Você está na página 1de 14

Volume 17, Número 1, Jan/Jun 2013, p.

148-161

A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE


PSICÓLOGOS
Eliane Regina Pereira
(Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Uberlândia – UFU)

Resumo

Este artigo pretende analisar fragmentos do estágio básico e supervisionado em psicologia da


saúde, em uma ONG de uma cidade do interior do estado de SC, que atende crianças e
adolescentes em contraturno escolar. O estágio teve as atividades estéticas como recurso de
intervenção e estas deflagraram no processo, novas configurações de relação entre os sujeitos
e destes consigo mesmos. O que pode se afirmar é que as atividades estéticas possibilitaram
saltos qualitativos no cotidiano das crianças envolvidas, das educadoras participantes e
fundamentalmente dos próprios estagiários, sendo espaços de potência para a criação e
recriação das relações de ensinar e aprender.

Palavras-chave: atividade estética; formação de psicólogos; estágio supervisionado.

Abstract

The Aesthetic Activity Enhancing the Training of Psychologists

This article aims to analyse fragments of one supervised training in Health Psychology, it was
made in one NGO in an inner city of Santa Catarina State which children and young people
attend in the after school period. Both of the supervised training had aesthetic activities as a
resource intervention and it was possible observed that in these process new configurations of
relationships between these subjects and themselves. What can be said is that the activities
allowed aesthetic leaps in the daily lives of children involved, of the participating teachers
and fundamentally of the trainees themselves, a place of power for creation and recreation the
relationship of teaching and learning.

Keywords: aesthetic activity; psychology training, graduate training.

Quando da regulamentação da
Introdução
profissão de psicólogo, as áreas de atuação
restringiam-se a clínica, escolar e
Se tivéssemos uma Fantasia, assim como
industrial. Sendo estes espaços naquele
temos uma Lógica, estaria descoberta a
arte de inventar. momento, entendidos como tendo
(Rodari, 1982, p.11)
pouquíssima relação nos modos de
compreensão e intervenção. Desde então, a
148
ELIANE REGINA PEREIRA

psicologia tem vivenciado uma ampliação ainda se sustenta na clínica de caráter


nos espaços de atuação e, na contramão, privado e predominantemente individual,
tem apresentado muita dificuldade na enquanto os serviços de saúde exigem um
construção de novas tecnologias de trabalho de grupo, com metodologias
intervenção. diferenciadas, visando à prevenção e a
Por estas dificuldades, muitos promoção à saúde do sujeito integral.
autores têm discutido e criticado a Segundo a autora:
formação de psicólogos, principalmente no
a dificuldade para ousar é uma
que diz respeito à inserção nos espaços de constante. Nosso profissional ainda é
saúde pública. (Dimenstein, 1998, 2000; formado dentro de um modelo
tecnicista, dentro de um ensino
Ferreira Neto e Penna, 2006; Oliveira e sustentado pela formação teórica dos
cols, 2005; Romagnoli, 2006). professores, (...). Essa formação é
centrada no curativo e em
Até recentemente o campo de procedimentos e favorece atuações
atuação da psicologia na saúde, se reducionistas e dogmáticas, impedindo
a invenção (...). Outra problemática que
restringia ao atendimento clinico, e ainda se apresenta na formação dos
hoje, muitos profissionais mantêm essa psicólogos para a saúde pública, em
nosso entender, (...) é a dificuldade que
prática sem muitos questionamentos. esse profissional apresenta de se
Dimenstein (2000) afirma que o modelo trabalhar com grupos. (Romagnoli,
2006, p.11-12)
clínico de atuação privada, hegemônico
entre os psicólogos – a psicoterapia
A clínica precisa ser compreendida
individual - é geralmente transposto para o
não como campo de atuação ou como
setor público, tanto para postos, centros e
modalidade de pratica psicoterápica, mas
ambulatórios de saúde, independentemente
como especificidade do trabalho, ou seja,
dos objetivos dos mesmos e da população
uma clínica ampliada, que permita ao
neles atendidas. Essa transposição,
psicólogo em qualquer lugar que esteja ter
segundo a autora, ocasiona uma série de
um olhar aos fenômenos que ultrapasse a
prejuízos, desde a psicologização de
obviedade dos fatos, a busca do não dito,
problemas sociais até a baixa eficácia das
as entrelinhas. Uma clínica que ofereça um
terapêuticas e, alto índice de abandono dos
aprendizado para a escuta, para a escuta
tratamentos.
das relações, da constituição do sujeito nos
Romagnoli (2006) esclarece que a
grupos e contextos por ele vivenciados.
clínica aprendida nos cursos de graduação,
149

