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O PODER DOS CONTOS MARAVILHOSOS: UMA EXPERIÊNCIA DE

LINGUAGEM COM ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO SOCIAL


Zula Garcia Giglio
Centro de Memória da UNICAMP - CMU - Universidade Estadual de Campinas

Resumo
No contexto de um projeto de Educação Não Formal vinculado a uma pesquisa da história dos
bairros populares de Campinas, realizei um trabalho com adolescentes do Complexo São Marcos,
que é uma região periférica de Campinas, marcada pela má fama, violência e pobreza. O grupo de
adolescentes reunido para as atividades era semi letrado, embora todos tivessem concluído o
Ensino Fundamental; nenhuma atividade que envolvesse leitura ou escrita vingava, dada a
incapacidade do grupo. Também a própria linguagem verbal oral parecia comprometida. A
utilização de contos maravilhosos foi o recurso por excelência que mobilizou a atenção do grupo,
gerou canais de comunicação e ativou a fala dos participantes, que acabou tornando-se fluente,
reveladora de medos, hesitações, sonhos e projetos.

A Pesquisa:
A experiência de que vou falar vincula-se a um amplo Projeto de Pesquisa  Memória,
qualidade de vida e cidadania: história dos bairros populares de Campinas . Coord: Olga M. Von
Simson; co-cord: Maria Lúcia Souza Rangel Ricci. (Apoio: CNPq). Em andamento – Centro de
Memória da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas  na área das Ciências Sociais e que
utiliza a metodologia da História Oral.
Minha participação na equipe tem estado centrada no oferecimento de Oficinas de
Criatividade a adolescentes. Estas Oficinas, por sua vez, fazem parte de um conjunto de Oficinas
variadas com objetivos específicos, mas planejadas no contexto do Projeto, que visa um estudo
minucioso da cidade.

O local:
Campinas é o epicentro da região metropolitana conhecida como Grande Campinas, no
Estado de São Paulo. Nos anos 60/70, obedecendo a um plano piloto retraçado no boom
desenvolvimentista idealizado pelo regime militar, passou por uma política de higienização de sua
área central, deslocando toda a população de baixa renda  da qual fazia parte um número
significativo de negros, pardos e imigrantes rurais  para conjuntos habitacionais construídos nas
periferias (6;10;16). A velocidade do crescimento da cidade foi de tal ordem que muitos daqueles
conglomerados habitacionais em vinte anos já não são mais periferia. A população menos apta a
responder às demandas do mercado de trabalho na região, antes agro industrial e hoje pólo de alta
tecnologia elétrico-eletrônica, passou a constituir uma nova periferia, por sua vez cercada de uma
outra, a periferia da periferia, constituída por favelas, fenômeno praticamente inexistente na
Campinas rica de oportunidades de 30 anos atrás. É nesta cidade, antigo entroncamento
ferroviário vital do Estado de S.Paulo, e hoje entroncamento rodo-aéreo, cujo desenvolvimento
rápido perversamente lhe trouxe um dos mais altos índices de custo de vida, de acidentes de
trânsito e de marginalidade social do país, que realizamos uma experiência bastante significativa
de convergência da Psicologia Junguiana com a Pedagogia.
O Projeto:
O desenho metodológico do Projeto referido centra-se em entrevistas com moradores
antigos dos bairros em questão. Como recurso para estabelecer contacto com pessoas que
pudessem ser informantes privilegiados da história do bairro e, ao mesmo tempo, como
contrapartida de sua disponibilidade, os pesquisadores optaram por oferecer oficinas que
eventualmente interessassem aos adolescentes, especialmente àqueles em situação de risco
social.

