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Julia Taunay Perez

Fundamentos da
Economia

São Paulo
Rede Internacional de Universidades Laureate
2015
Sumário
Capítulo 4: O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico-------------------------------5
Introdução------------------------------------------------------------------------------------------- 5
1 O setor público---------------------------------------------------------------------------------- 6
1.1 Funções econômicas do setor público------------------------------------------------------ 7
1.2 Estrutura tributária----------------------------------------------------------------------------- 9
1.3 Tipos de tributos----------------------------------------------------------------------------- 11
1.4 Orçamento público------------------------------------------------------------------------- 12
1.5 Déficit público------------------------------------------------------------------------------- 14
2 Teorias de crescimento e desenvolvimento econômico------------------------------------ 16
2.1 Fontes de crescimento-------------------------------------------------------------------------
2.1 Fontes de crescimento---------------------------------------------------------------------- 18
2.2 Financiamento de desenvolvimento------------------------------------------------------- 20
2.3 Modelos de crescimento econômico ----------------------------------------------------- 21
2.4 Estágios de desenvolvimento--------------------------------------------------------------- 22
Síntese--------------------------------------------------------------------------------------------- 25
Referências Bibliográficas----------------------------------------------------------------------- 26
Capítulo 4 O Setor Público e o
Desenvolvimento Econômico
Introdução
Neste Capítulo, você terá contato com os princípios de atuação do Estado na economia,
compreendendo os principais aspectos que moldam as avaliações a respeito da efetividade do
setor público. Dessa forma, conseguirá descrever as funções econômicas do Estado, a estrutura
tributária necessária para a execução de seus objetivos, a forma pela qual se estabelece o
orçamento público, bem como os resultados da diferença entre arrecadação e gasto, ou seja, o
déficit público.

Também terá contato com as principais teorias de crescimento e desenvolvimento econômico, o


que lhe permitirá entender quais são as fontes de geração de riqueza nas economias, bem como
as estratégias de financiamento do desenvolvimento econômico.

5
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

1 O setor público
Ao longo deste curso, você teve contato com diversas formas de atuação do Estado na economia.
Em um primeiro momento, aprendeu como as diferentes escolas de pensamento econômico
encaram o papel econômico do Estado; depois, compreendeu como as políticas governamentais
são capazes de afetar o equilíbrio dos mercados competitivos; por fim, verificou como a adoção
de políticas macroeconômicas interferem no ciclo econômico.

Essa visão inicial é muito rica para a compreensão das formas como o Estado pode intervir no
curso econômico. No entanto, a discussão ainda carece de aprofundamento dos mecanismos
de atuação do Estado. Nesse sentido, a seguir será apresentada uma breve conceituação das
funções econômicas do setor público, com posterior elucidação dos princípios norteadores da
execução tributária, o que lhe permitirá obter a receita necessária para a execução de seus
gastos. Por fim, você terá contato com questões relativas ao resultado financeiro da ação do setor
público, expresso por meio de déficits e superávits fiscais.

Mas, antes de iniciarmos a discussão a respeito do papel econômico do setor público, segue
um exercício a respeito da necessidade de nos organizarmos em torno de um aparato estatal
(Quadro 1).

Quadro 1 – Para que serve o governo?

Muitos leitores já devem ter se feito essa pergunta. Ou, colocando as coisas de
outra forma, seria possível não ter governo? Um exercício intelectual interessante
é imaginar o que aconteceria se, por exemplo, um transatlântico com 2.000
passageiros naufragasse e todas as pessoas conseguissem se salvar, sem que o
resto do mundo saiba do seu destino, indo parar em uma ilha deserta. O pequeno
anarquista que vive dentro de cada pessoa, no início, provavelmente levaria cada
um a tentar sobreviver de forma independente dos outros. Com o passar do tempo,
porém, algumas perguntas começariam a surgir, tais como:

• Como a comunidade fará para se proteger da ação dos animais selvagens?


• Se houver um litígio entre duas pessoas, quem arbitrará para decidir quem está
com a razão?
• Quem tomará conta dos eventuais infratores que, por exemplo, forem pegos
roubando o sustento dos outros?
• Quem tomará conta dos doentes?

e tantas outras que poderão surgir. O leitor já terá percebido que o “exercício”
proposto nada mais é do que uma parábola para explicar – e justificar – a existência
dos governos. De fato, a primeira questão está associada ao que seria o conceito de
“defesa”; a segunda, ao de “justiça” etc. O governo surge como forma de organizar
e disciplinar melhor as relações entre as pessoas. A partir dessa necessidade inicial,
porém, é claro que há uma série de vícios e imperfeições, como a má escolha de
prioridades, o desperdício de recursos etc., que constituem o “fermento” que alimenta
as críticas, as quais, em maior ou menor medida, são dirigidas aos governos de
todos os países do mundo. Pode-se – e deve-se – tentar minorar essas imperfeições,
sem perder de vista que a alternativa à existência de um governo é o “cada um por
si”, o que é obviamente incompatível com qualquer forma de convivência civilizada
entre pessoas ou grupos sociais.

Fonte: GIAMBIAGI, F.; ALÉM, A. C., 2008, p. 9.

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1.1 Funções econômicas do setor público
Você já parou para pensar que, quando vai comprar um refrigerante, suas opções de compra
restringem-se a marcas de apenas duas empresas? De acordo com a Associação dos Fabricantes
de Refrigerantes do Brasil (Afrebras), cerca de 90% desse tipo bebida é fabricado pela Coca-Cola
e pela AmBev, excetuando-se algumas marcas regionais pequenas.

No início do século XX, a maioria dos setores econômicos era pouco concentrada, de modo
que o papel do Estado centrava-se na justiça e na segurança. Contudo, o decorrer da história
mostrou a necessidade de expansão do papel do Estado. Serão apresentados a seguir alguns
eventos históricos que contribuíram para a reformulação das funções econômicas do Estado.

O desenvolvimento dos modos de produção, em especial, o advento da produção em massa
fordista e a consequente concentração dos mercados mostraram a real necessidade do Estado
em fiscalizar e manter as práticas concorrenciais de modo a garantir o bem-estar social.

A crise de 1929, por sua vez, mostrou a importância do Estado na geração de empregos por meio
de obras de infraestrutura. Por fim, com o término das duas grandes guerras mundiais, observou-
se um avanço significativo dos ideais social-democratas, selando a abertura de estratégias de
desenvolvimento cada vez mais dependentes do Estado.

