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Narração da Relação do Frei Gaspar de Carvajal

Prelúdio

Há muitos anos, existia na selva amazônica dois noivos apaixonados que sonhavam ser
um casal. Ela vestia-se de prata e seu nome era Lua. Ele vestia-se de ouro e o seu nome era Sol.
Lua era a dona da noite e Sol era dono do dia.

Havia, porém, um obstáculo para aquele namoro: se eles se casassem o mundo se


acabaria. O ardente amor de Sol queimaria a terra toda e o choro triste da Lua toda a terra
afogaria.

Apesar de apaixonados, como poderiam se casar? A Lua apagaria o fogo? O Sol faria
toda a água evaporar?

Assim, eles se separaram. Eles nunca puderam se casar. Os noivos ficaram


desesperados, a Lua de prata e o Sol de ouro.

No desespero da saudade, a Lua chorou durante todo um dia e toda uma noite. Suas
lágrimas escorreram por morros sem fim até chegar ao mar. Mas o mar, com tanta água
embraveceu-se, ele não queria aceitar tanta água.

A sofrida Lua não conseguia misturar suas lágrimas às águas bravas do mar. Algo
estranho aconteceu. As águas escavaram um imenso vale, serras se levantaram. Um imenso rio
apareceu. As lágrimas da lua formaram o rio Amazonas, o rio-mar da Amazônia.

Eu, Gaspar de Carvajal, o menor dos freis da Ordem de Santo Domingo, escrevo este
relato, acerca do descobrimento do Rio de Orellana, como forma de atestar os fatos ocorridos e
trazê-los a público e melhor esclarecê-lo. Gonzalo Pizarro, recém-nomeado governador de
Quito, e seu primeiro tenente, Francisco de Orellana, organizaram uma expedição, nos idos de
1540, com o objetivo de alcançar o país da canela e quiçá também a terra de El Dorado, acabei
tomando parte nessa missão como capelão. A expedição era grande, composta de cerca de 350
homens, com a presença também de indígenas que nos auxiliavam no conhecimento do local e
demais necessidades.
Logo as dificuldades da selva se interpuseram entre nós e nosso objetivo, os alimentos
começaram a escassear, a canela que buscávamos era de baixa qualidade e estava muito
pulverizada na vegetação, não compensando uma futura exploração, Gonzalo Pizarro deu então
a ao capitão Orellana a incumbência de construir um barco e seguir adianta pelos rios em busca
de alimento, este então tomou 57 homens e partiu, eu os acompanhei, passamos por diversas
provações e pela fome, chegando a comer cintos e couro que tivesse, enquanto que outros
comeram raízes e cogumelos desconhecidos e quase morreram e perderam a sanidade, mas
graças ao nosso bom Deus, foram salvos deste terrível destino. Não encontramos as provisões.

A divina providência, porém, novamente nos auxiliou, encontramos alguns nativos, os


quais o capitão conseguiu se comunicar, e estes nos trataram muito bem, nos fornecendo
provisões, posteriormente passamos por novas provações, até chegarmos ao povo de Aparia,
que nos recebeu muito bem, o Capitão Orellana conseguiu comunicar-se com eles e eles nos
auxiliaram com provisões e mão-de-obra para que construíssemos um bergantim para seguir
viagem com mais segurança, já que estávamos em meras canoas. Tivemos dificuldade com a
fabricação de pregos, já que não dispúnhamos de ferreiro especializado nessa tarefa, mas alguns
de nossos companheiros, inspirados por Deus, conseguiram produzi-los e assim concluímos a
construção das embarcações. Procurei nesse momento, lembrar aos membros da expedição de
que nossa tarefa era de mui importância, pois aquela empresa não era para nós mesmos, mas
para o serviço de Deus e de nossa majestade, o Imperador.

