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Em Busca do Fogo

Prólogo
Durante milhares de anos todos os seres vivos estavam sujeitos á vontade dos Espíritos da Natureza, forças poderosas que controlavam tudo: O Fogo, A
Terra, O Ar e a Água. Todos viviam pacificamente, pois os Espíritos da Natureza faziam o que estava ao seu alcance para agradar os seres que deles dependiam, e
por isso algumas civilizações os idolatravam como se fossem deuses. Os Acquarianos idolatravam a Água; os Elfos, a Terra; Os Filhos dos Dragões, O Fogo; e os
Homens Estranhos, o Ar, e assim cada qual foi abençoado com poderes dados pelas divindades a que veneravam.
A cerca de três mil anos, uma Princesa, de exorbitante beleza, filha de um dos Grandes Reis, morreu subitamente, e assim seu pai, muito abalado pela
perda de sua única filha, prometeu ao homem que a trouxesse de volta do mundo dos mortos, que ele teria a sua mão em casamento, herdando assim todo o seu
reino e suas riquezas, assim como a coroa.
Um jovem rapaz, que era apaixonado pela bela princesa, implorou aos Espíritos da Natureza que tivessem pena dele, e os espíritos da Natureza, com
sua extrema bondade lhe deram uma oportunidade para conseguir o que desejava, porém o avisaram que com toda benção vêm uma maldição, e que, se ele
desejasse obter a princesa de volta do mundo dos mortos, teria de se tornar o Senhor da Morte para todo o sempre. E ele aceitou o trato, movido pela sua
extrema paixão pela princesa. O que ele não sabia é que nenhum ser vivo pode entrar no mundo dos mortos, e trazer um morto de volta á vida sem um preço. Ele
pagou caro por seu amor.
Ele libertou a garota do mundo dos mortos, porém ele ficou lá, pois agora era o Senhor da Morte, e não abandonaria o mundo dos mortos até estar tudo
organizado para o casamento. O dia chegou, e então ele subiu do mundo dos mortos, para finalmente se casar com o seu verdadeiro amor. Chegando lá
percebeu que todo o reino estava lá para presenciar o gracioso casamento. Mas foi para sua surpresa que o rei, ao vê-lo soltou o mais horrendo dos gritos de
terror. Ele ficou sem entender nada, pois o que poderia estar acontecendo? Ele havia se arrumado o melhor que pode, antes de sair, inclusive havia trazido a
aliança de compromisso no bolso interno de sua melhor capa. Foi quando foi pegar a aliança para mostrar que estava tudo bem, que percebeu que não estava
mais vestido de sua melhor capa, mas sim de um manto negro, todo cheio de buracos. Então viu suas mãos, e isso foi o que deu uma pontada em seu peito. Elas
estavam em ossos, com uma pouca carne em estado avançado de decomposição. Então correu para um jarro com vinho, que estava próximo e se olhou na
superfície espelhada do vermelho escuro do vinho e não pode acreditar no que viu. Por debaixo do manto o seu rosto não tinha mais carne nem pele. Era osso
puro. Mas o pior ainda foram os olhos. Negros buracos onde seus olhos verde-mar um dia estiveram. E então compreendeu que a maldição não se referia a ser o
Senhor da Morte, e sim em ser a própria Morte, para lembrar as pessoas de que não estão livres dela. Sua ira foi tanta que ele decidiu que teria sua vingança, e
então como seu primeiro ato, ele levou o pai da princesa, não mais como rei, mas sim como primeira vítima de sua impiedade, e jurou, perante toda a corte, que
os Espíritos da Natureza iriam pagar.
Após anos, todos haviam esquecido a ameaça, pois nada havia acontecido. A princesa casou-se com o príncipe dos Homens Estranhos, e tiveram um
filho. O garoto cresceu, e quando estava no vigésimo ano de seu nascimento, recebeu um convidado inesperado na festa de comemoração de seu aniversário. A
Morte veio e abateu-se sobre ele, sua mãe e seu pai, só que eles não permaneceram mortos.
A Morte encarregou seus três novos vassalos, pai mãe e filho, de atacarem e destruírem todos os que idolatravam os Espíritos da Natureza como deuses,
e os denominou Comandos da Morte.
Os Comandos da Morte atacavam impiedosamente todos os povos que idolatrávamos Espíritos da Natureza, e foi então que a Morte descobriu como
derrotar os Espíritos. Não importa o que lhes acontecesse, eles jamais revidariam um ataque, pois eles eram pura bondade, e então tudo o que ele teria de fazer
seria drenar os seus poderes.
E assim um por os espíritos da natureza foram derrotados, e todo o seu poder foi concentrado nas Esferas do Poder, que faziam com que qualquer um
que as possuísse, ter o poder de controlar os elementos a que correspondiam.
Os ataques dos Comandos não cessavam, com seus enormes exércitos de mortos vivos. Quando os povos descobriram que seus deuses haviam sido
derrotados, apelaram para algo há muito tempo esquecido, a magia. Só que a magia tem seu preço, e o deles seria a sua extinção.
Os Elfos forjaram uma espada contendo toda a magia de que podiam dispor, deixando um espaço para cada uma das esferas que juntas, continham o
poder para derrotar a Morte e seus vassalos.
Feita a espadas, quatro bravos guerreiros partiram em busca das Quatro Esferas. Encontraram-nas em posse da Morte no mundo dos mortos, e com
enorme bravura conseguiram reunir as quatro esferas na espada, para assim derrotar a Morte.
Ao trespassarem-na com a espada, a Morte, antes de se transformar em uma esfera negra como a noite, amaldiçoou todos os povos para que suas
raças entrassem em extinção lenta a partir daquele momento, e somente quando restasse somente um representante de cada uma das raças de idolatradores,
ela retornaria para seu triunfo final. A sua esfera negra desapareceu e nunca mais foi vista.
Os Reis de cada uma das raças decidiram que cada uma das raças protegeria uma das esferas correspondente ao seu deus idolatrado, para que elas não
se encontrassem sob um só poder novamente. A Espada ficaria a cargo dos monstros, que haviam conseguido expulsar os vassalos da Morte de volta para o
mundo dos mortos. Cada Rei decidiu que o melhor a fazer para proteger as esferas era dando aos monstros mais temidos de seus reinos as esferas para que
pudessem ser protegidas a qualquer custo.
Mas o que aconteceu foi que se criaram criaturas a partir da combinação dos monstros como poder das esferas. Assim nasceram os protetores das
esferas, as Quatro Feras.
Os magos mais sábios do reino se uniram e proferiram uma profecia nas línguas antigas dos Elfos, que traduzido para o idioma comum ficava assim:
Um dos últimos descendentes dos filhos do Ar,
Na antiga língua dos Elfos vai Morte por magia acordar;
Reunir os últimos descendentes deverá,
E em busca das esferas com os metais antigos partirá;
Terá que uma escolha fazer
Entre uma dura vida viver ou uma dura morte sofrer;
Os quatro poderes juntar;
Para o mundo salvar ou condenar.
E a partir daquele momento, a antiga magia foi proibida em todos os reinos, desde as antigas raças, até as raças comuns. Reuniram-se todos magos dos
Reinos antigos que conheciam a magia antiga, ou a antiga língua dos Elfos e foram dados em sacrifício por tantos quantos possíveis anos de paz.
Mas a precaução não os protegeu da maldição da Profecia, e assim, os descendentes foram minguando, até sobrarem poucos descendentes dos povos
originais...

2
Mais uma Aula chata com a senhora idosa...
Brant
Na opinião de Brant, a senhora Toalk era uma feiticeira muito velha para continuar ensinando para alguém.
Brant era um garoto jovem, com um cabelo loiro-acastanhado, e de olhos de um azul tão fraco, que chegavam quase a serem cinza. Seu nariz pequeno
não combinava com os lábios grossos, que não combinavam com as finas sobrancelhas loiras, que não combinavam com o queixo um pouco dividido, e que por
fim não combinavam com a leve sombra de bigode que surgia logo abaixo de seu nariz. E segundo Fred, o seu primo, filho do rei, ele jamais iria comer o pão que
o diabo amassou, porque ele estava grudado em sua cara.
Na verdade eles nunca se gostaram, mas isso piorou quando ele indicou a Senhora Sapo Velho Toalk para substituir a antiga professora, a senhorita
Palie. Na verdade a culpa tinha sido de Brant, que derrubara um pouco de Fogo de Dragão no pé da ex-tutora, que após teve queimaduras muito graves, e teve
de abandonar o cargo.
E então veio a feiticeira do Rei, a Senhora Toalk, que na verdade era uma velha centenária, pequena, enrugada, e ranzinza, embora ele suspeitasse que
estas três últimas acompanhassem a primeira. Não que ela fosse uma má tutora, mas ela dava sono a Brant, principalmente nas aulas de alquimia. Com todas as
substancias legais que eles poderiam usar, eles tinham somente teoria, nenhuma prática. Ás vezes ele costumava dormir enquanto ela se retirava para fazer
outras coisas.
E esse era um dos momentos em que ele estaria propenso a utilizar para dormir caso ela não estivesse na sala. Então a oportunidade surgiu:
- Muito bem meus pupilos, eu irei me retirar um momento, mas continuem os seus trabalhos – quando Brant já estava se preparando para dormir, ela
voltou a aparecer na porta e disse – A sim, e Brant se eu pegar você dormindo novamente, eu vou garantir que você tenha o dobro de dever para fazer – e se
retirou.
“Vai ver só” pensou Brant, e então não suportou mais e caiu pesadamente num sono profundo.

3
Somente mais um sonho...
Brant

Geralmente, os sonhos durante as aulas da senhora Toalk eram divertidos, como por exemplo, quando Brant ganhava presentes do rei, ou quando as
garotas deixavam de prestar atenção no seu primo e admiravam-se de sua beleza, ou então quando finalmente os pôneis cor de rosa e azuis conseguiam
finalmente encontrar o caminho de volta para casa (esse é melhor nem tentar explicar), mas este começou terrivelmente estranho. Brant estava cercado pela
escuridão, e via somente uma luz muito distante acima. Ele começou a andar em volta para ver se achava alguma saída daquele lugar, mas então esbarrou em
uma parede. Ele estava em um buraco sem saídas conhecidas, senão aquela acima.
Sem saber por que ele começou a escalar a parede que se mostrou menos inclinado do que ele imaginou, porém quanto mais ele subia mais lhe parecia
que a luz estava distante. E então ele começou a ficar desesperado. Não sabia o porquê, mas estava com medo do escuro, coisa que nunca teve.
- O truque é não fugir do escuro, e sim esperar a luz vir buscá-lo – disse uma voz logo atrás dele. Com o susto ele quase caiu da altura em que estava
para ver quem havia falado – não tenha medo, é só um sonho, você não pode se machucar – disse novamente a voz. Então Brant olhou para traz e viu um rapaz
que não reconheceu.
- Quem é você? – perguntou.
- Eu sou aquele que todos irão encontrar um dia – disse-lhe o rapaz. Brant ainda não podia distinguir suas feições, pois estava muito escuro, mas já
tinha uma ideia do contorno de seu corpo.
- De que é que você está falando? – disse Brant, ainda confuso – O que é que todos irão encontrar um dia?
- Vamos lá você pode responder a essa pergunta – disse-lhe.
Brant não conseguia lembrar-se de quem é que todos iriam encontrar um dia, então disse:
- Olhe eu não sei do que você est... - e então a compreensão lhe veio á mente como se fosse muito claro desde o início – Não é possível, você está
morto a milhares de anos, é Você?
- Espere um momento. Olhe – disse apontando para cima. Brant olhou, e quase ficou cego com o clarão que se abateu sobre os olhos e fechou os olhos
por um momento. Quando os reabriu, teve de sufocar o grito que lhe saia pela boca – Não se assuste – disse-lhe – você acertou, eu sou a Morte.
O que estava diante dele definitivamente não era humano, e não chegava perto das histórias que contavam sobre Morte. Diante dele estava Morte em
pessoa (ou não), com seu manto extremamente negro, e com ossos extremamente brancos á mostra. No crânio duas órbitas estavam onde deveriam estar os
olhos. Brant pensava que aquela era a coisa mais horrível que ele já havia visto em toda a sua vida, inclusive ele próprio.
- Você está certo, sou mesmo horrível, até mais do que você – disse-lhe Morte – Quanto a sua próxima pergunta, não, eu não estava morto, mas apenas
adormecido, como ainda estou. E você vai me ajudar a acordar.
- E por que eu o ajudaria? – disse-lhe Brant – no tempo em que você viveu só causou morte e destruição, e neste momento, nossos povos vivem em
harmonia, e não precisamos de você para estragá-la.
- Ai, ai, ai, Brant, assim você me desaponta - disse a Morte – por que você imagina que depois de três mil anos eu continuo malvado?
- Por que algumas coisas nunca mudam – respondeu Brant – e você ainda não me deu um motivo para ajudá-lo.
- Por que se não me ajudar, todo o reino será destruído – e começou a tirar algo da capa negra – Tome, veja você mesmo – e estendeu a Brant uma
esfera tão negra que chegava a brilhar.
Brant pegou a esfera e teve que sufocar outro grito, pois o que nela viu foi todo o reino incendiado, com monstros de diversos tipos espalhados po r
todos os lados, matando todos os soldados.
- Mas como isso é possível? – perguntou – os monstros nunca forram agressivos, e por que eles iriam atacar o reino agora?
- Por que os meus queridos vassalos cansaram de esperar pelo meu retorno, e decidiram acabar com todas as formas de vida humana ou semelhante, e
por isso fizeram uma aliança com os monstros, para que eles fizessem o trabalho sujo por eles, em troca da imortalidade, e de todo o planeta só para eles.
- Mas como posso acreditar em você, se isso pode ser só um sonho? – perguntou Brant.
- Veja com seus próprios olhos – respondeu Morte – Oh sim, e quando acordar encontrará a esfera no bolso de sua calça.
- O que você quis dizer com veja com os seus próprios olhos? E como farei para acordá-lo caso sinta que esteja dizendo a verdade?
- Bem, os exércitos dos monstros estão marchando em direção à cidade neste momento, e provavelmente em breve poderá vê-los das muralhas –
respondeu Morte - E quanto ao método de me acordar, descobrirá no momento em que decidir que é o correto a fazer. E lembre-se: eu sou o único que pode
detê-los. A sim, e é melhor acordar se não quiser fazer o dobro de trabalhos para a sua tutora.
Então Brant caiu pela agora iluminada caverna e quando ia atingir o chão acordou de sobressalto, como sempre acontece nesses sonhos. Olhando em
volta percebeu que dos únicos quatro alunos somente um deles parecia estar prestando atenção nele, e era justamente o seu maravilhoso primo perfeito, e ele
estranhamente parecia estar lendo os seus pensamentos, e parecia que depois de anos, eles finalmente tinham algo em comum: pareciam estar sentindo a
mesma urgência, como se tivessem tido o mesmo sonho. Então quase como instintivamente, Brant levou sua mão ao bolso de couro de sua calça, e sua espinha
gelou. Ela estava lá. Não precisou nem olhar para saber. Mesmo através da pele de ovelha de que era feita a calça, ele s entia a terrível vibração negativa que
emanava daquela esfera.
Assim que ele tirou a esfera do bolso lembrou-se uma coisa: os monstros. Como num impulso, ele e seu primo levantaram-se e saíram correndo pela
porta afora, esbarrando na velha feiticeira, que vinha voltando de onde é que ela teria ido. Na urgência de chegar ás muralhas, eles não prestaram atenção aos
gritos irados da professora ficando para trás.
Depois de percorrerem o corredor que levava para fora do castelo pela parte superior da amurada, eles dobraram á direita, dirigindo-se ao centro da
cidade. Dali ainda seriam cerca de quase meia légua até chegar às partes internas da muralha, e então seu primo falou-lhe, algo que raramente acontecia.
- Você teve a mesma visão? – perguntou ele arfando, pelo cansaço que já o estava dominando por causa da corrida.
- Que visão? – perguntou Brant.
- A dos Monstros atacando e destruindo a cidade. – disse Fred.
- Sim eu tive. – respondeu Brant.
- E sabe o porquê disso? Pois eu ainda não descobri. – perguntou novamente Fred.
- Então quer dizer que você ainda não sabe? – respondeu Brant.
- Não, porque você não me explica enquanto descansamos um pouco? – falou Fred.
- Tudo bem, eu acho que uma pequena descansada não fará mal – e enquanto descansava, ele lhe explicou tudo, desde o sonho até sentir a esfera no
bolso da calça.
- Então é sinal deque os monstros irão mesmo atacar. – disse Fred.
- Não tenho a menor dúvida, mas não podemos confiar na Morte. – falou Brant.
- Mas vamos ter de confiar se tudo o que ela diz for verdade, pois senão estaremos em maus lençóis, você viu as imagens tão bem como eu.

4
O resto do trajeto ocorreu sem mais conversas, pois nenhum dos dois estava com ânimo para continuar a falar.
Quando chegaram próximo à muralha, puderam ter uma clara visão, pois diante das muralhas estendia-se uma planície gigantesca, que terminava em
uma floresta densamente povoada por árvores. Era a Floresta da Pedra Cinzenta. Na planície podiam observar aqui e ali algumas casas de camponeses com suas
plantações e seus animais, pastando em rebanhos. Podiam ver também o rio que corria em direção á floresta, que se chamava Rio dourado. Ele tinha este nome
por dois motivos: as primeiras pepitas de ouro, que foram o motivo do rápido povoamento da região, foram achadas ali e, além disso, quando estavam no
último dia de verão, podia-se ver o reflexo do pôr-do-sol nas suas águas, o que criava um visual impressionante, pois dali refletia na cidade, e parecia que tudo
ali era feito de ouro. Porém hoje eles não estavam vendo nada disso, nem nada de monstros.
Quando estavam chegando à muralha mais externa, os guardas que estavam no turno reconheceram o príncipe, e se ajoelharam perante eles. Fred
então perguntou:
- Nenhum de vocês viu nada de suspeito, nobres cavaleiros?
Ao que o guarda mais próximo respondeu:
- Que tipo de coisas estranhas, senhor?
- Como, por exemplo, algum monstro – exclamou Brant.
- E quem é...? – a pergunta ficou no ar.
- Meu primo – respondeu Fred – e vocês ainda não responderam à pergunta dele.
- Não, não vimos nada senhor – mas nesse momento uma coruja vinha se aproximando deles, e trazia alguma coisa amarrada à pata.
- Vejam aquela coruja – disse Brant.
- Não me diga! – respondeu-lhe o cavaleiro com ar zombeteiro - Pensei que fosse algum dragão!
Gargalhadas se espalharam por entre os outros guardas. Porém Fred não achou graça:
- Parem com essa palhaçada e vejam qual a mensagem que aquela coruja traz.
O guarda estendeu o braço e a coruja passou por ele e foi pousar no lado interno da amurada, virada para o castelo. O guarda resmungou:
- Não se fazem mais corujas inteligentes como se faziam antigamente.
Ao que Brant resmungou em voz alta demais.
- Não se fazem guardas tão inteligentes como se faziam antigamente.
Dessa vez a gargalhada foi geral, e Brant percebeu que o guarda ficava extremamente vermelho, só que ele não descobriu se foi de raiva ou vergonha, e
decidiu que era melhor não perguntar. Quando conseguiu se controlar, Fred disse-lhe:
- Vamos, leia o que nos diz a o pedaço de papel em suas mãos – mas o guarda estava assustado demais para ler. Na verdade, ele estava ficando mais
branco do que o próprio papel.
Então todos ficaram sérios como se estivesse ocorrendo um eclipse solar naquele exato momento, e ninguém estivesse sabe ndo o porquê de ficar tão
escuro. Fred avançou e pegou o papel, e quando começou a ler, também mudou de cor, ficando mais pálido do que de o guarda, qu e ainda não recuperara a
voz.
- Fred, o que diz o papel? – perguntou Brant sem vontade para fazer parte do Clube do Fantasminha.
Isso pareceu Acordá-lo do devaneio, e então ele disse:
- Diz que o maior dos exércitos de monstros já avistado passou por uma aldeiazinha, e ele se encaminhava para a nossa cidade. E o exercito era
comandado por um dragão de quatro cabeças, e eles estarão aqui antes do anoitecer.
Agora Brant sabia por que Fred tinha ficado assustado. Não se viam monstros em quantidades maiores do que uma dúzia juntos fora dos Reinos
Centrais a mais de cem anos, e ainda mais comandados por um dragão. Os dragões geralmente eram criaturas pacíficas, e nunca saíam dos Reinos Centrais, até
mesmo porque eles eram os responsáveis por protegerem a fera da esfera do fogo e, além disso, faltavam menos de meia hora par a o anoitecer. Isso somente
podia dizer uma coisa: eles estavam esperando o momento certo para atacar, escondidos nas florestas.
- Leve isso imediatamente ao meu pai – disse Fred a um dos guardas que não parecia estar tão chocado quanto os outros – Imediatamente.
Então, Brant, Fred e os outros puderam ver a sombra da noite passando da floresta e vindo em direção a eles com uma velocidade impressionante.
E então eles ouviram um rugido, um rugido que fez tremerem as suas espinhas. Provavelmente era o rugido do dragão que estava comandando as
tropas de monstros.
E então pela leve escuridão que começava a tomar conta de tudo, eles viram no limiar da floresta, algo realmente assustador:
- Que os deuses nos ajudem – murmurou Brant.
Fileiras de monstros começavam a aparecer entre as árvores.
O ataque começara.
No mesmo instante em que os monstros emergiam da floresta, guardas e mais guardas começavam a chegar às muralhas e nelas mont ar posição para
defendê-las.
Frank sem tirar os olhos da horda de monstros que para eles estava se dirigindo, disse para Brant:
- Esta seria uma boa hora.
- Uma boa hora para o que? – perguntou Brant, que também não tirou os olhos da horda de monstros, embora ainda não conseguisse definir alguma
forma para poder identificar com que tipo de monstros eles iriam lidar.
- Uma boa hora para despertar a Morte.
- Eu não posso, pois não confio nela.
- Ou você confia nela, ou vai se encontrar com os vassalos dela mais cedo.
- Mas eu não posso! Você sabe sobre a lenda e tudo o mais que com ela vem!
Fred olhou com pena para Brant
- Você realmente acha que você seria o descendente dos Homens estranhos, aqueles que idolatravam o Ar?
- Não, mas eu não conheço muito sobre a minha família – e isto realmente era verdade, pois embora o pai de Brant fosse o irmão mais novo do rei, ele
já havia morrido havia alguns anos de agonia, após perder a esposa, e ele nada sabia sobre a mãe e seus antepassados. Apesar de se considerar estranho, ele
não achava que era tão estranho assim. Além disso, os antigos homens estranhos, assim como todos os outros povos antigos, e seus descendentes já deveriam
estar mortos há muito tempo. - E além do mais, ela parece com muitas boas intenções.
- O mundo é cheio de boas intenções. E, além do mais, são só alguns monstros, eles não conseguirão passar pelas muralhas.
- Não são só alguns monstros, são muitos monstros. E... – ele parou de falar no momento em que um rugido se fez ouvir perante o som de aço
esfregando em aço, do resfolegar dos cavalos, e dos gritos entre os soldados que estavam montando a guarda.
- O que foi isso? – perguntou Brant.
- Não sei, mas parece grande. Na verdade parece enorme.

5
Foi então que algo saiu voando do meio das árvores, e veio em direção do castelo.
- Mas o que é aquilo? – perguntou Brant.
- Ahhhn, Brant...
- O que foi?
- Eu acho que sei o que é aquilo.
- Então, o que é?
E o dragão se aproximava.
- Lembra-se do dragão?
- Que dragão? – perguntou Brant.
- Aquele que a carta mencionava. O de quatro cabeças.
Enquanto seu rosto esbranquiçava novamente, no que deveria ser um recorde de embranquecimento de rosto num único dia, Brant perguntou numa
voz fraca:
- Dragões não deveriam ser daquele tamanho, não é?
E o dragão estava mais próximo.
- Eu nunca vi um dragão, mas eu creio que não deveriam ser nem da metade daquele tamanho.
- E por que ele tem quatro cabeças se, normalmente, os dragões têm somente uma cabeça? - perguntou Brant.
- Segundo os antigos feiticeiros, os dragões de quatro cabeças tinham uma cabeça para cada especialidade. Assim como alguns cuspiam ácidos, outros
cuspiam fogo, e outros ainda cuspiam um ar tão gelado que congelava tudo em que tocava.
- Tá, mas o que têm a ver o dragão de quatro cabeças com isso?
- O dragão de quatro cabeças dominava os quatro elementos, um com cada cabeça. Além disso, os dragões de quatro cabeças eram muito raros já nos
tempos antigos, e por isso, não imaginei que ainda houvesse algum vivo.
O dragão já estava à metade do caminho entre o castelo e a horda de monstros, quando parou abruptamente, como se algo o estivesse impedindo de
passar.
- Então... Não seria perigoso ficar aqui?
- Muito – disse Fred – venha comigo para um abrigo.
Enquanto eles se encaminhavam para o caminho de onde haviam vindo mais homens vieram em sua direção segurando escudos e lanças, além de
espadas e machados de batalha. Eles foram tomados pela maré de soldados e foram sendo levados cada vez mais para o centro da muralha, onde homens
montavam as defesas.
Enquanto os homens iam empurrando-os mais para o centro da muralha, sem nenhuma chance de resistir, Brant pôde ouvir partes alheias de
conversas.
-... Sempre quis enfrentar algum inimigo no campo de batalha...
-... Eu não entrei para a guarda da cidade para isso...
-... Foi para isso que eu entrei na guarda da cidade...
-... Há quanto tempo nós não entramos em guerra com ninguém?...
Foi então que eles chegaram ao centro da muralha, e á linha de defesa. Brant viu um homem passar e disse-lhe:
- Ei senhor, nós não deveríamos... – e o homem simplesmente se afastou. Então, outro homem, esse com um capuz lhe cobrindo toda a cabeça, e
ocultando a cara em sombras, chegou e lhe empurrou um machado de batalha, muito simples, mas muito afiado.
- Tome garoto – disse, entregando uma espada de um aço negro e brilhante para Fred, - acreditem se quiserem, vocês precisarão disso na hora da
batalha.
Quando Brant tentou pedir-lhe o que aquilo significava o homem havia literalmente desaparecido como se nunca tivesse estado ali.
- Você viu para onde ele foi? – Perguntou para Fred, mas quando ele não respondeu, Brant deu um pequeno grito – Hei você, está me ouvindo?
- Desculpe - disse Fred – Eu estava olhando a espada.
- Bem, sim, não posso negar que ela é muito bela, mas e daí, nunca pegou uma espada na mão?
- Não, não quis dizer nada sobre a beleza dela, mas do que ela é feita. Olhe – disse ele estendendo a espada para Brant.
Brant pegou a espada e a analisou. Virou-a de lado, olhou a empunhadura, o gume, e inclusive seu reflexo no brilhante aço.
- Não descobri o que tem a sua fabulosa arma.
- É de Aço Sumariliano.
O contraste de emoções que ocorreu em Brant, não poderia ser explicado. Primeiro veio o espanto, pois as espadas de Sumariliano haviam sido
deixadas de fabricar há mais de quinhentos anos, desde a extinção em maça dos Acquarianos, e a partir de então sumiram com os Acquarianos. Eles retiravam o
Aço em estado bruto das profundezas do mar, nas entranhas da terra, muitas vezes em temperaturas elevadas, em que só filhos do fogo poderiam trabalhar.
Depois as forjavam com Magia Antiga, da qual eles tinham muito conhecimento. E por fim a temperavam com sangue de korakeryus, um ser ultrafantástico, e
com um sangue muito poderoso. O segundo sentimento que o tomou foi medo, pois uma espada destas na mão de um desastrado como o seu primo era um
perigo. As espadas de Aço Sumariliano podiam cortar quase todos os materiais, inclusive as carapaças de dragão, além de não poderem ser quebradas. Elas
continham pura magia. O terceiro sentimento foi inveja, muito comum para ele em relação ao seu primo. Por que ele sempre tinha de ganhar as coisas mais
legais? Enquanto ele, que sempre gostou de armas ganhou um machado de batalha que, provavelmente, quando ele acertasse em um inimigo explodiria,
fincando um milhão de caquinhos de ferro enferrujado em seu rosto, ou olhos, e, se ele não morresse com esses ferimentos, provavelmente morreria de tétano.
- Por que você sempre ganha às coisas mais legais?
- Por que mais legais?
- Ora essa! Porque enquanto você ganha uma espada de Aço Sumariliano, eu ganho um machado do Ferro da Ferrugem.
- Brant, o seu machado é de Ferro Fogadoriano.
Agora sim Brant estava espantado. Ferro Fogadoriano era como um Aço Sumariliano, só que dos Filhos dos Dragões.
O Ferro Fogadoriano era retirado dos meteoros incandescentes. Depois que os meteoros esfriassem, o ferro do seu núcleo virava ferro normal. Por isso,
somente os Filhos dos Dragões podiam extraí-lo e trabalhar nele. Não envolvia magia, somente pura brutalidade natural. Do mesmo modo que o Aço
Sumariliano, o Ferro Fogadoriano cortava quase todos os materiais, com exceção do próprio Aço Sumariliano.
- Isso só pode ser brincadeira! – exclamou Brant. – Dois dos metais mais raros do planeta dados a nós!
- Não, não é brincadeira. – disse Fred com uma cara séria – Você viu quem nos deu essas armas?
- Não, não vi, mas me diga que eu tenho de lhe agradecer e prometer-lhe a minha escravidão eterna. – disse Brant com lágrimas lhe aflorando os olhos.
- É melhor você não dizer isto. Quem nos deu isto foi a Morte.

6
Brant engoliu em seco
- Como você sabe?
- Eu senti a presença dela. Eu acho que ela pôde se materializar aqui hoje, pois haverá muito trabalho a ser feito.
- O quê você quis dizer com isto?
- Eu acho que se não a despertarmos logo haverá um banho de sangue.
Foi então que Brant a viu em um canto afastado, com toda a confusão que estava acontecendo, sentada em um pilar no canto mais afastado da
muralha.
E foi no mesmo momento que viu Fred mudando de cor novamente, e logo entendeu o porquê dele ter ficado dessa forma.
Não muito longe à esquerda de Morte, Brant viu o irmão mais novo de Fred, um garotinho de cinco anos, correndo em direção á Morte, como se fosse
sua mãe. O irmão mais novo de Fred não era seu irmão de sangue-puro, já que a mãe de Fred havia morrido no seu parto, e o rei se casara de novo. Mas mesmo
assim, Brant sabia que Fred amava aquele garoto mais que tudo na sua vida.
No momento em que o garotinho chegava perto de Morte, e estava pronto para abraçá-lo ele mudou de lugar num piscar de olhos, e estava em frente
a Brant, que com o susto quase caiu ao chão.
Então ela inclinou-se para frente, e sussurrou no ouvido de Brant:
- É hora do show. – e desapareceu assim como havia aparecido.
E o dragão que estava parado a meia distância entre as muralhas e a horda de monstros, avançou.

7
Rodeio com dragões
Fred

- Oh, meus deuses, o dragão está vindo em nossa direção! – Brant ouviu um garoto de mais ou menos a sua idade falando ao seu lado. Era
impressionante como um garoto daquela idade pudesse fazer parte da guarda da cidade, deduziu ao ver como o garoto estava vestido, com armadura e elmo,
além de possuir um escudo muito brilhante. Brilhante até demais.
Então um homem da guarda empurrou um elmo em suas mãos, juntamente com um peitoral de aço, resmungando algo como “que tipo de guerreiro
demora tanto para se vestir”, ou como “até parece que vai sobreviver sem proteção, se bem que não irá sobreviver o mesmo”. Brant não gostou da segunda
sugestão, e por isso preferiu a primeira.
Nisso o dragão já estava mais próximo. E Brant estava observando como ele ficava maior ao se aproximar, quando o garoto que ele tinha observado
disse-lhe ao pé do ouvido, sobressaltando-o:
- Como ele é enorme, não é? – então Brant percebeu que era um garoto que participava das aulas juntamente com ele. Eles jamais foram amigos, na
verdade quase nem se conheciam.
- Taylor? O que você está fazendo aqui? – perguntou Brant espantado, pois ele jamais imaginou que ele fosse ser convocado para defender o castelo,
juntamente com a guarda da cidade.
- Eu imaginei que como eu fosse filho de um médico, talvez pudesse ajudar a cuidar dos feridos – então Brant lembrou-se de que ele era filho do médico
que havia morrido, testando medicamentos, e que ele havia perdido a mãe quando muito pequeno. – e como eu ouvi o boato de que havia um dragão de quatro
cabeças aqui eu não pude resistir e tive de vir ver. Sabe, esse dragão de quatro cabeças são raríssimos.
Brant pensou que ele provavelmente era o único que não sabia sobre os dragões de quatro cabeças serem extremamente raros.
- E onde você conseguiu essa arma e esses acessórios maneiros? – perguntou Brant.
- A armadura eu peguei no arsenal para poder vir até aqui livremente, quer dizer, sem ser interrompido. – ele fez uma pausa para ver o dragão que
estava rodando em círculos, a cerca de uma légua marítima dali. – e o escudo eu ganhei de um senhor encapuzado.
Brant pensou que aquilo era muito estranho e então pediu para olhar mais de perto o escudo.
- Posso ver o escudo, Taylor?
- Claro, por que não? – disse ele, passando o escudo para Brant.
Se Fred iria bater o recorde de empalidecimento num dia, ele Brant, iria bater o de espanto. Aquele escudo era feito do Ouro Boreal. Ele era extraído
pelos Homens estranhos há milhares de anos, no extremo norte do planeta. As antigas lendas dizem que ele só existe na naturez a em forma de pó, e é ele que
forma a aurora boreal, tão brilhante ao norte do mundo. Como só os filhos do ar teriam a capacidade de coletar tão grande quantidade de ouro para forjar
alguma arma, um grama deste ouro era inestimável, quanto mais uma arma. O Ouro Boreal é extremamente resistente, não podendo ser cortado de maneira
alguma, nem mesmo pelo mais afiado Aço Sumariliano, ou Ferro Fogadoriano.
Então Taylor interrompeu seus pensamentos com uma pergunta que o deixou confuso:
- Por que nós não saímos daqui?
- Boa ideia. Vamos logo, - virou-se, e disse: - Venha Fred! Fred?
Não o viu em lugar nenhum.
- Fred, Fred, FRED! – gritou Brant, a procura dele.
- Ali está ele! – disse Taylor atrás dele, apontando para um lugar a cerca de dez metros dali. Então Brant viu o que ele estava apontando. Fred estava
agachado, abraçado com o irmãozinho dele, que deveria estar chorando, por causa das marcas de lágrimas em suas bochechas.
Brant foi abrindo caminho em sua direção, empurrando os soldados para um lado e para o outro, com Taylor a seu encalce.
Quando estava a cerca de quatro metros, ouviu um berrante tocar, e aquele não era um berrante comum, aquele era o berrante de ataque pesado. Ele
olhou para a maré de monstros, viu que eles estavam parados no mesmo lugar em que eles estiveram meia hora antes. Não, não são os monstros, pensou Brant,
deve ser outra coisa. E foi então que Taylor apontou para o céu e Brant entendeu.
O dragão não estava mais onde estivera há alguns minutos. Agora estava sobrevoando a cidade, vindo a baixo. Brant se precipitou para Fred, e quando
o encontrou percebeu que ele estava em estado de choque.
Ele agarrou Fred pelos ombros e sacudiu-o gritando com ele.
- Nós temos que sair daqui! AGORA! – e o puxou por um braço, mas Fred estava tão preso ao irmãozinho, que teria sido mais fácil convencer o dragão
de, ao invés de atacar e destruir a cidade, ajudar na construção civil, levantando blocos. Ele não se moveu um milímetro, e Brant se impressionou com a força
que ele tinha. E tornou a gritar: - Vamos agora, ou vamos todos morrer!
Isso o deve ter despertado, pensou Brant, pois agora ele o olhava com uma cara de compreensão, mas foi então que ele sorriu.
- Por que fugir? Nós vamos morrer o mesmo! Que então morramos com coragem batalhando - e pegou a espada que estava ao seu lado – e não como
ratos se escondendo.
Essa última parte saiu aos gritos, que Brant e Taylor acharam desnecessários, já que agora seus ouvidos estavam com um ressoar, mas se
surpreenderam ao ver que este grito despertou o instinto de guerreiro bravo, burro, mas bravo, de luta dos soldados. Até parecia que não se lembravam de que
iriam enfrentar um dragão de quatro cabeças, que voava, com escamas tão duras que o aço não cortava, e que pelo visto estava muito, mas muito zangado.
E foi então que sem mais nem menos o dragão fez a sua primeira investida.
Ele sobrevoou baixo sobre a muralha da cidade, em direção ao seu centro, e quando passou sobre esta, Brant percebeu que cada cabeça tinha uma cor
mais definida, que se misturavam na junção dos pescoços. Quando estava a uns bons dez metros para dentro das muralhas, Brant ouviu um som de um animal
se engasgando, e a cabeça vermelha, tornou-se de um tom rubi, e então sua boca se abriu. Dela saiu um fogo tão quente, que no que ele se concentrava mais de
um segundo, derretia e escorria em rios de material derretido, rios nos quais vários soldados estavam sendo pegos. O que não era derretido ficava em chamas, e
Brant teve a impressão de que arderiam em chamas por muito tempo.
O rio de pedras derretidas estava esfriando e começando a ficar sólido quando o dragão virou-se e retornou, tornando a derreter o rio, que continuou
em direção á muralha. Brant percebeu que o dragão não estava ligando para mais nada em sua volta. Arqueiros o atacavam ás centenas, mas as outras três
cabeças simplesmente os empurravam, ou davam-lhes pescoçadas, e os atiravam para longe. Não que ele tivesse que se importar, pensou Brant, Pois se ele
fosse um dragão de quatro cabeças, ele também não iria se importar com algumas flechas que nem se quer conseguiam risca r suas escamas, quanto mais se
alojar nelas. E foi então que Brant ouviu uma exclamação ao seu lado.
- Então é isso... – disse Taylor.
Ele esteve pensando sobre o porquê do dragão não ter atacado os outros soldados nem o resto da cidade, e então, finalment e, ele entendeu o porquê
disso.

8
- O objetivo dele não é atacar a cidade, pois se ele o quisesse, já estaríamos todos mortos – explicou para ninguém em específico – ele quer conduzir o
rio de lava para a muralha, para com o calor poder abrir uma passagem para os monstros, e assim abrir um caminho seguro sem danificar a sua estrutura. Eu só
não acho essa ideia tão boa assim. Provavelmente essa lava toda vai se acumular na parede da muralha dificultando a passagem. Esse dragão realmente não é
muito inteligente...
- Ótimo. E o que nós fazemos com essa maravilhosa informação? – perguntou Brant sarcasticamente – o nós devemos fazer agora.
- Ora, isso não é obvio? Nós vamos detê-lo.
O dia estava finalmente ficando bom para Brant.
- Como é que nós vamos deter um dragão que cospe fogo, têm umas cinquenta vezes o nosso tamanho, e que ainda por cima não pode ser ferido por
armas normais?
- É você falou certo. Não pode ser ferido por armas normais. – disse ele com um sorriso de quem sabe de alguma coisa de que os outros não sabem. –
mas por isso sim.
Foi então que Brant lembrou-se de que ele tinha um escudo de Ouro Boreal, e que ele próprio tinha um machado de Ferro Fogadoriano. E então ele
olhou em volta á procura de Fred. E o que viu não o deixou nem um pouco mais feliz. Fred estava pulando do telhado de uma casa para o de outra, como se
tivesse feito isso a vida inteira. Certo, pensou Brant, isso não deve ser tão difícil, embora um telhado possa desmoronar a qualquer momento.
- Uau, ele é extremamente louco.
- Ele não é louco, só esta por causa do irmão. Ele já perdeu uma mãe, e não suportaria perder outro membro da família. E eu ach o que também não
suportaria. – e saltou pela borda da muralha, atrás do primo.
- Acho que estou cercado por loucos – disse Taylor para si mesmo.
- O que foi que disse garoto? – perguntou um homem ao seu lado.
- Nada – disse Taylor, e saltou pela borda da muralha atrás de Brant. Eram uns bons quatro metros de queda até o telhado mais próximo, e quando caiu
Taylor sentiu uma dor fisgar o seu tornozelo. Foi uma leve torção, pensou Taylor, e levantou para continuar a andar. Quando chegou ao topo do telhado, ele viu
que Brant estava á umas quatro casas á sua frente, e que mais á frente, Fred estava á umas seis de Brant. Ele pulou para o próximo telhado, mais sabia que não
conseguiria alcançá-los, pois seu escudo era pesado demais para isso. Decidiu então que iria a seu ritmo, acompanhando-os á distância, e cuidando para que o
seu tornozelo não ficasse pior do que já estava.
Brant já estava quase alcançando Fred quando viu que ele parou, e quase o empurrou por causa da sua parada inesperada. Já ia ralhar com ele quando
viu por que ele havia parado. Logo abaixo de onde eles estavam também estava o dragão, em seu caminho em direção á muralha. Brant perguntou:
- O que fazemos agora? – enquanto perguntou aquilo, o dragão abanou a cauda, e jogou uns dez homens com espadas contra uma casa próxima que
estava em chamas, e por isso ruiu.
- Um ataque surpresa – respondeu-lhe Fred.
Brant ia lhe perguntar o que ele queria dizer com aquilo, e então compreendeu, mas já era tarde demais.
Fred pulou sobre o dragão.
Brant viu aquilo, mas era tarde demais. Quando se deu por conta, ele já havia pulado e estava a meio caminho. A única saída era pular atrás dele, e foi o
que Brant fez.
Logo antes de atingir o dragão, Fred puxou a espada, e conseguiu fincá-la no dorso do dragão, e assim, conseguiu se firmar. Assim que sentiu a espada
de Aço Sumariliano fincando-se no seu dorso, o dragão soltou um rugido terrível, e jogou-se para frente, o que fez Brant se desesperar, pois agora ele caia em
direção ao chão e muito rápido.
Mas, um momento antes de atingir o chão, Brant foi colhido pela cauda do dragão, que por pouco não acertou a parede. Consegui u se firmar,
agarrando-se á parte superior dos pequenos espinhos que o dragão tinha por todas as costas. E foi então, que sentindo que não conseguia se livrar de Fred, o
dragão começou a ficar irritado. E com isso, começou a sacudir o rabo.
- Que os deuses me ajudeeeeeeeeeem!- Gritou Brant enquanto era agitado de um lado para o outro.
- O que foi? Não está se divertindo? – perguntou Fred, soltando uma gargalhada. Ele realmente precisa de ajuda, pensou Brant, mas eu preciso mais.
E foi então que o suor que estava se formando em suas mãos as deixou lisa, e ele escorregou. O impacto que ele teve contra a casa mais próxima o fez
soltar uma arfada de ar, e quando tentou gritar de dor, nada mais do que um gemido saiu de sua boca.
Quando Fred viu aquilo, sua expressão de riso passou, e ele ficou irado. Ele arrancou a espada do dragão, ficou de pé, e baixou a espada em direção á
cabeça mais á esquerda, á que tinha uma cor amarronzada. Quando tornou a olhar, não havia mais cabeça, e sua espada estava co berta de uma gosma da
mesma cor da cabeça que ele havia cortado. Então o dragão jogou-se contra uma casa próxima, e Fred conseguiu saltar bem a tempo, pois assim que o dragão
atingiu a casa, de fraca estrutura, esta ruiu sobre ele, o soterrando. A cabeça que havia sido decepada explodiu em terra poeirenta. Assim que viu que o dragão
não estava mais se movendo, correu ao encontro de Brant, que permanecia caído junto à parede daquela casa, a qual ele havia sido arremessado.
Chegando ao lado de Brant, Fred viu que não era nada tão grave assim, pois ele já estava tentando se por em posição sentada.
- Você é duro como pedra – disse Fred a ele quando estava estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.
- E você é louco como o seu pai – respondeu Brant, enquanto se levantava.
- É talvez seja – Fred estava batendo a poeira do seu corpo – você viu onde ficou meu irmão?
- Ele ficou lá atrás na muralha, junto com Taylor.
- Não, não ficou junto com Taylor, pois olha ele lá – e apontou para cima de uma das casas que ficava entre as que ruíram e aquela da qual eles
saltaram. – e olha, ele está tentando nos dizer alguma coisa.
- Eu acho que ele está tentando nos dizer parabéns pelo dragão – deduziu Brant, já que ele estava apontando para o lugar de onde Fred tinha vindo.
- Não, eu acho que é outra coisa.
Então ambos viraram-se e depararam com um enorme dragão com três cabeças, sendo que as cabeças laterais estavam silvando, e a central, que
estava vermelha como sangue coagulado, brilhava como o sol.
Brant não pensou duas vezes. Na verdade ele agiu por instinto de proteção. Atirou-se contra Fred, lançando-o a alguns metros de distância, e ficou cara
a cara com o com a cabeça rubi do dragão, com somente a parede da casa ás suas costas. E foi então que ele abriu a enorme boca, e Brant conseguiu ver o brilho
das chamas vindo em sua direção.
Fred assistiu horrorizado enquanto as chamas que saiam da boca do dragão envolviam Brant, e iam derretendo a parede atrás dele. Mesmo ali, a uns
bons sete ou mais metros, ele podia sentir o enorme calor que emanava daquele líquido que escorria de onde um dia esteve uma parede de pedras. Ele teve de
sair de onde estava, pois o líquido decorrente do derretimento da parede estava se encaminhando para onde ele estava, e estava ficando muito quente para ele
suportar. Então ele pulou para o único lugar para o qual era possível se locomover, e se deparou com o dragão que ainda estava cuspindo chamas.
Ele atacou a cabeça esverdeada, que se encontrava no lado direito do dragão, e ela revidou cuspindo algo que fez com que suas roupas sumissem
instantaneamente. Certamente aquilo deveria tê-lo matado, pois o dragão fez uma cara muito estranha até mesmo para um dragão. E foi então que Fred sentiu

9
o cheiro e soube que era ácido, mas ao mesmo tempo em que percebia isso também percebeu que era ácido somente até tocar o seu corpo, pois depois se
tornava água, e água limpa. Não que ele quisesse dizer “olha, olha gente, quando o ácido toca meu corpo, vira a água mais lim pa do mundo”, mas ele queria
apostar que ela era limpa o suficiente para se beber.
Enquanto o dragão tentava entender o que estava acontecendo, Fred aproveitou para cortar aquela cabeça que o havia atacado, e quando a cortou, a
cabeça que ainda soprava fogo se ergueu e rugiu novamente. Fred percebeu, que, porém a rubi tivesse se levantado e rugido, a outra não tinha feito o mesmo.
E logo descobriu por que. Ela estava atacando um escudo dourado e brilhante, que ele percebeu ser o de Taylor. Ele não pensou duas vezes, contornou
o dragão, subiu por sua cauda, pulou sobre o dorso do dragão e com dois golpes profundos cortou a outra cabeça.
Assim que a cortou, o corpo do dragão se moveu e o atirou para trás, ao chão, levantando voo. Ele percebeu que a cabeça que o atacara iria explodir e
gritou para Taylor:
-Proteja-se, é ácido! – e Taylor jogou o escudo á sua frente.
Bem a tempo, pensou Fred, pois a cabeça explodiu e jogou ácido por todo o redor, inclusive onde Taylor tinha se escondido atrás de seu escudo.
- Ufa, obrigado pelo aviso – disse ele abaixando o escudo – onde está o Brant?
E só então ele se lembrou de que Brant havia sido derretido pelo fogo do dragão.
- Ele, ele... – disse com lágrimas chegando aos olhos – se foi.
- Oh meus deuses, eu sinto muito Fred! – disse ele – Eu... Cuidado! – disse ele lhe atirando o escudo – a cabeça!
Fred agarrou o escudo e o pôs a sua frente, bem a tempo antes da cabeça explodir. Ele não viu o que foi que ela expeliu, mas soube que era
extremamente gelado, pois quando baixou o escudo de Ouro Boreal, pôde ver que o líquido de pedra derretida havia voltado á forma sólida, pelo menos a
camada superficial.
Então viu que Taylor estava apontando algo, e olhou naquela direção. O que viu não poderia ser real. Exatamente onde Brant estivera, havia uma forma
humanoide, de pedra sólida. Fred correu em direção daquilo gritando:
- Brant, Brant, você está aí? – e deu um golpe com o escudo na rocha dura, que se partiu.
Lá estava ele, nu, mas vivo e inteiro.
- Como foi que você sobreviveu? Aquilo deveria ter feito você derreter como manteiga!
- Eu sei, eu sei. Dá pra você me ajudar a sair daqui? – disse ele, que ainda estava coberto da cintura para baixo com pedra sólida.
Depois de ajudá-lo a sair dali, Fred o abraçou e disse:
- Nunca mais faça isso, você me ouviu?
- Ei dá para você me largar? Sabe, não faz bem as pessoas ficarem sabendo que dois garotos de quinze anos, nus, ficaram se abraçando em plena rua.
- Oh ok, tudo bem, - disse ele se afastando – mas você sabe que eu ainda não tenho quinze.
- Tanto faz – disse Taylor – tomem, peguem esses mantos antes que eu vomite.
Depois de se vestirem, e Fred contar a Brant o que aconteceu, Brant o perguntou:
- E então, onde está o dragão agora?
- Eu não sei. – disse ele com um olhar de dúvida.
- Pois eu sei – disse Taylor – ele foi em direção á muralha.
- Então, estamos esperando o que? – perguntou Fred, e os outros dois perceberam que o olhar de loucura voltara. – vamos lá terminar o que
começamos.
- Espere – disse Brant, segurando o seu braço – Você vai ficar aqui. Esse é meu.

