, os mais velhos que mudou, igual essa dona irmã de Mário que morava lá né? Que ela mudou... ela
faleceu. Ela que vestia a santa, até que marido dela tinha muito ciúme, podia nem pegar na santa não.
SS - Ah, é?
ES - É. Aí minha irmã começou a vestir e ele deixou.
SS - Mas ele ajudava vestir a santa?
ES - A mulher ajudava...
SS - Ele não...
ES - Ele não, mas ele tomava conta da igreja. Ele deixava a chave na confiança de nós para abrir, pra arrumar tudo, né? Quando ele
mudou, minha irmã passou... mesmo com ele aí, estava mais doente, minha irmã começou a mexer. Agora só eu, Aparecida minha
irmã e Léia. Porque minha que veste, mesmo com nós mexendo, ela que veste, mas se acaso ela não puder vir, aí...
SS - A senhora é a segunda responsável, né?
ES - É. Graças a Deus...
SS - Eu lembro que no ano passado a gente veio foi no dia que vocês estavam vestindo ela.
ES - É. Com Sandra?
SS - Foi. Aí tira o menino Jesus...
ES - Tira, troca a roupinha dele... Saiu até no jornal o retrato de Sandra.
SS - Foi, foi. E a senhora sente saudades, assim, de como era a festa antes, assim, e de como está agora?
ES - Ah, eu sinto saudades de antes...
SS - É...
ES - Eu lembro de tudo. Tem até um retratinho meu de quando eu estava corando, que está aqui, depois vou te mostrar. Eu com 2
anos, preto e branco, né? Num dá muito...
SS - Num tinha colorido ainda, né?
ES - Tirava preto e branco.
SS - A sua irmã também vestia de anjo?
ES - Vestia. Aí está eu, minha irmã e minha prima coroando. Eu comecei a coroar foi com 2 anos de idade também. Antigamente
batizava era com camisola, não era com esse macacão, com essa roupinha não. Aí da minha irmã era grande, né? Eu vestia a dela e
ia coroar, que era grande... Mas mês de maio, mês inteirinho muita gente na reza, aí vestia.
SS - Agora tem missa só de vez em quando?
ES - Agora é quase uma vez no ano só, ou então duas vezes tem missa lá. E a reza de mês de maio colocou só no final de semana,
porque desce e arruma um pessoal daqui para coroar os meninos.
JP - Aí são vocês mesmos que fazem?
ES - A reza é, o terço, o negócio tudo.
SS - E no dia da festa tem procissão...
ES - Aí tem procissão, vai muita gente daqui, né? Tem procissão, a bandeira sai da casa da mãe de Dinda, passa até (inaudível).
SS - Aí esse ano sai da casa de outra pessoa?
ES - Esse ano deve sair da casa de outra pessoa, porque os vizinhos lá reclamam que sai da casa de Dinda, morreu uma mulher e
mudou, né? Não deu para sair mais.
SS - E lá do Baú já saiu da casa de alguém de lá, já?
ES - Lá de cima do Baú não. A única coisa que levamos pro Baú foi a Conferência que tem né? Todo domingo.
SS - Aí, é lá?
ES - É. Que a primeira Conferência aqui no povo de Nossa Senhora dos Remédios é de lá, no Fundão. Aí a Conferência nós levamos
lá pra cima, no Baú que é mais gente, né? Quase todo domingo tem atividade lá em cima. Mas antigamente a festa lá era muito boa,
menina! Era muita animação.
SS - E a gente vê que... ano passado que eu estava aqui, vi um monte de gente de Ouro Preto, é gente que já morou aqui?
ES - É ué. Os que vêm de fóra que já morou, né? Tudo...
SS - Volta né?
ES - Volta, manda esmola. O que ajuda nós mais na festa é isso ué! Os de fora que vem, que ajuda a pagar a banda.
JP - A senhora já trabalhou também na... fazendo a peruca, a cabeleira, né?
ES - É minha irmã que faz.
JP - Ah, é sua irmã que faz.
SS - E seu cabelo está lá também?
ES - Meu já tem. Muitas vezes pus cabelo meu, das minhas filhas já tem cabelo lá, daquela Sandra.
SS - Sandra, ela doou também.
ES - Ano passado ela doou... Aí é só pôr, né? Aí faz a peruca, né? Vocês foram lá hoje, não?
SS - Fomos... Estava falando que o João Paulo...
ES - Está caindo né? Está ruim.
SS - A gente até fotografou de novo pra mostrar lá pro pessoal do Monumenta, do patrimônio, porque...
ES - Num pode deixar não
SS - Num pode, é. De agosto até hoje já era pra ter...

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

ES - Tem muito tempo, né?


SS - ...caminhado alguma coisa.
ES - Ah, já era pra ter caminhado, num caminhou nada. E você vê que está em tempo da igreja cair, né? Vamos pegar os santos e
pôr na casa, né?
SS - É, a Léia falou isso também. Porque está, está realmente está triste por lá. Caiu mais um pedaço da parede de fóra, né? E tem
muita goteira...
ES - Tem, mesmo em cima da santa, ela nem está no canto dela mais, já está no meio da igreja.
SS - É o trono dela está bem comprometido.
JP - Está, e tem vazamento d’água, né?
SS - E o problema do cupim também, porque se o cupim pega a imagem também fica...
ES - É, que ela meio corpo é de madeira, né?
SS - Ela é. A gente fala que é de roca, né? Que é aquela armação.
ES - A armação e...
SS - Só a parte de cima que é de madeira.
ES - Eu estou acostumada com ela, mas aí quando a santa fica a festa dela assim, a gente vê o rosto dela mais estranho, aí minha
mãe manda falar: “ih, ela num quer festa não”, fala assim.
SS - Tem dia que ela está brava? Tem dia que ela está de cara mais triste?
ES - Ela fica mais alegre.
JP - E quando tem a festa ela fica mais alegre?
ES - Fica. Mais movimento, né? Gente...
SS - É.
JP - E pra senhora o quê que é diferente a Nossa Senhora dos Remédios? Das outras Nossas Senhoras?
ES - Não, eu sou. Assim, eu sou católica, tem fé em todo santo, mas Nossa Senhora dos Remédios é mais, né? Em desde pequena.
Porque né? Tudo que você conversar é Nossa Senhora dos Remédios...
SS - Pede ajuda, né?
ES - É. Me ajuda.
JP - Conta pra gente alguma história que ela atendeu a senhora.
ES - Nossa Senhora dos Remédios?
JP - É.
SS - Se tiver alguma que a senhora acha que pode contar.
JP - Que a senhora quiser contar.
ES - Alguma graça assim?
JP - É.
ES - Ah, muita coisa, ano passado mesmo eu consegui uma. O carro daqui estava na oficina e num achava a peça, eu pedia ela,
achou. Conseguiu achar a peça, pôs no carro, achou a peça pra pôr. Assim, quando está armando muita chuva também, em ocasião
de festa, pro pessoal também, pelo menos num acontecer barro, essas coisas...
SS - Então não é só questão de saúde...
ES - Não é só questão de saúde não...
SS - É tudo...
ES - É tudo.
(Seu Vicente): Tudo que for difícil.
ES - Tudo que for difícil...
SS - Tudo que for difícil, ela...
ES - Pede para Nossa Senhora dos Remédios dar, que vai dar certo.
SS - Ela tem um remedinho pra, pra ajudar. O senhor também é devoto dela, não é seu Vicente?
(Seu Vicente): Sou, sou sim.
ES - Esse daqui é de Santo Antônio e Nossa Senhora dos Remédios, porque ele é daqui...
(Seu Vicente): É o padroeiro também, né?
ES - É o padroeiro do Salto.
SS - O senhor também é da comissão da festa?
(Seu Vicente): Festa de Nossa Senhora dos Remédios?
ES - Não. Ele ajuda muito nós muito, porque, é, assim tem pouco homem. É o marido de Léia, o marido de Aparecida e ele que ajuda
nós, né?
SS - É que a gente notou assim que especificamente com ela, mais são vocês mulheres que tomam a frente das coisas.
ES - É porque... Porque, por exemplo, está lá assim igual está lá, né? Não está jogada não, mas se avisar que vai ter uma missa lá, a
gente vai uma semana antes arrumar. Ia ter um casamento lá, mês de... casou foi em janeiro...
SS - Léia falou que teve um casamento em janeiro, né?
ES - A gente foi durante a semana arrumar, arruma um jeito de roçar em volta tudo. Na semana da festa bota uns bancos, tudo.
SS - O salão também comunitário, né?
JP - Léia contou que a casa, o marido dela, de vez em quando, ela chama ele lá: “troca uma madeira aqui...”.

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ES - Ele troca madeira, é cano, é água vazando, é tudo. Fica nervosa, xinga, é...
SS - (risos).
ES - Mas ajuda muito, os maridos ajudo muito nós lá também.
SS - E tem mais alguma coisa que a senhora lembra, assim? A Léia falou pra gente que tem uma história que parece que a imagem
foi jogada de um avião...
ES - Isso daí o pessoal conta, pra lá no Palmital. Mas tem minha irmã e uma mulher que morava lá no Fundão também contava
muito, né? Que o avião jogou lá, numa igreja na Vargem, na fazenda, né? Que aí na fazenda, com faz o tempo, arrumou uma capela.
Você sabe que capela do Fundão é capela de fazenda, né?
(Seu Vicente): Aquela imagem é negócio de, como é que é? Manoel da Nóbrega, não?
ES - Não, isso aí é na Vargem, do outro lado, né?
(Seu Vicente): Na Vargem. Não, mas a Vargem...
ES - Agora, cá do Fundão é uma mulher lá do Palmital, que doou, doou não... aquela imagem que agora...
SS - Então, jogaram lá no Palmital.
ES - É, assim eles falam. Mas agora, a mulher que vestia essa santa e já faleceu, ela contava muitas histórias, né? Tem uma mulher
lá, irmã dela, que mora no Fundão lá ainda, eu até comentei com Indira, pra entrevistar duas lá do Baú: minha irmã, minha tia, uma
tal de Ana, que é mais idosa lá, né? Que sabe contar mais sobre a festa. E essa mulher do Fundão, tem que ver com ela lá, pode
contar se lá..., que mora atrás da igreja, que essa daí que ficava com a roupa nossa de coroar, a gente ia no primeiro de maio e
levava a roupa pra casa da Cristina, e deixava a roupa na casa dela, todo dia ela arrumava a roupa, lavava e passava, a gente
coroava com a roupa limpinha.
SS - Olha que sorte.
ES - A roupa da gente ficava na casa dela.
JP - Ficava mais perto de lá...
ES - E agora ela já está em outra religião, lá ainda, mas ela não fala mal da santa, nem nada não.
SS - Ela mudou de religião?
ES - Mudou.
SS - Virou evangélica? Tem muito...
ES - Lá no Baú mesmo, muita gente mudou, né?
SS - Mas tem igreja evangélica no Baú?
ES - A que era a escola, uai? Assembléia de Deus, né? Está lá. Mas eu não falo mais... se for lá pra entrevistar ela, ela conta tudo
direitinho...
(Seu Vicente): Tem que entrevistar gente mais velha no Baú.
ES - É, uai, igual eu falei, é minha tia...
SS - Qual que é o nome? Sua tia é a dona Madalena e a ...
ES - É Ana, Madalena, Anara...
SS - Anara?
ES - É. E tem vizinho também lá e deve lembrar da festa, né? Guiomar, elas tudo caçava confusão com festa, que elas namoravam
muito nessa festa, arrumava namorado demais e nem ficava na festa. E tem essa Alaíde.
SS - Alaíde.
ES - E mais um montão, que chegava dia de festa pra gente ir, a reza do mês de maio. O pai deixava a gente sair só ocasião de reza,
uai?
SS - Tinha que aproveitar, né?
ES - Tinha que aproveitar.
SS - Aproveitar a quermesse e a festa pra namorar.
ES - Minha madrinha mesmo que me batizou morava lá mesmo no Fundão. Num tem uma entrada assim num córrego, uma entrada
assim, numa área assim, num é cercado, mas é uma área limpa, né? Minha madrinha de batismo morava ali.

(Interrupção)

ES - No ano passado nós tivemos muita dificuldade, porque a Novelis falou que não podia ajudar, que já tinha ajudado na
gastronomia, né?
SS - No Festival. (Referindo-se ao Festival de Gastronomia de Santo Antônio do Salto).
ES - Depois no dia que veio na festa, veio um homem, como é que chama?
SS - Caio.
ES - É Caio. Eu conversei com o Caio ao menos um pouquinho, pra ver se tem jeito de ajudar, né? Aí ele ajudou.
SS - Ah, que bom.
ES - É. Pouco, mas ajudou. Porque muita coisa pra ajudar, aí não dá pra tudo, né?
SS - Não, é complicado, e com essa história da crise, fica meio difícil.
ES - Essa crise agora, né? Que aquela casa lá, ajudou bem com patrocínio da Novelis. A gente fez bastante naquela casa, uai.
SS - A casa que vocês construíram, né?
ES - É. Pediu ajuda a comunidade também né? Até lá pra casa paroquial nós pedimos ajuda...

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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SS - Em alguma outra festa vocês saem para pedir ajuda, tipo, na festa de Santo Antônio vocês pedem ajuda pra festa de Nossa
Senhora dos Remédios?
ES - Aqui não. Isso aí nós esperamos passar a festa de Santo Antônio pra eu começar a de Nossa Senhora dos Remédios, porque
lugar pequeno não tem como.
SS - Mas, por exemplo, vocês vão em alguma outra festa, vocês não...
ES - Lavras Novas, Santa Rita...
SS - Aí vocês vão e pedem ajuda pra...
(Dona Edir mostra uma foto antiga que a neta lhe trouxe)
ES - Aqui olha, eu estou pequenininha corando nela aqui, minha prima e minha irmã. Preto e branco o retrato, antigamente a gente
não tinha colorido nada, né.
(Seu Vicente): Essa igreja é antiga, quantos anos você tinha?
ES - Eu estou com 52, eu estou com 2 anos, tem 50 anos quase.
SS - Coroou, é...
ES - Eu acho que aquela capela é mais velha que a do Salto aqui.
SS - Essa capela ela deve ser... de fato, ela é anterior à capela antiga de Santo Antônio.
(Seu Vicente): Essa capela é muito mais antiga que você. Ela tem 52 anos, você que a foto...
SS - Pode tirar foto?
ES - Pode tirar.
(Seu Vicente): Ela coroou lá, uai! Ela tem mais de 50 anos!

(Interrupção)

JP - E quem vai, a senhora falou que o pessoal vai às outras festas pedindo dinheiro pra colaborar com a festa?
ES - Tem uma menina que ajuda nós, que a Dorinha, ela ajuda em Santa Rita, e pede, né Vicente?
(Seu Vicente): Sai com o caderno...
ES - Sai com o caderno...
SS - Com o caderno, tipo um livro de ouro, né?
(Seu Vicente): Vai dentro da igreja..
ES - (Mostrando uma foto) Esse aqui é meu pai, que já faleceu também, fez dois anos ontem. Agora, 3 anos que pai faleceu, mas...
SS - Como que ele chamava?
ES - Agostinho Bernardes. Esse aí também ia muito no Fundão. Tem, tem duas fotos...
SS - Então vai o livro e corre essas outras festas?
ES - Corre lá com outras festas. E tudo que ela volta cá pro Salto, nós já trata a banda aqui uma vez, não é? Essas bandas religiosas,
né? Aqui uma vez. Aí já começa sair as cartas pra mordomo, pede o padre Marcelo, assim ou o padre de outra paróquia pra dar
ordem, começa as carta de mordomo, os protetores que saem pra dar esmola, né? Aí já vai juntando, aí tudo que vai juntando, já
vai... Sai com a lista também, com o caderno pedindo ajuda, quem pode dar mantimento dá, que não pode aí, nós já vamos... o
almoço da banda, o que sobra faz cesta pra pôr no leilão, o dinheiro do leilão já serve pra nós.
SS - Na verdade o almoço é pra tudo mundo que chega, né?
ES - Todo mundo que chega lá, come. O almoço é pra todo mundo...
SS - Eu vi que todo mundo que chegou no ano passado comeu.
JP - Aí vocês vão em Santa Rita, Lavras Novas...
ES - Santa Rita, Lavras Novas...
JP - E a Indira comentou que vocês vão num outra festa de Nossa Senhora dos Remédios, em outro lugar.
ES - Ah, isso aí é lá no...
(Seu Vicente): O que ele está falando é Barbacena.
ES - É longe, é pra lá de Barbacena, perto de Barbacena.
SS - Carandaí?
ES - Passa de Carandaí.
(Seu Vicente): Ressaquinha.
ES - Ressaquinha! Entra em Ressaquinha.
SS - Ah, é em Ressaquinha.
ES - Lá é Nossa Senhora dos Remédios.
JP - Lá tem um distrito, é aquilo que eu falei com você, de Nossa Senhora dos Remédios.
ES - Mas lá a Nossa Senhora dos Remédios é mais nova que a daqui...
(Seu Vicente): Lá é longe...
ES - Ah, é. E a Nossa Senhora dos Remédios de lá é grandona, e é muito diferente a imagem de lá com a de cá.
SS - É diferente?
ES - Nós fomos lá mesmo pra ver a imagem como que é.
(Seu Vicente): A festa lá dura pouco, mas é um festão! Começa meio-dia, uma hora... não, cinco horas, né?
ES - É.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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SS - É um dia só?
(Seu Vicente): Não é o dia inteiro também não.
ES - Tem uma foto pra vocês verem como é a imagem, mas não está aqui.
(Seu Vicente): Não é o dia inteiro não. Começou uma hora, é, cinco horas e nove horas já tinha acabado a missa.
JP - Mas é um festão? Cinco horas de festa?
(Seu Vicente): Festão! Bom! Junta muita gente!
SS - E a imagem de lá é diferente, muito diferente da daqui?
(Seu Vicente): Ela é grande.
ES - É. (Mostrando uma foto) Aqui olha. Ela está no andor, olha lá. E lá é igreja grandona mesmo, a matriz grande mesmo. E a
cidade também é grande, né?
SS - É lá é, é maior.
ES - Começa a procissão cinco horas, nove horas da noite já acabou tudo.
SS - Não igual aqui que fica três dias de festa.
ES - Não. Aqui é dia demais de festa, lá não, lá é pouca festa.
(Seu Vicente): Lá deu cinco horas começa a chegar gente, kombi.
JP - Vocês foram lá só uma vez ou vão sempre?
ES - É, a festa lá é dia primeiro de setembro.
JP Ah, é outra época.
ES - Uma vez no ano, mas só... Pode dar dia de semana, que a festa é definitiva.
SS - É certo no dia primeiro de setembro.
ES - Tem duas vezes seguidas que a gente vai, arruma uma romaria aí, né? Vai de carro.
(Seu Vicente): Léia já foi três vezes.
ES - Da primeira vez nós fomos de van, ano passado nós fomos de micro-ônibus. Esse ano também nós vamos arrumar. Léia foi três
vezes porque da primeira vez ela foi de carro, num ano lá, né? Pra ver como é que é, e arrumou pra ir todos.
JP - E alguém de lá já veio pra festa suas, de vocês?
ES - Não, padre Marcelo que é perto lá que ele mora, né?
SS - Padre Marcelo da Santa Efigênia, né?
ES - Da Santa Efigênia.
JP - Mas ninguém lá de Barbacena não veio pra cá ainda não?
ES - Não, eles nunca vieram cá não. Tem assim, seminarista que passou aqui, que já ordenou pra padre e que está lá.
JP - Ah, tá.
ES - Nós vamos chegando lá e encontrando os padres que já...
SS - Que foi seminarista aqui.
ES - Aí no primeiro ano, nós achamos já padre (inaudível) tudo né?
(Comentando sobre a imagem de Nossa Senhora dos Remédios da foto da festa de Ressaquinha)
SS - Hum, que legal! É bem diferente mesmo.
JP - É porque a santinha é de roca, né? Aí muitas vezes é...
SS - Essa aqui é mais antiga então.
ES - Essa daí tem brinco, tem uma coroa grandona...
SS - Ou não né...
JP - Ah, estou achando que é, essa daí é de gesso...
SS - Não. Olha o panejamento dela, olha a mão, parece de madeira...
JP - Não, não, não é, agora vendo os dedos, não é não.
SS - É madeira.
JP - Mas não necessariamente ela é mais antiga, tem que levantar a idade dela.
ES - Léia não mostrou fotografia não? Ela deve ter mais que eu.
SS - Não, não, ela não mostrou foto pra gente não.
JP - Ela até falou que era pra gente arrumar foto com...
SS - Quando tem coroação ela fica sem o menino Jesus?
ES - Fica, tem que tirar ele, porque senão ao coroar ele cai, aí tira ele e põe nos pés dela.
SS - Ah, tá.
ES - Mas todos finais de semana do mês de maio coroa.