Posteriormente, o capitão então tomou posse daquelas terras em nome do nosso


imperador, Carlos V. Sempre buscamos tratar bem os povos com quem encontrávamos, afim
de que eles se tornassem nossos amigos e aceitassem de bom grado o senhorio imperial. Saímos
então daquela região de Aparia, mas fomos fustigados por ataques de nativos mais hostis, aos
quais reagimos com nossas bestas e arcabuzes, aportamos em um povoado e arranjamos
mantimentos, mas a luta continuou acirrada, tivemos inclusive algumas baixas, após voltarmos
a navegação continuaram nos atacando e vindo contra nós em suas canoas, a luta somente se
encerrou quando um dos expedicionários atingiu aquele que parecia ser o chefe dos nativos
com um arcabuz e este tombou. Aquelas terras pertenciam a um senhor chamado Ica, pelo que
o povo de Aparia nos informou, esta região possuiria muito ouro e prata.

As margens daquele rio revelaram-se para nós como densamente povoadas, era de fato,
impressionante. Logo mais sofremos com mais escaramuças dos indígenas, mas graças a Jesus
Cristo, nosso Senhor, conseguimos escapar sem nenhum dano grave. Depois desse ocorrido
atravessamos uma área despovoada, sem qualquer aldeia ou povoação. Na terra de Omagua,
entramos em um grande rio, maior do que qualquer um que tínhamos encontrado desde o ínicio
de nossa jornada, nesta terra encontramos grandes habitações, lá havia também ricas e belas
cerâmicas, que superavam em muito aquelas fabricadas em Málaga. Os nativos de Omagua nos
informara sobre uma terra aonde haviam ídolos de ouro, mas desistimos de ir até lá por motivos
de segurança, já que não era prudente adentrar demais no território dos índios.

Saindo dos domínios de Omagua, fomos para o senhorio de Panagua, aonde


encontramos uma grande variedade de frutas. Prosseguindo a viagem, já saindo da terra de
Panagua, encontramos mais populações, e fomos novamente atacados por nativos, estes eram
completamente desconhecidos para nós.

Na véspera da Trindade, encontramos um rio de águas muito escuras, o qual nomeamos


de Rio Negro, nesse rio encontramos mais povos, estes tinham uma espécie de fortificação em
suas vilas, pelejamos com eles e os afugentamos, com o intento de obter alimento. Na segunda-
feira após a Trindade, chegamos a uma grande vila, ande os nativos adoravam o sol, a opulência
do local impressionou a todos nós, do Capitão ao restante dos homens, esses povos eram
vassalos das Amazonas, e forneciam a elas plumas de papagaio, com as quais elas adornavam
o teto de suas habitações.

Guerreamos, na véspera de Corpus Christi, contra nativos hostis, foi uma batalha
bastante sangrenta. Depois disso entramos em um rio ainda maior do que o que estávamos e
passamos a chama-lo de Rio Grande, haviam grandes povoados em suas margens. Uma delas
nos chamou muito a atenção, causando-nos espanto, pois havia lá cabeças humanas fincadas
em estacas, esse povo ficou conhecido para nós como Povo das Estacas. Nos dias seguintes
encontramos no rio populações mais pacíficas e outras mais belicosas, e descobrimos através
de uma indígena, que haviam povos cristãos adiante, mas não paramos a viagem para procurá-
los.

Chegamos então ao momento mais fantástico de nossa expedição, quando algo que
imaginávamos estar contido apenas nos mitos e lendas antigos, apareceu diante de nós de forma
aterradora e espetacular ao mesmo tempo. Na véspera do dia de São João, o Batista, chegaram
em uma povoação do senhorio das Amazonas e fomos imediatamente atacados pelos nativos,
que queriam a todo custo nos levar até suas senhoras, fomos então forçados a lutar por nossas
vidas mais um vez, a luta foi ferrenha, ainda que fustigássemos os ataques dos nativos eles
retornavam com vigor renovado, e então certa hora da batalha as Amazonas surgiram, elas
possuíam cabelos muito longos de forma a cobrir suas vergonhas e o corpo, elas atacaram com
dezenas de flechas os nosso bergantins, ao ponto deles se assemelharem a um porco-espinho ao
final da batalha, com a graça de Deus escapamos de ser capturados e seguimos viagem.