10
Invocação
Fred

Fred não conseguiu segurá-lo. Brant esquivou o braço do de Fred, e passou por um Taylor atônito.
Brant estava com um desejo sanguinário que jamais pensou que tivesse. Era como se ele estivesse no deserto há três dias e o dragão fosse o único poço
de água em milhares de quilômetros. O dragão o tinha atacado e ele não pudera fazer nada. E ele odiava se sentir incapaz.
- O que você pensa que está fazendo? – perguntou Fred quando o alcançou.
- O que você acha? –Perguntou Brant com sarcasmo.
- Tentando o suicídio? – respondeu Fred.
- Huuuuum, não. Eu vou matar um dragão.
- Você está ficando louco! – Exclamou Fred – você não faz ideia do que ele é capaz!
Brant se virou furiosamente:
- Então quer dizer que só você tem a capacidade de matar um dragão? Só você tem o direito de aparecer e ser o herói da historia? Eu já cresci demais á
sua sombra! Pra mim chega!
- Então é isso que você pensa de mim? Que eu só quero aparecer? – respondeu Fred – É uma pena que você julga as pessoas antes de conhecê-las.
- Ei pessoal – interrompeu Taylor – detesto interromper de novo, mas nenhum de vocês pode matar o dragão.
- E por que não? – perguntaram Brant e Fred ao mesmo tempo, com um tom de voz ameaçador com o qual Taylor não gostaria de discutir.
- Por que os dragões de quatro cabeças não podem ser mortos. Este aí deve ter uns quatro mil anos.
- Como assim? – perguntou Brant.
- Bem, quando esses dragões eclodem dos ovos, crescem ao redor de onde nasceram. Quando atingem a idade adulta, põe um ovo repositor, ou seja,
um ovo com uma cria sem alma. Esse ovo não eclode, mas aguarda. Quando o Dragão é ferido gravemente ou quando têm as quatro c abeças cortadas, a alma
abandona o corpo e retorna para a cria dentro do ovo e então recomeça o ciclo. Diz a lenda que se você destruir o ovo antes de matar o dragão é possível mata-
lo. Só que é quase impossível achar o local de eclosão de um desses dragões.
- Ótimo, então nós podemos atrasar o processo, cortando a cabeça que resta! Estamos esperando o quê? – disse Fred.
- Mas não é tão simples assim. Quando se corta a ultima cabeça, o corpo explode, criando uma grande cratera no local. E se isso acontecer aqui...
- Você está certo. Não podemos ariscar a vida das pessoas, mas também não podemos permitir que o dragão deixe os monstros entrarem, pois aí vai
ser um genocídio!
- Há uma maneira. Nós temos que feri-lo gravemente, fazendo com que ele se obrigue a abandonar a carcaça.
- E como nós vamos fazer isso?
- Simples. Alguém tem de montar nas costas dele e cortar as asas fora.
- Ótimo - disse Brant – eu vou.
- Nem pensar – argumentou Fred –é perigoso de mais.
- Perigoso demais? Quando você saiu correndo em direção ao dragão, você não pensou duas vezes se era perigoso ou não. Nem s equer pensou em
como o seu meio irmão ficaria se perdesse você.
Parecia que um machado de batalha havia acertado o estômago de Fred. Ele baixou a cabeça e disse em voz mais baixa.
- Foi só nele que eu pensei. Não iria permitir-me perder mais um membro da família sem fazer nada para impedir. E é por isso que eu não quero deixar
você ir. Não posso pensar em perder você também.
Brant não tinha encarado os fatos dessa maneira. Então era por isso. O único motivo era a preocupação. Mas ele sabia que nada disso iria adiantar, pois
Fred não iria impedi-lo.
- Se você gosta mesmo de mim confie em mim. Nada vai acontecer – e para levantar o seu próprio astral, completou – Afinal, aparentemente eu sou a
prova de fogo.
Fred deu um riso rouco e Brant soube que ele não iria tentar impedi-lo.
- Brant, eu acho que você está esquecendo um detalhe. – disse Taylor - Você viu o tamanho daqueles dentes? Eles podem te abrir ao meio sem o menor
esforço.
- E é por isso que ele vai precisar de uma distração para montar nas costas do dragão. – disse Fred. Vamos, dê-me o seu escudo que eu vou servir de
isca.
Taylor deu o escudo e disse:
- Podem ir que eu vou estar logo atrás de vocês. Aparentemente, o meu pé não vai me permitir ir muito rápido.
E ele observou os dois indo em direção á muralha naqueles mantos esfarrapados que ele havia dado para eles. E começou a segui-los lentamente
Enquanto iam correndo em direção à parte interna das muralhas, tanto Fred quanto Brant, observavam a trilha de destroços que o dragão deixou
enquanto se dirigia para a muralha.
Alguns segundos depois eles avistaram a muralha e o que provavelmente significaria o fim da cidade, pois o dragão estava cusp indo fogo diretamente
na muralha, e esta estava derretendo. Na verdade ela já estava com um enorme buraco, que ia aumentando rapidamente.
Quando se aproximaram do dragão Fred fez sinal para Brant se dirigisse para a direita que ele iria distrair o dragão.
Fred correu por baixo de uma das asas do dragão, e fez a maior besteira da sua vida: espetou sua espada entre os dedos da parte dianteira do dragão.
O dragão reagiu na mesma hora. Deu um puxão na pata ferida e derrubou Fred de costas. Fred levantou na mesma hora e preparou-se para correr, mas
quando virou-se, o dragão bloqueou a sua passagem com a asa. Fred virou-se lentamente para ficar de cara com o dragão, e gelou de medo quando viu que ele
estava assumindo novamente aquela cor arroxeada momentos antes de fritar Brant, ou pelo menos tentar.
Brant estava quase chegando ao topo da escada quando viu Fred ser encurralado pelo dragão. Decidiu que era hora de agir. E pulou sobre o dragão.
Fred viu o brilho das chamas no fundo da garganta do dragão quando o mesmo abriu a boca para cuspir o fogo, mas então foi for çado para o chão por
algo que veio pelas suas costas. Ele sentiu o calor passando por cima da coisa que o empurrava para o chão. Quando conseguiu se recuperar do susto e
empurrar o que o bloqueava, o monstro soltou um rugido, e ele percebeu que o que o estivera empurrando para o chão era a asa do dragão que havia sido
decepada.
Desviou sua atenção da asa para o dragão e percebeu que Brant estava com o seu machado ensanguentado em uma das mãos, e olhando fixo, com
certa repugnância para a asa cortada do dragão. Com um movimento brusco, o dragão fez Brant se desiquilibrar, e ele teve de largar o machado para poder se
agarrar ao pescoço do dragão.
O machado caiu a uns 10 metros de Fred, e ele sabia que teria de dá-lo a Brant para que ele pudesse cortar a outra asa. Só havia um problema: ele havia
caído ao lado da pata ferida do dragão, que não parava de batê-la.

11
Fred havia percorrido cerca de dois metros quando deu uma olhada no machado e viu algo muito estranho acontecer: uma forma encapuzada surgiu do
nada e atirou-se para pegar o machado. Ele estava para gritar “cuidado!” quando o dragão ia pisar em cima do ser encapuzado, ele simplesmente desapareceu.
E Fred ouviu uma voz feminina dizer ao seu ouvido:
- Pegue! Eu não tenho muito tempo – disse, e quando ele virou-se para olhar, viu a forma encapuzada ao seu lado lhe oferecendo o machado estendido.
E então desapareceu de novo deixando o machado cair e ficar cravado no chão à sua frente.
Ajuntou o machado e quando se virou para lança-lo para Brant percebeu que não haveria a menor possibilidade de isso acontecer. Brant estava
pendurado por um braço no pescoço da besta.
Ele percebeu na hora que Brant não teria a menor das condições para completar a tarefa, e ele não teria tempo para subir ás costas do dragão, a fim de
evitar uma tragédia.
Decidiu então fazer a coisa por conta própria. Desceu o machado em diagonal na perna do dragão, e viu que ela foi cortada como manteiga. Aproveitou
a deixa para arrancar a espada de entre os dedos do mesmo. Sem apoio o dragão tombou de lado, derrubando Brant a distancia, e fazendo-o rolar por alguns
metros até bater com a cabeça nos destroços de uma casa próxima que havia desabado.
Percebeu na hora que não haveria tempo para erros e hesitações, então se encaminhou para o dragão, agora urrando de dor, e de sceu a espada no
ventre do mesmo. Quando o ventre se abriu, o dragão envergou as costas e soltou uma luz azul brilhante pela boca. Fred deduziu que era a alma dele que
deixava o corpo.
E então avistou Brant, jogado contra os destroços da casa, ainda sem reação.
Taylor chegou ao local às duras penas, e não acreditou no que viu.
Um dragão com as entranhas de fora. Um garoto desmaiado contra as pedras de uma casa desmoronada. Outro garoto ajoelhado aos pés do primeiro.
Uma horda de monstros se aproximando da muralha, a menos de quinhentos metros.
Ajoelhou-se ao lado de Fred e disse:
- Vamos, vamos, Fred precisamos ir! Uma horda de monstros se aproxima rapidamente daqui!
- Não adianta. Agora nada mais importa. Brant está morto e tudo é minha culpa. Se eu não o tivesse deixado ir...
- Ele não está morto, apenas desmaiado. Olhe.
Fred olhou e Brant começou a se mexer. Quando abriu os olhos, levou as mãos pelo manto abaixo, e constatou que não havia bolsos.
- Droga! Onde está a esfera?
- Que esfera? – Perguntou Fred
- Uma esfera negra, que estava no bolso de minha calça! – Exclamou Brant – ela estava comigo até que... – e então ele lembrou – O dragão!
- Por um acaso não seria esta? – perguntou Taylor, pondo a mão no bolso de sua própria calça e retirando de lá uma esfera extremamente negra e sem
vida.
- É exatamente esta! – exultou Brant – onde você a achou?
- Ela estava caída próxima ao local onde vocês confrontaram o dragão pela primeira vez.
- Dê-me aqui. – disse Brant, praticamente arrancando-a das mãos de Taylor.
Brant ergueu a esfera ao nível dos olhos e examinou-a atentamente, mas não viu nada de novo. Era a mesma esfera que ele tinha tirado do bolso mais
cedo.
- Não é possível! – disse ele – deveria haver algo. Ela me falou que eu veria no momento certo. Ela me disse que agora era o momento certo.
- Do que você está falando? –perguntou Fred – não há nada aí, a não ser um monte de escuridão.
- Enquanto eu estive desmaiado, encontrei com a morte novamente, e ela me disse que agora era o momento. Que eu não deveria hes itar. Que
somente o verdadeiro descendente de sangue puro poderia acordá-la para impedir a carnificina, e que somente ele poderia ler os códigos antigos contidos na
esfera.
- E por que você não lê? – perguntou Taylor.
- Como assim?
- Sim, por que você não lê? – repetiu Taylor – podem-se ver claramente as escritas ali e ali – disse apontando para os dois hemisférios da bola.
- Taylor não há nada escrito aqui. – disse Brant
- Há sim! Vocês não podem ver?
- Brant, eu acho que Morte não estava falando de você. – disse Fred.
- Mas não é possível! Eu tinha certeza que era sobre mim!
- Não se mostre desapontado. Afinal, você não é o centro do universo.
Após uma breve pausa, Brant aceitou a realidade.
- Então o que você está esperando? Leia e impeça essa carnificina!
- Não faça isso – disse Fred – é o que a morte quer. E o que ela quer não pode ser bom.
Brant agarrou Fred pelos ombros e virou-o em direção á muralha, dizendo:
- Até pode não ser bom, mas é a única chance que nós temos. Se não for agora não vai mais dar tempo!
Fred olhou. Os monstros estavam agora a menos de duzentos metros. Ele percebeu que o momento que ele mais temia chegara. A primeira vez em que
ele teria de tomar uma decisão séria na vida, ele estar salvando ou condenando o reino com um ato. Ele só queria saber qual era o certo a ser feito. Foi então
que ele suspirou e disse:
- Tudo bem – e ele só esperava estar certo.
Taylor tirou a esfera da mão de Brant, e aproximou-a do rosto, até quase encostar ela nos olhos. Então ele leu em voz alta.
- Sharymate weskesymi, lugimate refiguini.
Nada aconteceu.
- Você leu certo? – perguntou Brant.
- Sim. – respondeu Taylor.
- Tem certeza? – insistiu Brant.
- É lógico que eu tenho certeza. Ou você acha que...
Ele não terminou a frase. Nesse momento, a esfera desmanchou-se em areia, e liberou uma fumaça negra, que subiu por alguns metros e desapareceu.
- E então? – perguntou Fred – não vai acontecer nada?
- Não vai, já aconteceu – respondeu uma voz que fez os três se virarem.
Ali estava parado um belo jovem, vestindo uma túnica com uma capa negra pendurada pelos ombros. O jovem levantou uma das mãos em direção às
muralhas, e Brant, Fred e Taylor acompanharam o movimento como se estivessem hipnotizados. Conforme ele ia virando o braço de um lado para o outro, uma

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enorme fenda ia se abrindo em frente à horda de monstros, fazendo com que eles em alta velocidade não conseguissem parar, sendo assim em purrados pelos
de trás para a enorme fenda. Os que conseguiam parar começavam imediatamente a recuar em direção à floresta. O jovem baixou a mão para o lado do corpo,
e disse:
- Vamos vocês precisam ter uma conversinha com algumas pessoas. – se virou e começou a andar.
- Espere aí, quem é você? – perguntou Fred.
- Ai, ai, ai. Como vocês são atrasados. Pensem um pouco e vocês saberão quem eu sou. Agora me siga, eu não tenho o dia todo. Ou melhor, a noite
toda. – E começou a andar.
- Morte, não é mesmo? – disse Taylor – eu sei, por que eu senti sua presença quando li aquelas palavras.
- A então foi você – a morte se virou e analisou Taylor indiferentemente – o que você está esperando? Um obrigado? Vamos lá se mecham!
Os três, como se fossem marionetes levantaram e começaram a seguir a morte. Andaram cerca de vinte metros por entre as casas demolidas, e
chegaram a uma escada na parte interna da muralha. Quando chegaram à base da escada, puderam ver que no topo da muralha o frenesi estava
enlouquecedor. Pessoas corriam de um lado para o outro, outras gritavam freneticamente, alguns estavam feridos e encostados à parte interna da muralha.
Começaram a subir as escadas sem serem notados, mas ao chegarem ao meio da escadaria, alguns guardas encostados à mureta interna da muralha, apontaram
para eles e começaram a cochichar entre eles. Logo um grupo se formou e começaram a descer as escadas em direção a eles.
Quando se aproximaram do grupo de guardas, como se tivesse acordado de um torpor, Brant já ia começar dizer que não precisavam agradecer e que
eles não estavam fazendo mais do que sua obrigação e outras coisas, mas dois dos guardas o rodearam e o pegaram pelos braços e o levantaram do chão.
- Ei o que vocês estão fazendo? – ele ouviu Fred dizer à sua esquerda, e percebeu que os guardas estavam cercando os três, e os agarrando. O que ele
mais estranhou, foi que os guardas pareciam estar ignorando Morte. Ele pensou em dizer algo, mas Morte interrompeu antes que ele pudesse dizer algo.
- Eles não me veem, pois eu não quero que eles me vejam. Acredite, eu não quero me estressar com estes mortais inúteis. Prefiro tratar com os seus
superiores. Afinal, é para lá que vocês vão agora.
- Como assim? – perguntou Fred.
- O seu pai, - Morte fez uma pausa – ou melhor, aquele que se diz seu pai. Afinal nem tudo é o que parece.
- O que foi que você disse? – perguntou Fred – sobre meu pai?
- Ha, esquece. Isso é assunto para depois. Afinal, vou deixar para ele mesmo lhe contar.
Parecia que Fred tinha levado um soco no estômago. Com certo arrependimento Brant olhou para um dos guardas que o arrastava e perguntou:
- O que vocês estão fazendo? – disse tentando se esquivar um braço do aperto, mas sem sucesso – para onde estão nos levando?
- O rei quer vê-los – respondeu o guarda – especialmente você. – disse olhando para Taylor.
- Eu? – perguntou Taylor – mas por quê?
- Você vai descobrir, – disse o guarda. – e sem mais perguntas.
Percebendo que não adiantava lutar Brant aceitou e foi carregado pelas muralhas até próximo de uma das laterais do castelo pr incipal, onde deveria
estar o rei no momento. Ele ficou atormentado quando percebeu que eles passaram direto pela escada que dava acesso aos portões do castelo.
- Para onde vocês estão nos levando? – perguntou Fred – pelo que sei, por aqui não há nenhuma passagem que dê acesso ao castelo. – isso era
verdade, constatou Brant, pois se tinha alguém que poderia dizer todas as entradas e saídas secretas do castelo eram Brant e Fred, que cresceram brincando por
elas, bem como saindo escondidos para passear pela cidade nos arredores do castelo.
- Eu disse sem mais perguntas. – respondeu o guarda com o tom de quem está decidido a não responder a mais perguntas.
Depois de andarem pouco mais de cem metros, começaram a descer por uma escada lateral a muralha.
Chegando à base da muralha, começaram a ziguezaguear por entre vielas, e foi depois de virarem uma esquina que Brant e Fred descobriram para onde
estavam indo.
- A taverna do trasgo – disse Brant.
Não que fosse uma taverna de trasgos mesmo, embora os usuais ocupantes se assemelhassem com trasgos de verdade, com enormes b arrigas, e com
seus hábitos alimentares rupestres. Com os usuais ocupantes, Brant e Fred não se aventuraram por aquele sinistro local.
Quando chegaram à entrada, um guarda que estava próximo à porta, fez sinal para que parassem. Quando pararam, o guarda disse ao que estava mais
próximo:
- Sem serviço hoje. O conselho está reunido.
- É exatamente por isso que estamos aqui. O conselho exigiu que trouxéssemos estes garotos. – respondeu o guarda.
- É mesmo? Bom, a sua mãe exigiu que eu voltasse hoje à noite. – Disse o guarda, e soltou uma gargalhada.
- Essa piada deve ter tocado realmente no fundo. – disse a voz de Morte ao ouvido de Brant – A mãe do guarda é uma prostituta aposentada. Ele sofre
com isso desde pequeno. Aposto que vai rolar sangue.
“Pelo visto, ele tem razão” pensou Brant, pois viu que a mão do guarda se direcionava para a bainha da espada, enquanto a mão do guarda prostrado à
porta fazia o mesmo percurso.
- Parem com isso – ordenou uma voz á porta atrás do guarda – Já tivemos sangue demais hoje sem briguinhas inúteis.
O guarda virou-se imediatamente para o homem da porta e lhe disse:
- É claro Senhor. Mas o que acontece é que esses intrusos estavam querendo adentrar o local sem permissão.
- Eles têm permissão. – disse o homem à porta - A minha.
Então o guarda saiu da frente, e todos reconheceram o homem. Era o pai de Fred. Era o Rei.
- Pai? O que o senhor está fazendo aqui neste lugar? E por que mandou que nos trouxessem para cá?
- Em primeiro lugar Fred, este lugar é aonde o povo vem, então por que não o lugar em que o seu rei viria? E em segundo, não fui eu que mandei que os
trouxessem para cá. Foi o conselho.
- Que conselho? – perguntou Fred.
- O Conselho Arcaico.
A pele de Brant se arrepiou. O conselho Arcaico era o conselho que dirigia a cidade juntamente com o rei. Ele era formado pelo rei, pelo homem mais
velho, pela mulher mais velha, por um escolhido, por uma escolhida e pelo guerreiro.
O homem mais velho, bem como a mulher mais velha, bem como o nome já diz, eram, respectivamente, o homem e a mulher mais velhos do reino.
Os escolhidos são um garoto e uma garota, que são selecionados quando bebês, logo após a morte do escolhido anterior. Eles são treinados para tomar
decisões sábias, e servem até a morte.
O guerreiro é escolhido toda estação. São realizados duelos em um torneio, no qual o vencedor tem o direito a uma cadeira no conselho.
E o rei, no momento era o pai de Fred, e tio de Brant. Também era o homem que se encontrava em frente a eles.

13
Sem dizer mais nenhuma palavra, ele se virou e entrou. O guarda à esquerda de Brant deu de ombros e começou a arrastá-lo, sendo seguido pelos
outros. Quando cruzaram a porta, os três prenderam a respiração.
O lugar tinha cheiro de vômito misturado com suor de três dias, e com um leve toque de urina. Em uma mesa do canto direito, h avia um homem
desmaiado, tombado em cima do líquido que escorreu de sua caneca, que estava virada sobre a mesa. Reto em frente à entrada ficava o balcão. Atrás dele
estava um homem barbudo, muito velho, e aparentemente muito frágil. Sobre o balcão, estavam algumas garrafas quebradas, bem como duas pernas de um
banquinho, do qual o resto estava jogado próximo dali. No lado esquerdo, havia dois homens, que estavam conversando em voz baixa lançando olhares
desaprovadores para o grupo que acabara de entrar.
Olhando em volta, Fred localizou seu pai, que estava no canto do balcão, falando com um homem na casa dos 30 anos. Quando Fre d prestou atenção,
ouviu seu pai dizendo.
- Mas por que é que nós precisamos da senha? Você acabou de me ver sair e você sabe que sou do conselho.
- Me desculpe vossa majestade, mas são as regras. O senhor conhece.
- Ah, tudo bem. – ele disse isso como se fosse muito penoso – a senha é galinhas azuis não combinam com porcos cor-de-rosa.
Fred teve de se segurar para não estourar em uma gargalhada. Como é que a senha para acesso ao conselho poderia ser uma dessas?
O rei fez sinal para que eles o seguissem, mas quando se aproximaram do homem ele interrompeu a passagem e disse-lhes:
- Vocês não. Somente os garotos.
Os guardas pareciam não saber o que fazer. Por sorte deles, o rei interrompeu:
- Podem deixar cavalheiros. Daqui para frente eu cuido deles.

14
O conselho
Brant

Surpreendentemente, da porta que havia atrás do balcão descia uma escadaria que levava a andares inferiores, tão profundamente, que com certeza
superava as mais profundas masmorras.
Quando os três estavam pensando que não parariam mais de descer, eles chegaram à outra porta, que dava acesso a uma sala circular, com uma mesa
em forma de meia lua no centro, com seis cadeiras distribuídas uniformemente pela circunferência. Duas delas estavam vazias, e nas outras quatro havia quatro
figuras encapuzadas. Três cadeirões de ferro haviam sido postas de frente para a mesa. O rei foi o primeiro a entrar, e foi logo indicando as cadeiras para que os
três se sentassem. Se dirigindo para uma das cadeiras vagas na ponta da mesa, ele se sentou. Baixando o capuz, ele disse, dirigindo-se a todos os presentes na
sala:
- Está aberta a nongentésima nonagésima nona seção do conselho, desde que começaram os registros, com Magno, o conselheiro. Nesta seção, não
será tolerada a mentira, a violência, nem a falta de razão. A finalidade desta reunião será julgar a infidelidade dos acusados aqui presentes. O conselho declara
aberta esta reunião, com o consentimento do membro ausente, o guerreiro, que no momento está cuidando da defesa da cidade. To do aquele que quiser se
pronunciar, deverá se identificar. Vamos começar com as queixas. Alguém tem algo a dizer?
- Ora Jorge, não há necessidade dessa formalidade. – disse uma voz que os três conheciam, à esquerda do rei.
Então a mulher mais velha levantou-se e baixou o capuz. Os três levaram um susto ao constatarem que a mulher mais velha era uma velha conhecida.
Por baixo do capuz estava o rosto enrugado da senhora Toalk. Nenhum deles imaginava como à senhora Toalk era velha.
- Meu nome é Toalk Melesburge. Sou a mulher mais velha, representante no conselho. – Ela se apresentou – E todos nós sabemos que não houve
qualquer crime que necessite ser julgado.
- Eu discordo – disse outra voz feminina, na extremidade oposta da mesa. A mulher baixou o capuz, e revelou que não tinha mais de 25 anos. Era a
escolhida. – Eu sou Margaret Kales, e eu sou a escolhida para fazer parte do conselho. – disse ela se apresentando – Querida Toalk, eu acho que a senhora
deveria se lembrar, que estes três garotos fizeram a mais tenebrosa das coisas possíveis. Eles executaram magia antiga e libertaram Morte, e pelas leis do nosso
reino, esse é o crime mais hediondo de todos. Isso pede execução sumária.
- Creio que esta é uma decisão precipitada – disse uma voz rouca, que estava à direita da mulher – Eu sou Magno de Theo, homem mais velho,
representante do povo para o conselho.
- E eu concordo. – disse uma voz atrás dos garotos, que fez com que eles se virassem. Fred percebeu somente naquele momento que havia algum
tempo que Morte havia desaparecido, mas com outros problemas, não se importou com isso. - Eu sou Altemar Garrem, mais conhecido como Morte,
principalmente nos últimos três mil anos. E represento esses garotos perante o conselho, é claro, se eles aceitarem.
Então ele olhou para os garotos, esperando por uma resposta. Como não teve nenhuma, entendeu isso como um sinal positivo.
- Bem como eles me aceitaram, eu suponho que, a única coisa que devo dizer é que vocês não devem me temer. Não há o porquê disso. O velho senhor
Magno, que tem escapado por centenas de anos, não me teme. Então vocês também não o devem.
- Não tememos você– disse o ultimo dos encapuzados, levantando-se e tirando o capuz. Os três garotos ficaram espantados, constatando que por baixo
do capuz era um garoto, com no máximo 17 anos. Como poderia um garoto tão novo fazer parte do conselho? Pelo que se tinha conhecimento, ele somente
poderia participar depois do treinamento, quando já fosse considerado sábio o suficiente para aconselhar. – Eu sou Carlos Dresmond, escolhido para presenciar
e aconselhar as reuniões do conselho.
- É mesmo meu jovem? – perguntou Morte – então a quem vocês temem?
- Nós não tememos ninguém. Somos os descendentes da raça mais forte, a que sobreviveu ao ataque dos seus comandos, e não é agora que vamos cair,
perante algo insignificante.
- Algo insignificante? Você sabe oque vocês estão enfrentando agora? O poder que o seu inimigo têm?
- Você já foi derrotado antes, e nós podemos derrota-lo de novo. – disse o jovem, começando a ficar alterado.
- Seu tolo! – esbravejou a morte – não creio que consideraram você digno de se sentar à mesa do conselho. Não sou eu seu inimigo! Eu estive
aprisionado durante séculos, eu jamais poderia ter ordenado este ataque. Os verdadeiros inimigos são os meus Comandos. Eles se cansaram de obedecer a
ordens e não ter nenhuma liberdade.
- E como você sabe de tudo isso? – perguntou o jovem escolhido.
- Por que você acha que eles são tão poderosos agora? Eles derrotaram a fera que protegia a esfera que me aprisionava, e depois drenaram o poder
que ela continha. Foi assim que eu acordei, e felizmente consegui impedir que eles absorvessem todo o poder. E é por isso que eu estou aqui.
- É mesmo? E por que nós devemos acreditar em você?
- Por que eu sou a sua última esperança.
O jeito com que morte falou isso fez com que os cabelos na nuca de Brant se arrepiassem. Ao mesmo tempo em que ele queria que fosse mentira, ele
sabia que era a mais pura verdade.
- E o que faz você pensar assim? – perguntou agora a escolhida.
- Se eu não tivesse interferido no ataque dos monstros a alguns momentos, vocês estariam todos mortos agora! Vocês do conselho se dizem sábios,
mas não conseguem nem ver quem é o verdadeiro inimigo, nem o poder que ele tem!
- Ahn, com licença... – Começou a dizer Fred, mas foi interrompido pelo homem mais velho:
- Primeiro, meu jovem, se apresente conforme as regras do conselho.
- Tudo bem. Sou Fred Meltfort, filho do rei, e herdeiro do rein...
- Mentiroso! – Exclamou a escolhida. Fred realmente estava começando a ficar irritado com as interrupções. Na verdade ele nem sabia qual tinha sido a
última vez que tinha dito uma frase completa. – É a mais sagrada das regras do conselho! Não são permitidas mentiras aqui dentro!
- Mas eu não menti! Afinal, eu sou o herdeiro do reino! Como filho mais velho, é meu direito de nascença. Diga para eles pai! – então Fred olhou para o
seu pai procurando apoio para o que acabara de dizer, e o seu sangue congelou. Parecia que o seu pai havia visto um fantasma. – Pai? O que houve?
- Fred, você não é meu filho – Lágrimas estavam se acumulando nos olhos do rei. Fred não podia ter escutado direito. Aquilo só podia ser um engano. –
Eu escondi isso todos esses anos para protegê-lo. Tudo por amor.
Então Fred explodiu:
- Não me venha falar de amor! Você não sabe o que é isso! Se você realmente me amasse não teria me enganado este tempo todo!
O rei pensou em falar algo para tentar aliviar a situação, porém constatou que qualquer coisa que dissesse só pioraria aquilo . A sala permaneceu em
silêncio enquanto Fred se acalmava um pouco. Ele perguntou:
- Então, - disse ele enxugando as lágrimas antes que escorressem – quem é o meu pai de verdade?

15
- Seu pai é um puro sangue, descendente dos Acquarianos, que morreu lutando bravamente pela nossa cidade. – disse o pai de Fred – E eu prometi a
ele que cuidaria da sua esposa e filho. Ele era mais que um soldado. Ele era meu melhor amigo.
- E a minha mãe? – perguntou Fred, engolindo em seco – Quem é ela?
- Ela é a mesma mulher com que me casei e que você chamava de mãe. Eu não pude evitar. Apaixonei-me por ela assim como o seu pai. Eu sabia que a
dor da traição seria demais para suportar, mas ficar sem ela seria mais doloroso.
Brant estava arrasado. Ele não sabia se dizia algo para consolar Fred ou se ficava em silêncio. Ele sempre invejara o primo, pois ele tinha um pai, uma
família que o amasse. E agora tudo isso se tinha desfeito num piscar de olhos. Brant estava com medo de fazer a pergunta, mas se obrigou a fazê-la:
- E os meus pais? – perguntou ele – Eles realmente morreram como me contaram?
- Não Brant. – respondeu Morte, antes que algum dos outros pudesse fazê-lo – Eles não morreram como lhe foi contado – Se Brant não estivesse tão
consternado, poderia dizer que percebeu certo tom de pena na voz de Morte – Na verdade eles morreram de uma forma horrível.
- O quê? – Disse Brant – Quero dizer, como assim?
- Bom, acho melhor deixar essa parte para o seu “tio” – disse ele fazendo sinal de aspas com os dedos.
- Tio? – disse Brant se virando para o seu suposto tio. – O que ele quis dizer com isso?
- Bom, Brant, eu não sou realmente seu tio. - Brant não sabia por que, mas não havia ficado surpreso – e eu acho melhor você não ficar sabendo.
- Como assim? O que pode ter sido tão horrível?
- Eu não posso lhe contar – disse o rei.
- Se você não lhe contar, então eu contarei. – disse Morte – e acredite você não vai querer isso.
- Tudo bem – disse o rei derrotado – Brant, quero que saiba que eu não tinha outra escolha. Seus pais foram trazidos até o conselho, pelas mãos do
povo. Segundo eles, os seus pais estavam tentando aprender magia antiga para reviver ele – e apontou para Morte – Eles achavam que poderiam fazer isso, pois
eram os últimos descentes puros dos Filhos do Dragão. Enfim, tive que fazer o que todos queriam, em nome da segurança da minha família, eu mandei executá-
los por bruxaria. Só que a execução clássica não funcionou. A fogueira cresceu e torno dos dois, conforme suas gargalhadas cresciam. E o fogo morreu, sem que
as gargalhadas morressem. Eles não foram sequer tocados pelo fogo. Então somente sobrou uma alternativa. A última punição que se tem em caso de bruxaria.
Eles foram obrigados a beber ácido. Mas não uma quantidade instantaneamente letal. A dose foi um mililitro por hora. Foram ne cessários quatro dias para que
sua mãe morresse. O seu pai durou quase duas semanas. Você escapou porque era só um bebe, e eu pude justificar a sua morte sem exibir o seu cadáver em
praça pública. O remorso me atingiu, e eu o criei escondido, até que meu irmão se suicidou depois de matar o próprio filho, e eu pude introduzi-lo como meu
sobrinho na história.
- Você pretendia me contar um dia? – perguntou Brant.
- Não. Na verdade eu pensei que jamais chegaria a isso.
- Que tal todos deixarmos os assuntos familiares de lado e continuar com o objetivo da reunião? – disse a escolhida.
- Que objetivo? – perguntou o homem mais velho – Não há nenhum objetivo aqui. Eu convoquei esta reunião com um falso pretexto. Na verdade tudo
o que eu queria era falar com os três, mas eu não tinha meio de chegar até eles. Vocês não entendem por o que estão passando. Eu já vi esse filme uma vez, só
que não quero que os mesmos erros se repitam. Eu sei que estou prestes a partir, e a ultima coisa que quero fazer é deixar um legado para este planeta. Eu sei
todo o mal que Morte já causou, mas eu acho que desta vez as suas intenções não são más. Eu sei o que querer repousar, e aposto que é tudo o que ele mais
quer neste momento. Vocês não sabem como isso é cansativo. O que temos a perder em confiar nele?
- O que temos a perder? – disse o escolhido – Você nada velhote! Afinal, você já esta morto mesmo. Nós temos tudo a perder! E além do mais, eles
cometeram o mais grave dos crimes! Mesmo que nós escutássemos o que você tem a dizer, seria nossa obrigação os prender, julgar e condenar!
- Você tem razão - disse o rei – Nós temos que julgá-los, e todos sabemos que eles devem ser condenados, por isso, eu me ofereço para ficar no lugar
deles.
Todos ficaram boquiabertos. Eles sabiam o que isso significava.
- O que?! – exclamou Fred – Pai, você não pode fazer isso! Nós vamos ficar e responder pelos nossos crimes. Você não tem nada a ver com isso!
- Na verdade eu tenho tudo a ver com isso. – disse o rei – Eu tinha a responsabilidade de evitar isso. O conselho havia me dado essa tarefa. Há muito
tempo que o conselho percebeu que vocês dois – disse ele indicando Brant e Fred - eram os últimos descendentes puros das suas raças. Na verdade já havíamos
reconhecido três dos quatro prometidos. Estávamos esperando pelo nascimento do quarto, mas todo esse tempo ele estava debaixo dos nossos narizes. – ele
olhou para Taylor – e era você.
Dentre todos os que deveriam parecer abalados com as revelações, Taylor era o que o que surpreendentemente menos estava.
- Eu sei. Comecei a juntar as peças há algum tempo, e já tinha chegado a essa conclusão. – disse ele com muita firmeza – A pergunta que fica no ar
agora é: quem é o quarto membro?
- Isso eu não posso responder, mas a senhora Toalk pode. - Todos olharam para ela.
- isso é uma questão para depois.
- É realmente. – disse a escolhida – No momento a questão é o crime e a punição. Jorge, rei dos Reinos do Sul, tem certeza que deseja assumir o lugar
destes garotos e, assim, assumir também toda a responsabilidade pelos seus atos?
- Não! – urrou Fred e se levantou de sua cadeira. Neste momento, o rei olhou para Morte, com um olhar de súplica, que foi compreendido. Morte
estendeu uma das mãos em direção aos garotos, e os três foram forçados contra as cadeiras, com os membros colados ao corpo e os lábios fortemente
fechados. Eles não podiam se mexer nem falar. Os olhos dos três seguiam os passos do rei, que levantou e contornou a mesa, ficando de frente para os outros
membros do conselho.
- Sim, eu assumo a responsabilidade pelos seus atos. – A escolhida parecia que iria explodir de raiva. – E aceito ser julgado em seu nome.
- Guardas! – chamou o escolhido, e duas portas se abriram atrás da mesa do conselho. Por elas entraram dois brutamontes que contornaram a mesa e
pararam nos lados do rei. – Levem o acusado daqui. O conselho tem outros assuntos a tratar no momento.
Com movimentos suaves, os dois brutamontes pegaram o rei pelos braços e o levaram para uma das portas. Com um ultimo olhar para trás, ele
conseguiu visualizar os três meninos sentados imóveis nas cadeiras.
- Bom – disse a escolhida, sentando-se – vamos aos demais assuntos.
- Eu acho que não – disse o homem mais velho – O conselho dispensa O Escolhido e A Escolhida de suas reuniões por hora. Vocês serão chamados
quando necessários. Por favor, queiram se retirar.
- Como ousa! – esbravejou o escolhido – você não pode nos dispensar! Somos membros do conselho!
- Querido, - disse a senhora Toalk – Nós somos os mais velhos aqui, e pode acreditar, nós conhecemos as regras do conselho. Os escolhidos somente
são necessários caso o conselho esteja inteiramente presente, e caso o membro que convocou a reunião deseje a sua presença, o que eu não acho que seja o
caso a gora.

16
Indignado, mas sem dizer uma palavra o escolhido se virou e saiu por uma das portas. A escolhida parecia ter ficado sem palavras. Ela não estava
acreditando que isso tivesse acontecido. Então ela foi acordada pela voz da senhora Toalk.
- Querida? – disse ela gentilmente – você prefere sair por vontade própria, ou prefere que eu chame os guardas?
Com isso, ela se virou e saiu.
- Os conselheiros não são mais o que eram uma vez – disse o homem mais velho. Fez um sinal de cabeça para Morte, e os três voltaram a poder se
mover. – garotos, o que temos para falar com vocês é muito importante. Como vocês já descobrira, vocês três fazem parte da profecia, c omo últimos
representantes das suas respectivas raças. E eu imagino que vocês já saibam quais vocês representam respectivamente, não é?
Os três se olharam, e quem abriu a boca para falar foi Taylor.
- Bom, eu imagino que Brant é descendente dos Filhos dos Dragões, Fred dos Acquarianos, e eu, dos Homens Estranhos. Não é isso?
- Exatamente, - disse morte – e o quarto integrante é o descendente dos Elfos.
- Mas espera aí – disse Brant – Como vocês sabem que somos nós os últimos descendentes puros?
- Brant, Brant, Brant, - disse a senhora Toalk, - você nunca foi o mais esperto, mais eu pensei que pelo menos você poderia seguir seus instintos! Você
não percebe a aura de poder que emana de vocês? Você não se sente estranho?
- Que aura? – perguntou Brant – e não, eu não me sinto estranho. Na verdade eu me sinto bem melhor do que há algumas horas.
- Pois é esse se sentir bem que indica que sua aura de poder está aumentando. – disse morte.
- Eu sinto minha aura – disse Taylor – e consigo sentir a de vocês também.
- Eu também – disse Fred.
- E aposto que você também poderá caso se esforce Brant. Isso não é um poder especial que você desenvolve com o passar do tempo. Isso é um talento
natural de todo mundo. Por exemplo, eu consigo sentir a aura de poder de vocês, mas muito fraca, por causa da interferência de Morte. A aura dele é tão forte
que quase nem sinto a de vocês.
- E olha que eu nem estou realmente presente. É som uma projeção minha. – disse morte.
- Espere um pouco – disse Fred – Como assim poderes especiais que vamos desenvolver com o tempo?
- Fred, querido, eu esperava que você soubesse! Você sempre foi um aluno dedicado! – disse a senhora Toalk – Como eu já ensinei nas minhas aulas, os
remanescentes das antigas raças geralmente tem resistência a algumas coisas que matariam pessoas normais. Mas isso só se aplica a pessoas que não são
descendentes diretos, ou seja, que não puros sangues. Os puros sangues são capazes de desenvolver dons além de resistência aos seus respectivos elementos
representativos. Vocês, como últimos puros sangues, provavelmente vão ter todo o poder e grandeza que tinham os representantes das antigas raças.
- Em resumo – disse morte – vocês vão se tornar praticamente deuses. Assim como eu.
Brant estava chocado. De praticamente um Zé ninguém a um deus. Isso era muita reviravolta na vida dele em pouco tempo.
- E é claro, - continuou Morte – que isso não vai ser fácil. Vocês precisarão treinar muito, além é claro de ter dar muito mais duro do que já deram na
sua vida.
- Ótimo – disse Fred – mas e para que tudo isso.
- Para cumprir a profecia – disse a senhora Toalk – e unir as Esferas do Poder.
- O quê? - disse Taylor – ninguém jamais conseguiu capturar nenhuma esfera, quanto mais reunir as quatro! E os melhores caçadores de tesouros,
magos, assassinos profissionais, já tentaram e não conseguiram.
- Mas vocês tem uma coisa a mais – disse Morte.
- E o que seria? – perguntou Brant.
- A minha ajuda.
- É sério isso? – disse Taylor – como vamos saber se podemos realmente confiar em você? Como pode nos garantir que quando tivermos as esferas você
não ira tentar roubá-las de nós?
- Como eu já disse a vocês, se tornarão praticamente deuses e tão poderosos como eu, então eu não teria poder para roubá-las de vocês. E além do
mais eu não teria motivo para isso. A única razão de vocês pegarem as esferas é para poderem derrotar os comandos, que estão fora do controle, e assim
poderem restaurar a paz. Mas para poderem realizar isso vocês precisam encontrar o quarto membro.
- Ótimo, e o que estamos esperando? – disse Taylor – por que não vamos logo?
- Calma aí rapaz, - disse o homem mais velho – vocês não sabem nada sobre as esferas nem sobre a localização delas. Muito menos sobre a localização
da quarta integrante do grupo.
- A quarta? - perguntou Fred – quer dizer que é uma garota?
- Sim – disse a senhora Toalk – e ela é neta da minha irmã.
O dia estava realmente estranho para Brant.
- Então você sabe onde ela está? – perguntou Brant, olhando para a senhora Toalk. Quando recebeu um sinal positivo, perguntou – então, onde ela
está?
- Bom, ela está nos Reinos Centrais, sob a guarda do clã dos magos.
- Isso quer dizer que ela não pode sair? – perguntou Fred – pois se eu lembro bem, quem entra para um dos clãs faz um pacto de sangue, se
comprometendo a nunca mais largar o clã.
- Bem na verdade sim, só que no caso dela é diferente. Ela nunca fez um pacto de sangue, pois a mãe dela entregou-a para a guarda dos magos quando
ela ainda era um bebê, e ela não teve escolha.
- Ótimo, então nós podemos ir até lá e falar com ela. – disse Taylor.
- Nem tudo é assim simples – disse Morte – Vocês já consideraram que talvez ela não queira sair de lá.
- Você não tem sequer uma única notícia boa para nos dar? – perguntou Fred.
- Na verdade, eu tenho uma maravilhosa. – disse Morte – A primeira esfera, a do fogo está justamente nos Reinos Centrais, próximo à sede do clã dos
magos.
- Que bom - disse Brant – e quando nós partimos?
- Assim que possível – disse Morte – a cada dia que passa, os comandos drenam mais a minha energia.
- Espera um pouco! – disse Fred – eu me lembrei de algo que aconteceu mais cedo! Quando Brant estava atacando o dragão, uma garota apareceu do
nada e também desapareceu para o nada. Foi muito estranho, mas eu pude sentir a aura de energia que emanava dela e era enorme. Ela também me disse algo.
– ele fez uma cara de pensativo – “eu não tenho muito tempo” ou algo assim. O que poderia ser?
- Uhm, talvez ela tivesse se tele transportando ou então fazendo uma projeção de si mesma, e como isso consome muita energia, acho que era isso que
ela estava tentando dizer. E se isso que você diz for mesmo verdade, acho que a garota que estamos procurando já está bem mais evoluída do que esperávamos.
Mas eu vou ter de investigar.

17
Então Morte se virou, girou a capa e desapareceu.
- Tudo bem garotos – disse o homem mais velho – está na hora de partir. Afinal, quanto antes vocês forem, antes vocês terão acabado com isso.
- Mas espere aí, como nós vamos chegar as Reinos Centrais? – perguntou Fred – afinal, nós não temos nenhum plano de ação.
- Bom, venham até aqui – disse ele se levantando e pegando um papel em uma das gavetas da mesa – observem o mapa.
Observando o mapa os garotos puderam perceber que ele continha detalhes da região, desde o sul das periferias do castelo, até pouco ao norte das
cadeias vulcânicas, nos Reinos Centrais. Ao sul do castelo, eles podiam ver os Mares de Gelo. Ao leste, o Rio dos Rios, com seus 50 km de largura, desembocando
nos Mares de Gelo. Ao oeste, as planícies pelas quais os monstros vieram, e ao norte, separando as terras dos Reinos Centrais dos Reinos do Sul. Entre as
montanhas e o rio, via-se um caminho tracejado com cuidado, que passava por algumas cidades de pescadores, à margem do rio. Olhando para aquilo, Fred
perguntou:
- Esse é o caminho que devemos percorrer?
- Sim, - respondeu o homem mais velho – esse foi o caminho mais seguro que eu encontrei para vocês. Receberão apoio dos aldeões que moram pelo
caminho, bem como comida e repouso.
- O mais seguro, mas não o mais rápido – respondeu Brant – Se nós seguíssemos pelas montanhas, economizaríamos cerca de três dias.
- Como você sabe? – interrompeu Taylor.
- É uma espécie de sexto sentido. Eu só sei.
- Você tem razão. – interveio a senhora Toalk - Pelas montanhas é mais rápido. Mas também é o jeito mais rápido de morrer.
- Como assim? – indagou Fred.
- Pelas montanhas – começou o homem mais velho – vocês não encontrarão quem lhes dê abrigo durante a noite. Não encontrarão comida. Serão alvos
fáceis para emboscadas. Irão morrer congelados. E provavelmente os clãs das montanhas irão comê-los vivos. E eu estou falando sério.
- Hum, você tem razão. As montanhas não são um bom caminho. Vamos seguir pela estrada costeira – disse Brant, dando-se por derrotado.
- Tudo bem. Vamos subir e preparar as coisas para a sua partida.
Tomando a dianteira, o homem mais velho abriu a porta atrás dos garotos e passou por ela, começando a subir os degraus. A sen hora Toalk fez sinal
para os garotos seguirem ele. Depois que os três passaram, a senhora Toalk passou também, fechando a porta atrás de si. Brant calculou que estavam apenas na
metade da escadaria, e ele era o mais cansado de todos.
Foi então que, acima deles, ouviram o primeiro grito.
Brant foi o primeiro a chegar correndo no topo da escada, praticamente esgotado. Quando abriu a porta para o bar, a cena que viu foi muito estranha:
o bar pelo lado de dentro estava praticamente o mesmo. Porém, as mesas, cadeira, e um homem desmaiado estavam todos amontoado s contra a porta. As
janelas estavam todas quebradas, e diversos braços passavam pelos pedaços que restavam. Algumas pessoas tentavam entrar, mas eram repelidas pelos
brutamontes que estavam sentados lá mais cedo. O homem que estava cuidando do bar mais cedo estava agora coordenando a defesa do local. Quando os
demais chegaram ao bar, o homem mais velho perguntou:
- O que está havendo aqui?
- Parece que alguém contou para a população que os meninos iriam escapar impunes, e eles resolveram fazer justiça com as própri as mãos. –
respondeu o homem que cuidava do bar. – E agora eles estão tentando invadir o bar.
- Quer dizer que estamos cercados? – perguntou Fred.
- Em teoria, sim. Na verdade não. Eu já subi para o segundo andar, e eles só estão na parte da frente do prédio. Mas na parte traseira não tem saídas.
- Droga – disse o homem mais velho – o que tem na parte traseira?
- Um estábulo – respondeu o outro – mas já vou adiantando que não há nenhum cavalo.
- Então para que um estábulo? – perguntou Brant.
- Bem, eu disse que não há cavalos – respondeu o homem – mas há um khopereus.
- Khopereus? O que é isso?
- É um tipo de cachorro. – disse o homem – Bem grande.
- Ei você – disse o homem mais velho para um dos grandalhões que estava detendo a entrada das pessoas – quanto tempo você acha que nós ainda
temos?
- Uns vinte minutos! – respondeu o homem.
- Garotos, vão para a despensa e juntem o máximo de suprimentos que vocês puderem. Eu vou bolar um plano para a fuga.
Com isso, os garotos correram para a despensa e começaram a juntar todos os suprimentos que conseguiram.
Quando voltaram, a senhora Toalk havia sumido, bem como Magno. Brant perguntou:
- Onde estão eles?
- Eu os levei para um lugar seguro. Eles são os conselheiros da cidade, e se a população entrar aqui, irada como está isso vai ser sangrento.
Assim é melhor, pensou Brant, afinal, eles não têm nenhuma culpa.
- Vocês – disse o homem da taverna – vocês vem comigo. Por aqui. Agora.
O homem levou-os até o segundo andar, por uma escada que não aparentava muita firmeza. Quando chegaram a um quarto pequeno no segundo
andar, o homem se dirigiu para uma janela na parede oposta á janela. Chegando nela, ele a escancarou e disse:
- O plano é o seguinte: vocês saltam pela janela e fogem no meu khopereus. Mas tomem cuidado com o temperamento dele. Eles somente aceitam um
cavaleiro na vida.
- E quem é o cavaleiro? – perguntou Fred subindo no parapeito da janela.
- Eu não sei – disse o homem sorrindo – ninguém conseguiu montar ele e viver para contar a história. – e empurrou Fred.