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

Em nossa pratica como supervisora cultura capitalística (...)” (Zanella, 2006,


de estágios, temos identificado um número p.36).
expressivo de acadêmicos, com Este artigo se propõe a analisar
dificuldades de enfrentamento dos grupos fragmentos de um estágio básico em que
e que paralisados pelo medo de arriscar se fui supervisora. O objetivo do estágio
abastecem dos manuais de “dinâmica de básico e supervisionado em psicologia da
grupo” a fim de descobrir uma técnica saúde – na instituição em que trabalhava –
milagrosa para a “solução de problemas” é oferecer uma experiência de intervenção
na intervenção com qualquer grupo. Nossa em contextos de promoção à saúde, aos
experiência, tem se dado como tentativa de acadêmicos da sexta fase do curso de
construir outras estratégias de intervenção psicologia. As atividades correspondem a
em diferentes contextos de promoção da 60 horas práticas e outras 60 horas de
saúde, que chamamos “oficinas estéticas”. leituras, supervisões e produção de
(Maheirie, e cols 2007; Zanella e cols relatório. No primeiro contato dos
2005; Furtado e cols 2011). estagiários com o local da intervenção, eles
Em nosso trabalho, entendemos as iniciam um processo de caracterização,
oficinas estéticas, como espaços nos quais identificando a estrutura física e de
se propõe desafios a partir de algum pessoal, a clientela atendida e os objetivos
recurso artístico e, assim, processos de da instituição. Logo, partem para a
criação são vislumbrados, possibilitando a observação do cotidiano, procurando
(re) criação da própria realidade do sujeito. compreender as relações e destacando as
Pereira (2012) afirma que a experiência possíveis demandas para a intervenção.
estética é uma oportunidade de ampliação, Finalmente, os estagiários escolhem a
de desvelamento e expansão do sujeito, demanda a ser trabalhada, justificam a
uma vez que é abertura à diversidade de escolha, planejam uma intervenção pontual
sentidos. com cinco encontros e então, intervém.
Falamos de uma “estética enquanto A escolha do local de estágio é de
dimensão sensível, enquanto modo responsabilidade do estagiário, que nas
específico de relação com a realidade, primeiras supervisões passa a compreender
pautado por uma sensibilidade que permita que o papel do psicólogo na área da saúde
reconhecer a polissemia da vida e deve ser fundamentalmente de “promoção
transcender o caráter prático utilitário da à saúde” e, sua atuação se restringe as
150