Transcrição: João Paulo Martins.


Revisão: Helenice Afonso de Oliveira.

Entrevista com a senhora Maria Aparecida Bernardo de Souza (MS), moradora do distrito de Santo Antônio do Salto, na localidade
Baú, sobre a festa de Nossa Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: João Paulo Martins(JP), Julia Indira Peixoto (JI) e Tadeu Pamplona Pagnossa(TP).

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
Dezembro/2009

Realizada no dia 09/06/2009

JP – O nome da senhora é Maria Aparecida de Souza Bernardo?


MS – Não, Bernardo de Souza
JP – Bernardo de Souza, é, era alguma coisa (inaudível) é Edir Bernardo de Souza a tua irmã?
MS – A Edir é Souza Neto, parece né?
JP – Dona Maria Aparecida de Souza, Festa de Nossa Senhora dos Remédios
MS – Isso
JP – Então dona Aparecida, a senhora é nascida aqui mesmo na região do Baú?
MS – Isso, no Baú, nascida e criada. Eu nasci no Baú no dia sete de fevereiro de 1952.
JP – E sempre morou aqui?
MS – Cinqüenta e seis anos. Sempre morei aqui.
JP – Sempre morou lá no Baú mesmo?
MS – Isso, sempre morei no Baú e sempre (inaudível).
JP – Ah, é? Desde criança...
MS – Desde os seis anos de idade já lembro que já vinha aqui com a minha tia.
JP – Ah é? A sua irmã mostrou para mim até foto, acho que parece que é de cinqüenta e pouco mesmo, dela coroando, acho que a
senhora está na foto também
MS – Tô, Edir mais eu coroávamos junto, eu e ela coroava (inaudível), um colocava a palma a outra colocava a coroa
JP – Agora tem mais, bota coloca a vela...
MS – Isso, tem coração, terço
JP – A senhora lembra se a festa modificou nessa época, a festa de Nossa Senhora dos Remédios mesmo?
MS – Ah, modificou muito
JP – Como é que era?
MS – Antes ela começava na sexta e ia até segunda.
JP – É?
MS – Isso. Eram mais dias, mas menos coisas que agora
JP – Era mais...
MS – E a programação era menor. Porque mais tinha a missa mesmo, o terço, vinha uma banda de música no sábado e no domingo.
Não tinha show, não essas coisas não.
JP – Essas coisas de rua
MS – Não, esses shows de rua antes não faziam, agora faz, antes não tinha isso não.
JP – E desde que a senhora lembra essas imagens haviam aqui
MS – A mesma imagem, vestida do mesmo jeito
JP – Tem um processo de vestir ela faz parte da festa aqui, como é que é?
MS – Faz
JP – Como é que é?
MS – Tem que pegar, igual o cabelo dela é cabelo que a gente coloca, sempre pega cabelo de alguém para trocar, quando precisa
trocar. E sempre acontece na época da festa.
JP – Mas normalmente os cabelos são doados por pessoas que receberam graças alguma coisa assim
MS – Geralmente. Muito difícil que assim que alguém doou por causa de graça, que não precisava, cabelo para colocar isso é muito
difícil
JP – A senhora já colocou cabelo nela seu?
MS – Já, já coloquei, minha filha já colocou, sempre tem alguém colocando. Todo ano a roupa dela, tudo ela ganha, assim, no dia a
gente não sabe colocar nela, porque tudo é promessa.
JP – É, Lea falou tem dia que ela troca de roupa varias vezes no mesmo dia
MS – No mesmo dia, as vezes na sexta, as vezes no sábado troca ela, domingo troca ela de manhã, na hora da procissão tem que
trocar ela de novo, por que o pessoal cumpriu promessa, a gente fica....
JP – É, todo mundo, tem que ter atenção com todo mundo.
MS – Cumprir a promessa. Inclusive aquela blusa também foi promessa que moça fez que o irmão dela não estava passando muito
bom, ai ela veio, dobrou ela e colocou aqui...
JP – A camisa do pai dela?
MS – Do irmão dela
JP – Ah, do irmão
MS – É do irmão dela, está tudo cortado porque ele passou mal demais, precisou cortar para tirar no hospital. Ficou muito ruim
mesmo, até adoeceu o rapaz
JP – E ela colocou a camisa por que ele melhorou?
MS – Isso, a camisa que ele passou mal, ele tava com ela, ai teve que gritar por Nossa Senhora dos Remédios na hora lá, ai ela veio
cá, trouxe e colocou aqui. Depois a gente deixa aqui e guarda, (inaudível) troca ela de roupa e coloca lá na sala dos milagres

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Dezembro/2009

JP – Ah ta depois coloca na sala os objetos todos os objetos.


MS – Isso, todos os objetos dela, todos os objetos.
JP – Acho que foi a sua irmã mesmo que falou que tinham uns remédios aí também que o pessoal traz depois que se cura.
MS – Remédio, isso. O câncer que ela curou do rapaz. Ela curou um câncer ai ela trouxe o remédio e colocou ali também. Os
(inaudível) que pode tomar parece.
JP – E quando a senhora doou seu cabelo, a senhora doou só por que ela estava precisando de cabelo ou porque ela tinha recebido
uma graça também?
MS – Tinha recebido uma graça também. Que eu tinha bronquite e estava dando umas crises, mas, eu tava novinha mas eu tinha uns
18 anos mais ou menos. Aí minha mãe pediu para ela que eu melhorasse que eu (inaudível) mais. Aí eu fiquei boa e dei meu cabelo
para ela.
JP – Então a sua mãe também participava da festa, era devota
MS – Participava, minha mãe participava, quem fazia novena aqui era ela
JP – E a imagem dona Aparecida? A senhora conhece alguma história dela, de onde veio essa imagem, como ela veio parar aqui?
MS – De repente cada um conta a história de um jeito. Mas contava a história que uma vez passou um avião e tava assim de
(inaudível) esse avião aí começou a cair umas coisas dele, parece que ele ia cair e eles começaram a jogar as coisas pela janela.
Então mãe diz que acharam peça de pano, saco de pano, caixa de remédio, as coisas, transportando apara outro lugar, e inclusive
(inaudível) cercado, achou a imagem da santa.
JP – Ah é?
MS – É
JP – O pessoal conta?
MS – É, isso eles contam a história. Ai um senhor pegou, ficou com a família lá e depois deu para uma afilhada dele a imagem da
santa, que eles todos estavam todos velhos. Só que seminaristas e missionários que passaram assim rezando em todo lugar, eles
falaram que era uma imagem muito grande para ficar em uma casa, deveria doar para uma igreja. E eles estavam pensando em
construir uma igreja aqui por que aqui não tinha, e aqui era muita gente que morava, lá no Baú eram duas casas só.
JP – Aqui no Fundão já era mais?
MS – Era mais. E hoje é o contrário, hoje no Baú é muita casa e no Fundão...
JP – No Baú eu não fui.
MS – Por que aqui é coisa de firma. Essa Novelis quando veio aqui... Era Alcan ali?
JP – Era
MS – Então quando a Alcan veio para aqui os pessoal foram para trabalhar, as famílias aqui deram muitas casas, a pessoa morava e
veio para trabalhar e ai ficou, depois acabou e o pessoal foi tudo embora.
JP – Porque a empresa não estava dando mais emprego?
MS – Isso. Começou a dar mais emprego, porque tava lá só construindo, começando.
JP – A senhora pegou essa época que aqui estava bem cheio?
MS – Não, não peguei.
JP – Ah, só escutava história
MS – É, eu ouvia história, eu não me lembro dessa época. Eu lembro assim, quando eu nasci o meu pai trabalhava aqui, mas já era
diferente, já era usina
JP – Seu pai trabalhava na usina também?
MS – Trabalhou. Meu pai trabalhou na usina, meu marido aposentou também trabalhou na usina, hoje meu filho também trabalha na
usina
JP – E seu pai já foi nascido aqui ou ele veio para cá para trabalhar?
MS – Não, meu pai foi nascido e criado aqui, minha mãe não.
JP – É, sua mãe veio de fora.
MS – É, ela veio de fora, meu pai casou com a minha mãe ela era da Serra do Cardoso e eles casaram e moraram aqui
JP – Ah, Serra dos Cardosos.
MS – Já ouviu falar de lá?
JP – Já
MS – Minha mãe é de lá
JP – Então seu pai era daqui bem antes então?
MS – Mas seu pai era daqui, meu pai nasceu e criou aqui, agora minha mãe não é daqui não
JP – Seu pai sempre trabalhou na Alcan ou ele chegou a fazer outra coisa aqui?
MS – Não, ele trabalhou na roça, ele pegou na roça e depois foi para a Alcan
JP – Na roça ele mexeu com o que, em fazenda ou era só para ele mesmo?
MS – Não, era um tantinho de feijão, milho, arroz. E ai ele começou a trabalhar quando tinha uns dois anos que ele estava
trabalhando, ele casou
JP – O Manja que a senhora falou que teria caído do avião é o Manja Léguas.
MS – Isso
JP – Que é nessa região aqui
MS – É, igual eu falei, a gente não sabe certo ou não, a história ouvia que o pessoal contou. A gente eu vi só comentando isso.

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JP – E a festa aqui, o movimento como é que era, movimentava bem aqui a região?
MS – Movimentava, aí o Zé ia de cavalo buscava o padre lá em Mariana, que descia de Mariana, não era de Ouro Preto não, e aí
sempre alguém ai com o cavalo buscar o padre lá, ia à cavalo e levava outro para o padre, trazia ele. E ai ficava aqui na casa da mãe
dessa que vocês vai entrevistar ela, da Alaíde, e na segunda feira eles iam embora... tinha uma missa oito horas, depois da missa
eles iam embora.
JP – A senhora sabe quando é que foi saiu de Mariana para fazer parte de Ouro Preto essa região?
MS – Não lembro.
JP – Mas aqui...
MS – Eu não lembro nem quando era de Mariana.
JP – Ah ta, a senhora só escuta. Tem até aquele documento...
MS – Mas eu sei que foi distrito de Mariana eu sei que já foi.
JP – Até aquele papel ali de quando ele foi agregado à irmandade São Vicente de Paula está com o nome da Várzea de Mariana
MS – E Várzea de Mariana. Por que aqui foi distrito de Mariana, isso eu tenho certeza, eu só não lembro quando foi, por que fez isso,
como foi, isso eu não sei.
JP – E aqui o pessoal do Baú participava mais aqui do Fundão mesmo ou participava mais das coisas do Salto?
MS – Não, Fundão.
JP – Só Aqui?
MS – Sempre Fundão. Antes até as missas, até pouco tempo, até as missas era, quase que não ia missa, porque ou domingo a missa
era celebrada aqui ou domingo era no Salto, porque era mais perto
JP – Ah, então nem iam no Salto?
MS – Não, nem iam.
JP – Quase não iam.
MS – Agora aqui tem menos missas e a gente vai lá
JP – E lá do Salto, a senhora conhece alguma coisa da construção da igreja de lá?
MS – Também não, eu gosto demais de lá, mas eu não participei muito, não lembro, não sei como é lá não.
JP – Lá... mas agora essa semana agora tem festa?
MS – Tem, agora a gente vai, vai em reunião e em festa, reza, tudo que tem lá participa agora, mas antes não.
JP – E a festa aqui de Nossa Senhora dos Remédios, a senhora, Lea, Néia e a sua irmã quem organizam?
MS – Agora é.
JP – E ai, eu acho que, não sei se foi dona Edir quem falou, que vocês esperam logo passar a festa de Santo Antônio para começar a
organizar a festa.
MS – Isso, para não confundir uma com a outra
JP – E ai o que vocês fazem na organização?
MS – Da festa?
JP – É
MS – A gente convoca os mordomos de mastro, e ai pede um tanto para eles
JP – Convoca os mordomos...
MS – Tipo assim, tem uma bandeira de Nossa Senhora dos Remédios, a gente levanta ela no sábado, aí os mordomos, sabe o que
você faz? Cada pessoa colabora com dez reais, e esse dinheiro ajuda, esse dinheiro ajuda para continuar a festa. A Novelis também a
gente pede, escreve carta pedindo também e ela ajuda
JP – E tem...
MS – Ai eles ajudam também. E tem umas pessoas que a gente pede, que é daqui, que foi um dia e morou aqui e mora em Ouro
Preto, outros lugares, a gente pede ajuda para eles também. Escreve uma carta pedindo para eles que eles foram convidados para
ser protetor de Nossa Senhora dos Remédios, aí no dia pode esperar que a esmola chega, com fé ela chega.
JP – O pessoal muitas vezes, tem gente que volta pra cá, tem gente que morou aqui, saiu e volta para cá.
MS – Ah volta, na festa eles voltam
JP – Movimenta aqui de novo.
MS – Movimenta de novo, ai vem pessoas de Ouro Preto, de vários lugares cumprir promessa para a Nossa Senhora dos Remédios,
que fica sabendo dela, aí vem aqui cumprir promessa.
JP – E sai um livro também, com a esmola em outras festas?
MS – Sai aí nesse dia organiza um caderno, as folhas, aí sobre alguém responsável e fala com as outras pessoas, pessoa sai pega
esmola, leilões
JP – Parece que o pessoal vai em Lavras Novas? Tem uma menina que só vai em Lavras Novas, Santa Rita, pedir...
MS – A Isadorinha sempre ajuda a gente.
TP – E a participação popular, antigamente participavam mais pessoas, ou vem reduzindo?
MS – Isso aqui antes, sábado a noite, domingo era a mesma coisa, o mesmo movimento, agora geralmente o sábado a noite o
pessoal participa mais.
JP – Mas por causa das coisas que tem na rua ou é por causa da celebração religiosa mesmo?
MS – Ah, eu acho que é um pouco por causa da rua também. Os jovens gostam mais, vem mais não tanto no domingo, eles vem
mais. Agora domingo vem bastante gente também, agora para comparar assim, sábado vem mais

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JP – Eu estava vendo as fotos da procissão, sai a imagem de Santo Antônio junto com ela?
MS – Isso.
JP – É a imagem de Santo Antônio daqui ou Santo Antônio do Salto?
MS – Não Santo Antônio daqui, é aquele verde ali...
JP – Aquele, eu to vendo ele.
MS – Ano passado tinha aqui seiscentas pessoas no sábado a noite
JP – Ah, é? Bem cheio, e essa procissão é longa
MS – É longa
TP – Até aonde vai a procissão?
MS – Ano passado foi na casa perto da usina do Salto, da casa do marido de Edivânia
JP – Ah é, a Lea falou
MS – Isso, isso ela saiu de lá. Antes ela saia da casa do seu Mario, quando ele morava aqui, que agora ele mudou, a esposa dele já
faleceu também. Ela participava da igreja também
JP – O seu Mário cuidava da igreja daqui?
MS – Isso
JP – Participava da festa também?
MS – Participava, ele cuidava da igreja, nós tínhamos que organizar a festa, mas ajudava assim para ir na igreja, para abrir a capela,
cedinho não precisava preocupar que ele vinha abrir a igreja. Quando o pessoal chegava aqui, que muita gente chega cedo, ele
estava aqui.
JP – Ele está morando em Ouro Preto agora?
MS – Mora em Ouro Preto agora... a esposa dele morreu ano passado, faz uns dois anos que ele está em Ouro Preto
JP – A menina falou que eu procuraria Ketlyn não sei se a senhora conhece
MS – Conheço. Tem apelido de boneca, trabalha em Ouro Preto mesmo.
JP – (risos) É ela mesma... e aí para festa fazer o cabelo, enfeitar a roupa, começam quando, a fazer o cabelo da santa?
MS – O cabelo da santa geralmente lá pela quarta ou quinta feira da semana da festa, na semana que a gente coloca. Agora na sexta
feira já começa a trocar a roupa dela.
JP – E quem faz? Tem gente que gosta de dar o pano, o tecido e faz a roupa.
MS – Minha irmã faz
JP – Ah ,é?
MS – Essa Edir, ela faz a roupa dela. Difícil dar a pessoa dar pronto, (inaudível) dá pronto geralmente dá o pano e ai ela costura.
JP – Ela costura, ela sabe costurar...
MS – Inclusive essa capa aqui foi uma senhora lá de Belo Horizonte que deu essa capa para ela
JP – Mas usa ela direto ou só na coroação?
MS – Só na coroação, ela foi direto para ai, colocou ela ia por causa da coroação ai trocou ela, quando ia coroar, sempre coroava ela
JP – E aqui na capela, hoje em dia como é, tem missa regularmente ou não?
MS – Ah não, agora mais mesmo uma vez ao ano ou duas, duas vezes ao ano, costuma ter no começo do ano, princípio do ano
março assim, janeiro e março, e em agosto.
JP – Ai durante a festa tem
MS – Isso, todo dia tem.
JP – E quem participa hoje em dia da organização da festa, são só vocês três ou vocês conseguem mobilizar mais pessoas?
MS – Nós três mesmas, a gente corre atrás de uma coisa, corre de outra. Tinha a esposa do Camelo também, vocês devem conhecer
ele.
JP – Pois é, eu preciso de conhecê-lo, não consegui conversar com ele ainda.
MS – Não? Nossa a vinda dele faz tanta falta, ela ajudava muito.
JP – E eles não estão vindo mais não?
MS – Ela morreu.
JP – Ah morreu.
MS – Morreu, ela morreu. Depois que ela morreu ele vem, mas não participa mais tanto como era antes.
JP – Ele mora em Mariana?
MS – Ele mora em Mariana. Agora mais o filho dele que mora aqui.
JP – Ah é? Mas essa fazenda o que é... Qual terreno que é aqui?
MS – O terreno todinho, só aqui dentro aqui que doou para... nem ele, alguns que venderam à anos atrás, sempre que vendia a
fazenda, aqui já era meio que cercado que aqui ninguém entra
JP – Aqui já...
MS – Eles não mexem
JP – Aqui já sempre foi da comunidade mesmo, dos fiéis.
MS – Isso, isso
JP – Quero ver se converso com ele também
MS – Aqui sempre recebe muita gente que procura tem muita para cumprir promessa, rezar para a santa.
JP - E para trabalhar mesmo?Enfeitar mastro, bandeirinha colocam coisas...