Terminologia:
Por “adolescentes em situação de risco social” entendemos adolescentes que aliam
problemas de relacionamento familiar com baixo rendimento escolar, ou que estão já
precocemente fora da escola, apontados na comunidade como tendo comportamentos
desagradáveis (fazer arruaças, xingar e/ou agredir pessoas,), que sejam suspeitos de praticar
vandalismos, que estejam eventualmente envolvidos em atividades ilegais como trafico e/ou
consumo de drogas, pequenos furtos, etc.(25). Qualquer pessoa que esteja sofrendo exclusão
social de seu grupo está, em princípio, em situação de risco de cair na marginalidade e até na
doença psicossomática ou mental. Este conceito é extrapolado para a sociedade como um todo,
portanto podemos dizer que, basicamente, toda a população adolescente que pertence ao cinturão
de miséria das grandes cidades está em situação de risco social. Lembramos que a marginalização
social é uma via de dupla mão: as pessoas da outra margem estão permanentemente ameaçadas -
o risco é evidente sempre que o cinturão rompe-se aqui e ali, havendo a possibilidade de que
arrebente de vez...
Numa intervenção multidisciplinar de pesquisa sobre bairros populares e a conseqüente
migração intra-urbana, este contexto traçado rapidamente explica a escolha de uma prática de
Educação Não Formal.
A “Educação Não Formal” é um processo educativo não escolar que se caracteriza,
basicamente, por constituir-se como uma resposta a necessidades determinadas de um grupo em
um momento dado. A par desta determinação do “conteúdo”, em decorrência, surge um outro
conceito de educador e de educando, de avaliação, de certificação, bem diferentes dos conceitos a
que estamos acostumados no contexto da escola regular. O espaço educativo - do ponto de vista
sociológico – é outro; a participação é voluntária e descentralizada; a forma de lidar com a cultura
é mais particularizada; os laços entre as pessoas envolvidas adquirem desde o início uma
dimensão especial; o poder libertador e transformador, potencial em todo processo educativo,
encontra nesta modalidade condições bastante propícias para atuar. A continência da pluralidade
de saberes e a flexibilidade são as palavras chave para o funcionamento desses grupos
naturalmente heterogêneos.(25).
No Brasil a Educação Não Formal tem sido mais utilizada por indivíduos voltados a
práticas sociais em benefício de grupos economicamente carentes, e mesmo por associações e
instituições que lidam com comunidades em estado de privação sócio-cultural, embora ela, em si,
não privilegie sua destinação para populações de risco.

Objetivo geral das Oficinas:


As Oficinas dentro da pesquisa mencionada  em curso  destinam-se especialmente
aos adolescentes que estão fora da Escola Formal  por diversas razões  e que andam
desocupados pelo bairro e sem perspectivas em relação a qualquer possibilidade de
profissionalização em curto prazo. Elas foram planejadas como coadjuvantes do processo de
reconstituição da história e identidade do bairro pesquisado, como já mencionei, e tinham como
objetivos gerais (a) ampliar o leque de conhecimento sobre campos de trabalho urbano produtivo;
(b) abrir perspectivas de compreensão sobre os processos de inserção social; (c) possibilitar
condições de resgatar e organizar a história do bairro, das famílias dos adolescentes participantes,
e a própria história deles; (d) conscientizar sobre os pontos de apoio para a formação e o
estabelecimento de própria identidade dos participantes.
Contando com uma equipe multidisciplinar, o Centro de Memória da Unicamp oferece
diversas oficinas, como por ex. Direitos Humanos e Cidadania; Hip Hop: A Filosofia da Resistência;
Fotografia; Jornalismo Impresso; Memória e História Local; Memória Oral na História do Bairro;
Teatro de rua, Samba de raiz e Batuque.
Como ancoragem desta exposição vou ficar restrita às atividades com Contos
Maravilhosos que compuseram a realização das Oficinas de Criatividade em um dos bairros em
que já concluímos nosso trabalho.

A Oficina de Criatividade e os Contos Maravilhosos:


a) Objetivo
Como participante voluntária do Projeto a que me referi acima, optei por oferecer Oficinas
de Criatividade. Em geral, quando realizo estas oficinas, a proposta que as rege é a de facilitar o
processo que em nós permite a emergência do novo, da idéia criativa, da solução para problemas
que irrompem em nosso cotidiano. Alternando participação individual e participação em grupo,
estas oficinas são planejadas como um conjunto seqüente de atividades que visam despertar a
capacidade de produzir algo inédito, de agir criativamente, como indivíduo único que cada um de
nós é.
b) Metodologia:-
Exercícios baseados nas técnicas básicas de desenvolvimento do potencial criativo,
provenientes em sua maior parte de pesquisas da Psicologia Cognitiva, costumam ser apontados
como eficazes para despertar e desenvolver a Criatividade. (2; 4) Algumas técnicas inspiradas na
Psicologia Analítica de Jung também têm se mostrado adequadas para fortalecer a capacidade
imaginativa, geradora de idéias, e o sentimento de identidade, necessário tanto ao enfrentamento
de mudanças como a iniciativas transformadoras.(11).
A leitura e exploração de narrativas do gênero Maravilhoso ("gênero" como gênero
literário – cf. 27) são recursos que costumo utilizar e tenho tido experiências altamente
compensatórias ao fazê-lo (11; 13; 14).
c) Justificativa:- a natureza dos contos e a Psicologia Junguiana; criatividade e
desenvolvimento humano.
Pela expressão "Maravilhoso" estamos subentendendo aquela tipologia de narrativas que
introduzem como sendo naturais, aceitáveis e compartilháveis, dentro de seu universo, vivências
de metamorfoses, de contacto direto com seres sobrenaturais e com objetos mágicos e poderosos
Como sabemos que a motivação é um dos aspectos fundamentais de qualquer
atividade de ensino e aprendizagem, a primeira coisa que eu gostaria de mencionar, do ponto de
vista pedagógico, é o interesse que esse tipo de narrativa desperta nas pessoas
As reações de interesse não dependem, no caso dos Contos Maravilhosos, da idade dos
receptores. Tenho tido oportunidade de trabalhar com textos deste gênero junto com crianças,
com estudantes de diferentes graus, incluindo universitários, e com adultos fora do contexto
escolar, e percebo que esses textos têm um poder intrínseco de mobilizar de alguma forma as
pessoas, como textos especiais que são, dotados de uma força que vem de sua natureza
essencialmente simbólica.
No âmbito destes Contos, nos defrontamos com uma Linguagem cuja arte abriga-se em
seu nível mais primitivo, isto é, a metáfora, característica básica da literariedade, a qual está no
próprio princípio de construção destas narrativas e na gênese das suas personagens. São textos
pré-existentes à própria Literatura e, mesmo quando re-escritos na forma aparente do que hoje
chamamos de literário, isto não constitui um elemento que a eles se incorpora como essencial. Em
suma, eles não são o que aprendemos a chamar de Literatura; seriam, desse ponto de vista, um
grosseiro arremedo, um esboço de uma estrutura narrativa, um embrião do qual ainda mal se
poderia prever o desenvolvimento.
Esta esqueletice, esta simplicidade, percebida e analisada, por exemplo, já em 1928 por
PROPP (20), e posteriormente por outros, permitiu aos Contos migrações culturais, aglutinações,
desdobramentos, e toda a sorte de transformações, re-criações e ... degenerações. Poderíamos
chamar os Contos Maravilhosos de DNA da literatura de ficção....
O próprio desenvolvimento da Linguagem e da Cultura foi colocando os Contos
Maravilhosos numa posição secundária. Podemos acompanhar historicamente o seu percurso
durante os séculos, observando como, de seu papel como narrativa fundamental, chegaram até
nossos dias como historinha antiga, adequada para crianças pequenas. Podemos também rastrear
os outros gêneros a que deram origem, tendo tido diferentes aspectos de sua constituição
privilegiados de acordo com o tempo cultural que atravessaram; dois exemplos bastante típicos
são a Novela de Cavalaria medieval e o conto policial moderno. Este último, com seus
desdobramentos cinematográficos  leia-se televisivos  e, simultaneamente, nas histórias em