18
A Fuga
Brant
- Eu não vou pular aí
- A vai sim – disse o homem – se eles podem você também.
Fred e Taylor já haviam pulado. Uns dois metros abaixo da pequena janela no segundo andar, havia um pequeno telhado que cobria o estábulo. Depois
que os dois tinham pulado, o telhado se partira parcialmente no local do choque, e os dois haviam desaparecido.
- Vamos! – disse o homem – Você não tem muito tempo!
Isso era verdade. Brant já podia ouvir as pessoas adentrando a taberna, e não demoraria muito para que elas descobrissem que eles estavam no
segundo andar. Brant sentiu um empurrão em suas costas, e percebeu que era o homem da taverna.
- O que você está fazendo? – perguntou Brant, e ao mesmo tempo ouviu os passos das pessoas subindo as escadas.
- Salvando sua vida – Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, viu que o primeiro homem chegou ao topo da escada, e viu também que ele estava
com um machado de cortar lenha. Então o homem deu um empurrão com todas as suas forças, fazendo com que Brant voasse pela jan ela. Quando se virou,
pouco antes de colidir com o telhado, viu o olhar abatido do homem, e em seguida, mãos o puxando para trás, violentamente. Então veio a pancada.
Brant sentiu como se suas costas estivessem se partindo. A viga que ele acertou quando colidiu se partiu sob o seu peso, e parte do telhado ruiu
juntamente com ele.
Logo após atingir o chão, ele sentiu mãos pegando-o pelos braços, e pensou que aquele seria o seu fim, que tudo tinha acabado, mas então ouviu uma
voz familiar chamando-o.
- Brant, Brant! – era Fred – levanta! Temos que ir!
Brant abriu os olhos, e a cena que viu, o fez sorrir. Pelo buraco no teto, ele viu a Escolhida olhando furiosa olhando para b aixo, com uma cara de
extrema frustração. Então ele levantou e se espantou com o que viu.
A cena seria cômica caso não fosse apavorante. Fred estava parado ao seu lado, tentando lhe falar alguma coisa, mas ele estava tonto demais para
entender. Logo em frente, Taylor estava tentando puxar algo inacreditável pelas rédeas. A criatura era enorme. Era muito parecido com um cachorro, só que
umas vinte vezes maior. Além disso, tinha dois olhos de cada lado, dois voltados para frente e dois para os lados. Os dentes eram enormes, e muito brancos.
Porém o mais incrível eram os pelos. Na verdade não havia pelos, mas sim labaredas vivas no lugar. No meio das costas, ele tinha uma cela, que Brant não tinha
certeza, mas podia apostar que era de ferro puro. Quando Taylor deu mais um forte puxão, a criatura revidou e jogou-o ao chão. Vendo que a criatura iria comer
Taylor vivo, Brant se jogou a frente e gritou:
- Não! – disse ele abrindo os braços, e bloqueando o caminho – para trás! Agora! – disse puxando o seu machado das costas. Foi então que ele ficou
mais surpreso.
- Você está me ameaçando com isso humano? – disse o cachorrão – pois pode acreditar não vai funcionar.
- Brant! – disse Fred – se afaste devagar. Esse rosnado não é amistoso.
- Não Fred. Eu posso fazer isso – Brant percebeu que os outros dois não haviam escutado o que o monstrengo havia dito. Ele virou para o cachorro e
disse – Eu não estou te ameaçando! Só estou tentando proteger o meu amigo! Agora por favor, poderia se afastar?
Brant não soube o que o foi mais divertido, se a cara de Fred e Taylor ou se a cara de espanto que o cachorro fez.
- Você entendeu o que eu disse? – perguntou o cachorro – eu venho tentando me comunicar com humanos há anos, mas parece impossível!
- Olha tudo bem, eu até gostaria de bater um papo, mas agora nós precisamos de ajuda. Poderia nos tirar daqui?
- Eu até poderia – disse o cachorro – mas infelizmente eu estou preso. – completou se virando e revelando uma grossa corrente acoplada à sela.
- Isso eu posso resolver – disse Brant, e com um golpe do seu machado, cortou a ligação, fazendo com que tanto a sela, como a corrente, caíssem e
revelassem um belo animal de corpo esguio, mas forte.
- Subam – disse o cachorro agachando-se até ficar em uma altura acessível – minha pelagem não vai machuca-los.
Brant se virou para os seus companheiros e disse:
- Vamos, ele está nos oferecendo carona.
- Hum, Brant? – disse Fred – você é imune a fogo, mas nós não.
- Confie em mim – disse o cachorro – subam.
- Confie em mim – disse Brant, pondo a primeira mão na pelagem de fogo.
Quando a mão de Brant tocou a pelagem, esta começou a mudar, as chamas se apagando e começando a aparecerem pelos branquíssimos. Naquele
momento, Brant também pode ver e sentir tudo o que o khopereus estava sentindo. Foi como uma ligação além da física. Então, o cachorro olhou para trás e
disse:
- Eu não disse que podia confiar em mim?
Quando viram aquilo, Fred e Taylor pareceram ter acordado de uma hipnose. Ajuntaram suas coisas do chão e se dirigiram corren do para o khopereus.
Quando subiram nas suas costas, ouviram a primeira batida na porta. Ela provavelmente não aguentaria mais alguma pancada. O khopereus abaixou-se e disse
para Brant:
- Segurem-se firme. – e Brant repassou para os outros dois. O cachorro tencionou as patas e se preparou, e Brant soube na hora o que ele ia fazer.
Quando a porta cedeu e as pessoas entraram carregando um aríete, o khopereus saltou por cima deles e saiu para o mundo.
Quando a cegueira temporária da luz passou, eles puderam ver que tinham aterrissado no meio de uma multidão de pessoas furiosas. Elas carregavam
foices, machados, enxadas, tochas, e diversas armas manufaturadas. Foi então que uma mulher saiu do meio da multidão baixou o capuz e disse:
- Lá estão eles – pelo jeito, a escolhida não ligava para o quão obvia era aquela frase, e continuou – peguem-nos antes que fujam!
- Vai sonhando – disse o cachorro, e saltaram contra a parede de uma casa próxima, quase derrubando os três garotos no chão. Brant conseguiu
agarrar-se no pescoço do cachorro. Fred ficou pendurado, agarrado nos pelos, e Taylor deitou no dorso do animal. Da lateral da casa, ele saltou para o telhado
de outra, e assim, foi seguindo para o portão que dava acesso para a estrada que margeava o Rio. A população acompanhava correndo pela beira das casas.
Então eles chegaram a um trecho em que não puderam mais saltar de casa em casa. Saltaram para o chão, e o cachorro disse:
- Desçam, - e Brant transmitiu o recado para os outros dois – continuem sem mim.
- Como assim? – perguntou Brant.
- Eu não posso mais carregar vocês – disse ele, os pelos começando a se transformar novamente em chamas. – Alguém precisa atrasá-los para que
vocês possam escapar. Eu cuido disso.
Provavelmente era o primeiro amigo real que Brant arranjava, e agora, ele o estava abandonando. Ele sabia que isso não era correto, mas também
sabia que era a única maneira. Olhou bem nos olhos do khopereus e disse:
- Tem certeza?
- Toda – ele respondeu, e se virou em direção aos gritos que iam aumentando. – por favor, não desperdicem meu tempo.

19
- Vamos – disse Brant para Fred e Taylor, - nós temos que ir agora.
- Mas Brant – disse Fred – nós não podemos...
- VAMOS! – gritou Brant se virando e correndo em direção ao portão leste, escondendo o rosto para que os outros dois não vissem as lágrimas. A
distância ele ouviu o primeiro grito de um dos aldeões. Provavelmente o coitado pensou que poderia combater sozinho.
Correram por cerca de cinco minutos, entrando em vielas, becos, ruas maiores e menores. Então eles dobraram uma esquina e visualizaram o enorme
portão leste. Mas o que viram com ele não era nada bom.
- Centenas de pessoas estavam bloqueando o portão, e dentre eles, amarrado a um poste, estava o rei, seminu e maltratado. A frente do grupo estava
o escolhido, com uma tocha na mão. Olhando para os garotos ele disse, com um meio sorriso:
- Ora, ora, ora. Aqui estão os malditos. Eu disse para Margaret que eu podia fazê-lo falar para onde vocês iriam, mas ela não acreditou e quis pegá-los
com as próprias mãos. – virando-se para o rei, ele disse – Você não tem mais utilidade – e com isso, baixou a tocha.
Brant teve de segurar Fred para que ele não corresse para o meio da multidão. A tocha pôs fogo em algo que estava escondido pela maça de pessoas,
mas mesmo assim eles puderam ver que as labaredas cresciam rapidamente. Fred caiu de joelhos e ficou olhando horrorizado para aquela cena. Olhos nos olhos
com o rei, ele pode compreender o que ele estava tentando murmurar: desculpe-me.
Foi então que algo surpreendente aconteceu. Uma figura encapuzada apareceu atrás do rei, puxou uma adaga, cortou as cordas, o segurou para que
não caísse no chão e desapareceu com ele.
O escolhido ficou furioso, e virando-se para os garotos gritou:
- Peguem eles!
E a multidão saiu correndo em direção a eles.
Brant ajuntou Fred do chão e deu-lhe uma bofetada para que saísse do devaneio, e puxou-o para uma viela em acesso.
- Para onde estamos indo? – perguntou Taylor.
- Para o plano B. – respondeu Brant.
- E qual o plano B?
- As montanhas. – Brant sabia que isso poderia significar morte para eles, mas com toda a certeza era mais seguro do que ficar ali e tentar pas sar pelo
portão leste.
- O que? – disse Fred – nós não podemos ir pelas montanhas! É muito perigoso! Você ouviu Magno, é morte certa!
Brant pegou Fred pelos ombros e virou trás, onde, à cerca de cinco casas de distância a primeira das pessoas virava a esquina.
- Isso é morte certa – disse Brant – as montanhas não são nada de certo, mas é a nossa melhor possibilidade. – e virou-se voltando a correr e puxando
Fred consigo.
- Vamos! – disse Taylor, logo mais a frente – eu já estou vendo a ponte.
Da ponte eles já poderiam ver a saída para as montanhas. Os três já estavam correndo lado a lado, quando uma flecha passou entre Fred e Taylor, e se
fixou poucos metros a frente, na madeira da moldura de uma porta.
- O que foi isso? – disse Fred, virando-se para ver de onde tinha vindo à flecha.
Cerca de duas casas atrás de onde eles estavam uma figura encapuzada estava puxando outra flecha para o arco que tinha nas mãos. Quando a pôs no
arco, Brant puxou os outros dois por uma viela lateral que, percebeu ele, os desviaria muito do caminho.
- O que está fazendo? – perguntou Fred – nós precisamos atravessar a ponte!
- Eu estou salvando as suas vidas! – gritou Brant – se nós seguirmos por ali, o arqueiro vai nos acertar!
Brant se virou e continuou correndo. Não verificou se os outros dois estavam o seguindo, e também não se importava mais. Se a cada vez que ele
salvasse a vida deles eles o ficassem interrogando, ele preferiria ficar sozinho. Ele virou uma esquina e se deparou com uma rua que beirava o rio, e a cerca de
50 metros pode ver a ponte, e viu que parte da população emergia do beco e começava a correr em direção à ponte.
Foi então que uma barcaça que estava atravessando por baixo da ponte explodiu, mandando grande parte da mesma pelos ares. Brant chegou à
conclusão de que eles estariam exatamente naquele lugar. E que não teria sobrado nada deles
Fred e Taylor pararam um eu cada lado de Brant, ofegantes, e olharam a explosão.
- Ótimo – disse Fred – como vamos atravessar agora?
- Deve haver algum pequeno atracadouro aqui em algum lugar – disse Taylor – os pequenos pescadores moram quase todos deste lado do rio.
Eles foram até a beirada do rio e olharam para baixo, procurando algum barco atracado por perto, porém como já estava amanhecendo, quase todos os
pescadores já haviam saído. Entretanto, a algumas dezenas de metros rio abaixo, um pequeno e velho barco estava amarrado á um toco de madeira que mal
aparecia acima da água.
Eles foram andando até lá, e constataram que o barco era bem mais acabado do que parecia ao longe, mas imaginaram que oferecia condições para
que pudessem ao menos atravessar a largura do rio. Fred pegou um remo que estava encostado à parede de uma casa, e eles desceram pelo muro que cercava
o rio, em direção ao bote.
- Vejam pelo lado bom – disse Taylor – eles devem pensar que estamos mortos, ou pelo menos não vão ter como nos seguir.
Brant não havia pensado naquilo, e tão pouco estava se importando agora. A única coisa com que ele estava se importando agora era em achar uma
escada para subir do outro lado. E até aquele momento, não estava vendo nenhuma.
De repente, eles ouviram um som vindo das costas deles, e perceberam que as pessoas que os estavam procurando antes, estavam na beirada do rio e
acompanhavam o barco ser levado pela correnteza, com olhares furiosos nos olhos. Foi quando Fred disse:
- Ali! – apontou para uma das margens, onde uma escada de madeira semidecomposta estava pendurada. Com o remo ele os empurrou para a
margem, em direção á escada. Quando estavam se aproximando da escada, o primeiro barril atingiu a água violentamente ao seu lado. Taylor, na ponta do
barco, segurou a escada com a mão e começou a subir.
- Você na frente! – disse Fred para Brant – eu vou logo em seguida.
Brant agarrou a escada e, quando tirou o segundo pé do barco, ouviu um barril atingi-lo logo atrás. Agarrado com uma mão, ele se virou para olhar e
conseguiu ver que Fred e o barco estavam afundando. Ele não tinha pensado nisso, mas era interessante como o descendente dos Acquarianos não soubesse
nadar. Ele pensou em pular na água para salva-lo, mas naquele momento, algo foi atirado para fora da água com muita força. Constatou que deveria ser Fred,
como ele não sabia. Subiu rapidamente o resto da escada e constatou que era realmente Fred, pois Taylor já estava ajudando ele a levantar.
- O que aconteceu? – perguntou ele saindo da escada – pensei que você não soubesse nadar!
- E eu não sei. – disse Fred – mas aconteceu algo muito estranho! Eu estava afundando, pensando que era assim que eu morreria, e então foi como se
todo o meu medo se voltasse para a água ao meu redor, e assim eu fui atirado para cima, pela própria água!
Então um barril atingiu o chão ao lado deles. Ambos se viraram para ver de onde os barris estavam vindo. As pessoas da outra margem os estavam
atirando com o toldo de uma tenda, improvisado como uma catapulta. Enquanto eles observavam, eles carregaram mais um barril e o atiraram. Ele veio em

20
direção a Fred, e Brant, vendo que ele não ia se esquivar, se atirou de encontro a ele, e o barril se espatifou exatamente onde eles estavam. Taylor ajudo-os a se
levantarem e disse:
- Vamos! – e indicou com a cabeça as casas mais próximas, e as vielas entre elas.
Os garotos prosseguiram com sua corrida desesperada pelo meio das casas, com o murmúrio de vozes sanguinárias atrás deles. Algumas esquinas
depois, eles avistaram a passagem para as montanhas. Ela era enorme. Um enorme arco de pedra, com cerca de trinta metros de comprimento por quinze de
altura. Ali nos arredores havia dezenas de pequenos mercados de frutas e cereais, que os mercadores das bases das montanhas conseguia m colher e traziam
para serem vendidas na cidade. Perto dos piares também havia alguns barris, de bebidas destiladas também produzidas pelos mercadores.
Fred e Taylor já se encaminhavam para a saída, mas Brant teve uma ideia.
- Ei, esperem – disse ele – nós não podemos somente seguir em frente como se nada tivesse acontecido. – os outros dois se viraram como se ele tivesse
ficado louco – não nos adianta de nada seguir em frente, eles continuarão nos perseguindo, e se eles continuarem nos seguindo pelas montanhas com certeza,
no mínimo centenas vão morrer. Nós precisamos bloquear a passagem.
- Mas como? – perguntou Fred – essa passagem é enorme!
- Eu já pensei nisso. – disse Brant – olhe para esses barris perto dos pilares do arco. Se eles ainda estiverem carregados com aquelas bebidas
destiladas...
- Uma explosão pode acabar acidentalmente derrubando o arco e bloqueando o caminho – completou Fred compreendendo o plano. – mas como
vamos fazer isso? Ficar muito próximo à explosão será perigoso demais.
- Eu já pensei nisso. – disse Brant – nós precisamos fazer uma trilha de bebida destilada até fora da passagem, e de lá nós poderemos dar a ignição sem
perigo.
- Bom plano, – disse Taylor – mas vocês precisarão de minha ajuda?
- Se não ocorrer nenhum erro provavelmente não. – respondeu Brant – por quê?
-Porque eu tenho de fazer uma coisa – disse Taylor, e sem esperar resposta, saiu correndo em direção a uma das casas mais próximas.
- Vamos – Disse Brant para Fred, dando de ombros – temos trabalho a fazer.
Cada um dos garotos foi em direção a uma das pilhas de barris e escolheu um. Abriram a rolha que trancava o buraco inferior, e começaram a puxar,
com a bebida escorrendo, em direção à saída para as montanhas. Demoraram cerca de cinco minutos para chegar em um ponto que p arecia ser seguro, que
ficava atrás de uma pequena elevação. Estava tudo pronto, só estava faltando Taylor.
- Onde será que ele foi? – Preguntou Fred.
-Eu acho que... – mas parou de falar, e apontou para alguns metros além do portal – lá está ele!
Taylor estava correndo em direção a eles, com uma sacola de couro curtido nas costas. Quando se aproximou Fred perguntou:
- Onde foi que você se meteu?
- Eu fui buscar suprimentos – disse ele com um sorriso se formando na cara, deixando a sacola escorregar gentilmente até o chão na frente dos outros
dois garotos, e deixando que ela abrisse, revelando diversas frutas e cantis de água.
- Muito bem! – disse Brant – nós não nos lembraríamos disso.
- É ainda bem que temos ao menos um cérebro na equipe – disse Fred, dando um leve soco no ombro de Taylor – e agora, podemos prosseguir?
- Sim, sim, claro. – disse Brant – eu só não sei como acender as trilhas.
- Como assim você não sabe como acender as trilhas? – você não pensou nisso?
- Não, mas deve haver algum fósforo nas casas próximas. – respondeu Brant – então é só...
Ele foi interrompido por uma voz que falou às costas dos três:
- Ou pode ser que alguém tenha algum á mão – era Morte, e estava com diversos fósforos e outros dispositivos que provavelmente serviam para
acender uma fogueira.
- Ótimo - disse Fred – então nos dê estes aí.
- Não – respondeu Morte – nem pensar.
- O quê? – disse Taylor – como assim não?
- Olha – respondeu Morte – não é que eu queira o mal de vocês, mas eu não poderia deixar que vocês tivessem facilidade em tudo.
- Me dá isso aqui – disse Brant, pulando nele, mas Morte desapareceu antes que ele pudesse tocar nele, e reapareceu a poucos metros de distância.
- Brant, Brant, Brant – disse Morte - mesmo que você quisesse me tocar você não poderia, pois eu sou somente uma imagem de mim mesmo, e assim,
só toca em mim quem eu quiser. – e continuou com um ar mais sério – Mas agora escutem. Eu andei investigando, e se aquela garota que esteve aqui for
realmente o quarto elemento, então vocês estão muito atrasados em relação a ela. E eu preciso que vocês evoluam o mais rápido possível. Então é hora de
começar. Brant se concentre e acenda o fogo.
- Claro – disse Brant perdendo a paciência – é só você me dar um fósforo.
- Acho que você não entendeu. – respondeu Morte – você deve acender com a sua mente.
- Com a mente? – disse Brant perdendo a paciência – e como é que eu faço isso?
- Você é o ultimo descendente puro dos Fogadorianos. É só você se concentrar. Venha cá – disse Morte, dirigindo-se para o inicio da trilha de bebida
destilada e Brant o acompanhou – Junte suas mãos em forma de concha. Isso, agora imagine todas as moléculas que estão aí dentro se agitando.
Brant estava olhando para suas mãos, mas nada acontecia. Ele estava tentando imaginar as moléculas dentro das suas mãos se movendo como
pequenos girinos.
- Eu estou tentando! – disse Brant, desesperado – mas nada acontece!
- Humm, parece que as moléculas não estão se movendo o suficiente. – disse Morte pensativo – No que exatamente você está pensando?
- Estou imaginando pequenos girinos se moverem – respondeu Brant, e percebeu que Fred estava segurando o riso, logo atrás deles – mas parece não
estar funcionando.
- Meus Deuses, Brant – exclamou Morte – Você pensou em girinos? É obvio que não iria funcionar. Na verdade as moléculas devem estar quase paradas
agora. Você tem de pensar em algo que gere muito movimento, como por exemplo, nas águas de uma catarata caindo e se chocando com as pedras ou então...
- Espere, espere – interrompeu Brant – quer dizer que para produzir fogo, eu devo pensar em água?
- É, por que não? – respondeu Morte – Na verdade você deve pensar no movimento, mas como consolação também pode funcionar pensando em
diversos galhos de árvores em um tornado.
Brant voltou a se concentrar e fechou os olhos. Tentou imaginar que as moléculas dentro de suas mãos eram os galhos dentro de um tornado. Estavam
sendo atirados violentamente de um lado para outro, se chocando contra as paredes, e quando tentavam escapar eram violentamente puxados de volta. Sentiu
o vértice central e toda sua calmaria, e toda a agitação ao redor. Então abriu os olhos.

21
O que ele viu foi surreal. O que emanava de suas mãos eram ondas de calor, tão intensas quanto às distorções que se veem num dia de calor. Mas não
havia fogo algum. Ele ia perguntar para morte se havia algo errado, quando viu que ela aproximava lentamente um graveto de suas mãos. O graveto nem
chegou a tocar a bola distorcida. Incendiou-se imediatamente.
- Isso garoto! – Exclamou Morte exultante – Agora você tem de aprender como apagar isso aí. Você pode fazer isso de duas maneiras: calmamente, ou
utilizando isso como uma arma.
- Uma arma? – perguntou Brant – como assim?
- Eu estava a fim de lhe mostrar como fazer isso calmamente, - respondeu Morte com um brilho no olhar – mas vejo que isso vai ser mais interessante.
Muito bem, a dica da arma, é que você pode atirar isso contra um inimigo, gerando uma enorme onda de calor concentrado. Imagine que você odeia aquele
pilar – Disse apontando para o pilar esquerdo do arco. – aquele pilar matou os seus pais.
Brant imaginou isso e logo visualizou o falso pai de Fred, e mesmo que quisesse, constatou que não poderia odiá-lo, afinal foi ele quem o protegeu. No
lugar imaginou a escolhida, de quem ele facilmente conseguiu adquirir um ódio mortal.
- Agora imagine que você tem uma bola de esterco na mão e você quer se livrar o mais rapidamente possível dela. Então é só atirar – completou Morte.
Brant não queria imaginar aquilo, mas depois que Morte falou aquilo, foi como se ele tivesse implantado aquilo em sua mente. Ele olhou para sua mão
e realmente viu um monte de esterco fresco em sua mão, e aí ele atirou. Só que ele errou, e a bola acabou indo acertar uma barraca de venda de frutas, alguns
metros além da muralha. Ele não pode ver o momento exato em que a bola de ar quente atingiu a barraca, pois sua visão ficou escura, mas um momento de,
pois viu uma coluna de fogo subindo pelos ares. A barraquinha não existia mais, e se as pessoas ainda não sabiam onde exatamente eles estavam agora elas
iriam saber.
- Droga Brant! Você não era pra ter errado! – exclamou Fred – agora eles sabem a nossa posição!
- Calma garotos – interveio Morte – eles iriam descobrir agora mesmo – e tocou com a ponta do graveto em chamas no chão e assim, o fogo seguiu pela
trilha que eles haviam feito no chão. Mas onde o fogo deveria se dividir e seguir por duas trilhas, ele seguiu por uma só, para a esquerda, e a pilha de barris
explodiu. Uma coluna de fogo e fumaça negra subiu por dezenas de metros pelo céu azul do começo da manhã. O pilar em que a pilha de barris estava escorada
ruiu, derrubando assim metade do portal e bloqueando metade da passagem. O problema era que a outra metade ainda estava intac ta, deixando uma
passagem enorme para perseguidores.
- Vish – disse Morte – Parece que algo saiu errado. É melhor vocês saírem correndo garotos, antes que eles cheguem aqui. – mas nesse momento, o
primeiro dos cidadãos estava saindo das casas. – tarde demais.
- Ainda não. – disse Brant, pegou o graveto das mãos de Morte, e saiu correndo em direção ao lugar em que as trilhas de bebida se dividiam. Ele ouviu
Fred gritando atrás dele, mas não deu bola para aquilo. A culpa havia sido dele, a trilha da direita era a de responsabilidade dele, a falha era dele, e ele não
deixaria que isso estragasse nada, não importando qual o preço que isso custasse.
Chegando ao local em que as trilhas se dividiam, percebeu que tinham falhado em se juntar por somente alguns centímetros. Ele baixou a tocha em
direção ao chão, e a trilha se acendeu, e percorreu o seu caminho. Tudo pareceu ocorrer em velocidade reduzida. O fogo seguindo a trilha, chegando à pilha de
barris, a pilha explodindo, o fogo lentamente subindo pelo ar, e a fumaça negra, logo atrás. Então a estrutura do pilar começou a ruir, e os pedaços começaram a
cair, sendo que os mais próximos da explosão foram atirados em diversas direções, um deles na de Brant.
Ele viu o destroço do tamanho de um rato selvagem voando em direção a ele, mas não houve tempo de se esquivar. O pedaço se chocou com a sua
testa, e então a escuridão.

22
Cogumelos
Fred
Ele não podia acreditar na sorte que eles estavam tendo. Do anoitecer do dia anterior, ele passou de uma vida praticamente pe rfeita, a um desastre
completo.
Naquele exato momento, eles tinham um Brant desacordado com um enorme corte acima da sobrancelha que estava sangrando, (sendo que eles não
tinham nenhum conhecimento médico) Morte tinha sumido, e, também constatou Fred que possivelmente eles não iriam mais retornar para casa,
provavelmente nem iriam conseguir atravessar a região das montanhas. Eles estavam em uma pequena trilha cercada por duas encostas cobertas de pedras de
diversos tamanhos, mas pelo menos eles tinham comida. Depois de Taylor ter pedido uma pausa, pela terceira vez, pois os dois já estavam cansados de carregar
Brant pela trilha tortuosa que seguia em direção as montanhas, eles pararam.
- Deixe-me ver que suprimentos nós temos – disse Fred – passe-me a bolsa.
Taylor alcançou a bolsa para Fred, e ele despejou o conteúdo no chão. Analisando aquilo ele não ficou feliz com a situação. A comida duraria no máximo
três dias, a água talvez um pouco mais. O problema era que a travessia demorava cerca de seis dias. Eles teriam que passar por um aperto. O que mais o estava
preocupando agora era o fato de que eles não tinham nenhuma roupa para passar a noite, e nas altitudes das montanhas, não importava a época do ano,
sempre nevava. Eles só tinham uma opção, que era...
- Nós temos que ir pelo vale. – disse Taylor, e Fred deduziu que ele estava pensando na mesma coisa – não há outra alternativa.
Fred estremeceu ao o ouvir falando no vale. O vale era um dos lugares mais perigosos segundo histórias que ele e Brant ouviram quando pequenos. Na
verdade, as mães diziam para os filhos que iriam deixa-los sozinhos no vale caso não se comportassem. Mas Fred sabia que isso não era verdade, pois ninguém
teria coragem de ir até o vale, ainda mais para deixar uma criança lá. Segundo as histórias, o vale era povoado pelas mais obscuras criaturas das trevas, e lá, a
carnificina é tanta entre as próprias criaturas, que muitas vezes elas chegam a atacar as próprias caudas, por perceberem um movimento atrás de si mesmas.
Segundo essas mesmas histórias, ninguém sobrevivia para contar histórias, nem mesmos os mais hábeis guerreiros, os mais poderosos magos, e nem os
mais ligados á natureza, descendentes das antigas raças. Fred somente estava interessado em saber quem é que contava estas histórias, já que ninguém
sobrevivia.
Ele estava para falar alguma coisa para Taylor quando percebeu que Brant estava acordando, embora o sangramento não tivesse parado ainda. Ele
rapidamente ajudou Brant a se sentar, e lhe deu um cantil com água.
Brant tomou alguns goles da água, mas se engasgou e tossiu, empurrando o cantil para longe.
- Você está bem? – perguntou Fred, com um tom de preocupação – quer dizer com exceção a esse corte enorme na sua testa.
- Eu pareço bem? – respondeu rispidamente Brant. Ele sabia que Fred somente estava querendo ser simpático e atencioso, mas a sua cabeça, bem
como a lateral de seu corpo estavam doendo muito. Na verdade, no tom de voz de Fred, Brant percebeu certa presença do rei. Ele até podia não ser filho de
sangue do rei, mas era totalmente filho de criação. – Olha, desculpe. Mas é que o meu dia está sendo um verdadeiro desastre.
- O de todos nós. – respondeu Taylor – e agora?
- Agora o que? – perguntou Brant.
- O que vamos fazer agora? – disse Taylor – Fred e eu estávamos discutindo isso agora.
- Realmente – interveio Fred – e nós acabamos decidindo que o vale era a melhor opção.
Fred observou a concentração no olhar de Brant. Ele deveria estar pensando a mesma coisa que ele: eles não sobreviveriam.
- Que horas vocês acham que devem ser? – perguntou Brant.
- Aproximadamente meio dia. E considerando-se que estamos nas montanhas, eu diria que temos cinco horas e meia, mais ou menos, antes do
anoitecer. – respondeu Taylor, e antes que Brant pudesse interromper, completou – mas eu acho que deveríamos comer algo antes de prosseguir viagem.
- Quer dizer que eu fiquei desacordado por horas? – quando os outros afirmaram com um aceno de cabeça ele continuou – então vamos comer. Afinal a
viagem até a entrada do vale demora cerca de três horas, e depois teremos um tempo para localizar algum lugar para passar a noite. O que temos para comer?
- Frutas – disse Fred, abrindo o saco de suprimentos para pegar algumas. Para começar, ele escolheu três enormes peras, e deu uma para cada um.
Depois de comidas as peras, ele pegou uma maçã e dividiu-a ao meio, dando metade para Brant e a outra metade para Taylor.
- E você? – perguntou Taylor, percebendo que ele havia ficado sem uma metade.
- Nós temos de começar a racionar, então, um de cada vez, fica sem uma metade. Não é muito, mas já é um começo. Caso seja necessário, podemos
racionar mais, diminuindo para uma fruta, depois meia e assim por diante.
- E com isso você planeja que tenhamos água por mais quantos dias? – perguntou Taylor.
- Cerca de cinco dias. – respondeu Fred – mas eu acho que poderemos achar algo para comer por aqui. Na verdade como nós não adentramos as áreas
das montanhas ainda, podemos talvez achar alguma árvore frutífera. Pra falar realmente a verdade eu nem sei realmente bem ao certo onde estamos.
- Pois eu sei – disse Brant.
- E como? – perguntou Fred – você esteve desacordado todo o tempo da saída da cidade até agora.
- É que eu tenho isso – respondeu Brant, tirando o mapa do bolso.
Brant abriu o mapa em cima de uma pedra, e os outros dois se ajeitaram, podendo assim ver o mapa.
- Muito bem. – começou Brant – a primeira coisa que temos de saber é onde estamos, e depois, teremos de saber para onde vamos. – olhando para
Fred, Brant perguntou – nós já passamos por uma pedra com a forma de uma cabeça de cão?
- O que? – disse Fred – eu não acredito! Você realmente acha que eu fiquei prestando atenção na forma das rochas? Eu estava mais preocupado em
carregar um idiota desacordado.
- Espere, espere – disse Taylor antes que Brant pudesse dizer algo – eu acho que já vi estas pedras. E olhando bem para o mapa – completou –
passamos também por estas três árvores e por aquela trilha que vai para o vilarejo de agricultores, mais acima nas montanhas.
- Como você sabe? – disse Fred.
- É por que – respondeu Taylor – a primeira vez que nós paramos, foi ao pé de três árvores, que eu imagino que sejam essas aí. E a segunda vez que nós
paramos, pelo que me lembro, foi perto daquelas amoreiras, que tinham alguns frutos, e enquanto você comia as poucas que havia – Brant olhou para Fred
como se dissesse “está explicado o porquê da meia maçã a menos” – eu olhei ao redor, e percebi o que parecia ser a entrada para uma pequena trilha não muito
usada. E com base nisso, eu acho que estamos aqui. – terminou ele, pondo o dedo no mapa, em um ponto específico.
- Isso é ótimo! – exclamou Brant – porque agora, nós temos uma alternativa àquelas intermináveis horas de caminhada.
- Como assim? – indagou Taylor – por acaso você tem algum meio de transporte mais rápido? Ou que, pelo menos, evite que tenhamos que caminhar?
- Não, – respondeu Brant – mas eu tenho algo muito melhor. Em vez de seguirmos pela trilha do mapa e contornarmos essa enorme encosta, o que
demorariam horas – ele fez uma pausa para criar um suspense – nós podemos seguir uma trilha que não está nos mapas e que os mercadores dos magos me
ensinaram quando eu era pequeno.

23
- E por onde passa essa trilha dos mercadores mesmo? – perguntou Fred, lembrando-se de quando eles eram menores e Brant ficava perguntando para
os mercadores como eles faziam para chegar até as cidades no reino do sul. Fred nunca se interessou muito por isso, pois ele nunca foi do tipo aventureiro, e
como ele seria rei, usaria estradas oficiais para visitar outros reinos, e não trilhas lamacentas de difícil acesso.
- A há! – disse Brant – eu sabia que você iria se lembrar das conversas dos mercadores. Mas voltando ao assunto, o acesso á trilha fica escondida atrás
de alguns espinheiros venenosos, entre duas enormes pedras, que se eu não me engano – ele levantou e saiu andando normalmente, como se sua cabeça não
estivesse sangrando. Fred e Taylor levantaram-se também, ajuntando as suas coisas e o seguiram, por alguns metros onde uma curva na trilha escondia o que
vinha a seguir – aqui está!
Depois da curva, havia uma parede de grossos cipós verdes, cheios de espinhos roxos. Fred não entendia muito de botânica, mas tinha certeza de que
caso se arranhasse em um daqueles espinhos, teria uma morte lenta e dolorosa. Na verdade, aqueles cipós pareciam rijos demais para haver uma passagem
para alguma trilha secreta por lá.
- E agora? – perguntou Fred para Brant – como é que vamos acessar a trilha?
- Segundo o que me lembro das histórias dos mercadores, - respondeu Brant, entregando o mapa para Taylor – algum desses cipós, quando puxado,
libera o sistema que trava os demais em forma de cortina, e abre a passagem. Só que eu não me lembro de qual deles é o correto.
- Fácil – disse Fred – é só puxar um de cada vez.
- NÃO! – gritou Brant, mas já era tarde demais. Fred puxou um dos ramos do cipó, que cedeu. O cipó caiu no chão, ficando com uma ponta pendurada
na mão de Fred.
- Por que... – Disse Fred, mas não terminou a frase. O cipó que estava parcialmente caído no chão ganhou vida inesperadamente se enrolando no braço
de Fred. Com o susto, Fred acabou caindo contra o restante da barreira de cipós, e outros começaram a se enrolar por seu corp o. Eles pareciam
verdadeiramente cobras não peçonhentas, que matam sua vítima por esmagamento. Por sorte, percebeu Brant, um dos cipós que foram arrancados por Fred
era o correto para abrir o caminho, o que acabou evitando que todos os cipós do bloqueio se enrolassem nele.
- Não se mexa Fred! – disse Brant, vendo que os cipós estavam cobrindo quase totalmente seu primo, com exceção do rosto e de parte dos pés. –
quanto mais você se mexer, mais apertado vai ficar. E caso fique mais apertado, os espinhos irão se fincar na sua pele. E voc ê não vai querer isso. Essas são
Daninhas de Sangue. Com apenas alguns arranhões, você pode ficar totalmente paralisado por dias, ou mesmo morrer por parada respiratória.
- E como você sabe disso? – perguntou Fred pelo pequeno espaço que ainda restava para a sua boca.
- Eu prestava atenção nos mercadores.
- E o que você sugere que eu faça? – disse Fred entredentes, se movendo o mínimo possível.
- Eu – começou Brant, ficando nervoso – eu acho que vou tentar aquecer as plantas para ver se elas largam você. – e se abaixou próximo a Fred, pondo
as mãos próximas aos ramos das Daninhas. Concentrando-se, ele imaginou as moléculas dos baraços se movendo e consecutivamente se aquecendo. Mas parou
quando Fred deu um gemido.
- Pare, pare, – disse ele – elas não estão gostando nada disso. Estão apertando cada vez mais. E, além disso, está ficando quente aqui dentro. Não da
simplesmente para cortar os baraços?
- Não. Eles vão soltar um líquido pegajoso que não vai mais desgrudar de você – disse Brant – e o que vamos fazer agora?
- Eu tive uma ideia. Observem. – disse Taylor então ele se abaixou, e com uma pequena faca, ele fez um corte na horizontal em um dos baraços. Dele
saiu uma seiva verde com aparência pegajosa. – O principal componente do corpo de quase todos os seres vivos é a água. E como Fred é um especialis ta em
água...
- Tecnicamente – disse Fred – você quer dizer que eu deva tentar controlar a água da planta para fazer com que ela relaxe e me deixe sair?
- Na verdade o que eu tinha em mente era um pouco diferente – respondeu Taylor – Se você se concentrar em fazer com que a água deixe o corpo da
planta pelos poros, ela iria ressecar, e assim, ela vai se quebrar quando você forçar.
- Ok, eu vou tentar – disse Fred. Ele tentou imaginar a água que estava dentro da planta, e comparou-a a água de um rio, represada. Imaginou também
essa água rompendo as barreiras, e sentiu a humidade se espalhando por todo o seu corpo. Porém ele continuou imaginando. Imaginou que aquela água dos
rios furiosos continuou o seu percurso, levando pessoas indefesas junto com elas. Imaginou essas pessoas se tornando parte do rio também, se juntando ao
montante de água. Imaginou...
- Fred! – exclamou Brant – isso é maravilhoso!
Fred parou de imaginar. Abriu os olhos e percebeu que havia algo olhando para ele. Algo não, alguém. Uma pequena forma de soldado com cerca de
cinco centímetros de altura, feito de água estava olhando para ele, de cima dos baraços agora secos, na altura do seu peito. Fred forçou os braços, espantado, e
partiu todos os baraços que estavam o prendendo, e com isso se sentou, derrubando o pequeno soldado de água.
Olhando bem ele percebeu que o soldado que estava ali, agora se levantando era nada mais, nada menos do que o soldado que ele tinha imaginado
sendo levado pelo rio. Ele avançou com a mão para o pequeno soldado, mas quando a ponta dos seus dedos tocou o soldadinho, ele se desfez, espalhando
aquela pequena quantidade de água pelo solo pedregoso.
- Mas... – disse Fred perplexo – o que foi isso?
- Eu acho que foi você quem fez isso. – disse Brant – assim como eu fiz a esfera de calor.
- Sabe – disse Taylor – esses soldadinhos até que seriam bem úteis.
- Seriam extremamente úteis – disse Brant, ceticamente – se tivessem cinco metros de altura e pesassem três toneladas.
- Eles já são história – interrompeu Fred – é melhor nós seguirmos em frente.
- Tudo bem – disse Taylor – mas primeiro eu quero fazer uma coisa. – e se encaminhou em direção aos restos da planta, que recolheu com um pequeno
frasco.
- O que você está fazendo? – disse Brant – isso por acaso não pode voltar á vida?
- Provavelmente não – respondeu Taylor com uma leve insinuação de sorriso na cara – e também se ocorrer o que eu estou planejando quando se
misturar água... Bem, nunca se sabe.
- Ok, então vamos – disse Brant, se virando para continuar pela trilha agora revelada, mas ao olhar pela nova trilha, parou imediatamente.
- O que foi Brant? – indagou Fred – parece que viu um fantasma.
- Droga! – exclamou Brant – como eu não me lembrei disso antes? – ele se virou de volta para os outros dois garotos e disse – muito bem, me escutem
com atenção. Peguem qualquer pedaço de pano que vocês tiverem e tampem a boca e o nariz, de modo que nada passe.
- Mas por quê? – perguntou Taylor – algum problema com a trilha?
- Um enorme. – respondeu Brant – ou melhor, bem pequeno. Este é um dos outros motivos pela trilha não ser utilizada. Lá crescem cogumelos
alucinógenos. Respirar uma quantidade bem pequena do pó que eles liberam pode te causar alucinações, mas respirar uma grande quantidade pode colocar
uma pessoa adulta em coma alucinógeno pelo resto da vida, dure esta quanto durar. E o pior: você nem vai saber o que é realidade e o que não é. E acredite, eu
sei por experiência própria.

24
- Experiência própria?
- Sim. – Brant estava agora recordando alguns anos atrás – um mercador ambulante me deu uma fruta para experimentar. Mas a fruta estava coberta
com o pó proveniente desses cogumelos. Aí eu apaguei, e quando me dei por mim de novo, o sujeito tinha escapado com as moedas que eu tinha no bolso.
- Chocante – disse Fred com sarcasmo.
- Muito hilário de sua parte Fred – respondeu Brant – mas lembrem-se: não tirem os panos de maneira alguma.
- Sim capitão! – falou Fred ironicamente. Ele, assim como os outros arrancou uma das mangas da camisa para poder tapar as vias respiratórias. Brant
ainda disse:
- A trilha tem cerca de cem metros, e termina numa pequena encosta de três metros, com diversas amoreiras que nessa época do ano devem ter alguns
frutos – e olhou para Fred – que TODOS nós vamos comer – pondo certa ênfase no todos, ele se virou e continuou pela trilha. – a sim e antes que eu me
esqueça, depois de chegarmos, se eu me lembro, do que representava o mapa, haverá um rio, e logo depois do rio é a entrada do vale. Então ao chegarmos ao
rio vamos montar acampamento. Entendido? – como nenhum dos outros respondeu, ele tomou essa iniciativa como uma afirmação.
Eles não haviam andado nem cerca de dez metros, quando avistaram os primeiros cogumelos. Pequenos cogumelos, roxos e am arelos, vermelhos e
verdes, somente laranjas, e diversas cores, além disso. Os cogumelos não passavam de cinco centímetros, mas também não eram menores de dois. Eles estavam
juntos em pequenos grupos coloridos, crescendo entre as pedras, onde havia umidade, porém ainda esparsos. Deles também exalavam pequenas nuvens de
poeira amarela, que com toda a certeza eram a substância alucinógena. Brant olhou para trás e percebeu que Taylor estava se aproximando de um
agrupamento, com um pequeno frasco, provavelmente para coletar algum deles, e pensou “esse aí vai se meter em encrenca ainda”.
Fred não estava gostando. Parecia que aquele pedaço de pano o estava sufocando, e ele sabia que isso era quase como um chamado dos cogumelos.
Na verdade ele podia os ouvir falando na sua cabeça “somente respire, tudo vai ficar bem” com uma voz sinistra. Foi quando ele avistou o cogumelo mais bizarro
que ele já havia visto. Ele estava em uma altura de cerca de três metros, na fenda de uma rocha. Ele era verde na parte superior, e na parte inferior, laranja, e o
tronco azul. O formato de sua cúpula era como as folhas de uma palmeira. Na verdade ele era quase exatamente igual a uma palm eira. Uma bizarra palmeira
laranja e azul.
Fred tentou pular para alcançar o cogumelo, para pegá-lo e poder analisar ele mais de perto. Como não alcançou, resolveu escalar por algumas das
pedras que haviam por ali. Subiu se agarrando com as mãos e empurrando com os pés por cerca de um metro e meio, e dali ele já ficava cara-a-cara com o
cogumelo-palmeira. Ele agarrou-o com uma das mãos, e quando foi descer, uma das pedras na qual ele estava apoiado se soltou, e ele caiu.
Ao se chocar com o chão, ele soltou o cogumelo, e o lenço que estava no seu rosto se soltou, indo para a uns trinta centímetros dali. Quando ele olhou
para o cogumelo caído no chão ainda rolando, ele, quase que como vingança, soltou uma nuvenzinha de pó na cara de Fred.
Fred acabou respirando aquela nuvenzinha, e se engasgou com o pó seco. Virou para lado para tossir e viu Brant se virando para ver o que tinha
acontecido. Viu também ele sair correndo em sua direção. E então ele se lembrou de um acidente muito similar que tinha acontecido quando ele era menor, e
quando a mulher do rei ainda estava viva. Na verdade ela estava correndo em sua direção agora, e ele tinha de novo nove anos, e de novo ele tinha acabado de
cair de uma árvore.
Ele estava tentando pegar uma maçã para o seu irmãozinho recém-nascido, em uma macieira que ficava próxima às piscinas, mas o galho se partiu, e
ele despencou. O joelho tinha se ralado um pouco, mas nada grave. Porém ele começou a chorar em altos prantos, para que algué m visse e pensassem que ele
era um menino maravilhoso por ter tentado pegar uma fruta para o filho da bruxa. Bruxa sim, por que ela ocupara o lugar de sua mãe se casando com o rei e
agora ela pensava que podia mandar nele? E quem justamente apareceu naquele lugar? A bruxa. Tinha que ser ela novamente. E provavelmente ainda iria
querer dar uma bronca nele, por ter quebrado o galho da macieira. Ela se aproximou e se ajoelhou próxima a ele.
- Oh Fred! – disse ela, com ternura na voz – o que você estava tentando fazer? Você sabe que o seu irmãozinho ainda não come nada, muito menos
maçãs!
- E o que você tem a ver com isso sua vaca! – gritou Fred. – você roubou o meu pai e acha que tem o direito de mandar em mim?
- Oh! – Fred já estava começando a achar que ela só sabia começar uma frase desse jeito. Mas a cara de ofendida dela já lhe satisfez demais. – como
ousa rapazinho! Não lhe deram educação?
- Deram, mas eu já cansei de você – disse ele, olhando com raiva para ela. Sentiu toda a água que havia nas piscinas ao redor, e sentiu o poder que
vinha com ela. E como em uma mágica ele deixou a sua raiva agir por ele, e então, uma enorme parede de água se formou em uma das piscinas atrás da rainha,
e caiu sobre eles, arrastando ela para a piscina. Fred sabia que ela sabia nadar. Por isso resolveu dar uma ajudinha e fazer a água empurrá-la para baixo. Ela
tentava vir à tona, mas quando um de seus braços aparecia, Fred a forçava para baixo. Se aproximando da beirada da piscina, um braço emergiu da ág ua e o
puxou para baixo por uma das pernas. Mas era um braço sem vida, mole e flácido. Havia somente mais um problema: Fred não sab ia nadar. Ele sentiu que
começava a afundar e não havia nada que ele pudesse fazer. O ar já lhe estava faltando dos pulmões, e a visão já estava escur ecendo. Foi quando sentiu um
pequeno braço passar ao redor do seu peito e o levar para cima. Não chegou a ver a luz, pois desmaiou antes de chegar à superfície.
Quando voltou à consciência, Brant estava encolhido, todo molhado escorado na macieira, guardas o cercavam, preocupados, o re i estava com um
olhar vazio caído de joelhos a poucos centímetros do corpo branco e sem vida da esposa, e o bebê, rosado, estava no colo de uma das empregadas.
Fred se sentou tossindo e informou aos guardas que estava bem e que eles deveriam cuidar do rei. Ele não sabia que guardas qu e eram aqueles que
deixavam uma criança recém-saída de um quase afogamento sozinha, mas eles o deixaram e foram ver como estava o rei. Fred se levantou e foi falar com Brant:
- Você viu? – perguntou – quero dizer, o que aconteceu realmente?
Brant somente acenou com a cabeça. Ele estava assustado, provavelmente com medo de Fred. Fred aproveitou e se abaixou o suficiente para cochichar
no ouvido de Brant:
- Ninguém nunca deve saber disso, você entendeu? – novamente Brant somente acenou com a cabeça – você me promete?
Então algo inesperado aconteceu. Brant Gritou “ACORDA”, e lhe deu um tabefe na bochecha esquerda. Fred ia reagir, quando percebeu que as coisas
ao seu redor estavam começando a desaparecer. A voz de Brant dessa vez soou mais distante, como se estivesse em um túnel.
Fred piscou mais uma vez e tudo clareou. Ele ainda sentia as roupas molhadas, e certa dificuldade em respirar. Ele sentou de sobressalto e percebeu
que não estava mais no palácio, na área das piscinas. Ele estava sentado na margem de um rio, com Brant todo molhado á sua direita, ofegante e com um olhar
de preocupação. Ele logo entendeu o porquê da preocupação.
Cerca de cinco metros atrás, Taylor estava com o escudo em uma das mãos, e o machado de Brant na outra, se defendendo de uma versão enorme do
seu guerreiro de água, que estava equipado com uma lança desta vez. O guerreiro estava parado no meio de um golpe, parecendo que estava esperando uma
ordem. Fred percebeu também que estava ligado ao rio por um filete de água, e que o rio estava ligado a ele também por um fino filet e de água. Quando ele
rompeu o filete que o ligava ao rio, o guerreiro de água se desfez. No mesmo instante, Fred pensou que voltaria para a inconsciência. Ele viu o mundo ao redor
dele girar e escurecer, mas ele logo estabilizou e voltou ao normal.
Quando se estabilizou novamente ele pode perceber melhor o terreno ao redor. A sua frente havia um rio. Além do rio havia um enorme rochedo, com
uma estreita passagem no meio, que era o inicio do vale, mas também era o início das áreas montanhosas.