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

unidades básicas de saúde, CAPS, ou como: Educação Infantil, Jornada


centros de referencia, etc, mas abrem-se os Ampliada e Programa de Erradicação do
horizontes de uma prática que promove a Trabalho Infantil.
saúde nos mais diversos espaços. Cabe,
portanto, a atuação do psicólogo nas Compreendendo o Processo
organizações não governamentais (ONGs)
utilizando-se das especificidades da O fragmento analisado diz respeito
psicologia, numa atuação ampliada, que à intervenção realizada, por três
acolhe e promove a saúde das pessoas estagiárias, com crianças de três e quatro
envolvidas. anos. Assim que as três estagiárias
Como explica Czeresmia (2003) chegaram ao local foram imediatamente
promover significa aumentar a saúde e o encaminhadas para a sala na qual
bem estar geral. Partindo dessa realizariam o estágio, isto porque a ONG
compreensão, o psicólogo deve embasado não permitiu que observassem todo o
numa prática de promoção de saúde, funcionamento para então decidirem o
fortalecer a capacidade individual e/ou melhor projeto de intervenção. Eles
coletiva dos sujeitos, para lidar com os indicaram o Jardim II composto por
determinantes sociais em saúde crianças de 3 a 4 anos, como sendo a sala
aumentando a saúde geral e o bem-estar. que necessitaria de intervenção. A queixa
Entende-se ainda que o psicólogo precise foi a “agressividade” que imediatamente
considerar o contexto da população foi justificada pela educadora, como sendo
atendida, seus valores, suas crenças, assim motivada “pela separação dos pais ou pelo
como a significação atribuída à saúde. pouco tempo que os pais têm com os
A experiência analisada neste filhos, uma vez que trabalham demais”.
artigo, diz respeito às intervenções (Diário de campo).
realizadas em uma ONG de uma cidade no Após este primeiro contato com a
interior de Santa Catarina. A ONG em ONG, as estagiárias retornaram a
questão atua no município, há alguns anos, supervisão e solicitaram a mudança de
sendo mantida com doações, convênios local de estágio, justificando que não
municipais e federais, projetos e concordavam com a postura da ONG em
campanhas; se propondo a atender crianças determinar a sala para intervenção, e ainda,
de zero a quatorze anos, em programas que gostariam de trabalhar com os pré-
151

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

adolescentes, pois não acreditavam em um argumentos e retornaram a ONG, para as


bom resultado na intervenção com as observações na sala do Jardim II. Durante
crianças pequenas. todo processo de observação, as estagiárias
Em supervisão as estagiárias foram registraram em diário de campo os
orientadas que a mudança de local não acontecimentos, algumas falas das crianças
seria permitida, pois já havíamos e da educadora e muitas impressões sobre
formalizado convenio com o local. o que observavam.
Pactuávamos com elas nosso No diário encontramos a descrição
descontentamento pela impossibilidade de detalhada de brincadeiras ao ar livre, com
realizar análise institucional antes da muita correria e pequenas brigas; choros
elaboração de uma estratégia de frequentes na disputa de brinquedos e as
intervenção, mas precisávamos pensar que intervenções da educadora ora favorecendo
talvez essa fosse a porta de entrada ao local a relação das crianças e promovendo a
e, que com o passar dos dias de observação brincadeira em grupo, ora decidindo qual
poderíamos analisar a demanda para além criança ficaria com o brinquedo disputado
da queixa de “agressividade”, para não nos e assim definindo um vencedor e um
tornarmos cúmplices do discurso sobre as vencido e com isso favorecendo uma
crianças. Conforme Machado, Almeida e brincadeira solitária. Momentos
Saraiva (2009, p.22) aconchegantes de leitura ou simples
manuseio de livros e momentos de
se não analisarmos essas demandas,
ocupamos o espaço de maneira a cair irritabilidade e disputa pelas crianças. O
nas raias do instituído sem poder diário apresenta ainda as atividades de sala
questioná-lo, sendo cúmplices de
práticas produtoras de assujeitamento. de aula, com pintura, desenhos e criação
(...) As práticas escolares, como tem se com LEGO, com os quais celulares,
dado, produzem sujeitos desiguais,
oprimidos, impotentes, deficientes. carrinhos e monstros, ganham lugares
Entendemos, dessa forma, a educação privilegiados nas brincadeiras dos
como condição de saúde, por se tratar
de processo nos quais subjetividades meninos, e as bonecas e casinhas lugares
são produzidas. (Machado, Almeida & nas brincadeiras de meninas.
Saraiva, 2009, p.22.
O diário tem ainda registros das
conversas com a educadora, e nestes o
Ainda não totalmente convencidas
tema recorrente “a agressividade”. Porém,
disto, as estagiárias aceitaram os
no contato com as estagiárias, as crianças
152

