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09/11/2017 Robert Kurz - O MITO DA PRODUTIVIDADE

Robert Kurz

O MITO DA PRODUTIVIDADE
Desenvolvimento tecnológico, racionalização e desemprego

Há uma concepção ingénua, porém sensata, sobre a produtividade: quanto mais ela cresce, assim pensa o são
raciocínio humano, mais alívio traz à vida em comum. A maior produtividade permite mais bens com menos trabalho.
Não é maravilhoso? Em nossa época, no entanto, parece que o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade
exagerada de bens, resultou numa avalanche de desemprego e de miséria .

Desde o final dos anos 70, os sociólogos costumam falar de um desemprego tecnológico ou "estrutural". Isso significa
que o desemprego desenvolve-se com independência dos movimentos conjunturais da economia e cresce até mesmo
em períodos de boom. Nos anos 80 e 90, a base desse desemprego estrutural, de ciclo para ciclo, tornou-se cada vez
maior em quase todos os países; em 1995, segundo números da Organização Internacional do Trabalho, 30% da
população economicamente ativa de todo o mundo não possuía emprego estável.

Essa triste realidade, além de incompatível com o são raciocínio humano, suscitou uma curiosa reação dos economistas.
Os doutores em ciências econômicas agem como se o fenômeno irracional do desemprego em massa não tivesse
absolutamente nada a ver com as leis da economia moderna; as causas, segundo eles, devem ser buscadas em fatores
alheios à economia, sobretudo na política financeira equivocada dos governos.

Ao mesmo tempo, porém, os mesmos economistas afirmam que o aumento da produtividade não diminui o número de
empregos, mas é responsável, ao contrário, pelo seu crescimento. Isso teria sido comprovado pela história da
modernidade. O que para o observador imparcial se assemelha à causa da doença, deve assim integrar a própria receita
para a cura. Os economistas operam com uma equação que mais parece um sofisma. Onde está o erro?

Um axioma da teoria econômica afirma que o objetivo da produção é suprir a falta de bens da população. Ora, isso é
uma pura banalidade. Todos sabem que o objetivo da produção moderna é originar um lucro na economia da empresa. A
venda dos bens produzidos deve render mais dinheiro do que o custo de sua produção. Qual a relação interna entre
esses dois objetivos? Os economistas dizem que o segundo objetivo é apenas um meio (na verdade o melhor meio) de
atingir a primeira meta. E, no entanto, é evidente que ambos objetivos não são idênticos: o primeiro refere-se à economia
como um todo, o segundo à economia das empresas. Disso resultam contradições que, desde seu início, tornaram
instável o sistema econômico moderno.

A idéia tão natural de que o aumento da produtividade facilita a vida dos homens não leva em conta a racionalidade
específica das empresas. Na verdade, trata-se de saber qual será o uso de uma maior capacidade produtiva. Se a
produção visa a suprir as próprias necessidades, a evolução dos métodos e dos meios será utilizada simplesmente para
trabalhar menos e desfrutar do maior tempo livre. Um produtor de bens para o mercado, no entanto, pode ter a brilhante
idéia de trabalhar tanto quanto agora e utilizar a produtividade adicional para produzir uma quantidade ainda maior de
mercadorias, a fim de ganhar mais dinheiro em vez de aproveitar o ócio. Um administrador de empresas é mesmo
forçado a chegar a essa idéia, pois de nada lhe serve que os assalariados conquistem um maior espaço de tempo livre.
Para ele, a produtividade adicional representa de qualquer modo um trunfo contra a concorrência, sendo revertida em
benefício da diminuição dos custos da empresa, e não em favor da maior comodidade dos produtores.

É por isso que, na história econômica moderna, a jornada de trabalho diminuiu numa proporção muito menor do que o
aumento correspondente de produtividade. Hoje em dia, os assalariados ainda trabalham mais e durante mais tempo do
que os camponeses da Idade Média. A diminuição dos custos, portanto, não significa que os trabalhadores trabalham
menos mantendo a mesma produção, mas que menos trabalhadores produzem mais produtos. O aumento da
produtividade reparte seus frutos de forma extremamente desigual: enquanto trabalhadores "supérfluos" são demitidos,
crescem os lucros dos empresários. Mas, se todas as empresas entrarem nesse processo, há a ameaça de surgir um
efeito com que não contavam os interesses obtusos da economia empresarial: com o crescente desemprego, diminui o
poder de compra da sociedade. Quem comprará então a quantidade cada vez maior de mercadorias?

