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Teoria e história

da arquitetura e do urbanismo
IV
Arquitetura dos jesuítas no Brasil Colônia
• Atividades da Companhia de Jesus na Colônia inicia-se em 1549 e vai até 1759

• O objetivo é a conversão dos indígenas

• Jesuítas no Brasil e Franciscanos no México: diferenças marcantes no tipo de


população indígena (escravidão indígena, doenças, culturas)

• Depois da tarefa inicial de assentamento dos indígenas: educação, tutoria do filhos


dos ricos e formação de candidatos ao sacerdócio

• Como resultado de suas responsabilidades na colônia, os jesuítas foram os principais


construtores nos primeiros dois séculos, sendo responsáveis por canalizar as ideias
europeias para a colônia
• Estilo jesuítico

COSTA, Lúcio. Arquitetura jesuítica no Brasil, 1941


Estilo jesuítico e contrarreforma? Maneirismo?

• Renascimento: proporções familiares entre corpo humano e as construções;


baseadas em figuras geométricas mais simples: cubo, quadrado, esfera e cilindro.
Cada elemento era completo em si.

• O objetivo era racional e o resultado, simétrico, harmonioso, estático e acima de


tudo serenos

• Barroco: os elementos mais importantes da composição podiam ser relativizados.


Formas e proporções estranhas à geometria e à natureza na articulação e
planejamento dos edifícios

• O objetivo era emocional e o resultado comovente, turbulento, hipnótico,


buscando atingir a ilusão do ilimitado
Estilo jesuítico e contrarreforma? Maneirismo?

• No maneirismo há ambiguidade: o mesmo edifício pode ser um palácio e um


monastério, uma coluna pode suportar o entablamento e servir de moldura

• A arquitetura do maneirismo apresenta temas ambivalentes e funções duplas.

• Embora algumas reversões dos princípios clássicos foram negativos, outras, como a
planta elíptica, e revivescências medievais, como a proporção alongada, a planta
em cruz latina e a fachada com duas torres foram contribuições com significado
duradouro.
• O arquiteto maneirista estava sob supervisão direta da Igreja na construção dos
edifícios, que começaram a ser regidas por normas (São Carlos Borromeu, Acta
Ecclesiae Mediolaneneses)

• Os edifícios deveriam ser destinados aos propósitos da Igreja; os fiéis deveriam ser
tocados emocionalmente, contrário às ideias abstratas do Renascimento

• Em Espanha e Portugal é o maneirismo que será importado da Itália (plateresco e


manuelino são estilos tardios que permanecem no período Renascença): é o
Maneirismo, portanto, as formas da arquitetura da Companhia de Jesus
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Igreja do Nossa Senhora do Bom Jesus, Velha Goa, Índia, 1594-


1605
Fachadas em pedra, nave única, sem capelas laterais
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Madre de Deus, Macau, China, 1565

Observar o trabalho ornamental elaborado na


fachada com mensagens cristãs, segundo a doutrina
de São Carlos Borromeu
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Filippo Terzi. Igreja de São Roque, Lisboa, 1565.


Sede da Companhia de Jesus em Portugal

Linhas frias e precisas.


Observar a solução das capelas laterais, e o arco triunfal no altar que aparecerá em Salvador
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil
Catedral Nova, Coimbra, 1598.

Modelo veneziano de 3 frontões


as torres laterais são
incorporadas pela primeira vez
na arquitetura jesuítica
portuguesa

Observar os motivos
maneiristas: estátuas colossais,
ordens fora da proporção,
querubins e folhas de acanto,
completamente fora de escala
com as ordens e o arranjo do
frontão central triangular, com a
moldura da arquitrave em
ponta sobre a qual se equilibra
precariamente uma cornija em
curva de três centros.
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Igreja dos grilos, Porto, 1577.

Modelo veneziano de 3 frontões as torres


laterais são incorporadas pela prim. vez na
arquitetura jesuítica portuguesa
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

São Carlos Borromeu, Antuérpia, 1626.


Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Gesù, Roma, 1580. Vignola. Planta e fachada de Vignola e


della Porta (construída)
Precedentes da arquitetura jesuítica no Brasil

Fillipo Terzi. São Vicente de Fora, Lisboa 1582-1629.


(direita). Planta e fachada.

Para os jesuítas portugueses, influências


opostas, entre a sua sede em Roma e as
influências lusitanas
Igrejas jesuíticas – 1ª fase

Vista da fachada com campanário e pátio

Paredes de pedras, com argamassa de barro,


areia, cal de conchas e óleo de baleia.

Os pisos são em madeira e o telhado em barro.


Igreja dos Reis Magos, Nova Almeida, ES. 1580
As janelas da residência se abrem para o mar e
para a foz do rio Reis Magos.
Igrejas jesuíticas – 1ª fase

Interior, detalhe da 3 naves (caso raro) e os retábulos laterais


Vista da fachada com torre e campanário que são do século XVIII

Em ambos, a torre ainda não havia sido incorporada na forma


arquitetônica geral, aparecendo como adendo

Igreja Nossa Senhora da Assunção, Anchieta (antes Provavelmente eram usadas com objetivos militares
Reritiba), ES. 1580
Igrejas jesuíticas – 1ª fase
Lúcio Costa afirma que esta é a
única igreja do período “com
pedigree”, inspirada que é na
Igreja de São Roque, em Lisboa

Construída em “pedra e cal”

Igreja Nossa Senhora da Graça, Olinda. 1584. Arq. Jesuíta


Francisco Dias, um dos colaboradores de Felipe Terzi
Igrejas jesuíticas – 1ª fase

