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Universidade Candido Mendes

PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU


ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

FÁBIA MARTINS ALCANFÔR FRANCO

A NEOPLASIA MALIGNA NO AMBIENTE DE TRABALHO


O ambiente de trabalho como gerador de doença

Brasília
2018
FÁBIA MARTINS ALCANFÔR FRANCO

A NEOPLASIA MALIGNA NO AMBIENTE DE TRABALHO


O ambiente de trabalho como gerador de doença

Monografia apresentada à Universidade Candido


Mendes como exigência parcial à obtenção do título de
Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho

Orientador: Luiz Roberto Pires Domingues Júnior

Brasília
2018
A NEOPLASIA MALIGNA NO AMBIENTE DE TRABALHO

1
Fábia Martins Alcanfôr Franco

Resumo

Dentro das relações entre o trabalho e a saúde, a saúde do trabalhador constitui


uma área da Saúde Pública que é objeto de estudo e intervenção. Os fatores de riscos
inerentes à função exercida como, por exemplo: riscos físicos, químicos e biológicos
são determinantes para a saúde do trabalhador. Entretanto, é notório que nas últimas
décadas mudanças foram observadas no processo do ambiente de trabalho decorrentes
da incorporação de tecnologias e estratégias gerenciais com o intuito de atender cada
vez uma sociedade moderna e, consequentemente, assim como novas formas de
adoecimento dos trabalhadores, destacando-se as neoplasias como decorrência da
exposição a agentes carcinogênicos presentes no ambiente de trabalho.
Para atingir o objetivo proposto pelo tema deste trabalho, realizou-se uma
pesquisa bibliográfica e observou-se que, toda atividade humana está exposta a fatores
ambientais que podem proporcionar riscos de doenças, sendo evidentes de forma mais
significativa no ambiente de trabalho que por sua vez possui agentes nocivos inerentes
à atividade que de alguma forma aumentam o risco de surgimento de doenças.

Palavras-chave: Saúde do trabalhador, agentes carcinogênicos, ambiente de trabalho, agentes


nocivos.

Abstract

Within the relationships between work and health, the Worker Health constitutes an
area of public health that is the subject of study and intervention. The risk factors inherent in
the function performed, such as physical, chemical and biological risks, are determinant for
the health of the worker. However, it is clear that in the last decades changes have been
observed in the process of the work environment due to the incorporation of technologies and

1
Fábia Martins Alcanfôr Franco – Engenheira de alimentos, pós-graduada em Gerenciamento Empresarial e
Financeiro e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos
management strategies with the aim of attending to a modern society and, consequently, as
well as new forms of illness of the workers, malignant neoplasm as a result of exposure to
carcinogenic agents present in the work environment.

In order to reach the objective proposed by the theme of this study, a bibliographical
research was carried out and it was observed that, all human activity is exposed to
environmental factors that can provide risks of diseases, being evident in a more significant
way in the work environment than by its harmful agents inherent to the activity that in some
way increase the risk of disease onset.

Keywords: Occupational health, carcinogenic agents, work environment, harmful agents.


1. Câncer Magnitude do problema

Durante o século XX, inúmeras substâncias cancerígenas presentes em diferentes


ambientes de trabalho foram identificadas. A International Agency for Research on Cancer
(IARC) revisa permanentemente a literatura científica e promove inúmeros estudos a respeito
da carcinogenicidade de substâncias químicas e de processos industriais, classificando-os em
quatro categorias no que se refere ao potencial carcinogênico:
 Grupo 1, quando a substância ou mistura é carcinogênica para o homem;
 Grupo 2a, quando a substância ou mistura é provavelmente carcinogênica para o
homem;
 Grupo 2b, quando a substância ou mistura é possivelmente carcinogênica para o
homem;
 Grupo 3, quando a substância não é classificável como carcinogênica para o homem; e
 Grupo 4, quando a substância ou mistura provavelmente não é carcinogênica para o
homem.
O câncer é a segunda causa de morte no Brasil. A mortalidade por câncer vem
aumentando, inclusive em menores de 50 anos.
Cerca de 30% das mortes poderiam ser evitadas por meio de ações de detecção precoce
articuladas à ampliação do acesso ao tratamento adequado dos casos. Ainda cerca de 30% dos
casos poderiam ser evitados por meio de ações de prevenção primária.
As estimativas para o biênio 2016 -2017, de acordo com INCA –MS formam de que:
 Surgiriam 600.000 casos novos de câncer, incluindo os casos de pele não melanoma;
 Desconsiderando os casos de câncer de pele não melanoma, estimou-se um total de
420 mil casos novos;
 Os tipos mais incidentes seriam os cânceres de pele não melanoma:
Homens: próstata (28,6%), pulmão (8,1%), intestino (7,8%), estômago (6%) e
cavidade oral (5,2%);
Mulheres: mama (28,1%), intestino (8,6%), colo de útero (7,9%), pulmão (5,3%) e
estômago (3,7%).