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MS – Aí junta tudo,
JP – Aí bota a nora para trabalhar.
MS – Tudo, tudo ajuda.
JIP – Sua lembrança mais antiga da festa era de criança?
MS – De criança, é isso.
JIP – E nessa época já tinha coisa de cortar e trocar o cabelo?
MS – Ah já tinha, já tinha. Eu era pequenininha eu lembro que tinha uma senhora ela morava lá em cima no Salto lá, a hora que ela
tava sentada e colocando a cabeça, eu ficava olhando...
JP – A senhora já vinha participar então, acompanhar?
MS – Já pequenininha vinha segurar as bandeirinhas para as mais velhas colocar. E eu lembro que eu era pequenininha ainda,
deixava cair e o vento levava.
JP – Tentando ajudar e...
MS – É, e às vezes atrapalhava, as vezes eu tentava ajudar e atrapalhava.
JP – E sua mãe então ajudava também aqui?
MS – Mamãe ajudava também
JP – Aí passou para você e sua irmã, que hoje são as que mais tomam conta.
MS – É, a gente (inaudível) dela depois de minha mãe ajudar tinha um senhor do Baú que ajudava muito também, morreu também.
Foi passando, passando e agora está ai comigo e minha irmã
JP – Tinha um que inclusive só deixava a mulher dele olhar a santa.
MS – Seu Mário.
JP – Ah, é o seu Mário mesmo?
MS – Não podia, aí quando ela ficou mais velha que assim ela não pode cuidar mais, ai fui eu. Às vezes na festa assim, tinha muita
gente, ele ia lá: “ô Aparecida vem cá”, parece que confiava mais em mim entendeu? Mas isso era a cabeça dele, por que todo mundo
nem esquenta, mas ele não, parece que ele confiava assim, se eu tivesse podia ficar tranqüilo lá por que eu tava junto.
JP – E a capela foi alterada nesse tempo?
MS – Não, não mexeram na capela, a única coisa que foi alterada aqui que eu lembro foi a sacristia, que aumentou um pouquinho,
porque não pode mexer que é patrimônio.
JP – Mas essa sacristia não existia?
MS – Existia, mas era mais pequenininha, aumentou um pouquinho para lá, não muito.
JP – E as cores da capela?
MS – Ah, eu lembro da capela... isso aqui era verde.
JP – É, eu tava perguntando por causa disso, porque eu vi uma foto com a sua irmã que ela era verde.
MS – Isso, que ela era verde, eu lembro primeiro que ela era verde, um pouco com amarelo claro, depois foi branco e verde.
JP – E por que mudou, a senhora sabe?
MS – Não, todo ano tava mudando a igreja se podia mudar. Inclusive uma senhora que a filha casou aqui dentro da igreja procurou
saber com o padre se podia trocar, ela trocou
JP – Ah tá, quando ela veio casar ela pintou diferente.
MS – É, sempre todo ano aí tem batizado, sabe meu filho é batizado nessa igreja, e aí faz batizado aqui.
JP – Ah, então tem praticamente duas missas no ano, só que acontecem casamentos, batizado.
MS – Acontece, o casamento foi em janeiro que Jane casou? Em janeiro teve casamento aqui.
JP – É elas comentaram, eu tive aqui conversando com ela em fevereiro, elas comentaram
MS – Que o casamento foi até aqui assim, a gente coloca um tapete até lá, colocou os bancos, aí trouxe banco de lá por que daqui é
pouco.
JP – É moradora daqui mesmo que casou?
MS – Casou, é filha da moradora da banda do Salto, ela até ajuda a gente aqui na igreja a “Fatinha”
JP – É mas...
MS – Ela dá maior força para gente também aqui, na limpeza, na organização.
JP – Agora eu até tava vendo, tem um, alguém fez uma prospecção, tem uma marquinha verde ali.
MS – Isso, eles veio aqui, (inaudível) veio umas moças aqui.
JP – São do patrimônio, né?
MS – É patrimônio então não pode. Inclusive (inaudível) fazer cozinha queria um lugar para alguém, nem banheiro, aí colocou ali só
que tinha que fazer de um jeito assim: chegava uma pessoa e olhava para aqui e não visse nada, só a igreja, que o prefeito ficava
em cima deles.
JP – Mas agora vai ter que alterar?
MS – Lá?
JP – É, essa casa que construíram aqui.
MS – Não, aqui pretende só aumentar um pouquinho para lá.
JP – Ah, aumentar.
MS – Isso, que antes havia uma casa grande, eles iam fazer uma casa grandona, construção de tábua, eu lembro dessa casa também
JP – Ah então essa daqui era a casa da fazenda que, dessa fazenda que hoje é do senhor Antônio Camelo, ou não?

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MS – Não, a casa era de Juca Maia, um senhor da Várzea de Mariana.


JP – E essa fazenda não existe mais?
MS – Existe, agora está reformando lá
JP – Ah, a casa que não tem mais, o casarão?
MS – A casa, o casarão que não tem mais.
JP – Hum, entendi.
MS – O casarão... inclusive isso aqui é do casarão.
TP- Bom, a senhora falou que a festa começa na sexta feira e termina no domingo?
MS – Isso
TP – O que acontece em cada dia?
MS – Os “trem” da novena de Nossa Senhora dos Remédios começa na sexta, geralmente começa na quinta, sexta e sábado, sábado
já é mais. Geralmente na sexta-feira, na quinta-feira não vai ninguém não, ai no sábado é procissão, tem a bandeira, o negócio do
mastro. E no domingo tem a festa que tem a missa geralmente de Santo Antônio (inaudível) a procissão às vezes vai aqui em cima,
no Camelo, às vezes ela vai lá no seu Mário, no acampamento lá em baixo. Vocês nunca foram no acampamento também não? A
gente chama de acampamento onde o seu Mário morava, ta a casa lá
JP – Não, eu nem sei onde é que o seu Mário morava
MS – ...as vezes vinha visitar, passa o fim de semana ai
JP – E desde que a senhora lembra a comunidade sempre que organizou a festa aqui, nunca teve, por exemplo, uma irmandade de
Nossa Senhora dos Remédios?
MS – Não, tinha a São Vicente de Paula, que antes era aqui, aí as pessoas aqui foram acabando, quase ninguém aqui vindo mesmo, a
maior parte lá. Então resolveu, fez uma capelinha lá, assim, uma casinha tipo uma capela, lá na casa de São Vicente de Paula e a
celebração é lá, as reuniões de conferência, acontece a missa lá também uma vez no ano também.
JP – Isso é lá no Baú.
MS – Isso.
JP – E lá quem organiza, a comunidade toda foi religiosa lá no Salto, ou não?
MS – Não lá no Baú eu é quem tomo conta lá, eu e (inaudível) também
JP – Não, mas digo assim...
MS – Como assim? Isso da igreja do Salto, da igreja do Salto é lá que quando as vezes vai marcar missa que marca do Baú também,
que o padre é o mesmo, a paróquia é a mesma.
JP – Aqui é ligado à Santa Ifigênia?
MS – Isso, Santa Ifigênia
JP – Ou (inaudível) Santa Efigênia?
MS – Era outro santo no Salto, hoje é Santa Efigênia.
JP – Aí depois que separou, virou a paróquia de Santa Efigênia.
MS – Isso.
JP – Aí tem a conferência lá em cima.
MS – Todo sábado, no sábado às quatro horas da tarde.
JP – E nessa conferência se discute como vai ser as festas?
MS – Não.
JP – Não?
MS – Aí já é outra coisa, São Vicente de Paula é uma irmandade São Vicente de Paula que tem.
JP – Ah tá, a única irmandade que tem aqui é a São Vicente de Paula. E eles se reúnem, a senhora faz parte também?
MS – Faço, eu sou presidente da conferência. Que troca, às vezes fica dois anos a pessoa, depois tem eleição, troca aquela pessoa de
novo.
JP – Vocês olham tudo aqui. Léa também falou que cuida da capela do Engenho, não sei da onde.
MS – Ela cuida do Baú também.
JP – No Baú, do engenho, a senhora é daqui do Baú. E lá no Baú a capela é de qual santo?
MS – São Vicente.
JP – Ah, é lá que é São Vicente.
MS – É ali que é São Vicente.
JP – E tem no Engenho que é?
MS – No Engenho, espera ai que eu esqueci o nome do santo do Engenho, não é Santa Cruz não? Não essa é do Palmital. É São
Sebastião.
JP – É São Sebastião?
MS – É no engenho é São Sebastião sim, Santa Cruz é no Palmital.
JI – O pessoal não faz promessa para a santa só porque está doente, essas coisas, porque ela é Nossa Senhora dos Remédios, deve
atender muito quem está com alguma doença ou coisa assim.
MS – Isso.
JI – Mas não é só isso não?
MS – Não, outras coisas também, eles pedem, para a Senhora dos Remédios, me ajude a conseguir isso aqui, o pessoal está

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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aposentando, queria aposentar, eu vou ajudar na festa, é tudo. Mas antes é remédio, doença, doença parece é mais.
JI – É porque eu já ouvi falar de várias coisas de remédio, de esse negócio de perna, de pedaços assim.
MS – Isso, (inaudível) quem está com ferida aparece e cura, pegou uma perna e mandou fazer.
JP – Tem aqui ainda? Guarda estes...
MS – Guarda. Está ali em baixo da igreja, roupas.
JP – Obrigado dona Aparecida. Bom demais.
MS – Pode ser até que ela conte mais outras coisas, porque ela é mais velha que eu, só por ser mais velha, ela antes de mim ela já...
JP – Estava participando.
MS – É, ela participava muito.
JP – Tá , muito obrigado, a gente vai dar uma passada lá também, a senhora vai com a gente?
MS – Vou. Mas vamos tomar um café ali primeiro.

Transcrição: Tadeu Pamplona Pagnossa


Revisão: João Paulo Martins e Júlia Indíra Peixoto

Entrevista com Wanderléya Aparecida da Silva Alcântara, moradora do distrito de Santo Antônio do Salto, sobre a festa de Nossa
Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: João Paulo Martins e Sidnéa Francisca dos Santos
Realizada no dia 11/02/2009

SS: Léia, você nasceu aqui no Salto. Desde criança que você acompanha essa festa de Nossa Senhora dos Remédios?
WA: Eu nasci... Meu pai era funcionário aqui da Novellis, antes...
SS: Que era a antiga Alcan.
WA: É, isso. Depois ele foi morar em outro [inaudível], aí a gente foi, aí ficamos assim... eu fiquei mais com ele, né? Aí depois que eu
casei mesmo que eu passei a participar da festa, vou fazer [inaudível] anos de casada, que eu passei a participar da festa. Em 1999
fui convidada, não me lembro bem que era prefeito, a trabalhar nessa festa. Aí comecei, gostei e fiquei, estou até hoje.
SS: E da época que você era pequena pra hoje, o quê que você acha que mudou? O quê que tem de diferente? Ou é tudo a mesma
coisa?
WA: Mudou muita coisa, porque antes, à noite, não tinha shows, não tinha assim, banda, durante o tempo assim que eu conheço a
festa. Aí do tempo de 1999 pra cá, colocou também o show à noite, que vem a banda também à noite, de música.
SS: Você acha que isso trouxe mais olhos pra festa...
WA: Nossa Senhora! Trouxe, trouxe.
SS: Porque antes era só a parte religiosa...
WA: Mais religiosa mesmo no domingo, que não tinha festa no sábado, que tem hoje. Está começando na sexta, o sábado é o dia
junta mais gente, sabe? Que fica a noite inteira lá, amanhece...
SS: E vem muita gente de Ouro Preto?
WA: Vem, vem... Amanhece o dia lá.
SS: Essas pessoas que vêm de Ouro Preto são ex-moradores?
WA: Vem muitos ex-moradores. Os ex-moradores vêm e trazem muitas pessoas, que gostam e passam pra eles que a festa é boa e
vêm. E gostam também e quando vem no outro ano já traz mais gente pra participar.
SS: E essa parte da, da parte religiosa da festa como é que é, por exemplo, montar o andor, enfeitar o mastro, como é que é isso?
Quem faz isso? Por que que você acha que isso é feito?
WA: É... isso eu sei dos antigos, né? Desde... antes quando essa santa apareceu, que eu não sei bem contar com detalhes, né? Mas,
aí então já faz voto de enfeitar o andor. Então no domingo a santa dá a volta em redor da igreja, mais algumas localidades que ela
vai. É... aí já deixa o andor enfeitado no sábado mesmo, que no sábado né, à tarde, que aí já acontece, tem a festa à noite já com o
andor todo bonitinho. Tem os dois, de Nossa Senhora dos Remédios e Santo Antônio, né? Saem os dois juntos na procissão. E é
arrumado por ... a santa é vestida pela, pelas três, né? Quatro, que realmente tem mais uma conosco.
SS: É, na verdade, assim, uma curiosidade, aqui só as mulheres podem vestir a Santa? É isso?
WA: Não, até que não, o pessoal nunca assim... desde que eu estou lá isso nunca se impediu não.
SS: Mas tem algum homem que já fez a vestimenta da santa?
WA: Não, que eu lembre não. Tem mais é que mulher gosta mais de mexer ainda mais com ela, que tem que vestir tudo direitinho,
né? Têm as combinações, as sainhas, as camisolas. É, nunca participou assim, com a gente, um homem vestindo não. Pelo menos lá
não.
JP: Então, não que tenha uma regra?
WA: É, não que tenha assim uma regra, é... pelo menos que eu saiba não, né? Que ninguém nunca comentou comigo, desde que eu
entrei não.
SS: E essa roupa da santa? Como é que é essa roupa?
WA: É, o pessoal assim, muita... a maioria das pessoas faz promessa. Todo ano ela tem roupa nova. Tem vestido novo...

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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SS: Mas uma roupa só?


WA: Hein?
SS: Uma roupa só? Nova?
WA: Não, todo ano ela ganha. Todo ano tem a festa dela com roupa nova. É, nunca repete a festa do outro ano com a mesma roupa.
SS: E ela tem mais de uma roupa nova por festa?
WA: Tem, tem. Ela não fica sem roupa nova.
JP: Aí troca de roupa durante a festa?
WA: Troca, durante os três dias de festa troca de roupa. A gente troca na sexta, e no sábado e no domingo de manhã. Nos três dias
de festa é com vestimenta nova. A capa, os cestinhos, a coroa, o pessoal dá, a palma. Ela passa os três dias de festa dela, todinha
novinha (risos).
JP: E pra você doar essa roupa? Normalmente são pagamentos de promessas, né?
WA: É, e quando não tem... sempre tem. Quando não tem pessoas que está doando roupas, que fez promessa, nós, que mexe com a
igreja, a gente mesmo compra. Ela não passa a festa com roupa velha... Ninguém se ofereceu, ninguém, ah, chega perto de mim e
fala comigo assim: “É, eu tenho promessa para Nossa Senhora dos Remédios. Eu posso dar a roupa dela?” “Pode”. E se não aparecer
ninguém com promessa, a gente vai e compra, com o dinheiro da igreja, ela não passa a festa com roupa usada.
JP: E pode ser qualquer pessoa, pessoa de outro lugar doar...
WA: Pode, pode. Vem gente aí que manda, que manda o dinheiro pra gente, vem pelo correio, manda assim. Quantas vezes que a
gente recebe esse valor, pelo correio, pra gente estar comprando a roupa dela. E muita gente gosta de vir no dia pra vestir, pra ver,
pra estar vendo a gente vestir, colocando a roupa.
SS: A cerimônia da vestimenta eu acompanhei ano passado. É uma cerimônia muito bonita, que vocês fazem, né?
WA: É, então...
JP: Começa quando? Normalmente a festa... o primeiro dia de festa é na sexta-feira?
WA: É.
JP: E a vestimenta...
WA: E tem a novena, tem tudo direitinho, mas aí a gente troca de roupa nela na sexta, no sábado e no domingo, os três dias. Na
sexta de manhã, a gente já vai arrumar a igreja, já veste ela, põe ela toda bonitinha, aí no sábado de manhã a mesma coisa e no
domingo de manhã a mesma coisa.
SS: E o mastro?
WA: Também já é... a gente não vai subir assim a bandeira sem estar... com o pobre do mastro pelado, né? Aí já tem as pessoas que
veste, quem corta, quem enfeita, sabe? Aí já começa a cortar durante a semana inteira já vai cortando os papéis, já deixa tudo
arrumadinho, e no sábado, fica o dia, cada um fica numa, numa coisa: uns que ficam enfeitando o altar, outro no andor, enfeitando a
santa, cada um... e tem aquele grupo...
SS: E tem almoço também...
WA: Tem...
SS: Que vocês distribuem.
WA: Isso.
SS: E é para todo que chega na festa.
WA: Todo mundo que chega na festa tem.
JP: Esse almoço é no sábado?
WA: hein?
WA: No sábado e no domingo.
JP: Ah, no domingo também.
WA: No sábado e no domingo. No dia todo tem comida. A noite inteira tem...
SS: ... comida (risos).
WA: Claro, tem que ter.
JP: Voltando nas doações e promessas, e os cabelos?
WA: É promessa também. O pessoal faz também. É uma cabeleira que ela tem, né? Aí, não pode ser esses cabelos lisos demais,
senão num, num pára né? A gente está colocando né? Fazendo a cabeleira e colocando. É, mas até que ela está precisando, que já
tem uns três anos que ninguém doa, e está o mesmo cabelo que é, porém, da minha irmã, que doou.
JP: E como é que é, as pessoas que querem doar, doam um pedaço...
WA: Elas chegam, falam “eu dou um pedaço” né? E a gente já monta aquela cabeleira, aquele... a gente tem o tecido.
JP: E tem que ser muito?
WA: Tem que ser o suficiente pra estar fazendo a cabecinha dela pra ficar bonitinha.
JP: Mas eu vi uma foto que parece que vocês vão colocando aos poucos, né?
WA: É, por exemplo, tem lá, alguém chega e fala assim: “ah, eu quero... eu fiz promessa. Você põe um pouquinho do meu cabelo
aí?”. Ela traz um pouquinho do cabelo, você arranja um jeito lá, a gente coloca ele direitinho. Entremeia um e outro lá, né? A gente
põe. A gente prende ele lá. Porque muito liso assim demais, ele num pára muito tempo, tem ser mais encaracoladinho.
JP: Em que época que ela é confeccionada? Ou pode ser qualquer época do...
WA: Qualquer época. O pessoal falou que tem a promessa, vem trazer, uns vêm até ver fazer a cabeleira, coisa assim.
SS: Ano passado tinha uma senhora que ia batizar o filhinho, não é? Na igreja, ou era esse ano que ela ia batizar o bebê?

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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WA: Foi no início do ano passado, minha irmã batizou lá.


SS: Ah, ela é sua irmã?
WA: É, foi promessa também, que ela fez, aí ela trouxe pra batizar aqui.
JP: Pra batizar na festa?
WA: É, ela trouxe pra batizar aqui.
SS: E você se lembra assim, porquê que o orago escolhido para aquela capelinha foi Nossa Senhora dos Remédios? Alguém já te
contou, sua mãe ou seu pai, algum dia, alguma vez já te contou o porquê que essa celebração que foi escolhida?
WA: Não. Depois que ela chegou... isso é o pessoal mais antigo que contam né? Que ela foi jogada, que veio junto de um avião,
coisa assim, eu não sei bem te falar, você vai ter que procurar a outra lá, porque acho ela vai te informar melhor. Mas a capela foi
construída especialmente para essa santa, Nossa Senhora dos Remédios. É conversando, né? Que a gente, as meninas juntas
trabalhando na faxina, né? Elas vão passando pra gente.
SS: Elas vão contando.
WA: É, mas assim bem com detalhe assim, eu não sei te falar não, mas se você for procurar outra.
SS: Ah, sempre tem a procissão...
WA: No sábado tem a procissão das bandeiras né? Todo sábado. E sai geralmente da casa de alguém, e vai passar na casa do
Advânio que você conhece.
SS: Sim.
WA: Então da casa dele é... e aí no domingo né? Tem a... aí no sábado, toda noite no sábado tem a missa, tem o levantamento do
mastro, tem coroação. E no domingo tem a missa, a procissão né? Que é a que dá a volta né? Em algumas localidades, às vezes vai
na fazenda de seu Antônio Camêllo, vai lá na casa da Novellis.
SS: É bem longa a procissão.
WA: É, é bem longa (risos). A gente agrada assim os dois lados, porque seu Antônio, ele é, ele é legal com a gente né? Sempre está
ajudando. E a Novellis também né? Ela não deixa de dar sua contribuição. Então a gente tenta agradar os dois lados pra ninguém
ficar assim...
SS: Com certeza...
WA: Aí geralmente eu vou, a gente dá a volta lá na fazenda de seu Antônio, depois vai lá, lá na casa da Novellis.
JP: E os shows, a banda, foi você que trouxe?
WA: É.
JP: E eles acontecem aos sábados?
WA: É.
JP: No sábado à noite.
WA: Isso aí foi no primeiro ano que eu comecei, foi em 1999. Era Gleiser Boroni, que era secretário...
SS: Não, ele era diretor de eventos.
WA: É. Aí eu bolei e foi assim, deu a força e aí eu já não deixei terminar... e quando a gente não...o mais difícil assim é o patrocínio,
mas aí a gente corre atrás.
SS: E você acha que isso atrai mais as pessoas para a festa?
WA: Atrai com certeza. Todo mundo pergunta: “Quem vai, quem vai cantar?”.
SS: E sempre é gente daqui e alguém de fóra também?
WA: Não, é só, só gente de fora.
SS: Não tem uma turminha daqui? Que toca violão...
WA: Não, não. Isso daí é o congado, daqui quando vai, mas pra esse show aí, geralmente vem de fora. A gente contrata assim uma
dupla assim né? Dentro das posses que a gente pode estar pagando, né? Teve uma vez que veio a Filhos de Minas ...veio a Filhos de
Minas, mas foi pela Prefeitura que a gente conseguiu assim a doação e a gente não teve que tirar do bolso. Uma coisa assim melhor,
mas a gente todo ano conseguir uma coisa assim boa né?
SS: Que às vezes fica caro?
WA: A festa fica cara, fica feia, fica cheio (inaudível) vai passando assim os tempos né?
SS: Fora do período da festa, tem missa na capelinha?
WA: Tem missa no dia primeiro de março agora tem, vai ter missa. Tem o mês de Maria né, que a gente faz a reza, coroação, tudo
direitinho, vem ônibus.
SS: Mas durante o mês assim, por exemplo, não tem um domingo específico que é o dia da missa na capela de Nossa Senhora dos
Remédios?
WA: Não, não. Porque eles são... a comunidade né? Pertence à Paróquia de Cristo Rei, aí primeiro e terceiro domingo que é dia de
missa aqui, aí divide né? Entre Cláudio, Baú, São Geraldo, (inaudível) Santo Antônio, Engenho, Fundão, aí faz...
JP: Então o primeiro e terceiro...
WA: Primeiro e terceiro que atende as comunidades aqui, sabe? Aí a gente divide... que ele tem lá, no final do ano ele faz o seu
calendário né? E cada um pede o seu dia, já fica exclusivo, já fica sabendo, todo o calendário montado durante o ano, aí já sabe o dia
que pertence à gente.
JP: E a construção da capelinha? Você tem idéia de quando que foi?
WA: Não, não tenho idéia não.
JP: Ela é após o aparecimento da imagem?