25
Atrás dele e de Brant, havia diversas amoreiras, algumas com frutos, outras não. Ele presumia que o fim da trilha secreta se localiza por ali. À direita,
além de onde Taylor agora sentado, descansava da batalha com o gigante de água, uma trilha maior chegava, e ele imaginava que aquela era a estrada principal.
E à esquerda, ficava a nascente do rio, ou pelo menos de onde ele brotava de entre as pedras.
- Antes de qualquer coisa – falou Taylor – eu quero dizer que o próximo a ser carregado sou eu. – e deu um leve sorriso que foi acompanhado por Brant.
- Mas o que aconteceu? – perguntou Fred.
- Nada de mais. – disse Brant – mas eu prefiro lhe contar quando chegarmos ao abrigo mais próximo. De lá nós teremos tempo para tudo isso.
- Ótimo – disse Taylor, indo pegar o mapa de dentro da bolsa de suprimentos – e o abrigo mais próximo fica... – ele fez uma pausa para verificar o mapa
– ali – e indicou uma posição logo acima da nascente do rio, que parecia uma caverna apertada, mas que deveria ser muito maior por dentro do que parecia por
fora.
- Só espero que não haja ursos aí – disse Brant.
- Com a nossa sorte? – disse Fred - provavelmente essa é a caverna do Yéti.

26
O Ataque da galinha do mal
Brant
A entrada da caverna era apertada, mas como ele tinha imaginado, a parte interna era muito espaçosa. Era uma caverna comum, com diversas
estalagmites no chã e respectivamente acima delas, diversas estalactites, de formação calcária como era de se esperar. E melhor ainda: não havia nenhum
abominável homem das neves! No centro da caverna, havia sinais de ocupações anteriores, pois um círculo de pedras negras estava disposto, de maneira que,
Brant logo percebeu, formavam um local perfeito para posicionar uma fogueira. Até uma concavidade no teto, que formava uma sa ída para a fumaça, impedia
que os ocupantes morressem sufocados. Na verdade no momento a única coisa de que eles estavam precisando era de madeira. Taylor disse que havia visto
umas amoreiras secas que provavelmente serviriam para fazer fogo. Então ele foi buscá-las, dando tempo para Brant e Fred conversarem sobre o que
aconteceu.
- Mas Brant, - falou Fred, meio cansado – por que você não quis falar sobreo que aconteceu lá fora?
- Por que eu acho que esta é uma questão para nós dois conversarmos em particular. Algumas das coisas que você disse enquanto estava delirando... –
interrompeu para engolir em seco – eu tinha bloqueado isso, mas agora eu lembrei.
Fred deu uma estremecida. Ele esperava que não fosse o que ele estava pensando, mas ele tinha quase certeza de que era exatamente isso.
- Mas o que realmente aconteceu? – interrogou ele com medo da resposta.
- Tome eu acho que isso lhe pertence – disse Brant lhe entregando o cogumelo-palmeira-laranja-azul. Fred o pegou receosamente. – Não se preocupe,
ele não tem mais pó para soltar. Então, do que você realmente lembra?
- Eu me lembro de quando caí que o lenço se soltou do meu rosto. Lembro-me também de quando o maldito cogumelo soltou o pó, e que eu engasguei
com ele. Depois disso eu vi você correndo em minha direção, e depois, lembro-me da rainha correndo em minha direção, e que eu tinha nove anos e...
- Tudo bem – interrompeu Brant, - a partir daí tudo já é ilusão. Quando você caiu, eu escutei o baque e me virei, ainda a tempo de ver você sugar toda
aquela quantidade de pó. Depois você começou a convulsionar no chão, com espuma correndo de sua boca e etc., eu não quero entrar em detalhes. Bem, Taylor
me ajudou a te recostar em uma pedra próxima. Enquanto ele pegou um pouco de água em um dos cantis, eu te posicionei para beb er a água. Taylor tentou
forçar você a tomar um pouco da água, mas estava difícil, e você estava começando a ficar agitado. Foi então que eu me lembrei do rio próximo. Juntos nós te
carregamos. Até próximo ao rio, mas nesse ponto você já estava borbulhando de raiva, e dizendo um monte de coisas. Taylor perguntou o que aquelas coisas
queriam dizer, e eu lhe disse que não sabia, e que deveriam ser coisas da ilusão. Mas eu sabia exatamente o que eram. Lembranças.
- O que exatamente eu falei? – perguntou Fred.
- Não vem ao caso agora. – falou Brant bruscamente – nós podemos discutir isso depois, o que interessa agora é terminar a história. Retomando, você
estava aparentemente com muita raiva, então, como você não tomava água, resolvemos forçar você a isso, e esse foi o nosso maior erro. Quando pusemos você
na água, sua cara mudou de raiva para medo. Parecia que você estava sabendo o que estava acontecendo. Mas quem realmente ficou com uma cara de
completo horror foi Taylor. Ele empalideceu, e ficava apontando para trás de mim, sem dizer nada. Eu me virei vagarosamente, sem fazer movimentos bruscos.
E lá, eu vi um enorme soldado de água formando-se a partir do rio. Daquele momento em diante foi uma confusão. Eu dei meu machado para Taylor, para que
ele pudesse atacar e se defender ao mesmo tempo. Com as duas mãos livres, eu tentei formar aquelas esferas de calor. Mas quando eu as atirava no soldado,
ele simplesmente evaporava onde havia sido acertado, e se regenerava a partir da água. E a cada esfera eu ficava mais fraco. Então eu pedi para Taylor me
defender enquanto tentava te acordar. Ele fez um trabalho incrível, e eu acho que o resto você já sabe.
- Uau! – exclamou de espanto Fred – eu não sabia que era tão poderoso.
- Pois eu acho que você sabia sim. Na verdade você somente não lembrava, mas acho que você lembra agora. – falou Brant com um olhar sério.
Fred gelou o sangue. Então era verdade. Ele tinha falado em voz alta durante delírio, e Brant também se lembrava de tudo. Ele tinha muitas desculpas a
pedir.
- Olha Brant – começou Fred – eu sinto muito. Eu não sabia o que estava acontecendo – as lágrimas já estavam chegando aos seus olhos – a culpa é
toda minha. Ela sabia nadar. Fui eu!
- Eu sei – disse Brant – e eu não estou julgando você. Na verdade o único que pode realmente se julgar é você mesmo. E também é o único que pode se
perdoar.
- Ei pessoal – disse Taylor da entrada da caverna, com um punhado de gravetos nos braços – eu detesto interromper um momento comovente como
esse, mas nós temos problemas enormes.
- Não me diga que... – Brant pensou logo no Yéti – não é o Yéti, não é mesmo?
- Não, ou pelo menos eu espero que não, – disse Taylor pensativo. – mas nós estamos sendo seguidos.
- O quê? – perguntou Brant – mas eu pensei que nós tínhamos bloqueado a saída da cidade.
- Só que não são as pessoas da cidade. – ele fez uma pausa – venham ver vocês mesmos.
Fred e Brant se encaminharam para a entrada da caverna, onde Taylor os estava esperando. Quando chegaram ao lado dele, ele os indicou um lugar
pouco abaixo de onde estavam, e lá, estava o seu escudo de ouro.
- Olhe pelo reflexo, mais ou menos entre aquelas duas pedras. - e realmente, o escudo funcionava como espelho. Mas ainda assim era difícil visualizar,
por que a imagem se tornava desfocada. Olhando com atenção, porém, Brant conseguiu visualizar. Entre duas pedras, log acima d eles, tinha alguém, que, pelo
tamanho não deveria ter mais de quinze anos.
- Ah não! – exclamou Fred – nós temos de sair daqui agora.
- Por quê? – perguntou Brant – quem pode ser aquele?
- Ele é um dos bárbaros das montanhas. Meu pai – Fred parou antes de continuar – quer dizer, o rei capturou um quando eu era menor, e o levou para
interrogatório. Eles se vestem todos da mesma maneira. E eu presumo que eles estarão aqui ao amanhecer amanhã.
- Mas nós não podemos deixar esta posição! – exclamou Brant – À nossa frente somente o vale, e nós não podemos voltar.
- Então o que você sugere que façamos? – perguntou Fred.
- Nós devemos fazer com que eles tenham medo de nos atacar. Ajeitem a fogueira para quando eu voltar – e saiu da caverna, fazer uma concha com as
mãos e preparando uma esfera de calor. Quando conseguiu visualizar o ponto Onde o bárbaro estava escondido, mirrou em uma das pedras das quais ele estava
atrás e atirou a esfera. Ele realmente estava ficando bom nisso. A esfera atingiu a pedra que ele desejava, fazendo com que a superfície da pedra ficasse negra.
O garoto, que Brant tinha certeza agora que era um garoto, saiu correndo por entre as demais rochas, e desapareceu em uma fenda entre duas rochas.
Brant voltou para a caverna e percebeu que realmente os outros dois haviam arrumado uma fogueira, muito boa por sinal. Eles i riam precisar disso,
afinal, a temperatura estava caindo drasticamente.
- Pronto – Disse Brant – acho que eles não nos incomodarão mais.
- Está feita a fogueira. – disse Fred – nós só precisamos de uma mãozinha. – completou indicando com a cabeça as mãos de Brant.

27
- Ah sim, claro – disse Brant, mas tentou uma coisa nova além do convencional. Em vez de tentar produzir uma esfera de calor para pôr fogo naqueles
gravetos, ele imaginou os gravetos entrando em combustão automaticamente. E funcionou. Brotou dos gravetos, primeiro calmamente, depois com voracidade,
um belo fogo.
Os três se sentaram ao redor da fogueira, e Fred abriu o saco dos mantimentos, distribuindo assim, uma fruta e meia para cada um. Depois de
comerem, permaneceram em silêncio por um bom tempo. Nas montanhas, escurecia cedo. A noite já estava caindo quando Brant disse:
- Eu acho que devemos descansar um pouco, afinal temos um longo dia pela frente. – olhando para a entrada da caverna, ele completou – quem é o
primeiro a ficar de guarda?
- Eu – disse Fred. Ele sabia que não conseguiria dormir direito aquela noite, e achava melhor esperar o cansaço vir para poder tentar algo. – podem
dormir. Eu vou vigiar da entrada da caverna.
Dito isso, ele se levantou de onde estava sentado e se encaminhou para a entrada da caverna, de onde poderia ter uma vista muito melhor da entrada
do vale e do que poderia sair por ela.
Sentou-se de costas para a caverna, de gente para o riacho, e observou a estrada geral, que subia as montanhas. Ele imaginou um exército de selvagens
descendo por ali para ataca-los. Mas era melhor não pensar muito nisso, pois alguns dos pensamentos podem se tornar realidade. Ele se virou bruscamente ao
perceber um movimento ao seu lado, mas era somente Brant.
- O que está fazendo aqui? – perguntou Fred – você deveria estar descansando! O seu turno vai ser qual?
- O último – respondeu Brant – mas nós precisamos conversar. Fred, o que aconteceu lá, não foi somente um acidente.
- Olhe, eu sei. - interrompeu Fred – Você acha que eu não sei né? Porém eu sei que não foi acidente. Foi proposital. Foi um descontrole. Se eu pudesse
voltar no passado eu jamais faria aquilo de novo, por que eu me arrependi, e vou sempre carregar este peso na consciência.
- Não era sobre isso que eu queria falar – disse Brant olhando com profunda tristeza nos olhos de Fred.
- Não – Fred parecia surpreso.
- Não, não era – Brant parecia envergonhado em fazer isso – mas você não deve se envergonhar em ter escondido a história todo esse tempo. Eu
também escondi. Na verdade, eu queria mesmo era falar sobre essa questão dos poderes. – a pele da nuca de Brant se arrepiou quando ele falou aquelas
palavras. – Cada minuto que passa, nós ficamos mais poderosos. Aquilo ocorreu por impulso, quando você mais precisava se controlar, você não conseguiu. E
isso não pode acontecer novamente, não importa o que aconteça.
- Mas nós poderíamos utilizar isso para o nosso próprio proveito! – exclamou Brant – Em uma situação de perigo, isso poderia nos salvar!
- Realmente – Brant parecia pensativo – mas eu ainda acho que deveríamos evitar isso ao máximo. Isso pode não só pôr-nos em perigo, mas a todos os
que conhecemos. – Brant percebeu que aquilo não era a coisa certa para falar. Todos os que eles conheciam naquele momento, estavam ou mortos ou
querendo mata-los. – e outra coisa. Você deve ter percebido que a cada vez que usamos uma de nossas capacidades especiais, isso pesa mais em nossos
ombros. Eu sei que você também sentiu isso, àquela hora em que o gigante de água se rompeu. Por isso eu acho que não devemos abusar demais deles.
- Têm razão. – disse Fred, relembrando aquele momento em específico. – Mas agora vá descansar, o seu dia vai começar mais cedo do que o nosso.
Brant acenou com a cabeça. Ele queria poder entender o que estava se passando na cabeça de Fred. Mas sem outra opção, se dirigiu para o lado oposto
do ocupado por Taylor, se mantendo próximo à fogueira. Deitando-se no chão duro, ele constatou que nem o chão era tão duro, nem ele estava tão cansado, e
por isso seria difícil dormir, e, a próxima coisa que ele constatou, foi Taylor o sacudindo pelos ombros, e dizendo que era vez do turno dele.
Brant levantou-se, com dores pelo corpo todo, e mais cansado do que quando havia dormido. Encaminhou-se para a entrada, onde Taylor tinha ido
pegar seu escudo e a sacola de suprimentos. Chegando lá, ele sentou e se escorou em uma das paredes da entrada da caverna, e percebeu que ela estava
quente, como se alguém recém tivesse estado ali.
- Você estava sentado aqui? – perguntou Brant para Taylor.
- Não, - respondeu Taylor – mas Fred estava.
- Fred? – exclamou surpreso Brant – mas ele deveria estar dormindo!
- Eu lhe disse a mesma coisa, mas ele me disse que ele não conseguia. – então eu lhe dei isto. – Taylor tirou aquele cogumelo que ele havia coletado na
trilha, e Brant constatou que estava faltando um pequeno pedaço. – ele comeu e logo após apagou. Não se preocupe – disse ele após constatar a cara de
espanto de Brant – nem todos os cogumelos de lá são alucinógenos. Este por exemplo, tem poder sedativo. Ele vai dormir por mais umas dez horas. Mas escute
o que há de errado com ele?
- Os cogumelos não o fizeram alucinar, mas sim retornar ao pior lugar do passado dele. – respondeu Brant.
- Deve ter sido difícil – Taylor acenou em direção á ele com a cabeça – mas ele é forte, e vai superar.
- Com certeza – Brant só não tinha certeza se ele iria superar. – Mas vá dormir, que você esta precisando – e precisava mesmo já que estava parecendo
um bagaço.
Brant acompanhou com os olhos enquanto Taylor ia se deitar de um dos lados da fogueira, e foram acidentalmente parar em Fred. Ele mal podia
acreditar como os dois tinham mudado desde o dia anterior. Na verdade, ele imaginava agora o que eles se tornariam no futuro, se teriam um futuro e quanto
tempo esse futuro iria durar.
Ele estava tão cansado que sua única vontade era de olhar para as estrelas, e depois dormir, sem sonhos. Mas ele não podia fazer isso. Pelo menos
parte disso não. Então resolveu olhar para as estrelas e tentar que destino elas lhes reservavam, assim como a velha charlatã que circulava pelos becos obscuros
da cidade dizia fazer. “Sem mais nada para fazer”, pensou Brant. E constatou que podia fazer algo muito importante, e começou a contar as estrelas. Uma, duas,
três, quatro... E não chegou a quinta, pois seus olhos não permitiram. Eles se fecharam, teimando em permanecer abertos.
Então ele escutou uma galinha. “eu devo estar sonhando” pensou Brant. Uma galinha. O que diabos uma galinha estaria fazendo ali. Abriu os olhos
lentamente, pois a claridade estava machucando os seus olhos. Claridade?! Não poderia ser claridade. Mas era. O sol já estava alto, passando por cima das
montanhas. Deveriam ser mais de dez horas da manhã. Brant correu para acordar os outros dois. Eles já deveriam estar na estrada àquela hora do dia, e não
poderiam tolerar atrasos. Atrasos eram iguais a menos suprimentos disponíveis. Sacudindo primeiro Taylor, Brant o acordou e disse para ele ir arrumando as
coisas enquanto acordava Fred. Brant se encaminhou para o lado de Fred, esperando que não fosse difícil acordá-lo, devido ao efeito do cogumelo.
Ele sacudiu Fred pelos ombros, e Fred abriu os olhos assustado em resposta.
- O que foi? – disse ele, e então percebeu que já era dia. – Como? Eu dormi não faz nem dois minutos. Estou acabado.
- Nem me diga – concordou Brant – mas nós temos que ir. Vamos, pegue suas coisas. – e se virou, encaminhando-se para onde ele tinha dormido pela
primeira vez naquela noite, que era também onde ele havia deixado suas coisas. Ele estava coletando suas coisas quando Taylor o chamou:
- Brant você pegou a sacola de suprimentos?
- Não – confuso ele continuou – pensei que ela estivesse com você.
- Estava - mais confuso Taylor tentou se lembrar do que tinha acontecido – na verdade eu tinha deixado ela bem ali. – indicou um canto na caverna, o
qual ainda estava muito mal iluminado para se ver de onde eles estavam. Taylor foi então àquele lugar verificar o que havia ocorrido. Nem precisou chegar
muito perto para ver que havia algo de errado. A sacola de suprimentos não estava mais ali, mas no lugar havia uma pena amarela.

28
- Mas o que é isso? – Taylor estava agora segurando a pena amarela em sua mão.
- Ai não, – disse Brant, percebendo o que havia acontecido. – a galinha. – e saiu correndo em direção á entrada da caverna para ver de onde tinha
ouvido o canto naquela manhã. Parado á entrada da caverna, ele olhava ao redor para tentar localizar o animal.
- Mas que galinha? – perguntou Fred – o que uma galinha tem a ver com o sumiço dos nossos suprimentos?
- Hoje pela manhã, quando eu acordei... – imediatamente Brant percebeu a besteira que estava prestes a fazer, e tentou corrigir – vocês, eu ouvi uma
galinha cantar. Deve ter sido ela quem entrou aqui e roubou a nossa sacola de suprimentos.
- Mas como uma galinha entrou aqui, roubou uma sacola de suprimentos e saiu com ela, sem você perceber.
- É que provavelmente ela era pequena, e deve ter passado despercebida.
- Bem, - Taylor falou – então você está precisando de óculos. Por que aquilo não tem como passar despercebido.
A alguns metros dali, uma enorme ave, se é que podia se chamar aquilo de ave, estava com a sacola deles. A “galinha”, na verdade, era do tamanho de
um leão adulto, e devia pesar a mesma coisa. A pelagem de seu corpo era azul-marinho, ficando levemente avermelhada no pescoço e roxa na cabeça, com um
bico extremamente amarelo. E, o mais estranho, com uma enorme maçã na boca. Aquela era provavelmente a última.
- Ela deve ser extremamente silenciosa, e...
- Silenciosa nada! – explodiu Fred – você dormiu! E agora nós estamos ferrados!
- Por favor – implorou Taylor – não briguem agora. Nesse momento nós precisamos ficar unidos. E além do mais, ainda devem restar amoras suficientes
para passarmos vários dias.
- Olha - disse Brant – eu sinto muito, mas Taylor tem razão. E além do mais, os cantis continuam inteiros. Cada um pode levar o seu, e não passaremos
sede.
- Por mim tudo bem – mas pelo tom de voz agressivo de Fred, Brant deduziu que não parecia estar tudo bem para ele.
Fred tomou a frente, e desceu primeiro, sendo seguido por Taylor, e Brant por último. Ao ver os três, a galinha enorme se assustou e saiu correndo em
direção às amoreiras, o que acabou revelando mais uma surpresa: Ela também tinha comido quase todas as amoras restantes.
- Galinha maldita! - gritou Fred para o nada, e atirou uma pedra em direção às amoreiras, fazendo com que algo soltasse um gemido ao ser acertado
pela pedra. Parece que Fred teria sua vingança, pois acertou a galinha, e a fez sair correndo em direção a eles. Brant pensou que enfrentar uma galinha enorme
e furiosa, sedenta de sangue não era uma das melhores ideias que Fred já tivera, mas era de se supor que também não era a pior.
Ele puxou a espada e esperou ela se aproximar, pronto para decepar o pescoço e descontar a raiva por todas as coisas que estavam saindo erado
naquele dia. Fred não precisou nem dizer, e Brant e Taylor deu maior espaço para ele, pois os dois perceberam que era favorável o pescoço da galinha aos seus.
Fred se preparou para dar o golpe, girou a espada e fechou os olhos, pronto para sentir o impacto. Mas foi esse o seu erro. No último momento a
galinha desviou, e ele somente infringiu um arranhão, pouco mais que superficial dentre as penas da galinha. Quando percebeu o que havia acontecido se virou
e se preparou para o contra ataque, mas a galinha não contra atacou. Pelo contrário, ela fugiu, para a entrada do vale.
Fred não pensou duas vezes. Catou um cantil, encheu de água no rio, e se pôs em corrida atrás da galinha. Aquela galinha tinha feito o seu dia começar
mal, então ela iria pagar a qualquer custo. Nem se preocupou em verificar se os outros dois estariam indo atrás dele, por que ele tinha certeza que sim.
A galinha tinha entrado naquela passagem, então ele também entraria. Quando ele alcançou a passagem, respirou fundo, preparando-se para ver a pior
das cenas que poderia imaginar, com carnificina por todos os lados, esqueletos de animais mortos há muito tempo, e corpos em decomposição, de animais
mortos a nem tanto tempo assim.
Mas o que ele viu o chocou mais do que ele poderia ter esperado. Ele nunca teria podido imaginar uma cena daquelas. Aquela com toda certeza era a
maior surpresa que ele poderia ter tido. Sem exceções.

29
O vale
Fred
Fred realmente não podia acreditar no que ele estava vendo. A passagem de acesso ao vale era uma estreita fenda entre duas enormes rochas, com
cerca de dez metros de comprimento. Além da saída da fenda, já dentro do vale Fred podia visualizar diversas árvores frutíferas. De onde estava ele também
podia ouvir o barulho de água caindo. Fred ficou instantaneamente fascinado por aquela maravilha. O vale não era nada do que ele tinha imaginado cinzento e
morto, com nada mais do que esqueletos e pedras, além é claro de animais ferozes. Virando-se para chamar Taylor e Brant, constatou que eles já estavam atrás
dele, esperando ele atravessar a passagem, para que eles também o pudessem fazer.
Fred então se virou em direção ao vale e começou a andar de lado, para conseguir passar pela estreita fenda. Pé após pé, os t rês atravessaram. Fred
ainda notou que havia sangue em uma das paredes da fenda, que ele supôs que fosse da galinha.
- A galinha veio por aqui – comentou Fred, olhando as marcas de sangue no chão – é só seguirmos a trilha e saberemos onde ela foi.
- Pelos deuses, Fred! – exclamou Brant – você não pode para um pouco e apreciar o lugar?
Fred então resolveu olhar ao redor e reparar como o lugar realmente era. Ele não tinha percebido inicialmente, mas o vale era maravilhosamente belo e
colorido. Olhando ao redor, percebeu dezenas de plantas que nunca tinha visto antes. Árvores enormes e pequenas, com frutos monocolores ou multicoloridos.
Prestando atenção aos sons, percebeu diversos que eram provenientes de pequenos animais silvestres. Naquele momento eles estavam em uma clareira, logo
na saída da fenda. Ao redor deles, predominavam árvores altas, com troncos retos, e sem frutos. Mas por baixo cresciam diverso s arbustos, com frutinhas dos
mais variados tipos e tamanhos, sendo que a maioria eram amoras. Quando viu aquelas amoras vermelhas maravilhosas, foi logo se encaminhando para elas,
mas Taylor o impediu.
- Pare! – gritou Taylor. – Não pegue as vermelhas. Elas são venenosas!
- Como você sabe? – retrucou Fred.
- Olhe para as roxas – explicou Taylor. E realmente, pensou Fred, as roxas estavam todas comidas, ou murchas. – está vendo? As roxas estão comidas, o
que significa que não são venenosas, por que os animais locais sabem que podem comer.
- Tá, mas, - começou Brant – segundo o que eu ouvi dizer, nem tudo o que é toxico para pequenos animais e aves, é toxico para os humanos.
- Exatamente – disse Taylor – mas isso só se aplica ao que elas comeram. O que nem elas comeram, ou é extremamente ruim ou extremamente tóxico.
E as amoras roxas nós já vimos lá fora. Então são saudáveis.
Fred não esperou outra confirmação, e avançou para as amoras roxas. Podiam estar semicomidas, ou então murchas, mas serviriam para matar um
pouco da fome. Brant e Taylor se juntaram a ele, mas as amoras logo acabaram. Resolveram então seguir pela trilha que a galinha tinha deixado de sangue.
A trilha seguia por meio a folhagens. E logo eles saíram do meio das árvores grandes, e entraram numa região em que somente h avia folhagens. Havia
também diversos tipos, desde simples samambaias, até outras plantas desconhecidas, mas que tinham folhas com mais de dois metros de comprimento por um
de largura. O estranho era que eles podiam ver ao longe, cerca de cem metros, outra formação arbórea, com diversas centenas de metros de comprimento, que
parecia ser formada por árvores frutíferas. E mais adiante eles podiam visualizar formações com pinheiros, e outras árvores semelhantes, esta se estendendo
até os olhos perderem de vista.
- Só espero que não haja cobras no meio deste matagal. – comentou Brant.
- Não é um matagal – corrigiu Taylor – é uma formação de folhagens. E pelo que parece ela está meio fora de lugar.
- Por quê? – indagou Brant – por acaso você acha que esse lugar segue um esquema ou algo assim?
- É claro. – Taylor respondeu – Observe as faixas de formação. Primeiro os pinheiros, depois as baixas árvores frutíferas, e depois as Grandes árvores
frutíferas e as plantas rasteiras, também frutíferas. Esse lugar foi se alocando por métodos evolutivos. O único lugar que es tá deslocado é este. Ele deveria se
localizar antes dos grandes pinheiros. Tem algo de errado aqui.
- Não, não há – disse Fred pensativo – esse lugar foi esquecido pelo resto do mundo. Nada aqui evoluiu como lá fora. Eu só acho estranho que ainda não
tenhamos encontrado grandes predadores, e muito menos os herbívoros.
- Na verdade isso tem uma explicação bem lógica – Taylor se intrometeu – como nós ainda não chegamos à área de árvores frutíferas, provavelmente
não deveríamos ver os herbívoros, nem os predadores em caça. Além do mais, os predadores devem estar recolhidos ás suas tocas a essa hora do dia. – olhando
para cima, ele pode constatar que os raios solares incidiam exatamente sobre eles, então era provavelmente meio dia. Calculou também que em menos de
quinze minutos eles poderiam estar almoçando, com as frutas que eles encontrassem na área das árvores frutíferas. Quantas horas de luz você acha que ainda
temos Brant?
- Deixe-me ver – Brant percebeu que provavelmente eles teriam de parar na floresta de pinheiros para passar a noite. O jeito com que os desfiladeiros
se alinhavam e começavam a fechar logo acima daquela floresta, indicava que a luz do dia não incidia ali depois das duas da tarde e nem antes das nove da
manhã, o que significava penumbra ou completa escuridão. – provavelmente menos de três horas. Temos que achar um lugar e nos preparar.
Àquela altura eles estavam chegando aos limites da floresta de frutas, e Taylor ainda observava que o trilho de sangue da galinha continuava naquela
direção. Mas parou de olhar o trilho de sangue no momento em que pisou na clareira na entrada da floresta. Lá haviam pessegueiros totalmente carregados,
com muitos dos frutos já comidos, mas com boa parte intacta. Também havia macieiras e pereiras, com frutos em diversos estágios de maturação, como se elas
dessem frutos o ano inteiro. Além desse também havia enormes variedades de frutas que provavelmente só existiam ali, como por exemplo, algumas que
pareciam com melões, só que listrados de laranja e azul, ou como laranjas amarelas com pintas verdes.
- Uau! – exclamou Brant – esse lugar é demais! Eu nunca vi tanta variedade de frutas em um único lugar! Eu acho que quero experimentar uma de cada!
- Cuidado Brant – advertiu Taylor – afinal, pelo que sabemos todas estas espécies podem ser venenosas.
- Tem alguma coisa de errado aqui – disse Fred, sem conseguir constatar o que era. Pela análise dele, a trilha de sangue da galinha terminava
abruptamente em um local logo adiante, sem mais rastros de para onde ela poderia ter ido. – sem sangue... – murmurou Fred para si mesmo.
- Fred tem razão – Taylor concordou abaixando a voz – não há nenhum herbívoro – então notou que Brant tinha sumido. – Fred, você viu Brant?
- Não. – respondeu – pensei que ele tinha se dirigido para aquelas macieiras ali – apontou para as macieiras mencionadas.
- Vamos lá ver onde ele está – disse Fred se encaminhando para as macieiras. Mas não foi necessário. Brant voltou andando de ré, com passos
vagarosos, e fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador sobre os lábios.
- O que está havendo? – perguntou Fred, e Brant indicou com o dedo um local que Fred não conseguia enxergar de onde estava no momento. Ele deu
dois passos a frente e viu. Um dragão negro, com cerca de cinco metros de comprimento, quase totalmente do corpo , já que a cauda e o pescoço eram curtos,
estava comendo a galinha que Fred estava perseguindo. Ele não conseguiu se controlar, e gritou:
- A minha galinha! – e na mesma hora percebeu o erro. O Dragão parrou de comer a galinha, e na hora já se levantou sobre as patas traseiras,
procurando pelo que o tinha interrompido durante o almoço. Antes que pudesse ver Fred, Brant o puxou para trás do tronco de u ma macieira próxima, na qual
Taylor já estava escondido.
- O que você fez?! – sussurrou ele com raiva para Fred – acabou de anunciar a sobremesa! – mal Brant terminou de dizer aquilo, o dragão bateu assas e
subiu no ar, indo pousar nos galhos do pinheiro mais próximo, procurando pelo lanchinho.

30
- Como ele é rápido – observou Fred – que espécie é essa Taylor?
- Eu acho que deve ser um Terror Noturno, mas – se realmente era, pensou Taylor, eles estavam em frente a uma raridade – eles deveriam estar
extintos há séculos!
- E quais são as principais características dele? – Fred sabia que Taylor saberia. Taylor era filho de um médico que usava medicina natural para curar. Por
isso ele odiava plantas. O pai dele o obrigou desde pequeno a aprender algumas técnicas de cura, e um pequeno conhecimento so bre as plantas úteis, mas
Taylor nunca esteve a fim de aprender sobre isso. Ele sempre preferiu os animais, principalmente os dragões. Eles o fascinavam.
- Eu não sei direito. – Taylor parecia confuso – não há muitas informações. As que existem dizem que eles eram os dragões mais ágeis que já existiram,
e que as pessoas chamavam seu sopro de fogo de gelo, por que o fogo que saia de suas entranhas não era quente, e sim gelado. Não derretia, congelava.
Naquele momento, o dragão desceu da posição que estava ocupando, e deu um rasante pelas árvores á leste, soprando fogo ardent e, e incendiando
diversas árvores frutíferas.
- Ahn, Taylor – Fred falou – acho que uma das informações que você ouviu por ai está um pouco equivocada.
- Não, não está – Taylor estava pensativo – este não é um Terror Noturno. Deve ser algum espécime que evoluiu somente aqui, então tudo o que
sabemos, é que ele é extremamente rápido, e suas labaredas definitivamente NÃO são geladas.
- Nós não podemos ficar aqui – falou Brant – ele vai acabar no achando.
- E para onde nós podemos ir? – perguntou Fred – a floresta de pinheiros está muito longe, e definitivamente descoberta.
- Tem razão – Taylor disse – devemos voltar e esperar até ele... - Mas não terminou a frase. O dragão mudou rapidamente de rumo e incendiou as
folhagens pelas quais eles tinham vindo. – Pinheiros.
- Ok, - concordou Brant – pinheiros.
Silenciosamente, os três começaram a andar em direção aos pinheiros mais próximos, sempre se escondendo enquanto o dragão sob revoava, e
evitando ficar em áreas descobertas. As diversas árvores frutíferas, embora não fossem altas, proviam uma boa cobertura, devido à densidade da sua copa.
- Esperem! – sussurrou Brant – nós precisamos fazer uma coisa antes. – então ele baixou um galho próximo e pegou alguns pêssegos maduros que ali
estavam. Os pêssegos estavam levemente bicados, mas provavelmente serviriam para alimenta-los por algumas horas, até que encontrassem outra coisa.
- Tudo bem, mas agora vamos – disse Fred. Ele tinha um mau pressentimento quanto aquilo. Parecia que quanto mais demorassem, mais difícil seria
atingir o objetivo. Eu devo estar ficando louco, pensou Fred ao ver que logo à frente se localizavam os pinheiros. Eles não poderiam ter percorrido tantos metros
assim em tão pouco tempo, poderiam? – Mas como?
- Tanto faz – disse Brant e se virou para continuar andando. Eles estavam quase seguros, e não podiam perder tempo agora. Mas algo o fez parar –
droga!
- O que foi? - perguntou Taylor – algum problema?
- Aquilo – respondeu Brant, apontando um lugar logo à frente, em que havia um tronco caído, em decomposição, que ficava alguns metros acima deles,
subindo uma encosta. Atrás do troco, ao seu redor, e até à frente, estavam os maiores babuínos que ele já tinha visto. Eles eram praticamente do seu tamanho,
e pelos dentes expostos e rosnados ameaçadores, com grande fúria gélida irradiando dos olhos, eles não estavam felizes. – Não se movam.
- Não nos mover? – falou Taylor em voz baixa – nós temos que fazer alguma coisa, e acho que é preferível enfrentar os macacos ao dragão.
- Não se não precisarmos – disse Fred mais para si mesmo. Ele não acreditava no que estava prestes a fazer, mas esperava que funcionasse. Enchendo
os pulmões, ele gritou com o máximo de força que podia: - EI, SEUS IDIOTAS, NÓS ESTAMOS AQUI! VENHAM NOS PEGAR!
- O que você está fazendo?! – gritou Brant para ele – você quer nos matar?
- Não exatamente – e ele torceu para que o seu plano funcionasse, por que agora, os macacos estavam extremamente furiosos, mostrando os dentes,
salivando em excesso, e avançando e retrocedendo, somente esperando que os três lhes dessem as costas para que atacassem. Fred virou a cab eça para ver se
o dragão estava vindo em direção a eles, mas não conseguiu localizá-lo mais. Parecia que seu plano tinha falhado. – Droga, o que saiu errado?
- Tudo saiu errado! – gritou Brant, formando uma esfera de calor com as mãos – mas eu vou cair lutando. – do jeito como ele falou isso, parecia que ele
iria utilizar o machado em suas costas, e não uma esfera de calor magicamente produzida.
- É isso! – pensou Fred. Já que a ideia do dragão não tinha funcionado, essa não poderia falhar. Analisando o tronco em decomposição, ele disse para
Brant: - Acerte o tronco. Isso fará com que eles se dispersem, e nós teremos tempo de fugir.
Brant resolveu não contrariar desta vez, afinal era melhor do que tentar atacar os macacos diretamente. Mirando o tronco, ele lançou a esfera. Menos
de um segundo depois ela atingiu o tronco, o fazendo explodir. Porém, a reação dos macacos não foi à esperada por Fred. A explosão os deixou loucos. O maior,
que parecia o líder, se posicionou sobre o resto do que sobrou do tronco após a explosão, e urrou. Os outros macacos se lança ram ao ataque, e Brant formou
outra esfera de calor, pronto para atirá-la, mas não foi necessário. Um borrão negro passou entre eles e os macacos, pegando o primeiro, e fazendo-o guinchar
de dor. O macaco gritou por dois segundos e parrou. Os outros macacos esqueceram os três garotos, e ficaram olhando em volta, procurando o que os tinha
atacado. Quando o líder percebeu o que era, e urrou para anunciou a retirada, já era tarde demais. Ele foi o próximo, e finalmente Brant entendeu o que tinha
atacado os macacos.
- Eu sabia! – disse Fred exultante – eu não podia estar errado!
O dragão tinha reaparecido, e atacado o líder. E, sem o líder, os demais ficaram desorientados. Alguns tentaram fugir, e outros , atacar o dragão.
Nenhum teria sucesso, constatou Taylor. Pelos estudos que ele tinha feito sobre dragões, nenhuma criatura sem um mínimo de organização intelectual
conseguiria derrota um dragão. Dragões são fortes. Dragões são resistentes, e o mais importante: Dragões cospem fogo.
- Vamos – disse Fred – nós não podemos perder esta oportunidade.
Isso era verdade. Taylor sabia que enquanto o dragão estivesse entretido com comida, ele não iria atacar mais, nem que passassem por baixo da barriga
dele. Desde que não o atacassem nem tentassem roubar a comida dele. Eles com toda certeza não iriam atacar um dragão que destruiu uma horda de macacos,
nem iriam tentar roubar a sua comida. Realmente nenhum dos três estava muito interessado em carne de macaco assada.
Os três retomaram a caminhada, mas para evitar mais perigo com o dragão, decidiram contornar a colina, e seguir se embrenhand o na floresta.
Puderam perceber que dentro da floresta o terreno não era regular como nas outras áreas, de plantas frutíferas e nas folhagens. Ali o terreno era irregular,
cheio de ondulações, e coberto por folhas secas, caídas dos ciprestes que nasceram por baixo dos altos pinheiros. Devido á falta de iluminação, o apodrecimento
da matéria morta ali era lento, e muitas vezes, como acontecia com as folhas secas dos ciprestes, acabavam se acumulando. Taylor começou a coletar algumas
mostras dessas folhas secas, pois elas serviriam para fazer fogo mais tarde, caso conseguissem encontrar abrigo. Já estava começando a escurecer, provando
que Brant estava errado. Talvez fosse por causa da densidade da floresta acima deles, que não permitia a passagem de luz.
- Por aqui – disse Fred, indicando o caminho. Ele não sabia o que era, mas ele tinha certeza de que o pressentimento dele os levaria até água fresca. Era
como se ele pudesse sentir que eles estavam se aproximando. Alguns metros a mais, quando alcançaram o topo de uma pequena formação rochosa, puderam
avistar uma pequena queda de água. Tinha cerca de três metros de altura e, onde tocava o solo, tinha um pequeno fosso, que armazenava água para as
populações locais de animais, pois diversas pegadas podiam ser vistas na mistura de lama e folhas de ciprestes que havia ali ao redor. Vendo aquilo, Taylor disse:

31
- É melhor nos subirmos o rio. Logo vai anoitecer, e os predadores virão aqui tomar água e esperar por suas presas. Aqui está m uito perigoso. Vamos
logo.
- Não. – disse Fred, fazendo sinal para que eles parassem. – eu sinto como se, como se a água estivesse falando comigo. Tem algo por trás dessa queda
de água. Eu sinto.
Sem esperar resposta, Fred desceu a encosta que dava no leito da parte baixa do pequeno riacho, e se dirigiu para a cachoeira. Olhando com atenção,
ele percebeu que havia uma abertura por trás dela. Encaminhando-se para a cachoeira, ele hesitou. Poderia haver algum animal selvagem por ali. Então teve
uma ideia. Tocou na água com a ponta dos dedos e formou um pequeno bonequinho de água. Mandou que ele entrasse na pequena gruta oculta, e verificasse
se havia perigo. Brant e Taylor terminaram de descer a pequena encosta e chegara ao seu lado. Brant perguntou:
- O que está fazendo?
- Estou somente verificando. – com um sorriso na cara ele disse – de que servem nossas habilidades se não as usamos?
Brant não teve tempo de responder. O bonequinho de água de Fred saiu e fez sinal afirmativo com a cabeça, indicando que a caverna era segura, ou
pelo menos era isso que Fred esperava que o sinal positivo significasse para o boneco.
- Hora de conhecer a nova casa! – disse Fred e saltou para dentro da gruta, passando pela cachoeira.
- Eu não acredito que vou ter de molhar de novo! – reclamou Brant, mas seguiu Fred, também pulando pela queda de água. Taylor deu uma última
olhada antes de saltar também, e viu que as últimas penumbras de sol estavam sumindo.
Ao atravessar a cachoeira, ele quase acertou Fred, que estava do outro lado. Brant já estava mais à frente, reunindo pedras para a fogueira, o que
realmente o impressionou. Mas o que o impressionou mesmo foi à caverna. Era exatamente igual a anterior, como se ambas tivess em sido construídas por
alguém ou alguma coisa. A única diferença era na entrada, que era mais alta e menos larga.
- É muito boa para passar a noite, mas tem um pequeno problema. – disse Taylor analisando – se os predadores frequentam essa área, eles não podem
acabar entrando aqui por acidente, assim como, por exemplo, em uma briga?
- Eu já pensei nisso – disse Fred, e com isso, empurrou uma enorme pedra para frente da entrada. – isso não bloqueia toda a passagem, mas impede
que algo maior que uma galinha possa passar – e percebendo o que tinha dito, foi logo acrescentando – Uma galinha normal.
Uma sugestão de sorriso surgiu aos lábios de Taylor, e Fred pensou em como uma pessoa podia sorrir depois de tudo o que tinha acontecido nos
últimos dias. E então ele constatou que talvez isso fosse tudo pelo que Taylor estivesse esperando. Uma oportunidade na vida para realmente mostrar o seu
valor, e não mil e uma oportunidades de a vida realmente te ferrar.
- Agora só falta o material para a fogueira. – disse Brant, mais ao fundo da caverna, olhando para Taylor, como se insinuando algo.
- Ah sim, claro – entendeu Taylor, retirando as folhas secas de cipreste, juntamente com alguns dos galhos secos de amoreira que ele tinha coletado no
dia anterior.
Ajeitando tudo corretamente no seu lugar, Brant acendeu a fogueira, e virando-se para os outros disse:
- Para que afinal precisamos de uma fogueira? Nós não temos comida para preparar, não temos que nos aquecer, pois aqui em baixo pe lo jeito sempre
faz calor, e a única coisa que isso trará serão os predadores que nos virem do lado de fora.
- Eu tenho uma ideia legal para passarmos o tempo e nos descontrair. – pegando um pouco de água com as mãos em concha, pela fenda deixada pela
pedra, Fred fez um pequeno soldadinho com ela. – Brant, se você se concentrar, será que você não consegue fazer um de fogo também?
- Eu?! – Brant, surpreso, olhou para a fogueira e respondeu – não custa tentar.
Se concentrando no calor que as chamas produziam, e no poder que irradiava delas, ele imaginou um pequeno homenzinho saindo d ali. E, aos poucos,
pequenos pedaços de madeira que haviam virado brasas, bem como pedras já incandescentes, começaram a se juntar, formando um pequeno homenzinho, que
irradiava calor e chamas, iluminando os olhos de Brant de alegria.
- Que tal uma batalha? – perguntou Fred – o clássico, quem vence: água ou fogo?
- Seria ótimo – disse Brant, e com isso, fez o seu soldadinho voltar ao fogo, e pegar uma pedra incandescente como escudo, e um pequeno galho em
chamas como um machado de batalha. Fred pegou um pouco de água para o seu e fez um escudo e uma espada. Pos icionaram os seus sodados ao lado da
fogueira, e se sentaram do outro lado, para assistir a batalha.
O bonequinho de Brant atacou primeiro. Com o seu machado de batalha, cravou um golpe em diagonal, de cima para baixo, e o de Fred bloqueou com
o escudo. No mesmo instante, este se desfez, em uma pequena poça de água, e ao mesmo tempo, o fogo que havia no galho do soldado de Brant se apagou,
deixando um frágil pedaço de carvão frio. O soldado de Fred aproveitou a situação e golpeou o pedaço de carvão com a sua espada e quebrou o pedaço de
carvão em dezenas de pedacinhos. Agora a batalha estava mais justa. Um com o escudo, o outro com a espada.
O soldado de Fred atacou com a espada, e o de Brant se defendeu como escudo. Quando eles se tocaram, uma pequena nuvem de vapor subiu. Parte
da espada do soldado de Fred sumiu, bem como parte do escudo do soldado de Brant. Em mais dois ou três golpes, eles se enfrentarão cara a cara, pensou Fred.
E a sua previsão de confirmou. Com mais dois golpes, não restavam mais espada nem escudo.
Enquanto os soldados largavam as armas de lado e se preparavam para o confronto corpo a corpo, Fred se permitiu um olhar para o lado. Brant parecia
estar fazendo parte da batalha, tamanho era sua concentração, e Taylor estava vidrado, fascinado pela maravilha que estava vendo ali. E foi só então que Fred
constatou: ele não tinha desenvolvido nenhum poder, nem o mínimo sinal. Ele estava pensando nisso, quando Brant falou:
- Isso! – exultante, e com um pouco de orgulho na voz ele continuou – eu sabia que isso ia acontecer.
O soldado de Brant estava agarrando o de Fred por trás, lhe dando uma gravata. Fred não sabia como aquilo podia acontecer, af inal, se os dois se
encostassem, eles deveriam evaporar. Mas ele sabia que não poderia deixar Brant vencer, e então, desfez seu bonequinho, que virou somente água novamente,
apagando o bonequinho de Brant, que se desfez com um chiado e um monte de vapor subindo pela caverna.
- Você – matou ele! – reclamou Brant consternado – isso não vale!
- Vamos, - disse Fred, pegando um dos pêssegos dentro da sacola de mantimentos, que Taylor espertamente tinha pegado, do lado de fora do vale.
Atirou um também para Brant - Pelo menos não seremos nós que iríamos estragar a velha dúvida sobre água e fogo. – ele deu uma mordida no pêssego e
constatou que ele estava muito suculento e doce. – Afinal, não ia valer, por que eu me distraí – e percebeu que tinha falado demais.
- Se distraiu com o que? – perguntou Brant.
- Eu... – Ele sabia que não adiantaria adiar o assunto, por que era inevitável, afinal eles teriam que discutir uma hora o mesmo. – Olha, vou ser bem
sincero. Foi Taylor. Eu percebi que ele foi o único que ainda não desenvolveu um poder.
Ele sabia que tinha atingido bem no ponto frágil de Taylor, e percebeu também que ele provavelmente também estava pensando nisso havia algum
tempo. Ele sabia que Taylor era mais novo que ele e Brant, mas imaginava que ele deveria estar mostrando algo já.
- Eu estou tentando – disse Taylor, como se tentando se justificar. Isso fez com que Fred se sentisse culpado. Era como se ele o estivesse culpando de
não ter desenvolvido alguma habilidade especial e útil para eles. – Mas eu não consigo! Eu já tentei diversas vezes, mas eu não tenho ideia de por onde
começar.