No final da década de 1970, contudo, as crises fiscais ocasionadas pela adoção das políticas
fiscais expansionistas que embasaram o “Estado de Bem Estar Social”, aliadas ao desenvolvimento
tecnológico e do sistema financeiro, fez ressurgir o ideal liberal de baixa intervenção do Estado
na economia.
Antes de prosseguir com a descrição das funções econômicas do Estado, faz-se necessária uma
breve discussão sobre eficiência do mercado na alocação de recursos produtivos, de modo a
deixar mais claro o embate de ideias liberais e keynesianas que moldaram essa evolução.

Para que possamos entender esse ponto, voltemos à descrição da mão invisível do mercado,
de Adam Smith. Para esse autor, o problema de alocação de recursos produtivos se resolve da
maneira mais eficiente possível por meio do mercado. Como isso acontece?

Imagine que uma determinada sociedade esteja enfrentando problemas de escassez de alimentos,
ao mesmo que tempo que tem excesso de sapatos, os quais estão se acumulando nos estoques
das lojas. Podemos enxergar essa problemática por meio de duas óticas: desejos da sociedade e
alocação de recursos. Essa visão nos permitirá entender o conceito de eficiência.

Implicitamente, o desejo dessa sociedade é que ocorra uma realocação dos recursos produtivos,
os quais deixem de ser empregados em tal escala na produção de sapatos para serem utilizados
nos processos de produção de alimentos. Diz-se implicitamente, pois não há ninguém pensando
diretamente nessa situação, mas sim um desejo de que haja mais alimentos sendo produzidos e
menos sapatos. Mas como realocar os recursos produtivos?

De acordo com Smith, a forma mais eficiente de resolver esse problema encontra-se no
mercado concorrencial, por meio de um sistema de preços flexível e da livre de intervenção
governamental.

Se os fabricantes de sapatos estão acumulando estoques, deverão iniciar um processo de redução


de preços para conseguir vendê-los. A queda de preços reduz o lucro por unidade de produto, o
que torna a atividade menos atrativa, fazendo com alguns produtores enxerguem maior potencial
em outras atividades mais lucrativas, como a produção de alimentos.

Por outro lado, os fabricantes de alimentos encontram margem para elevação de preços na
medida em que a oferta existente é insuficiente para cobrir toda a demanda. O aumento do preço

7
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

permitirá que estes obtenham um lucro maior por unidade de produto. A maior lucratividade,
por sua vez, estimulará os investimentos produtivos, os quais exigirão que uma maior quantidade
de recursos produtivos seja alocada nessa atividade. Partindo do nosso exemplo simplista, esses
recursos viriam daqueles que produziam sapato e agora têm interesse na produção de alimentos.

Assim, se entendermos a eficiência de um mercado a partir da maximização dos ganhos do


comércio entre vendedores e compradores, toda vez que houver algum desequilíbrio de mercado
(excesso ou escassez de oferta), os resultados sugerem que uma melhor alocação dos recursos
produtivos poderia estar sendo feita; nesse sentido, ainda não se alcançou a situação mais
eficiente possível.

Assim, qualquer ação do Estado que tire do mercado essa capacidade de se “autorregular”
tenderia a trazer menor eficiência no processo de alocação dos recursos produtivos. No entanto,
essa visão é bastante rebatida por outras vertentes teóricas. Conforme vimos, Keynes acreditava
que é irreal essa premissa de que a economia tenderia, por meio da mão invisível do mercado,
ao equilíbrio de longo prazo. Nesse sentido, ele acreditava que a ação do Estado por si só não
é ineficiente; pelo contrário, ela serve para corrigir as flutuações de curto prazo, uma vez que a
“mão invisível” é passível de falhas.

NÃO DEIXE DE VER...


Um vídeo foi encomendado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos em meados
da década de 1950 ao cartunista John Sutherland, com o intuito de exaltar às forças
armadas americanas as glórias do sistema de livre mercado. De maneira muito didática,
ele explica a eficiência decorrente de um sistema de livre mercado, pontuando o escopo
de atuação do Estado, bem como as consequências de uma intervenção desastrosa.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uXiwS4xK8cw>. Acesso em: 20
jun. 2015.

Observa-se, portanto, que a abrangência do intervencionismo estatal anda no bojo do


desenvolvimento das teorias econômicas, as quais estão enraizadas em ideologias:

[...] em parte, a existência de um governo pode refletir a presença de ideologias sociais


e políticas, que divirjam das premissas adotadas quanto à soberania do consumidor e
quanto à preferência por um sistema de decisões descentralizadas. Mas este é apenas
um aspecto secundário do problema. Tem maior importância o fato de que o mecanismo
de mercado não pode desempenhar sozinho todas as funções econômicas. A atuação
governamental é necessária para guiar, corrigir e suplementar este mecanismo em alguns
aspectos. (MUSGRAVE; MUSGRAVE, 1980, p. 42)

Ainda assim, apesar de não haver consenso sobre a eficiência da ação do Estado na economia,
vamos discorrer sobre algumas de suas funções básicas:

1. Função alocativa: prover bens e serviços que não são de interesse da iniciativa privada, e
cujo consumo por um não afeta o acesso de outro. Esses tipos de bens são chamados “bens
públicos”, e podem se dividir em tangíveis (ruas, iluminação pública etc.) e intangíveis (defesa
nacional, justiça e segurança pública). A função alocativa também prevê a correção das falhas
de mercado, como as externalidades e a criação de monopólios.

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NÓS QUEREMOS SABER!
A distinção entre bens privados e públicos se dá por meio de dois aspectos: não exclusão
e não rivalidade. Pesquise ambos e caracterize as diferenças entre esses dois tipos de
bens.

2. Função distributiva: realização de políticas de redistribuição de rendas. Nesse caso, o Estado


utiliza parte da sua arrecadação de impostos para minimizar os efeitos das falhas no processo
distributivo do mecanismo de mercado. Os principais instrumentos dessa função são as políticas
de transferência de renda, como o Bolsa Família, bem como os subsídios e concessões de crédito
que visam estimular o acesso de famílias de baixa renda ao consumo de bens, como o “Minha
Casa Minha Vida”.

3. Função reguladora: a função estabilizadora refere-se ao papel do Estado na condução dos


interesses de política macroeconômica em relação aos preços da economia (inflação) e emprego.
Nesse sentido, qualquer tomada de decisão aplicada no âmbito das políticas monetária e fiscal
está satisfazendo essa função do Estado.