quadrinhos, tornaram-se a modalidade narrativa mais acessível à população de baixa renda.
A par da riqueza do desdobramento dos Contos Maravilhosos, pródigos em gerar novas
formas, ficou-nos também algo das narrativas originais, contadas e recontadas através do tempo,
superficialmente distorcidas pelo que lhes foi acrescentado e, principalmente, pelo que lhes foi
subtraído. Marie Louise VON FRANZ (26), entre outros, traz em sua obra dados muito ricos sobre
as migrações e mudanças destes Contos. Seus elementos básicos, entretanto, aos quais já nos
referimos, permaneceram, e nos interessa particularmente examinar o valor que eles têm hoje e
lembrar como sua estrutura via história policial, é familiar mesmo a grupos semiletrados.
A natureza motivadora por si mesma dos Contos Maravilhosos deve-se especialmente à
sua linguagem simbólica. Sabemos que a Teoria dos Arquétipos de Carl Gustav Jung explica
claramente porquê aqueles Contos nos tocam tão profundamente e nunca foram esquecidos.(17).
Temos neles as reproduções simbólicas das imagens arquetípicas da humanidade: o Grande Pai,
a Grande Mãe, o Sábio, a Sombra, o Ânimus, a Ânima, o Trickster, e outros (26). Todas são figuras
com as quais cada um de nós tem uma forte relação, pois se referem a instâncias psíquicas que
nos habitam, e com as quais devemos nos defrontar se almejamos amadurecer e nos tornar
pessoas inteiras, se queremos alimentar o processo de evolução de nossa própria Consciência.
Conhecer-se a si mesmo não seria a condição básica para sermos capazes de atribuir dimensões
significativas a qualquer outro conhecimento? Os Contos Maravilhosos constituem o depositário
deste autoconhecimento da natureza humana (28), e é a sabedoria contida neles, simbólica, que
nos atrai e nos fala (7).
Como qualquer símbolo, os Contos nos falam primeiro à imaginação. Esta é a sua porta
de entrada, por onde podemos acessar partes mais profundas de nosso Eu e até de nosso
Inconsciente. Nós, adultos, grande parte das vezes somos capazes de entrar por ela e voltar,
submetendo nossos achados à Consciência, à lógica do pensamento e da Linguagem Verbal. A
criança dificilmente faz isto, mas nem por isso aprende menos. Na adolescência, fase de transição
difícil, a coexistência do pensamento mágico com a necessidade da Lógica , despertada pela
emergência do pensamento simbólico (15;19) faz com que a busca por princípios e valores torne-
se imperiosa no processo de formação da identidade (9). Narrativas então podem tornar-se
emblemáticas nesta fase, desde que não se apresentem como “babacas”, infantis ou moralizantes.
Contos Maravilhosos podem constituir-se como uma fonte de idéias e serem vistos como sugestão
de um norte, um rumo a seguir.
Uma das faculdades humanas mais poderosas é a Imaginação (23); como toda
potencialidade, precisa ser desenvolvida e cultivada. Dela depende o sucesso de outras
faculdades, e sabemos hoje, apesar dos estudos nessa área ainda serem poucos e difíceis, que
inúmeros aspectos da Inteligência estão vinculados à capacidade imaginativa (1; 3; 12; 15; 22; 24).
O século XX, especialmente, padeceu do descaso pela Imaginação e pela Fantasia,
marcado pelo fascínio das descobertas e conquistas tecnológicas referentes ao poder da
racionalidade. A situação hoje de todo o planeta nos aponta tragicamente para onde o culto à
Razão nos levou, e despontam em vários lugares do globo tentativas já organizadas de se buscar
um equilíbrio.(8).
Isto se reflete nas tendências mais avançadas da Educação, que já se debruça sobre o
estudo de novas metodologias, incorporando descobertas recentes da Neurologia, como por
exemplo as que se referem às especializações de áreas cerebrais, à natureza holográfica do
funcionamento do cérebro; também conquistas na área da Psicologia Cognitiva são remarcáveis,
como as relacionadas com a memória e a atenção; a Física elícita questões sobre as quais a
Filosofia e a Metafísica têm se debruçado desde sempre, tais como as relações entre tempo,
espaço e percepção humana ou ainda sobre a própria natureza de nossa consciência.
É pela Fantasia, a qual os Contos Maravilhosos (ou Contos de Fadas) tão bem nutrem e
estimulam, que se desenvolve a Imaginação Criadora.