32
- Não se preocupe – Brant falou para ele. – na hora certa, tenho certeza de que os seus poderes se manifestarão, e até você irá se surpreender com isso.
E afinal, nós não precisamos que você desenvolva poderes. Só com o seu conhecimento sobre as plantas e os animais, isso já nos ajuda um monte.
- É, pode ser – mas ele não parecia muito contente com o que estava acontecendo, nem com a justificativa que Brant deu para ele- eu estou cansado,
prefiro dormir.
Não fazia nem duas horas que eles estavam na caverna, e Fred tinha certeza de que ele não estava cansado, e provavelmente ele não conseguiria
dormir. Na verdade, depois daquilo, nenhum dos três conseguiria dormir. Então Fred pediu para Taylor:
- Você não teria algum daqueles cogumelos para dormir, que você me deu na outra caverna? Afinal, eu acho que todos nós deveríamos comer, para
podermos dormir direito.
- Fred tem razão – disse Brant – nós precisamos dormir bem, afinal, pelo que eu pude constatar, amanhã teremos que partir cedo, e teremos poucas
horas de luz para atravessar a floresta e achar outro abrigo.
- Que horas você acha que o sol vai nascer amanhã de manhã? – perguntou Taylor.
- As oito ou nove provavelmente, por quê? – respondeu Brant.
- Por que eu posso regular a dose – disse ele, arrancando um pequeno pedaço com os dedos, e dando para Brant, e depois outro para Fred, e
finalmente um para si mesmo – para que acordemos somente uma hora antes de partir, tempo suficiente para organizarmos tudo antes de partir. – e dizendo
isso, engoliu próprio pedaço. – Boa noite.
- Boa noite – responderam Fred e Brant, cada um indo para um lugar.
Escutando o barulho que a cachoeira fazia do outro lado da caverna, Fred pensou: “amanhã eu vou ter problemas”. E ele tinha razão. No outro dia pela
manhã quando o efeito do cogumelo passou e ele acordou, estava com a bexiga extremamente cheia, e levantou depressa, pensando em como iria mover a
pedra da frente da caverna. Mas para sua sorte, alguém já a havia removia. Ele saiu correndo pela entrada, passando por baixo da cachoeira. Isso fez com que o
aperto aumentasse. Olhando ao redor não viu ninguém, e foi se aliviar atrás de uma árvore. Ainda estava muito escuro para que eles pudessem seguir viagem.
Depois de terminar, resolveu voltar para a caverna. Quando a adentrou, percebeu que nenhum dos outros dois estava lá. Percebeu que eles deveriam
ter saído. Resolveu esperar por eles, e tentar reavivar a fogueira enquanto eles não vinham. Com um pouco de dedicação e folhas de cipreste secas, ele
conseguiu reavivar o fogo. Depois de cerca de quinze minutos, ele já podia ver o dia clareando lá fora, e percebeu um movimento. Eram os outros dois garotos
que estavam voltando. Quando pularam pela abertura, Fred percebeu que Brant trazia alguma coisa em uma das mãos, alguma coisa viva. Era um coelho.
- O que é isso? – perguntou Fred.
- É o nosso café da manhã – respondeu Taylor, sorrindo. Parecia que ele já tinha esquecido o ocorrido da noite anterior. – eu e Brant caçamos.
- E por que ele ainda está vivo?- perguntou Fred.
- Por que nós não tivemos coragem de mata-lo – respondeu Brant – olha só pra ele. Que coisa fofinha, parece que fica implorando para a gente soltar.
- E vocês esperem que eu mate o coitado? – disse Fred – pode soltá-lo, eu não vou fazer isso. Se fosse uma galinha talvez...
Brant não discutiu. Ele sabia que seria perda de tempo. Eles não conseguiriam fazer aquilo, e não adiantava insistir. Matar u m dragão? Sem problema.
Matar um pequeno coelho fofinho e indefeso? Nem pensar. Ele se dirigiu para a abertura da caverna e soltou-o. Ele saltou pela cachoeira, e correu pela encosta
acima. Brant já estava pensando que era a melhor boa ação que ele tinha feito naquele ano, mas escutou o guincho que o coelho deu, e soube na hora que ele
tinha virado história.
- Pessoal! – cochichou ele – venham aqui. Acho que tem alguma coisa lá fora. O coelho se foi.
Os três se juntaram na abertura da caverna, de armas em punho, e saltaram juntos para fora, para enfrentar o que quer que fos se que os estava
cercando. Brant somente esperava que realmente não fossem nem o dragão, nem um bando de macacos que nem os que tinham encontrado no dia anterior.
Mas não havia nada lá fora. Eles olharam por todos os lados, mas não viram nada. Então, um rosnado veio de trás deles, um pou co acima. Fred foi o
primeiro a se virar e viu a enorme pantera negra, no topo da cachoeira, se preparando para saltar neles. Ela provavelmente teria matado todos eles, mas quando
ela saltou uma mão enorme de água também saltou do rio, acertando um soco nela e a atirando para longe, de volta por cima da cachoeira.
- O que foi isso? – perguntou Brant – Fred?
- Não olhe para mim – disse Fred, tirando o foco de si mesmo – não fui eu.
Por onde a pantera havia sido jogada para trás, apareceu Morte, todo molhado e com uma cara de desconforto.
- Na verdade – falou Morte, saltando de cima da cachoeira e ficando de pé em frente aos garotos. - foi você sim, Fred. Eu estava testando os seus
reflexos, mas na verdade era para Brant ter reagido. Eu não sabia que você havia desenvolvido poderes sem minha ajuda. E você Taylor, qual dos poderes você
desenvolveu?
- Eu, Ahn, - Taylor estava gaguejando. Isso queria dizer que ele estava envergonhado. – eu não desenvolvi nenhum poder ainda. – desembuchou ele.
- Oras - disse Morte dando um enorme sorriso – não se preocupe! Isso é assim mesmo. Até surgir uma necessidade em que você precise de seus
poderes, não haverá motivo para desenvolvê-los.
- É mesmo? – Taylor parecia surpreso – então quer dizer que eu não sou um atraso?
- Não, não. – Morte deu uma gargalhada – você estava preocupado com isso? Aprenda uma coisa: em um grupo, cada um tem sua função. Até mesmo o
mais improvável. Você ainda vai se impressionar com o que pode fazer.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Fred não podia deixar que todos fossem expostos a aquilo. Então resolveu quebrar o silêncio:
- Morte, era você aquela pantera?
- Sim e não – respondeu Morte, agora com um ar mais sério – eu estava dentro da pantera, mas não era eu. Eu não posso me transformar em formas
diferentes, mas eu posso possuí-las. E aquela pantera foi um dos menores predadores que eu consegui encontrar nessa região. Sabe, como eu viria até vocês,
pensei que não seria sensato trazer algo que vocês não conseguissem combater depois.
- Um dos menores?! – Fred não estava acreditando. – quer dizer que este lugar é muito mais perigoso do que se pode imaginar? E que provavelmente
nós seremos caçados o resto do dia?
- Sim e não novamente – Morte franziu a testa, como se tivesse se lembrado de algo importante. – Aqui é muito mais perigoso do que vocês jamais
poderão imaginar. Por acaso vocês acharam que as lendas nasceram do nada? E não, vocês não serão caçados o resto do dia. Os p redadores dessa área se
escondem de dia, e só saem para caçar de noite.
- E por quê? – perguntou Taylor interessado.
- Mas isso não é obvio? – Morte parecia estar começando a ficar aborrecido por ter de explicar tudo. – eles têm medo.
- Medo? – indagou Fred – do que predadores enormes teriam medo?
- Você ficaria surpreso, – Morte parecia ter ficado interessado naquilo por um momento – E se eu dissesse que de dragões que podem voar
incrivelmente rápido, e caçar bandos de predadores do seu tamanho.
- O dragão negro? – perguntou Taylor – aquele que caçou os babuínos?
- Droga – Morte parecia ter ficado desapontado com aquilo – estraga prazeres. Como vocês já o conhecem e ainda estão vivos?

33
- Os Babuínos, - respondeu Brant – parece que eles são uma comida deliciosa.
- Eu nunca gostei daqueles babuínos.
- Parece que você conhece bem demais as criaturas desse vale – disse Taylor – como?
- Com assim? – respondeu Morte – eles não lhes ensinam história? Antes desse vale ficar perigoso, ele era a principal rota comercial entre os magos e
as cidades do reino do sul. Quando eu perdi a guerra, os monstros que não quiseram se render, foram exilados, para um lugar do qual jamais poderiam sair. Eis a
sua prisão – disse ele, abrindo os braços, e dando uma volta completa, como se maravilhado com o que via ali. – claro que muitos evoluíram e se tornaram
muito mais perigosos. Mas alguns como o meu belo dragão já eram perfeitos.
- Só uma dúvida, – disse Fred – vindo para cá, encontramos uma galinha, que certamente pertencia a este lugar. Como é que ela saiu daqui? E por que
você tinha um exercito de galinhas?
- Garoto, você ficaria impressionado com o que se pode fazer com galinhas bem treinadas. – respondeu Morte, com um ar pensativo. – e você disse que
ela saiu daqui? – com o aceno positivo de Fred ele continuou – Então quer dizer que a magia dos magos está enfraquecendo... – olhando para os garotos com se
tivesse se lembrado de algo importante, disse: - garotos, eu tenho de investigar algumas coisas agora, por isso, vocês devem me desculpar, mas tenho que ir. Ah,
sim, só um lembrete: quando forem sair da floresta, deixem os escorpiões em paz. Eles eram meus bichinhos de estimação, e eu não gosto qu e eles comam
carne humana no café da manhã. Faz mal para a digestão deles.
Com isso, morte deixou os garotos sozinhos, desaparecendo diante dos seus olhos. Os garotos, com uma troca de olhares, sem querer pensar no que
Morte tinha lhes dito a pouco, combinaram de recolher suas coisas e continuar andando. A cada segundo passado, eles estariam mais distante de achar um local
seguro para passar a próxima noite. Em quinze minutos, os três, com os cantis já cheios de água novamente, subiam á colina contrária à que eles haviam descido
na noite anterior, e assim, deixavam para trás, o que sabiam ser, o último ponto seguro, e também ultima fonte de água.
A floresta tornava-se fantástica ali. A luz que descia pelas pequenas aberturas na abóbada do teto do vale-caverna, penetravam pelo meio das folhas, e
tornava-se esverdeada, deixando tudo com um tom desta cor. Fred calculava que naquele momento eles estavam chegando ao coração da flo resta. Mas logo
percebeu que estava errado. Não ouviam nenhum animal, nenhum som de vida, e o solo já começava a se modificar. Aos poucos, começava a ficar mais rochoso,
com muita areia presente. As árvores começaram a ficar mais finas, e consequentemente mais baixas, mas não mais novas. Aquelas provavelmente eram as
árvores mais velhas que Taylor havia visto. Deveriam ter milênios de idade e o pai dele já tinha lhe falado de árvores assim velhas.
Depois de andarem mais alguns metros, perceberam que o terreno estava se inclinando para cima, o que significava que eles est avam prestes a subir
uma pequena colina. E a previsão se confirmou. Mas não era uma colina comum. Era formada em sua maioria por areia cobrindo pedras, e a maioria das árvores
estava morta e seca, embora ainda houvesse algumas vivas. Olhando para os lados, Fred constatou que aquela deveria ser uma divisória de tipos de terrenos.
Para ambos os lados, até os olhos perderem de vista, a colina se estendia. Eles estavam quase chegando ao topo, e eles poderiam constatar se sua hipótese era
verdadeira.
Infelizmente era. E era muito pior do que eles poderiam imaginar, pois do outro lado da colina, se estendia por centenas de quilômetros, um enorme
deserto, com diversas formações rochosas espalhadas por todo lado, sendo que as mais comuns eram pedras com enormes vãos entr e si. Para ter acesso ao
deserto, eles teriam que descer a colina, e foi o que fizeram. Cuidadosamente, para evitar talvez um deslizamento com pedras e areia, o que poderia machucar
algum deles.
Fred já estava calculando que aquele deserto provavelmente era maior do que ás áreas das ocupadas pelas plantas, as quais eles já haviam atravessado.
Olhando de cima, ele avistou o que poderia ser o próximo ponto de descanso deles, e ficava em uma pequena formação rochosa, m as que deveria providenciar
um abrigo mais do que suficiente para uma noite.
Ao chegarem ao chão, na entrada do deserto, Brant disse:
- A partir de amanhã teremos mais tempo de caminhada durante o dia. – indicando com o dedo, como se para os outros olharem, ele apontou para o
teto. – estão vendo? A abertura está ficando mais larga, o que significa que o sol ficará mais tempo exposto.
- Eu não entendo – Taylor não estivera prestando a mínima atenção ao que Brant dissera. Ele ficara intrigado com outra coisa que ele viu. – olhe aquele
esqueleto – o esqueleto a que ele se referia era provavelmente de um dos predadores que não conseguira se adaptar e virou lanchinho – ele não parece ter sido
morto por algum dos outros predadores. Não há ossos fraturados, nem a posição como ele morreu parece ter sido proveniente de um ataque.
- O que você quer dizer com isso? – perguntou Brant, ficando curioso.
- O que eu quer dizer – Taylor olhou bem sério para os outros dois – é que esse lugar está doente, e, se nós não sairmos logo daqui, nós seremos os
próximos a ficarmos daquele jeito. – e indicou o esqueleto.
- Então vamos – disse Fred, abaixando-se e tirando os calçados.
- Por que você está fazendo isso? – perguntou Brant, e viu que Taylor também estava tirando os dele – por acaso é algum ritual?
- Não. – Fred respondeu sério – você não vai querer andar de calçados na areia. É horrível.
- Pode ser horrível para você, mas eu não quero saber de andar de pé descalço em um lugar doente.
- Tudo bem. – avisou Fred, mas depois não venha reclamar, e virando-se, começou a andar em direção ao que era o seu objetivo para o dia.
Brant não queria admitir que estivesse errado, mas logo se arrependeu. A areia grudava no seu pé e ficava incômoda. Se ele estivesse sem calçado,
provavelmente a areia não estaria grudando no seu pé. Mas se tirasse o calçado agora, Fred iria grudar no seu pé muito pior do que a areia, e ele
definitivamente preferia a areia.
Pensando nisso, ele percebeu que pisou em algo duro que talvez fosse cortar seu pé se não tivesse calçando algo. E ele agradeceu por isso. Abaixando-
se para verificar no que havia pisado, constatou que era um escorpião. Um escorpião! Ora, quem diria, ele era realmente grande, do tamanho de sua mão, e ele
não estava disposto a virar lanche daquilo. Seria patético. Ele pegou o escorpião pela calda, de maneira segura, e o ergueu a altura dos olhos. Parecia uma
criatura patética, incapaz de machucar alguém sem seu aguilhão e sem suas pinças.
- Ei pessoal! - Disse ele para os outros dois, que estavam poucos metros à frente, - Olhem com o que morte disse para nos preocuparmos!
- Brant! – Fred estava muito zangado. Se alguém dizia para você não mexer com os escorpiões deles, ele entendia que essa pessoa queria d izer
escorpiões no plural. E no plural queria dizer mais que um. E mais que um queria dizer que havia mais daqueles em algum lugar. - solte isso agora!
O escorpião deve ter ficado magoado com o “isso”, porque agarrou um dos dedos de Brant com uma das pinças. Brant deu um gemid o e largou o
escorpião. Quando atingiu o chão, tentou se esconder se enterrando na areia. Brant indignado com o que havia acontecido, resolveu se vingar, e deu um chute
no escorpião, o que o atirou diversos metros no ar, e o fez ir parar próximo a uma formação rochosa que havia ali perto. Na verdade nem podia ser chamado de
formação rochosa, pois era um amontoado de duas ou três pedras grandes, com algumas pequenas ao redor.
- Por que você fez isso? – gritou Fred para Brant – Você não liga para o que poderia ter acontecido?
- Acontecido? – Brant respondeu furioso – Esse desgraçado agarrou meu dedo! Ele mereceu o que aconteceu!
- Ei pessoal... – Taylor disse com um tom de alerta, mas nenhum dos dois prestou atenção.
- E se fossem milhares de escorpiões? E se este aí fosse chamar os irmãozinhos? – argumentou Fred.
- Não são milhares de escorpiões! – Brant disse como se Fred fosse o maior idiota de todos.

34
- Ei pessoal... – Taylor insistiu, mas nenhum dos dois prestou atenção novamente.
- E como você sabe? – Fred estava perdendo a paciência com Brant – você os contou?
- Eu sei por que não estou vendo mais nenhum escorpião! – Brant respondeu – E pelo que sei você não se importou tanto quando o assunto era você
gritando para um dragão!
- EI, PESSOAL... – gritou Taylor, e finalmente os outros dois prestaram atenção nele.
- Oque foi?! – disseram ao mesmo tempo Taylor e Brant.
- Eu acho melhor a gente correr – e apontou para a formação rochosa para a qual o escorpião havia sido atirado.
De lá, estava saindo o maior escorpião que eles já tinham visto. Era maior que qualquer um deles, e provavelmente duas vezes mais furioso. Mas logo
ele perdeu o status, por que de trás das pedras estava saindo um muito maior. Nenhum deles esperou precisar pelos outros, pois saíram correndo. Fred gritou:
- Ali! – e indicou um amontoado de pedras, um pouco maior do aquele do qual saíam os escorpiões.
- Você está ficando louco? – Disse Brant – quer nos expor para esses e todos os demais que estiverem nos olhando?
- Não, mas de lá nós teremos certa vantagem! – respondeu Fred – quem ataca de cima sempre tem a vantagem.
- Você só esqueceu-se de um detalhe – disse Brant – nós não estamos atacando. Estamos fugindo.
- Tanto faz – retrucou Fred – o que importa é a vantagem da posição alta.
Mas no momento em que chegavam ao pé do amontoado de pedras, Taylor percebeu um movimento, cerca de dois metros acima, e se jogou em Fred,
derrubando-o, mas evitando que fosse atingido pelo aguilhão da calda do escorpião. Graças a isso, ele sofreu somente um leve arranhão no braço, e não foi
empalado. Brant, na reação, puxou o machado das costas pelo cabo, e num único movimento, decepou a cauda, que caiu aos seus pés.
O escorpião, que não era tão grande quanto os outros dois, acertou com a pinça em Taylor, que estava se levantando, e atirou -o contra algumas das
rochas mais próximas, deixando-o desacordado. Fred em um impulso puxou a espada e cortou aquela pinça, depois ficou de pé e enfiou a espada pela boca do
escorpião. Ele guinchou e desfaleceu.
- Você esta bem? – perguntou Brant para Fred, percebendo a cara de dor dele.
- Sim, foi só um ferimento – e mostrou a Brant o arranhão que o aguilhão tinha feito em seu braço. – Vamos, temos que ajudar Taylor.
Ao saírem correndo em direção á Taylor, Brant viu, em algumas rochas próximas, que eles não eram os primeiros a estar ali. Um soldado,
provavelmente morto há anos, tinha o osso esterno perfurado, por alguma coisa bem grande, e de forma circular. Brant calculou que foss e um aguilhão de um
dos escorpiões maiores. Ele parou e se dirigiu para onde o homem estava. Era sinistro. Ele estava com um sorriso na cara, como se dizendo: “estou rindo de
você, porque eu sei que você vai ter o mesmo destino que eu”. Mas Brant não estava interessado no seu sorriso macabro, e sim em sua lança. Como o seu
machado não tinha uma ponta seria difícil combater um escorpião, e com aquela lança, ele calculou que as coisas seriam menos complicadas.
Quando se virou para continuar a correr para ajudar Taylor, viu que Fred estava esperando por ele. Mas viu também que algo se aproximava dele por
baixo da areia. Ele tentou avisar, mas já era tarde. O escorpião saltou da areia, espalhando-a por todos os lados, e caiu em cima de Fred. Brant correu para
ajudá-lo, mas viu que nada podia fazer. Com aquele peso, mesmo se o escorpião não tivesse cortado Fred em pedacinhos, ele teria o esm agado, porque era o
maior escorpião. Foi então que ele viu uma ponta de espada sair pelas costas do escorpião, e sua cauda caiu de lado, flácida, indicando que o escorpião estava
morto.
Fred empurrou a espada mais para trás, e conseguiu abrir um espaço para respirar. Quando o escorpião pulou sobre ele, num instinto de defesa, ele
ergueu a espada, o que abriu uma fenda em seu exoesqueleto, fazendo com que ele entrasse na parte interna do escorpião. Com toda a certeza, era a coisa mais
nojenta que ele já havia feito. Quando pôs a cabeça para fora e conseguiu respirar, viu Brant ficando com uma cara aliviada.
Mas o alívio não durou muito. Brant ouviu um barulho á sua esquerda, e outro escorpião saltou da areia, pulando sobre ele. Brant tentou erguer a lança
para tentar empalar o escorpião, mas ao tocar no duro exoesqueleto, a lança se partiu, e Brant foi atirado para o chão, sendo se gurado pelo pesado escorpião.
Brant tentou empurrá-lo para longe, mas era impossível. Além de o escorpião ser muito mais pesado do que ele, também estava se afirmando com as pinças no
chão.
Assim, a feia boca, ficava em frente á sua cara, com as quelíceras tentando prender sua cabeça. Quando uma se aproximou demais, ele a mordeu. O
escorpião deu um puxão violento, e afastou um pouco a cabeça para trás, e Brant pensou que tinha dado sorte. Mas logo percebeu que não.
Quando afastou a cabeça, o escorpião deixou á mostra o aguilhão, que Brant soube na hora que iria ataca-lo. Mal teve tempo de pôr a cabeça para o
lado, e o aguilhão atingiu o lugar em que sua cabeça estivera abrindo um profundo buraco na areia. Tateando com as mãos, ele apalpou uma coisa p ontuda.
Imaginou que deveria servir para bater no escorpião, até que ele se afastasse. O escorpião afastou o aguilhão de novo, preparando um novo ataque, e Brant se
preparou para desviar. Fez que iria com a cabeça para um lado, e quando percebeu que o escorpião tinha caído naquela, mudou a cabeça de posição
rapidamente, evitando um furo no meio de sua testa por muito pouco.
Brant sabia que não teria outra oportunidade, por isso aproveitou a que tinha no momento. Puxou o objeto, e golpeou a cara do escorpião , com força,
repetidas vezes. O escorpião recuou cego de dor, o que deu espaço para Brant puxar o seu machado, e cravá-lo no meio da cabeça do escorpião, que caiu morto.
- O que achou disso Fred? – como não houve resposta, Brant se virou para ver o que estava acontecendo com Fred. Ele estava caído, ao lado do corpo
do escorpião, com vísceras amareladas grudadas por todo o corpo, e com areia grudada nas vísceras. Brant se ajoelhou perto dele, e disse – Fred? Você está
bem? – e constatou que Fred estava ficando verde, mas não um verde homogêneo, e sim um verde que se espalhava em diversas direções, como raízes de uma
árvore. Parecia vir de uma região logo abaixo do pescoço.
Brant lembrou o arranhão que ele tinha levado do aguilhão do escorpião, e rasgou a camisa de Fred, para ver em que estado ele estava. Não era nada
bom. O arranhão na verdade era um corte com mais de um centímetro de profundidade, logo abaixo do ombro esquerdo, e estava soltando um líquido verde no
momento. Brant não tinha a mínima ideia do que fazer naquele momento. Então lhe ocorreu que Taylor talvez pudesse lhe dizer. Correu para o lado de Taylor, e
viu que ele estava em igual estado de inanição, e também impossibilitado de ajudar. Resolveu manter o plano de Fred, e puxou Taylor para cima das pedras.
Depois correu até Fred, e o também arrastou. Quando atingiu o topo do agrupamento de pedras, percebeu que havia mais esc orpiões, tanto menores quanto
maiores os espreitando das sombras.
- Por que vocês não vêm? – gritou Brant para os escorpiões, e formou uma esfera de calor com as mãos, atirando no que estava mais próximo. Quando
a esfera atingiu o chão próximo a um dos escorpiões, ele se enterrou na areia. Brant queria saber como uma criatura daquele tamanho conseguia se enfiar tão
profundamente a ponto de sumir. Quando foi formar mais uma esfera, se desequilibrou e caiu com um pé em um buraco, pisando em algo que quebrou sob o
seu peso.
Abaixando-se para olhar, percebeu que era algo pegajoso. Parecia...
- Meus deuses! – exclamou ele surpreso. Então era por isso que eles estavam defendendo o local com tanto fervor. Era um ninho! E aquilo era um ovo!
Brant pegou um ergueu bem alto e disse: - É isso que vocês querem? – e esmagou o ovo. – então é isso que vão ter.
Na hora em que fez aquilo, soube que não deveria ter feito. Os escorpiões ficaram furiosos. E começaram a fazer barulho, muit o barulho. O que Brant
não esperava é que os escorpiões que saíram de dentro dos ninhos fossem três vezes maiores do que os que eles tinham matado. Pelo menos, pensou Brant, se
é pra morrer, que seja rápido. E os escorpiões avançaram.

35
Então, vindo de algum lugar muito próximo, um som se espalhou pelo vale. Os escorpiões pararam o ataque, e a primeira coisa que Brant pensou, era
que fosse o dragão novamente, mas estava enganado. Quando o som se repetiu, ele percebeu que o som vinha de trás dele, do caminho que ele deveria seguir.
Virando-se, ele se surpreendeu com o que viu: dezenas de homens bem armados enfileirados, preparados para o ataque, e notou que o som provinha de uma
trombeta que estava sendo soprada por um garoto, que ele já havia visto antes.
Eram os bárbaros. Era só o que faltava, pensou Brant. Agora eles iriam disputar com os escorpiões para ver quem iria matá-lo. Os escorpiões logo
voltaram a si, e ignoraram o pequeno exército, voltando a concentrar toda a sua fúria em Brant.
Brant sabia que estaria morto, a menos que testasse uma coisa que vinha planejando havia algum tempo. Uma vez, ele tinha visto um protótipo de
arma, que aproveitava o fogo de uma tchã, aliado á um líquido inflamável, que lançava fogo á dezenas de metros. O protótipo, é claro, não pôde ser construído,
porque, segundo o inventor, não havia tecnologia nem habilidade suficiente na época, mas era uma grande ideia. Então ele tinha que tentar.
Formou a esfera de calor, e imaginou ela se projetando, também para frente, se expandindo cada vez mais. E então aconteceu.
Ele se maravilhou com o que viu. A partir do calor de suas mãos, produzia-se fogo quase que magicamente, e esse era direcionado para onde Brant
queria. Ele teria que dar um nome para isso, e ele estava convicto de que o nome deveria ser lança-chamas. Podia ser um nome não muito criativo, mas, pelo
menos, tinha personalidade.
Os escorpiões mais próximos foram tostados pelo fogo que Brant lançava, e os mais distantes recuaram, antes de virar churrasquinho. Mas eles não
conseguiram fugir. O Exército dos bárbaros caiu sobre eles, e foi uma chacina total. Brant desligou o seu mais novo lança-chamas, e no instante seguinte, viu o
mundo enegrecer. Ele não saberia o que ou quem iria vencer a batalha, porque ele não estaria acordado para isso.
A última coisa que sentiu foi o seu corpo caindo sobreo de Fred e Taylor.

36
Os Bárbaros
Brant
Brant acordou em uma cela úmida e fétida. Ele não sabia quanto tempo tinha passado, mas calculava que já era noite, pois não havia iluminação
alguma, exceto a proveniente de uma tocha. Olhando bem ao redor, ele pode perceber que era uma cela circular, com paredes de pedra, e com uma única porta
de madeira rudimentar. Pelo local das acomodações, parece que os bárbaros tinham ganhado a batalha. Foi só então que ele percebeu mais alguém na cela.
Como estava escuro, não se surpreendeu de não ter percebido antes.
Era Taylor. Animado por vê-lo ali, e percebendo que ele estava desacordado, resolveu procurar por Fred, mas não o viu por canto nenhum. Então ele
lembrou-se do que havia ocorrido, e constatou que Fred poderia estar... Ele provavelmente estava...
Não, ele não podia pensar assim. Os bárbaros provavelmente tinham levado ele para algum lugar para ser curado. Ou qualquer coisa que eles fazem.
Fred só não poderia estar morto.
Agora ele precisava pensar em como sair dali. Tentou chamar por Taylor, mas ele não respondeu. Concentrando se nas algemas que p rendiam os seus
braços à parede, tentou esquenta-las ao ponto de derreterem. A primeira tentativa foi em vão. O lança-chamas tinha esgotado suas reservas. Ele teria de
conversar com Morte depois sobre isso. Tentou de novo, tirando do fundo do poço, e conseguiu que elas esquentassem pelo menos o suficiente para que ele
pudesse soltar as mãos.
Depois de conseguir livrar as mãos, foi ver como Taylor estava. Ele estava com um corte feio em cima da sobrancelha esquerda, mas que não estava
sangrando, e que havia sido limpo. Foi então que Brant escutou um barulho à porta. Provavelmente era um guarda. Correu para t rás de onde a porta abriria, e
esperou.
Houve um tilintar da chave na fechadura, e depois a porta foi lentamente aberta. Entrou primeiramente um guarda, que pareceu não perceber que
Brant não estava mais acorrentado à parede. Depois de ter certeza de que não entraria nenhum outro guarda, Brant partiu para cima do guarda que já tinha
entrado. Estava para acertar-lhe um golpe atrás da cabeça quando algo o apanhou por trás, dobrou seus braços nas costas, e lhe deu uma chave de pescoço,
chutando seus joelhos por trás, e o fazendo ficar de joelhos no chão, totalmente imobilizado. O mais estranho: era como se uma energia sobrecarregada
estivesse no ar, por que ele não estava vendo nada.
- Eu sabia que ia funcionar - disse uma voz às costas de Brant – como eu disse, ele se libertou e estava esperando atrás da porta – então, o garoto que
os estava seguindo apareceu do nada, como se ele estivesse invisível. – o que me desapontou foi aquele ali. – indicou com a cabeça Taylor.
- Esperem, - falou Brant – vocês falam a nossa língua?
- É obvio, não? – disse o guarda que entrou primeiro. Caso contrário, você não estaria nos entendendo. – Ele saiu um momento, e retornou em seguida,
com uma roupa parecida com a dele. Calças feitas de couro de algum animal semelhante à de cavalo, camiseta de linho, provavelmente, e casacos de pele
grossa, muito peluda, que Brant não fazia a menor ideia do que eram, mas que era igual á do garoto que o estava segurando. Provavelmente isso queria dizer
que eles o tratariam como igual. Ou não. – Troque a roupa. Você deve falar com o rei, e não esta apresentável.
O garoto abaixou-se e falou no ouvido de Brant:
- Nós não queremos machuca-lo. Por isso é melhor você não tentar nenhuma idiotice. – e soltou Brant.
Brant se levantou e virou-se, tentando localizar o garoto, mas não conseguiu o ver. A porta estava aberta, o guarda do outro lado da cela. Ele poderia
tentar fugir, mas decidiu não tentar isso. Taylor estava ali, e se ele fugisse ninguém poderia protegê-lo. Além do mais ele estava curioso com o que o misterioso
rei tinha para falar. Olhando para o guarda que não tinha saído, ele falou:
- Um pouco de privacidade seria bom, por favor? – e com a cabeça indicou a saída. O guarda deu de ombros e saiu, fechando a porta atrás de si. Brant
tirou os trapos sujos que estava usando. Vestiu primeiro a calça, e percebeu que além de confortáveis, elas eram quentes. A camisa já nem tanto. Embora leve e
confortável, não era nada quente, e Brant começou a sentir frio. Eles deveriam ter sido levados para uma das regiões mais altas, pois a temperatura havia caído
drasticamente. Mas, quando pôs o casaco, percebeu que não iria mais sentir frio. Era como se o casaco isolasse o frio para o lado de fora.
- Muito bem, - uma voz atrás dele o assustou – Agora que você já está pronto – Brant se virou, mas não viu ninguém. – Vamos. – e o garoto apareceu.
Ele estivera invisível! Por isso Brant não tinha visto ele.
- Você estava aqui o tempo todo? – realmente, aquele cara estava se tornando muito inconveniente.
- É claro. Nunca deixe um prisioneiro sozinho. – dando um sorrisinho, ele continuou – mas não se preocupe, eu não olhei.
Brant realmente não estava gostando do jeito atrevido dele. Ele daria uma boa surra na primeira oportunidade que tivesse.
- O que você está esperando? – disse o garoto. Provavelmente percebendo que Brant não obedeceria, o garoto acrescentou – Lá tem comida.
Isso fez o estômago de Brant dar uma virada. Ele não sabia há quanto tempo tinha comido pela última vez. Isso era de se esper ar já que ele não tinha
ideia de quanto tempo ele ficara desacordado. Resolveu seguir o garoto.
Ao sair da cela, percebeu que aquilo ali deveria ser a área V.I.P. da masmorra, por que ao olhar mais para o fundo do corredor, percebeu que a distância
entre as portas das celas diminuía o que significava que também diminuía o espaço interno. Era simplesmente um corredor de pedras, com por tas de madeira.
Logo á frente, o corredor se dividia e tomava dois rumos, esquerda e direita. Eles pegaram a direita, mas o guarda que estava com eles pegou a esquerda. Brant
notou isso e disse:
- Quer dizer que confia em mim? – Brant disse isso com certa satisfação.
- Não, - respondeu o garoto – quer dizer que eu confio em mim, e que eu posso te dominar facilmente.
- Por que você é tão arrogante? – Brant falou com repugnância.
- Dependo do ponto de vista. – respondeu o garoto, sorridente – do meu ponto de vista, você está sendo arrogante, por me afrontar na minha casa.
Qual o seu nome mesmo?
- Brant – Ele realmente não tinha levado em consideração aquele ponto de vista. Pensou que seria melhor ter cuidado dali em diante. – E como você se
chama?
- Carl – respondeu o garoto. – Você sabe por que você ainda não está morto?
- Não – aquilo causou um arrepio na coluna de Brant – por quê?
- Por que eu disse para não mata-los – mais uma vez com um sorriso zombeteiro no rosto, ele completou – Eu achei que vocês tinham algo de especial,
assim como eu.
- Como você? – Brant perguntou. Então ele se lembrou da cela, e como ele tinha ficado invisível – você está falando da invisibilidade?
- Exatamente. – respondeu Carl – e da maneira como vocês fazem aquelas coisas legais. – um brilho passou pelos seus olhos. – como vocês aprenderam
aquilo?
- Por necessidade. – respondeu Brant – e por talento natural. Afinal, nós somos descendentes das antigas raças.
- Eu já vi muitos descendentes, mas nenhum que pudesse fazer aquilo! – o garoto disse impressionado.
- É que nós somos provavelmente os únicos de linhagem totalmente pura que você já viu. – respondeu Brant – mas e você? Como aprendeu essa
técnica de ficar invisível?

37
- Ah, isso foi por acidente – disse Carl – quando eu era menor, estávamos brincando de se esconder, e eu acabei ficando com medo de que me
achassem. Fiquei invisível e fiquei escondido por cinco horas, e quando cansei fui procurar os outros. Eles quase morreram de susto, pensando que fosse um
fantasma, afinal eu não aparecia. E foi então eu descobri. Daí que foram me contar que eu era descendente dos homens estranhos, puro por parte de mãe e
mestiço por parte do pai.
- Então você é quase puro? – perguntou Brant.
- Na verdade eu não sei direito. Minha mãe era pura, mas morreu no parto, e não tive oportunidade de conhecer o meu pai. Ela o conheceu perto das
cavernas onde vocês acamparam. Ele estava coletando cogumelos, para fazer algum remédio, e disse que era das cidades ao sul. – ele fez uma pausa para
respirar. – sabe, foi assim que eu encontrei vocês. Eu costumo muito visitar aqueles lugares, e então eu vi vocês chegando, e vi o cara enorme de água. Aí então
eu pensei que vocês poderiam ser úteis.
- Úteis? – perguntou Brant – como assim?
- Isso é assunto para o rei. – pela primeira vez, ele ficou sério – desculpe.
- Não se preocupe – Brant afirmou, e achou melhor mudar de assunto. – Então, por quantos dias eu dormi?
- Por cerca de um dia e meio. Nós trouxemos vocês aqui para cima por volta do meio dia de ontem. Agora é noite. – Carl fez outra pausa – eu vi que
aconteceu. Você deve tomar cuidado ao usar os seus poderes. Isso vai acabar destruindo você.
- Eu me senti extremamente mal e cansado – “nossa!” Brant pensou “dormi por cerca de um dia e meio”. Então ele percebeu uma coisa que Carl tinha
falado – aqui em cima?
- Sim – disse ele animado – você está no topo das montanhas, mais exatamente no coração do topo. Você não percebe a dificuldade maior de respirar e
a queda de temperatura.
- Eu pude perceber – Então ele se lembrou de outro assunto urgente. – e Fred, como ele está?
- Fred é o seu amigo que foi picado pelo escorpião? – com o aceno positivo de Brant, ele continuou - Ele está bem – Carl parecia preocupado agora –
mas não estará por muito tempo. Eu lhe explicarei mais tarde. Agora, é de suma importância que você se negue a fazer o que for ao rei. Ele vai mandar matar
todos vocês. Chegamos.
E sem dar tempo para Brant absorver tudo aquilo, eles viraram uma esquina e deram de cara com uma enorme porta de carvalho, gua rdadas por dois
guardas com lanças. Brant pode perceber que era a mesma vestimenta do pobre coitado do qual ele tinha roubado a lança para lutar contra os escorpiões. Carl
falou alguma coisa em outro idioma para os guardas, e eles liberaram a passagem. Brant perguntou:
- O que você disse á eles?
- Eu nos apresentei na língua do povo das montanhas – explicou Carl.
- Mas eu pensei que todos falassem o idioma comum? – Brant não estava entendendo nada.
- Nem todos. – Carl abriu a porta – Somente os que saem para explorar ou fazer comércio são obrigados a aprender. O rei, por exemplo, não fala. Eu
vou ser o seu tradutor. E não fale sem ser chamado. Ele pode mandar cortar a sua língua. Silêncio a partir de agora.
Brant tratou de fechar o bico e observar. Quando Carl abriu a porta, ele não pode acreditar. Era uma sala oval, com diversos objetos espalhados. No
centro havia uma mesa com a maior variedade de comidas que Brant já havia visto. Nos quatro lados mais afastados havia quatro cadeiras douradas, com
tamanhos diferentes. A do canto norte, era a maior, e Brant calculou que era a cadeira do rei, porque tinha um enorme tapete vermelho indo em direção á ela.
Dos lados das cadeiras, havia enormes tapeçarias penduradas no teto. Também estavam dispostas cabeças de diversos animais, em palhadas e espalhadas pelas
paredes. Havia inclusive, uma de um dragão, pequeno, com certamente não mais de um ano de idade. Estavam dispostas da menos perigosa, uma de porco, Até
a mais perigosa, a do dragão. Pareciam troféus, de criaturas que o rei tinha matado.
O rei estava sentado à cabeceira da mesa, com duas mulheres de cada lado, e era exatamente como Brant tinha imaginado. Gordo, barbudo e tinha
diversas manchas de gordura por toda a roupa e barba. Embora manchada de gordura, nem a barba nem o cabelo, mostravam qualquer sinal de cabelos
brancos, o que significava que o rei ainda não era muito velho. E pelo jeito como era gordo, nem ficaria. Uma coroa de ouro estava posicionada torta em sua
cabeça. Ela era formada por cinco anéis, e cada anel estava encrustado com um tipo diferente de pedra preciosa. Ele olhou para os recém-chegados, e Carl
ajoelhou-se. Brant, imaginando que por sinal de respeito, se ajoelhou também. O rei grunhiu alguma coisa, e Carl levantou. Antes que Brant pudesse se levantar,
Carl botou a mão em seu ombro e o empurrou para baixo, forçando-o a ficar ajoelhado.
- Ainda não – murmurou baixinho – ele não lhe deu permissão.
O rei empurrou a cadeira para trás e se levantou. A barriga dele era realmente enorme. Fez sinal para que as mulheres saíssem, e fez sinal para que
Brant levantasse. Quando Brant se levantou, o rei andou até perto dele, virou-se para a mesa e puxou uma cadeira.
- Sente-se – disse Carl – isso é um sinal de boas vindas e receptividade. Ele o está acolhendo.
Brant se direcionou para a cadeira e sentou. Era quase como uma tortura. Diversos tipos de comida á sua frente que exalavam u m cheiro maravilhoso,
mas não se atreveu a pegar sem ser convidado. Isso podia ser falta de respeito, e ele não queria perder a mão ou qualquer que fosse a parte do corpo que eles
cortassem por isso.
Brant ficou realmente impressionado quando o rei puxou uma cadeira ao seu lado para Carl se sentar. Isso podia dizer que ele era uma pessoa muito
importante. Talvez fosse até filho do rei, com uma das mulheres, e tivessem ocultado isso dele para ele não se achar acima do direto. Com essas conclusões,
Brant tentou achar semelhanças entre os dois, mas isso era impossível. Enquanto o rei era extremamente gordo, Carl tinha o corpo atlético, até bem definido. O
rei tinha um cabelo longo, loiro-sujo e emaranhado. O De Carl era curto, mas bem cuidado, além de ser preto. A pele do rei era branca como a neve, somente as
bochechas que estavam avermelhadas, provavelmente por causa do vinho que ele deveria ter tomado enquanto esperava já a pele de Carl, não era bronzeada,
mas também não era tão descorada, ficava num meio termo. E quanto à barba, o rei tinha um monte, muito cheia, enquanto Carl tinha uma leve penugem se
formando, e a que já tinha se formado, ele aparentemente aparava com cuidado. Ele com toda certeza não era filho do rei. E com toda a certeza, as garotas da
cidade do sul se derreteriam por ele.
Mas a maior diferença estava nos olhos. Enquanto os do rei eram frios e calculistas, que analisavam as pessoas no mais íntimo, os de Carl eram quentes,
ferventes de fúria, prontos para batalha, e Brant decidiu que não seria uma boa ideia entrar em uma batalha contra ele.
Com os dois garotos sentados, o rei voltou a seu lugar, e Brant percebeu que a barriga já o atrapalhava para se sentar. Carl fez menção de se levantar
para ajudar, mas o rei lhe lançou um olhar frio, o que o fez se encolher na cadeira.
O rei finalmente conseguiu se sentar. E o que aconteceu a seguir, fez com que Brant se assustasse, e fez com que Carl quase c aísse da cadeira. O rei
falou no idioma comum.
- Você sabe por que está aqui?
- Não. – disse Brant ainda surpreso do choque. – O senhor sabe falar o idioma comum?
- Mas é claro! – disse e soltou uma gargalhada cavernosa – que tipo de rei eu seria se não soubesse? Mas enfim, você está aqui por que nós precisamos
de você. E por que você precisa de nós.
- O que? – Brant parecia mais surpreso – como assim?

38
- Eu vou lhe explicar. Mas primeiro vamos comer. – disse o rei se inclinando sobre a mesa e pegando uma perna de galinha. – sirva-se também – disse
ele, indicando o prato de Brant. Ele hesitou, mas quando Carl lhe fez sinal, ele começou a se servir. Havia tanta variedade! Desde pedaços de animais assados, a
diversos tipos de frutas, além de peixes. O rei percebeu que Carl não estava comendo e disse – por que você não está comendo meu jovem? Por acaso nada
disso lhe agrada?
- É que eu já comi. – mentiu ele. Até um surdo perceberia a mentira em sua voz.
- Não tente me enganar – o rei fez uma cara séria. – o que está havendo?
- É que o senhor me disse que precisava de um tradutor, mas – ele fez uma pausa, como se estivesse com medo de falar – se o senhor sabe falar a
língua comum, por que me queria aqui?
- É por isso que eu gosto de você – disse o rei – não deixa passar nada. Mas depois você entenderá. Agora coma. É uma ordem.
Brant percebeu que orei estava brincando, mas ele passava tanta autoridade, que até Brant começou a comer o pedaço de pernil que ele havia pegado.
- É o seguinte – disse o rei. – Nós precisamos de você por que – ele fez uma pausa para morder um pedaço da coxa, - nós vamos te trocar por reféns.
Brant engasgou com o pedaço de pernil que estava engolindo. Carl lhe entregou uma taça com uma bebida estranha, mas que ajudo u tudo a descer.
Depois de passado o sufoco, ele virou para o rei e disse:
- Como assim reféns? – ele estava espantado – pensei que eu fosse convidado!
- E você é, mas eu vou lhe explicar mais tarde. Faz parte de um plano. E você precisa de nós por que senão o seu amigo vai morrer – o rei notou que
Brant estava ficando branco, e então perguntou para Carl – você não contou a ele?
- Eu contei o que me disseram que eu podia contar. – o rei fez sinal com a cabeça para ele, e desviou toda a sua atenção para o prato. Então Carl virou-
se para Brant – O seu amigo está bem como e disse, mas não vai estar por muito tempo. Ele foi arranhado por um dos escorpiões do vale, o que causa uma
morte dolorosa e demorada. As nossas curandeiras estão fazendo o máximo possível para atrasar o efeito do veneno, mas elas não podem curar ele. Fred ainda
tem dois dias, se der sorte.
- E não há nada que possa ser feito? – Brant já estava ficando desesperado.
- Na verdade, há sim, e aqui que entra a parte dos reféns. – falou Carl – nós temos um plano que pode salvar o seu amigo, e recuperar um dos nossos ao
mesmo tempo.
- E que plano é esse? – disse Brant desesperado – o que eu posso fazer para ajudar?
- Primeiro você precisa estar a par de algumas situações. – falou Carl – primeiro: é a única maneira de salvar seu amigo. Segunda: há uma grande chance
de você morrer. Na verdade a chance é enorme.
- Ok tudo bem – disse Brant – mas como eu vou salvar Fred?
- Nós vamos te entregar como refém – disse o rei da ponta da mesa – para outro clã das montanhas. E trocá-lo por um dos nossos.
- E como isso vai salvar Fred? - Brant interrompeu – por acaso essa outra pessoa sabe como fazer isso?
- Não – disse o rei – esta outra pessoa é o meu filho. – parecia que uma pedra enorme tinha caído sobre os ombros do rei – e essa é a única maneira de
salvá-lo. Ele vai ser oferecido como sacrifício esta noite.
- Desculpe a pergunta, - Brant parecia constrangido – mas como trocá-lo de lugar comigo, e me mandar para o sacrifício vai salvar Fred?
- É por que o sacrifício é feito para uma criatura do vale. E o sangue dessa criatura é o único que pode anular os efeitos do veneno do escorpião. –
respondeu Carl.
- Mas e por que nós não fazemos diferente? – disse Brant – em vez disso, poderíamos acabar de vez com essa tribo, trazer o seu filho de volta e depois,
com o exército inteiro ir buscar o sangue desse animal.
- Seria ótimo se fosse tão simples – disse o rei – mas acontece é muito perigoso para um exército se infiltrar no vale, ontem eu perdi muitos homens
bons. Uma pessoa só tem muito mais chance de passar despercebida. Quanto á invasão, esse é o nosso plano, mas ninguém sabe a localização exata do local do
esconderijo do clã inimigo.
- Verdade – disse Carl – eu já tentei seguir um deles, mas se você não for convidado, seus poderes não funcionam, e você não pode passar de certa área
das montanhas.
- E é exatamente nessa parte que você entra Carl – completou o rei.
- Como? – Carl tinha sido surpreendido com aquilo.
- Você será trocado como refém, assim como Brant. - o rei limpou a gordura da barba – e assim descobrirá como chegar ao local do inimigo. Assim, nós
poderemos acabar de vez com eles. E depois pode ajudar Brant com o problema dele.
- Mas... – Carl começou.
- Não me contradiga! – exclamou o rei. Pensando melhor, ele mudou de assunto. – leve Brant para ver como está o amigo dele.
Sem questionar as ordens, Carl se levantou e disse:
- Por aqui – e Brant o seguiu.
Brant percebeu que não adiantava tentar iniciar uma conversa. Carl não iria querer falar nada. Ele estava remoendo os próprios problemas. Quando
saíram por uma porta lateral que eles haviam entrado antes, e ele estava decidido pelo menos a tentar.
- Então, o que mais você sabe sobre o seu pai? E sobre sua mãe?
- Segundo o que me contaram, eles eram maravilhosos – Brant sabia que tinha atingido o local ideal, pois os olhos de Carl começaram a brilhar. –
embora meu pai não tenha passado muito tempo aqui, ele era um ótimo médico. Mas segundo o que me contaram, ele tinha outra família, na cidade.
Uma ideia estava se formando na mente de Brant, e ele esperava que não fosse verdade.
- Aqui está – disse ele abrindo uma porta à esquerda do corredor onde eles estavam.
Brant olhou para a porta aberta, e decidiu que era melhor não saber.
- Vamos – disse Brant – eu não quero saber.
- Mas você sabe que - Carl deu uma engasgada – que pode ser a sua última oportunidade de ver ele.
- Sim, mas – Brant sabia que ele só queria ajuda-lo, mas mesmo assim...
- Meninos! – disse a voz de rei, saindo pela porta que eles tinham acabado de sair. - vejo que já terminaram! Prontos para ir?
- Sim – respondeu Brant, e virando-se para Carl, ele perguntou algo que queria ter perguntado há muito tempo. – Qual é a criatura do sacrifício mesmo?
Carl olhou para ele e considerou se deveria contar para ele ou não. Ele não achou que Brant fosse alguém que amarelasse á menção daquela simples
palavra.
- Um dragão.