1.2 Estrutura tributária


O cumprimento de cada uma das funções do Estado exige que este desembolse recursos
financeiros. Esses recursos financeiros, por sua vez, são obtidos principalmente por meio da
arrecadação tributária.
Para garantir o bem-estar social, um sistema tributário deve ser guiado por proposições
elementares e essenciais que permitam a minimização da interferência do governo nas decisões
dos agentes econômicos, assim como a distribuição justa dos ônus entre esses. Essas proposições
serão detalhadas no quadro a seguir:

Quadro 2 – Sistema Tributário “Ideal”

Princípio da
“Perdas” devem ser compartilhadas
equalidade

Contribuição com a receita do Estado de cada agente Princípio do


econômico deve ser considerada socialmente “justa”
benefício

Contribuem mais com a receita do Estado aqueles com Princípio da


maior capacidade de pagamento
capacidade de pagamento

Imposição dos tributos precisa interferir o mínimo possível no Princípio da


processo de alocação de recursos
neutralidade

O processo de cobrança dos tributos deve ser facilmente Conceito de


operacionalizado simplicidade
Fonte: Autor.

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O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

1.2.1 Princípio da equidade

O princípio da equidade é concebido em uma perspectiva normativa, estabelecendo que o


ônus da implementação de impostos deve ser repartido entre os agentes econômicos. Em outras
palavras, visa estabelecer a relação entre cobrança do tributo e capacidade de pagamento e
divide-se entre princípio do benefício e capacidade de pagamento

1.2.2 Princípio do benefício

Na medida em que uma parcela dos tributos é destinada ao provimento de bens públicos,
argumenta-se que a utilização deles deveria estar equiparada com o pagamento dos tributos.
A aplicação desse princípio, na prática, é bastante complexa. Como determinar quanto você
ou seu vizinho utilizam da iluminação pública da sua rua, por exemplo? Quem trabalha à noite
deveria pagar um tributo mais elevado por utilizar mais esse tipo de bem do que aqueles que
saem somente à luz do dia? Apesar da dificuldade, alguns tipos de serviços públicos utilizam-se
de taxas específicas para seu financiamento, como o transporte público e a energia.

Nesse sentido, conclui-se que esse princípio é aplicável a alguns tipos específicos de serviços
públicos, contribuindo exclusivamente, portanto, para a função alocativa.

1.2.3 Princípio da capacidade de pagamento

Nesse caso, a tributação deveria ser estabelecida de acordo com a capacidade de pagamento
do agente econômico. Em torno do que é considerado socialmente justo, é possível estabelecer
uma regra geral de tributação: tratar igualmente aqueles com mesma capacidade de pagamento
(equidade horizontal) e de maneira diferente os que possuem capacidades de pagamento distintas
(equidade vertical).

A aplicação desse princípio convive com o seguinte dilema: quem tem maior capacidade de
pagamento? Quem tem a maior renda, ou o maior patrimônio ou quem consome mais?
Os que defendem a renda como melhor critério assim o fazem porque acreditam que seja a
forma mais ampla da compreensão de capacidade de pagamento, tendo em vista que, quanto
maior a renda, maior a capacidade de consumo e de construção de patrimônio. Cabe, neste
ponto, apresentar-lhe mais um importante conceito: progressividade. Um imposto é considerado
progressivo quando sua alíquota¹ eleva à medida que a renda também aumenta. No Brasil, o
Imposto de Renda é progressivo.

Os que acreditam que o consumo é o melhor critério defendem que o ato de consumir é voltado
para a satisfação de uma necessidade individual e deveria, portanto, ser devidamente onerado.
Ademais, a imposição do Imposto de Renda acaba por diminuir a capacidade de poupança e
investimento dos agentes econômicos, variáveis tão importantes para o crescimento econômico.
Nesse tipo de tributação, não há espaço para a progressividade, de modo que todos os indivíduos
pagam a mesma alíquota ao consumir um bem. Em termos práticos, se você ou Warren Buffett2
comprarem um guaraná na padaria, estarão pagando exatamente o mesmo valor ao Estado.

Por fim, os impostos sobre a riqueza também geram muitas polêmicas quanto à sua necessidade
e efetividade. O patrimônio de qualquer indivíduo do sistema econômico é resultado de uma
renda que foi gerada em um momento anterior e não foi gasta em consumo, ou seja, nada mais
é do que poupanças geradas no passado. Na medida em que são resultado de rendas passadas,
muitos acreditam que já foram devidamente tributadas.

¹ Alíquota é o termo empregado para designar a porcentagem ou valor fixo que deverá ser aplicado à base de cálculo do
tributo.
2
Warren Buffett é um dos maiores e mais influentes investidores do mundo. Em 2008, foi classificado como o homem mais
rico do mundo, de acordo com o ranking da Forbes.

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1.2.4 Princípio da neutralidade

O princípio da neutralidade prevê que a imposição de tributos não deve afetar a eficiência do
mercado na alocação dos recursos. À medida que a imposição de um tributo altera artificialmente
o preço do bem, este é capaz de gerar uma distorção nesse sistema de preços, levando a
economia a uma situação menos eficiente.

Isso posto, o princípio da neutralidade estabelece uma visão normativa da tributação:


hipoteticamente, a imposição de um tributo não pode afetar as decisões dos agentes. Em termos
práticos, significa que a neutralidade prevê que um sistema tributário deva gerar a menor distorção
possível na alocação dos recursos produtivos e, consequentemente, no sistema de preços.

O Imposto de Renda é considerado, em certa medida, neutro. Isso ocorre, pois a imposição da
alíquota diminui da mesma maneira a renda disponível para consumo e poupança daqueles
indivíduos enquadrados na mesma faixa de rendimento. No entanto, ao avaliarmos os impostos
seletivos que incidem sobre a produção e o consumo, quebra-se esse princípio. Isso não significa,
contudo, que tal imposição necessariamente irá trazer ineficiência. Por exemplo, o fato de a
produção e o consumo de cigarro arcarem com uma carga tributária mais elevada do que a
média está minimizando o impacto de externalidades negativas decorrentes de seu consumo, a
saber, a elevação dos gastos com saúde pública.

1.2.5 Conceito de simplicidade

Um sistema tributário deve ser idealizado de modo que os seus geradores de receita (contribuintes)
o entendam facilmente. Ademais, os custos com o processo de cobrança e arrecadação não
devem ser elevados.

1.3 Tipos de tributos


Quando o imposto incide diretamente sobre o indivíduo, mais especificamente sobre sua renda
(salários, lucros, juros, dividendos e aluguéis) ou patrimônio, diz-se que a tributação é direta.
Quando, por sua vez, incidir sobre as transações pertinentes às atividades econômicas ou
produtos e serviços, diz-se que a tributação é indireta.

1.3.1 Imposto de Renda

O Imposto de Renda é um tributo direto, o qual pode ser aplicado tanto às Pessoas Físicas
(IRPF) quanto às Pessoas Jurídicas (IRPJ). Suas alíquotas são fixadas com base em faixas de
renda, respeitando o critério de progressividade. Sua base de cálculo incide em torno da renda
tributável, que contempla alguns abatimentos do rendimento total do indivíduo, como gastos
com planos de saúde.