A criatividade e os Contos Maravilhosos:


A Criatividade é vista, sobretudo hoje, como a chave para nossa sobrevivência enquanto
espécie. No nível individual, é ela uma condição reconhecida para a Saúde Mental (18; 21; 22).
Promover o desenvolvimento da Criatividade é um dos papéis fundamentais da Escola, embora na
nossa prática diária encontremos lamentavelmente pouca informação e interesse da Escola por
isto, assim como por parte das famílias (2; 3; 5; 12).
Há outros aspectos que são positivos do ponto de vista pedagógico, quando da utilização
deste gênero de narrativa referido. Ao trazerem à tona os problemas mais fundamentais da
existência humana, como o ideal, o medo, a impotência, a fatalidade, o poder, o amor, a
transcendência, os Contos Maravilhosos nos levam a lidar com os sentimentos que eles nos
elicitam, ou seja, forçam nossa Consciência a reconhecê-los como parte de nós e nos propõem
modelos de atuação. Através dos Contos Maravilhosos, uma pessoa percebe, seja no nível
consciente ou no inconsciente, que a humanidade elaborou algumas respostas, que cada indivíduo
não está sozinho, pois carrega em si sentimentos e possibilidades de reações desenvolvidos e
eventualmente testados durante milênios, e que existe alguma indicação do caminho que deve
percorrer e do ponto de chegada.
Essa experiência vicária, que o receptor dos Contos tem, pode funcionar como um
verdadeiro tônico para os músculos existenciais. São significados de que a pessoa se nutre para
tornar-se mais segura e integrada. As lições repetem-se sempre, com insistência, sob as mais
diferentes formas e, seja através de anões, gatos de botas, anéis, do som de uma palavra ou de
um trabalho árduo de tecelagem, sempre os resultados são fantásticos e nos asseguram a
existência de uma solução.
Os Contos Maravilhosos falam de uma única coisa, da Transformação e do preço que ela
custa. Portanto, falam exatamente do nosso processo vital e espiritual; falam do que a co
adolescente sente mais agudamente do que o adulto, principalmente porque não pode
compreender bem e está numa fase do desenvolvimento típica de transformação, que lhe exige
um verdadeiro salto quântico. Mas como os contos falam por símbolos, o coração do adolescente
consegue entendê-los, e, ainda, os entende na medida certa em que ele suporta e/ou necessita
desse conhecimento. Aí está parte do segredo da capacidade de ensinar dos Contos, a qual
decorre também de sua natureza simbólica: alguma parte de nós se encarrega de dosar a
compreensão que temos dos símbolos, e eles vão se dando a nós pouco a pouco, sem nunca
serem irrelevantes e sem nunca serem totalmente transparentes.

A pedagogia das Oficinas:


Disso decorre um critério de qualidade da nossa pedagogia no uso dos Contos em
nossas oficinas: jamais explicamos os significados que percebemos; mesmo quando perguntam, a
nossa estratégia é a de recolocar a pergunta para o grupo e deixar que descubram as próprias
respostas. E' assim que aprendem a caminhar dentro de si mesmos, e assim se abrem para
entender as outras pessoas à sua volta. Assim é que aprendem a lidar com linguagens simbólicas
e a construir seus próprios pensamentos. Também é assim que aprendem como a Intuição, essa
forma sutil de saber sem conhecer, pode ser uma auxiliar valiosa na busca do conhecimento.
O que desenvolvi como princípio nos anos em que trabalhei como Profa. de Literatura é
agora perfeitamente harmônico com a atuação do educador na Educação Não Formal: o prazer
encontrado em uma atividade é o principal mestre. A função principal da Literatura, como de toda
Arte, é o prazer. Tudo o que aprendemos através dela - e não é pouca coisa - é por decorrência,
pois seu objetivo não é ensinar, no sentido didático do termo. Aliás, este é o engano mais comum
que encontramos na Literatura destinada a crianças e a adolescentes, e que compromete sua
qualidade. Também o uso "didático" que muitos professores fazem de textos literários interfere, às
vezes de forma negativa, no gosto natural dos alunos pela leitura.
O uso que fazemos dos Contos Maravilhosos é de forma a permitir que o texto fale por si
mesmo, de forma que cada participante, independentemente de sua idade, possa expressar sua
própria compreensão do Conto. Meu papel é o de criar condições para que cada um consiga, da
sua melhor forma, expressar-se livremente e da forma mais inteligível possível, para que sua
Consciência tenha acesso aos conteúdos que o texto lhe descortinou e para que os colegas
partilhem com ele de sua experiência. Trata-se pois de um trabalho também na área da Linguagem
 ou do Pensamento e da Comunicação, área que está, do ponto de vista psico-pedagógico,
vinculada ao próprio processo de formação da identidade dos adolescentes.
As técnicas variam desde as tradicionais utilizadas entre nós para trabalhar com textos
até às menos usuais e mais criativas, como a confecção de máscaras, a improvisação de bonecos,
a visualização criativa. As possibilidades são inesgotáveis, e os participantes também costumam
ser férteis em boas idéias quando nós dividimos com eles as tarefas de planejar e realizar um bom
encontro.
Especialmente para a Educação Não Formal, a perspectiva pedagógica é coerente com
o ensinamento dos Contos Maravilhosos: estamos todos imersos num processo contínuo de
transformação, e estar neste ou naquele estágio não nos faz melhores nem piores como pessoas,
apenas nos autoriza a ocupar determinados lugares no processo em relação às outras pessoas.
Em princípio, não há avaliação e muito menos qualquer julgamento do valor de uma pessoa,
esteja ela na posição de aprendiz ou de ensinante.. O que se avalia é se estamos conseguindo
estabelecer uma comunicação honesta e clara conosco e com os outros, e se cada um está
cuidando bem de seus próprios talentos. A avaliação é sobretudo auto-avaliação quando o
"conteúdo" são Contos Maravilhosos. O educador, ao contrário daquele que atua dentro dos
parâmetros da Educação Formal, livre da obrigatoriedade de avaliação e certificação tem uma
liberdade de ritmo apenas orientada pelos interesses e disponibilidade de tempo do grupo. Em
contrapartida, sua responsabilidade é muito intensa, pois na verdade ele precisa ter um preparo
que excede a competência numa determinada disciplina, adentrando a Ética, a Intuição e a
Psicologia.
O trabalho com estes contos produz, naturalmente, resultados observáveis. Algumas
coisas que já pude observar neste sentido foram: maior flexibilidade de pensamento, maior empatia
com os colegas (o que facilita sobremaneira os trabalhos em grupo e a disciplina em sala),
desinibição, coragem de expor-se ao erro, maior fluência no uso da linguagem verbal,
desenvolvimento da imaginação, aumento do gosto pela leitura, facilidade para criação de
personagens e de situações, tanto em laboratórios de teatro como em produção de textos.
Cabe observar, entretanto, que os resultados essenciais de um trabalho com os
referidos Contos não são imediatos, e nem visíveis a olho nu na maioria das vezes, como também
acontece com qualquer trabalho na área da Educação.