As corporações dos artesãos da Idade Média pressentiram esse perigo. Para elas era um pecado e um crime fazer
concorrência aos colegas por meio do aumento de produtividade e tentar conduzi-los a todo custo à ruína. Os métodos
de produção eram por isso rigidamente fixados, e ninguém os podia modificar sem o consentimento das corporações. O
que impedia um desenvolvimento tecnológico era menos a incapacidade técnica do que essa organização social estática
dos artesãos. Estes não produziam para um mercado no sentido moderno, mas para um mercado regional limitado, livre
de concorrência. Essa ordem de produção durou mais tempo do que geralmente se supõe. Em grande parte da
Alemanha, a introdução de máquinas foi proibida pela polícia até meados do século 18. A Inglaterra, como se sabe, foi a
primeira a derrubar tal proibição. O caminho, assim, ficou livre para as invenções técnicas como o tear mecânico e a
máquina a vapor, os dois motores da industrialização. E, súbito, irrompeu a temida catástrofe social: em toda a Europa,
na passagem do século 18 para o 19, alastrou-se o primeiro desemprego tecnológico em massa.

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Tudo isso é passado, dizem os economistas: a evolução posterior não demonstrou que os temores eram infundados? De
fato, apesar da expansão contínua das novas forças produtivas do ramo industrial, o desemprego tecnológico caiu
rapidamente. Mas por que motivo? Acossados pela concorrência recíproca, os industriais foram obrigados a restituir aos
consumidores parte de seus ganhos com a produção. As máquinas tornaram os produtos essencialmente mais baratos
ao consumidor. Embora para a produção de uma certa quantidade de produtos têxteis fosse necessária uma força de
trabalho menor do que antes, a demanda por roupas e tecidos baratos cresceu tanto que, ao contrário das expectativas,
um número considerável de trabalhadores foi empregado nas novas indústrias. Com isso, porém, o problema não foi
solucionado pela raiz. Todo mercado, a seu tempo, atinge um limite de saturação que o torna incapaz de conquistar
novas camadas de consumidores. Somente numa certa fase da evolução o aumento da produtividade conduz à criação
de mais empregos para a sociedade, apesar da menor quantidade de trabalho necessária para a confecção de cada
produto.

Nessa fase, os métodos desenvolvidos barateiam o produto e o preparam ao grande consumo das massas. Antes de
alcançar esse estágio, o aumento de produtividade lança o antigo modo de produção numa profunda crise, como mostra
o exemplo dos artesãos têxteis no século 19. Na outra ponta do desenvolvimento, a crise é igualmente uma ameaça
(com base na própria produção industrial), quando o estágio de expansão é ultrapassado e os mercados periféricos
encontram-se saturados. Mas essa mesma expansão ainda pode ser transferida a outros setores. Ao longo do século 19,
os antigos redutos artesanais foram progressivamente industrializados. Cada vez mais produtos tiveram seus preços
reduzidos e permitiram a explosão do mercado. O processo sofreu uma tal aceleração que os artesãos "supérfluos" eram
imediatamente absorvidos pelo trabalho industrial, evitando assim que se repetisse a grande crise social dos antigos
produtores têxteis. Já não eram apenas os objetos do quotidiano que podiam ser comprados pelas camadas mais
pobres; mesmo produtos de luxo, antes reservados às seletivas camadas superiores entraram cada vez mais no
consumo de massas. Até Karl Marx reconheceu este embaratecimento geral dos produtos de fabrico industrial como
“obra civilizatória” do capitalismo. As crises, mesmo que inevitáveis, pareciam somente transições dolorosas para se
atingir novos patamares de prosperidade. Mas o que ocorre quando todos os ramos da produção já estão
industrializados e todos os limites de expansão do mercado já foram alcançados?

O desenvolvimento econômico parecia refutar também esse receio. A indústria não apenas absorveu os antigos ramos
da produção artesanal, mas também criou a partir de si mesma novos setores produtivos, inventou produtos jamais
imaginados e infundiu a sede de compra nos consumidores. O processo de aumento da produtividade, expansão e
saturação dos mercados, criação de novas necessidades e nova expansão parecia não ter limites. Economistas como
Joseph Schumpeter e Nikolai Kondratieff formularam, a partir dessas idéias, a teoria das chamadas “ondas longas” no
desenvolvimento cíclico da economia moderna. Segundo essa teoria, uma certa combinação de indústrias sempre atinge
seu limite histórico de saturação, envelhece e começa a encolher, após uma fase de expansão impetuosa. Empresários
inovadores, na condição de "destruidores criativos" (Schumpeter), inventam todavia novos produtos, novos métodos e
novas indústrias que libertam o capital dos antigos investimentos estagnados e lhes dão novo alento num corpo
tecnológico renovado.