O Imposto de Renda da Pessoa Física fica retido diretamente na fonte pagadora. Portanto, os
trabalhadores formais, ao receberem seu salário, já têm descontado o imposto, de modo a se
minimizarem as práticas de sonegação no caso dos contratos em CLT.

O Imposto de Renda da Pessoa Jurídica incidirá sobre o lucro tributável das organizações, sendo
sua base de cálculo feita a partir de três métodos:

1. Lucro real: é a diferença entre receitas e custos. O cálculo do IRPJ a partir desse método exige
registros contábeis em conformidade com a legislação. Sua forma de apuração pode se dar
anualmente, com contribuições mensais baseadas em estimativas, ou trimestralmente.

2. Lucro presumido: alíquota que incide sobre a receita bruta. Esse tipo de método se aplica

11
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

melhor a empresas cuja receita bruta não é grande o suficiente para que se tenha a necessidade
de organização de um sistema contábil adequado à legislação tributária.

3. Lucro arbitrado: o governo estabelece arbitrariamente qual deverá ser a base do imposto; sua
implementação se dá nas empresas que não apresentam registros contábeis precisos.
Na medida em que o IRPJ incide sobre o lucro tributável, questiona-se o fato de que ele incida
inteiramente sobre o produtor, pois podem ocorrer repasses aos preços que os consumidores
deverão pagar.

1.3.2 Imposto sobre o Patrimônio

Imposto que incide sobre a posse de ativos em um determinado período. No Brasil, os maiores
exemplos desse tipo de imposto são o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto
sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

1.3.3 Imposto sobre as Vendas

Impostos indiretos que incidem sobre o consumo, podendo ser classificados de acordo com:

1. Amplitude da base incidência: incidência que se dá rotineiramente sobre transações – compra


de produtos industriais ou de bens de consumo, com alíquotas uniformes (únicas) ou seletivas
(diferenciadas segundo a natureza do bem). Também podem incidir sobre as transações de
compra e venda de mercadorias específicas. Nesse caso, as alíquotas são sempre seletivas.
Exemplo: Imposto sobre consumo de bebidas alcoólicas.

2. Estágio do processo de produção e comercialização: imposto pode ser cobrado do produtor,


do comércio atacadista, do comércio varejista ou em todas as etapas.

3. Forma de apuração: incidência se dá no valor total da transação (Imposto em cascata ou


cumulativo) ou apenas no valor adicionado pelo contribuinte (Imposto sobre valor adicionado).
O imposto em cascata fere o princípio da neutralidade, em especial naqueles setores cuja cadeia
produtiva é muito extensa. Na medida em que cada etapa é tributada sobre o valor geral da
transações, os setores com maiores quantidades de etapas produtivas tendem a arcar com uma
carga tributária mais intensa, prejudicando sua competitividade e atratividade.

1.4 Orçamento público


O conceito de orçamento público surge quando se percebe que, em um Estado de Direito, para
que se evite a ação imprópria de governantes, se estabelece que os gastos do governo deverão
ser submetidos à autorização antes de sua execução.

O comportamento dos gastos públicos está bastante atrelado com o contexto histórico, conforme
podemos observar na tabela a seguir:

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Final Período Período Período
século XX, prévio à I pós I prévio à II
em torno Guerra Guerra Guerra
de 1870 Mundial, Mundial, Mundial, em 1960 1980 1990 1996
(b) em torno em torno torno de
de 1913 de 1920 1937 (b)
(b) (b)
Alemanha 10,0 14,8 25,0 34,1 32,4 47,9 45,1 49,0
Austrália 18,3 16,5 19,3 14,8 21,2 34,1 34,9 36,6
Áustria 14,7 20,6 35,7 48,1 38,6 51,7
Bélgica (c) 13,8 22,1 21,8 30,3 57,8 54,3 54,3
an a á 16,7 25,0 28,6 38,8 46,0 44,7
s anha (c) 11,0 8,3 13,2 18,8 32,2 42,0 43,3
sta s 7,3 7,5 12,1 19,7 27,0 31,4 32,8 33,3
ni s
ran a 12,6 17,0 27,6 29,0 34,6 46,1 49,8 54,5
lan a (c) 9,1 9,0 13,5 19,0 33,7 55,8 54,1 49,9
rlan a 18,8 25,5 28,0 48,9 41,2 42,0
tália (c) 11,9 11,1 22,5 24,5 30,1 42,1 53,4 52,9
a 8,8 8,3 14,8 25,4 17,5 32,0 31,3 36,2
ruega 5,9 9,3 16,0 11,8 29,9 43,8 54,9 49,2
a 24,6 25,3 26,9 38,1 41,3 34,7
el n ia
ein 9,4 12,7 26,2 30,0 32,2 43,0 39,9 41,9
ni
uécia 5,7 10,4 10,9 16,5 31,0 60,1 59,1 64,7
u a 16,5 14,0 17,0 24,1 17,2 32,8 33,5 39,4

Média
10,5 12,0 18,2 22,4 27,9 43,1 44,2 45,8
Simples

(a) Governo geral.


(b) Valor referente ao ano mais próximo para o qual se dispõe de dados depois de 1870, antes de 1913, depois
de 1920 e antes de 1937.
(c) Até 1937, dados referentes apenas ao governo central.

Fonte: GIAMBIAGI, F.; ALÉM, C. A., 2008, p. 11.

No decorrer do século XX, observa-se uma participação cada vez mais expressiva dos gastos
públicos no PIB dos países. Especialmente quando enfrentam períodos de guerra, a elevação dos
gastos públicos é acentuada.

Independentemente da existência de algum esforço de guerra, nota-se que o gasto público


traçou uma trajetória de crescimento, impulsionada por dois principais fatores: envelhecimento
populacional e urbanização. O primeiro deles pressiona os gastos públicos, pois aumenta as
despesas com saúde e, sobretudo, com a previdência. O segundo faz com que a sociedade
pressione por serviços públicos cada vez melhores.

Em termos políticos e econômicos, o estabelecimento do orçamento público reflete a execução


de gastos, os quais devem estabelecer áreas prioritárias. Entre os principais centros de custo do
governo, temos: a) saúde; b) educação; c) defesa nacional; d) policiamento; e) regulação; f)
justiça; g) assistencialismo.

13
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

NÃO DEIXE DE LER...


Você tem ideia de como o governo está distribuindo seus gastos entre os ministérios e
secretarias?

Entre na página do Orçamento no site do Ministério do Planejamento e descubra!

No Brasil, a Constituição de 1988, em seu artigo 1653, prevê que o orçamento do setor público
seja realizado obedecendo cumulativamente a três requisitos: a) Plano Plurianual (PPA)4; b) Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO)5; e c) Lei Orçamentária Anual (LOA)6.