39
Terror Diurno
Brant
O local de oferenda de sacrifícios não era nada do que Brant tinha imaginado. Ele achava que seria sobre alguma mesa de pedra, amarrado com
correntes de ferro, ou algo do gênero. Mas não. Era amarrado por finas cordas, em uma cruz, sobre um penhasco, do qual ele não podia ver o fim, mas podia
ouvir o barulho de um rio correndo voraz no fundo, e ele preferia com toda a certeza a pedra com as correntes.
O plano tinha começado bem. Ainda na caverna dos bárbaros (embora Brant preferisse chama-los de povos da montanha, agora que tinha descoberto
que eles não eram os verdadeiros bárbaros) ele tinha pedido para o rei as suas armas de volta, mas ele tinha as negado para ele, por que não haveria
necessidade alguma delas. Os bárbaros (estes sim bárbaros) não permitiriam que eles entrassem com armas no território deles. Até aí tudo bem. Eles se
encaminharam para o local de troca, por caminhos cheios de neve, os quais, Brant teve certeza de que não seria capaz de fazer de volta, caso sobrevivesse ao
sacrifício. A troca ocorreu maravilhosamente bem. Muita emoção com reencontro de pai e filho, e blá, blá, blá. Brant não saberia dizer como foi o resto do
percurso, porque eles colocaram um capuz em sua cabeça, e ele não podia nem ver nem ouvir nada. Ele só esperava que Carl estivesse seguindo eles.
Quando chegaram a um local, Brant foi bruscamente derrubado do cavalo. Ele imaginou que tinham chegado ao local do sacrifício, mas logo percebeu o
alvoroço dos bárbaros, e percebeu também que eles estavam tentando puxá-lo pelos braços sem sucesso. Ele soube então que tinham chegado aos limites da
fronteira que o impedia de passar com poderes. Ele teria que pedir autorização. Mentalizando o que o rei tinha dito para ele falar quando chegasse a tal ponto,
ele disse algo que deveria ser na língua dos bárbaros. Parecia que tinha funcionado, pois os bárbaros ficaram agitados, e um deles disse algo em voz alta,
provavelmente algo para quebrar o feitiço, e então puderam seguir o caminho. Foi aí que as coisas começaram a dar errado.
Brant esperava que Carl tivesse conseguido passar pela barreira ainda invisível. Mas essa esperança se desfez quando ouviu um dos bárbaros gritar
alguma coisa e começar uma agitação. Então o capuz de Brant tinha sido arrancado. Carl provavelmente tinha conseguido passar pela barreira mágica, mas tinha
perdido seus poderes sem perceber, e não estava mais invisível.
- Oi – disse Carl com um sorriso na cara – parece que não deu certo.
- É, parece – Brant percebeu que um dos bárbaros estava gritando com outro, e apontando para eles e para o penhasco. Ele esperava que não
significasse “Ei, vamos ver por quanto tempo eles gritam antes de virar almondegas no fundo do penhasco”. Mas não era isso – Você sabe o que eles estão
dizendo?
- Eu entendo bem pouco da língua deles, mas pelo que eu entendo – Carl parou de falar para prestara atenção no que os bárbaros estavam falando –
acho que eles vão nos oferecer em sacrifício aqui mesmo. Só que isso é um problema.
- Por quê? – não que Brant quisesse mesmo saber, mas a curiosidade foi maior do que o medo da resposta.
- É que no local original, você – mas pausou, por que agora a situação tinha mudado – nós, teríamos que descer uma encosta e ir até o local da caverna
que o dragão habita. E aqui, bem... – e apontou para o abismo.
Como ainda era noite, era impossível ver o fim do abismo, devido á escuridão, mas Brant tinha certeza de que lá havia um rio, por causa do barulho.
Parecia que os bárbaros tinham chegado a uma conclusão, e resolveram fazer o sacrifício ali mesmo.
- Droga – falou Carl para Brant – se eles fizerem aqui, nós estamos ferrados.
- Por quê? – Brant já estava ficando cansado de tantas más notícias.
- Por dois motivos. Nós estamos dentro da barreira mágica, o que quer dizer que os nossos poderes não funcionarão. E o outro, se é que nós
conseguiremos fugir, é que talvez a queda nos mate. – esclareceu Carl – mas veja pelo lado bom. Pelo menos, nós estamos acima do ponto de sacrifício, e o rio
que está lá em baixo, bem, ele passa em frente á caverna do dragão.
- Como é que nós estamos acima do ponto de sacrifício? – perguntou Brant.
- Como o dragão é uma das criaturas amaldiçoadas, ele não pode sair do vale, ou seja, ele não chega aqui. – Carl teve uma ideia que nunca tinha lhe
passado pela cabeça. – E se eles estão preocupados em ofertar algo para o dragão, ou eles não sabem que o dragão não pode sair do vale, o que é bom para
nós, ou vamos ter uma longa descida pela frente – indicou com a cabeça o penhasco.
Os dois bárbaros que estiveram discutindo acenaram para alguns dos guardas que estiveram por perto, e os guardas pegaram Brant e Carl. Brant tentou
espernear, morder e gritar, o que ele constatou depois, não era uma atitude muito corajosa, mas parou ao perceber que Carl não estava fazendo nada daquilo.
Ele olhou com cara de espanto, enquanto Carl era amarrado na cruz por primeiro. Como os bárbaros não tinham uma cruz reserva, resolveram que daria para
apertar duas pessoas em uma. Como Carl havia sido amarrado na parte de cima, Brant presumiu que ele seria amarrado na parte de baixo. Estava certo.
Eles foram levados até a borda do penhasco, e a cruz foi levantada. Brant não queria olhar para baixo, nem para cima, (nas duas situações, ele estava
com medo do que poderia ver) por isso optou por olhar para frente. Nada tinha de interessante em frente, a não ser um paredão de pedras. Então arriscou uma
olhadela para baixo. Ainda era noite, por isso não podia ver o fundo, mas via que as paredes ficavam mais próximas, ao ponto de quase se tocarem, antes de
desaparecer na escuridão.
Então, um plano começou a se formar na mente de Brant. Parecia que Carl tivera o mesmo plano, porque ele disse:
- Brant, comece a forçar o peso para frente e para trás. Essa cruz não está bem fixa. Se o que eu estiver pensando funcionar...
Brant começou a fazer o movimento, e logo percebeu que a cruz iria ceder, pois ela estava fixa por duas cordas, e estas fixadas em pequenos suportes.
Os bárbaros haviam começado um tipo de cântico, e nenhum havia percebido o que estava acontecendo. Brant estava fazendo o melhor que podia, mas com os
braços amarrados juntos ao corpo, ele não podia fazer muito. Aos poucos, a cruz foi ganhando movimento, e mais movimento, se inclinando para frente e para
trás, mantendo-se alinhada graças às cordas. Foi então que os bárbaros pararam o cântico.
- É agora ou nunca! – Gritou Carl, e ambos se inclinaram o máximo que conseguiam, para trás, que foi quando o primeiro dos bárbaros percebeu o que
eles estavam fazendo. Mas já era tarde. A cruz estava voltando, se inclinando para frente. Chegando a poucos centímetros de c air, ela parou. Estamos ferrados,
pensou Brant, até que uma voz feminina falou:
- Precisam de ajuda meninos? – Brant olhou para o local de onde vinha à voz, e viu uma figura encapuzada, com uma adaga em uma das mãos, próxima
a um dos suportes para as cordas. Brant não teve tempo de falar nada, só viu a adaga descendo em direção à corda. No momento em que a corda se rompeu, a
cruz girou sobre o próprio eixo, e se pendeu sobre o abismo. A figura encapuzada apareceu no lado do outro suporte, e cortando a outra corda, ela disse:
- Tchauzinho, garotos.
Brant não percebeu a queda. Ele estava contemplando o pouco de face que ele tinha conseguido ver. Era uma garota! Mas ele não teve tempo de falar
nada, porque a garota deu um golpe com a adaga na altura do estômago de um bárbaro, e desapareceu em seguida.
Os gritos de Carl despertaram Brant. Eles estavam caindo, e estavam ganhando velocidade. Era melhor que o plano funcionasse. E pelos cálculos dele,
eles deveriam se chocar com a parede do penhasco em algum momento a seguir.
A pancada foi mais brusca do que ele imaginava que poderia ser. Ele sentiu a madeira dando estalos por baixo de suas costas, e ouviu Carl dando uma
grande ofegada, logo acima dele. Mas o mais importante foi que ele pode sentir os poderes voltando. Logo a parte mais crítica do plano que eles tinham
formulado ainda na caverna entraria em fase. Com os poderes a toda, ele sentiu as cordas que prendiam os seus pulsos , e imaginou elas se incendiando. Depois
foi a vez das que prendiam seus pés. Assim que ficou livre, foi a vez de libertar Carl. Para isso, ele não precisaria de seus poderes. Pegou a pequena faca

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triangular que tinha escondida na calça, e que tinha ganhado para proteção, caso precisasse, e cortou as cordas que prendiam as pernas dele. Quando se
encaminhou para cortar as que prendiam as mãos, o peso fez com que a cruz cedesse alguns centímetros.
- Cuidado – alertou Carl. – se essa cruz ceder...
Ele não precisou terminar. Brant olhou para onde a cruz tinha cedido. Ela estava sendo sustentada por um tipo de galho que saia do meio do paredão,
talvez fosse até mesmo uma planta por inteira, que provavelmente estava morta. Cuidadosamente, Brant cortou uma das cordas, e m uma das mãos, e deu a
faca para que Carl mesmo cortasse a outra. Carl cortou a outra, e quando foi devolver a faca para Brant, eles puderam ouvir o som de madeira rachando.
- Oh-oh – Carl teve tempo de dizer, e então a madeira cedeu. Primeiramente, ele pensou que iriam morrer, mas esse pensamento mal teve tempo de
passar por sua cabeça e eles já colidiram com alguma coisa dura. Pela distância que tinha caído, Carl pensou que fosse alguma plataforma elevada, a metros do
fundo do penhasco. Mas não era. Era a margem rochosa do rio. E o rio, não era nada do que parecia de cima, aonde o barulho ch egava amplificadas dezenas de
vezes. Era pouco maior que um riacho, e não tinha nem um metro de profundidade, por pouco mais de dois de largura.
- Brant – Carl chamou. Ainda estava muito escuro, embora ele pudesse visualizar uma silhueta, que deveria pertencer a Brant, logo á frente. – vamos,
temos que ir.
- Então vamos – respondeu a voz de Brant atrás dele.
No mesmo momento, Carl puxou a adaga que tinha escondida na manga do casaco de peles. E preparando-se para o combate disse:
- Quem é você? – a figura estranha desapareceu, e ele sentiu uma lâmina fria no pescoço.
- Abaixe essa adaga – disse uma voz feminina, as suas costas. – eu tenho algumas perguntas para fazer.
- Você? – Brant disse, reconhecendo a garota que estivera no topo do penhasco. Pegando a faca, ele continuou – quem é você e o que você quer?
- Quanto a quem eu sou vocês saberão na hora certa, mas o que eu quero – ela baixou a adaga do pescoço da Carl – simplesmente ajudar vocês, por
isso, seja gentil e abaixe essa faca. – Ela esperou até Brant abaixar a faca, e disse – ótimo. Vejamos. Vocês estão próximos á caverna do dragão. Mas vocês estão
fazendo tudo errado. Não é do sangue deles que vocês precisam.
- Não? – Brant estava começando a estranhar, se é que aquilo podia ficar mais estranho. – e do que nós precisamos então?
- Dos cogumelos que crescem na caverna dele – respondeu ela – uns de aspecto roxo. Mas eu já vou avisando que vocês terão problemas.
- Por quê? – perguntou Brant embora a resposta parecesse óbvia. Eles iriam invadir a caverna de um dragão e pegar a decoração. É obvio que isso era
motivo suficiente para que eles se preocuparem, mas a garota disse:
- Além, é claro, de vocês estarem invadindo a caverna de um dragão, vocês jamais devem ter contato com os cogumelos. Eles são uma fonte
inacreditável de poder, e, como vocês já devem saber poder em excesso pode acabar destruindo, tanto quanto o uso exagerado dele.
- Mas como é que nós vamos pegar estes cogumelos sem tocá-los? – perguntou Carl – e como isso pode salvar Fred?
- Tomem isso – disse a garota, atirando uma pequena espécie de recipiente de vidro. – guardem aí dentro, e façam este tal de Fred cheirar o pó que vai
se soltar do cogumelo. E não se preocupem – disse a garota prevendo o que Brant iria falar – a caverna não está cheia desse pó. O cogumelo só solta quando
ficar sem oxigênio. É um tipo de autoproteção.
- E como você sabe sobre os nossos problemas? – perguntou Brant, e uma sugestão de ideia apareceu na sua cabeça – você tem nos seguido!
- Exatamente! – disse a garota, e Brant pode perceber um sorriso por baixo do capuz – lembra-se da arqueira na cidade? Era eu.
- Então você precisa aprender a atirar melhor, porque errou todas – retrucou Brant, só para ver no que ia dar.
- É melhor você não me provocar – e puxando uma flecha das costas, e um arco que Brant não conseguiu ver de onde, ela disparou na escuridão,
acertando um morcego que estava pendurado em uma entrada de caverna alguns metros acima deles. Puxando outra flecha, ela apontou para o olho de Brant,
e disse – quer ser o próximo?
- Não, obrigado – Lembrando-se de algo, Brant perguntou – Você é a quarta? Quero dizer, a descendente dos Elfos?
- Eu já lhe disse que vocês saberão quem eu sou na hora certa. E mesmo que eu fosse, seria a quinta, não a quarta. Esse aí – disse indicando com a
cabeça Carl – parece que Taylor tem um concorrente pela vaga. – Após uma pausa que fez pesar as últimas palavras, ela continuou – Tenho que ir. E esperem
até o amanhecer. Vocês não iriam querer que o dragão estivesse na caverna quando vocês entrassem.
Dito isso, ela desapareceu. Carl olhou para Brant, pronto para fazer a pergunta, mas a cara que Brant estava fazendo indicava que aquela não era a hora
exata para aquilo. Com isso Brant perguntou:
- Você sabe para qual das cavernas devemos ir? – como o dia estava começando a amanhecer, ele podia ver que os paredões estavam cobertos de
buracos, que provavelmente eram cavernas.
Carl apontou para uma, e Brant soube na hora que era exatamente aquela. Por toda a volta da entrada havia marcas de lugares onde provavelmente as
chamas do dragão pegaram. A entrada ficava alguns metros acima de onde eles estavam, e eles não teriam problemas para chegar até ela, parecia haver uma
encosta... Mas definitivamente não era uma encosta, definiu Brant ao baterem os primeiros raios de sol. Eram ossos de diversas criaturas de diversos tamanhos,
todos carbonizados.
Quando os raios de sol bateram na caverna, não demorou muito para que o dragão saísse, como um borrão negro. Brant foi à frente, com Carl logo
atrás. Quando chegaram à encosta de ossos, ele hesitou um pouco, mas quando Carl lhe deu uma empurrada amigável, ele prosseguiu. Era difícil subir. Os ossos
carbonizados, devido á umidade da proximidade do riacho muitos tipos de musgo cresciam, principalmente nos crânios, fazendo-os ficarem lisos. Ao chegarem
ao topo, na base da caverna, Carl parou.
- Por que você parou? – perguntou Brant.
- E se ele voltar? – respondeu Carl.
- Ele não vai voltar – tranquilizou-o Brant – e caso ele volte, nós podemos nos esconder.
- Não, nós não podemos. – Carl falou – é um dragão Brant. Ele sente o nosso cheiro a dezenas de metros. E caso você não lembre, eu não sou resistente
a fogo como você. Eu tenho uma ideia melhor.
- Qual? – interrogou Brant.
- O rei sempre me contou um segredo, que ele usava para caçar. – como se relembrando o passado, Carl falou – um predador do topo da cadeia
alimentar nunca pensa que pode ser superado. É por isso que um tigre nunca olha para trás. É por isso que um tubarão nunca olha para baixo. E é por isso que
um dragão nunca olha para cima. – terminou indicando uma elevação, logo acima da caverna do dragão.
- E você espera passar despercebido com isso? – com a afirmação de Carl, Brant resolveu não discutir – tudo bem, mas ele não vai voltar.
Carl deu de ombros, e seguiu o seu caminho. Brant sem alternativa adentrou a caverna. Mas estava muito escuro. Resolveu então voltar á entrada e
pegar um dos gravetos que tinha visto ali por perto. Achando o que queria, e incinerando a ponta dele, ele fez uma tchã, e retornou para dentro. Quando ele viu
o que havia no lado interno, se surpreendeu. Ele havia achado que do lado de fora havia ossos. Mas estava errado. No lado de dentro havia muitos mais. Pilhas e
pilhas, porém de ossos branquinhos, quase como se os ossos não tivessem sido carbonizados e expostos á umidade.
Analisando os ossos, ele os viu. Os cogumelos estavam ali, dentre a pilha de ossos. Ele foi direto pegar um, quando ouviu um ruído à entrada da
caverna. Virou-se lentamente, e percebeu uma forma enormemente grande parada lá. E os olhos brilhantes estavam observando fixamente a pequena tocha

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improvisada na mão de Brant. E o mais sinistro. Uma carcaça de um enorme animal pendia inerte de sua boca, com sangue ainda pingando, e um pouco de
fumaça saindo.
Brant não pensou duas vezes, e atirou a tocha para longe, do outro lado da caverna. E os olhos do dragão somente acompanharam . Enquanto estava
distraído, Brant pegou uma amostra dos cogumelos. O dragão avançou para o lado das chamas, silenciosamente, e Brant descobriu que aquela era a sua última
oportunidade. Foi se encaminhando para a saída da caverna, mas pisou em um osso, que estalou, e ecoou por toda a caverna. O Dragão virou a cabeça
lentamente, cm seus olhos brilhando de raiva, e fogo saindo por entre os dentes. Brant fez a única coisa que podia naquele momento. Co rreu, e quando chegou
á borda da saída da caverna, saltou em direção ao rio. Ali ele já começava a se alargar, e já era também bem mais fundo o que impediu que Brant quebrasse a
cabeça no fundo rochoso.
Carl vira tudo de cima. O dragão chegou, e ele pensou em alertar Brant, mas lembrou de que atrairia a atenção para si mesmo. Momentos depois de ver
o dragão adentrando a caverna, ele viu Brant sair correndo de dentro da caverna, e saltar desesperadamente no rio. Junto com ele, saiu um rastro de chamas
vermelho-rubras, e logo atrás o dragão procurando por ele. Carl não queria fazer o que estava prestes a fazer, mas ele sabia que era n ecessário. Pulou sobre o
pescoço do dragão, e o derrubou no rio.
Carl não sabia quem tinha se surpreendido mais, se ele ou o dragão. Uma força inacreditável tinha espontaneamente tomado cont a de cada músculo
seu. Ele não podia acreditar, porque estava brigando com um dragão dezenas de vezes maior do que ele e estava ganhando. Prendendo-o pelo pescoço, Carl
estava chegando a imaginar que iria conseguir sufoca-lo até a morte, mas se enganou terrivelmente. O pescoço do dragão começou a esquentar, e Carl foi
obrigado a soltá-lo. O dragão então se ergueu sobre as patas traseiras, e apontou a fornalha para Carl.
- Oh-oh – disse Carl, pois sabia que iria virar churrasquinho. Ele pode ver a ira nos olhos do dragão, e pode sentir calor quando ele abriu a boca, e ao ver
que o fogo estava saindo por entre os dentes soube que a única coisa que ele sentiria era a dor. Mas algo estranho aconteceu. O fogo passou por ambos os lados
deles, e também por cima, mas não o tocou. Era como se o fogo o estivesse evitando. E Carl logo percebeu por que. Brant estava na margem do rio, bloqueando
o fogo, como se estivesse fazendo uma barreira imaginária. Quando parou de expelir fogo, o dragão parecia meio consternado, p ois certamente ele imaginava
que não deveria ter sobrado nada de Carl.
Carl aproveitou esse momento para atacar. Jogou-se contra o corpo do dragão, ainda com a força o tomando por completo, e o jogou dentro do rio.
Com toda a força que estava dominando os seus músculos, agarrou as mandíbulas do dragão, e as abriu, contra a correnteza do rio. O dragão ainda tentou
soprar algum fogo, mas esse foi o seu maior erro. Ao fazer isso, ele abriu caminho para a água entrar, e pouco a pouco, a chama de sua vida foi se apagando dos
olhos, e ele parou de se debater.
Quando percebeu que o dragão estava inerte, Carl o soltou, e saiu para a margem do riacho, e procurou por Brant. Ele estava caído a alguns metros de
onde ele estava. Correndo em direção à Brant, Carl percebeu que ele estava apenas semiconsciente. Ele calculou que deveria te r sido o uso dos poderes que
havia sido demasiado grande. Ele sabia que estariam correndo riscos, mas ele tinha que arriscar. Pegou o pequeno recipiente de vidro que Brant tinha pegado, e
o abriu sob o nariz dele. No momento em que os poucos grãos de pó tocaram a parte interna do nariz de Brant, ele deu um salto, ficando sentado, em estado de
alerta.
- O que foi que aconteceu? – perguntou Brant, mas ao ver Carl, e o dragão estendido no riacho, ele entendeu – não foi um sonho?
- Não. Foi bem real – respondeu Carl, abrindo novamente um novo sorriso com dentes bem brancos, ao ver Brant olhando para ele de forma assustada
– e não, eu nunca tinha tido essa força espetacular antes. Deve ser uma nova habilidade.
- E por que eu estou me sentindo tão bem? – perguntou Brant – eu usei uma quantidade enorme de poderes, não deveria estar inconsciente, ou... Ou...
- Morto? – falou uma voz logo atrás dos garotos. Era Morte, que estava sentada em uma pedra próxima. – Provavelmente, mas ele – disse indicando
Carl – lhe deu cogumelos-palhaços. Sim, sim – Morte disse ao ver o rosto de Brant – o nome verdadeiro é esse mesmo. Mas o efeito não é nada legal. Ele reforça
os seus laços com a natureza, o que acaba liberando laços de poder, que podem fazer você se desintegrar caso não esteja preparado. – vendo que Brant estava
prestes a se desesperar – mas não se preocupe, a quantidade de alguns grãos que ele lhe deu não vai matar. Serve somente para reestabelecer os poderes, ou
no caso de Fred curar. Mas antes que você pergunte, eles não podem ser usados para reestabelecer sempre. E sabe por quê? Por que tudo o que é bom tem seu
lado negativo. Isso vicia. E acaba por intoxicar o seu corpo. E acaba levando à morte do mesmo jeito.
- Quem é você? – perguntou Carl, novamente com a adaga na mão, encharcado de cima a baixo, mas com um olhar fulminante.
- Calminha aí – disse Morte, e com um estalo de dedos, fez com Brant e Carl ficassem secos. Mas ao mesmo tempo, fez cara de dor. – Eu sou Morte, ou
será que ninguém mais me reconhece?
- Você?! – Carl começou a avançar, mas Brant o conteve – quer dizer que você está do lado dele?
- É uma longa história – começou Brant, mas foi interrompido por Morte.
- Que você pode contar enquanto sobe aquelas trilhas – indicou com o dedo as várias trilhas que acompanhavam o paredão. – eu tenho mesmo que ir
agora. Isso consumiu por demais minhas fontes de energia. E lembrem-se: jamais usem os cogumelos de novo, a não ser que seja uma emergência, por que aí
vocês já estarão mortos o mesmo. – e desapareceu.
- Sinistro. – disse Carl – Todos os seus amigos costumam desaparecer assim do nada?
- Não. – Brant respondeu – mas vamos andando. Temos um longo caminho pela frente. E enquanto isso, eu vou contando os detalhes.
Em cerca de uma hora, eles já estavam distantes de onde havia jazido o dragão, tanto que o ponto exato nem estava mais visível. Em mais trinta
minutos, Brant estimava que eles estivessem alcançando o topo do penhasco. Naquele momento, Brant já tinha terminado de contar os mínimos detalhes, e
Carl já fizera todas as perguntas cabíveis. Com não tinham assunto, já tinham parado de conversar a mais de cinco minutos, e foi quando, Brant distraído,
percebeu que Carl estava parado, chamando atenção dele.
- O que foi? – perguntou Brant – por acaso viu alguma coisa interessante?
- Sim – falou Carl apontando em uma direção – está vendo lá?
Do outro lado do paredão, á algumas dezenas de metros, eles podiam ver fumaça saindo de um buraco.
- É só um pouco de fumaça – disse Brant – o que tem de mais nisso?
- É que pode ser lá o local em que os bárbaros vivem – esclareceu Carl.
- E pode não ser nada – respondeu Brant, mas ao perceber que Carl estava dando, e que pedia compreensão, ele completou – e nós não temos tempo
para isso. Nós temos que salvar Fred.
- Eu sei, mas eu tenho que descobrir onde fica. – Carl sabia que Brant entenderia – eu recebi uma missão e o mínimo que esperam de mim é que eu a
complete.
- Eu entendo, mas... – a frase ficou solta no ar, pois o que Brant viu fez com que o seu sangue congelasse.
- Brant o que foi? – disse Carl preocupado – você está ficando pálido.
- Não se mova. – cochichou Brant. O Enorme Terror noturno estava parado logo atrás de Carl, agarrado à parede, com as garras profundamente
fincadas. – e não se vire.
- Brant! – exclamou o dragão – sou eu! Josh!

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- O que?! – exclamaram Carl e Brant juntos. Carl se virou e quase caiu d caminho que mal existia, a par do paredão. Puxando a adaga de novo, ele disse
para Brant:
- Eu pensei que nós tínhamos matado ele!
- Calma! Calma! – exclamou o dragão – eu não sou quem vocês pensam! Diga para ele Brant.
- Me desculpe, mas eu não sei quem você é – e Brant já tinha pegado sua pequena faca também.
- Você não me reconhece? – então o dragão saltou por cima deles, e quando Brant virou-se para olhar, teve a maior surpresa: o khopereus estava
parado exatamente atrás dele. - que tal agora?
Brant não sabia o que dizer. Ele correu e deu um abraço nos pelos extremamente brancos do khopereus. Ele não podia acreditar que ele tivesse
escapado.
- Espere! – disse Carl – você tem um khopereus?
- Bem, eu não diria que é meu – mas o khopereus disse no mesmo instante para Brant que sim – mas, é sim. Ah, e pelo jeito, o nome dele é Josh.
- Então como é que eu pude entender o que ele disse?
- É que agora a pouco – começou a explicar Josh, mas logo entendeu que Carl não entendia nada do que ele falava. Então disse para Brant traduzir –
como eu era um dragão, eu podia ser entendido por descendentes do fogo e do ar. Mas afinal, você não é o mesmo que estava conosco a outra vez?
Brant explicou detalhadamente o que havia acontecido, principalmente no vale, até aquele momento.
- Então foi por isso que eu não ache vocês! – exclamou Josh – eu procurei por toda a parte alta das montanhas, durante todos estes dia, até sentir sua
presença, e então, eu achei a carcaça daquele dragão enorme, e tive certeza que você tinha a ver com isso.
- Mas como você se transformou naquele dragão? – Brant perguntou – sem querer ofender, mas eu achei que você fosse só um cachorro que pegasse
fogo.
- Brant – Carl explicou – você realmente não sabe? Eles podem se transformar em todos os animais que o dono matou ou ajudou a matar, dos quais eles
provarem o sangue.
- Isso explica muita coisa – disse Brant – e você poderia se transformar novamente?
- Mas é claro – respondeu Josh, se transformando em um enorme dragão negro e aterrorizante. Brant percebeu que o que pareciam espinhos saídos de
todo o arredor da cabeça, na verdade eram chifres protetores, ligados por uma membrana de escamas. Os dentes eram muito maiores do que de longe, e o
hálito forte de enxofre, contaminava o ar. – se vocês quiserem uma carona até o topo da montanha, eu teria o maior prazer em conceder.
- Eu acabei de ter uma ideia – disse Carl, e, indicando com a cabeça o local de onde saia fumaça, ele disse – acho que alguns amigos bárbaros vão ter
surpresas.
- Ótima ideia – disse Brant – Josh, nós adoraríamos uma carona até o topo do penhasco, e se for possível, gostaríamos de mais um favor.
- Estou sempre disposto a escutar – disse ele baixando uma das asas – por favor, subam aqui.
Os garotos subiram, e menos de dez segundos, eles fizeram um trecho que demoraria muito mais tempo.
- O plano é o seguinte: você como dragão, invade aquelas grutas ali – disse Brant para Josh – e destrói tudo o que houver nelas.
- Mas por quê? – perguntou ele indignado – e as mulheres e crianças?
- Não – disse Carl – você entendeu errado. Você não deve machucar ninguém. Só destruir o local. Os que não tentarem ferir você devem ser deixados
em paz. Eles se renderão, e serão bem acolhidos pelo nosso rei.
- E vocês? – perguntou Josh – para onde vocês vão?
- Nós temos que levar isso para Fred – respondeu Brant, mostrando o recipiente com o cogumelo, agora com grande quantidade de pó exposto – mas
não vá nos procurar lá.
- Por quê? – perguntou ele triste – vocês não me querem mais.
- Não, é por que – apressou-se Brant em dizer – pode ser que não estejamos mais lá. Espere-nos nas terras dos magos. Anuncie a nossa chegada,
porque depois daqui é para lá que nós vamos. – Na verdade, caso o rei e os outros homens vissem Josh como dragão, eles tentariam atacá-lo, e poderiam acabar
ferindo-o. Já se o vissem com khopereus ele provavelmente teria sua pele usada para fazer casacos
- Então nos vemos em breve? – perguntou Josh.
- É claro! – afirmou Brant, mas em muita certeza sobre o breve – e não se esqueça das terras dos magos.
- Eu não vou esquecer – respondeu, e Brant poderia jurar que tinha o visto dar uma piscadela com um dos olhos. Depois disso, ele saltou para trás,
como alguém que se joga de um penhasco para a morte, e planou em direção ás grutas, numa velocidade alucinante.
Brant decidiu que não valia a pena olhar, e disse para Carl:
- Vamos, não temos tempo para isso agora.
- Mas como eu vou saber se aquela era mesmo a colônia dos bárbaros? – respondeu Carl.
- Essa é a melhor parte – disse Brant, e agora foi a vez dele dar o sorriso – você não vai saber.

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As Minas
Fred
As dores eram alucinantes. Já fazia cerca de uma hora que Brant e Carl tinham retornado com a cura. Naquele momento Fred estava desacordado, e
teria preferido ficar assim. Mas não pode. Devido à dor, ele acordara gritando. Mas a dor estava diminuindo. Bem como o tom esverdeado da pele. Ele não tinha
tido coragem de olhar nos primeiros momentos, mas depois não resistiu. O corte estava soltando alguma substância verde, que provavelmente era a mesma
que estava percorrendo as suas veias. As mulheres que estavam cuidando dele lhe disseram que estaria bem em cerca de quinze minutos, mas ele não podia
acreditar devido ao seu estado poucos momentos antes.
O quarto em que ele estava era pequeno, e as paredes estavam cheias de prateleiras, com os mais diversos frascos com substâncias coloridas. Alguns
momentos antes, Carl tinha pedido a ele se desejava algo para acalmar a dor, e quando disse que sim, Carl foi até uma das prateleiras e pegou um frasco de cor
esverdeada. Fred não achou aquilo muito conveniente na situação, mas não se negou a beber.
- Como você sabe que isso alivia as dores? – perguntou Brant, que estava acompanhando Fred enquanto ele se recuperava.
- Quando eu era menor, eu passei um inverno ajudando as curandeiras a cuidar dos homens que se feriam em caçadas. É um trabalho degradante para
um garoto – disse ele lembrando as coisas que ele tinha sido obrigado a ver – mas eu aprendi muito com relação ao uso das plantas medicinais.
- Você seria muito útil – comentou Brant – tem certeza de que não quer nos acompanhar?
- Eu adoraria – respondeu Carl – mas infelizmente eu não posso até saber se a minha missão foi realmente completa ou não. E isso ainda deve demorar
alguns dias. Se me dão licença, irei providenciar suprimentos e vestes para que vocês possam continuar a viagem.
Com um aceno de cabeça, Brant e Fred deram um breve adeus á Carl. Eles saberiam que ele seria útil, mas não podiam impedi-lo de seguir as tradições.
Fred olhou seriamente para Brant depois de Carl deixar a sala, e perguntou:
- Então você quer dizer que a garota atacou novamente? E que ela está do nosso lado.
- É o que parece – respondeu Brant – o que realmente é uma coisa boa. Afinal, ela parece bem habilidosa.
Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes, somente observando o líquido verde escorrer do braço de Fred, com a tonalidade verde quase
desaparecendo.
Os dois se viraram ao ver que a porta se abria. Era Taylor quem estava entrando. Ele já estava vestido e com o escudo preso ás costas. Brant deu um
sorriso ao vê-lo.
- Você não sabe o que eu tenho para te contar – ele sempre soube que Taylor tinha crescido solitário, e esperava que aquilo o animasse, afinal, ele
parecia ter ficado meio abatido por não poder ter ido junto com Brant. – Eu acho que você tem um irmão.
- Eu sei – disse Taylor, meio abatido. – eu já conversei com ele no corredor, agora a pouco, e ele me contou de suas suposições. Mas se isso for verdade,
quer dizer, que o meu pai não era o homem que eu pensava.
- E por que não? – perguntou Brant, mas a resposta era obvia.
- Por que quer dizer que ele mentiu para a minha mãe. Ele tinha duas famílias. E pela idade de Carl – ele engoliu em seco – a minha mãe era a amante
dele.
Brant não tinha pensado nisso. Talvez fosse melhor ter guardado a sua opinião para si mesmo. E lá se sabe o que Carl tinha falado para Taylor. Eles
ficaram lá, os três sem dizer mais nada. Simplesmente olhando o líquido correr para fora da ferida, cada um com o seu pensamento.
Poucos minutos depois, parou de escorrer aquele líquido verde da ferida do ombro de Fred, e Brant foi chamar uma das mulheres curandeiras para que
fizesse um curativo. Momentos depois, a curandeira chegou, e pediu que os outros dois deixassem-na sozinha com Fred para fazer o curativo. Brant e Taylor
foram esperar no corredor.
Ao saírem para o corredor, perceberam que havia começado uma movimentação muito grande de guardas, e também de curandeiras. P arados lá,
observando, Brant e Taylor perceberam que um homem se encaminhava para eles. Era o rei. Ele chegou e abraçou Brant, com muita força. Parecia muito
emocionado.
- Obrigado – disse ele – eu não tive oportunidade de agradecer antes. Mas muito obrigado.
- De nada – respondeu Brant, sem fazer ideia alguma do que o rei estava falando – mas do pelo que?
- Por ter salvado o meu filho – disse o rei – e por fazer o dragão atacar o outro clã das montanhas. Eu lhe agradeço de toda a alma.
Depois de mais alguns agradecimentos, e de muito constrangimento para Brant, o rei seguiu o seu caminho. Brant e Taylor se entreolharam e caíram no
riso. Após alguns momentos de risos, este foi quebrado por uma pergunta.
- De que vocês estão rindo? – perguntou Carl, com um enorme sorriso no rosto.
- Nada muito importante – respondeu Brant, percebendo que Taylor tinha ficado sério – mas por que você está com um sorriso enorme na cara?
- É por que eu estava voltando com os suprimentos pelos corredores, e ouvi os guardas falando de algumas mulheres vindas do esc onderijo dos
bárbaros, e elas falavam de um ataque de dragão, que tinha matado o rei. – fazendo suspense, ele terminou – o que quer dizer que minha missão está completa.
- E? – perguntou Brant, sabendo que tinha mais por trás daquele sorriso que se abria cada vez mais.
- E, eu falei com o rei, - fez outra pausa para criar mais suspense – eu posso ir junto com vocês!
Brant estava muito feliz, mas tentou não parecer tão empolgado, para não ferir os sentimentos de Taylor. Mas não conseguiu se segurar. Embora ele
conhecesse Taylor há muito mais tempo, não era capaz de superar a amizade que ele tinha desenvolvido com Carl naquele pouco tempo que se conheciam. Para
a sorte dele, Fred saiu naquele exato momento.
- Quais são as novas? – perguntou Fred.
- Eu vou com vocês! – exclamou com muita alegria Carl.
- Que ótimo! – exclamou Fred, mas percebeu seu erro ao ver a cara de desgosto de Taylor. – Quer dizer, quanto mais integrantes, melhor. E quando nós
podemos partir?
- Assim que você se sentir melhor – disse Carl, indicando a bolsa com suprimentos que estava carregando. Junto com elas, ele trazia as armas deles, e
também uma bela lança dourada e branca, que deveria pertencer a ele.
- Então podemos partir agora – Fred disse mostrando o braço que tinha melhorado, só estava enfaixado, com uma pequena manchinha verde, que
deveria ser o remédio que tinham aplicado nele. – para que lado fica a saída?
- Saída? – disse Carl – Ahn, vocês não sabem. Nós não vamos usar o caminho das montanhas. O frio iria nos atrasar muito. Na verdade, nós vamos
tomar o caminho interno, que nada mais é do que um atalho. Podemos chegar à saída do vale em menos de uma hora.
- O quê?! – Exclamou Brant – eu pensei que estivéssemos a um dia de viajem!
- E nós estamos, mas – ele se interrompeu, não querendo estragar a surpresa – bem, vocês vão descobrir depois.
E sem dizer mais nada, ele se virou, e pegou a chave de uma das portas pela qual Brant havia passado diversas vezes, e em uma delas, ele constatara
que estava trancada. Deixando os garotos passarem primeiro, Carl fechou a porta atrás de si, jogando a chave por baixo.
- O que você fez? – perguntou Brant desconfiado.

44
- Eu evitei que alguém nos seguisse. – respondeu Carl.
- Mas como? – Brant continuava não intendendo – você não jogou a chave por baixo da porta?
- Exatamente – respondeu Carl – mas se a pessoa não tiver a permissão para abrir a porta, de nada adianta ela ter a chave. Magia antiga – explicou ele
vendo a cara de incompreensão de Brant. Com isso, ele pegou uma tocha apagada da parede, e disse – Brant, por favor, você poderia acender? Sabem, daqui em
diante, os túneis começam a ficar escuros.
- Por quê? – Brant perguntou novamente – esse túnel me parece igual a qualquer outro.
- Esse túnel é o que leva às velhas minas – disse Carl – elas estão abandonadas desde, desde...
- Desde o quê? – perguntou Fred.
- Nada importante. Mas esse é o caminho mais rápido. É só sermos silenciosos e não acordaremos nada.
- Acordaremos nada? – Taylor não parecia nada satisfeito – isso não está me cheirando bem. Por que você não nos conta o que é esse nada?
- Se não está satisfeito, pode retornar e ir pelo caminho mais comprido – respondeu Carl, e ficou claro que estava havendo alguma coisa entre os dois –
Se fizerem o que eu disser, não teremos problemas, e também não precisarão saber o que é nada.
Sem querer mais discutir, Carl pegou a tocha que Brant tinha acabado de acender e se encaminhou túnel adentro. Depois de alguns metros, eles
puderam perceber que a iluminação por tochas na parede foi rareando até acabar. A única fonte de luz que eles tinham era a tocha que Carl estava carregando.
Andaram por mais algumas dezenas de metros, até que Carl disse:
- Chegamos, - depositou a tocha em um suporte ali próximo. - eu vou precisar de uma ajudinha aqui.
Ele estava tentando empurrar alguma coisa, e Brant percebeu que era um carrinho de mina duplo, com dois vagões. Brant percebeu que por mais
inclinado que seja a descida, aquilo não iria funcionar, porque o carrinho só fora feito para trabalhar em trilhos. E ele não estava vendo trilho algum.
- Espere, - disse Carl – eu acho que deve ter algum ponto de iluminação aqui.
Com a tocha, ele começou a andar a par da parede, procurando por alguma coisa. Quando achou, encostou com a ponta acesa da to cha, e algo incrível
aconteceu: As chamas começaram a serpentear as paredes, seguindo adiante, e se abrindo cerca de dez metros á frente, o que indicava uma câmara. Elas
também iluminaram o túnel, mostrando que alguns metros adiante, começava um trilho de trem.
- Venha Brant – disse ele – me ajude aqui.
Enquanto Brant ajudava Carl, Fred foi averiguar uma coisa. Ele estava sentindo um movimento, como algo querendo se comunicar com ele. Ao cheg ar
próximo a abertura para a câmara, ele pode perceber que ela era diferente de tudo o que ele tinha imaginado. Não era uma simples câmara oval. Era um tipo de
túnel. Com mais de vinte metros de diâmetro, ele descia exatamente horizontalmente, e o fogo que se abria ali, descia em forma espiral pelas suas laterais,
como as voltas da rosca em um parafuso. E no fundo, Fred estava vendo...
- Água – sussurrou ele para si mesmo.
- Exatamente – disse a voz de Carl atrás dele, meio ofegante, por causa do esforço de empurrar o carrinho. – há anos a mina foi abandonada por que
encontramos água aqui. E algo mais. – Fred estava com uma cara de espanto, por isso Carl perguntou – o que foi?
- Eu acho que descobri o que era o nada – disse ele, pegando a espada vagarosamente – atrás de você.
Carl se virou rapidamente, com a adaga em mãos, cortando o ar, mas a aranha foi mais rápida. Pulou na parede, e desapareceu por uma rachadura.
- Isso não era nada. Era a comida dele – vendo a cara de espanto, Carl continuou – mas não quer dizer que não devemos nos preocupar. Vamos antes
que chame as amiguinhas.
Ele embarcou no primeiro vagão, e Brant embarcou junto com ele. Fred e Taylor embarcaram a contragosto no de trás. Fred perguntou:
- Por que não podemos todos ir em um vagão só?
- Por que ficaria muito leve na parte de trás, o que nos faria descarrilhar. Agora, vejamos – disse Carl pensando – antigamente isto deveria ter um
impulsor, mas acho que não tem mais. Então o jeito é empurrar.
Saltando para fora do carrinho, ele deu impulsão, correndo. Como o carrinho já estava em cima dos trilhos, foi muito mais fácil fazer isso sozinho.
Quando tomou impulso suficiente, ele saltou rapidamente para dentro do primeiro vagão, e juntos ele e Brant acompanharam enqu anto os vagões se
encaminhavam para o túnel. Depois de deixar a parte sólida, eles se viram suspensos sobre trilhos em forma de ponte. Como eles estavam ganhando velocidade,
Brant calculou que eles estavam descendo, e calculou o quanto poderiam descer sem achar água pelo caminho.
Logo atravessaram o primeiro túnel vertical, entraram em outro dos pequenos túneis horizontais e apertados. Esse também era iluminado. Como
estavam sendo guiados pelos trilhos e não precisavam guiar o vagão, Brant se sentou, e Carl lhe disse:
- Eu só espero que todos os trilhos estejam inteiros. Sabe, depois de anos eles começam a desmoronar.
E riu da cara de desespero de Brant, quando ele se ajoelhou depressa, para olhar pela borda do vagão. Eles estavam indo tão rápido, que Brant não
conseguia mais visualizar as divisões dos trilhos a frente deles. Então ele teve de se abaixar rapidamente. Por sorte sua, seus reflexos tinham melhorado, pois
uma coisa passou por onde sua cabeça estivera. Ele imaginou que sabia o que era, mas olhou para Carl, e esperou a confirmação.
- Sim, são as aranhas. – ele estava com uma cara de estranhamento – elas devem estar famintas, por que senão não teriam atacado.
Brant olhou novamente para frente, e viu que eles estavam saindo novamente de um túnel horizontal e entrado em um vertical. E ste era bem maior,
pelo menos uns quinhentos metros, ou mais. Ele iria falar alguma coisa para Carl, mas se esqueceu na hora, pois quando se virou para trás, viu que Taylor e Fred
estavam gesticulando drasticamente. Primeiramente ele não estava entendendo, mas logo percebeu o que era. Uma das rodas do vagão deles tinha se soltado,
e o vagão estava trepidando muito além, é claro, de estar diminuindo gradativamente a velocidade deles.
Mas este não era o principal problema. Atrás deles, algumas dezenas de metros, dezenas, talvez até centenas de aranhas estivessem correndo por cima
dos trilhos. Vindo ao encalço deles, e se aproximando.
Brant sinalizou rapidamente para Carl, e ele entendeu. A única solução seria desprender o vagão de trás. Carl fez sinal para que os outros dois
ocupantes viessem para o vagão deles, e Taylor não hesitou, levantou-se, pôs um pé em cima de um dos vagões e o outro no outro, mas quase foi derrubado por
uma arranha que caiu do teto em cima dele. Por sorte, Carl e Brant estavam atentos e seguraram-no. Mas a aranha caiu. E esse foi o maior problema.
Fred viu a aranha caindo, e paralisou. “A água” lembrou Brant. Eles não tinham muito tempo, as aranhas estavam chegando. Bran t não teve escolha.
Pulou para o segundo vagão, e quase que jogou Fred para o primeiro.
- Pule! – gritou Carl, e arrancou a espada das costas de Fred. Brant pulou, e a espada desceu, cortando a ligação que unia os dois vagões. Brant
conseguiu se segurar na borda do vagão, e Taylor e Fred o puxaram para cima, a tempo de ele ver, o carrinho capotar, fazendo as arranhas que estavam
correndo atrás dele trombarem com o próprio, ou serem arremessadas por ele pelos trilhos-ponte. Era quase cômico, algumas que conseguiam se segurar,
sendo derrubadas por outras, que se agarravam a elas. Eles começaram a aumentar de velocidade de novo, escapando das que insistiam em persegui-los. Eles
estavam prestes a comemorar, quando Carl disse – não comemorem ainda. A pior parte apenas começou, - indicou a frente, onde algumas aranhas tinham feito
uma espessa teia, que certamente faria o vagão descarrilhar, com eles junto.
- Deixa essa comigo – disse Brant, formando uma esfera de calor. Ele estava planejando fazer o lança-chamas, e Fred prevendo isso, se jogou no chão do
vagão, puxando Carl e Taylor junto.

45
Quando as chamas emergiram das mãos de Fred, os outros dois entenderam o porquê daquilo. Devido à velocidade em que eles estavam, grande parte
das chamas se propagou para trás, devido ao vento. E as cabeças deles teriam virado churrasquinho. Mas os trilhos estavam limpos agora, e eles entravam
novamente em um túnel horizontal. Lá a iluminação tinha sido interrompida de um lado, o que tornava o local mal iluminado, o que era melhor do que nada.
- Estamos quase chegando ao fim. – disse Carl, e apontou para frente, uma luz distante. – só mais um túnel vertical, e chegamos lá.
Eles emergiram no túnel vertical, talvez o maior deles, e também o mais mal iluminado de todos, por que metade da iluminação tinha sido
interrompida. Parecia que funcionava como um sistema contínuo. Se um pinto falhasse, todos os demais falhavam. Eles estavam no que deveria ser quase a
metade, quando ouviram um barulho, e sentiram uma desestabilizada na estrutura da ponte.
- O que foi isso? – perguntou Fred.
- Espero que não seja nada – disse Carl, quase rindo com o duplo sentido da frase, mas parou no mesmo instante em que viu o que tinha feito aquilo.
Um enorme tentáculo verde, com superfície provavelmente gosmenta, pois brilhava sob a luz das velas, surgiu do nada e acertou a ponte de trilhos logo
atrás de onde eles estavam. Por sorte deles, a ponte ainda era bem estabilizada, e não ruiu, mas eles não sabiam por quanto tempo ainda aguentaria. Outro
tentáculo, um pouco menor, atingiu a ponte, poucos metros de onde eles estavam fazendo aquela parte ruir. Faltavam somente mais alguns metros. Menos de
cinquenta.
Mas outra coisa aconteceu. Alguma criatura de proporções inimagináveis surgiu do nada de baixo deles, e tentou engolir a pont e. Ela parecia com uma
tartaruga, só que não tinha pescoço, nem cabeça. A boca parecia surgir diretamente de debaixo do casco. Também não podiam ver os olhos, se e que eles
existiam. Com a boca, ela agarrou a parte de baixo da ponte, e destroçou os suportes. Então ela começou a ruir, acompanhando o vagão.
O vagão era rápido, mas nada comparado à destruição. E o monstro esperava tudo caindo, lá embaixo, com a enorme boca aberta. Por mais rápido que
fossem o vagão não conseguiu escapar, a menos de dez metros da saída.
- Fred! – Brant tentou se fizer ouvir acima do grito dos outros – A água!
Fred sabia que não deveria tentar usar os seus poderes, pois estava muito fraco, a não ser que fosse caso de vida ou morte. E aquele era um. Com toda
a sua concentração, sentiu toda a água que estava debaixo deles, e imaginou um poderoso jato, impulsionando-os para cima, e afastando-os do monstro. De
repente, eles puderam sentir o empurrão vindo de baixo do barco, jogando-os para cima, e finalmente, puderam ver a luz do fim do túnel se aproximando, se
aproximando, e finalmente eles faziam parte dela, por que eles tinham conseguido sair da caverna.