O exemplo lapidar desse nascimento de um novo ciclo é a indústria automobilística. Em 1886, o engenheiro alemão Carl
Benz já tinha construído o primeiro carro; mas até a Primeira Guerra Mundial, tal mercadoria permaneceu um produto de
luxo extremamente caro. Como que saído das páginas do livro-texto de Schumpeter, surgiu então o empresário inovador
Henry Ford. Sua criação não foi o próprio automóvel, mas um novo método de produção. No século 19, a produtividade
cresceu sobretudo pelo fato de os ramos artesanais terem sido industrializados por meio da instalação de máquinas. A
organização interna da própria indústria ainda não fora objeto de grandes cuidados. Só após 1900 o engenheiro norte-
americano Frederick Taylor desenvolveu um sistema de "administração científica da empresa", a fim de desmembrar as
áreas de trabalho específicas e aumentar a produção. Ford descobriu por meio desse sistema reservas insuspeitas de
produtividade na organização do processo produtivo. Observou, por exemplo, que um operário da linha de montagem
perdia em média muito tempo ao buscar parafusos. Estes foram então transportados diretamente ao local de trabalho.
Parte do processo tornou-se "supérfluo" e, logo em seguida, foi introduzida a esteira rolante.

Os resultados foram surpreendentes. Até a Primeira Guerra, a capacidade produtiva de uma fábrica de automóveis de
porte médio permanecia em torno dos 10 mil carros por ano; em Detroit, a nova fábrica de Ford produziu, no exercício
financeiro de 1914, a fantástica cifra de 248 mil unidades do seu célebre "Modell T". Os novos métodos deflagraram uma
nova revolução industrial. Mas tal revolução "fordista" ocorreu tarde demais para poder evitar a crise econômica mundial
(1929-33), desencadeada pelos custos da guerra e pelo declínio global do comércio. Depois de 1945, porém, sobreveio a
"onda longa" da produção industrial em massa de automóveis, aparelhos domésticos, divertimentos eletrônicos etc.
Baseado no antigo modelo, só que agora em dimensões muito maiores, o aumento da produtividade criou um número
espantoso de novos empregos, já que a expansão do mercado de carros, geladeiras, televisões etc, exigia, em termos
absolutos, mais trabalho do que os métodos "fordistas", em termos relativos, economizavam em cada produto.

Nos anos 70, as indústrias fordistas atingiram seu nível histórico de saturação. Desde então vivemos a terceira revolução
industrial, da microeletrônica. Cheio de esperanças, alguém se lembrou imediatamente de Schumpeter. De fato, os
novos produtos passaram por um processo semelhante de barateamento, à maneira dos automóveis e das geladeiras: o
computador, antes um aparelho caro e destinado a grandes empresas, transformou-se rapidamente num produto de
consumo das massas. Desta vez, porém, o surto econômico não causou o correspondente aumento de empregos. Pela
primeira vez na história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de economizar mais trabalho, em termos
absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos. Na terceira revolução industrial, a
capacidade de racionalização é maior do que a capacidade de expansão. O anterior efeito de uma fase expansiva,

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criadora de empregos, deixou de existir. O desemprego tecnológico da antiga história da industrialização faz seu retorno
triunfal, só que agora não se limita a um ramo da produção, mas se espalha por todas as indústrias, por todo o planeta.

O próprio interesse econômico das empresas conduz ao absurdo. Já é tempo, depois de 200 anos de era moderna, que
o aumento da produtividade sirva para trabalhar menos e viver melhor. O sistema de mercado, porém, não foi feito para
isso. Sua ação restringe-se a transformar o excedente produtivo em mais produção e, portanto, em mais desemprego.
Os economistas não querem compreender que a terceira revolução industrial possui uma qualidade nova, em cujo meio
a teoria de Schumpeter não é mais válida. Em vão, eles ainda esperam a "onda longa" da microeletrônica. Estão à
espera de Godot.

Original Der Mythos der Produktivität in www.exit-online.org. Publicado na Folha de São Paulo de 11.02.1996 com o
título O TORPOR DO CAPITALISMO e tradução de José Marcos Macedo

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