1.5 Déficit público


Você já deve ter presenciado situações nas quais uma pessoa perde o controle de seus gastos e
acaba comprometendo uma parcela maior do que seu rendimento. Na medida em que o governo
tem uma receita e uma perspectiva de gasto, ele também está sujeito a tal situação. Ao final de
um exercício, se a arrecadação for maior do que as despesas, diz-se que há um superávit nas
contas públicas. Quando o governo gasta mais do que arrecada, por sua vez, cria-se um déficit
público.

No Brasil, historicamente, o setor público é deficitário. Toda vez que as despesas superarem a
receita gerada, o governo deverá encontrar formas de financiar sua dívida. Se recorrer a recursos
extras fiscais, poderá emitir moeda, por exemplo. Para tanto, o Tesouro Nacional (União) deverá
pedir o montante emprestado ao Banco Central. A principal vantagem desse recurso está em
não aumentar o endividamento público junto ao setor privado. Contudo, esse tipo de ação gera
pressões inflacionárias.

O governo também pode optar por vender títulos da dívida pública ao setor privado. Nesse caso,
ao obter receita com a venda do título, tira moeda de circulação, que deverá ser destinada ao
financiamento de sua dívida. Nesse caso, não há pressão inflacionária; contudo, o endividamento
público aumenta, pois o título é vendido mediante o pagamento de juros.

Se recorrer aos recursos fiscais, o governo poderá estabelecer um aumento dos impostos
conjugado a uma maior restrição dos seus gastos (política fiscal contracionista).
Assim, percebemos que a manutenção da saúde financeira do Estado enfrenta dilemas em relação
ao controle da inflação e da dívida pública.
3
Art. 165. Leis de iniciativa do Poder Executivo estabelecerão:
I - o plano plurianual;
II - as diretrizes orçamentárias;
III - os orçamentos anuais.
4
“§ 1º A lei que instituir o plano plurianual estabelecerá, de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração pú-
blica federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada” (BRASIL,
1988, n.p.).
5
“§ 2º A lei de diretrizes orçamentárias compreenderá as metas e prioridades da administração pública federal, incluindo as despesas
de capital para o exercício financeiro subseqüente, orientará a elaboração da lei orçamentária anual, disporá sobre as alterações na
legislação tributária e estabelecerá a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento.” (BRASIL, 1988, n.p.).
6
“§ 5º A lei orçamentária anual compreenderá:
I - o orçamento fiscal referente aos Poderes da União, seus fundos, órgãos e entidades da administração direta e indireta, inclusive
fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público;
II - o orçamento de investimento das empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito
a voto;
III - o orçamento da seguridade social, abrangendo todas as entidades e órgãos a ela vinculados, da administração direta ou indireta,
bem como os fundos e fundações instituídos e mantidos pelo Poder Público.” (BRASIL, 1988, n.p.).

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1.5.1 Tipos de déficit público

Quando observamos a diferença entre o que foi arrecadado e gasto em um determinado período,
chegamos ao conceito de déficit primário. Observe que, nesse caso, não se está levando em
consideração os juros reais de dívida contraída em um momento anterior. No entanto, como o
governo se endivida para cobrir o déficit primário, todo exercício exige o pagamento de juros
e amortização da dívida criada. Surgem, então, dois novos conceitos de déficit: a) déficit
nominal, que soma ao déficit primário os gastos com juros e amortização da dívida; b) déficit
operacional, que é o déficit nominal, excluindo a correção monetária e cambial7.

1.5.2 Debate: Déficit público vs. Crescimento econômico

Na última década, estudos importantes apontaram que, quanto maior a participação do déficit
público no PIB, menor tenderia a ser o crescimento que tal país enfrentaria:

Tabela 2 – Média anual de crescimento do PIB Real para diferentes razões de


participação do déficit público no PIB de 20 economias avançadas (1946-2009)

Taxa de crescimento do PIB


4,1%
30-60% 2,8%
60-90% 2,8%
> 90% -0,1%
Fonte: REINHART; ROGOFF (2010a, 2010b) 11 apud HERNDON; ASH; POLLIN (2013).

Conforme a tabela aponta, quanto maior o déficit público, menor tenderia a ser a taxa média
de crescimento do PIB Real. Se o déficit público é gerado ao se gastar mais do que se arrecada,
o que esses resultados nos mostram é que a prática de políticas fiscais expansionistas é muito
“perigosa” no longo prazo.

Desde a publicação deste estudo em 2010, o debate em torno da adoção de políticas


macroeconômicas privilegiou a austeridade, com rígido controle dos gastos públicos. Esse fato é
bastante curioso, pois nesse mesmo período o mundo enfrentava os efeitos da crise econômica
deflagrada nos Estados Unidos no final de 2007.

Contudo, em 2013, um novo estudo reacendeu o debate. Utilizando a mesma base de dados,
estudantes do MIT encontraram novos resultados:

8
REINHART, C.; ROGOFF, K. 2010a. ‘Growth in a Time of Debt’, Working Paper, n. 15639, National Bureau of Economic
Research. Disponível em: <http://www.nber.org/papers/w15639>. Acesso em: 20 jun. 2015 e REINHART, C.; ROGOFF, K.
2010b. Growth in a Time of Debt, American Economic Review, v. 100, n. 2, p. 573–578.

15
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Tabela 3 – Média anual de crescimento do PIB Real para diferentes razões de


participação do déficit público no PIB de 20 economias avançadas segundo Herdon,
Ash e Pollin

Taxa de crescimento do PIB


4,2%
30-60% 3,1%
60-90% 3,2%
>90% 2,2%
Fonte: Adaptado de HERDON; ASH; POLLIN (2013).

Comparado ao estudo anterior, observa-se uma forte discrepância de dados em relação à


taxa média de crescimento do PIB Real em países em que o déficit público supera os 90%.
As considerações dos autores sobre os dados gerados repercutiu na esfera de formulação de
políticas econômicas. Em especial, eles mostraram que os formuladores de política não podem
defender que as medidas de austeridade se fundamentam na evidência de que, nos níveis em
que o déficit público for superior a 90% do PIB, haverá uma queda acentuada no crescimento
econômico.

Percebe-se, portanto, que ainda não se chegou a um consenso a respeito da relação entre déficit
público e crescimento econômico. As diferenças metodológicas na condução das pesquisas que
cruzam tais dados dão margem à continuidade do debate.