46
Os portões
Brant
- Segurem-se! – gritou Carl, e eles sentiram um tranco.
Em um momento eles estavam subindo, em direção á luz, e no outro, estavam caindo. Eles tinham saído de um túnel na metade de uma montanha, e
agora estavam em queda livre. O único ponto de apoio era o próprio vagão.
Brant estava tentando se segurar com o máximo possível á borda do vagão, mas ele estava escorregadio. Ele mal via a paisagem ao redor, e a bela vista
que tinham daquele ponto em questão. Seria uma paisagem maravilhosa, não estivessem caindo para a morte. Ao olhar para trás, ele viu que passavam por uma
abertura na montanha da qual saia água, formando uma bela cachoeira. Ele ouviu Carl falando alguma coisa do tipo “quando eu falar, vocês devem saltar”, mas
não conseguiu entender o porque. Como eles estavam em um vagão, tecnicamente quando eles saltassem, não colidiriam com toda a força, mas mesmo assim,
dependendo de aonde saltassem, não adiantaria nada estar mais devagar.
- Pulem! Agora! – gritou Carl, e Brant não esperou, e ao mesmo tempo em que eles pulavam, o vagão se virou, e Brant pode entender o porquê dele s
pularem. Havia um pequeno lago, na base da cachoeira, e isso iria amortecer a queda deles. Brant só torcia para que o lago fosse fundo o suficiente.
E felizmente era. Pouco antes de se chocar com a água, estendeu os braços, para que a resistência que a água estava oferecend o não quebrasse todos
os seus ossos, mas pelo que parecia, Taylor não conhecia essa tática, porque ele caiu de costas na água, pouco antes de Brant. Depois Brant não soube mais
nada. A água o recepcionou, e ele sentiu um leve formigamento nos membros inferiores, o que indicava que o sangue tinha começado a circular normalmente
de novo. Ele nadou em direção á superfície, e emergiu.
A primeira coisa que Brant fez, foi procurar pelos outros. Taylor estava logo á sua direita. Carl já estava nadando para fora do pequeno lago. Mas ele
percebeu que Fred não estava ali. Então se lembrou de que Fred não sabia nadar.
- Fred! – chamou, com toda a força que podia. – Fred!
- O que foi? – disse uma voz zombeteira atrás de Brant.
Ele se virou para se virar, e viu algo que era muito estranho. Fred estava de pé, na água. Fred riu alto, com a cara de espanto de Brant, e depois,
explicou, ainda com um sorriso na cara:
- Eu não sabia nadar, então, improvisei.
Dando de ombros, Brant indicou a margem mais próxima, na qual Carl já tinha chegado. Foram nadando naquela direção, mas algo os fez parar. Carl
estava fazendo sinal para que parassem onde estavam. Como estavam próximos á margem, Brant e Taylor puderam ficar de pé, sobre o leito rochoso do
pequeno lago. Como Fred estava muito exposto, Brant o puxou para baixo da água, fazendo com que ele se assustasse e afundasse.
Na margem em que Carl estava, havia muitas pedras, quase nenhuma terra visível. Logo adiante havia também um tipo de gramado, com cerca de um
metro e meio de altura, e Brant podia ter certeza de que havia ouvido algo se mexer lá. Carl tinha apanhado a lança que estava ao seu lado, e pulou sobre a coisa
que estava se movendo lá. Mas antes que ele pudesse cair sobre o que quer que fosse um enorme animal o acertou no meio do ar, fazendo-o ser atirado longe.
Pelo tamanho, Brant calculava que fosse provavelmente uma vaca. O problema é que vacas geralmente não atacam pessoas.
Os três saíram correndo em direção á grama, mas logo pararam. Com o barulho que tinham feito ao saírem da água, tinham denunc iado sua posição. E
Perceberam que estavam cercados por mais daqueles animais, mesmo sem os ver escondidos nas moitas. Eles estavam prontos para pegar em armas quando
ouviram a voz de Carl:
- Não! – disse ele e saiu do meio do gramado, tropeçando – abaixem as armas.
Brant indicou com a cabeça o lugar onde a grama tinha acabado de se mexer, e Carl entendendo a preocupação, deu um assovio lo ngo e agudo, e
quatro lobos saíram do meio da grama. Só que não eram lobos normais. Eles eram muito maiores do que os lobos normais. Brant já ia perguntar o que era
aquilo, mas viu que de trás de Carl estava saindo um lobo muito maior que os outros. Ele não era do tamanho de uma vaca. Era maior.
- Pessoal - disse Carl – esse é Khalami Asuno. – ele tinha uma pelagem cinza, com uma enorme mancha branca no peito - E como vocês podem ver ele é
um lobo gigante. E esses – ele apontou para os outros quatro lobos menores – são os filhotes da alcateia. Não se preocupem, eles não vão machuca-los. Eles
estão aqui para aprender a caçar, e não farão nada do que Khalami não disser.
- Filhotes? – perguntou Carl meio consternado. E olhando para o lobo maior ele perguntou – São dele?
- Não – respondeu o lobo, fazendo com que os outros ficassem espantados, menos Carl, que riu com a cara que os outros fizeram – eles são da
comunidade inteira. Eu os estava ensinando a caçar, e vocês eram a lição do dia.
- Nós? – disse Taylor, e ficou claro que ele era o mais desconfortável.
- Sim – respondeu o lobo. – Vocês. Eu ouvi a voz de Carl, e pensei que ele pudesse estar em perigo, mas como não estava, percebi que tinha uma
oportunidade única.
- O truque da isca – disse Carl, como se tivesse lembrando-se de algum momento que tinham passado juntos. – Faça um dos seus de isca, e espere pelo
ataque. – Carl apontou para si mesmo - Separe o grupo, e isso o tornará mais fraco. – Falou apontando para os outros três. – só que essa não foi uma boa
escolha.
- E por que não? – perguntou o lobo curioso.
Carl fez sinal para Fred, discretamente, como se estivesse dando um soco no lobo, e Fred piscou o olho dizendo que entendia. Então Carl se jogou no
chão, e uma enorme mão de água acertou o lobo maior no lado, jogando-o pelo ar e fazendo-o rolar pela grama. Os outros lobos saíram correndo.
- Ai – disse o lobo, voltando para a companhia dos meninos – essa não foi legal. Mas que maravilha! – disse ao perceber que os lobinhos tinham fugido
– Agora Francine vai ter que correr atrás deles.
- Francine veio também! – exclamou louco de alegria Carl.
- Espere um instante – disse Brant – Que você conhece um lobo, já ficou mais do que claro, mas você conhece a alcateia inteira?
- Não exatamente – disse Carl – é que, bem, nem todos os lobos são... São...
- Amigáveis – disse Khalami – principalmente para humanos. Eles acham que vocês não têm sentimentos, que matam por prazer. Mas nem todos
sentem isso.
- Vocês ensinam os lobos pequenos a caçar humanos em grupo, e não querem ser ameaçados? – perguntou Taylor, ainda muito pouco a vontade.
- Nós não ensinamos ninguém a caçar humanos – respondeu o lobo nada feliz com a acusação – nós ensinamos os filhotes a caçar monstros. Não temos
culpa de os humanos agirem de forma tão parecida.
- Para mim – começou Taylor – vocês é que são monstros.
- E por que você diz isso garoto? – respondeu o lobo, pacientemente.
- Bem, por que – Taylor não esperava por essa – por que vocês são bem maiores que os lobos normais.
- Mesmo? – perguntou o lobo – e se eu te dissesse que nossa raça é bem maior que os seus “lobos normais”, e a espécie estranha aqui são eles. Se for
isso que vocês denominam monstros, vocês são tão monstros quanto nós.

47
O silêncio pesou no local. O lobo esperava por uma resposta de Taylor, acompanhando com seus olhos frios. Mas Taylor não tinh a resposta para dar.
Então uma voz mais feminina disse de algum lugar, quebrando o gelo:
- Carl! – era uma loba, quase do mesmo tamanho que Khalami. Mas diferentemente, sua pelagem era marrom-dourada, com a mesma marca branca no
peito, fazendo-a parecer muito com uma irmã mais nova do lobo. Provavelmente deveria ser Francine. E por trás dela, vinham os filhotes, olhando para Fred,
como se ele fosse um monstro do lago que os devoraria a qualquer momento.
- Francine! – exclamou Carl, feliz, e correu em direção á loba, se enterrando em seus pelos fofos.
- Como vocês se conhecem? – perguntou Brant, quebrando a emoção do reencontro.
- Quando nós éramos filhotes – disse Khalami – estávamos tendo uma lição de caçar, assim como hoje, só que nos distanciamos um pouco do grupo.
Estávamos em cinco, e acabamos achando ele em uma trilha no acesso para as montanhas. Ele era pequeno, e estava sozinho. Então nós resolvemos atacar, e
mostra que nós éramos capazes de caçar sozinhos. Eu tomei a frente, e quando ele se virou de costas para fugir, eu saltei sobre ele.
- Só que eu fui mais rápido – disse Carl – e eu tinha aprendido a me defender de lobos. No instante certo, eu me desviei dele, e foi minha vez de pular.
Eu o dominei e pus uma adaga no seu pescoço, mas não tive coragem de fazer alguma coisa.
- Nós sabíamos que ele podia ter matado a todos nós – disse Francine – mas descobrimos que os humanos não são somente um poço de maldade
incondicional. E quando achamos o caminho de volta, tentamos contar aos outros. Muitos nos ouviram, e tent aram compreender, mas a maioria não
compreendeu. E tentaram nos proibir de vê-lo.
- Mas isso não aconteceu. Até cerca de um ano atrás – disse Carl, lembrando-se de algo que parecia muito triste – o rei me levou para caçar, por que eu
era o seu preferido. Quando chegamos ao local, eu percebi que já era tarde demais. Havia três lobos. Francine, Khalami e o líder da alcateia deles. Eu não pude
me perdoar.
- A culpa não foi sua – disse Khalami – o líder que atacou primeiro.
- É, mas fui eu que decidi mata-lo. Eu podia ter evitado – as lágrimas iam brotar nos olhos dele – e desde aquele dia, eu resolvi não ver mais nenhum
dos lobos, por medo do que poderiam me fazer.
- Eu esperava que você não pensasse desse jeito – disse Francine – você parecia muito promissor.
- E eu sou – disse ele, e deu uma mordida brincalhona na orelha de Francine – ei, a propósito, vocês não poderiam nos dar uma carona?
- Hum, depende de para onde vocês querem ir – respondeu ela. Parecia que ela estava falando com uma criança. Ou filhote de lobo. Tanto faz.
- Até os portões dos magos – respondeu Carl – e assim, vocês podem ensinar os filhotes a correr em formação.
- Bela desculpa mocinho – disse ela – mas os filhotes já sabem correr em formação.
- É – disse Carl para provocar – eu percebi quando eles correram de nós. Formação de fuga impressionante.
- Ei – disse Khalami – saber quando fugir também é importante. Sabe evita ferimentos mais graves, principalmente quando o predador é um dragão.
- Matar os dragões é o que evita fermentos mais graves. – disse ele em afronta – mas enfim, nós vamos ganhar uma carona ou não?
- Vão sim, - respondeu Khalami – mas você vai ter de me contar direitinho essa história de matar dragões – completou, piscando discretamente, e
deitando de barriga no chão, para que Carl pudesse subir em suas costas. Carl fez sinal para Brant, dizendo:
- Vem – acenou, e indicou o lugar – vou precisar de ajuda para contar a história.
Brant se aproximou do lobo, pegou em sua pelagem e se apoiou nela para subir. Quando sentou falou:
- Cara, isso é melhor do que andar em um khopereus.
- Ele montou um khopereus? – perguntou Khalami.
- Ele tem um – respondeu Carl – e se chama Josh. Mas isso faz parte da história. Vamos?
Khalami se levantou, e em um salto desapareceu no meio da grama alta. Vendo aquilo, Francine falou para Taylor e Fred:
- Vocês dois não vão querer ficar para trás? – e se abaixou para permitir que os garotos subissem. Fred não esperou por um segundo chamado. Saltou
nas costas de Francine, e se acomodou, na frente. Porém Taylor ainda estava apreensivo com a história de lobos gigantes – o que você está esperando? –
perguntou Francine – não se preocupe, eu não mordo. Na verdade eu geralmente como as presas quase inteiras, principalmente se forem coelhos, mas isso não
interessa agora. Suba. – com isso, parecia que ela tinha conseguido aliviar a pressão do estômago de Taylor, e ele subiu, ficando atrás de Fred.
Francine deu um pulo, e se jogou em direção á grama. Os pequenos filhotes saíram correndo atrás, mas logo começaram a ficar para trás. Olhando
aquilo, Taylor se comoveu, mas Francine logo o tranquilizou:
- Não se preocupe. – ela continuava saltando e correndo, e isso parecia que tinha virado uma competição saudável. – eles vão saber aonde nós vamos.
O olfato deles não está completamente desenvolvido, mas eles conseguem perceber o nosso cheiro a quilômetros.
- Não é isso, é que – Taylor hesitou – eu acho que me pareço com eles. Desesperados correndo atrás dos outros que estão muito a frente, sem saber
como alcança-los.
- Meus Deuses! – exclamou Fred, e Taylor se assustou, provavelmente imaginando que estava sozinho com a loba, mas agora já era tarde demais. – é
por isso que você anda estranho todos esses dias? Você está preocupado que nós o deixemos para trás?
- Não, é só que – tentou se explicar Taylor.
- Ele é seu irmão! – explodiu Fred – ele não vai tirar o seu lugar! Vocês deveriam estar felizes por terem se encontrado, e deveria um apoiar o outro.
- Pode ser – disse Taylor – mas não é isso que Brant pensa. – completou, indicando Brant e Carl nas costas de Khalami – parece que ele não se importa
nem com você.
- Mas é claro que ele se importa! – disse Fred – Ele só achou o amigo que ele nunca teve! E que tal se você estivesse aproveitando o irmão que nunca
teve?
- Só que parece que ele não liga muito para mim – respondeu Taylor – parece que ele me culpa por ter crescido sem pai.
-Vocês estão falando de Carl? – perguntou Francine. – por que se estiverem não se preocupem. É o jeito dele, ele culpa todo mundo por ter crescido
sem pai. Uma vez ele quis se mudar para a caverna da alcateia, porque disse que o rei era culpado por ele ter crescido sem pai. Mesmo o rei sendo mais que um
pai para ele. Afinal, ele era o próximo na linha de sucessão.
- O quê?! – Taylor levou um susto – quer dizer que ele largou tudo por nossa causa?
- Sim – disse os lobos – e como nós dizemos: “nunca julgue alguém antes de cheirar o seu traseiro”, mas creio que os humanos tem alguma variante que
se caiba a vocês.
Aquela parte tinha sido realmente nojenta, mas Fred resolveu deixar Francine ter seu momento conciliador, e Taylor ter seu momento de reflexão. Com
isso, decidiu aproveitar a viagem.
O pelo de Francine era quente e macio, e ele poderia até dormir, caso não fosse quase o meio da tarde. A paisagem era exuberante. Para os dois lados,
a grama se estendia até os olhos perderem de vista. Atrás, o enorme paredão de pedras, com a sua bela cachoeira, que desembocava em um pequeno laguinho,
que seguia em forma de um pequeno riacho, á direita deles. E à frente, uma enorme floresta de diversas árvores, tanto frutíferas como não, preenchia o limite
do gramado.

48
Embora Francine fosse uma fêmea, e tecnicamente mais fraca, ela estava se aproximando rapidamente de Khalami. Fred calculou q ue talvez, ele
estivesse deixando ela se aproximar propositalmente. Fred até achava que ele gostava dela, só não tinha tido coragem de falar ainda.
Khalami parou na entrada da floresta, e esperou por Francine. Quando os dois ficaram lado a lado, Khalami disse para Francine:
- Corrida até os portões?
- Feito - respondeu Francine.
- Se segure - disse Carl para Brant, e Brant soube que não era uma coisa boa. Ele tinha percebido que as pupilas dos dois tinham se dilatado, o que dizia
que eles estavam com os corpos tomados por adrenalina, e isso queria dizer que eles estavam prontos para entrar em uma competição saudável. Mas uma
competição saudável para lobos gigantes não quer dizer que seja saudável para humanos.
Brant seguiu o exemplo de Carl, e se deitou sobre o as costas de Khalami, bem a tempo, por que Francine gritou “já”, e Khalami deu um impulso, que
antes os teria derrubado. A adrenalina fazia com que ele tivesse um impulso muito maior, e com isso ele ganhava mais velocidade. Brant não estava muito
preocupado com eles se chocarem contra uma árvore, pois ele esperava que Khalami tivesse bons reflexos. Mas ele tampouco queria perder.
Após alguns momentos, tudo mudou. O solo ficou mais úmido, e recoberto de folhas, que se levantavam em altas nuvens quando el es passavam. O ar
ficou mais quente, e também mais úmido. A luz conseguia se infiltrar menos, devido ás copas das árvores que a bloqueavam mais. Khalami, embora fosse macho
e tecnicamente mais forte estava atrás de Francine, e parecia que ele não estava gostando disso. Então eles tiveram que entrar em um túnel, formado por
árvores em ambos os lados. Mas como não havia lugar para dois lobos passarem lado a lado, Khalami ficou para trás. Mas não parecia que isso estava em seus
planos. Francine falou para ele:
- Parece que eu vou ganhar – após uma pausa para respirar, ela prosseguiu – Já posso até ver os portões.
E aquilo era verdade. Embora a visão de Brant não fosse tão boa quanto à de um lobo, ele podia ver também, e eles provavelmente iriam perder,
porque na velocidade em que eles estavam eles não podiam sair do túnel, sem se chocar com o tronco de uma das árvores. E também não podiam ultrapassar.
- Ah não! – exclamou Carl – Você não vai deixar a Francine ganhar de nós não é? Khalami?
- É melhor que vocês se segurarem – disse Khalami – por que nós não vamos perder esta.
Então ele saltou para uma das árvores à direita, usando o tronco dela como um local mais firme do que o solo para impulso. Br ant conseguiu sentir os
músculos das patas dele se retraírem, antes de dar o impulso, e pular para outra árvore, dessa vez do lado esquerdo. Com isso, ele conseguiu tirar uma boa
vantagem. Então ele repetiu o processo, pulando de árvore em árvore. Eles estavam a menos de cem metros, e com mais dois pulo s, Khalami poderia
ultrapassar Francine. Ele deu mais um salto, mas quando ele estava preparado para saltar à gente de Francine, ela percebeu o que ia acontecer, e disse:
- A não, de novo não. – e se jogou ao encontro de Khalami, no ar, fazendo-o rolar por terra, e derrubando Carl e Brant de cima dele. Ela saiu do túnel, e
parou para contemplar os portões á sua frente. Virando-se para ver Khalami e os garotos se levantando, ela disse – parece que eu venci.
- Isso não vale! – protestou Khalami – você trapaceou. E além do mais, Carl pesa mais que os outros. Ele é maior!
- Ei! – exclamou Carl – eu não sou tão mais pesado assim! E além do mais, você poderia ter nos machucado Francine.
- Você é feito de que? – perguntou Francine – ia se machucar com as folhar? – ela riu uma risada muito estranha par uma loba, mas mesmo assim ela
riu.
Mas parou no instante seguinte. Levantou a cabeça e as orelhas, e cheirou algo no ar. Khalami, percebendo a urgência no ato dela, se pôs em alerta. Ele
olhou para ela, e falou:
- Os filhotes – ela olhou para ele, e concordou com a cabeça. Khalami olhou para os garotos e falou – Vocês precisam entrar o mais depressa possível.
Os filhotes detectaram algo se aproximando, mas eu não consigo descobrir o que é. Estamos a favor do vento, e o cheiro vai para o outro lado. Mas pelos sons –
ele parou para escutar – são dezenas.
- Vão garotos! – falou Francine, indicando os portões. Então deu um uivo alto e longo.
Fred e Taylor se olharam e compreenderam que deveriam ir à frente. Encaminharam-se para o portão fechado. Enquanto isso, Brant foi falar com Carl e
os lobos.
- O que foi? – perguntou para Carl – O que são dezenas?
- Não sabemos – disse Carl, como se ele fosse um dos lobos – mas eles mandaram os filhotes voltarem para junto da matilha. – Carl parecia apreensivo.
- Coram! – disse Khalami, primeiro sussurrando – Coram! – gritou ele. Parecia que ele tinha identificado o que era.
- O que aconteceu? – perguntou Carl, ficando assustado com o alarme de Khalami.
- O vento virou – disse Francine, farejando o ar – e são dezenas de monstros, mas tem algo, algo muito pior.
- Eu não sei o que é – disse Khalami – mas todos os meus pelos se arrepiaram, e isso não é nada bom.
- Pode ser um dragão? – perguntou Carl, quase que esperançosamente – por que se for...
- Não. – disse Khalami, sério – é algo infinitamente pior. Um dragão parece fichinha perto disso. E eu só sinto o cheiro da maldade dessa coisa.
Fred e Taylor estavam voltando do portão, alarmados. Brant, vendo aquilo, sabia que não eram boas notícias.
- Pessoal, nós temos problemas enormes – disse, tomando coragem para continuar – eles não vão abrir os portões. Eles já estão selados magicamente,
e só se abrirão depois que o mal deixar a floresta.
- Khalami – disse Carl, quase implorando – vocês podem nos tirar daqui?
- Não – disse Khalami apontando o meio das árvores mais próximas – é tarde demais.

49
Balfher, Balgher, Balaher e Balther
Fred
Uma enorme fileira dos mais feios monstros que Fred já havia visto estava se encaminhando para onde eles estavam agora. Eles pareciam com
humanos corcundas. Mas eles não tinham olhos, percebeu Fred. Pareciam estar identificando os alvos pelo cheiro, que para eles deveria ser de comida e eles
estavam armados. Depois de começarem a avançar, e aparecerem todos, Fred constatou também, que do meio deles apareciam caudas, e ele soube na hora
que eram caudas de escorpiões. Mas o mais sinistro estava exatamente no meio do batalhão. Parecia com uma carruagem, toda neg ra, e carregada, olhe só a
surpresa, por cinco enormes trasgos verdes. Não que eles fossem realmente verdes, mas a pele encouraçada deles tinha um tom esverdeado. As unhas estavam
amareladas, e grande parte delas quebradas, tinham poucos, mas compridos fios de cabelos descendo pela cabeça feia e grotesca. E nada podia se falar das
orelhas, exceto, que elas serviriam para tampa de barril. Com a mão livre eles carregavam bastões, com diversas coisas pontudas, na parte mais grossa.
Fred podia sentir á distância, o poder que emanava da carruagem que eles c arregavam. A luz parecia se tornar mais fraca próxima á carruagem. Eles
pararam, e Fred calculou que deveriam ser cerca de sessenta, incluindo os escorpiões.
- O que vocês acham? – perguntou Taylor – nós podemos ganhar?
- Bem, - disse Carl – nós somos seis, enquanto eles são mais de cinquenta...
- Sessenta e dois para ser exato – disse Khalami – e quantos mais estiverem escondidos na carruagem.
- Continuando – disse Carl – nós poderíamos ganhar, caso tivéssemos um dragão, e – ele fez uma pausa – Droga!
- O que foi? – perguntou Brant – algo de errado?
- Eles têm um dragão! – disse apontando para cima, onde uma sombra escura tampou a luz que descia na clareira. Era um dragão enorme, mas Fred
não conseguia distinguir direito como ele era, porque o sol ofuscava, mas parecia que ele tinha...
- Ah não! – exclamou Brant, e Fred soube o porquê – eu achei que nós tínhamos matado ele. – e sobre eles, estava descendo um dragão de quatro
cabeças.
Eles pouco deram importância para os monstros humanoides que avançavam em direção á eles. Se o dragão estava mesmo ali para matar, desta vez
eles não podiam fazer nada. O dragão pousou, de costas para os monstros, que estavam ainda a uma grande distância, mas se aproximando rápido por causa da
desordem. As quatro cabeças se ergueram, mas uma sombra saltou das costas dele, e fez sinal para que ele parasse. Então, como se tivesse sido treinado, o
dragão se virou, e resolveu atacar o exército.
- Bom dia rapazes! – era a garota do capuz. – precisando de uma ajudinha?
- Toda ajuda é bem vinda – disse Brant. Por ter tido mais encontros pessoais, ele achou que ele era o que tinha direito a fazer perguntas – e agora, você
vai nos dizer quem é você ou ainda não.
- Tudo bem, tudo bem, mas nem um bom dia? – disse ela, e abaixou o capuz, revelando-se. Brant achou-a espetacular. Com cabelos negros,
perfeitamente lisos, pele quase dourada, olhos verdes que refletiam a luz, e lábios vermelhos e carnudos, ela decididamente era perfeita. Meu nome é Khateryn
Xan. Mas podem me chamar de Xan.
- E que tal se eu te chamar só de Kate? – perguntou Brant, e nem ele mesmo pode acreditar que estava dando em cima dela numa hora daquelas.
- Eu vou te ignorar, - respondeu ela, com um sorriso no rosto – porque eu não te dei moral para apelidos. Xan, ok?
- Ok – disse Brant, e não podia acreditar que estava levando o fora da sua vida.
- Nossa. – falou Fred, quando Xan se virou – Esse deve ter sido o fora mais rápido que você já levou, Brant.
- E então? – disse Xan – vocês vão ficar aí parados?
Os primeiros monstros estavam chegando ao dragão, que parecia estar esperando uma ordem. Com uma enormidade daquelas logo adiante, os
monstros pareciam ignorar os garotos, cerca de dez metros atrás. Xan deu um comando, e as quatro bocas agiram ao mesmo tempo, e Fred teve certeza, de que
se as quatro tivessem agido juntas naquele dia, os três não estariam vivos agora.
A cabeça vermelha expeliu labaredas tão vermelhas quanto ela, que encheram o meio escuro das arvores de claridade. Muitos dos monstros foram
incinerados na hora, mas a maioria conseguiu se abrigar atrás de arvores, ou atrás dos trasgos, que pareciam ter uma pele realmente resistente. A cabeça
levemente esverdeada cuspiu algo que parecia ser ácido, pelo tom levemente resistente, e pelo fato de corroer as árvores que eram tocadas. Com isso, muitos
dos monstros foram jogados ao chão, se retorcendo de dor. A cabeça amarronzada ia fazer alguma coisa, mas um dos trasgos chegou nela, e a agarrou pelo
pescoço. As outras cabeças investiram pesado no ataque, para proteger a irmã, mas o trasgo a puxou com toda a força, e ela arrebentou. Momentos após, ela
explodiu, e a nuvem de pó que se ergueu foi inalada pelo trasgo, que começou a tossir, e caiu de joelhos, com sangramento por todas as vias respiratórias.
- Não! – exclamou Xan – Eles vão matar o meu dragão! – vendo aquilo, ela puxou o arco de debaixo da capa, e juntamente outras quatro flechas, de
pontas prateadas. Ela as posicionou no arca, e o retesou. Quando ela as soltou, cada uma seguiu o seu caminho, atingindo os t rasgos restantes, na região das
panturrilhas. Isso fez com que eles prestassem atenção nos garotos.
- Isso foi uma má ideia – falou Fred para ela quando percebeu que os trasgos estavam se encaminhando para eles.
- Isso é quase como um teste – respondeu ela – se virem com esses. E vocês – disse Xan, apontando para os lobos – venham comigo. Nós precisamos
matar aqueles escorpiões. – Khalami olhou para Carl, sem saber o que fazer, e Carl fez sinal positivo. – Vamos! – disse Xan, perdendo a paciência.
Quando os lobos saltaram, correndo pelo meio dos monstros que estavam sendo massacrados e Xan desapareceu misteriosamente, Fred parou tem po
suficiente para analisar os trasgos. Eles eram quatro, e os trasgos eram quatro também. Um para cada. Nada mais justo. Exceto que os trasgos tinham mais de
quatro metros cada.
- Eu fico com o menor – disse Taylor – eu não tenho uma arma, então nada mais justo do que o menor para mim.
- E eu fico com o maior – disse Carl, e Fred achou que era propositalmente para fazer Taylor se sentir pior. – sabe, uma lança permite maior alcance, e
eu ainda tenho isso – disse ele, ficando invisível.
- Ahn, Brant? – Fred falou para Brant, que estava meio boquiaberto – você quer qual deles?
- E que tal se nós não nos separássemos? – perguntou Brant – sabe, juntos nós podemos ser mais fortes e tal...
Mas já era tarde demais. Carl cutucou o trasgo maior com sua lança na parte de trás de uma das pernas, e apareceu para que ele soubesse de onde
tinha vindo à investida. Já Taylor, tinha chamado atenção do trasgo menor, e o afastado dos outros. O trasgo estava golpeando o escudo dele insistentemente,
mas o escudo repelia, sem causar nenhum impacto em Taylor. Fred estava achando que o escudo era mágico. E sem mais nem menos, Brant se jogou contra ele,
o derrubando no chão, bem a tempo, porque o bastão que o trasgo estava carregando passou a centímetros da cabeça dele. No mesmo momento, Fred
empurrou Brant para o lado, porque um segundo bastão acertou o chão onde eles estiveram poucos instantes antes. Fred se levantou de sobressalto, e
desembainhou a espada, pronto para lutar lado a lado com Brant, mas surgiu um imprevisto. Um dos trasgos pegou Brant pelos pés, e o levou em direção á
boca. Quando o trasgo soltou Brant, ele desceu reto, sendo engolido pelo trasgo, inteiro. Isso com toda a certeza daria uma bela dor de barriga no trasgo, mas
Fred gritou:
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO – e saiu correndo em direção aquele trasgo, com a espada em mãos, pronto para ter vingança, mas algo o levantou do chão.

50
O outro trasgo o havia pegado pelas costas da camisa, levantando-o acima da própria boca. Quando o trasgo o soltou, ele abriu as pernas, e conseguiu
se equilibrar nos dentes superiores e inferiores do trasgo. Ele tentou fechar a boca, mas Fred foi mais esperto, e saltou para o nariz dele. Ele teve uma breve
visão com o canto dos olhos, de movimento e saltou na hora, porque o outro trasgo acertou com toda a força que tinha o bastão no lugar em que Fred estivera.
E com toda a certeza, constatou Fred, trasgos não são as criaturas mais inteligentes. O trago que fora atingido foi atirado para trás, indo parar nas muralhas das
cidades dos magos, ao lado dos portões, com a cara destruída. Provavelmente estava morto. O outro trasgo, provavelmente entendendo o que tinha
acontecido, virou-se lentamente com uma fúria enorme nos olhos para Fred, e ergueu seu bastão.
Fred sabia que não conseguiria sair dessa, e torceu por um milagre. E parecia que aquele era o seu dia de sorte. O trasgo parou no meio do ato, e se
envergou sobre si mesmo, pondo as feias mãos na barriga. Então ele urrou, mas nada disso adiantou. Ele caiu para trás, e um machado brotou de dentro da
barriga dele, fazendo uma pequena abertura. E depois a abertura se alargou. E dela saiu Brant. Imundo, melequento, e extremamente nojento, mas Brant.
Fred não sabia se corria para abraça-lo ou dava risada. Mas preferiu a segunda. Brant saltou para fora da barriga do trasgo, e falou:
- Vai ficar rindo ou vai me ajudar a acabar com os outros? – e foi então que Fred se lembrou dos outros. Ele procurou por eles, e viu Taylor, quase
encostado á muralha, se defendendo como podia, mas sem poder atacar. Procurou também por Carl, mas ficou aliviado ao saber qu e ele dera conta do recado.
O trasgo estava no chão, com diversas perfurações pelo corpo, sangrando, e Carl, estava em cima dele, com a lança posta no seu pescoço. Ele preferia não ver
aquilo, por isso indicou com a cabeça o trasgo que estava atacando Taylor. Os dois se encaminharam para o lugar onde o trasgo tinha encurralado Taylor, e Fred
disse:
- Ei, sue babaca! – o trasgo parou de atacar, e estava se virando, mas era tarde demais. Brant e Fred juntos atacaram a parte de trás dos joelhos do
trasgo, e o fizeram cair no chão. Fred se aproximou vagarosamente pelo lado dele, encostou a espada logo acima do seu coração, e disse – idiota! – então
desceu a espada, fazendo o trasgo tombar na mesma hora.
O dragão não estava com tanta sorte. Ele tinha perdido mais duas cabeças, e a única intacta era a esverdeada. Percebendo aquilo, Xan assoviou, e os
lobos entenderam. Correram para onde os garotos estavam, e pararam ao lado deles. Xan também apareceu. Alguns dos monstros estavam se desviando do
ataque ao dragão, e se encaminharam para os garotos. Eles já pegavam em armas, quando Xan disse:
- Não é necessário – e com o que Fred poderia chamar de um toque de tristeza na voz disse – Adeus Balaher.
Então um dos monstros cortou a última cabeça que restava, e depois disso, um clarão encheu o local da clareira, e os garotos não puderam ver mais
nada. Depois de alguns instantes, o clarão passou, e eles puderam voltar a enxergar.
O local havia sido dizimado. Uma circunferência com cerca de um quilômetro, a partir de onde o dragão estava havia desaparecido consumido por uma
espécie de explosão. Em torno deles e da muralha, bem como do portão, brilhava uma luz rosa, levemente visível, E Fred constatou que era a única coisa que os
tinha mantido a salvo. Além deles, a única coisa que tinha restado era a carruagem, que brilhava, com uma leve luz negra. Então as proteções desapareceram.
- Foi você? – perguntou Brant assustado.
- Nunca corte a última cabeça de um dragão de quatro cabeças. – respondeu Xan – e quanto á barreira mágica, não fui eu. Os magos ainda têm uns
truques nas mangas. Mas quanto àquilo – disse apontando a carruagem. – eu não faço a mínima ideia do que seja.
- Vamos descobrir – disse Carl.
Eles se encaminharam pelo campo devastado, em direção á carruagem, mas estacaram ao perceber que algo estava saindo de lá. Era uma criatura
encapuzada, com cerca de dois metros de altura. E parecia que um Brant estava prestes a sair do estômago de Xan, porque ela ficou completamen te branca, e
disse:
- Fujam, e não olhem para trás – e percebendo que nenhum deles se movia, ela gritou – Estão esperando o que? Corram!
Os lobos até tentaram ter uma iniciativa, mas não houve tempo. O grito havia despertado aquela coisa. E dois pontos vermelhos surgiram por baixo do
capuz. Xan disse:
- Não olhem nos olhos... – mas sua fala foi interrompida, e se ouviu um grito, vindo dela, que chamou a atenção de todos os outros.
Xan estava jogada no chão, se retorcendo toda. E gritando. Gritando muito. Parecia que estava sendo afligida pela maior dor d o mundo. Brant correu
para ajuda-la, mas ao tocá-la, caiu ao chão, e começou a se retorcer e gritar também.
Fred pensou em ajuda-los, mas soube na hora que não era uma opção. Pensou que a fonte daquilo deveria ser a figura encapuzada. Então pensou que
se ele pudesse detê-la... Olhou para ver o que deveria fazer, mas nunca deveria ter feito isso.
O que sentiu a seguir imaginou que nenhum ser humano deveria ter sentido antes. Parecia que os seus ossos tinham sido arrancados da pele, moídos,
postos de volta e sugados por uma boca invisível e vomitados de volta. Tudo isso em um único segundo. E isso se repetia. Com toda a certeza, se ele tivesse que
classificar a dor de um a dez, sendo um uma coceira, e dez a pior dor que ele conseguisse imaginar, essa dor receberia nota onze. Ou maior.
Ele podia escutar algum tipo de conversa, mas não conseguia prestar atenção no que estava acontecendo. A dor era tanta que ele se admirava de estar
sentindo algo. E então passou.
Do nada, a dor sumiu. Mas deixou marcas. Não físicas, mas marcas que jamais poderiam ser curadas. Ele nunca esqueceria aquilo. Mas agora ele estava
bem. Ele até podia se levantar. Mas quando tentou isso, tudo ficou escuro, e ele apagou.
Ele não sonhou, ou pelo menos não lembrava se tinha sonhado. Quando acordou era noite, e não sabia quanto tempo tinha dormido . Ele estava
deitado em uma cama macia. Cama parecia uma palavra tão estranha e distante no passado, que ele nem lembrava direito como falar. Quan do abriu os olhos,
pode ver que havia um teto sobre sua cabeça. Olhando em volta, viu que havia outra cama, em que Brant estava sentado. Ele estava com uma roupa estranha,
que se parecia com uma calça, só que mais curta, batendo na canela, e com uma camisa sem mangas, com uma espécie de colete po r cima. Ele ia mencionar
algo a respeito, mas então percebeu que estava com uma roupa igual, e decidiu se manter em silêncio. Entre as camas, havia uma cômoda, com um jarro de
água e com dois copos. Do lado da cama de Brant havia uma cadeira, e além dela uma porta. Por ela entrava um murmúrio, como se alguém estivesse discutindo
em voz baixa para não acordá-los.
Fred se levantou. Ainda não estava em seu melhor, mas já era o suficiente para poder se movimentar e se manter em pé. Fazendo sinal para Brant, ele
indicou a porta, e Brant entendeu também. Eles vagarosamente se dirigiram para a porta, tanto para não fazer barulho como para não desmaiarem novamente.
Fred abriu a porta e um cheiro maravilhoso invadiu o quarto. Ele soube na hora que eles não estavam discutindo, e sim conversando durante um jantar.
Saindo pela porta, ele pode perceber que havia um corredor cm duas portas de cada lado, que levava a uma escada, e era dali que vinha o barulho. Ele virou-se
para Brant querendo indicar o local de onde as conversas vinham, mas percebeu que ele não ouviria. Ele estava olhando por uma fresta da porta em frente ao
quarto deles, e viu que era o quarto de Xan. A janela estava aberta, e por lá, ele podia ver ela sentada na janela do telhado da casa vizinha. De lá também podia
ver parte da cidade, e ela era enorme. O luar também estava muito bonito. Virando-se para Brant, ele disse:
- Vá lá.
- Tem certeza? – perguntou Brant – ela parece tão triste. Talvez só queira ficar sozinha.
- Ninguém quer ficar sozinho de verdade Brant – Fred falou, e deu mais uma espiada, e percebeu que Xan estava chorando.

51
Brant entrou no quarto, e Fred fechou a porta por trás dele. Decidiu que não era assunto para ele. Seguindo o corredor, chegou às escadas, e ficou feliz
ao ouvir a voz de Carl falando. Ficou tão empolgado, que quase esqueceu que não estava tão bem, e quase caiu das escadas. Mas conseguiu se recuperar, e
desceu os degraus pulando.
- Olha quem reviveu! – disse Carl – Venha cá comer alguma coisa!
Ele e Taylor estavam sentados em uma mesa circular. À mesa estava repleta de comida. Ele se sentou em uma das três cadeiras vagas, e imaginou o que
Brant estaria fazendo naquele momento.
Brant estava pensando o que Fred estava fazendo naquele momento. Ele tinha chegado ali, no telhado, se sentado ao lado d e Xan, mas não teve
coragem de falar nada. Ele percebeu que ela estivera chorando, mas parou imediatamente ao vê-lo, provavelmente para não mostrar fraqueza. A vista da cidade
era bela. Ela tinha sido construída entre três montanhas, e muralhas muito altas a cercavam, embora Brant tivesse certeza de que não fosse à única coisa a
protegê-la. A cidade dos magos nunca tinha sido tomada. E provavelmente nunca seria. Nem deveria.
As luzes noturnas tornava a vista muito bela. Parecia que as montanhas se tornavam continuidade do próprio céu. E todas refletiam no rio que passava
no fundo do pequeno vale. Brant tentou olhar além das montanhas, e pode identificar entre as duas maiores, um clarão avermelhado contra o céu, e soube que
aquele era o caminho que eles seguiriam, definitivamente. Pensando nisso, ele foi surpreendido pela voz de Xan.
- Sabe, - disse ela – eu os criei desde pequenos. Escondido é claro, mas eu os criei.
- Do que você está falando? – Brant não queria parecer indelicado, mas ele não tinha a mínima ideia do que ela estava dizendo. Até que ele entendeu –
Você quer dizer o dragão?
- Sim – afirmou ela, concordando com a cabeça – Eles tinham nomes. Balfher, Balgher, Balaher e Balther. Eu não queria que eles tivessem esse fim.
- Você disse que os criou desde pequena? – Ao receber sinal afirmativo, Brant perguntou – por que você teve que escondê-lo?
- As pessoas – disse ela, e hesitou alguns instantes. – As pessoa da companhia não permitem animais de estimação. Eles disseram que te torna fraco.
- Companhia? – perguntou Brant – que companhia?
- As Três – respondeu Xan – mas, por favor, não conte a ninguém.
- Como eles deixaram você sair das companhias? – Brant esperava que a resposta não fosse o que ele estava imaginando.
- Eu não saí. – respondeu ela, com lágrimas surgindo aos olhos. – Eu fugi.
O sangue de Brant congelou. Finalmente ele tinha entendido por que ela era tão boa em combate. Ela tinha tido treinamento nas Três. As Três eram um
grupo de três companhias de assassinos, que compravam criancinhas para treiná-las, e ter os melhores assassinos profissionais do mundo. Depois de entrar
ninguém sai vivo. E se você fugisse, eles mandavam somente os melhores atrás de você. Brant estava com medo de perguntar, mas ele tinha de saber o que eles
tinham enfrentado.
- Aquilo – ele engoliu em seco. – aquilo lá atrás é um dos de alto escalão?
- Aquilo? – então ela entendeu o que Brant tinha dito e ficou sombria – não. Aquilo era muito pior. Aquilo era um dos três Comandos, ou como eles
preferem ser chamados, os Cavaleiros da Morte.
O sangue de Brant gelou. Mas ele viu um ponto positivo nisso. Eles tinham enfrentado um deles e tinham sobrevivido. Então talvez eles não fossem tão
terríveis assim. Ele arriscou:
- Então quer dizer que nós já estamos prontos para enfrenta-los?
- Idiota! – Xan disse isso rindo – você não faz ideia do que você está falando. A dor que você sentiu não foi nada! Você compartilhou uma parte comigo!
Se você quiser saber o que é ser atingido por toda a fúria de um dos cavaleiros, pergunte para o seu amigo Fred!
- Fred? – e só então Brant percebeu que Fred também havia sido atingido. Ele nem tinha se preocupado em saber como ele estava.
- É. – mas Xan estava pensando em outra coisa agora – e isso que era só Dor.
- Só dor? – perguntou Brant – por acaso poderia ser pior?
- Poderia? – satirizou Xan – Vai ser bem pior. Dor é o cavaleiro mais fraco. Depois vem Medo, e por último, bem nem eu sei qual é o terceiro, mas dizer
que é o pior.
- Mas me diga – Brant ainda estava com uma dúvida – se nós enfrentamos um dos cavaleiros, como ainda estamos vivos.
- Eu – Xan parecia ter ficado confusa – eu não sei. Realmente é uma boa pergunta.
- Vamos descobrir? – perguntou Brant, levantando.
- Como? –perguntou Xan.
- Com interação humana – disse Brant, dando um leve sorriso – aposto que não ensinam isso lá nas companhias. - E juntos eles saltaram novamente
para dentro dos quartos.
Ao descerem as escadas, encontraram Fred já sentado junto com os demais, com duas pessoas estranhas, uma garota e um velho. A garota era muito
bonita, tinha cabelos loiros, quase dourados, pele branca como neve, e olhos azuis profundos. As bochechas pareciam naturalme nte coradas, e orelhas
levemente pontudas. Já o velho, tinha uma barba branca, perfeitamente alisada, longa, que passava dos joelhos. O cabelo, idem. Tinha os mesmos olhos
profundos da garota, só que eram verdes. Cada um sentou em uma cadeira, e pegou um prato para se servir. Ao ver a cara de Fred, Brant soube que a
experiência havia sido muito pior para ele do que para si. Ele não queria perguntar, mas foi quase que obrigado.
- Fred, como foi?
- Acho que você sabe – respondeu ele, sentindo a ardência nos ossos – você também estava lá.
- Percebe Brant? – Xan interveio – isso é algo que nunca mais sai de você.
Fred não estava querendo conversar sobre isso, então resolveu discutir outro problema.
- Vocês já sabem como saímos vivos de lá?
- Como? – perguntou Brant, dando uma piscadela para Xan, como se estivesse dizendo “eu não te falei?”.
- Morte nos salvou. – ele fez uma pausa para abocanhar um pedaço de pão e o engolir. – Ele apareceu instante depois de Dor me pegar. Parece que ele
fez algum feitiço, ou alguma coisa assim.
- Na verdade foi um feitiço para expulsar o mau. – disse o velhinho, chamando a atenção da conversa para ele – Um feitiço muito poderoso, que
consome muita energia. Mas não se preocupem. Morte foi expulso junto com Dor. Ele não desapareceu, pelo menos por completo.
- O que você quer dizer com isso? – perguntou Fred.
- Quero dizer que ele ainda está vivo, mas muito fraco. – respondeu o velho, e mudando de assunto, perguntou – Mas por que vocês, jovens do sul
vieram até nós, os magos? Creio que não foi por negócios.
- Não – respondeu Fred – viemos até aqui por um motivo: encontrar a última descendente pura dos Elfos.
- Infelizmente com isso eu não posso ajuda-los – respondeu o velhinho, e a garota ao seu lado fez menção de dizer alguma coisa, mas ao ver o olhar
furioso do velho, se manteve em silêncio, corando ainda mais as bochechas, e Fred adorou aquilo. O velhinho continuou – Mas creio que este não é o único
motivo de sua vinda. Deve haver algo mais com que eu possa lhes ajudar.

52
- Na verdade, há sim – lembrou-se Fred – nós precisamos alcançar as montanhas, das terras centrais, e não sabemos bem como. Poderia nos indicar um
meio de encontra-las?
- Sim, isso eu posso. – respondeu o velhinho com um ar de sério no rosto – mas infelizmente aí surge outro problema. Para passar para a região das
montanhas, vocês precisam passar pelos portos do norte, e para isso, é necessária uma chave.
- Bem – disse Brant – e como nós conseguimos essa chave?
- Com o chaveiro da cidade, é claro – respondeu o velhinho.
- E onde nós podemos encontra-lo? – perguntou Carl, ficando sem paciência.
- Aqui mesmo! – disse o velhinho exultante, deixando um objeto dourado escorregar para fora da manga de seu casaco. – e o melhor: ele pode abrir
qualquer porta para vocês.
- Ótimo! – exclamou Fred aliviado – e quando nós podemos partir?
- Calma aí. – disse o chaveiro, com um sorriso insinuante no rosto – eu não disse que aí surgia outro problema? – vendo a cara de decepção dos garotos
ele resolveu desembuchar tudo de uma vez – na verdade, o prefeito da cidade...
- O que é um prefeito? – perguntou Brant
- É um tipo de governante, só que escolhido pelo povo – explicou o velhinho – e se me interromper mais uma vez, eu não lhes explico mais. Retomando,
o prefeito da cidade não vai me deixar dar a chave para qualquer um. Aqueles portões foram lacrados, para impedir que alguém tentasse fazer alguma besteira.
Vocês devem mostrar serem dignos de poderem por as mãos nessa chave. Por isso, vocês devem participar de um combate.
- Que tipo de combate? – perguntou Fred.
- Essa é a melhor parte. Geralmente os combates eram feitos contra algum tipo de animal. Só que como vocês são em – ele parou para dar uma
conferida – cinco, seria injusto para o animal. Então, eu e ele decidimos fazer diferente. Sabe aqui nós temos uma tradição. Para se tornar um mago, você deve
enfrentar um oponente, e subjuga-lo. Vocês irão enfrentar cinco magos prontos para se formar em elementarismo.
- Elementarismo? – perguntou Fred – eu pensei que vocês não formassem mais magos assim.
- E não formávamos, mas os tempos mudaram. Continuando, se vocês forem capazes de ganhar deles, vocês prosseguem, e eles irão repetir o último
ano de estudos. Caso eles ganhem, vocês ficam, ou voltam para casa, e eles se formam magos.
- Mas e por que isso tudo? – perguntou Brant – quero dizer, nós temos pressa, e é obvio que nós vamos vencer. Você não sabe do que somos capazes.
- E nem você do que eles são capazes. Não se deixe enganar pela aparência. Olhe nossa querida Megan aqui, elementarista da terra. Aposto que ela
pode dar uma surra em vocês. E afinal, isso serve a outro propósito nosso. A população anda muito nervosa ultimamente, principalmente com o ataque de
ontem. Então achamos melhor dar uma distração a eles. Por isso, iremos realizar o combate em uma arena aberta ao público amanhã de manhã.
- E se não quisermos concordar com isso? – perguntou Fred.
- Então vocês podem escalar as montanhas, porque de outro jeito vocês não irão passar por aqui. – disse ele com um sorriso amarelado na cara – e
agora me deem licença, por que eu costumo me retirar cedo. Por favor, queiram se retirar também. Meninas em um quarto, e os demais acho que já conhecem
os seus.
Falando isso, ele subiu as escadas, e não esperou pelos outros, apagando o lampião suspenso. Mas não foi difícil para Fred en contrar o quarto. Depois
da escada, o corredor era reto, e do quarto deles, entrava luz do luar, o que permitia a ele visualizar o caminho. Ele se deitou primeiro, na cama ao lado oposto à
porta, da qual tinha se levantado mais cedo.
- Tem algo de estranho nela – disse Brant – ela não me contou tudo.
- Pode ser que seja só paranoia sua. – respondeu Fred, mas não estava ligando para nada do que Brant falava. Ele só pensava em ter de batalhar contra
aquela garota. – me conte amanhã. Agora estou cansado, preciso dormir.
- Tudo bem – respondeu Brant – eu também preciso. Boa noite.
Mas nenhum dos dois dormiu por um bom tempo, cada qual com suas perguntas sem respostas.