O câncer ocupacional surge da exposição por muitos anos a agentes carcinogênicos


presentes no ambiente de trabalho, mesmo após interrompida a exposição, e representa de 2%
a 4% dos casos de câncer. A localização do câncer ocupacional está associada ao local do
corpo humano em que a substância entra em contato durante o processo do trabalho.
O câncer ocupacional ainda representa uma parcela muito pequena dentre as causas
atribuíveis, conforme mostra o gráfico a seguir:

Causas atribuíveis para o câncer %


de ocorrência
3 2 2 1 Dieta
3
Tabagismo
7 35 Comportamento sexual
Álcool
Radiação eletromagnética
30
Poluição ambiental
Ocupação
Produtos farmacêuticos

2. O Câncer Ocupacional

As doenças em sua relação com o trabalho podem ser classificadas de duas formas. A
primeira é como doença profissional, quando existe relação direta com condições de trabalho
específicas, a exemplo do desenvolvimento de osteossarcoma em adultos por exposição à
radiação ionizante e do mesotelioma de pleura por exposição ocupacional ao asbesto
(amianto). A nomenclatura adequada para esse tipo de doença é câncer ocupacional (Brasil,
2001). A segunda forma, que engloba a maioria das neoplasias, é a doença relacionada ao
trabalho, isto é, que tem sua frequência, surgimento ou gravidade modificados pelo trabalho.
Segundo a classificação de Shilling (1984), no caso da doença ocupacional, o trabalho é causa
necessária e, no caso de doenças relacionadas ao trabalho, esse pode ser entendido como um
fator de risco, ou seja, um atributo ou uma exposição que está associada com uma
probabilidade aumentada de ocorrência de uma doença. Para a maioria dos cânceres, a
nomenclatura adequada é de câncer relacionado ao trabalho. Na prática, a caracterização
etiológica ou de nexo causal será essencialmente de natureza epidemiológica, seja pela
observação de um excesso de frequência em determinados grupos ocupacionais ou profissões,
seja pela ampliação quantitativa ou qualitativa do espectro de determinantes causais, que
podem ser conhecidos a partir do estudo dos ambientes e das condições de trabalho. A
eliminação desses fatores de risco reduz a incidência ou modifica o curso evolutivo da doença
ou agravo à saúde (Brasil, 2006).
A IARC classificou um total de 29 agentes e misturas relacionados ao trabalho e 12
circunstâncias de exposição como potencialmente cancerígenas aos seres humano. No
entanto, muitos outros agentes aos quais os trabalhadores estão expostos em seu ambiente de
trabalho permanecem desconhecidos. A epidemiologia tem avançado no entendimento e
análise das relações causais entre câncer e exposição a substâncias presentes no ambiente de
trabalho, porém muitas lacunas ainda precisam ser preenchidas.
Em se tratando de câncer ocupacional as diferenças em relação aos demais casos são de
que a exposição não depende da vontade dos trabalhadores e possui maior potencial de
prevenção. Não há distinção quanto ao aspecto clínico e história natural do câncer não
ocupacional. O fator ocupacional representa apenas 2-4% dentre as causas atributáveis para o
desenvolvimento de câncer em um indivíduo.