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

demonstram outras formas de afeto, com Sawaia (2006) e, marcamos nova


abraços, beijos e pedidos de colo. Todo o supervisão.
tempo as estagiárias se sentem pertencendo A primeira leitura, “a casa que
ao grupo, brincam, conversam, mediam Pedro construiu”, uma historia infantil,
conflitos. Nas conversas com as crianças, intencionava impactar afetiva e
registram falas sobre suas famílias, cognitivamente as estagiárias, faze-las
problemas relacionados a “separações”, refletir sobre o quanto o diagnóstico
carinhos, mas registram também falas das “agressividade” estava amarrado à lógica
crianças sobre si mesmas, como: “sou das relações causais e não dialéticas da
bonita”, ou ainda “todo mundo aqui é feio” constituição do sujeito. A intenção era que
(Diário de campo). as estagiárias vivenciassem uma
Após as 30 horas iniciais, e experiência estética que rompesse
diversas conversas em supervisão, as radicalmente com a lógica que estavam
estagiárias precisam definir o diagnóstico, pactuando. Uma experiência involuntária,
para posterior elaboração do plano de que Pereira (2012) afirma servir como um
intervenção. E concluem o diagnóstico; supetão, um susto, atropelando e
“Agressividade”. As supervisões desestabilizando o sujeito e suas verdades.
aconteciam semanalmente e nela A segunda leitura, teórica,
realizávamos a leitura do diário de campo, objetivava discutir sobre a compreensão de
conversávamos sobre as impressões das afetividade apresentada por Sawaia (2006,
estagiárias e indicávamos leituras p.86) que a partir de Espinosa, define
consideradas fundamentais para a afetividade como “a capacidade do homem
compreensão do que estavam observando. de afetar e ser afetado”. A autora explica
Para nossa surpresa, após todas as que emoção e sentimentos são fenômenos
discussões e leituras, a escolha para a privados, mas sua gênese e consequências
intervenção é idêntica à queixa inicial da são sociais. Sendo a emoção um processo
instituição, o qual, havíamos nos relacional, ou seja, não acontece dentro do
comprometido a compreender, mas sujeito, como explica Sawaia (2006), ela
fundamentalmente resignificar. Neste não é boa ou ruim, mas simplesmente o
momento, intervimos com a indicação de afeta permitindo emancipação ou
duas leituras Caputo e Bryant (1998), aprisionamento. Então, na medida em que
está sendo afetado, o sujeito tem a
153

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

possibilidade de transformar a si e ao seu ações que potencializassem os sujeitos


contexto, produzindo uma nova promovendo a saúde.
racionalidade. Por se tratar de um estágio básico, o
A emoção não pode ser explicada plano precisa ser pontual, resumindo-se a
unicamente no sentido fisiológico, mas na cinco encontros. Nas supervisões
relação do sujeito com o mundo. Assim, acompanhamos o desejo das estagiárias
ela potencializa a ação, aumentando ou por uma compilação de “dinâmicas de
diminuindo a capacidade do corpo frente grupo”, escolhidas nos manuais. Isto
ao mundo. A emoção, então, é psicofísica, acontece, pois nas experiências de
pois afeta o sujeito no plano orgânico e formação, a dinâmica é muito valorizada e,
simbólico do corpo. (Vygotski, 2004). muitas vezes não é questionada. (Martins,
Iniciamos as discussões e as 2003). Neste momento intervimos em
estagiárias repensam seu posicionamento supervisão com uma atividade em argila.
frente à intervenção, percebendo o quanto, Propus que as estagiárias produzissem em
de alguma forma elas haviam pactuado argila duas questões: “o que é ser criança”
com a ONG e assim confirmado os rótulos e “o que é ser educador”. Enquanto
das crianças. Defendemos frente às produziam as peças, as estagiárias
estagiárias e estas frente à instituição, que conversavam sobre ser criança hoje, ser
os afetos constituem os sujeitos e as mãe e ter de trabalhar e deixar o filho sob
relações destes, portanto, irritabilidade, os cuidados de uma ONG, sobre a
pequenas brigas, criação de historias, importância do cuidado e carinho das
beijos e abraços, demonstram o modo educadoras. Encerramos a supervisão
como às crianças se relacionam umas com discutindo o processo daquele encontro e,
as outras, o modo como são afetadas e o quanto a atividade havia possibilitado o
afetam os outros, nos diferentes momentos diálogo e a reflexão e, quanto o manuseio
do dia, nos diferentes encontros com as da argila havia transformado a supervisão
educadoras, estagiárias e outras crianças da em encontro estético.
sala. Após a supervisão, as estagiárias,
As estagiárias precisavam se totalmente envolvidas com as crianças e
apropriar da compreensão sobre com sua própria formação planejaram
afetividade para que na elaboração de seu então:
plano de intervenção, estivessem presentes
154