2 Teorias de crescimento e desenvolvi-


mento econômico
Apesar de já ter entendido parte da forma na qual o Estado atua sobre a economia, ainda
é necessário discutir como esses tipos de intervenção moldam estratégias de desenvolvimento
econômico. Mas, antes disso, precisamos estabelecer a diferença existente entre os conceitos
de crescimento econômico e desenvolvimento econômico e de que maneira estão relacionados.

O crescimento econômico é comumente mensurado pela taxa de variação do PIB Real. Esse
conceito está embasado em uma abordagem utilitarista de crescimento, a qual está relacionada
com a expansão da capacidade de satisfazer necessidades em uma determinada sociedade. Nesse
sentido, a investigação dos meios que levam ao crescimento econômico perpassa a expansão da
capacidade de produção dessa economia, os quais deverão ser apresentados no próximo tópico.

O desenvolvimento, por sua vez, precisa ser encarado em uma perspectiva mais ampla. Alguns
autores defendem que a ocorrência de crescimento econômico tende a levar, no longo prazo, ao
desenvolvimento. Foi partindo desse princípio que Delfim Netto, ministro da Fazenda no período
do “Milagre Econômico” que ocorreu durante os governos militares, afirmou que “é preciso
esperar o bolo crescer para, depois, reparti-lo”. Essa frase foi pronunciada mediante forte crítica
ao modelo de crescimento econômico que concentrava cada vez mais a renda e não se traduzia
em desenvolvimento econômico.

Outros autores acreditam que esse não é um fenômeno puramente econômico, na medida em
que engloba a melhoria da qualidade de vida, e não simplesmente das condições econômicas. É
o caso de Amartya Sen, economista indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998.

16 Laureate- International Universities


VOCÊ O CONHECE?
Amartya Sen ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1998 em virtude de suas
contribuições à Economia do Bem-Estar Social.

Ele enxerga o fenômeno de desenvolvimento econômico como um processo de expansão


das liberdades individuais. Os principais fatores que geram a privação da liberdade
são: a) pobreza e tirania; b) carência de oportunidades econômicas e destituição
social sistemática; c) negligência dos serviços públicos; d) intolerância ou interferência
excessiva de Estados repressivos.

Assim, se a liberdade é resultado de um processo de desenvolvimento, para que este


ocorra, é necessário que a sociedade combata e elimine todos esses fatores restritores
da liberdade.

O exercício de reflexão proposto pelo autor para se pensar o fenômeno do desenvolvimento


ancora-se na seguinte pergunta: “Riqueza traz felicidade?”, a qual podemos estender
para: “A riqueza nos permite fazer tudo o que queremos?”.

O autor chega à conclusão de que a riqueza é um meio, mas nunca um fim. Os indivíduos
querem viver uma vida longa e boa, ou seja, não se quer morrer jovem tampouco se
quer viver a miséria e a privação de liberdade. Assim, o autor afirma que “A utilidade da
riqueza está nas coisas que ela nos permite fazer – as liberdades substantivas que ela
nos ajuda a obter”, negando o princípio de que a maximização da renda e da riqueza é
determinante da ação individual.

Um dos principais resultados de seus estudos foi a criação de um indicador de


desenvolvimento conhecido como Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado
pela ONU para balizar as Metas do Milênio.

Para que você entenda melhor esse debate, proponho uma reflexão: de acordo com estimativas
do FMI, em 2015, o Brasil deve ser a oitava maior economia do mundo. Você acredita que,
apesar de não ser um dos países mais ricos do mundo, podemos nos considerar desenvolvidos?
O gráfico abaixo apresenta as 20 maiores economias do mundo; destas, quantas podem ser
consideradas desenvolvidas?

17
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Gráfico 1 – As maiores economias do mundo (em US$ milhões


correntes) – Previsões para o PIB (2015)

Fonte: FMI.

2.1 Fontes de crescimento


Apesar de termos percebido que crescimento não necessariamente se traduz em crescimento,
vamos partir do princípio de que este é condição necessária, mas não suficiente para o fenômeno
do desenvolvimento.

Inicialmente, vamos entender como as diferentes constituições da chamada “Função de produção


agregada” afetam o crescimento e a renda dos países. Vimos que as empresas devem combinar
insumos produtivos, em especial, capital e trabalho, para produzir bens e serviços. Se pensarmos
numa perspectiva agregada, veremos que a capacidade de geração de riqueza de um país está
diretamente relacionada a esses dois fatores.

Dessa forma, vamos conceituar que as principais fontes do crescimento econômico são:

1. Crescimento demográfico e imigração: na medida em que se eleva a quantidade de mão


de obra disponível na economia, há uma elevação na quantidade de trabalho na função de
produção agregada, o que tende a puxar o crescimento econômico.

2. Estoque de capital: reflete a capacidade de produção da economia dada a quantidade de


capital disponível na economia.

3. Educação: essa variável irá fundamentar o conceito de capital humano.

18 Laureate- International Universities


4. Desenvolvimento tecnológico: capaz de melhorar a eficiência na utilização dos estoques de
capital, tanto físico quanto humanos.

5. Eficiência organizacional: capacidade de combinar de maneira eficiente os insumos nos


processos produtivos.

Através desses determinantes do crescimento, é possível observar que tal fenômeno é resultado
ou da maior disponibilidade de recursos ou da melhoria na qualidade desses. Ademais, vamos
prosseguir com uma breve discussão a respeito da distinção entre capital físico e humano, que
talvez não seja tão trivial quanto parece.

2.1.1 Capital humano

No final da década de 1950 e início da de 1960, diversos autores começam a perceber a


importância da qualidade da mão de obra para o crescimento econômico. Em especial Theodore
Schultz, em 1961, afirma que a qualificação profissional também deveria ser enquadrada
como uma categoria de capital, na medida em que era capaz de elevar a produtividade de um
trabalhador, assim como uma máquina. Dessa forma, o autor define que qualquer gasto que uma
empresa realize para melhorar a qualidade de sua mão de obra, por exemplo, em treinamento e
saúde, é, na realidade, um investimento em capital humano.

Gary Becker amplia a ideia de Schultz ao considerar que os investimentos que o indivíduo (e não
somente a empresa) realiza ao longo de sua vida em treinamento e qualificação também têm uma
participação importante no crescimento econômico. Mincer também enxergava a importância do
elemento humano do capital para o desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, para o
crescimento econômico.

Independentemente do enfoque dado, o capital humano foi incorporado como importante fonte
do crescimento. Ao avaliar o crescimento pela ótica da produção, o capital humano é capaz de
elevar a produtividade do trabalhador; ao avaliar a ótica da renda, permite que o trabalhador
tenha um potencial ganho de renda.