3. Potencial carcinogênico ocupacional

Considera-se que o potencial para o desenvolvimento de um câncer seja de uma


substância, combinação ou mistura de substâncias, às quais o indivíduo esteja exposto por um
determinado período, ou por uma substancial diminuição do período de latência entre a
exposição e o aparecimento da doença.
O câncer provocado por exposições ocupacionais geralmente atinge regiões do corpo que
estão em contato direto com as substâncias cancerígenas, seja durante a fase de absorção
(pele, aparelho respiratório) ou de excreção (aparelho urinário), o que explica a maior
frequência de câncer de pulmão, de pele e de bexiga nesse tipo de exposição.
As exposições ocupacionais a substâncias ou misturas químicas de potencial
carcinogênico conhecido têm preocupado a comunidade científica e impulsionado pesquisas
que buscam avaliar os riscos à Saúde Pública e Ambiental. Entre os inúmeros fatores de risco
ambientais para o câncer, argumenta-se que os de origem ocupacional seriam aqueles com
mais elevado potencial de controle. Entretanto, apenas 20% das substâncias químicas em uso
no ambiente de trabalho apresentam informações toxicológicas adequadas.
Ribeiro e Wünsch Filho, afirmam que a mensuração da exposição a agentes cancerígenos
nos ambientes de trabalho é uma tarefa complexa, pois habitualmente configuram-se situações
ambientais com múltiplas facetas. O tempo é um componente importante para a mensuração
deste contato, pois tanto a data do início da exposição quanto a duração são cruciais à latência
e à dose acumulada. De fato, existem algumas dificuldades com relação à sistematização do
risco das substâncias químicas para a ocorrência do câncer. Em primeiro lugar, a informação
sobre exposições decorrentes de processos industriais é geralmente escassa, não permitindo
uma avaliação de exposições específicas. Além disso, as exposições a agentes bem
conhecidos, como o benzeno e o cloreto de vinila, ocorrem em diferentes intensidades em
situações ocupacionais distintas. As exposições numa dada atividade ocupacional mudam ao
longo do tempo (introdução de novos materiais e/ou processos industriais). A via ocupacional
mais comum de absorção de produtos cancerígenos é a inalação, seguida da cutânea. Por sua
vez, a exposição a produtos cancerígenos pode se dar em qualquer momento da vida, no
domicílio, na escola, no lazer, no trajeto, nos centros urbanos etc. Contudo, a exposição
decorrente do trabalho ganha uma forte dimensão, justamente pelo tempo de envolvimento,
pela impossibilidade de controle e, frequentemente, pelo desconhecimento do trabalhador
(Ribeiro; Wünsch Filho, 2004).
As listas de exposições se referem a um pequeno número de investigações sobre riscos de
câncer. Finalmente, a maioria dos estudos de exposições associada ao câncer ocupacional foi
realizada em países desenvolvidos no passado. Atualmente, os níveis de exposições nos países
em desenvolvimento é menor que aqueles presentes nos estudos iniciais.

4. Legislação

A legislação brasileira que trata de segurança e da saúde no trabalho adotou, a partir de