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WA: Da imagem. Mas ela tem mais de 150 anos, que essa capela, que pessoal assim... que os antigos vai passando, que vai
conversando assim com os familiares, que vai passando pra gente.
SS: E tem uma irmandade? Vocês são uma irmandade?
WA: Não, não. Que aqui tem o conselho, né?
SS: Um conselho da festa...
WA: Tem o Conselho Central aqui do Salto. E cada, cada capelinha tem um responsável, assim. Porque tipo se vocês me procuram
tem uma pessoa que você pode estar conversando, te passando o quê que acontece. E lá no Fundão, Nossa Senhora dos Remédios,
é eu, a Aparecida e Edir, as duas irmãs, né?
SS: Aparecida e Edir?
WA: É isso.
SS: Mas assim, vocês não se formaram como uma Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios de Santo Antônio do Salto não, né?
WA: Não, não.
SS: E nem se sabe se já existiu essa irmandade no passado não, né?
WA: Não, não. Porque assim, é através do Conselho lá em cima, aí cada capelinha é uma pessoa que cuida, quando não tem assim,
por exemplo, se nós não tivesse interessada em estar olhando, o Conselho mesmo...
SS: Definiria alguém ...
WA: Definiria, é. Ele mesmo estava, por exemplo, descendo e olhando.
SS: É a mesma coisa com o Baú, com Cláudio, Engenho.
WA: É. No Baú é eu e Aparecida também as responsáveis (risos). Fundão e Baú, e Engenho também eu olho, que meu pai mora lá
né? A capelinha é quase que pertinho da casa dele, né? É dentro do terreno dele, é tipo aqui do seu Antônio Camêllo, aí eu olho
também.
SS: Está certo Léia, Santa Léia!
WA: (risos).
SS: E tem mais alguma coisa João?
(Pausa)
SS: Léia, conta pra gente então, a história do sino da capelinha de Nossa Senhora dos Remédios?
WA: Ele era da fazenda, né? Aí ele, transferiu ele pra cá. Eu não tenho agora, não tenho muita lembrança, assim, de quantos anos
que ele, que ele tem exatamente. Mas assim, ah, eles trouxeram, foi do tempo dos escravos, essa coisa aí. Aí essa fazenda fechou
né? Ele estava lá, aí tiraram, trouxe e colocaram na capela.
SS: Nessa fazenda tinha uma capelinha também?
WA: Não me lembro bem, eu já era...
SS: Ou era um sino de aviso de hora.
WA: Não me lembro bem, pelos anos atrás aí, porque...
SS: Você é bem novinha.
WA: É. Eu sei que é duma fazenda. Aí, eles deixaram... Trouxeram pra cá. Estava né? Já tinha construído aqui, ela não tinha, e aí eles
trouxeram.
SS: Aí fizeram aquele campanariozinho do lado...
WA: E colocou, isso.
SS: Ah, está certo.
WA: Só não lembro bem assim, lá, mais a data dele, de cabeça eu não lembro.
SS: Mas eu acho que a gente até anotou isso. No foto que a gente tem lá também, eu fotografei o sino. Obrigada.

Transcrição: João Paulo Martins


Revisão: Helenice Afonso de Oliveira

Entrevista com o senhor Mário de Jesus (MJ) e sua filha Girlene das Graças de Jesus (GJ), antigo morador do distrito de Santo
Antônio do Salto, sobre a festa de Nossa Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: Júlia Indíra Peixoto (JI) e Tadeu Pamplona Pagnossa (TP).
Realizada no dia 26/06/2009

MJ – Eu levei um cavalo de Mariana, chegou lá, depois ele passou pra Vicente você pode olhar depois Paulo, ta lá ainda, tá velho
mais está lá ainda, em Mariana. Ah carreguei muito um tempo, uma porção de padre lá pra Mariana.
JI – O senhor transportava os padres?
MJ – É, carregava, de cavalo. Vinha pela estrada, e chegava, de cavalo e levava depois ele dormia lá e depois....segunda-feira e trazia
ele de cavalo outra vez, é uma coisa louca. Pegava as imagens, limpava lá o adro, com força não deixava sujar. [inaudível] mês de
maio, cuidava dele. A Igreja falou que uma vez, caiu uma telha de lá, foi arrumar gente lá para arrumar, nós cuidávamos, não
deixava estragar, agora eu fiquei de idade e aquela Léia e Aparecida, tomam conta da festa e vai levando. Então...
JI – Faz quanto tempo que o senhor saiu lá do... O senhor morava lá do Fundão né?
MJ – Minha nora está lá na casa ainda... Morava lá, a casa ta lá ainda, ta olhando lá.

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JI – E, então a quanto tempo o senhor saiu do Fundão?


MJ – Uns três anos, né?
GJ – É, três anos que eu moro aqui.
JI – Três anos?! Ah pouco tempo então. O senhor morou muito tempo lá.
MJ – Faz pouco tempo
GJ – Toda vida dele morou lá.
JI – Olha só...
MJ – [inaudível] morei lá
JI – E lembrança da festa...
MJ – Lá da festa, me lembro da festa.
JI – Mas é o seguinte, a sua lembrança mais antiga da festa o senhor acha que era de que tempo?
MJ – Ah, minha filha de que tempo eu nem lembro, eu já me esqueci também... Não guardo né?
GJ – A memória já está ruim já...
MJ – Não guardo... mas deve estar mais ou menos na base de...
GJ – 63, não é? Quando eu nasci.
MJ – De uns quarenta anos, uma base assim
GJ – É, 63 quando eu nasci
MJ – É, uma base assim.
GJ – A festa né? Agora já está mais fraquinha... Antes era festa mesmo, começava mesmo era na quinta ia até domingo. Eu não
cheguei a ver, mais minha mãe contava sempre que era bom demais... Ia muito padre, ficava cheio.
MJ – Eu me esqueci... Primeiro pegava lá o Cônego Amando.
IP – O Cônego Armando?
MJ – O Cônego Armando. Eu ia pegar ele, ia buscar descarregando [inaudível], chegava lá, oh, oh [inaudível] carregando eles pra
Mariana né [inaudível] oh vamos lá pro Fundão, na época [inaudível] o povo conheci lá, meu sogro (Joaquim Vieira) Leonardo
[inaudível] que olhava eles. Agora eu, por exemplo, na minha folga, eu ia lá pro [inaudível] era mais novo né? Mas cônego Amando
que celebrava lá. Levava ele lá pro Fundão na carroça dele. Montava à cavalo, ia para lá, ficava lá uns 2 meses... uns 2 dias, uns 3
dias, e montava à cavalo e voltava. Aquilo lá muito antigo, aí cresci, fui crescendo, cabei casando lá no Fundão. [inaudível] não
deixava mato tomar conta lá do adro
J.I – Como é? Não lhe entendi...
MJ – Não deixava o mato crescer lá no adro né? E foi indo, foi indo, o Juca Maia comprou o terreno lá? Depois pegou e mandou eu
cercar, cerquei de arame. Agora veio Léia pedir para poder fazer a casa paroquial lá né? Aí eu falei: Você pode fazer porque o Juca
Maia deu ordem, pra fechar aqui, que para fechar ele deu ordem. Camello foi lá também [inaudível] na Igreja.
J.I – O terreno então ele era do Camello, e passou pra esse Juca Maia que o senhor está falando?
MJ – O Camello... o Juca Maia passou para...
JI – Para Antônio Camello
MJ – Outro, como é que chama? Ele morreu, morava ali... Aí passou [inaudível] aí foi para o Camelo. Camelo [inaudível] tudo bem,
agora passou pra Paulo. Paulo o filho dele.
JI – Paulo?
MJ – É. [inaudível] do bairro pra baixo de Mariana... Acaiaca
JI – Como é? Não estou ouvindo direito o senhor...
M: O Camello é muito bonzinho.
J.I: Ah sim, eu já ouvi falar isso.
M: O Paulo também é muito bonzinho, quando ia fazer alguma coisa do lado que está cercado ele nunca deu problema em nada.
Outro que ajudava muito lá era Waldemar, filho... marido daquela Léia.
J.I: Waldemar?
MJ: É. Ele ajuda demais.
J.I: Na festa?
MJ: É, ele ajuda demais, precisa de uma coisa ou outra. [inaudível] vai e ajuda a gente [inaudível] estava sujo, eles fizeram na
barragem, faz a faxina, passa a máquina, fica limpinho.
J.I: E o senhor, além de zelador lá da capela, era festeiro também? Ajudava...
MJ: Ah, era festeiro, ajudava muito. Ia para fazer o [inaudível] juntava com as meninas lá do Salto e elas enfeitava o adro todo e
vinha até na minha casa porque saia a bandeira de lá
J.I: Saía a bandeira da sua casa?
MJ: É, mas agora passou pra aquele [inaudível] que mora ali em cima, aí saiu da casa dele ano passado. Aí eu fui lá com (a dona) e
com os meus meninos fui lá fazer [inaudível] até na Igreja.
J.I: Você falou do mastro também...
MJ: O mastro, pra São João e Nossa Senhora dos Remédios. Tinha a bandeira [inaudível] mastro, bastão [inaudível] Santo Antonio
[inaudível] mastro bastão separado [inaudível]
TP: E a sua filha falou que ia bastante gente...
MJ: Ia gente demais, ah lá juntava gente demais... Você quer ver quando a festa juntava povo mais povo mesmo...

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TP: Vai de todo lugar?


MJ: Ah de todo lugar, devotos mesmo, muita gente mesmo. Inclusive [inaudível] Venda Nova. Tocava em um dia e depois ia no Salto,
ia buscar e toca no outro dia, era bonito. [inaudível] não deixa de levar não, (risos) todos anos ele leva. [inaudível] lá na prefeitura e
chega lá, por exemplo, põe energia, mas tem a energia dela lá, mas traz carro de som e põe pra tocar, depois a prefeitura vai
[inaudível] da CEMIG, [inaudível] fica bonito precisa ver o adro como fica bonito é entusiasmado (Zé Mário), quando da festa lá é
entusiasmado (Zé Mário). Mês de Maria agora lá [inaudível] dia de sábado ta rezando lá
J.I: O mês de maio era o mês inteiro de...
MJ: Antigamente, quando eu tava lá, rezava o mês inteiro. Só quando chovia, por exemplo, que não tinha jeito de ir né? [inaudível]
nós fizemos uma Ave Maria e a Léia [inaudível] o povo lá do lugar [inaudível] minha afilhada (na época que eu fiquei lá) imagina
[inaudível] do Camello, o povo do Salto, o povo do Baú e o povo de fora que junta pra ir na festa. Não fica isolado não né? Junta e
faz a festa. [inaudível]
J.I: E no Fundão mesmo diminuiu o número de gente que morava lá né?
MJ: Ah, isso, lá tá muito difícil, antes tinha muita gente que morava lá minha sogra, meu afilhado, meu cunhado, morava próximo na
Igreja lá o lugar tinha muita gente. Um bocado de gente morreu, eu saí, teve gente que não saiu. Tinha a Léia, Aparecida. Aparecida
me ajudava na igreja direto e reto.
GJ - Mas a Léia é mais nova, ela ta perguntando sobre as pessoas que moravam lá. Lá tinha muita gente mesmo, era um povoado
bem grande, mais todos morreram, os mais velhos morreram, outro pessoal mudou para a para cidade, então agora acabou mesmo,
só tem a capelinha mesmo, a fazenda que fica lá é mais isolada, a casa da minha tia lá e um senhor que mora lá nos fundos. Acabou
tudo lá mesmo. Tá bem fraquinho lá o movimento.
J.I: Mas isso é legal na festa né? Que aí quando tem a festa geralmente reúne muita gente que morava lá...
GJ - Ah, aí sim!
MJ – É
GJ - Vai van, vai ônibus, aí fica cheio de gente lá...

MJ – Ficava cheio de gente, ficava bem lotado


GJ – Mas em vista do que era antes, a festa acabou bem mesmo, ultimamente não tem a festa como antigamente mais... O pessoal
era mais religioso, aquela coisa, gostava mais... Vai muito gente ainda, mas não é como antes não.
J.I: É né?
MJ: [inaudível] uma casa agora pra filha do [inaudível] Deram uma casa a ela [inaudível] você procura saber como junta povo...
GJ - Vocês chegaram a ir na Igreja?
J.I: Sim, sim... Nós fomos lá na capelinha sim, a gente conversou com dona Anália, Anália não, o pessoal chama de outro nome...
GJ - Mora lá perto?
J.I: Mora no Baú.
GJ - Ah, no Baú... Almerinda?
J.I: Não, ela é irmã do Valdemiro...
GJ - Valdemiro... mora no Baú?
TP: Valdemiro... foi festeiro...
J.I: Levou a banda pra lá a primeira vez...
TP – Valdemiro de Jesus
GJ - Ah, Valdemiro, é irmão da minha mãe, então você conversou com Alaíde! Alaíde ai pertinho, não mora no Baú não, ela mora
bem pertinho ali uai... O Baú fica lá em cima... Alaíde é minha tia, é irmã de minha mãe.
J.I: Então você é parente do Valdemiro...
GJ - Eu sou sobrinha...
J.I: Pois é, a gente conversou um tempo com ele também... É ele falou bastante coisa da festa pra gente...
TP: Então o senhor era responsável pelos padres e o seu Valdemiro pela banda?
MJ: Valdemiro marcava com a banda [inaudível] festeiro ele marcava e nós acompanhava, ia por exemplo, em Mariana, marcava com
o padre, trazia, pegava e levava pra cá.
TP: E o senhor é quem trazia o padre?
MJ: É ia pra lá pra Mariana, de manhã cedo, saía com ele...
TP: Daí o padre dormia lá?
M: Dormia lá. Ficava na festa e no outro dia ele ia embora.
TP: E a banda também ficava lá...
MJ: Não, com o padre de Mariana já não tem a banda era só o terço
TP: Ah...
MJ: Depois passou pra Ouro Preto, a companhia ajudava, dava uma ajudazinha aí nós levava a banda pra lá. Até o ano, até quando
eu tava lá, ia banda, duas bandas. Uma no sábado e uma no domingo. [inaudível] o povo do Salto [inaudível] da outra vez, um tal de
Afonso falou que ia cuidar da Igreja, que ia arrumar ela, mas até hoje não saiu nada...
J.I: Falaram que ia arrumar alguma coisa da Igreja?
MJ – O telhado dela, o teto dela também... Tá meio, tá meio, não ta muito bom não, vocês viram, tem parte estragado né? Aí não
saiu nada

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J.I: É, realmente os estado da capela está complicado mesmo, está um pouco precário...
MJ: [inaudível] até hoje ainda não saiu nada não.
J.I: Só promessas né? E o senhor quando morava lá chegou a trabalhar na usina?
MJ: Na usina eu tenho ali, tenho carteira tá prá lá, pode olhar, trabalhei na usina 23 anos.
J.I: 23 anos o senhor trabalhou na usina?
MJ: E aposentei [inaudível] registro trabalhei muito nela. Ela ajudou eu a fazer a minha casinha lá [inaudível] o terreno [inaudível] do
tal do Filinto. Já ouviu falar nele?
J.I: De quem?
MJ: Filinto.
J.I: Filinto?
MJ: É.
J.I: Morador lá do Salto?
MJ: É, perto de onde vocês foram, andava lá, por exemplo, plantava as frutas para ele, laranja, verdura [inaudível] foi ele e mais
Antônio Camelo quem ajudou a eu fazer a casa
JI – Entendi.
MJ – Construí a casa lá foi com a ajuda de todos eles [inaudível] aí eu falei, vamos embora, tratar da minha saúde não dá, tô com 82
anos, 83 anos.
J.I: 83 anos? Morou até os 80 lá no Fundão?
MJ: É, eu olhava, cuidava muito da gente, mas [inaudível]
J.I: A última coisa que o senhor falou... Não lhe entendi...
MJ: [inaudível] médica do Salto [inaudível] remédio [inaudível]
J.I: Deixa eu perguntar uma coisa... Sobre a imagem da santa... O senhor se lembra de alguma história que contam... De onde ela
veio, ou você nunca ouviu falar de nada disso?
MJ: Ah isso aí... Quando eu cheguei por lá ela já estava, a santa igual ela chegou... ela já estava, e nenhum velho contou de onde ela
veio, [inaudível] eu já não posso falar...
JI: Nunca ouviu falar?
MJ: Não, ela é antiga, porque quando eu cheguei por lá ela já estava lá, agora isso já não posso falar, os velhos morreram e não
ficou pra contar. Não sei, como posso contar né? Quando eu cheguei lá, quando eu casei, eu olhei lá [inaudível] santa é antiga lá né?
Ela é antiga
J.I: É, a gente ouve uma história ou outra, mas mais antiga a gente não ouviu história sobre a santa não... Geralmente o pessoal não
sabe muito sobre a origem dela. Mas os seus pais também sempre moraram lá no Fundão também seu Mário, ou não?
MJ – Oi?
JI – Os seus pais sempre moravam lá no Fundão
MJ: Não, moravam na serra da Tereza,
JI – Serra da Tereza?
MJ – É, perto de Mariana. Meus velhos veio, morava cá no Fundão e foram embora lá pra serra [inaudível] agora os antigo que tava
lá pra contar isso [inaudível] Joaquim Vieira, meu sogro (Zé do Milho) João do Milho, morava lá no Fundão, quando eu cheguei lá
dava conferência, . Agora a conferência acabou, foi embora para o Baú [inaudível] ta morando no baú agora [inaudível] não tinha
gente pra ajudar né? E está lá no Baú agora.
J.I: E o senhor costuma participar das conferências também?
MJ: É, abria a Igreja pra eles pra celebrar, tudo mais não é? Antigamente era uma coisa louca viu? Mas acabou tudo [inaudível] que
num acaba [inaudível] acabou tudo. Os velhos que tavam lá [inaudível] meu sogro. João do Milho Joaquim Vieira, [inaudível]
ajudavam a cuidar da igreja foram. Ajudava a arrumar no mês de Maria e a conferência que eles davam no dia de domingo. Quando
eu tava lá eu abria [inaudível] faleceu [inaudível] a chave da igreja e abria.
J.I: E na conferência vocês se reuniam pra conversar sobre coisa da Igreja e da comunidade também?
MJ: É
J.I: Era mais ou menos assim...
MJ: É...
J.I: E aí vocês escreviam também...
MJ: Escrever... eu só assinava o nome. É, tinha quem escrevia a ata, mas eu só assinava o nome. [inaudível] cuidava de tudo
direitinho lá, sabia tudo o que passava
J.I: E aí as conferências primeiro era lá na Nossa Senhora dos Remédios depois passou a ser lá no Baú depois né?
MJ: É passou a ser no Baú é, porque tinha pouca gente lá em baixo no Fundão. [inaudível]
TP: O senhor, que cuidou da capela, tem alguma foto, alguma imagem, alguma coisa lá da capela?
MJ: Não. Tem um colete do milagre que ela tem feito, tem lá. Chegou a irmã do Camello carregada, na Igreja que os meninos
carregaram ela pra levar dentro da Igreja. Ela foi lá na cadeira [inaudível] tá lá na Igreja. Saiu de lá andando milagre Nossa Senhora
dos Remédios. Isso ai tava comigo lá eu fui e abri pra eles lá e rezei. Cuidava da Igreja mês de Maria, enfeitava o adro, enfeitava a
Igreja, ficava uma beleza, ficava uma coisa boa. Mas agora acabou, tomara Deus que não acaba. [inaudível] com 3 pra ajudar a
celebrar, tudo isso acabou agora [inaudível]
J.I: 2 ou 3 padres?