Um exemplo:-
Gostaria de particularizar agora os meus comentários do trabalho neste tipo de projeto,
exemplificando com o relato de alguns aspectos das últimas oficinas que conduzi, no segundo
semestre do ano passado (2002). Nesse período estávamos pesquisando o Complexo São
Marcos, região que agrupa três bairros – S. Marcos, Jardim Campineiro e Vila Esperança  e que
diariamente garante seu lugar na seção policial dos jornais da cidade. Mais de uma quadrilha
disputa ali o controle de algumas regiões da cidade; tráfico de drogas, assassinatos, assaltos com
violência, tudo que pode acontecer é protagonizado por alguém do S. Marcos. No próprio bairro
acontecem brigas violentas e mortes. Ainda por cima existe na região um local que foi eleito como
ponto de desova de corpos, de maneira que além do que já acontece por ali, os jornais estão
sempre noticiando pessoas assassinadas encontradas no S. Marcos. A má fama do local é tal que
alguns membros da equipe do Projeto de pesquisa que haviam colaborado nos trabalhos em
outros bairros periféricos recusaram-se a participar das atividades lá. Assim foi que precisamos
substituir algumas oficinas por outras...
O grupo de adolescentes que freqüentou estas oficinas tinha uma consciência muito mais
marcada (em relação a grupos de outros bairros pesquisados) de sua exclusão social; percebiam-
se como “mais feios”, mais pobres, e mais estigmatizados pela fama do próprio bairro. Por outro
lado, apresentavam uma evidente disposição para qualquer atividade que favorecesse a tomada
de consciência de si, embora manifestassem uma dificuldade – senão uma resistência -
generalizada em relação à assumpção de qualquer valor de coletividade.
Foram os contos maravilhosos que conseguiram, nas Oficinas de Criatividade, propiciar
momentos de agregação e troca entre eles. Era um grupo semiletrado, embora quase todos
houvessem concluído o Curso Fundamental; portanto qualquer atividade que quisesse centrar-se
na leitura ou na escrita estava fadada ao fracasso. Optamos pela ênfase na oralidade e em
desenhos. O limiar de atenção do grupo era baixíssimo e embora se entusiasmassem inicialmente
com a proposta de entrarmos no mundo das “histórias de fadas” não foram capazes de ouvir até
o fim o conto escolhido por eles : “aquele que o menino acha um gênio que faz tudo o que ele quer”
– Aladim e a Lâmpada Maravilhosa. Optamos por apresentar-lhes um vídeo, “O Feitiço de Áquila” e
este foi o começo certo. O amor impossível, o bispo rico e criminoso, o padre arrependido e
dedicado, o rapazinho-narrador que é, ele próprio, um miserável excluído, um mentiroso recorrente
e um ladrãozinho, as lutas, o cenário, o mistério mobilizaram a atenção de todos.
Depois da exibição, fomos nos encontros seguintes tomando posse do filme. Começamos
nos perguntando o que era um personagem e terminamos numa conversa sobre quem somos
quando nos mostramos aos outros. No meio, desenhamos máscaras em sacos de papel pardo que
podíamos “vestir”, ver e falar através. A interação entre os participantes do grupo foi sofrendo
alterações qualitativas gradualmente e eles começaram a trazer para discussão o tema do amor,
dos desencontros, da violência, da imaginação, dos desejos, das drogas e das perdas. Nesta
ordem.
A medida em que os participantes foram avançando nas suas reflexões, ora a partir de
desenhos, ora manifestando suas idéias através de analogias com outras histórias, a sua afasia
inicial foi dando lugar a manifestações mais espontâneas e a uma prosa mais fluida. Isto de certa
forma corroborou idéias sobre as quais já especulamos em trabalho anterior sobre as relações
intrínsecas de “retro-alimentação” entre pensamento, linguagem verbal e identidade (Relações
entre Linguagem Verbal e Formação de Identidade – Reflexões fundadas em uma experiência de
Educação Não Formal. 13o. Congresso de Leitura do Brasil - COLE. Associação de Leitura do
Brasil (ALB). UNICAMP. Campinas / SP. 17 – 21 / julho/2001).
Por fim, vieram os sonhos que eles sonhavam acordados. Talvez se tivéssemos tido mais
tempo, chegássemos a articular alguns deles a ponto de termos também esboço de sentidos
buscados e projetos de vida.
A título de conclusão, transcrevo a seguir a criação coletiva de dois grupos que,
respectivamente, participaram das Oficinas de Criatividade.Estas histórias resultaram de
investigação simples que fizemos sobre a estrutura típica dos Contos Maravilhosos tradicionais
mencionados pelos participantes: Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, A Bela e a Fera, A
Pequena Sereia.
A análise destas histórias na moldura das condições sócio culturais de seus autores vai
evidenciar como o trabalho com os Contos Maravilhosos propiciou a emergência de tantas coisas
que estavam não –ditas e que seriam indizíveis de outro modo.