1994, a obrigatoriedade das empresas elaborarem e implementarem o Programa de Prevenção
de Riscos Ambientais (PPRA), previsto na NR9, e o Programa de Controle Médico de Saúde
Ocupacional (PCMSO), previsto na NR7, passando a considerar as questões incidentes não
somente sobre o indivíduo, mas também sobre a coletividade de trabalhadores.
Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de suas
atividades, estão obrigadas a elaborar e a implementar o PPRA, cujo objetivo é a prevenção e
o controle da exposição ocupacional aos riscos químicos, físicos e biológicos presentes nos
ambientes de trabalho.
O PCMSO é um programa médico implementado em empresas, independente do número
de empregados ou do grau de risco da atividade. Possui caráter de prevenção, rastreamento e
diagnóstico precoce dos agravos à saúde relacionados ao trabalho.
No ambiente de trabalho, é possível intervir de forma inequívoca no controle da
exposição, seja pelo caráter bem delimitado da população, seja pelo potencial técnico de
monitorar e reduzir estes riscos. Desta forma, adota-se no país a concepção de “níveis
seguros” para a exposição ocupacional a maior parte dos cancerígenos, o que conflita com o
atual conhecimento científico sobre carcinogênese, que não reconhece limites seguros para a
exposição do trabalhador aos agentes cancerígenos. Não existem limites seguros na legislação
para substâncias cancerígenas com potencial mutagênico.
A Norma Regulamentadora 15 (NR 15) determina limites de exposição para substâncias
como asbesto (poeiras minerais), radiação ionizante, radiação não ionizante (micro-ondas,
ultra-violeta e laser), agentes químicos insalubres, benzeno entre outras. Para as substâncias
ou processos as seguir relacionados, não deve ser permitida nenhuma exposição ou contato,
por qualquer via:
 4-aminodifenil (p-xenilamina) = Indústria têxtil /fotográfica
 4-nitrodifenil = Indústria de borracha
 2-naftilamina = Indústria corantes
 produção de benzidina * (luminol) = Usada por peritos policiais –
quimiluminescência.
A legislação brasileira, através da Portaria do MS/GM nº 1.339, de 1999, reconhece 11
tipos de câncer como decorrentes da exposição ocupacional (Ministério da Saúde, 1999). O
antigo Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), por meio do Decreto nº 3.048,
de 6 de maio de 1999, adotou a mesma relação de doenças elaboradas pelo Ministério da
Saúde. Dessa forma, esses tipos de câncer passaram a ser reconhecidos no âmbito do SUS e
da Perícia Médica do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
A legislação brasileira, através a Portaria do MS/GM nº 1.339, de 1999, reconhece 11
tipos de câncer como decorrentes da exposição ocupacional (Ministério da Saúde, 1999)
conforme descrito na tabela a seguir:
Substância cancerígena Órgão exposto Indústria
Plástico
Gasolina
Borranchas sintéticas
Bexiga Corante
Amina aromática/Benzeno Medula óssea Tinta
Pâncreas Produtos higiene pessoal
Hidrocarbonetos Brônquios/Pulmão Farmacêutica
aromáticos/Benzeno Tireóide Solvente

Pleura
Pulmão Caixas dágua
Estômago Telhas
Laringe Tubulações
Peritônio Mangueiras
Asbesto/Amianto Pericárdio Papelões

Fotográfica
Couro
Textil
Bexiga Plástico
Benzidina Pâncreas Corante
Plástico PVC
Calçados
Cloreto de vinila Fígado Embalagens
Pigmentos
Couro
Mucosa nasal Metalurgia
Cromo Brônquios/Pulmão Produtos químicos
Sílica Brônquios/Pulmão Mineração
Brônquios/Pulmão Couro
Pele Madeira
Arsênio Medula óssea Vidro
Aparelho de RX
Relógios
Berílio Brônquios/Pulmão Ferramentas
Pilhas
Materiais elétricos
Joalheiria
Pigmentos
Cádmio Brônquios/Pulmão Televisores
Munições
Materiais elétricos
Tintas
Chumbo Tireóide Cosméticos
A ACGIH (2001) considerou cancerígenas as substâncias que podem gerar ou
potencializar o desenvolvimento de um crescimento desordenado de células e recomenda que
sejam classificadas nas seguintes categorias:
A1 – Carcinógeno humano confirmado: o agente é cancerígeno para o ser humano, com base
em evidências de estudos epidemiológicos.
A2 – Carcinógeno humano suspeito: os dados são conflitantes ou insuficientes para confirmar
o agente como cancerígeno para o homem, ou seja, o agente é cancerígeno em experimentos
animais nas doses, por via de administração, em locais, tipos histológicos, ou por mecanismos
considerados relevantes para a exposição de trabalhadores. A notação A2 é usada
principalmente quando há evidência limitada de carcinogenicidade em seres humanos e
evidência suficiente de carcinogenicidade nas experiências em animais, com relevância para
os seres humanos.
A3 – Carcinógeno animal confirmado com relevância desconhecida para seres humanos: o
agente é cancerígeno em experimentos com animais em doses relativamente altas, por vias de
administração, em locais, tipos histológicos ou por mecanismos considerados não relevantes
para a exposição de trabalhadores. Os estudos epidemiológicos disponíveis não confirmam
um aumento do risco de câncer em seres humanos expostos. As evidências disponíveis não
sugerem que este agente seja um provável causador de câncer em seres humanos, exceto sob
condições excepcionais de via de ingresso no organismo ou de nível de exposição.
A4 – Não classificável como cancerígeno humano: agentes com suspeita de carcinogenicidade
para o ser humano, mas os dados existentes são insuficientes para serem avaliados de forma
conclusiva. Estudos in vitro em laboratório ou estudos com animais não apresentam
indicações de carcinogenicidade suficientes para classificar o agente em uma das outras
categorias.
A5 – Não suspeito como cancerígeno humano: o agente não é suspeito de ser um carcinógeno
humano, com base em estudos epidemiológicos bem conduzidos em seres humanos. Os
estudos dispõem de dados suficientes de seguimento, as histórias de exposição apresentam
doses suficientemente elevadas e poder estatístico adequado para concluir que a exposição ao
agente não representa um risco significativo de câncer para os seres humanos. As substâncias
para as quais não se dispõe de dados sobre carcinogenicidade em seres humanos ou
experimentos em animais não devem receber designação quanto à carcinogenicidade.
5. Prevenção e Vigilância dos trabalhadores expostos