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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MJ: [inaudível]
J.I: Ah ia o padre e o seminarista pra ajudar a celebrar...
TP: E o senhor falou que já tinha festa antes de ter banda?
MJ: Já,
TP – Já?
MJ – Já, teve tempo sem banda, depois que passou pra Ouro Preto que arrumou a companhia, festeiro [inaudível] do Salto, trazer a
banda no Fundão também. [inaudível] a esmola, pra comprar uma coisa e outra e faz a festa sem banda. Aquele tempo era boa
demais da conta, era boa. O povo de lá quando vinha banda, essas coisas assim, bebia, ia num boteco, de pinga, aí gostava de
brigar. O pessoal gostava de brigar viu?
TP: O pessoal brigava na festa?
MJ: Ah brigava. Juntava muita gente de fora né? [inaudível] Palmital, Pombal, pegava uma coragem no álcool, que dá uma força
danada né? Falava com um o outro... o bambu caía mesmo (risos). Agora não, agora é beleza pura Não tem negócio de... para
poder olhar a festa
J.I: E o senhor continuava indo na festa ultimamente, quando o senhor ainda morava lá? De 10 anos pra cá, a festa ainda existe e
provavelmente diferente do que existia na sua época, mas ainda existe.
MJ – É, existe
JI – Mas não é muito do seu agrado ir na festa hoje em dia não?
MJ: É bom,
JI – É diferente mas é bom
MJ – É bom, agrada é muito. Nunca desagradei da Nossa Senhora dos Remédios
J.I: Ela já atendeu o senhor em algum milagre?
MJ: Já atendeu muito milagre, que eu tava deitado na cama [inaudível] eu gritei: “Nossa Senhora dos Remédios me valei eu”.
[inaudível] deitado na cama, penso o nome dela e ela me valeu, milagre, se você tem fé com ela, ela vale.
J.I: E o pessoal tem costume assim de deixar assim, por exemplo, um remédio lá que usou, a gente já vi um colete para pessoa que
teve problema na coluna... O senhor tem lembrança de coisas mais antigas, do pessoal colocar lá?
MJ: Agora eu lembro que pediu a Nossa Senhora era uma perna de pau [inaudível] não sei onde ela foi, o compadre Zé [inaudível]
ele pediu mesmo à Nossa Senhora a pena dele melhorou... perna de pau e largou lá na Igreja, mas muita gente mexe né?
[inaudível] porque eu guardo não deixo tirar. Pode ir lá que tá guardado. Tem um rapaz, o carro [inaudível], a orelha dele saiu. Ele
cansou de olhar com médico e ele foi, foi lá com a mãe dele e com a irmã dele foi lá dar uma bença para ele. “Ara, tô cansado de ir
no médico e não ter jeito” Ela pegou o terço meu, eu peguei o terço e rezei para ela, o rapaz me agradeceu: sarou!
JP – Olha só
MJ – É milagre... o rapaz... é milagre!
TP: O senhor falou que vinha padre rezar... Tinha alguma irmandade... Algum grupo de oração de lá da Nossa Senhora dos
Remédios?
MJ: Não... Isso ai eu não lembro...
TP: O senhor não lembra não... E tinha missa toda semana lá na capela?
MJ: Não, só de mês em mês.
TP – Mês em mês?
MJ – As vezes até mais, era a festa do ano, que eles marcavam, só a festa do ano. Agora desta vez eles fazem mais a festa do ano.
Precisa ver que fim levou lá... um casamento que arruma lá, que fim levou. Alguma promessa que tem chama o padre e celebra, mas
é mais é a festa do ano.
J.I: E esse negócio de... É que hoje em dia o pessoal tem todo um cuidado com a santa de colocar o cabelo nela...
MP – Isso, isso
JI – A roupa dela é sempre trocada... Isso você lembra desde...
MJ: Aleluia! É uma coisa louca, A roupa que ela ganha, você fica até boba. [inaudível] ela vem num andor bonito, de longe... e a
banda tocando, é uma coisa louca.
J.I: Legal.
MJ – Brilhando, a coroa, tudo brilhando, ganhava, ganhava e ganha... uma coisa louca
JI – Inclusive tem uma história engraçada que parece que antes, só as meninas mais quietinhas, as meninas mais sérias que podiam
dar cabelo pra santa. E hoje não quem quiser vai lá e pode dar o cabelo pra santa...
MJ: É isso mesmo.
JI: Seu Mário, a gente ouviu uma história, num sei né se o senhor já ouviu falar também. De que teve um tempo lá em Camargos,
mais ou menos na década de 70, uma coisa assim. O senhor conhece Camargos, já ouviu falar? E que teve uma doença lá, se eu não
me engano, a lepra, a hanseníase, e o pessoal ia lá rezar na Nossa Senhora dos Remédios, pra ser curado. O senhor chegou a ouvir
uma história assim ou não?
MJ – Não. Não cheguei a ouvir essa história não.
JI – É, o seu Valdemiro não ouviu falar também não.
MJ – Não, ainda não ouvi falar não
JI – Tinha alguma divisão, por exemplo, as mulheres faziam o mastro ou só as mulheres faziam a comida. Algo assim?
MJ – Da festa, chegava... Do mastro eu que olhava, nunca faltei. Ia lá cortava, depois juntava tudo direitinho e punha a vara da

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bananeira, depois [inaudível] e enfeitava. Agora a cozinheira, eles chamavam, por exemplo a festeira e chamava as cozinheiras para
cozinhar. Agora que passou, mas ficava na cozinha e enfeitava.
GJ – Passava grude
MJ – É, enfeitava... e a cozinha era na minha casa.
J.I: A cozinha era lá na sua casa?
MJ: Era lá minha casa, todos os anos na minha casa [inaudível] fazia as bandeiras, fazia o canudo, a casa era cheia, [inaudível] era lá
em casa também uma coisa louca, agora tudo acabou... passou pra outra banda né?
J.I: Mudou a banda né?
MJ – Agora passou para outro lado. [inaudível]. Na casa da minha cunhada ela cozinhava pra gente, mas agora ela é crente
GJ - Vocês estavam falando de milagre. Nossa, meu iramão, aconteceu um milagre muito grande na vida dele sabe...
J.I: Do seu irmão?
GJ – É, meu irmão, ele tá no serviço, senão ele poderia falar com vocês. Nossa ele teve entre a vida e a morte mesmo. E pediu à
Nossa Senhora dos Remédios que se ele curasse que ele cumpria a promessa. Ele não tava nem andando direitinho não, tava bem
fraquinho sabe. Aí ele pôs a camisola, roupa branco, andou descalço. Mas ele teve ruim, mas ruim mesmo, chegou a ficar internado 3
meses mais ou menos. Ele teve... como é que é alguma coisa que estoura na pessoa, como que é... érnia? Alguma coisa que deu na
tripa dele sabe? No momento não lembro o que é, e uns 7 anos atrás... Aí começou a infecção, quando ele foi ver, ele sentia muita
dor. Quando o médico chegou pra ver mesmo o que era, pra ver se opera ou não opera, não sabia o que era fizeram vários tipos de
exame, e: “Vamos abrir de qualquer jeito”. Quando abriu e a infecção já tava indo pro pulmão, já tinha infeccionado tudo por
dentro... Então o médico falou pra gente: “É só Deus mesmo agora”. E nisso ele ficou lá pondo a sonda... Nossa, mas ficou pele e
osso mesmo! Ficou assim... Morre e não morre, e depois que ele teve isso ai deu trombose na perna. Nossa ele ficou mal. Mas hoje
ele está bem, porque ele pediu tanto à Nossa Senhora dos Remédios, ficou. Hoje ele tá bom, é motorista... [inaudível] Tem muita fé
com ela mesmo, tava assim descalço, meio fraco, o pessoal deram o braço pra ele. Foi um milagre muito grande mesmo na vida dele.
É muito milagre mesmo que ela faz, às vezes tem gente que vai lá cumpre promessa mas nem fala pra gente as vezes [inaudível]. É
muito milagre mesmo... Só que o pessoal que vai cumprir promessa chega lá e pede, eu lembro quando eu morava lá, quando eu era
criança: “Oh seu Mário, abre a Igreja lá”... [inaudível] empresta a chave, vai lá abrir lá para a gente que a gente veio cumprir
promessa, mas às vezes não comentava com a gente. Muita gente que vai lá pra cumprir promessa, muita gente que casa... Às vezes
faz uma promessa... Ah se eu conseguir casar... Aí vai e realiza o casamento lá, há pouco tempo teve casamento lá, é batizado. É
muito milagrosa mesmo aquela santa.
J.I: Que legal.
MJ: É uma dó que acabou, acabou o povoado lá, você tem ido lá. Ficou muito pouca gente que mora lá.
J.I: É, algumas pessoas foram pro Salto, outras pra cá, mas realmente lá devem morar agora 1 ou 2 famílias.
GJ - Moras duas famílias lá agora. Tem uma fazenda lá perto, mas as vezes troca muito de caseiro [inaudível] daquela idade, gente
de fora. Fica uma temporada, depois aí o dono da fazenda não gosta, manda embora, então fica trocando de caseiro sempre. Mas
que mora mesmo lá, gente antigo lá agora, que morou toda vida, é só minha tia e o Bené Fabinho, o resto vieram embora sabe, aí na
época de festa assim marca romaria e vai pra lá. Lá acabou, se vê que meu pai morou tanto tempo lá que ele teve 3 moradas,
morou perto da Igreja, depois mudou da casa de acampamento, que tem lá perto de onde é a [inaudível] e depois foi pra casa que
tem lá agora né ? Muita gente mesmo que morava lá...
J.I: É, você imagina quantas famílias que moravam, mais ou menos lá?
GJ - Ah, tinha, quer ver, tinha mais de 30 famílias que moravam lá.
J.I: E isso faz quanto tempo mais ou menos?
GJ - Ah tem bastante tempo... Só que eu estou aqui em Ouro Preto, tem 25 anos que eu moro em Ouro Preto, é bastante tempo. E
quando eu vim de lá já não tinha mais ninguém. Não, já não tinha mais ninguém mesmo. Só quando eu tava do tamanho dessa
menina, assim menor é que tinha esse povoado lá. Muita gente. Aí depois começou a evoluir as coisas sabe? Lá não tinha quase
nada, os meninos começaram a crescer, vieram pra estudar aqui em Ouro Preto, aí os pais achavam que não dava pra ficar e veio
todo mundo embora, igual meus tios mora tudo aqui, tem muito tempo...
J.I: Pelo que eu tenho ouvido o pessoal que morava lá, geralmente, a atividade era plantar mesmo, ter o auto-sustento
GJ – Eu só vinha aqui em Ouro Preto buscar sal e macarrão, o resto tudo era colhido lá e quando era época de semana santa o
bacalhau que vinha buscar, mas o resto era tudo... tirava da terra mesmo e o sustento deles... Aí chegou a Alcan, aqueles
rapazinhos, igual meus tios que estavam mais novos com 17, 18 anos, chegaram até a aumentar a idade deles pra eles poderem
trabalhar pra construir o canal do rio. Aí depois disso aí, eles casaram tiveram filhos e eles tudo lá... acabou, então eles vieram tudo
embora, agora tem pouca gente.
JIP – Infelizmente a capelinha...
GJ – Igual mês de maio, eu lembro que eu coroei muito lá, nossa muito, mas muito mesmo, de segunda à segunda, o mês inteirinho,
coroação todos os dias, a capela cheia, leilão, aquela coisa era gostosa demais, muito bom. De vez em quando tinha missa, fazia,
celebrava. Agora acabou mesmo.
J.I – É, mas a festa ainda acontece né?
GJ – É, ainda acontece ainda, por enquanto está acontecendo. Tá fraquinho mais ainda acontece.
TP: Vocês participam da festa ainda?
GJ - Participo. A bandeira saía sempre lá de casa sabe? Minha mãe fazia festa, tradição era dar pão com salame pro pessoal, um
refrigerante, um suco, uma coisa assim... cachorro quente, fazia aquela panelada de comida para aquele pessoal. Pra aquelas

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pessoas que passavam necessidade, é difícil ver um cachorro quente, uma coisa assim, juntava muita gente mesmo, filas e filas.
Depois no sábado chegava a banda, pegava a bandeira, acende as velas, porque da minha casa até na Igreja não tem luz, aí vai de
vela, rezando até chegar lá, aí tem a missa. O padre já não fica mais lá não, vem embora aí no outro dia volta de novo. Tá fraquinho,
mas ainda continua ainda, é gostoso. Lá eu não sei como vai ser esse ano, minha mãe não vai estar aí... Deus levou ela, então não
sei como vai fazer. Não sei o pessoal diz que vai fazer como ela fazia antes, do jeito que ela gostava.
J.I: E tinha alguma comida de panela típica assim, que fazia sempre na festa?
GJ - A comida lá era sempre assim: Era tutu, eles falavam tutu, carne de panela, que faziam muito, o resto era assim normal mesmo,
coisa que hoje a gente come no dia a dia sabe? Agora na época assim dos meus avós eu não lembro o que eles faziam não, agora
quando eu entendia assim por gente o pessoal cozinhava lá em casa o padre ficava lá em casa, padre Martins sabe? Então, ficava lá
sexta, sábado, domingo que ele vinha embora. Aí ela fazia sempre esse tipo de comida, ele gostava também que fazia um angu fino,
angu com queijo, fazia o angu bem molinho aí picava o queijo, enfiava o queijo derretido no angu.
JI – Legal. Você está pensando em ir lá esse ano?
GJ – Ah não, a minha mãe não está mais aí, eu não vou mais lá não. Lá mesmo agora só vou voltar lá no Salto [inaudível] vou pagar
a língua, não vou lá mais não. E outra que eles estão vendendo lá também aonde que a gente morava, já tá praticamente vendido,
graças à Deus, chega de pagar aluguel. Então aí eu creio que não, meus irmãos devem ir, algum deles deve ir

(Girlene conversa com seu sobrinho)

J.I: Então são muitas boas lembranças da festa Silmara?


Mj: Eu tenho muitas, tenho muitas lembranças e amor e fé. Quando eu vejo falar que vai fazer festa lá no Fundão eu fico
preocupado, quando eu não posso ir fico preocupado mesmo. É uma coisa louca viu?
JI – É uma coisa louca
MJ – Eu saía na procissão, saía com a bandeira ou saia com a cruz ou ficava no meio da bandeira... onde o pessoal andava junto, o
padre também andava.
J.I: Você costuma ir com a bandeira dela e essa bandeira que colocava no mastro depois?
MJ: É, quando eles iam levantar as bandeiras, ficava muita gente, ficava lá muito tempo, depois eu pedia para um companheiro ia lá,
vestia as bandeiras para não estragar e punha dentro da igreja, guardava os mastros. O povo, por exemplo, quando vai fazer a festa
vai fazer a festa usa tudo, mas depois esquece. Esquece pra cá... eu não, eu vou cuidar, enquanto eu puder não deixo estragar, não
deixo não.
J.I: Está certo. É sua filha né?
MJ: Ela estava falando desse costume de ir descalço para a procissão, mas é só quem está pagando promessa né?
M: É, promessa.
J.I: Eu nunca fui na festa não, mas parece que é uma festa que apesar de ter mudado bastante continua muito bonita, e que o
pessoal é muito devoto mesmo da santa.
MJ: Muito devoto. Isso aí eu vou falar com você... É muito devoto, o povo de lá é muito devoto, na festa você pode ir não é difícil né?
É uma estrada boa.
J.I: Nós vamos lá, nessa festa em agosto agora nós vamos.
MJ: [inaudível] O padre é daqui... é o padre... tem hora que eu esqueço o nome dele, ele é novato lá, padre Marcelo, acho que é o
padre Marcelo muito bonzinho. Vocês marcam de ir uma vai dia de sábado vai um, e no dia de domingo vai o outro.
J.I: Mas ali no Salto não tinha um padre que ficava ali na capela direto, ele só vinha de vez enquando?
MJ: Ali era o padre Marcelo, celebrava no Fundão e celebrava no Salto. Lá o povo celebrava no Salto ou desce no Fundão, o padre
Martins, celebrava no Baú ele ia lá e dormia lá em casa. Era uma coisa louca, o padre Martins celebrou muitos anos lá. Padre muito
bom... tinha Padre Barroso [inaudível]
J.I: Eu ouvi falar do D. Barroso também, depois virou...
MJ – É
JI – E o senhor tem quantos filhos seu Mário?
MJ: Eu tenho 9 filhos. Tinha dez, Deus tirou um, eu tenho nove filhos
J.I: E nenhum deles ficou morando lá na região?
MJ: Não, isso aí eu vou falar com você [inaudível] nenhum tem vocação. Eles ajudavam, mas nunca que chegava, por exemplo, para
poder fazer [inaudível] feriado [inaudível] algum “trem”, alguma coisa fora do lugar ele consertava. Os outros um por dia [inaudível]
queria fazer de um jeito e turista. Queria fazer um “trem” de um jeito e o povo queria fazer de outro jeito é por isso que [inaudível]
vamos pra ali? Vamos. Vamos pra cá? Vamos. [inaudível] por isso que eu [inaudível] uma
JI – Turista?
MJ – [inaudível] bonito é ser turista [inaudível]
J.I: Eu não lhe entendi direito...
MJ: É uma região bonita, agora vamos fazer uma festa aqui hoje? Bonito, agora o outro chega aí [inaudível] ao contrário, em vez de
ser ele o certo, tá errado, ta errado
J.I: De querer fazer a reunião em outro lugar? A reunião que você fala, não a festa, é reunião de Igreja?
MP: Igreja serve pra fazer reunião, o povo chega lá quer bater um papinho de um jeito o outro quer virar de outro jeito, fica tudo no
meio do caminho. Vai fazer uma reunião, para decidir e seguir as coisas que vai fazer. Aí chega outro e diz que não vai fazer aquilo,

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fica tudo no meio do caminho. Vocês já foram no Fundão né?