História 1
Era uma vez uma garota que vivia presa em um bosque. Era um encantamento, ela não
podia sair dali. Os pais dela é que haviam prendido a menina ali porque eles achavam que ela era
muito feia. Para se livrar daquela prisão ela teria que se apaixonar e ser correspondida.
Estava andando pelo mundo um príncipe que estava buscando uma noiva fora do seu
reino, porque ele sabia que de onde ele vinha todas as moças eram interesseiras e queriam casar-
se com ele por causa da sua riqueza.
Um dia ele chegou até aquele bosque e viu a moça, conversou com ela e começou a
gostar dela. A moça também começou a gostar do príncipe, mas não contou para ele o seu
problema, que era estar presa ali. E todo dia o moço ia ver a moça.
No bosque também ficava uma bruxa, que de dia parecia uma moça muito bonita e de
noite se transformava no que era realmente e ela apaixonou-se pelo príncipe, além de ter inveja da
bondade e da beleza da outra.
Antes que o príncipe ficasse totalmente confuso, um dia apareceu a ele um lindo cavalo
branco, que era mágico, e contou para ele tudo o que estava acontecendo, e que a bruxa estava
para jogar uma praga nele. O príncipe então ficou de tocaia e descobriu que era mesmo verdade,
que a moça que queria seduzi-lo transformava-se numa bruxa quando a noite chegava.
Aí ele enfrentou a bruxa, lutou com muita coragem e acabou por conseguir degolá-la.
Depois ele foi encontrar-se com a moça com quem gostava de conversar, e descobriu
que estava mesmo apaixonado por ela.
Aí o feitiço acabou por completo, e eles puderam sair dali, e foram casar-se no reino do
príncipe, onde viveram felizes por toda a vida.
História 2
Era uma vez uma princesa que caiu no poço. Era um poço muito fundo e perigoso, onde
morava uma jibóia gigante.
Vinha passando por ali um Caçador que, ao saber daquela tragédia, resolveu salvar a
Princesa. Arrumou umas cordas e estava pronto para descer.
Diante de tanta boa vontade, o mago do reino, para ajudá-lo, deu-lhe um pó mágico para
o caso dele ter problemas com as cordas e uma espada que soltava fogo.
E lá se foi o Caçador para o fundo escuro do poço.
Sem que ninguém prestasse atenção, desceu também uma coruja, que era um feiticeiro
disfarçado e que era inimigo do Caçador.
O Caçador desceu, desceu, desceu, até que viu lá em baixo um calabouço com a
Princesinha atrás das grades. Quando ele ia soltar a princesa, a coruja derrubou sobre ele um pó
paralisante e ele ficou petrificado com a mão estendida quase alcançando o ferrolho.
Nisso aparece um cavalo tipo Pégassus, amigo da Princesa, e ele luta com a coruja sem
dar tempo dela se transformar em nada, com coices e mordidas, até vencê-la.
Enquanto isso, a terrível jibóia que guardava o fundo do poço aparece. A Princesa
consegue bem a tempo, pelos vãos das grades, colocar no dedo da mão do Caçador um anel
mágico que ela tinha e isto o liberta do feitiço, e ele se põe a lutar com a imensa cobra, que vira
uma bruxa. Ele consegue soltar a princesa, pega a bruxa pelo pescoço e a joga no calabouço,
deixando-a presa lá no lugar da Princesa.
Aí eles começam a subir pela corda, mas eram dois e ela era meio gordinha e a corda
arrebenta. Imediatamente ele se lembra do pó mágico, e o joga em suas cabeças e conseguem
subir voando até a beirada do poço.
Depois disso, a Princesa casa-se com o valente Caçador, e eles viveram felizes para
sempre em outro lugar.

O objetivo das oficinas de criatividade foi alcançado, considerando que a pretensão


delas era a de funcionar como coadjuvantes no processo de formação de identidade de um
pequeno grupo de uma comunidade, cuja história aponta para a discriminação e a marginalização
dos supostos benefícios trazidos pelo crescimento e conseqüente transformação da cidade.
Começamos com um grupo grande, umas vinte pessoas, mas não tínhamos nada, nem
linguagem; dois meses depois terminamos com um grupo pequeno (oito), mas éramos outros,
tocados  quem sabe?  pela magia do “maravilhoso” que agiu em nós.

REFERÊNCIAS
ALENCAR, Eunice M.L.S.(1986) Psicologia da Criatividade. Porto Alegre: Artes Médicas.
_____ (1990) Como desenvolver o potencial criador. Rio de Janeiro:Vozes.
_____ (1993) Criatividade. Brasília: Ed. Universidade de Brasília/Edunb.
_____ (2000) O Processo da Criatividade. Produção de idéias e técnicas criativas. São Paulo:
Makron Books.
ALENCAR & VIRGOLIN (Org.) (1994) Criatividade: expressão e desenvolvimento. Rio de
Janeiro: Vozes.
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