O processo de carcinogênese é composto por três etapas distintas: a iniciação, a promoção


e a progressão.
A iniciação é a primeira etapa do processo cancerígeno, na qual células normais de um
determinado órgão ou tecido são convertidas em células com potencial para tornarem-se
tumor (células iniciadas). É uma fase rápida e irreversível. Agentes químicos ou físicos que
agem nessa etapa são chamados de agentes iniciadores.
A segunda etapa da carcinogênese (promoção) é caracterizada por ser uma etapa longa e
reversível, não genotóxica, que não envolve modificações diretas no DNA e que resulta da
exposição a doses repetidas do agente cancerígeno, em intervalos curtos.
O estágio final do processo de carcinogênese, a progressão, envolve a conversão de lesões
pré-neoplásicas benignas em câncer neoplásico. Nesse estágio, eventos genotóxicos adicionais
podem ocorrer resultando em dano adicional ao DNA, incluindo aberrações cromossômicas e
translocações. É uma etapa irreversível.
A Figura 1 sintetiza as diferentes etapas da carcinogênese.

A principal estratégia para minimizar os riscos ocupacionais para o câncer é reduzir ou


eliminar a exposição a agentes classificados como cancerígenos. Contudo, deve-se considerar
a relação dinâmica entre a exposição ocupacional e o câncer, tendo em vista as modificações
constantes nas características de diversas ocupações e a extinção de algumas destas que
cedem lugar à emergência de outras, além da alta carga de produção de substâncias nos
processos industriais.
No caso de não ser possível a completa remoção de um agente cancerígeno ou sua
substituição por substâncias de menor risco, os níveis de exposição devem ser reduzidos ao
mínimo, o monitoramento ambiental deve ser ainda mais cuidadoso e os critérios de
afastamento da exposição por queixas dos trabalhadores devem ser mais flexíveis. Muitas
vezes é necessária a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), para evitar o
contato do agente cancerígeno com o organismo do trabalhador. Os EPIs podem ser máscara,
luva, avental de chumbo, óculos, entre outros, e dependem da forma como essa substância
penetra no corpo humano. Trabalhadores rurais devem estar atentos quanto à exposição
ocupacional aos raios solares também, por isso devem incorporar EPI contra esse fator de
risco, além daqueles indispensáveis contra os agrotóxicos, que contêm agentes cancerígenos.
Por isso, o uso de camisa de manga comprida, chapéu de aba grande e filtro solar
é indispensável para esses profissionais.
Fatores associados à toxicologia da substância devem ser ainda mais detalhados, por
exemplo, no caso de exposição inevitável a poeiras, medidas extremas devem ser adotadas
para eliminar o esforço físico, o calor, o trabalho noturno etc., enfim, outros riscos que podem
potencializar a absorção.
O tempo decorrido entre a exposição a um determinado agente e a detecção clínica do
tumor pode variar em função de uma série de fatores ligados ao agente, ao tipo, ao tempo da
exposição e ao trabalhador. Isso é chamado de efeito latente e a duração desse tempo é
chamada de tempo de latência. Tem duração variável, sendo geralmente longa, de 20 a 50
anos para tumores sólidos, ou curta, de 4 a 5 anos para as neoplasias hematológicas (Brasil,
2001). O estabelecimento de nexo entre o câncer e a exposição decorrente da ocupação, por
muitas vezes, é dificultado por esse longo intervalo de tempo.
Para a prevenção do câncer relacionado ao trabalho, as estratégias utilizadas diferem
daquelas aplicadas para o controle de outros tumores associados ao estilo de vida ou a outras
exposições ambientais, uma vez que, no campo da saúde do trabalhador, os métodos
tradicionais baseados na detecção precoce por meio de programas de screening têm
importância limitada como, por exemplo, os aplicados para os cânceres do colo do útero e da
mama (Rego, 2000; Ribeiro; Wünsch Filho, 2004).