Mas como será que o capital humano influencia o desenvolvimento econômico e social dos
países? Há evidências de que os trabalhadores de nações desenvolvidas têm maior produtividade
do que aqueles residentes em países em desenvolvimento. Isso ocorre, pois nesses países a
necessidade de garantir a subsistência faz com que muitas famílias tenham que tirar seus filhos
da escola, alocando-os no mercado de trabalho.

2.1.2 Capital físico

O capital físico, representado nas máquinas e equipamentos, é a principal fonte de crescimento


econômico encontrada na literatura econômica. A principal medida utilizada para representar a
sua importância no crescimento é a relação produto-capital, dada por:

V = ∆Y/∆K, onde V = relação produto-capital; ∆Y = variação do produto nacional; ∆K =


variação da capacidade produtiva.

Essa relação mostra o quanto o capital físico é capaz de adicionar ao produto, sendo, portanto,
uma importante forma de medir a produtividade de um país. A elevação do produto nacional
depende, dessa forma, de investimento produtivo em capital físico, e, normalmente, esses
investimentos tendem a ser alocados em setores com maior valor dessa relação.

19
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

2.2 Financiamento de desenvolvimento


Para realizar um investimento, é necessário alocar recursos financeiros. Esses recursos podem
ser gerados dentro da economia ou externamente. Nesse sentido, diz-se que o investimento
produtivo prevê a utilização de poupança interna ou externa, ou seja, um país pode adotar dois
tipos de estratégia: endividamento externo e autofinanciamento.

Para conseguir financiar com recursos próprios, o país precisa adotar políticas que estimulem a
formação da poupança interna. Algumas economias, em especial as economias socialistas, como
a China, adotaram a obrigatoriedade de poupança por longos períodos de tempo como forma
de acelerar o processo de formação de estoques de capital.

Outra estratégia de formação de poupança interna se dá por meio dos resultados do setor
público: quando se arrecada mais do que se gasta, o governo gera superávits, os quais poderão
ser alocados no mercado por meio de crédito via bancos de desenvolvimento ou de fomento.

Para atrair poupança externa, por sua vez, os países precisam criar condições atrativas para o
Investimento Estrangeiro Direto (IED)9. De acordo com os dados divulgados pela UNCTAD, o
Brasil foi o quinto país que mais atraiu IED em todo o mundo em 2013, como mostra o gráfico
abaixo:

Gráfico 2 – Fluxos de IED – 20 maiores países de destino

Fonte: UNCTAD (2014).

Outra fonte de financiamento externo é encontrada nas instituições financeiras multilaterais,


como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Internacional para Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD), que atualmente integra o Banco Mundial, e o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID).

9
O IED se caracteriza como recursos financeiros vindos do exterior para a consolidação de um investimento produtivo no país receptor.
Sua efetivação exige uma transferência de capital de uma matriz para uma filial.

20 Laureate- International Universities


Historicamente, o Brasil se utiliza de poupança externa para financiar a sua estratégia de
desenvolvimento. Independentemente da origem do recurso que moldará a estratégia de
financiamento do desenvolvimento, os países precisam criar condições para os investimentos em
capacidade de produção, de modo a permitir o desenvolvimento econômico.

2.3 Modelos de crescimento econômico


Neste tópico, vamos abordar brevemente dois modelos de crescimento de longo prazo: um
ancorado em uma perspectiva keynesiana, a saber, Harrod-Domar, e outro baseado na escola
de pensamento neoclássica, o modelo de Solow.

2.3.1 Harrod-Domar

O modelo de Harrod-Domar coloca que os determinantes do crescimento econômico são: a)


taxa de poupança; b) taxa de investimento; c) relação produto-capital. Dessa forma, tem-se que
a taxa de crescimento do produto (Y’) é determinada da seguinte forma:

Y’ = s*V, onde s = taxa de poupança e V = relação marginal produto-capital.

A taxa de poupança, por sua vez, é expressa pela razão entre poupança e produto, chamada de
propensão a poupar:

s = S/V, onde S = poupança agregada e V = renda nacional.

A relação marginal produto-capital é dada da seguinte forma:

v = ∆Y/∆K, onde ∆Y = variação da renda nacional; ∆K = variação no estoque de capital.

Como a taxa de investimento agregado (I) pode ser considerada como a variação no estoque de
capital, podemos reescrever a equação anterior da seguinte forma:

v = ∆Y/I

Vamos trabalhar com um exemplo numérico. Imagine um país que tem uma taxa de poupança de
15% e uma relação produto-capital de 0,38. Qual deverá ser sua taxa de crescimento?

Se s = 0,15 e v = 0,38, temos que:

Y’ = 0,15*0,36 = 0,057.

Assim, concluímos que, dadas essas características da economia, a taxa de crescimento deveria
ser de 5,7%.

Esse modelo, como qualquer outro, apresenta algumas limitações importantes de serem
abordadas.

Em primeiro lugar, ele estabelece uma relação bastante simplificada entre poupança, investimento
e crescimento. Isso porque não está fazendo qualquer distinção a respeito da qualidade do
investimento, que na prática varia muito.

Por exemplo, os investimentos são destinações de recursos financeiros para aquisição de


ativos, os quais podem ter diferentes níveis de produtividade. Ao estabelecer apenas uma taxa
de produtividade do capital, supõe-se que essa diferença não seja impactante, o que é uma
inverdade.

21
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Ao mesmo tempo, o retorno dos investimentos em termos de produto nacional também é bastante
diferente: investimentos em educação e saúde costumam reverberar no produto após um longo
período de tempo; um investimento em maquinário, por sua vez, tende a elevar imediatamente a
capacidade de produção dessa economia.

Nesse sentido, esse modelo prevê que o Estado pode ter um papel importante na condução dos
objetivos econômicos de crescimento, na medida em que pode direcionar as políticas econômicas
de modo a alterar a taxa de investimento e poupança da economia.

2.3.2 Solow

O modelo de Solow é considerado um dos mais importantes modelos de crescimento. Para que
possamos compreendê-lo, vamos estabelecer algumas premissas importantes:

Imagine uma economia que produza somente um bem, por exemplo, alimento. A produção
de alimento é resultado de uma certa combinação de fatores de produção, a saber: estoque
de capital (k) e oferta trabalho (L). Imaginemos que o estoque de capital é representado pelo
maquinário destinado à produção de alimentos e que a oferta de trabalho se refere às pessoas
disponíveis para emprego na lavoura. Temos portanto que:

Y = ƒ(K,L)

Vamos também supor que a oferta de trabalho varia à medida que varia a população, ou seja,
é uma função da taxa de crescimento natural da população e que o mercado de trabalho entra
em equilíbrio quando a oferta de trabalho se iguala à demanda de trabalho, situação alcançada
no Pleno Emprego.