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

Encontro 01 – As estagiárias o nome do desenho. O grupo três tem um


contaram a história “O patinho feio” e coordenador, que determina como o
durante a contação estimulavam as desenho deve ser, então, muitas flores são
crianças com imagens e perguntas: “o que desenhadas e ao final o nome dado “Flor
esta acontecendo?, o que vocês acham que linda”. Nenhum dos três grupos realizou
ele deveria fazer?”. As crianças opinavam: uma “obra coletiva” como era esperado
“coitadinho”, “não se deve chamar pelas estagiárias, mas elas destacam um
ninguém de feio” (Diário de Campo). Após princípio de trabalho em equipe. As
a história as crianças foram desenhar e estagiárias surpreenderam-se com a troca
novamente conversaram sobre os cooperativa de materiais do grupo um e o
desenhos, discutindo sobre como agir processo de escolha dos nomes do
frente aos xingamentos. desenho.
Encontro 02 – Novamente o Encontro 03 – neste encontro, para
encontro é iniciado com a contação de a contação de histórias, foi preparada uma
história “A galinhazinha vermelha” cujo televisão de caixa de papelão e a historinha
tema principal é o trabalho em equipe. As já conhecida “Chapeuzinho vermelho”.
crianças participam ativamente da história, Nessa versão, o lobo faz amizade com a
demonstrando compreensão. No segundo vovó e os três (vovó, chapeuzinho e o
momento do encontro as crianças foram lobo) jantam juntos. No final da história o
divididas em três grupos e receberam giz e lobo leva a Chapeuzinho para casa.
uma cartolina sendo convidadas a Enquanto as estagiárias contavam a
realizarem um desenho coletivo, que teria história, as crianças foram instigadas sobre
um nome decidido pelo grupo. O grupo um o que achavam que aconteceria na
realiza a atividade sem conversar e ao sequência. Na medida em que a história
terminar apresenta aos colegas vários mostrava que os fatos poderiam ser
desenhos que não tem relação alguma, um diferentes ao que estavam acostumadas,
com o outro, não realizaram, portanto, uma algumas crianças demonstravam
atividade coletiva, mas definem o nome do irritabilidade insistindo no final conhecido
desenho como: “Família”. O grupo dois e outras auxiliavam na produção de um
briga por espaço no papel, cada criança novo fim.
entende que precisa de mais espaço pra Encontro 04 – Esse encontro é
desenhar e ao final não conseguem definir iniciado com a contação da história “As
155