As substâncias cancerígenas podem produzir outros efeitos como dermatites, queimaduras
de pele, irritação de olhos e pele, danos aos pulmões e a outros órgãos, entre outros. Esses
sintomas são frequentemente resultado de exposição a altas concentrações e, geralmente,
ocorrem muito próximos ou imediatamente após as exposições. Alguns cancerígenos podem
também afetar o sistema reprodutivo dos trabalhadores expostos, como podem ser
mutagênicos, embriotóxicos e/ou teratogênicos (OMS, 1974; Flamm; Lorentzen, 1985;
Klaassen, 2008; Soto, 2010).
A vigilância da exposição a agentes cancerígenos tem como objetivo a identificação de
áreas críticas que geram elevados níveis de exposição, também denominada por Froines et al.
(1986) como vigilância da condição de risco (hazard surveillance). Para estabelecer as
prioridades para a ação de vigilância baseada na população exposta, é possível considerar
critérios clássicos da epidemiologia como gravidade ou vulnerabilidade, por exemplo, a
agressividade da substância, o número de trabalhadores expostos, trabalhadores sem
organização social, prevalência de mulheres ou crianças expostas. Por outro lado, pode ser
particularmente útil adotar como prioridades a intervenção em empresas cuja base sindical já
demande questões de saúde, o câncer em particular, ou qualquer uma das estratégias previstas
nas Portarias MS nº 3.908 e nº 3.120, que discutem metodologias para Vigilância em Saúde
do Trabalhador. Cabe destacar que essa ação não deve se limitar a intervenções pontuais e
isoladas no tempo e no espaço. Em se tratando de câncer, a intervenção ampliada é
fundamental para o estabelecimento e o enfrentamento das prioridades estabelecidas. Essa
ação de vigilância busca conhecer a realidade dos indivíduos ou grupos que possam estar mais
expostos a agentes cancerígenos e que necessitem do monitoramento da ocorrência dessa
exposição, a partir da identificação dos processos ou ramos de atividade para desencadear
ações de controle e avaliar sua eficácia e efetividade.

6. Direitos do portador de câncer relacionado ao trabalho

A legislação não distingue o câncer relacionado ao trabalho dos demais cânceres no


sentido de garantir direitos ao paciente. Todavia, algumas modalidades de garantia de direitos
já consagrados ao portador de câncer podem ser invocadas no câncer relacionado ao trabalho
e podem ser reunidas em cinco grandes grupos:

a) O direito a não adoecer


Nos casos em que o agente cancerígeno é conhecido, o trabalhador, em algumas situações
previstas na lei, pode ser incluído no rol de medidas preventivas para que não adoeça. Nesse
caso, encontra-se o subsídio legal nas legislações sanitárias, em uma perspectiva Lato Sensu
do direito à saúde, e nas legislações trabalhistas que tratam do contrato de trabalho.
No caso das legislações sanitárias, o direito se funda nos preceitos constitucionais do direito
social (redução dos riscos decorrentes do trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e
segurança) e do direito à saúde como dever do Estado. Em ambos, a prevenção do dano é
direito objetivado na ação do Estado de direito.
Quanto às legislações trabalhistas, na CLT e no Regime Jurídico Único (RJU), entre outras, a
exposição a agentes cancerígenos reconhecidos é vedada e/ou cercada de cuidados especiais
de prevenção. Um exemplo típico é o que estabelece a NR15 da Portaria nº 3.214/78 (CLT),
em seu Anexo 13, que não deve ser permitida nenhuma exposição ou contato, por qualquer
via, a quatro substâncias cancerígenas. Entende-se “por nenhuma exposição ou contato”
substituir o agente cancerígeno, ou ainda hermetizar o processo ou operação, através dos
melhores métodos praticáveis de engenharia. Portanto, o direito a não adoecer será garantido
na medida em que o Estado legisle coibindo mais fortemente a exposição, no trabalho, aos
agentes cancerígenos sobejamente conhecidos.