“Aspecto mais leve e gracioso resulta do alteamento da nave


com paredes de adobe, material muito empregado nas
reformas e acréscimos do século XVIII, e escoramento interno
de madeira. O feitio primitivo desta velha capela de 1622 -
contemporâneo do portal e da peça valiosa que é a grade de
Capela de São Miguel Arcanjo, São Paulo. 1622 separação do presbitério (...) acrescida de alpendre, típico das
capelas de aldeia” Lúcio Costa
Igrejas jesuíticas – 1ª fase

Construída com pedra cal e óleo de baleia

“Construção muito "pura", tanto do ponto de vista


técnico como plástico, onde se vê, na sua forma mais
rudimentar, o partido de três naves tão apropriado às
Igreja São Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro. 1620-1783 igrejas missioneiras (os esteios centrais) - e na da antiga
Reritiba”
Igrejas jesuíticas – 1ª fase

Pateo do Colégio, SP, ES. 1680

Quando os planos previam a possibilidade de se vir a construir, futuramente, uma segunda torre, aquela que
primeiro se fazia era a de ligação entre a ala do colégio correspondente ao terreiro e a igreja
Igrejas jesuíticas – 2ª fase

Catedral de Salvador (ant. Igreja do Colégio dos Jesuítas),


Salvador. 1672
Igrejas jesuíticas – 2ª fase

Igreja Santo Alexandre (ant. Igreja do Colégio dos


Jesuítas), Pará. 1698-1719
Igrejas jesuíticas – 2ª fase

Igreja da Madre de Deus, Vigia, Pará.


Aproximadamente 1730

Legítimo projeto com duas torres, onde o


frontão não se reduz nem sobrepões àquelas

Volutas convexas, sem espirais inferiores


Partido geral das igrejas jesuíticas do Brasil colonial

1. Capela mor e nave constituem um corpo único (a), dividido


convencionalmente por um arco cruzeiro

2. igrejas onde aparecem perfeitamente diferenciadas a nave e a capela-


mor propriamente dita, de largura e pé-direito menores (b), partido claro
e franco de composição, que depois se desenvolve em Minas Gerais.
Partido geral das igrejas jesuíticas do Brasil colonial

3. Acomodação entre essa forma singela mais geral e o partido


já o seu tanto complexo das igrejas maiores do século XVII.
Mantêm-se ainda os três altares usuais do modelo anterior, com
a particularidade, porém, de se criarem, também para os
colaterais, pequenas capelas apropriadas, de maior ou menor
profundidade, como no caso da igreja de Olinda, onde tais
capelas formam conjunto com a capela-mor (c)

4. Com três altares, ou nas maiores, com inúmeros


altaresdispostos em capelas laterais, sendo que as duas mais
próximas da capela-mor faziam-se quase sempre mais largas e
mais altas, quando não também mais profundas, com aquele
mesmo objetivo de marcar, em planta, o cruzeiro
Seminário

1. Por quê a arquitetura jesuítica que se desenvolveu no Brasil é basicamente de estilo maneirista,
sendo que o barroco estava em pleno desenvolvimento no período (sec. XVII e XVIII)?

2. A tipologia de igreja com duas torres é uma particularidade do “estilo jesuítico”? Estabeleça
uma sequência para o desenho deste tipo de fachada.

3. Qual a influência de Vignola no partido arquitetônico das igrejas dos jesuítas brasileiros?

4. Qual o programa básico das igrejas jesuíticas?

5. Explique como era a implantação em “quadra” dos estabelecimentos jesuíticos


Discussão

Por quê a arquitetura jesuítica que se desenvolveu no Brasil é basicamente de estilo maneirista,
sendo que o barroco estava em pleno desenvolvimento no período (sec. XVII e XVIII)?

• A resposta é incerta, pois nada obrigava os jesuítas a adotarem tal estilo (inclusive, a sede da
ordem em Roma, avaliava os projetos, estando em pleno barroco)
• A resposta provável é que a escolha se deve a uma identificação da ordem jesuítica de Portugal
com os preceitos do maneirismo (disciplina, conservadorismo, uso de formas externas, desde
que úteis), expressando o seu papel educativo e missionário

Qual a influência da arquitetura jesuítica no Brasil colonial?

• Em Minas Gerais, principalmente, no século XVIII continuaram a ser tratadas como maneiristas

• A influência dos jesuítas em assuntos artísticos era tão importante que igrejas como as de
Minas Gerais são descritas como de estilo jesuítico, embora tal termo não exista per se
Exercícios

1. Qual a relação entre contrarreforma, maneirismo e a arquitetura da ordem jesuítica no Brasil


Colônia?

2. Quais transformações podem ser observadas entre os modelos europeus (Gesù e São Vicente
de Fora) e as Igreja Catedral de Salvador e a Igreja de Santo Alexandre, em Belém?

3. Explique sucintamente e com desenhos os partidos em planta adotados pelas igrejas jesuíticas
do período colonial
Vê-se pelo exposto que a arquitetura da Companhia, no Brasil, foi quase sempre inimiga dos
derramamentos plásticos, despretensiosa, muitas vezes pobre, obedecendo, em suas linhas gerais,
a uns tantos padrões uniformes. E se devêssemos resumir, numa só palavra, qual o traço marcante
da arquitetura dos padres, diríamos que foi a sobriedade. Sobriedade presente também nos
retábulos, mesmo os mais ricos. Sobriedade que se impõe, apesar do gongorismo da obra de talha
de um determinado período, como nos púlpitos esplêndidos de Santo Alexandre. Sobriedade que
ainda souberam manter no mais pretensioso de seus templos, a atual Sé da Bahia.