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Caçadores de fofocas

| 09.09.2005 - Exame

Procurar comentários sobre empresas e produtos em comunidades e blogs na rede é o recém-


nascido negócio da E-life

Por Alexa Salomão

Desde que os blogs começaram a proliferar na internet, especialistas proclamaram o advento de uma
nova era no relacionamento entre empresas e consumidores. De acordo com os gurus desse novo
marketing, não seria mais necessário ir atrás do cliente para perguntar a sua opinião nem fazer pesquisa
de mercado. Bastaria monitorar o que eles escrevem em blogs e conversam em comunidades como o
Orkut. Os gurus podem ter exagerado um pouco, mas, nos Estados Unidos, grandes empresas, como
Kraft e Procter & Gamble, já investem cada vez mais em pesquisas desse tipo. Embora ainda não tenha
nem feito cócegas nas pesquisas de mercado tradicionais, essa onda já chegou ao Brasil e abriu
oportunidades para negócios como a E-life, criada para procurar comentários sobre empresas e
produtos em comunidades e blogs na internet.

Fundada por dois pernambucanos, o jornalista Alessandro Barbosa Lima, de 33 anos, e o professor
Jairson Vitorino, de 32, a E-life nasceu com o propósito de varrer essas páginas em busca de opiniões
dos consumidores. "O que diferencia a leitura de blogs das pesquisas tradicionais é a espontaneidade",
diz Lima. "As pessoas escrevem o que pensam, sem se preocupar com a reação de quem lê." O
primeiro trabalho da empresa, feito para a Visa do Brasil, mostra bem essa característica. A E-life foi
contratada para medir a repercussão da campanha institucional Porque a Vida É Agora, realizada no
final do ano passado. Os anúncios eram um alerta poético para a necessidade de viver intensamente
cada momento -- ou, traduzindo, gastar mais a crédito. A busca da E-life mostrou que muitos blogs e
comunidades reproduziram na íntegra o anúncio da Visa, como uma peça literária. "Foi uma grata
surpresa", diz Andrea Pinotti Cordeiro, vice-presidente de marketing da Visa do Brasil. "Para nós,
marqueteiros, é maravilhoso medir a repercussão de uma campanha com depoimentos tão
espontâneos."

O Brasil é um terreno fértil para essa nova geração de pesquisas. Entre os associados da comunidade
virtual Orkut, por exemplo, os brasileiros são pelo menos 76%. Estudos indicam que o português está
entre os três idiomas mais usados nos blogs. Mas a incursão das empresas brasileiras nesse universo
ainda é tímida. A E-life ainda não completou um ano de funcionamento, nem tem escri tório próprio e
atende apenas cinco clientes. Investiu cerca de 400 000 reais para criar um software de pesquisa em
blogs e pretende colocar pelo menos outros 500 000 reais numa versão mais aprimorada. Como ocorre
em negócios emergentes, ainda não se conhece ao certo o potencial dos blogs. "Que eles são uma fonte
poderosa de informação, não há dúvida", diz Olival Naboa Leme, gerente de informação e pesquisa da
Editora Melhoramentos. "Mas ainda não sabemos a real dimensão do que podem oferecer." Neste ano,
a Melhoramentos fez sua primeira pesquisa nos blogs. O objetivo foi levantar um perfil básico do
jovem brasileiro e de seus interesses. O resultado foi apresentado a 20 editores, que administram um
catálogo de quase 350 títulos didáticos, como inspiração para novas tiragens.

Nos Estados Unidos, a interação das empresas com o mundo dos blogs está mais adiantada. Em agosto
do ano passado, uma certa Buzzmetrics, empresa de Nova York especializada em rastrear blogs, fez um
estudo sobre os problemas da Kraft com a gordura trans, responsável pela produção do pior tipo de
colesterol. O objetivo foi registrar comentários de profissionais da área de saúde quando a imprensa
divulgava notícias sobre produtos como o biscoito Oreo. O Oreo tem grande quantidade de gordura
trans e ganhou destaque no noticiário por fazer mal à saúde. Em Chicago, a BuzzAgent, outra empresa
criada para espiar os blogs, especializou-se em localizar blogueiros que atraem grande número de
visitantes para testar produtos e comentar a experiência na internet.

Os profissionais de marketing se preocupam agora em garantir que o principal atrativo dos blogs -- a
espontaneidade do que é comentado neles -- não seja desvirtuado. "As pessoas podem experimentar os
produtos, mas não podem ser induzidas a mentir", diz Lima. "Também não se deve pagar a ninguém
para falar bem das empresas e de seus produtos." Ou o tiro pode sair pela culatra, como num caso
recente envolvendo a Warner. Blogueiros acusaram funcionários da gravadora de acessar blogs
fazendo-se passar por fãs da banda Secret Machines, contratada da Warner. Não foi possível provar a
denúncia, mas as críticas negativas à Warner e à banda espalharam-se na rede como uma epidemia
digital e acabaram afetando as vendas.

O impacto dos Blogs


Os diários na web já conquistaram o Brasil (1)
40% dos internautas acessam blogs
65% têm idade entre 12 e 34 anos
60% são do sexo masculino
31% concluíram a universidade
(1) Dados referentes a pesquisa realizada em julho de 2005
Fontes: Ibope/NetRatings