J.I: Nós já fomos no Fundão sim, eu fui algumas vezes, e ele foi uma vez, faz umas duas semanas né? Teve lá.
MJ – Teve lá
JI – Tivemos, aí conversamos com o pessoal lá, conversamos coma Edir, com a...
MJ: Léia?
J.I: É com a Léia eu conversei da primeira vez que eu estive lá. E ficamos lá na capela um tempo, conversamos com um pessoal,
vimos né que o estado da capela está realmente complicado.
MJ – Tá complicado
JI – Tá sim, vamos ver né... de repente o pessoal da comunidade consegue uma reforma lá?
MJ: Lá vocês tem que procurar por Afonso...
J.I: Afonso?
MJ: É, o Afonso, você pode procurar por ele, porque ele que pediu pra consertar, o padre tava lá celebrando bateu palmas para ele,
[inaudível]lá procurar por ele, e por Léia que ajuda, pede pra companhia, uma coisa e outra pra poder fazer isso.
J.I: Esse Afonso tem que idade mais ou menos?
MJ – Hein?
JI – Esse Afonso que o senhor disse tem que idade mais ou menos?
MJ: Tem na base de 50 anos. Procurar saber dele, se ele não quiser ajudar, procurar outro né?
TP: Como que é o nome desse Afonso mesmo?
MJ – Oi?
TP – Como que é o nome do...
MJ: Afonso.
TP – Afonso
MP – [inaudível] mas até hoje não tocou nada, não resolveu nada.
J.I: Uma pessoa que está tentando, está se empenhando para conseguir de repente restaurar a capela lá é o trocado, o Geraldo
trocado.
MJ: Ah o Geraldo trocado, ele pode ajudar né? [inaudível] pra subir lá no telhado tava, [inaudível] nós subia lá tava tudo podre, e nós
arrumava tábua e remendava tudo o altar, tirava fora e pegava tudo direitinho, quando eu tava lá eu mesmo olhava [inaudível] tem o
patrimônio pra mexer, só o patrimônio que pode mexer, mas deixar estragar é que não pode né? Nós subia lá e punha a telha no
lugar [inaudível]
J.I: Não dá pra ficar esperando o patrimônio ir lá.
MJ: Nesse sentido aí... da minha parte ainda tá lá, todo mundo dá uma ajuda pede uma esmola coisa e outra pra ajudar, pede a
companhia uma coisa e outra pra ajudar. Lá não é muita coisa não, lá é o teto, o forro de cima, qualquer hora fica sem o forro, um
forro de madeira boa, forro de ripa e com o tempo deixou estragar. Agora por exemplo eles querem mexer no telhado por que
fugiram algumas telhas e algumas madeiras. Não está muito difícil não, não é uma parede [inaudível] fora do lugar [inaudível] não
pode né? Fica muito mais bonito, aí o povo fica mais entusiasmado [inaudível] forca [inaudível] São José [inaudível] o padre vai lá
celebra e tudo bem, cá em baixo na... E ninguém entra [inaudível] na da forca [inaudível] São José, a Igreja de São José. [inaudível]
quando vai celebrar o padre, vai lá e celebra, [inaudível] uma coisa louca [inaudível] daqui ali ó, pedia licença e entrava, se não pedir
chama o guarda na hora, não entra, você pode procurar saber, [inaudível] na forca
J.I: Restringe o acesso do pessoal à Igreja né? Reforma tudo daí... É complicado.
MJ: Nossa igreja [inaudível] bem mais bonita, e vai celebrar, o padre vai celebrar vê tudo bem [inaudível] vocês à ajudar Igreja Nossa
Senhora dos Remédios que depois ela depois vai ajudar vocês, quem vai pagar é ela.
J.I: Pode deixar seu Mário,
MJ – Ela quem vai pagar
JI – A dica está dada.
MJ: Com Deus tudo sem Deus nada.
J.I: Será que você vai lá esse ano?
MJ: Ah eu vou ver se eu vou, as minhas pernas não ajudam não... De carro, vou fazer uma força pra ir.
J.I: Tomara aí a gente vai se encontrar lá.
MJ: Se eu for é domingo, no sábado tem foguete levantar a bandeira [inaudível] foguete demais, nossa senhora! [inaudível] 50, uns
500, o que você tem pra ajudar foguete é o mais caro... põe fogo no mastro, na bandeira, sai tudo direitinho. Arranja tudo diretinho,
vocês tem que ver quando acender, é uma beleza.
JI – Poe fogo na bandeira?
MJ – É... na bandeira não que eles fazem o rastro, eles fazem a [inaudível] desce a bandeira de São João, Santo Antonio e Nossa
Senhora dos Remédios eles botam fogo tudo no sábado, é uma beleza. Vamos ver, se Deus me der minha saúde eu posso ir até
sábado, fico com um parente, eu fico lá
J.I: Tomara que não acabe a festa, que continue ela é bem importante pro pessoal.
MJ: O Nelson é devoto, mas a dona não. Rezou muito em mês de Maria comigo, mas virou a cabeça. Agora o Nelson não, o Nelson,
os filhos dele, Zezé, é muito devoto. Aquele ali não saiu não, que o terreno que eu vendi para ele quando ele tinha entrado na
companhia, pra fazer uma casinha foi embora [inaudível] bananeira foi do Valdemiro, plantou, foi embora venderam tudo no meio
das bananeiras, plantou alguns pés acabou.

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J.I: Você tem contato com o Valdemiro, vocês se falam ainda?


MJ: Valdemiro, faz tempo que eu não vou mais na rua... ele mora muito longe, umas
J.I: Nós fomos na casa dele ali na Vila Aparecida.
MJ: Ele contou coisas da festa pra vocês?
J.I: Contou, contou bastante, ele falou pra gente que ele foi a primeira pessoa a levar a banda lá pra festa.
MJ: Foi isso mesmo, foi [inaudível] daí continuou, a banda continuou.
J.I: Isso foi uma coisa que eu não entendi direito que o senhor falou. O Valdemiro falou que foi na década de 50 que começou a ir
banda, pra festa de Nossa Senhora dos Remédios, mas antes de banda, já tinha alguma coisa, já tinha algum tipo de celebração?
MJ: Tinha.
J.I: E aí como é que era?
MJ: [inaudível] o padre vinha levantar bandeira [inaudível] quando ele saía de lá [inaudível] vinha e levantava os mastros, tinha
foguete [inaudível] não tinha banda mas tinha muito entusiasmo, celebrava, pregava o sermão muito bem, fazia o café [inaudível]
depois saia tinha a procissão junto com o padre, soltava foguete [inaudível]
J.I: Mas aí não tinha música...
MJ: Não tinha música [inaudível] a festa ficava uma coisa muito entusiasmada o povo fazia [inaudível] a mesma coisa [inaudível] pro
povo sambar, não tinha nada disso [inaudível] ia pra casa no outro dia voltava pra Igreja, o padre vinha rezava [inaudível] nós fazia a
mesma coisa sem a banda, era bonito.
TP: Então quando começou a festa? O senhor sabe quando que deve ter começado essa festa?
MJ: Quando eu casei teve, 56 anos de casado, eu me casei com 22 anos. Faz as contas pra vocês verem aí.
J.I: Desde pequeno?
MJ: Desde os 20, 22 né?
J.I: E o senhor casou lá na capela?
MJ: Casei em Mariana, com Dom Oscar, na Sé. [inaudível] muitos anos, não é brincadeira...
J.I: Seu Mario, tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de falar pra gente sobre a festa, que de repente ficou aí no meio do
assunto?
MJ: Não, a festa é isso aí mesmo que eu contei pra vocês, os padre que celebrou, vinha de Mariana de cavalo, e era muito
entusiasmado, depois passou pra Ouro Preto, paróquia passou pra Ouro Preto, que era de Mariana.
J.I: Antonio Dias né?
MJ: O padre passou a paróquia [inaudível]
J.I: Ah, entendi.
MJ: [inaudível] Fundão [inaudível] procurar saber né?
J.I: Agora quando vocês faziam essas conferências que o senhor falou, quem costumava escrever a ata?
MJ: Era o Joaquim Vieira.
J.I: Joaquim Vieira?
MJ: É, e Joaquim Bernardo, agora passou [inaudível] casou [inaudível] pra Aparecida. Escreveu a ata, tudo direitinho.
J.I: E o Joaquim Vieira e o Bernardo, você sabe onde é que eles estão?
MJ: Eles moram no Baú. Eles morreram.
J.I: Ah, os dois morreram?
MJ: Morreram. [inaudível] esqueci de falar, Aparecida escreveu ata também. [inaudível]
J.I: Quem?
MJ: Geraldo Tonico, ele morreu e eu fiquei sozinho lá na Igreja. Já pensou? Pra celebrar, uma coisa e outra lá [inaudível] Geraldo
trabalhou muito lá, ele que escrevia ata. [inaudível] dava conferência, varria a pracinha.
J.I: E o senhor cuidava da capela desde que casou, e ficou cuidando até um pouco antes de ir embora de lá?
MJ: É.
J.I: Todos esses anos até o senhor sair de lá você ficou cuidando de lá.
MJ: Cuidando da capela, agora passou pra Aparecida e a Léia pra ajudar a Aparecida.
J.I: Então tinha muito dessa história né seu Mário? Do pessoal que não ta muito bem ir lá e pedir pra você abrir a porta da Igreja.
MJ: Eu ia lá,abria, eles agradeciam muito, cumpriam a promessa, deixavam esmola às vezes e eu passei a chave para Alaíde, que
está mais perto, não sei se Léia levou a chave pra casa dela.
J.I: Acho que sim, acho que tem chave, Edir, Léia, Aparecida e Alaíde também.
MJ: Acho que na casa de Alaíde ficou uma chave né? Não pode ter tirado porque chega uma pessoa pra ver... Vou procurar saber
disso. Léia não podia fazer isso não.
J.I: Pegar a chave?
MJ: Ela pode pegar a chave, [inaudível] uma na casa de Alaíse, na casa de Aparecida e dela. É, porque Léia não para em casa, não
pode ter horário pra cumprir promessa né?
J.I: É, mas eu não sei direito, não tenho certeza.
MJ: Quando eu tava lá, ficava na casa de Alaíde. Ficava lá em casa, quando ia na Igreja, na casa paroquial [inaudível]
J.I: Olha seu Mário, muito obrigada pela entrevista, pelas lembranças que você contou pra gente, e o trabalho é esse, a gente vai
ouvir várias pessoas, achar algumas fotos e tal e aí vai escrever um texto sobre a festa, o que a gente ficou conhecendo da festa, vai
ser assim. Então obrigada pela contribuição.

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MJ: Estamos às ordens


J.I: Quem sabe a gente se encontra lá.
MJ: Se Deus quiser, nós vamos.

Transcrição: Júlia Indira Peixoto


Revisão: João Paulo Martins e Tadeu Pamplona Pagnossa

Entrevista com o senhor Valdemiro de Jesus (VJ), antigo morador do distrito de Santo Antônio do Salto, sobre a festa de Nossa
Senhora dos Remédios, no Fundão do Cintra.
Entrevistadores: Júlia Indíra Peixoto (JI) e Tadeu Pamplona Pagnossa (TP).
Realizada no dia 20/06/2009

JI - ... daqui da região, o João talvez tenha explicado um pouco. E ai a festa que a gente está fazendo esse registro é a Festa de
Nossa Senhora dos Remédios
VJ – Que é no fundão
JI – Lá no fundão, e ai falaram que o senhor tem o conhecimento e memória da festa e que inclusive tenha talvez iniciado a festa
VJ – Eu nasci e criei lá, meu nascimento foi lá e... quando eu saí de lá, quando eu vim pra Ouro Preto já estava, foi em sessenta e
cinco, que eu vim para aqui, já tem quarenta e quatro anos que eu moro aqui ai meus filhos, toda a infância, meus velhos de galho
morreram tudo lá, meus filhos nasceram todos lá
JI – Então eu te interrompi, mas o senhor estava da sua infância no Salto
VJ – Eu fui nascido e criado lá
JI – A gente conversou com a sua irmã a Arnália.
VJ – Você com versou com a minha irmã lá no Fundão? É Laíde, Laíde de Jesus.
JI – Laísa?
VJ – Laíde de... Laíde
JI – Laíde. Mas o pessoal chama ela por um apelido, Arnária.
VJ – É, eu tenho uma irmã que mora lá. A igreja fica de um lado e ela mora assim do outro lado. É a Laíde, minha irmã.
JI – Inclusive ela mostrou para a gente uma coisa que foi a base de uma casa, o alicerce de uma casa que fica ao lado da capela do
Fundão e ai ela disse que era a casa do senhor. Era isso mesmo?
VJ – Não, aquela casa primeiro que ela mostrou que foi a minha casa, não foi a minha casa. Foi a casa dos meus avós, dos meus
avós.
TP – E o senhor morou lá?
VJ – A minha casa era do lado de cá
TP – O senhor morou lá naquela casa?
VJ – Eu morei na infância. Eu não tenho mais recordação mais daquela casa, porque isso ai quando meu pai fez a casa do lado de cá,
onde hoje é pasto de criação, ali naquela parte ali foi a casa do meu pai. Na minha infância, quando eu morei naquela casa... eu não
tenho recordações dela quando eu morei. Mas a casa, por exemplo, lá moraram depois meus tios, que morreu também nela, meus
avós foram morrendo, meus tios, João de Jesus morou muitos anos com a família dele, depois ele saiu e depois morreu. A senhora
dele chamava [inaudível] da Costa Reis, morreu também. Ai é o seguinte, ficou meu pai, fez uma casa do lado de cá, onde é a casa
de Alaíde, do lado de cima ali aonde é o pasto de criação...

(D. Maria Mota de Jesus adentra na sala e cumprimenta a todos )

VJ – Ai nessa ocasião então ficou meus pais com a minha família tudo do lado de cá, mas eu nasci naquela casa que nós estamos
falando, mas dizem que até depois que a gente saiu da casa lá... Tem uma casa nova agora lá, nesse lugar aonde ficava a velha... foi
da igreja que eles fizeram lá, mas eu não fui lá mais não, não vi, não conheço essa casa lá não.
TP – Eles construíram o salão paroquial lá
VJ – Tem pouco tempo fizeram esse “trem” lá, tinha a casa velha... tinha a base da casa do meu pai, já desmanchou tudo né?
JI – É
VJ – Mas a casa era muito grande, aliás, eram duas casas uma grande e uma menor ao lado. Morava um da nossa família, chamava
Agostinho Alves
JI – Chamava o que?
VJ – Morava um rapaz nessa casa que era pequena, então era Agostinho Alves
JI – Agostinho Alves
VJ – Agostinho Alves, e a “Dona” dele chamava Josefina, Josefina de Jesus.
JI – Então... ali foi a casa da sua família, dos seus avós e o senhor morou lá só durante a infância...
VJ – É, primeiro fui morar lá, com meus avós, nem tinha recordações deles direito. Agora da minha avó eu tinha recordação,
chamava Sebastiana de Jesus e o marido dela chamava Elídio, mas esse eu não cheguei a conhecer ele.
JI – Tá certo, ai depois o senhor foi morar ali perto da capela também, da Nossa Senhora dos Remédios ou não? Depois que você se

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mudou, quando você saiu da casa dos seus pais ai o senhor continuou morando perto da capela?
VJ – Quando eu sai da casa dos meus pais que eu casei assim? Eu morei, fiz uma casa perto da casa da Alaíse que vocês foram lá,
tem a casa lá em cima, ela não mostrou onde eu morava lá? Mostrou ou não?
TP – Não
VJ – A minha casa... a casa da Alaíse lá de baixo... as próprias madeiras da minha casa eles compraram lá e fizeram a casa lá de
baixo. Eu vim aqui para Ouro Preto... e a minha casa era lá em cima assim... foi aonde eu criei minha família lá.
TP – Então morava todo mundo perto?
VJ – Morava tudo perto. Tinha outras famílias que moravam lá também, o Mario de Jesus, mora lá no Fundão também, casado com a
minha irmã Marcolina, faleceu a pouco tempo agora, Marcolina de Jesus e Mario de Jesus, era casado com ela e hoje seus filhos
também tudo lá, estão todos em Ouro Preto agora. Agora tem um filho dele que ainda mora lá ainda, lá no Fundão, é perto do
acampamento aonde tem a casa da companhia, vocês foram lá ou não?
JI – Será que é no lugar aonde a gente almoçou?
VJ – Lá na casa da Alaíse, sobe assim, vai lá no acampamento, tem uma casa da companhia e tinha uma casa que foi desse... é dele
ainda mas ele não mora lá mais. É um filho dele, mas ele fica sozinho na casa, tem a empregada que trabalha lá... e o Mario mora
aqui em Ouro Preto e a senhora dele morreu aqui. Ele chegou a morar pouco tempo aqui. A menina morou uns dois anos que ela
morou ai. Agora seu Mario, o marido dela e os outros filhos quem moram aí.
JI – Mas seu Valdemiro, a gente tava pensando, não sei se o senhor confirma também, você quem teria começado a festa lá da
Nossa Senhora dos Remédios?
VJ – Nossa Senhora dos Remédios até você vê, todo ano tinha festa. Quando não era em setembro era outubro, mas... era uma vez
só por ano celebrada lá, no tempo meu lá, celebrada quando não fosse em setembro era em outubro. Agora, todo ano tinha, mas
juntava muita gente. A população no Fundão lá onde é que eu morava lá tinha numa base só ali no Fundão, uma, duas, três, quatro,
cinco, seis, sete, oito, nove casas, e uma que tinha no acampamento, tinha nove casa, mas tinha uma lá. Todas casas estavam
cheias, aí esparramou tudo (inaudível), Ouro Preto.
JI – Outros mudaram para o Salto
VJ – É alguns ficaram para lá mais perto, mas a maior parte foi tudo para Ouro Preto. Foi tudo embora ou já morreu. Agora a festa lá
é todo ano, primeiro a festa não tinha banda nem nada. A banda até eu tenho a recordação até de quem primeiro levou a banda foi,
primeiramente Deus, depois fui eu. Trabalhava nas usinas lá do Salto na no Funil, a usina que eu trabalhei 23 anos e 16 dias... e ai a
primeira banda que levou lá no Fundão, na Festa de Nossa Senhora dos Remédios fui eu. Agora não tenho recordação se foi em 51
ou 52 por aí. Não tenho certeza, isso eu não posso falar com certeza o dia certo, o ano certo eu esqueci de memória... mas juntou
muita gente, quando juntava só missa e terço juntava muita gente, mas quando foi a banda, Nossa Senhora, juntou gente de toda
parte por conta disso. A procissão (inaudível) mas muita gente mesmo. Agora continua, depois mesmo da primeira vez, mesmo eu
quando festeiro da festa retornei à levar a banda lá outra vez, depois agora continuou que todo ano a festa lá e eles levam a banda,
trabalha até a banda de Passagem de Mariana
JI – Mas antes de você levar a banda lá a primeira vez, já havia a festa também?
VJ – A festa todo ano, todo ano tinha missa com os padres de Mariana, com padre Armando, padre Armando não sei se você
conheceu, nem conheceram ele porque esse padre Armando faz tempo que morreu há bastante tempo, não conheceu ele? Conheceu
nada, padre Armando.
JI – Pai de Armando?
VJ – Armando, padre Armando. Depois esse bispo que morreu em Mariana, Dom Oscar de Oliveira, Dom Oscar você conhecia ele?
JI – Sim, sim
VJ – Dom Oscar celebrou muitas vezes lá no Fundão, chegou a dormir na minha casa lá no Fundão. Dom Oscar, quando ele morou lá,
quando ele ia celebrar, ele era cônego não era bispo ainda hein, era padre. Depois de padre passou à cônego, celebrou diversas
missas lá, Dom Oscar. Mas os primeiros padres do meu tempo foi o padre Armando, já morreu, só que ele morreu deve ter uma base
de uns... Padre Armando é capaz de ter uns 35 anos a 40 anos que ele morreu, porque eu morava no Fundão ainda.
JI – Mas o senhor falou que tinha missa antes na capela de Nossa Senhora dos Remédios antes de você levar a banda para lá, mas
festa já tinha antes disso, de 1950?
VJ – Tinha, tinha sim
JI – Festa, já tinha festa antes?
VJ – Festa... tinha missa e terço, missa e terço. A festa de Nossa Senhora é quando vai a banda né? Quando vai a banda o pessoal
fala que é a festa. Agora quando é missa e terço o pessoal fala que é missa e terço. Ai mas o padre ficava lá, ele chegava sábado e
vinha embora de lásegunda feira.
TP – Então foi o senhor quem trouxe a banda?
VJ – A primeira vez no Fundão fui eu... foi o povo, mas tinha a minha indicação, mas foi o povo (inaudível) foi o povo quem ajudou,
cada um deu um bocado das esmolas, aí corria rifa para aqui, rifa para aqui, juntou o povo e então fizemos a festa lá.
JI – Era a banda do Salto quem vinha?
VJ – A banda foi de... Passagem de Mariana a banda chama se Santa Cecília, a Santa Cecília foi a primeira banda que foi lá. Uma
festa muito organizada, o pessoal muito satisfeito, e aí continuou e daí pra cá todas as festas agora tem a banda. É uma vez por ano

JI – E tem outras coisas... agora é em agosto, o você falou que no começo era em outubro, é isso?
VJ – Não, agosto... a festa lá era sempre setembro e outubro. No tempo em que eu estava lá era sempre setembro e outubro, mas