Ainda tivemos outras lutas com os nativos, eu mesmo tendo sido ferido no olho, acredito
que Deus tenha me permitido isso para demonstrar sua misericórdia para comigo. Esta terra em
que lutamos batizamos de terra de San Juan, devido as comemorações deste mesmo santo. Nesta
província batalhamos com os indígenas por alguns dias a fio, até que já ambos os grupos
exaustos firmamos um acordo e residimos entre eles. Lá o capitão obteve mais informações
acerca das amazonas, e ficamos ainda mais impressionados, um daqueles indígenas nos disse
que elas não casavam, aumentando sua população tendo relações com homens das terras de
seus senhorios, e quando vinham a dar à luz e as crianças eram meninos, os executavam e
enviavam a seus pais, mas se fossem meninas criavam como filhas que eram, também
descobrimos que a terra das Amazonas seria rica em ouro e prata, elas adorariam o sol, o qual
elas chamam de caranain, elas cobram tributos de seus vassalos e vestem-se com roupas finas.

Partimos então desta terra de San Juan, e demos de cara com índios belicosos e com a
pele pintada de negro, passamos a chamar então aquela localidade de Província de Los Negros.
Essas terras eram dominadas por um senhor chamado Arripuna, logo entramos em outro
senhorio, desta vez de Tinamostón, este possuía bastante prata e era devorador de seres
humanos. Novamente tivemos conflitos com nativos e um dos nossos companheiros tombou
em batalha, seu nome era Antonio de Carranza, com rapidez buscamos sair dali mas sofríamos
ataques contínuos e nossa comida estava a escassear, a noite passamos por um grande perigo,
pois imaginávamos estar ocultos na escuridão, mas os inimigos nos cercavam, mas graças a
Deus nosso Senhor, que os cegou e impediu de nos achar, fomos salvos. Durante um novo
ataque perdemos outro companheiro, seu nome era Garcia de Soria, embora tenha sofrido
apenas um ferimento leve, era por uma flecha envenenada e veio a falecer, depois disso ficamos
cercados por indivíduos hostis, que vinham em canoas, agora estávamos nas terras de
Nuragandaluguaraburaba, apenas graças aos arcabuzes conseguimos espantá-los.

Chegamos então numa região repleta de ilhas, mas ainda estávamos no rio, tentamos
aportar em um povoado para obter comida, mas fomos duramente atacados e por muito pouco
nossa viagem não acabou ali, pois nossas embarcações foram ameaçadas e quase perdidas.
Neste ponto é necessário que eu fale novamente do auxílio divino que é constante em nossa
empresa, sempre nos livrando dos perigos mediante sua infinda misericórdia para conosco,
ainda que sejamos pecadores.

Preparamos outra embarcação, de tamanho menor, para prosseguir a expedição, a obra


foi concluída no dia de San Salvador, ou dia da Transfiguração. Saímos no dia 8 de agosto
daquele local e passamos por grande necessidade, a falta de alimento nos castigava, ainda que
comêssemos caranguejos e tartarugas do rio, não conseguíamos suprir nossas necessidades
completamente. Então encontramos povoados pacíficos, gente de bem que nos forneceu
alimento, entre eles uma raiz chamada inane. No dia 26 de agosto, dia de São Luís partimos
daquela vila.

Já no dia da degolação de São João, o Batista, 29 de agosto, ocorreu-nos um fato


desolador, uma das embarcações perdeu-se durante à noite, imaginávamos nunca mais
encontra-la, mas novamente a divina providência nos valeu e encontramo-la a frente. Nove dias
depois, sendo, portanto, dia 7 de setembro, chegamos ao golfo de Paria, nossa saída daquele
golfo foi muito difícil, remamos incessantemente, e nos alimentamos somente de frutas
semelhantes a ameixas. Finalmente conseguimos sair do rio e alcançar o mar, posteriormente
chegando a Cubágua, em Nova Cádiz, aonde os vecinos de lá nos trataram muitíssimo bem,
como se fossemos seus próprios filhos que retornassem de viagem.

Louvamos e agradecemos a Deus, nosso Senhor, pelo sucesso de nossa empreitada, que
foi repleta de percalços e grandes perigos, mas que nos revelou a existência de maravilhas e
riquezas, tanto humanas quanto materiais, existentes nessa terra a qual o rio percorre.