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

três irmãs” cujo tema principal é “ajudar o No processo, as crianças


outro”. Após a história, cada criança entenderam as oficinas como espaço de
recebeu dois rolinhos da mesma cor de brincadeira, espaço para a construção de
massinha de modelar e começaram a histórias, mas ao mesmo tempo, a oficina
brincar com as massinhas. Inicialmente se mostrou espaço de encontro com o
brincavam sozinhas, até que uma criança outro, espaço de criação e invenção de si e
percebeu que a cor do colega era diferente de suas possibilidades como sujeitos.
da sua e passou a se interessar por ela. A É possível afirmar que as crianças
criança então solicitou a estagiária um descobriram, no grupo, um espaço de
pedaço da cor, que lhe indicou que ela expressão de seus sentimentos e emoções,
mesma deveria pedir ao colega e esperar falando de suas famílias e da escola e,
que ele lhe ajudasse. Nesse momento, a consequentemente, do lugar social que
sala toda começou a circular e dividir suas ocupam nestes contextos. Os encontros se
massinhas produzindo trabalhos coloridos. transformaram verdadeiramente em espaço
As estagiárias retornaram a supervisão, de palavra e escuta, tendo as estagiárias o
impressionadas com a conquista, uma vez papel de mediação, amarrando as falas das
que as crianças haviam se apropriado da crianças, oferecendo a elas novos signos
história e mudado o modo como se para a construção de novos sentidos para
relacionavam com os colegas e seus suas vidas, potencializando e promovendo
desejos. a saúde. Acreditamos que nesses encontros
Encontro 05 – Nesse encontro as a brincadeira teve função potencializadora,
estagiárias organizaram pequenos grupos sendo promotora do desenvolvimento
para a confecção dos dedoches. As promovendo assim a saúde mental. Os
crianças escolhiam as cores, a forma do desenhos, as falas das crianças, as
cabelo, os olhinhos, enfim todos os intromissões destas durante a contação das
detalhes. O momento da confecção foi de histórias demonstraram muito mais que
euforia o que impossibilitou a organização uma simples compreensão ou apropriação
de uma peça de teatro com os dedoches. do que estava sendo dito pelas estagiárias,
Porém na avaliação das estagiárias, o mas revelaram a potencialização da
encontro foi surpreendente, pois imaginação, e assim, apresentavam os
novamente as crianças trabalharam juntas, sentidos das crianças sobre suas histórias
sem brigas e com cooperação. de vida, histórias estas marcadas por
156

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

separações, luto, abandono e, diversos encontro. Suas falas sobre os encontros


momentos felizes em família. A demonstrava satisfação no que estava
intervenção se deu voltada para os contos, acontecendo com as crianças, mas, além
desenhos, produção com massinha, e disso, revelava novo entendimento sobre as
outros recursos estéticos e as crianças se crianças, e seus modos de “ser e estar” em
apropriaram do “brincar” e com eles sala de aula. A agressividade passou a ser
aprenderam novos modos de se menos destacada pela educadora que via na
relacionarem, possibilitando um acesso ao atividade cooperativa uma forma das
outro, que potencializava as relações, sem crianças se expressarem e assim
a necessidade de disputas e brigas. diminuírem as disputas. A educadora
O resultado, apesar do restrito esteve disposta a (re) significar seu fazer,
tempo de intervenção, mostrou as diversas mas fundamentalmente, suas falas sobre as
formas do afeto se apresentar nas relações crianças.
das crianças, com saltos qualitativos que A intervenção estética possibilitou
ultrapassaram a agressividade e uma vivência e novas formas de relação
alcançaram cooperação. entre as crianças e a educadora, relações
estas pautadas na imaginação e na
Se buscarmos o caminho que
compreende as crianças como criatividade, promovendo uma relação
protagonistas da produção cultural, é consigo mesmo; com o outro e com o
possível identifica-las em processo de
criação-recriação de si, do outro e do mundo, produzindo possibilidades de
mundo a partir do conjunto de sensibilidade para o contexto em sala de
experiências que lhes são possibilitadas
e que acontecem na apropriação aula.
singular dos bens culturais com os quais
tem contato direto ou indireto. (...)
Neste movimento, sabiamente elas nos Considerações finais: alcançando os
abrem a possibilidade de também as objetivos e potencializando os sujeitos
significarmos e ao mundo a partir de um
novo olhar. (Peters & Zanella, 2010 p.
193) Estético é o que pode suscitar uma
percepção desinteressada.
(Vázquez, 1999, p.43)
A educadora esteve presente em
todos os encontros. Participou ativamente As estagiárias inicialmente não
auxiliando as estagiárias na condução das demonstravam interesse em desenvolver
atividades e junto delas avaliou cada seu estágio com crianças de quatro anos,
157