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agora continuou, me parece que a festa lá, esse ano é agosto e setembro. Agosto, setembro e outubro, aqueles três meses é que
eles fazem a festa lá. Tem o mês de Maria lá no Fundão, o mês de Maria é em maio, tinha a coroação da Virgem, eles coroavam. Na
hora da oração lá na Igreja tinha os terços, a Bíblia... a Bíblia não, o ponto quem para levar em Nossa Senhora dos Remédios. Quem
lia o ponto então era eu, que eu tinha um pouquinho mais de adiantamento nas escrituras, nas letras, então eu lia para eles. Muitos
anos, todo ano, a não ser eu estava entrevado quando tava na hora do serviço, que eu trabalhava nas usinas (inaudível) mas todos
os sábados, todos os dias do mês de maio só, tinha o terço. Tinha a oração de Nossa Senhora dos Remédios lá, no mês de maio, o
mês inteirinho. Dia primeiro a dia trinta as crianças faziam a coroação na igreja de Nossa Senhora dos Remédios
JI – Todos os dias do mês de maio tinha a coroação?
VJ – Todos os dias tinha coroação de Nossa Senhora dos Remédios, agora acabou tudo isso.
JI – E rezava o terço também?
VJ – Rezava o terço e tinha oração também para... todo os dias rezava. Tinha até cantoria, as pessoas mesmo iam cantar, essas
coisas morreram também, agora tudo isso acabou lá. Agora montaram até uma igrejinha lá pro Baú, agora montaram lá no Baú, para
cima do Fundão, eles falaram com vocês, a menina falou para vocês o negócio do Baú? Pois é, é pra cima, do Fundão mais ou menos
na base “de a pé” indo a pé uma base de uns vinte minutos.
JI – Isso o que?
VJ – Uma igrejinha que tem lá, aliás essa igrejinha eu não conheço ela, lá no Baú.
JI – Ah sim, a gente teve lá.
VJ – Teve no Baú? É uma igrejinha pequena, eu não conheço essa igrejinha lá, a do Baú. E o pessoal do Baú é quem vinha ajudar
nós cá no Fundão para rezar. O pessoal e as moças cantavam lá, todo mês de maio eles vinham, todo santo dia, não parava um dia.
Era de... o mês de maio só, todo dia vinha fazer oração na capela de Nossa Senhora dos Remédios. Aí rezava, depois tinha o publico,
tinha leilão que a festa que fazia em setembro, outubro e dava os leilões, o pessoal cantava leilão, uns cantavam...
JI – Leilão assim, animado?
VJ – Faziam: é cinco, o outro, é dez, o outro é quinze, outro, quinze, outro, vinte. Ai é o seguinte, arrematava o leilão e as vezes o
camarada... se pudesse pagar, pagava na hora, e se não pudesse, ficava escrito no papel lá, no dia da festa aquela pessoa ficou
devendo aquele resto dos leilões que arrematava. Tudo bonitinho.
JI – Leiloava o que, animais?
VJ – Não, animal não, coisas pequenas: um queijo, era um doce, era um pacote de um mantimento qualquer, era mais bolo, mais era
bolo, frango, essas coisinhas assim arrematava... coisa grande não, era coisinha pequena (risos). Era uma frango, uma dúzia de ovos,
por exemplo, mas mais a freqüência era um bolo. Fazia aqueles bolos arrumadinhos ai o pessoal arrematava, e um frango.
JI – Uma coisa que hoje parece que tem na festa e eu não sei se na sua época já tinha, quando você começou a fazer a festa lá, que
era o negócio do mastro.
VJ – Tinha o mastro também, justamente, tinha o mastro. Muita coisa você recorda e fala para mim, tudo que eu puder... que passou
lá eu falo. Tinha os mastros, levantava os mastros. O caso de uma festa que tinha lá... tinha dois mordomos. Esses dois mordomos é
que chega no dia de levantar o mastro aí soltava aquela porção de foguetes, ia comprar muito foguete, enfeitava o largo todo da
igreja em enfeita a... cruz que tinha lá. A cruz lá tinha muito tempo, acho que até caiu essa cruz já, em frente a igreja, acho que já
caiu
JI – Tá lá, ta lá a cruz, tem um galhinho em cima dela
VJ – Que eu estou lembrado estava toda estragada a cruz. Era toda enfeitada, mas uma festa muito bonita. Ai os mordomos
compravam aquela porção de fogos e soltavam. Ai no outro ano seguinte, eles fizeram esse ano, quando foi no ano seguinte, já eram
outros mordomos (inaudível) era mordomo também, (inaudível) o outro fazia a mesma coisa. Era muito bonita a festa lá.
TP – Então era assim. Tinham alguns mordomos...
VJ – Os mordomos. Os mordomos que eu falo eram os que ficavam responsáveis para fazer a festa do mastro, por levantar o mastro.
TP – E tinham e tinham muitos mordomos?
VJ – Não, dois só.
TP – Só dois?
VJ – Mordomo eram só dois, mordomo eram só dois, dois homens. Ai era o seguinte, aqueles dois é quem faziam uma despesa para
soltar... o que tinha também era só soltar fogos, comprar os fogos e só, de mais não tinha mais nada. Tinha o enfeite
JI – Como é que é?
VJ – O enfeite de papel para enfeitar o adro e fogos para soltar, era só isso. E tinha a reza no cruzeiro também, tinha reza no
cruzeiro, na levantação do mastro as vezes nas missas, fazia reza na frente do cruzeiro na elevação do mastro, era muito importante.
JI – Não sei se ainda tem reza lá no cruzeiro.
VJ – Agora não sei se isso continua, me parece que, não tenho muita certeza, não posso informar, por que pode haver que acabaram
com isso lá. É que faz muito tempo que eu não vou lá, é que minha saúde não está muito boa, idade também muito avançada, então
eu sou muito difícil de sair de casa, fico mais em casa.
JI – Faz quanto tempo que o senhor não vai lá na capela?
VJ – Desde que eu não vou lá faz tem seis anos, que eu não vou no Salto, na minha terra lá no Fundão.
JI – E a ultima vez que você teve lá você foi na festa?
VJ – Não, eu fui na casa da minha irmã lá, não fui na festa.
JI – Ah tá
VJ – Na festa, depois que eu estou aqui, eu só fui uma vez.

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JI – E faz quanto tempo que você foi lá


VJ – Que eu fui na festa lá tem mais ou menos, na base de uns... uns dez anos ou mais
JI – Uns dez anos?
VJ – É
JI – Você se lembra de Aparecida, de dona Edir?
VJ – Hum?
JI – Aparecida e Edir, lá do Salto?
VJ – Aparecida eu lembro, ela teve muito tempo fazendo procissão lá no Fundão, não sei se continua ainda. Eu lembro dela lá.
JI – Então elas que... e a Léia, elas que organizam a festa hoje em dia.
VJ – É elas que estão organizando a festa. Nos tempos que... quem tava organizando, tava mexendo era ela. A última vez que eu fui
lá, quem tava envolvendo com as coisas era ela, do Salto, conheci
JI – Mas aqui, uma coisa seu Valdemiro, em relação à santa que hoje, e eu acho que já faz algum tempo, aquela santa, o pessoal
toma muito cuidado dela, trocam sempre a roupa dela...
VJ – Troca sim, troca
JI - ...colocam um cabelo novo nela.
VJ – É troca sim
JI – Isso também desde o começo da festa, na década de cinqüenta, você falou, já era assim?
VJ – Era assim, tudo corria do mesmo jeito, sobre os regulamentos do princípio, a festa continua a mesma coisa, trocava a roupa. Até
eu me lembro, por exemplo, que a minha tia (inaudível) era até aleijada de uma perna, andava mancando, ela mesma zelava por ela
por ocasião da festa. Ela ia na casa do Fundão, na casa da minha mãe, ela ficava passando a roupa da Nossa Senhora dos Remédios,
aquelas roupas pequenas, aquelas pequenininhas. A roupa toda da igreja ela trocava tudo e passava bem passadinho e guardava lá
na igreja. Aí dentro da igreja... já entrou dentro da igreja? Entrou né?
JI – Já
VJ – Pois é, naquela caixa grandona lá, não sei se continua mais não. Hoje já trocaram, tem tempo que eu não vou lá.
JI – Tem o que?
VJ – Uma caixa grande assim, um caixote grandão dentro da igreja, na sacristia.
JI – Caixa?
VJ – Uma caixa, um caixote, um caixotão grande, em uma mesa, em cima de uma mesa,
JI – Que eles guardavam o que?
VJ - ... eles guardavam os materiais, a vestimenta do padre, tudo era guardado naquela...
TP – Agora eu acho que está do lado da igreja.
VJ – Do lado né? Pois é eles trocaram
TP – Fizeram uma reforma.
VJ – Pois é, era na sacristia. Tinha uma parte pequena na sacristia e depois virava assim, para poder entrar para a igreja.
TP – Ah, sim.
VJ – Não era isso?
TP – Sim.
VJ – Entrava assim na porta, numa porta pequena no fundo, entrava assim, entrava na frente, a sacristia era aqui. Agora tinha essa
porta aqui, que entrava na frente da igreja, e tinha a porta maior que entrava na frente, entrava na frente da igreja.
JI – Ah sim, continua.
VJ – Eu tenho o retrato da igreja, um retrato pequeno dela aí.
JI – Ah legal, a gente gostaria de ter acesso.

(Silêncio enquanto ele vai buscar o retrato)

VJ – Esse rapaz (Nicolau), um amigo meu que foi lá tirou, foi lá tirou de novo, tirou o retrato e trouxe um para mim, mandou um
(inaudível) e esse para mim esse camarada era um grande amigo. Nós morávamos no Padre Faria aqui em Ouro Preto, o pai dele
morreu e ele foi para Lafaiete, Lafaiete não, São João Del Rei ele mora lá, esse rapaz que tirou esse retrato.
JI – Agora a santinha costuma a ficar aqui em baixo
VJ – Hein?
JI – Agora a santa costuma ficar aqui em baixo.
VJ – Pois é, no mês de maio. Todo ano ela ficava aqui em baixo. Agora a parte dela fica sempre aqui, no lugar que a gente tá aqui,
como fosse o mês de maio, ficava sempre o mês todo aqui.
TP – Então, agora parece que trocaram, esse crucifixo sempre fica aqui e a santa sempre fica aqui.
VJ – Agora ta assim né?
TP – Ta, ta sim, trocaram agora.
VJ – Pois é, isso ai eu não sei.
JI – Mas é bonita a...
VJ – Aqui outra imagem, aqui as bandeiras, três bandeiras, Nossa Senhora, Santo Antônio e Nosso São Sebastião.
TP – Mas fora essa troca, está muito parecida.

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Dossiê de Registro da Festa de Nossa Senhora dos Remédios – Fundão do Cintra
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JI – Tá, tá parecida.
VJ – Mas ai a igreja não tava bem arrumadinha, o camarada foi tira o retrato e não tava mais bem arrumadinha, no dia de festa
ficava tudo bem mais arrumadinho, aí o dia em que o camarada foi na igreja tirou o retrato, mas a igreja não tava arrumada, nós
tinha uma pessoa para zelar, nós zelava demais lá, nessa ocasião que tirou os retratos. Mas lá ficava tudo arrumadinho. Aqui as
imagens, Nossa Senhora dos Remédios, Santo Antônio, São Sebastião São Vicente de Paula
JI – A capela que você comentou lá do Fundão é de São Vicente de Paula
VJ – Hum?
JI - A capela que você comentou lá do Baú é do São Vicente de Paula
VJ – Do Baú eu não sei o nome da santa. São Vicente de Paula é no Baú?
JI – É, é São Vicente de Paula.
VJ – Mas isso eu não posso falar por que eu não fui lá. Eu conheço o Baú muito. Até estudei, tinha uma professora, quando eu tava
criança eu estudei lá, dona Laura, dona Laura lá de Mariana, eu estudei com ela também, sempre fui na escola dela.
JI – Mas a capela está com alguns problemas de estrutura
VJ – É deve estar dando reforma nela né?
JI – Ta bonitinha, pena que ta um pouco... com umas partes um pouco danificadas
VJ – Está bem estragada né?
JI - É
VJ – Ela é muito antiga, ela é muito mais velha que eu, eu to com 87 anos (risos)
JI – Ela é mesma. Ali acharam um documento falando, é 1890... não é um negócio assim?
TP – Isso, é do final do século retrasado.
VJ – Os meus próprios avós que faleceram, eles não... assim como o marido da Sebastiana que eu falei, o (Elído), eu não cheguei a
conhecer eles, mas quando eles quando moravam lá já tinha a igrejinha lá, ela é muito antiga aquela igreja. Mas o pessoal, a
população ali são gente mais ou menos pobre, que não tem certos recursos, então fizeram aquela igrejinha ali em um ponto assim,
meio equilibrado, mas muito pobre. Ai é o seguinte, o povo foi aumentando, aumentando, mas sempre o pessoal que mora no
(inaudível) da igreja alí, sempre é pessoa de pouca renda, ele nunca tem um recurso pobre para fazer uma capela melhor arrumar
uma igreja maior. Porque até para envolver ali agora, de acordo com o problema, até se torna um pouco assim, meio difícil por causa
do patrimônio, o patrimônio me parece... não tenho certeza, isso eu já ouvir falar que o patrimônio envolve lá também.
JI – É, ta chegando umas políticas lá, não sei por exemplo, se aquela capela já é tombada pelo patrimônio, se já é... ainda não sei
isso não.
VJ – Pois é, eu já ouvi falar isso, mas eu não tenho certeza, também do que eu to falando, por que eu já ouvi falar que o patrimônio
já envolve lá também, que já puseram, foram lá, agora eu não tenho certeza. Mas isso eu to falando sem confirmação, que eu não
tenho certeza do que eu to falando, que vive “falando com a boca dos outros”
JI – Não tenho certeza não... se tem alguma coisa de tombada lá naquela capela
VJ – A festa de lá era muito importante. No dia que tiver uma festa lá a senhora vai ver que é bonita. Agora não sei se continua do
mesmo jeito. Mas é muito linda a festa lá e juntava muita gente, e ali tem a povoação do Salto, ali em cima, do Baú, lá do Palmital,
vem muita gente mesmo fazer a festa lá.
JI – E hoje eles fazem três dias de festa inclusive
VJ – É sábado, domingo e segunda. Quando eu tava lá, agora não sei se continua, mas me parece que é os três dias a mesma coisa
ainda.
JI – Continua, continua.
VJ – Eles falaram para a senhora? Pois é. É sábado, o padre ia para lá sábado, dormia lá, enfim, saía de lá segunda-feira. Agora os
padre, vi dizer que o padre vai sábado e volta domingo, agora eu não sei, agora não sei se tem aqui na segunda-feira. É que são três
festas, no sábado é de São Sebastião, no domingo é de Nossa Senhora e na segunda-feira é de Santo Antônio.
TP – Ia muita gente de vários locais assim? Vinha gente de Ouro Preto?
VJ – Ia, esses lados era mais difícil naquele tempo, agora hoje vai mais gente. Mas no meu tempo, de Ouro Preto vinha pouca gente.
Agora das povoações em roda assim, do Palmital, do Baú, Salto, Olaria que chama ali perto do Salto também, perto lá do Cláudio de
Santos, Cláudio Manoel, sei lá como é que chamam aqueles lados lá, esqueci o nome, o nome é Cláudio, mas esqueci o nome do
lugar, Cláudio.
JI – Acho que deve ser Claudio Manoel sim.
VJ – Cláudio Manoel não, Cláudio Manoel é cidade quase não é?
JI – É
VJ – Cláudio Manoel que eu to falando é cidade, ali é (inaudível) agora de pouco é povoação e lá vai na base de umas quinhentas,
nem quinhentas pessoas não moram, pouca gente morava lá, agora deve ser menos ainda. Esses todos vinham lá no Fundão para
assistir a festa da Nossa Senhora dos Remédios. Esses municípios em volta todos vinham, da Vargem também vinha muita gente, do
Orião costumava a vir muita gente, Rio Acima, vinha um pessoal do Rio Acima, todos vinham para a festa.
JI – Rio Acima
VJ - Rio Acima
JI – Eu conheço um lugar que chama Rio Acima, mas é perto de Nova Lima, acho que não é o mesmo não.
VJ – Não, não é esse não. Esse Rio Acima na hora que vocês foram lá no Fundão, tinha aquela estrada que passou perto da casa da
minha irmã, lá ali para baixo, quando passa pela usina do Funil, para baixo lá chama Rio Acima. Mas é uma povoação que poucas

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casas tem lá. Mais ou menos umas, naquele tempo... agora deve ter mais que muita família lá casou, alguns devem ter feito mais
casas, mas naquele tempo eram umas cinco casas só que tinham.
JI – Rio Acima deve se referir ao rio Maynart ali?
VJ – Hum?
JI - Rio Acima deve se referir ao rio Maynart ali?
VJ – Maynart, não, Maynart tá muito longe daqui, de lá do Fundão ta muito retirado. Maynart poderia vir, poderia acontecer à vir
algumas pessoas, mas não com o interesse de vir na festa, eles vinham para outros lugares e assistia . Mas definitivamente para vir
Maynart é bem mais longe.
TP – Qual é aquele rio que passa perto da capela?
VJ – Hum?
TP – Qual é o nome daquele rio?
VJ – Eles falam que é o rio Maynart, mas tem diversos nomes
JI – Gualaxo
VJ – Gualaxo, todos eles falam Gualaxo, rio Maynart, assim. Aquele ali tem pouca água, mas quando é ocasião de enchente, Nossa
Senhora quanta água!
TP – É por que tem gente que chama de Maynart e tem gente que chama de Gualaxo.
VJ – É, agora ninguém... porque um fala Maynart e outro fala Gualaxo. Mas o nome mais certo, que me parece, que me parece é o
Gualaxo.
JI – É né?
VJ – É
JI – Não tenho certeza também não. É muita coisa acho que tem dois
VJ – É ele tem dois nomes. Esse rio é que toca as três usinas da companhia lá
JI – Sim, sim
VJ – É a da Usina do Caboclo, que é a primeira, a segunda é a usina do salto e a última, onde é que eu trabalhei vinte três anos e
dezesseis dias, a do funil, a última. Vocês passaram por duas, passaram pela usina do caboclo, passou na do salto, a do funil vocês
não foram, que é a última lá em baixo, é a maior usina que tem.
JI – O seu pai chegou a trabalhar na usina também?

(interrupção)

JI - Ai, o senhor tava falando sobre... o seu pai chegou a trabalhar na usina também?
VJ - Não, meu pai não chegou a trabalhar não. Meu pai, coitado, ele morreu em 58, 1958 ele morreu. Ele não chegou a trabalhar na
Companhia não
JI - Ele costumava a fazer o que? Ele trabalhava lá?
VJ - Ele trabalhava na lavoura. Plantava um monte de mercadoria, arroz, feijão, batata, cebola. Tudo quanto é verdura ele plantava.
JI - Mas era mais para consumo próprio da família ou era para vender?
VJ - Não, era só para a alimentação nossa, só por causa da família. Pra vender nunca chegou a ponto de fazer grande quantidade
não.
JI - A maioria do pessoal ali da região fazia assim mesmo, plantava era para a família mesmo
VJ - Para vender para fora... ali aquela povoação tanto a parte do Salto como toda parte alí, todo mundo só fazia para si próprio, de
vez em quando você vendia uma dúzia de ovos, dois ovos, mas para servir outros, vender para essa quantidade grande nunca teve
ninguém que pudesse possuir essa quantidade grande para vender para fora não.
JI - Sim, criava um animal ou outro, um porco...
VJ - Justamente isso em quantidade menor, só para criar e manter a família.
JI - E você tem irmão? Sem ser...a... não é Arnália.
VJ - Alaíse de Jesus
JI - Alaíse é.
VJ - Tenho, tenho meus irmãos. Um faleceu cedo (inaudível) e tem, minha família são oito irmãos. Tem um que mora aqui em
Saramenha e outro mora lá nas Cabeças... lugar quente, ruim para a saúde, não estou enxergando mais nada (inaudível) até com a
vista ruim mesmo.
JI - Não tem nenhum que mora lá ainda fora a Alaíse?
VJ - Hein?
JI - Que mora lá, fora a Alaíse, não tem mais nenhum?
VJ - Lá no Fundão?
JI - É
VJ - Não, morando no momento da minha irmã, quem mora lá agora é só ela, a Alaíse. A Marcolina que mudou aqui para Ouro Preto
morreu.
JI - Poxa seu Valdemiro, mas o senhor não está com saudades da festa não?
VJ - Muita saudade ainda mais porque eu to com dificuldade de sair de casa por que é o seguinte. Hoje eu sou um homem,
(inaudível) eu quis fazer operação, mas o médico falou, conversando com ele sobre tudo de operação: "Pode, de acordo com a sua