b) O direito ao reconhecimento do dano


Uma vez que seja observada a relação entre câncer e trabalho, a lei pode reconhecer e
oficializar o dano como sendo originário da atividade laborativa. Nesses casos, o
reconhecimento é efetuado por intermédio de legislação sanitária (Portaria MS nº 1.339/99) e
por legislação previdenciária (Decreto nº 3.048/1999) em que o agente cancerígeno é
considerado em listagem oficial, sustentando-se em diagnóstico de nexo laboral.

c) O direito à compensação peculiar do dano


A relação de nexo entre câncer e trabalho é efetuada pelo órgão segurador previdenciário
(INSS), que estabelece mecanismos compensatórios, baseados em lei (Lei nº 8.112/1990; Lei
nº 8.213/1991). Aplica-se ao trabalhador com contrato de trabalho e contribuinte da
Previdência Social. Aposentadoria, pensão, auxílios e outros mecanismos compensatórios são
estabelecidos caso a caso.

d) O direito à compensação social do adoecer


Enquanto direito social indistinto, essa modalidade se aplica a todo portador de câncer,
independente de esse ser originário no trabalho. Aqui se encontram mecanismos garantidos
em leis de caráter tributário, como isenção de imposto de renda, saque do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço (FGTS), linhas de financiamento especial, isenção da Contribuição
Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de
Natureza Financeira.

e) O direito ao acolhimento peculiar do portador


Similar a anterior, essa modalidade não distingue o câncer relacionado ao trabalho. Estão
garantidas em leis sanitárias e leis específicas medidas tais como a internação domiciliar
(Portaria nº 2.529, de 19 de outubro de 2006).

7. Conclusão

A neoplasia maligna que pode ser gerada no ambiente de trabalho pode ser
classificada de duas formas. A primeira é como doença profissional, produzida ou
desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar à determinada atividade. A segunda forma,
que engloba a maioria das neoplasias, é a doença relacionada ao trabalho, adquirida ou
desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se
relacione diretamente. Ambas as formas são constantes da respectiva relação elaborada pelo
Ministério do Trabalho e Emprego e o da Previdência Social. Ressaltam que estes tipos de
doenças revestem-se de grande importância por diversos fatores, implicam em altos custos
sociais: aposentadorias, às vezes, precoces; indenizações; mas principalmente bem star físico,
mental e perda de vidas.
Não se pode negar que as inovações tecnológicas reduziram a exposição a alguns
riscos ocupacionais em determinados segmentos, contribuindo para tornar o trabalho nesse
ambiente mais saudável garantindo uma qualidade de vida, ou seja, menos insalubre e
perigoso. Contudo, paralelamente, outros riscos são gerados, principalmente na área química,
indústria nuclear e biotecnologia.
A eliminação desses fatores de risco reduz a incidência ou modifica o curso evolutivo
da doença ou agravo à saúde. Neste campo de doença ocupacional, cabe aqui ressaltar a
importância d portaria nº 3.214, de 08 de junho de 1978 que aprovou as Normas
Regulamentadoras (NR) que visão a preservação da saúde e da integridade dos trabalhadores,
através da antecipação, reconhecimento, avaliação, e consequente controle de ocorrência
riscos ambientais de trabalho, tendo em consideração a proteção do meio ambiente dos
recursos naturais.
A vigilância efetiva do câncer ocupacional é feita sobre os processos e atividades do
trabalho com potencial carcinogênico, ou seja, dos riscos ou das exposições. Essa vigilância
consiste, basicamente, na vigilância dos ambientes e condições de trabalho e na vigilância dos
efeitos ou danos à saúde.
Conclui-se que toda atividade humana está exposta a fatores ambientais que podem
proporcionar riscos de doenças, sendo ainda mais evidente no ambiente de trabalho que
possui agentes nocivos inerentes a atividade que de alguma forma aumentam o risco de
surgimento de doenças. Umas das maiores preocupações com a saúde do trabalhador,
inclusive com reconhecimento do Ministério do Trabalho, com potencial lesivo reconhecido,
é a exposição a substâncias com potencial carcinogênico.

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LEAVELL, S. & CLARK, E. G. Medicina Preventiva