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

pois estavam focadas nos pré-adolescentes mesmas, das estagiárias com as crianças,
com uma faixa etária de onze a quatorze das estagiárias com as atividades propostas
anos, por entenderem que estes sim, e, o estranhamento, a mudança, produz
poderiam ser mais “participativos” e assim, saúde, pois oferta novos modos de ser no
contribuírem mais, com suas perspectivas espaço que antes mantinha práticas
de estágio. Porém, a partir das primeiras produtoras de assujeitamento.
observações as estagiárias já estavam Duarte Jr (2010, p.13) escreve
totalmente envolvidas com as crianças, “deve-se entender estética, aqui, em seu
pois a espontaneidade e a expressividade sentido mais simples: vibrar em comum,
destas as surpreendiam a cada encontro. sentir em uníssono, experimentar
Elas acreditavam ainda, que a coletivamente”. Podemos afirmar que as
quantidade de intervenções propostas, seria crianças, a educadora e as estagiárias
insuficiente para obtenção de resultados vibraram, sentiram e experimentaram
com as crianças, mas o que descobriram é juntas.
que não esperávamos necessariamente O que é possível afirmar então, é
resultados, mas processos, e que nesse que a atividade estética, confere ao sujeito
processo novas relações seriam a possibilidade de se (re)ver ampliando
construídas, novos modos de suas possibilidades de ser sujeito, e quando
posicionamento das crianças frente as suas falamos da formação de psicólogos, é
dificuldades e da educadora frente às fundamental possibilitar aos acadêmicos
atividades planejadas. estranhar a realidade vivida, questioná-la,
As atividades propostas se distanciar-se do naturalizado e, assim,
tornaram uma experiência estética, pois produzir novos sentidos sobre a realidade e
marcaram os sujeitos envolvidos sobre o fazer psicológico.
oferecendo a todos, um novo olhar sobre si Em supervisão, podemos
mesmo e, sobre as relações estabelecidas. compartilhar muito além do conteúdo
As atividades potencializaram as ações e científico e sua aplicabilidade, desde que,
por sua vez a imaginação e os sujeitos, este seja um espaço para oferecer, ao
promovendo novos modos de serem estagiário, um sentimento de desafio e
sujeitos, promovendo por sua vez bem- acolhida. Um espaço para treinar a
estar e saúde. As atividades promoveram atividade e encontrar o momento de
estranhamento das crianças consigo executá-la, tendo o supervisor o papel de
158

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

“acabamento” que estimule o estagiário a tecnologias de intervenção.


acreditar que pode construir suas próprias

Referencias

Caputo, N. & Bryant, S. C. (1998). Historinhas de contar. São Paulo: Companhia das
Letrinhas.

Czeresnia, D. (2003). O conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promoção. In:


Czeresnia, D; Freitas, C. M. (Orgs.). Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências.
Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

Dimenstein, M. (2000). A cultura profissional do psicólogo e o ideário individualista:


implicações para a prática no campo da assistência publica à saúde. Estudos de Psicologia,
5(1), 95-121. Acessado www.scielo.br. <Link>

_____________. (1998). O psicólogo nas Unidades Básicas de Saúde: desafio para a


formação e atuação profissionais. Estudos de Psicologia, Natal, v. 3, n. 1, p. 53-81, jan./jun.
Acessado www.scielo.br <Link>

Duarte Jr, J-F. (2010). O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. Curitiba, PR: Criar
Edições.