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idade, pode acontecer operar e você precise usar sonda a mesma coisa, e pode acontecer de ser (inaudível) não há necessidade de
usar a sonda, mas pode acontecer que você precise mesmo depois de operar usar sonda. Agora você tem dois palpites, se você
quiser operar, pode operar. Mas pode acontecer de não ser preciso, mas pode acontecer que sim. Agora se você quiser usar a sonda
em definitivo, de trinta em trinta dias tem que trocar ela"
JI - Entendi
VJ - Então eu preferi assim trocar
JI - Ah eu não sei, de repente no dia em que a gente for na festa também, a gente pode ver se tem um espaço no carro da prefeitura
para o senhor ir. A gente poderia checar isso né? De repente ir esse ano, em Agosto?
VJ - As vezes a gente pode combinar mais ou menos, pode acontecer e ir.
JI - Vamos, vamos conversar, de repente dá certo, ia ser legal
VJ – Pode, é. Hoje para mim se tornou tudo muito difícil pra mim
JI - Mas também tem que rezar para nossa Senhora Dos Remédios
VJ - É, verdade, justamente, todo dia eu to meu no meu quarto lá. A querida mãe, Nossa Senhora dos Remédios,é minha guia, minha
proteção divina e para todos os filhos de Deus.
TP - Uma pergunta que a gente fez para a irmã do senhor, é sobre a santa. O senhor não sabe a história da santa? Como é que ela
chegou lá?
VJ - Não, isso eu não tenho recordação como é que foi rapaz. Isso não foi no meu tempo, não foi no meu tempo
JI - Nunca ouviu nenhuma história
VJ - Não, não, nada, nada sei como é que foi. Nem meus próprios avós não tem recordação. Do meu avô por exemplo,que nasceu e
criou lá, que morreu lá no Fundão, que morreu, um tal de Elídio que eu falei, esse eu nem cheguei a conhecer ele. Agora a senhora ai
que é a minha avó eu já conheci, que é a "Bastiana", uma pessoa muito distinta. Eu lembro que a gente ia para o Baú, na festa... na
minha escola. Quando chegava da escola, coitada dela, trazia merenda para dar para a gente. Todo dia passava na casa dela
primeiro antes de ir para a casa dos meus pais. Todo dia que a gente passava lá ela dava merenda para a gente, coitada, gostava
muito de nós, meus irmãos... Era uma pessoa distinta mesmo, mas o marido dela eu não cheguei a conhecer... eu sei o nome dele,
Elídio de Jesus, o sobrenome dele.
TP - E o senhor falou do mês de Maria. Tinham outras festas naquela região, festas religiosas?
VJ - Lá mesmo no Fundão?
TP - É, festa de São João...
VJ - Não, não, não tinha não. No meu tempo não tinha não. Agora também não tem não. Festa lá só a festa de Nossa Senhora dos
Remédios e Santo Antônio mais São Sebastião. Deve continuar a mesma coisa, não tenho certeza, mas deve continuar a mesma
coisa. Mas as outras festas, por exemplo, tinha cá no Salto também, onde vocês pararam para ir no Fundão, a festa lá (inaudível)
Nossa Senhora, Santo Antônio e Maria Concebida, no Salto. A festa de São João eles até podem fazer, mas não que é a igreja. Uma
festa que fazer, podia fazer na igreja, não tinha problema. Mas não tenho recordaçãoque exerce lá não. No Fundão não teve, que
nunca fez de São João. Mas a Festa de Nossa Senhora dos Remédios é todo ano,nunca, durante o tempo da minha infãncia todo ano
teve.
JI - Agora, uma coisa também que a gente percebe lá na capela que acontece, não sei se já acontecia na sua época, é de deixar
alguma coisa, se por exemplo, se acontecer algum milagre, alguma coisa, ir levar um objeto lá na capela que ele representa esse
milagre, por exemplo, uma pessoa que tinha problema na coluna e levou aquele colete, sabe aquele que a pessoa...
VJ - É eu sei
JI - Ai eles levam lá para a santa, se é curado, se recebe um milagre assim. Essas coisas aconteciam lá na sua época?
VJ - Não, me parece que no meu tempo não existiam essas coisas não
JI - Ah não?
VJ - Não, não tinha essas coisas não. O que o pessoal fazia, tinha aquela fé com a Nossa Senhora dos Remédios, fazia assim, dava
uma esmola maior para a igreja, isso eu recordo disso. Mas de levar assim outro qualquer para deixar na igreja, no meu tempo
nunca... quer dizer, pode acontecer isso agora, mas no meu tempo não tinha não.
JI - O pessoal faz isso, leva remédio, leva, por exemplo, esses coletes, uma camisa.
VJ - Não, essas coisas no meu tempo não tinham não, nada disso, nada, não tinha não. Mas a promessa, fazer a promessa com
Nossa Senhora dos Remédios ou Santo Antônio ou São Sebastião fazia, mas sempre ali dava uma quantia, uma esmolazinha no pé da
imagem. Fazia uma prece para Nossa Senhora dos Remédios, punha na imagem o que podia dar, punha no pé de Nossa Senhora dos
Remédios, fazia para São Sebastião, punha no pé de São Sebastião, fazia para Santo Antônio, punha no pé de Santo Antônio. Era
assim. E ai quando chegava a ocasião da festa, aquele dinheirinho que tinha ali juntava para fazer a festa, mas sempre uma coisinha
pequena, porque, nunca uma esmola maior nem... coitado o pessoal era tudo pessoal de pouca... pessoas boas, católicos, mas sem
grande rendimento né?
JI – Agora uma história que a gente ouviu falar por cima, não sei se o senhor chegou a ouvir falar também, que há um tempo atrás,
não sei assim há quanto tempo, em Camargos, acho que chama Barão de Camargos hoje, teve uma doença lá no lugar, e ai se eu
não me engano era hanseníase, lepra que o pessoal tinha, e que ai o pessoal vinha andando até o Fundão para rezar para Nossa
Senhora dos Remédios. O senhor chegou a ouvir falar de uma história assim?
VJ – Não.
JI – Já faz bastante tempo, não ouviu falar não né?
VJ – Não tenho recordação disso, de doença nenhuma incurável de gente que fosse lá na igreja, não tenho nenhuma recordação

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disso.
JI – A gente chegou a ouvir falar dessa história por cima
VJ – O pessoal em roda ali, as povoações todas, gente dos municípios são pessoal muito bons, os municípios todos, Salto, lá no
Olaria, tudo gente muito boa, no Baú, gente muito boa, todos católicos. Mas fazer promessa assim como você ta falando, não tenho
recordação disso não.
JI – É porque a gente ouviu falar, não foi nem que achou documento nem nada, queria saber.
VJ – Não, isso eu não posso provar para a senhora nada, não tenho recordação disso. Declarar para um, todo mundo ficar sabendo...
eu gosto de falar a verdade, a mentira não compensa não é?
JI – Claro
VJ – Toda vida eu to um homem assim, eu sou um homem sincero e o que eu falar com a senhora a senhora pode acreditar, que eu
não falo mentira para ninguém e gosto da sinceridade também do outro que também fale a verdade. Eu até posso falar uma mentira
para o outro, mas vamos supor, a mentira que eu posso falar para o outro, assim, se a senhora ou o moço aqui me falar uma mentira
aqui... desculpa até de dizer, se levanta e fala uma mentira comigo, então eu falo com outra pessoa, fulano falou comigo isso, agora
eu não tenho certeza, pode ser certo, pode não ser certo. Agora o que eu positivar com a minha própria palavra qualquer pessoa
pode acreditar que passou por aqui.
JI – Tá certo.
VJ – Eu nunca gostei de mentira, que a mentira é uma coisa muito triste, a pessoa levantar em falso uma coisa que não é. Então
dizer que tem um negócio que eles falam assim: Deus ama a verdade, desmente a mentira, o homem que é falso não tem a
dignidade e o homem que jura falso é um homem que... não. Deus ama a verdade... Deus ama a verdade e o amor... a mentira e a
verdade... Deus ama a verdade, desfaz a mentira, o homem quem mente não tem a dignidade, um homem sem dignidade é um
homem miserável. Deste jeito, um homem sem dignidade é um homem miserável e como de fato é o que diz isso, porque eu falar
uma coisa que eu possa provar é muito certo, mas levantar uma coisa que eu não tenha consciência daquilo que eu vá falar para o
outro, isso, o mundo ta cheio disso. Você vê na televisão quantas coisas a gente vê impossível na televisão, coisa que a gente fica
horrorizado que ver o que ta passando na televisão hoje
JI – É muito triste
VJ – Nossa senhora!
JI – Conversar com alguém e não conseguir olhar para essa pessoa, no olho dela
VJ – É uma coisa terrível mesmo, hoje. No meu tempo de criação, a senhora e o moço aqui que são gente novos, que Deus dê muitos
anos de saúde e felicidade. Mas hoje, o caso das pessoas da minha idade, outras pessoas até mais velhas que eu, somos os maiores
sofredores do que está correndo no país hoje, no mundo que vivemos hoje, no mundo que está passando hoje para nós está sendo
uma tristeza, tristeza mesmo. Tudo. Mudou tudo, e se nós quiser viver, tem que conformar com essas coisas senão o que pode fazer?
O mundo está assim, a maioria tá tudo... se tem duzentos que ta na posição na posição que está no muito que está vivendo hoje, se
tem dez que é ao contrário, se bobear ele morre, não tem jeito, tem que conformar com o outro, mesmo que esteja errado, mas tem
que... A família hoje, as condições que está hoje... só Deus pode saber, está esquisito. Está conforme Deus quer, quem manda é
Deus. A arvore não cai uma folha sem o intermédio de Jesus. Tudo depende de Deus, nós sem Deus não somos nada, nada
definitivamente, tudo depende dele. Ele fez o mundo e acaba com o mundo na hora que ele quiser, vê o dilúvio... uma coisa que a
gente fica assim preocupando com a vida. O mundo existia, houve o dilúvio vocês já ouviram falar né? O dilúvio acabou com o
mundo, vocês já ouviram falar muito nisso não é? No meio do mundo a povoação, talvez naquele tempo, também eu não tenho
certeza, não essa quantidade de gente que tem hoje, que toda vez vai aumentando mais. Mas naquele tempo só Noé... Todo mundo,
o mundo estava cheio de gente, mas só um homem foi salvo, ele e a família dele, você sabe disso não é? Noé e a família dele, o
resto acabou tudo. Dizem, as coisa que a gente vê falar, que o mundo era todo plano, não tinha essas montanhas, esses buracos
igual tem ai em Ouro Preto, essas buracadas danadas ai, diz que o mundo era todo plano, tudo numa parte só. Agora hoje em toda
parte tem buraco que foi a água que acabou com tudo, de tanta água que foi, acabou, arrasou com o mundo em água, mas isso é
um “trem” que a gente não tem certeza. Mas hoje o mundo que nós estamos passando ai é o Noé é a única pessoa quem foi salva foi
o Noé... e tinha aquele problema que soltava uma pomba, também vocês já ouviram falar da pomba, que soltava, ai a pomba voava,
voava e voltava e chegava com terra nos pés, na asinha, nos pezinhos dela. Foi indo, foi indo, quando soltava aquela pomba, quando
na época chegou a encontrar terra, ela chegou limpa e ai Noé ficou sabendo que tinha terra. Isso ai eu estou falando, vocês já sabem
disso já não sabem? Tem que saber disso, a pomba quem trazia a terra, trouxe a terra primeira vez na asinha dos pés e ai ficou
sabendo que “já existe terra” e podia ir lá. E eles falam, vejo sempre falando ai, que ta próximo o fim do mundo, quem sabe é Deus.
Isso ai é o homem quem ta fazendo, nessas invenção que diz que vai na lua, vai na lua, onde é que um homem... ah Deus me livre,
todo poder para o homem ir na lua.
JI – Não resolve nem aqui em baixo quer saber de ir na lua?
VJ – Tem jeito? Poucos dias mesmo falou que está projetando um... São Paulo está no meio desse negócio também, foi essa semana
mesmo, está terminando agora, essa semana está terminando hoje, falou na televisão ai que tão fazendo para ir na lua. São Paulo é
um dos estados que está no projetando esse negócio aí também, mas outros países estrangeiros estão projetando isso para ir na lua.
Falou nessa semana, falou na televisão isso ai. Não foram ainda tão projetando ainda. Mas eu acho que, sei lá, que é tudo mentira,
não vai não, na lua, Deus deixou muito poder para o homem, mas andar na lua? Sei lá.
JI – Mas dizem que já foi uma vez
VJ – Eles falam mesmo, mas teve uma ocasião quando eles foram lá, tinha um camarada, diz ele... isso só pode ser lorota, deve ser
lorota, que tava vendendo terreno lá na lua. Não ouviram falar isso não? Aqui nós soubemos desse negócio, que tava vendendo lote

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de terreno na lua, em Belo Horizonte estão falando esse negócio, ah isso é superstição
TP – E quem vai morar lá?
VJ – Quem vai morar, pois é, capaz de ser
JI – Só os lunáticos
VJ – Tem umas crendices, o poder lá é somente Deus. A riqueza do mundo, a riqueza de Deus, é uma riqueza infalível. Só de mudar
o dia pela noite nós devemos reconhecer em nossa memória que Deus é muito superior. Nós estamos aqui agora, observe quando
chega mais ou menos ali seis horas, seis horas em diante, já está começando a escurecer um pouquinho, passa a noite, e dali a
algumas horas amanhece. O que é isso meu Deus? Tem alguma pessoa que é responsável por isso! Que é o próprio Deus é que está
lá em cima, no céu e é superior a tudo nós sem ele nós não somos nada. Uma pessoa que está fora da graça de Deus, eu vou falar
para você, pode desaparecer do mapa. Tá certo. Eu sou católico e faço acreditar na minha religião até o último dia da minha vida,
adorar a Deus, que sem Deus nós não somos nada, e aconselho qualquer pessoa que não seja e quiser viver bem perante à vida,
adore à Deus e a Maria Santíssima. Aliás a todos os santos, por que cada um tem fé uma imagem, outros tem fé com Santo Antônio,
outros com São Francisco, outros São Geraldo, outros com Santa Efigênia, de acordo com a igreja de cada um, mas (inaudível) é
iluminado por Deus. A Nossa Senhora o que é? Santa Efigênia é uma santa, Nossa é uma só, mas existe diversos estilos, tipos
JI - ...
VJ – Existem muitos.
TP - O senhor falou que toda a festa, toda ocasião da Nossa Senhora dos Remédios vinham padres para rezar a missa
VJ – É, vinham sim
TP – Tinha alguma irmandade, alguma organização religiosa de Nossa Senhora dos Remédios também?
VJ – Não, como você fala, para o negócio da festa?
TP – Isso
VJ – Isso tinha, todo ano tinha um festeiro responsável pela festa
TP- Tinham muitos festeiros ou era um ou dois?
VJ – Eram dois também só. Tinham os dois festeiros, os mordomos e os festeiros da festa, que organizavam a festa.
TP – E quem cuidava da igreja?
VJ – Os moradores que moravam lá. No meu tempo que eu morava lá, nós mesmos, nossa família era que zelava pela igreja. Agora
quando nós saímos de lá ficou o Mário, aquele que eu falei agora mesmo, a mulher dele morreu agora há pouco, morou lá muitos
anos também e zelava pela igreja também. Agora quem zela pela igreja mais é o pessoal do Baú, me parece que é o pessoal do Baú.
Que a própria minha irmã que mora lá, a Alaíse, ela varia muito de devoção, ela varia muito de devoção. Ela quis entrar para esse
negócio dos crentes, ela mexe com essas coisas. Na minha família até infelizmente só ela mexe com esse povo que são crente, mas
ela varia muito, ela desanima um pouco e parte para a religião. Ela vem jogando com dois baralhos, não sabe se vai pra aqui ou se
vai para dentro, vai entrar aqui ou vai para lá. Uma hora está com uma oração e depois está com outra. Mas a minha família, todos
eles, toda a vida morreram como católicos, os que já morreram.
TP – Faz tempo que a sua irmã passou a ser evangélica
VJ – Não, não seio o tempo certo, mas é o seguinte, ela deve ter na base de uns quinze anos ou mais. Agora no momento agora, é o
que eu falo com vocês, o negócio da variação do pensamento dela melhora, não sei se agora tá na religião católica as vezes. Mas ela
algumas vezes retornou à passar, agora não sei. Qual é que ela ta agora eu já não sei, mas ela varia muito. Já o marido não, o
marido é católico, Nelson, o marido é católico, esse nunca largou. E ela toda vida ela também, não teve, eu morando no Fundão, toda
vida ela foi católica, a minha família toda. Agora depois que eu mudei para Ouro Preto, mesmo eu morando aqui em Ouro Preto e lá,
ela morando mesmo lá, era católica, agora ela variou uns tempos lá, e os filhos continuam a mesma coisa.
JI – O importante é encontrar
VJ – Encontrar livre, sobre religiões. Eu por exemplo como católico me interessa o catolicismo, agora outras pessoas... tem vontade
livre. Eu acho que o certo é a católica, agora outros acham que é diferente, o que eu posso fazer.
JI – É a escolha de cada um
VJ – Vocês aceitam um café?
JI – Eu aceito
VJ – Pegar um café.
JI – Tá certo.

(Interrupção)

JI – Como foi a idéia de você chamar o pessoal da banda?


VJ – Foi iniciativa de [inaudível] dos correios que trabalhava comigo na usina. [inaudível] já morreu eu e ele éramos os festeiros e
mais o outro [inaudível] também já morreu. Nós três que éramos os festeiros esse ano. Não sei como começou esse negócio... Antes
de procurar, a banda, primeiro concordou com o povo, o pessoal concordava, uma banda era cara, tinha despesa extra com
alimentação e tudo. Aí tinha outros problemas, resolvia lá, dormir lá e então vamos arrumar colchão, pega colchão daqui e pega de lá
para eles dormirem lá. Tudo com muita colaboração. Mas custa muito por causa deles, mas a primeira vez foi lá fui eu que... foi uma
vez que fui eu e foi o povo que ajudou, mas na primeira foi justamente nós três, os três fomos festeiros reuniu com povo na festa de
Nossa Senhora dos Remédios.
JI – Você tinha ido em alguma festa religiosa que tinha banda e você viu e falou por que eu não vou fazer...

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VJ – Ví no Salto, tinha achado bonito e então levamos a banda lá. Eles fizeram muito progresso ficavam e dormiam lá [inaudível] a
segunda-feira eles ficavam lá, ficavam dois dias só: sábado e domingo. Tocava sábado a noite e domingo a noite já tava indo
embora. Na segunda-feira tinha missa também, mas era só o padre
JI – Foi uma ótima idéia seu Valdemiro?
VJ – Hein?
JI – Foi uma ótima idéia, o pessoal fica muito contente de fazer a festa, rever parentes de longe.
VJ – O pessoal fica contente. Vem muita gente e dão esmola para a gente, o pessoal juntou, só com a quantidade do pessoal que
veio na festa, da primeira festa. A [inaudível], por exemplo, naquela casa perto ali. [inaudível] podia fazer a festa só contando o
povo, podia fazer a despesa só para aqueles 30 mesmo, então 50 ou 60, porque sabia que mais pessoas vinha para comer e ainda
continua a mesma coisa
JI – E assim prossegue
VJ – E cada vez vindo mais gente
JI – Muito obrigada seu Valdemiro.

Transcrição: Tadeu Pamplona Pagnossa


Revisão: João Paulo Martins e Júlia Indíra Peixoto

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2. Documentação técnica

Parecer técnico

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Parecer do Conselho

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Ata de Aprovação Provisória (Abertura do Processo)

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Ata de Aprovação Definitiva

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Decreto / homologação do registro e sua publicação

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Inscrição no Livro de Registro de Saberes e Celebrações do Município de Ouro Preto

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3. Registro audiovisual

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L – Ficha Técnica
PROGRAMA MUNICIPAL DE PATRIMÔNIO IMATERIAL
João Paulo Martins

ABERTURA DO REGISTRO E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL


Sandra Fosque Sanches

ELABORAÇÃO DO TEXTO
João Paulo Martins
Júlia Indira Peixoto
Tadeu Pamplona Pagnossa

EDIÇÃO DO TEXTO
João Paulo Martins

REVISÃO
Sidnéa Francisca dos Santos

PESQUISA HISTÓRICA E REALIZAÇÃO DE ENTREVISTAS


Helenice Afonso de Oliveira
João Paulo Martins
Júlia Indira Peixoto
Sidnéa Francisca dos Santos
Tadeu Pamplona Pagnossa

FOTOGRAFIAS
João Paulo Martins
Júlia Indira Peixoto
Neno Vianna
Sandra Fosque Sanches
Sidnéa Francisca dos Santos
Tadeu Pamplona Pagnossa

AUDIOVISUAL
Zoom Produções

APOIO ADMINISTRATIVO
Luiza Ferreira Brito
Sidnéa Francisca dos Santos
Maria José Germano de Azevedo

APOIO
Secretaria Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano

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Francisco de Assis Gonzaga da Silva


Diretor de Promoção Cultural

Sandra Fosque Sanches


Diretora de Promoção Cultura (2008)

João Paulo Martins


Historiador

Sidnéa Francisca dos Santos


Assessora de Promoção Cultural

Helenice Afonso de Oliveira


Agente Administrativo / Arquivo Público Municipal

Júlia Indira Peixoto


Estagiária História/UFOP

Tadeu Pamplona Pagnossa


Estagiário História/UFOP

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Gleiser Lúcio Boroni Soares


Secretário de Cultura e Turismo

Gabriel Simões Gobbi


Secretário de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano

Angelo Oswaldo de Araújo Santos


Prefeito de Ouro Preto

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