Por fim, há o condicionante de que o Produto Nacional tenha de ser exatamente igual à Despesa
Nacional. Se Y = C + S e D = C + I, temos:

Y = D, portanto: S = I

Sendo a taxa de poupança dada nesse modelo, assume-se que a propensão marginal a poupar
em uma economia é constante. Dessa forma, no modelo de Solow, o crescimento econômico
depende diretamente do estoque de capital. Como a poupança é igual ao investimento.

Na medida em que os neoclássicos acreditam que a intervenção do Estado na economia tende a


trazer distorções na alocação dos recursos, o modelo de Solow prevê uma situação de equilíbrio
de longo prazo, com taxas constantes de crescimento. Assim, a adoção de políticas econômicas
é considerada pouco efetiva nesse modelo.

2.4 Estágios de desenvolvimento


Agora que já discutimos as principais fontes de crescimento econômico e como elas se
relacionam através de modelos, estamos aptos a entender quais são os elementos essenciais ao
desenvolvimento econômico, ou seja, sem esses condicionantes, Rostow afirmou que não existe
desenvolvimento:

22 Laureate- International Universities


Quadro 3 – Condicionantes do Desenvolvimento Econômico por Rostow

Elevação da taxa de investimento produtivo

Desenvolvimento de setores industriais

Ambiente político e social propício a investimentos

Elevação da taxa de crescimento do PIB per capita

Fonte: Autor.

Através desses condicionantes, o autor propõe a formulação dos estágios de desenvolvimento


dos países por meio de uma abordagem histórica.

Em uma sociedade tradicional, num primeiro estágio, a economia organiza-se em uma base
predominantemente agrária, onde a tecnologia empregada é bastante arcaica e a renda per
capita muito baixa.

Em um segundo estágio, estabelecem-se os pré-requisitos para a arrancada desenvolvimentista.


Assim, ocorre um aumento da taxa de acumulação do capital e o crescimento demográfico, bem
como melhorias na qualidade da mão de obra em função da maior qualificação e especialização.
Esse tipo de evolução é bastante típico em processos de urbanização acentuada e exige uma
melhoria expressiva da produtividade agrícola como forma de se financiar a expansão industrial.
Concomitantemente, países que passam por esse estágio de desenvolvimento costumam realizar
investimentos pesados em infraestrutura básica.

A terceira etapa de desenvolvimento refere-se ao processo conhecido como take-off, alusão à


decolagem de aviões. Nesse sentido, nesse estágio estabelecem-se as bases de um desenvolvimento
sustentado devido à institucionalização do crescimento. É nessa etapa que os condicionantes
apontados na Figura 2 firmam-se na economia.

O próximo estágio se caracteriza pela consolidação de um processo de crescimento sustentado,


o qual é guiado pelo amadurecimento dos instrumentos e instituições que asseguram o
desenvolvimento tecnológico.

23
O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

Por fim, a última etapa de desenvolvimento apontada por Rostow é a “Era do alto consumo
de massa”, caracterizada pela sofisticação das necessidades sociais, que se traduz em uma
economia mais complexa, com produtos de alta intensidade tecnológica.

Vale ressaltar que a discussão a respeito dos estágios de desenvolvimento a partir de uma
perspectiva histórica é bastante controversa. Essa visão implica compreender os instrumentos
e as políticas econômicas adotadas em cada uma das etapas. Dessa forma, diversos autores,
como o coreano Ha-Joon Chang, acreditam que as práticas recomendadas para os países em
desenvolvimento no Consenso de Washington, por exemplo, estariam em linha com estágios
mais avançados de desenvolvimento, sendo uma injustiça cobrar-lhes ações ligadas a condições
mais desenvolvidas. Por exemplo, como ter um governo menos atuante quando grande parte da
população mal tem acesso aos bens públicos?

2.4.1 Importância da industrialização para o desenvolvimento

A industrialização é considerada por muitos a principal força propulsora do desenvolvimento.


Quando observamos como se deu o processo de industrialização das nações mais ricas,
percebemos que foi resultado de uma elevação expressiva da produtividade agrícola. O
desenvolvimento tecnológico da agricultura teve, portanto, um papel importante no êxodo rural,
que permitiu a transferência de trabalhadores das lavouras às indústrias localizadas em centros
urbanos.

As nações em desenvolvimento iniciaram o seu processo de industrialização tardiamente, o que


lhes conferiu menor capacidade de competição. Nesse sentido, nos anos 1950 e início dos 1960,
adotou-se em diversos países subdesenvolvidos a estratégia de substituição de importações, que
se fundamentava em práticas protecionistas, como a proibição de importação de determinados
bens tidos como essenciais à consolidação do parque industrial dos países.

Os efeitos dessa política no longo prazo não foram os esperados. A proteção à nascente indústria
local fez com que muitos produtores se acostumassem à falta de concorrência, o que tornou o
desenvolvimento tecnológico mais vagaroso.

A abertura comercial e a redução das barreiras fundamentaram as estratégias de desenvolvimento


do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, trazendo alguns resultados bastante frutíferos,
outros nem tanto. No período, os chamados Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong
Kong e Cingapura) experimentaram um vertiginoso crescimento econômico que se traduziu em
desenvolvimento.

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Síntese Síntese
Neste Capítulo, você compreendeu como o Estado estabelece as diretrizes de eficiência necessárias
para a execução de suas funções econômicas através da ótica da Teoria da Tributação e do
Orçamento. Também viu que, assim como um indivíduo qualquer, o Estado pode se endividar, tendo
que recorrer a fontes de financiamento da dívida.

Também entendeu que o crescimento e o desenvolvimento econômico têm relação direta com
a expansão dos condicionantes técnicos da economia, em especial, com o investimento. Dessa
forma, no longo prazo, só se cresce economicamente estimulando o investimento. Talvez aqui você
tenha começado a perceber por que o último debate eleitoral brasileiro focou tanto a discussão
no esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo, havendo a necessidade de se
estimular os investimentos. Por fim, discutimos algumas estratégias de desenvolvimento.

O debate a respeito da necessidade de um Estado interventor, apesar de muito antigo, é bastante


atual. Espero que, ao final deste Capítulo, seus argumentos estejam mais afiados e você consiga
se posicionar criticamente, independentemente de suas crenças ideológicas, entendendo os pontos
positivos e negativos de cada uma das possibilidades.

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O Setor Público e o Desenvolvimento Econômico

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critique of Reinhart and Rogoff. Cambridge Journal of Economics, v. 38, p. 257-279, 2013.

MUSGRAVE, R.; MUSGRAVE, P. Finanças públicas: teoria e prática. São Paulo: Edusp, 1980.

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de Janeiro: Zahar Editores, 1961.

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de administração orçamentária, financeira e de contratações públicas. Rio de Janeiro,
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