Ferreira Neto, J L & Penna, L M D. (2006). Ética, clínica e Diretrizes: a formação do


psicólogo em tempos de avaliação de cursos. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p.
381-390, mai./ago. Acessado www.scielo.br <Link>

Furtado, J, e cols., (2011). Teatro sem vergonha: Jovens, oficinas estéticas e mudanças nas
imagens de si mesmo. Psicologia Ciência e Profissão, 31 (1), 66-79. Acessado www.scielo.br
<Link>

Machado, A M; Almeida, I & Saraiva, L F. (2009). Rupturas necessárias para uma prática
159

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


A ATIVIDADE ESTÉTICA POTENCIALIZANDO A FORMAÇÃO DE PSICÓLOGOS

inclusiva. In: Anache, A A. e Silva, I R. Educação Inclusiva: Experiências profissionais em


psicologia. Brasília, DF: Conselho Federal de Psicologia. (p.21-35). Acessado www.pol.org.br
<Link>

Maheirie, K & cols., (2007). Processos de criação em educadoras: uma experiência e suas
implicações. Revista Departamento de Psicologia. UFF v.19 n.1 Niterói. Acessado
www.scielo.br <Link>

Martins, S T F. (2003). Processo Grupal e a questão do poder em Martín-Baró. Psicologia &


Sociedade; 15 (1): 201-217; jan./jun. Acessado www.scielo.br.<Link>

Oliveira, I F e cols., (2005). A Psicologia, o Sistema Único de Saúde e o Sistema de


Informações Ambulatoriais: inovações, propostas e desvirtuamentos. Interação em
Psicologia, Curitiba, v. 9, n .2, p. 273-283, jul./dez. <Link>

Pereira, Marcos. (2012). O limiar da experiência estética: contribuições para pensar um


percurso de subjetivação. Pro-Posições, Campinas, v. 23, n. 1 (67), p. 183-195, jan./abr.
<Link>

Peters, L & Zanella, A. (2010). Das imagens de crianças as crianças imaginadas:


considerações sobre a infância a partir de imagens de obras de arte. In: Zanella, A e Maheirie,
K (Ogrs). Diálogos em Psicologia Social e Arte. (pp. 199-212). Florianópolis:
NUP/CED/UFSC.

Rodari, G. (1982). Gramática da Fantasia. Tradução Antonio Negrini. São Paulo: Summus.

Romagnoli, R C. (2006). A Formação dos Psicólogos e a Saúde Pública. Pesquisas e Práticas


Psicossociais, v. 1, n. 2, São João del-Rei, dez. <Link>

Sawaia, B B. (2006). Introduzindo a afetividade na reflexão sobre estética, imaginação e


constituição do sujeito. In: Da Ros, S Z; Maheirie, K; Zanella, A. Relações estéticas,
atividade criadora e imaginação: sujeitos e (em) experiência. (pp. 85-94). Florianópolis:
160

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161


ELIANE REGINA PEREIRA

NUP/CED/UFSC.

Vázquez, A S. (1999). Convite à estética. (G. B. Soares, Trad.). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira.

Vigotsky, L S. (2004). Teoria de las emociones: estúdio histórico-psicológico. (J. Viaplana,


Trad.). Três Cantos, Madri: Ediciones Akal S.A.

Zanella, A e cols., (2005). Movimento de objetivação e subjetivação mediado pela criação


artística. Psico-USF, v. 10, n. 2, p. 191-199, jul./dez. Acessado www.scielo.br <Link>

Zanella, A. (2006). “Pode ser flor se flor parece a quem o diga”: reflexões sobre Educação
Estética e o processo de constituição do sujeito. In: Da Ros, S Z; Maheirie, K; Zanella, A.
Relações estéticas, atividade criadora e imaginação: sujeitos e (em) experiência. (pp. 33-47).
Florianópolis: NUP/CED/UFSC.

A autora:

Eliane Regina Pereira é psicóloga, pela Universidade do Vale do Itajaí, com mestrado e doutorado em
Psicologia , pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é professora adjunta, da Universidade
Federal de Uberlândia. E.mail – eliane@ipsi.ufu.br

Endereço para contato:


Instituto de Psicologia
Campus Umuarama – Bloco 2C Sala 34
Av. Pará, 1720, Bairro Umuarama
Uberlândia MG – CEP 38400-902

161

Perspectivas em Psicologia, Vol. 17, N. 1, p. 148-161