53
A Arena
Carl
Carl acordou com dores nas costas, devido à dureza da cama. Algum idiota tinha adentrado o quarto, gritando bom dia e abrindo as cortinas, deixando
o sol entrar. Ele não estava com a menor vontade de acordar, mas o mesmo idiota puxou as suas cobertas, e ele olhou para ver quem era o idiota. Era Xan, e ele
torceu para que ela não pudesse ler pensamentos. Ela parecia empolgada. Não que ela não deveria estar, mas que graça teria bater em alguns nerds magricelas
que achavam que sabiam tudo sobre domar os elementos.
Sentando-se na cama, Carl esfregou os olhos para o sono passar, e perguntou:
- O que temos de café da manhã?
- Nada – respondeu Xan – não faz bem comer demais antes da batalha, por isso eu disse para o chaveiro não preparar nada.
- Demais – disse Carl sarcasticamente. Na verdade ela era demais. Só que ele já havia percebido que Brant estava a fim dela, então decidiu deixar pra lá.
– quando iremos para a arena?
- Segundo o chaveiro, logo. – ela atirou uma espécie de colete que estava segurando para Carl, e ele percebeu que estava seminu, o que o deixou
envergonhado – é melhor se vestir. Bote o colete por cima. – e vendo Taylor dormindo, na cama ao lado, ela disse – e esse aí?
- Já trato de acordá-lo – disse Carl, e pegou a jarra de água pela metade na mesinha entre as duas camas, e virou-a sobre Taylor. Taylor deu um salto,
assustado, e quando percebeu o que tinha acontecido, começou a xingar Carl. Carl pôs a calça, e depois a camisa. Quando foi por o colete por cima, percebeu
que ele era extremamente pesado. Resolveu perguntar – Do que é esse colete?
- De escamas de dragão – disse Xan, tirando a capa, e revelando que também tinha um. Mas Carl não estava prestando atenção no colete. Estava
prestando atenção no que tinha por baixo. Como a capa escondia bem, ele não tinha visto aquilo antes. E nunca tinha visto em qualquer outro lugar. A roupa
que ela estava vestindo, era de couro preto, muito justo, chegando a brilhar. Parecia ser uma peça inteira, dos ombros aos joelhos, onde uma bota também
negra aparecia. Os ombros morenos, assim como os braços ficavam de fora. Ela tinha um tipo de bainha, em que tinha duas adagas, mas ele podia apostar que
aquelas não eram as únicas duas. Uma corda de um arco passava pelo seu peito, bem como as tiras de uma aljava de flecha. Xan tirou o arco das costas, e
juntamente uma flecha. Ela se afastou um pouco, pôs a flecha no arco, e a disparou em direção á Carl. A flecha bateu no colete, e se desviou para o lado. O
colete ficou intacto. – Viu? Impenetrável.
- Sorte minha – respondeu Carl. Xan se aproximou, para arrancar a flecha da parede, e Carl pode sentir o cheiro dela. Era maravilhoso. Parecia com um
campo de morangos em plena floração. E ele tinha certeza que não resistiria, mas algo chamou sua atenção fazendo com que ele desviasse o assunto. – Espere
um instante. De que é feita essa ponta de flecha prateada?
- De prata lunar – disse ela, dando uma das flechas para Carl – e sabe o que é melhor? Elas são encantadas. Sempre acabam voltando para minhas
mãos. Quer ver? – ela se virou e atirou uma das flechas pela janela. Carl tentou acompanhar a trajetória da flecha pelo seu brilho. Mas logo ele a perdeu, devido
á claridade do sol. Quando olhou de novo para Xan, viu que ela estava comendo uma maçã. Ela viu a cara de espanto dele, e atirou o resto da maçã no seu colo –
Isso você pode comer. Frutas são leves e dão energia. Ótimas para o combate. – vendo Taylor querendo se trocar, ela disse – espero vocês em frente á casa em
cinco minutos. Não se atrasem. E a propósito, Carl, você vai adorar a carona. – e então desapareceu.
- Cara – Taylor disse – ela tá amarrada em você. Só que Brant não vai gostar nada disso.
- Deixe ele fora disso – disse Carl. Isso já ia ser difícil para ele – Eu não quero nada com ela.
- Não foi o que pareceu – disse Taylor, tirando a camisa ensopada – você mal conseguia se segurar.
- Se troque e esteja lá embaixo em cinco minutos – levantando-se e dando as costas para Taylor, Carl falou – eu vou ver se Fred e Brant acordaram.
Ao chegar ao quarto dos outros dois, ele percebeu que ambos tinham acordado, sim. Ele perguntou para eles:
- Estão prontos? – olhando para Fred e Brant, ele constatou que nenhum deles estava vestindo um colete como o dele – Xan já está esperando lá
embaixo. E eu acho que o velhote também.
- Quase – respondeu Fred – só precisamos convencer Brant de que não seremos covardes se enfrentarmos os garotos. Talvez nem sejam garotos, e sim
menininhas. Mas eu acho que ele está com medo de perder.
- Não estou! – protestou Brant – só que eu não acho justo! Nós controlamos os elementos, por que está no nosso sangue! E eles? Eles precisam de
algum tipo de magia. E se eles forem completos idiotas? Eu só não quero machucar nenhum deles.
- Você não precisa – disse Xan, escorada na porta – você pode fazer com que eles se rendam, mas eu pessoalmente preferiria bater neles até eles
desmaiarem.
- Você não ia esperar lá embaixo? – perguntou Carl – e que história é essa de se renderem?
- Eu vim ver o que estava acontecendo, por que faz mais de meia hora que eu acordei esses aí – disse indicando Brant e Fred – e quanto a se renderem,
eu fiz algumas perguntas para o chaveiro. Vocês devem combater até que todos estejam dominados, ou desacordados. Ah sim, e vocês terão direito de usar
uma arma, o que quer dizer, que é melhor vocês levarem essas armas aí – disse ela indicando com a cabeça as armas de Brant e Fred, ao lado de uma das camas
– nunca se sabe quando um bando de nerds magricelas vai partir para a violência.
- O que você quer dizer com “vocês”? Você não vai participar? – Brant parecia decepcionado.
- Eu vou sim, mas só em último caso. Como por exemplo, se todos forem nocauteados, ou se renderem. Esper o que isso não aconteça – e dando de
ombros, terminou – mas nunca se sabe. Só pra garantir que possamos continuar. Vamos descer? – e desapareceu de novo.
- Ela nunca sabe esperar pelos outros? – Brant parecia agora indignado.
- Se você pudesse se teleportar, jamais iria esperar pelos outros. – respondeu Carl, e saiu na frente.
Quando atingiu o corredor, Taylor já os estava esperando, pronto para a batalha, mas sem o escudo. Olhando para aquilo, Carl falou:
- Pegue o seu escudo se quiser alguma arma descente. – e Taylor voltou para dentro do quarto, para pegar o escudo. A lança de Carl estava do lado da
escada, porque ele não havia visto necessidade em levá-la para o quarto na noite passada. Era uma bela lança de ouro boreal, com cabo de seixos brancos. Ele
não se lembrava de como tinha adquirido ela, mas pelo que contavam para ele nas cavernas, era algum tipo de herança que seu pai tinha deixado.
Saindo pela porta, demorou alguns segundos pra perceber o que se passava em frente à casa, por que a luz do sol machucou a sua visão. Já deviam se
passar das dez horas. Em frente á casa, ele teve outra surpresa: Dois lobos gigantes estavam esperando por eles, junto com um khopereus. Ele correu para
abraçar Khalami e Francine.
- Como vocês puderam entrar? – perguntou Carl. O chaveiro tinha explicado para eles que não poderiam entrar devido ás barreira mágicas que
impediam a entrada de animais selvagens.
- Parece que conseguiram abrir uma brecha para nós. – respondeu Francine – e que tal uma carona até a arena?
- Na hora – respondeu Carl, subindo em Khalami.
- Posso? – perguntou uma voz ao seu lado. Era Xan que estava pedindo para subir. Ele sabia que Brant ficaria roxo de ciúmes, mas o jeito como ele tinha
olhado para a garota estranha na noite anterior, dizia que Xan estava fazendo aquilo por ciúmes também. Ou não.

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- É claro – disse Carl, e ela subiu, segurando em seu abdômen. Francine fez um gesto para que Fred e Taylor subissem nela novamente, e Brant subiu no
seu khopereus. Eles estavam prontos para seguir adiante, quando perceberam um detalhe: ninguém sabia onde ficava a arena.
- Pode ser que dali vejamos onde fica – disse Taylor indicando uma ponte logo á frente. Eles estavam no meio de uma rua com casas altas em ambos os
lados da rua, o que impossibilitava a visão de qualquer coisa. Mas como na ponte não havia construções, eles acharam que era uma boa ideia.
E Taylor estava certo. Eles podiam ver muito mais, e a visão era estonteante. Primeiro, por baixo da ponte passava um rio, e cerca de cinco metros
depois, ele caia em uma queda da água, com dezenas de metros. Dali eles podiam ver todo o vale, e a cidade que nele havia. A visão era maravilhosa. Casas se
amontoavam nas encostas das montanhas, quase de forma mágica, o que não era de se duvidar. Mais para baixo no vale, uma densa camada de névoa impedia
a visão da parte mais baixa. A névoa continuava saindo da cachoeira, e quando se encontrava com a outra, refletia a luz do sol, fazendo com que a cidade fosse
banhada por luzes multicoloridas. Mas nada se via de arena alguma. Foi quando escutaram passos de cavalo vindos de trás.
- Oooooo – disse o chaveiro, freando o cavalo, e fazendo-o parar a alguns metros dos garotos. Parecia que o cavalo insistia em não se aproximar mais
dos lobos, mas não havia motivo para medo. Talvez não fosse o que o cavalo pensava quando via lobos gigantes olhando para ele e salivando. – finalmente achei
vocês garotos! As pessoas estão esperando na arena!
- Infelizmente nós não sabemos onde ela fica – disse Fred – poderia nos mostrar?
- Ela fica bem ali, naquela névoa – disse ele apontando para onde provavelmente estava a arena. – não se preocupem, a névoa vai se dissipar quando
vocês chegarem lá. É só para evitar que vocês saibam que tem lá de antemão.
- Obrigado! – agradeceu Fred, e virando-se para os outros, disse – o que acham de apostar uma corrida? Sabe, eu acho que a última não foi muito justa.
- Tudo bem, mas eu já ganhei – disse Xan, e desapareceu.
- Alguém tem de explicar regras para ela – disse Khalami – mas eu aceito. Tudo bem para você Francine?
- Ok – disse Francine, já apoiando as patas no chão. – mas vocês têm de me dar uma vantagem de três segundos por causa do peso extra.
- Tudo bem – disse Khalami – então vai.
Francine partiu, mas Khalami decidiu dar cinco segundos de vantagem para ela. Depois de três, Brant e o khopereus partiram, mas Carl sabia que ele
seria o último a chegar, porque um khopereus não era feito para correr. Então Khalami partiu. Ele terminou de atravessar a ponte, mas não tomou a primeira
entrada como tinha feito Francine. Ela levaria para um beco sem saída, então tomou à segunda, a mesma que Brant tinha tomado. Ao virar a esquina, Ele já
percebeu que havia entrado em uma ladeira. Ele não podia ver Brant em lugar algum, mas achou que era por que havia muitas tendas com frutas a venda, que
atrapalhavam a visão. Mas descobriu que estava errado.
Primeiro ele viu somente uma sombra passando rapidamente, mas não viu nada, depois quando a sombra passou novamente, ouviu um som, e
percebeu que o que estava ocasionando aquela sombra vinha de cima. Era um dragão negro, e sobre ele estava Brant, zombando de Carl.
- Ei você sabe o que eu aprendi? – perguntou ele em voz alta. – a falar com Josh por meio de telepatia.
- O que?! – perguntou Carl, com certa inveja – como assim?
- Ele me ensinou. Quer ver? – ele perguntou, e após uns segundos de silêncio, uma voz falou na cabeça de Carl.
- Esvazie a cabeça – ele não tinha certeza, mas podia apostar que era Josh. – deixe tudo fluir. Agora se concentre em mim e tente entrar em minha
cabeça. Esqueça o resto, e foque em mim. Agora me faça entender o que você está pensando.
- Estou tentando – disse Carl, mas nada parecia acontecer.
- Não fale com a boca – disse Brant de lá de cima – fale com o cérebro!
Carl se concentrou novamente. Ele imaginou Josh. Ele tentou estender-se até ele. Ele pensou “está me ouvindo?”, como se estivesse pensando na
cabeça dele. E deu certo. “estou” respondeu Josh. “eu posso fazer isso com qualquer um?” perguntou Carl em seguida. “Só com animais. Com humanos é muito
mais difícil, e você precisa de treino, senão vai se perder.” Respondeu Josh. “e eu posso fazer isso com Khalami?” voltou a perguntar Carl. “Eu não recomendaria.
Você pode misturar os seus sentidos com os dele. E isso pode confundir sua mente. Eu não estou compartilhando com você, porqu e eu estabeleci a conexão,
mas caso você estabeleça, deve saber o que deve tentar usar e o que não.”
Mas Carl resolveu tentar o mesmo assim. Se concentrando no ponto atrás do pescoço de Khalami, ele tentou fazer com que seu cé rebro interagisse
com o de Khalami. E algo estranho aconteceu. Ele ouviu Fred dizer algo como: “vamos vencer”, e sentiu o cheiro de algo estranho no ar, mas soube que era de
Josh. Também estava com medo, por causa do dragão, mesmo sabendo que ele era amigável. E o mais impressionante era sua visão. Ele percebia até os mais
ínfimos movimentos nos becos mais escuros. Ele estava realmente compartilhando com Khalami. Mas ele soube também de outra coisa. Ele amava Francine. Ela
era tudo para ele, e ele achava que ela não dava nem bola para a existência dele. Ele ficou com pena de Khalami. E disse:
- Ela também te ama! – falou isso em voz alta, mesmo sem ter necessidade, e a conexão se quebrou. No mesmo instante, todas as sensações
maravilhosas desapareceram. – Vocês perderam todo esse tempo por não falar um para o outro?
- Do que você está falando? – perguntou Khalami confuso, e Carl percebeu que ele não tinha percebido o que tinha acontecido.
- Bem, você jura que não vai ficar bravo? – com o sinal afirmativo, Carl continuou – eu invadi sua mente, ok? Mas não foi proposital, eu só estava
testando alguma coisa.
- Carl! – disse Khalami – eu não estou zangado com você, mas você precisa pedir permissão para manter uma conexão. Não é legal saber o que os
outros estão sentindo. Mas vem cá, é verdade o que você disse?
- Mas é claro! – disse Carl, e lembrou o que tinha escutado o que Fred disse. – mas vamos logo, por que senão vamos ser os últimos a chegar.
A falar isso, parecia que Brant e Josh tinham escutado, e desceram rapidamente em direção á arena, sumindo de vista. Carl e Khalami viraram outa
esquina, e quase de imediato, sem aviso, entraram no nevoeiro. Não podiam enxergar quase nada, mas a rua não tinha entulhos, e por isso, não trombaram em
nada. Depois de alguns segundo, Khalami disse:
- Lá está a arena! – quase eufórico, ele completou – eu sabia que iríamos ganhar.
Mas estava errado. Algumas casas á frente, surgida do beco, Francine apareceu, e acabou com as esperanças deles. Embora Khalami estivesse cm
menos peso, a distância era muito grande para ser tirada, e Francine chegou à frente com folga. Quando Khalami chegou, o nevoeiro começou a se dissipar,
deixando as reclamações de Khalami suspensas no ar, devido à grandiosidade do que eles tinham diante de si.
A arena era enorme. Completamente oval, ela era formada por colunas que se dobravam em arcos, e tinha diversos andares. Era uma obra
arquitetônica maravilhosa. Eles podiam ver as arquibancadas pelo lado de fora, pois elas eram as próprias paredes, e formavam uma aparência serrilhada, o que
acabava fazendo a arena parecer com um grande ninho de pássaro, sustentado por dezenas de gravetos em forma de Y, que se uniam perfeitamente, formando
curvas lisas. Por cima, por toda a borda superior da arena, tremulavam bandeiras vermelhas. Observando esses detalhes, eles nem perceberam dois homens que
se aproximavam caminhando.
- Bom dia! – disse um deles animado – vocês são os participantes de hoje?
- Sim, somos nós – respondeu Fred.
- Então nos sigam– disse o outro homem, de humor mais ameno. Ao ver que os animais também os estavam seguindo, ele disse – Animais não
permitidos, por favor.

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- Algo contra animais? – disse Khalami, mostrando as presas, em claro sinal de ameaça. Logo atrás, Josh se transformou em um dragão, e abriu as asas
em protesto. – por que se tiverem, nós adoraríamos ouvir.
- Não, nada – respondeu o primeiro homem. – sigam por ali – disse para Khalami e os outros, indicando um caminho – por ali vocês chegarão ás
arquibancadas. Infelizmente daqui em diante, é só para participantes. – aquilo parecia ter contentado Khalami e os outros. Os homens seguiram seus caminhos,
sem olhar para ver se estavam sendo seguido. Encaminharam-se para uma porta lateral Antes de entrarem, ele disse – Se tiverem alguma arma preferencial, por
favor, as deem para o meu caro colega, que ele as levará até o local apropriado.
- Mas por que eu não posso começar com minha própria arma em punhos? – perguntou Brant.
- Infelizmente, não é permitido, devido a um sistema de diversão. – piscando com um dos olhos, ele terminou – Cá entre nós, é bem mais divertido
quando os competidores têm de lutar para chegar até as armas.
Eles entregaram as aramas a contragosto. Xan foi a mais contrária, porque ela alegava que ela seria capaz de pegar a arma em menos de um segundo o
mesmo. Mas não teve alternativa. Na verdade ela teria que seria matar o guarda, mas isso ia complicar um pouco as coisas. O coitado estava só fazendo o se
trabalho. Ela entregou as suas armas, que eram um arco e flechas, três facas e uma adaga. O homem se afastou com as armas, e o outro os conduziu para dentro
de uma das portas. Lá dentro, o caminho seguia por túneis, que passavam por baixo das arquibancadas, por isso era possível ou vir as pessoas animadas por
cima. Os túneis eram todos escuros, e de pedra, a mesma que formava as arquibancadas. Ali, elas estavam ligeiramente úmidas, e com leve cheiro de mofo.
Depois de algumas dezenas de metros, eles chegaram á uma pequena sala circular, onde o homem os deixou, e trancou a porta por onde tinham entrado.
Em uma das extremidades da sala, estava uma porta de ferro negro, que Brant tentou abrir, mas estava trancada pelo lado de fora. Eles se sen taram
nos bancos de pedra que estavam acoplados á parede, e resolveram esperar. Como o silêncio era constrangedor, Fred perguntou:
- Então, qual é a estratégia para a luta?
- Simples – respondeu Xan, tirando uma faca de sabe-se lá onde e impando as unhas com ela, - Eu fico de fora e vocês batem neles. Eu acho que vocês
são capazes.
- Por que você não vai participar? – perguntou Fred, com curiosidade.
- Por que eu sou uma garota! – disse ela e riu – Não. É por que eu quero ver o quanto vocês são bons. Comigo não teria graça alguma.
Fred ia perguntar mais alguma coisa, mas esqueceu, quando eles ouviram uma agitação de vozes do lado de fora, seguida de leves tremores na sala, a
qual começou a soltar detritos do teto.
- Parece que está na hora – disse Carl, levantando-se do banco. Então as portas se abriram, e demorou alguns segundos para que os olhos de todos
pudessem se acostumar de novo com a luz do sol.
Xan foi a primeira a sair. Os meninos deram de ombros, e seguiram-na. Carl nunca imaginou que veria aquilo. Ele tinha ouvido falar de histórias em que
prisioneiros eram jogados em arenas circulares, com muros de metros de altura, que os separavam das escadas e bancos mais próximos. Mas aquilo era muito
diferente do que ele imaginava. Os bancos estavam completamente lotados, não importava para que lado ele olhasse. Pessoas ves tidas de inúmeras cores, de
diversas idades estavam se amontoando pelas arquibancadas. Se lhe dissessem que a cidade inteira estava ali, ele não duvidaria. O murmúrio de vozes ficando
impacientes foi abafado com a entrada deles. Parecia que os escravos tinham aparecido para serem devorados pelos leões.
Ele não tinha analisado a arena ainda, mas ela deveria ter cerca de cinquenta metros de diâmetro, do leste para o oeste, e quase cem do sul para o
norte, cheia de areia extremamente branca. Ele constatou que estavam no extremo sul, mas no extremo norte também havia alguém esperando. Cinco figuras
cobertas com capuzes de diferentes cores estavam alinhadas, como se esperando autorização. Então outra coisa chamou sua atenção. No lado leste, contra a
parede, havia diversas armas, e misturadas a essa estavam as deles. Porém, no outro canto, o oeste, havia quatro suportes, cada um com uma pequena esfera
de uma cor apoiado sobre ele. As esferas eram encantadoras. Mas uma voz em algum ponto entre o norte e o leste, chamou a atenção de todos.
- Atenção! – disse, e a voz reverberou por toda a arena – Atenção participantes! Esta batalha decidirá o futuro de todos vocês, sendo que só cinco
poderão sair vencedores. O time que eliminar primeiro o outro sairá vencedor. Alguma pergunta?
- Eu tenho – Xan aproveitou a deixa – caso os participantes não se rendam, e eu não quiser nocauteá-los, vale acabar de vez com eles, se é que me
entendem?
- Não vejo por que não se renderiam. – respondeu a voz, e Carl pode identificar de onde vinha. Ela vinha de uma cadeira elevada, em que um velho
senhor de barbas perfeitamente brancas estava sentado. Em baixo, estava escrito “prefeito”, e Carl supôs que fosse esse o cargo daquele homem. – você
poderia me apresentar algum motivo?
- Não – disse ela – por enquanto. Mas quando chegar a hora, eu posso.
- Então, se preparem – disse a voz, e toda a arena ficou em silêncio, e Carl vu que os cinco do outro lado se puseram em posição de corrida. Carl fez um
sinal indicando aquilo, e os outros entenderam menos Xan, que se manteve de pé, e inalterada. – Três – disse a voz, começando uma contagem regressiva.
- Eu se fosse vocês não correria até as armas. Sabe, ela podem não ter utilidade alguma. Não contra o que vocês forem enfrentar.
- O que você quer dizer com isso? – perguntou Fred, e ela fez sinal com a cabeça em direção ás esferas. – o que as esferas significam?
- Eu não sei – respondeu Xan – mas acho que pode deixar as coisas mais interessantes. Eu não vou ficar para descobrir.
- Dois! – gritou a voz novamente.
- E caso vocês forem tentar as armas, - ela olhou para as armas – eu recomendaria que pegassem mais de uma cada. Eu acho que vão precisar.
- E você? – perguntou Carl.
- Eu estarei por aí, assistindo de algum lugar. Boa sorte.
- VÃO! – gritou a voz, dando autorização para partirem.
Areia não dá muita aderência. Por isso, Carl não deu a arrancada que ele pretendia. Os outros garotos se deram muito melhor. Estavam mais a fren te.
Mas ele não se preocupava, eles provavelmente não roubariam sua lança. Ele estava preocupado com os magos do outro lado. Eles pareciam ter talento para
correr. Eles já haviam corrido metade da distância até o centro, e Brant, que era o mais a frente, pouco mais da metade disso . Mas havia algo de errado. Carl
percebeu tarde demais. Os magos não estavam se encaminhando para as armas. Eles estavam indo para as esferas.
Carl parou abruptamente, e procurou Xan por todos os lados. Ela havia sumido novamente sem deixar pistas. Foi então que ele a localizou. Ela estava
sentada poucos metros abaixo do cadeirão do prefeito, e estava fazendo um sinal para ele. Ela estava esfregando o braço com dois dedos, e Carl percebeu. Ela
estava dizendo para ele ficar invisível. Ele não sabia por que, mas achava que era importante. Ele não discutiu com ela, e ficou invisível, passando a observar o
que acontecia.
Os outros três garotos melhoraram um pouco o seu desempenho. Eles estavam chegando ás armas, ao mesmo tempo em que os magos c hegavam ás
esferas. Brant pegou seu machado, e juntamente pegou um escudo. Taylor foi o segundo a chegar, e pegou o seu escudo, e junto, uma clava cheia de espículas.
Já Fred, pegou sua espada, e um escudo, como o de Brant. Os três já estavam armados. E agora estavam procurando por Carl.
Carl resolveu olhar o que os magos estavam fazendo, e soube na hora que eles tinham feito à escolha errada. O primeiro dos magos, um de vestes
vermelhas, tinha chegado a uma das esferas, também vermelha. Com ela em poderes, estava desenhando um círculo no chão, e pelo movimento de seus lábios,
ele estava realizando um feitiço. E logo Carl constatou que tinha acertado em cheio. O círculo no chão começou a brilhar, e foi diminuindo até sobrar somente

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um minúsculo ponto vermelho. Enquanto isso, outros dois magos já estavam desenhando círculos no chão. O primeiro fez sinal para que eles parassem. O
pequeno ponto vermelho começou a se expandir novamente, mas não era mais areia, era um poço de lava fervente que ficou do mesmo tamanho do círculo
original.
Até aí tudo bem, pensou Carl, mas logo mudou de opinião. Uma mão enorme de lava saiu d buraco, e usou a borda de areia para se içar pa ra fora. Do
buraco estava saindo um enorme humanoide. Quando ele terminou de sair Carl pode constatar todo o seu tamanho e sua forma.
Ele tinha cerca de seis metros, e era composto inteiramente por fogo, lava e rochas derretidas. O corpo era o de um homem forte, mas a cabeça, não. A
cabeça era igual à de uma naja, ligando ombro a ombro, sem a presença de um pescoço delimitado. Em uma das mãos ele tinha uma espada, também de fogo, e
na outra, uma clava de três pontas. A clava deixava marcas negras na areia, onde arrastava, e o mesmo acontecia com a areia sob seus pés. Depois de sair do
buraco, ele se fechou, e desapareceu como se nunca tivesse estado ali.
Carl podia ouvir os murmúrios de apreensão da população, e ele olhou rapidamente para os garotos. Eles estavam olhando apavorados para a criatura,
e Brant estava tentando alguma coisa. Então Carl percebeu que ele estava tentando controlar o monstro, ou pelo menos falar com ele. Uma voz chamou em sua
cabeça: “Carl, ele não vai conseguir”, e Carl percebeu que era a voz de Khalami. Ele olhou em volta para procura-lo, e o viu no meio da plateia, olhando com um
ar sério. “por que não?” perguntou Carl. “Por que o monstro está sob um controle muito mais forte. As esferas.”. Então Carl entendeu. Os magos não estavam
criando monstros. Esse era um daqueles monstros dos quais só se ouvia em lendas antigas. Eles os estavam invocando.
Carl correu em direção dos outros garotos, deixando de ficar invisível, por que isso consumia muita energia. Mas esse foi o seu primeiro erro. O monstro
gigante de lava o viu, e como ele era o alvo mais próximo, se direcionou para ele. Menos de dez passos depois, ele pode escutar o som de algo cortando o vento,
e se abaixou bem a tempo de não ser repartido ao meio por uma espada flamejante. Ele mal teve tempo de se recuperar, e foi at irado para frente, quando três
clavas acertaram o chão, logo atrás dele. Ele se virou, olhando na cara do monstro, e em seus olhos ofídicos, mas sua atenção foi desviada para a língua. Ele a viu
se projetando para fora, em câmera lenta, como os ofídios fazer pouco antes de atacar, e soube que estava morto. Mas algo aconteceu. O homem-cobra se
curvou, e seus olhos em fúria procuraram o que o tinha acertado. Carl aproveitou a deixa para ficar de pé novamente, e viu Brant passar por baixo das pernas do
monstro, evitando ser visto, por poucos segundos. Mas não duraria para sempre. Brant o ajudou a levantar, e ambos saíram correndo.
- O que está acontecendo? – perguntou Brant – os meus poderes não funcionam!
- É por que aquilo está drenando tudo! – respondeu Carl, mostrando ao longe a esfera vermelho-lava que o mago estava segurando em uma das mãos.
- E como vamos chegar lá? – perguntou Brant, ainda correndo.
- Eu não sei! – gritou Carl, e ouvindo um som familiar, ele completou – abaixa! – e evitaram ser cortados no meio por centímetros. Mas nisso, ele teve
uma ideia. Contatando Khalami mentalmente ele falou “Você consegue visualizar Xan?”. “Não” respondeu ele, mas logo em seguida “Espere, sim! Eu a vejo, mas
por quê?”. “Peça que ela me empreste o arco.” Disse Carl. Um momento de silêncio depois, outra voz respondeu. “mandando o cachorrinho fazer o trabalho?” e
Carl constatou que era Xan.
- Mas que droga! – exclamou ele em voz alta – se você consegue me ouvir em voz alta, por que não disse antes.
Ela apareceu pouco à frente deles, e quando eles passaram correndo por ela, ela os acompanhou.
- Por que você precisa do meu arco? – perguntou ela, tirando uma pequena mecha de cabelo dos olhos. Outra vez o som, e eles se abaixaram, e a
espada acertou o muro, ao lado deles dessa vez, fazendo com que ficasse cravada lá.
- Por que eu preciso destruir uma esfera à distância – respondeu Carl – pode me emprestar?
- Não – respondeu ela secamente – mas eu posso arranjar um para você – e com uma piscada de olhos, ela desapareceu.
- Ela está dando em cima de você? – perguntou Brant. Eles estavam quase chegando ao local das armas, e isso era a coisa que Carl mais queria:
recuperar as suas armas. Mas resolveu responder a pergunta de Brant.
- Eu acho que sim, mas se tiver problema para você... – ele não recebeu resposta. Mal teve tempo de olhar para Brant, e ele o empurrou com toda a
força, jogando-o para o lado e Fazendo com que ele fosse parar contra o muro. Ele nem teve tempo de reclamar, e viu três enormes esferas de lava, com
espículas se fincarem na areia, onde ele estivera poucos instantes antes. Ele olhou para aquilo, e viu uma espada grande e de fogo vindo à direção de sua
cabeça, logo por cima das esferas. Ele seu um impulso no muro com as costas, e conseguiu se deitar a tempo, fazendo com que o mostro cravasse a espada no
muro atrás dele.
O Monstro ergueu a espada novamente, e antes que Carl pudesse fazer qualquer coisa, já estava pronto para descê-la novamente. Uma voz chamou
por ele, á esquerda. Ele olhou, e era Taylor.
- Pegue! – gritou ele, atirando o seu escudo de ouro boreal para Carl.
Carl mal teve tempo para colocar o escudo acima de sua cabeça, e a espada desceu. O escudo não cedeu, resistindo à pancada. Carl levantou
rapidamente, e se preparou para correr, mas algo acertou o escudo, atirando escudo e Carl para longe. Ele foi se chocar contra as armas, e atordoado, ele
localizou a sua lança. Alguém estava de pé ao seu lado, e pelas botas ele reconheceu Xan.
A alguns metros dali, Fred e Brant estavam atacando as pernas do monstro, e Taylor estava servindo de distração, com sua clava semiderretida. Xan
falou:
- Esses são difíceis de matar. – ela estava olhando para o monstro, admirada – me lembra de minha infância. De especial quando eu tinha seis anos.
- Você matou um desses com seis anos? – Carl estava admirado, mas não surpreso.
- É, presente de aniversário. É assim que a gente comemora. Se bem que o meu era menor.
- E como a gente mata isso? – perguntou Carl esperançoso.
- É fácil. – disse ela, apontando para o peito do monstro. – está vendo ali? Aquela marca negra? – Carl estava tentando focalizar, mas o monstro não
parava quieto. – você tem que lançar isso ali – disse ela apontando para a lança, e depois para a marca negra.
Carl levantou, pegando a lança com uma das mãos, procurando ver o local que ele deveria acertar. O monstro se virou de costas, e dificultou a visão.
Mas quando ele voltou a ficar de frente, Carl pode ver claramente a marca, e ele calculou que se não fosse naquele momento pr ovavelmente não teria outro
melhor.
Ele lançou a lança, e quando ela estava a meio caminho, com um movimento incrivelmente rápido, o monstro acertou o lado da lança com a clava,
fazendo voar contra o muro próximo e se cravar na parede. O monstro furioso focou em Carl, e começou a se encaminhar para ele.
- Isso complica um pouco as coisas – disse Xan – mas eu vou te dar uma dica. Está vendo aquilo ali? – disse ela apontando para o mago segurando a
esfera em uma das mãos – Ele está protegendo o monstro, não importa o quanto vocês ataquem. Por isso é melhor que vocês desarmem ele primeiro.
Carl arrancou o arco das mãos dela, e mirrou na esfera, do outro lado da arena, a cerca de cinquenta metros. Ele disparou, mas a flecha passo u muito
longe do alvo.
- Você não vai a certar assim – disse Xan – você precisa de concentração. E eu acho que você não tem tempo para isso. – ela disse indicando com a
cabeça, algo atrás de Carl, e desaparecendo em seguida.

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O monstro atacou novamente, e Carl quase não conseguiu puxar o escudo à sua frente, sendo que desta vez ele foi atirado ao ce ntro da arena. Antes
mesmo de se chocar com a areia, ele sentiu que seu braço estava dolorido. Ao colidir com o chão, ele constatou que ele estava quebrado. Uma d or imensa se
espalhou pelo seu corpo. Ele mal percebeu Fred gritando para ele de trás de onde estava o monstro, que por sinal vinha em sua direção.
Ele prestou atenção aos lábios de Fred por um instante, e percebeu que ele estava pedindo o arco que ele tinha em mãos. Parec ia que ele tinha
entendido o plano. Ele se levantou com dificuldade, com a ajuda de somente uma das mãos. O monstro se aproximava novamente, com a espada já se
erguendo. Ele não tinha escolha. Atirou o arco de onde estava pelo meio das pernas do monstro. Fred correu busca-lo, e Carl atirou também as flechas, que
pararam próximas. O monstro estava pronto para descer a espada, mas algo acertou o seu ombro, e Carl percebeu que era o machado de Brant. Ele procurou
por Brant, e viu que agora ele estava desarmado, somente com um escudo para se proteger, mas este também estava em pedaços e fumegando. O monstro
sacudiu as clavas em direção à Brant, e quando a clava acertou o escudo de Brant, fez dele pedaços, atirando Brant contra o muro. Ele desacordou no mesmo
instante.
- Cinco contra quatro! – anunciou a voz do prefeito em alto e bom som para todos ouvirem, embora isso não fosse necessário, porque todos estavam
em silêncio.
Ao olhar para o lado Carl percebeu que Taylor estava chegando para ajuda-lo. Antes de tudo, Carl empurrou o escudo de ouro para ele. Ao menos ele
teria com o que se proteger caso tudo saísse errado, e saiu. Eles puderam ouvir um som de algo sibilante passar por cima deles. Logo depois, eles puderam ouvir
o som de algo parecido com vidro se estilhaçando. Ao olhar para trás, Carl percebeu que era a esfera que estava na mão do mago de vermelho. Ao se espatifar, a
esfera jogou o mago contra a parede, fazendo-o bater a cabeça.
- Quatro contra quatro! – gritou o prefeito empolgado, e continuou – e agora temos uma fera desembestada!
Carl não gostou especialmente dessa parte. Feras desembestadas costumavam ser mais perigosas do que feras nãos desembestadas. Talvez fosse por
que elas não mantinham autocontrole.
Ao se virar de volta, ele pode encarar a fera por um momento, e viu que a fúria nos olhos dela tinha aumentado consideravelmente, e agora ela estava
babando lava. Carl conseguiu se abaixar a tempo de evitar ser acertado pela espada, mas Taylor não teve a mesma sorte, e foi atirado para longe, chegando ao
chão, já nocauteado.
- Quatro contra três! – o prefeito estava ficando empolgado demais, e Carl não estava gostando da atitude dele.
O monstro levantou a clava, e Carl se viu do outro lado da arena. Ao seu lado estava parada Xan. Parecia que ela tinha tele transportado ele para lá. De
lá ele podia ver o monstro ficando confuso, mas esquecendo da confusão logo em seguida, e partindo para cima dos magos. O mago de vestes azul-marinho, que
tinha terminado de desenhar um círculo azul marinho no chão estava agora invocando alguma coisa, que ele provavelmente esperava que fosse derrotar a
criatura de fogo. Mas algo ocorreu de errado. A criatura, ao ver o círculo azul se formando no chão, o atacou, e Carl não sabia se por conhecimento, ou se por
atacar qualquer coisa que surgisse mesmo, mas surgiu efeito. A esfera azul que estava na mão do mago se espatifou em dezenas de pedacinhos.
Outro mago, sem esfera alguma pulou à frente dos demais, provavelmente pronto para defender os demais. Ele ergueu as mãos ao céu, e tudo
começou a ficar escuro, e o sol foi encoberto por nuvens negras rapidamente. O monstro de fogo estava levantando a clava, prestes a atacar, quando um raio
acertou-o, fazendo com que caísse ao chão. Quando se preparava para levantar, outro raio o acertou novamente derrubando-o ao chão.
- Idiotas! – disse Xan – eles nunca impedirão um Crateryus de avançar com raios!
- Crateryus? – perguntou Carl, e então entendeu que ela se referia ao enorme monstro de lava. – e como podemos impedi-lo?
- Não daquele jeito – disse ela, apontando para Fred, que tentava se aproximar do monstro pelas costas, e foi pego por uma das ramificações de um dos
raios, o que o fez desmaiar na hora.
- Quatro contra dois! – o prefeito ficava mais empolgado, isso provavelmente por que não era nenhum dos filhos dele que estavam ali na arena.
- Vou precisar de sua ajuda – disse Xan, e Carl pareceu surpreso. – o que foi?
- Nada, é só que – ele não queria falar, mas teve que dizer – Você não ia ficar de fora disso?
- Ia, mas você está sem um dos braços, e depois – Ela olhou para os magos e depois para o monstro – que graça ia ter?
- E do que você precisa? – perguntou Carl.
- Só que você distraia o monstro – ela disse indicando o braço dele – parece que você é bom em sair com vida disso.
Ela pôs a mão em seu ombro, e ambos apareceram em frente ao monstro. Xan desapareceu logo em seguida deixando Carl lá, sozinho. Ele mal teve
tempo de olhar para o monstro se levantando, quando outro raio acertou-o, fazendo ficar de joelhos. Xan reapareceu ao lado de Carl, desta vez com um bastão
com cerca de três metros de comprimento, e falou:
- Bom trabalho – e apontando para a lança, ela disse – agora me dê isso.
Carl hesitou, afinal, ela havia recusado o arco a ele também.
- Vamos! Dê-me logo – ao Carl dar a lança, mesmo à contra gosto, Xan completou – E de um jeito naquele idiota – apontou para o mago de capa preta,
que estava controlando os raios. Ele parecia estar ficando cansado, o que fez Carl supor que se ele se jogasse em cima dele seria o suficiente para desabilitá-lo.
Ao se jogar em cima dele, Carl tirou toda a sua concentração, e o céu começou a clarear no mesmo instante. Ao cair com ele, Carl bateu o braço
fraturado, e a sua visão ficou escura, devido à dor. Ao olhar para o monstro se levantando, ele pensou que estavam todos mort os, por que agora uma fúria
assassina se infiltrava em seus olhos. Mas ele se lembrou de Xan. Procurando por ela, ele constatou que ela estava tomando distância. O que ela estava
planejando ele não sabia, mas era melhor que ela fizesse aquilo rápido. Ela então saiu correndo em direção ao monstro com o bastão nas mãos, e a lança de Carl
às costas. Ela pegou impulso, e quando estava a cerca de três metros do monstro, usou o bastão como suporte para pular.
O monstro tentou agarrá-la em meio ao ar, mas ela foi mais ágil. Desviou das mãos quentes dele, Fazendo um movimento em parafuso, e de cabeça
para baixo, pegou a lança de Fred e a cravou logo abaixo da cabeça do monstro, em suas costas, acertando a mancha negra.
Ele cambaleou para um lado, depois para o outro, e finalmente caiu ao chão, se desfazendo em uma poça de lava. O monstro havia sido derrotado, e
agora havia ainda quatro magos inteiros para serem liquidados.
Carl olhou nos olhos de Xan e percebeu que nunca tinha visto fúria igual. Ela desapareceu, e Carl pode ouvir um gemido atrás dele. Virou-se a tempo de
ouvir o mago que estava com vestes azuis ser atirado contra a parede, por um chute de Xan. Ela desapareceu, e reapareceu ao lado do mago, dando um golpe
com o cotovelo nas costas do mago, e quase ao mesmo tempo, dando uma joelhada no seu estômago. O mago caiu inerte no chão.
- Três contra dois! – a voz do prefeito não parecia mais tão empolgada.
- A brincadeira acabou – disse Xan, e Carl pode sentir a áurea de poder crescendo dentro dela. Era como se ela a estivesse controlando, este tempo
todo. E parecia que os magos também podiam sentir. O mago de vestes brancas recuou com a sua esfera em uma das mãos, juntamente com o mago de vestes
marrons. O mago de vestes brancas, de alguma forma, ficou invisível, Deixando assim, também o mago marrom. O mago de vestes n egras não recuou, e Carl
constatou que ele não deveria estar muito bem mentalmente. Ele ergueu as mãos para o céu novamente, e ele se fechou de nuvens negras.
Um raio caiu onde estava Xan, e Carl pensou que era o fim para eles, mas não. Uma espécie de escudo em forma de uma bolha rosa se formou ao redor
de Xan, impedindo o raio de agir sobre ela. Então ela sorriu. Teleportou-se para frente do mago de negro, e agarrou o pescoço dele. O mago tentou se livrar,
mas percebeu que seria inútil. Ele levantou as mãos para o céu, provavelmente para invocar outro raio.

58
- Eu não faria isso – disse Xan – eu não vou proteger ninguém desta vez.
E o raio caiu. Carl estava próximo demais. Ele foi parcialmente atingido, e foi como se todos os seus membros estivessem paralisados. Ele podia
perceber tudo a sua volta, mas não podia se mover. E foi então que a voz do prefeito disse:
- Dois contra um! – ele estava empolgado novamente – parece que teremos uma final emocionante!
O céu começou a clarear. Carl percebeu que, provavelmente o mago estava nocauteado, e o mesmo acontecera com Xan, o que deixava ele a sós. E
como ele não podia se mover, eles iriam perder. Mas ele não podia desistir, Era muito cedo para começar a desistir. Ele tentou mover um braço, mas percebeu
que era o quebrado, e a dor lancinante fez com que os demais membros começassem a recuperar a mobilidade. Lentamente ele conseguiu levantar um dos
braços, e o que ouviu foi como um anestésico para as dores.
- Esperem! – disse a voz, agora mais empolgada ainda do prefeito – É dois contra dois! Parece que alguém não tinha ficado fora de jogo!
Carl se aliviou. Ele não estava mais sozinho Mas logo o alívio passou. Uma sombra apareceu sobre ele. Era Xan, com seu sorriso lindo.
- Anda grandalhão. – ela pegou seu braço e o puxou para cima. Ao ouvir o grito de dor dele, percebeu que tinha pegado no seu braço machucado. –
Deixe-me ver esse seu braço. – apalpando na região do cotovelo, e depois do ombro, ela disse – não está quebrado, só deslocado. Eu posso arrumar isso, e
deixar como novo. – e então, sem esperar resposta, virou o braço de Carl. O grito de dor foi ouvido por toda a arena, bem como o estalo do osso s e repondo no
lugar. Ao constatar que podia movimentar o braço normalmente sem dor, ele perguntou:
- Mas, como? – Ele não sentia mais nenhuma dor. – Pelo que eu sei, quando se desloca o ombro, normalmente tem de se ficar parado por dias.
- Digamos que eu sei algumas técnicas secretas. – ela piscou com um dos olhos – eu não consigo ver os outros.
Levantando, Carl olhou em volta e constatou que realmente os outros dois magos estavam invisíveis. Ele olhou para Xan e perguntou:
- Como vamos saber onde eles estão? Afinal, eu acho que é o poder de alguma daquelas esferas.
- Exatamente, e por um acaso eu sei onde eles estão. – ela disse, e ao ver a cara de Carl de “e pelo que você está esperando” ela completou – mas eu
quero que você aprenda a ver também.
- A ver o quê? – perguntou Carl – o invisível?
- Não Carl, não o invisível – ela sorriu – você deve aprender a ver o poder. Eu si que você pode senti-lo. Mas basta agora você vê-lo.
Carl não estava entendendo. Como ele poderia ver o poder? Ele provavelmente iria acabar ficando louco. Estavam exigindo demais dele nos últimos
dias. Mas algo estranho começou a acontecer. A areia começou a se mover sobre os seus pés. Ela estava indo para trás. Ele se virou e não gostou nada do que
viu. A areia estava se amontoando. E estava ficando grande. Na verdade ela estava tomando forma.
- Mas o que é isso? - Perguntou Carl, apontando para a montanha de areia se formando.
- Problemas – respondeu Xan, atirando o arco de madeira simples que estava caído ali perto para Carl. – você cuida dos dois. Eu cuido do monstro.
Aposto que é aquela garota élfica.
- Garota élfica? – perguntou Carl – achei que você fosse à garota élfica.
- O quê? – perguntou Xan, rindo – você realmente achou que estou em tão baixo nível assim? Parece que você sabe mesmo pouco sobre mim.
- Eu sei o que você nos contou. – olhando em volta, ele perguntou – como eu vou ver onde eles estão?
- Esse é o seu problema – disse Xan, pegando o arco de suas costas, e encaixando uma flecha. – você tenta olhar com os olhos. Você deve sentir, e não
olhar. Olhar é só uma maneira de dizer, por que é como ver.
Carl estava começando a entender. Ele deu uma última olhada no monstro, que se parecia muito com um homem de areia, só que bem maior. Carl
deixou de pensar nele, e resolveu confiar em Xan. Fechou os olhos, e tentou se concentrar no poder. Ele o sentia por toda par te, mas não podia ver de onde
vinha. E ele percebia que o poder se espalhava por toda parte. Mas ele sentia um ponto mais forte. E estava ao lado dele. Era Xan. Ele estava sentindo as ondas
convergirem para ela. E então ele começou a entender o sentido de sentir, e não de ver. De olhos fechados, ele começou a enxergar, todo o poder que o
circundava, como pequenos traços verdes, curvos, que se alongavam e saiam de Xan, que aparecia como uma forma humanoide totalmente verde.
- Eu posso te ver! – disse Carl. – mas eu não consigo ver os outros. O seu poder está ocultando o deles! Dá pra diminuir isso aí?
- Não, - ela estava muito ofegante – não dá – e ele soube que não dava. – tente focar em outro tipo de poder. Outra cor.
Ele se concentrou novamente. Limpou toda a mente de outras coisas, e começou a ver, primeiramente pequenos traços vermelhos, dançando entre os
traços verdes, mas depois se conectando, e indo parar em um ponto específico, todos se agrupando e formando uma forma humana. Logo começou a ver
também pontos azuis, que acabaram levando a outra forma, ao lado da primeira.
Ele não esperou por confirmação. Levantou o arco, e apontou para onde estava a mão da fonte de poder, que brilhava em vermelh o. Estava pronto
para disparar a flecha, quando foi acertado no lado por algo grande. Ele acabou acertando a areia, e foi obrigado a abrir os olhos, perdendo toda a concentração.
O monstro de areia o tinha derrubado. Carl procurou visualmente Xan, e a viu lutando com meia dúzia de homens de areia. Ela estava mandando bem, mas não
estava ganhando. A cada vez que um dos homens de areia era derrubado, outro surgia para repô-lo.
Carl ajuntou o arco que estava aos seus pés, levantou e pensou em lutar com o monstro de areia maior. Mas ele sabia que nada disso adiantaria. Ele
resolveu então atacar diretamente a fonte de poder. Ele correu em direção aos dois pontos de poder. O monstro de areia estava correndo em seu encalço. Ele
puxou uma flecha, mirando o monstro de areia. Se ele não podia derrota-lo, ele ao menos iria atrasá-lo. Disparou uma flecha, que atravessou o monstro. Nada
iria parar aquilo. Ele voltou a correr em direção ao poder, mas quando se virou, um homem de areia, do tamanho dele saltou da sua frente, com uma espécie de
adaga de vidro nas mãos, pronto para apunhala-lo. Ele fechou os olhos, e esperou pela dor, e depois por outra e mais outra.
Mas nada disso aconteceu. Ele ouviu um zumbido passar rente à sua orelha, e abriu os olhos, para ver o que tinha acontecido. O homem de areia estava
se desfazendo, com uma flecha fincada no local onde deveria estar o coração. Ele olhou para trás desnecessariamente, sabendo que quem tinha disparado a
flecha tinha sido Xan, mas o que viu foi interessante.
O monstro corria atrás dele. Xan corria atrás do monstro. E os pequenos homens de areia se punham no caminho de Xan, mas logo eram dizimados.
- Corre! – gritou Xan – eu cuido desse!
Carl continuou correndo. Não faltava muito para que ele alcançasse os dois, mas o monstro iria pegá-lo. Numa última olhada para trás, ele viu Xan
deslizando por baixo das pernas do monstro, e cortando uma das pernas dele com a espada que era de Fred. O monstro caiu, esmagando os outros
homenzinhos de areia. Sem ter tempo de desviar, ele se chocou com alguém, que estava invisível.
Mas logo após o choque aquela pessoa deixou de ser invisível, e Carl percebeu que era um dos magos. Uma garota. A garota do jantar da noite anterior.
Então era ela, o tempo todo. Ela estava com as vestes marrons. Então queria dizer que o mago das vestes brancas ainda estava por ali, em algum lugar. Carl ia
recuperar a concentração, pronto para localizar o outro, quando foi atingido por um golpe nas costas, o que o deixou de cara no chão.
Ele pensou em ficar invisível também, mas não foi necessário. Logo acima dele, uma figura apareceu, quando a esfera que estava em sua mão explodiu
em fragmentos. A cara de espanto dele teria sido divertida para Carl em outro momento, Mas naquele, ele ergueu o arco, em direção ao mago, que ergueu as
mãos e disse:
- Eu me rendo. – e ao mesmo momento, ecoou a voz do prefeito pela arena:
- Dois contra um! – ele já não estava tão empolgado – Estamos nos aproximando do final.

59
- E eu acho que agora é a hora exata – disse Xan, logo atrás do mago rendido. Ela tirou uma das botas, revelando uma marca acima do tornozelo. Carl
não sabia o que significava, mas todos os magos na arena prenderam a respiração. Eram quatro arcos entrelaçados, e formavam um X, com pernas gordinhas. Os
traços eram vermelhos, com bordas negras. A maga de vestes marrons ficou pálida, e tentou esconder a esfera marrom que tinha em uma das mãos, mas não
conseguiu. Ela explodiu sem mais nem menos. Então Xan apareceu atrás dela, torcendo seu braço nas costas, e pondo uma de suas adagas no pescoço dela. – O
que você acha de se render gracinha?
- Nunca! – gritou ela e cuspiu no chão. Os olhos de Xan brilharam de raiva, e Carl percebeu que precisava fazer alguma coisa, mas ele não poderia
enfrentar Xan. – Não para você!
Carl entendeu a deixa. Ele pegou uma das flechas da aljava, apertou-a firme em uma das mãos e encostou a ponta na altura do estomago da maga. Ela
olhou quase agradecida para ele, e disse:
- Eu me rendo. – E no mesmo instante, dezenas de fogos de artifício subiram pelos céus, explodindo Em nuvens de cores. Carl tinha certeza de que se
fosse à noite seria muito mais interessante. A garota olhou nos olhos dele e disse – obrigado.
- Aaaaaaaaarrgh – Xan gritou em fúria, e jogou a adaga no chão. – por que você fez isso? Quer saber? Nem me diga. – e sem dizer mais nada, ela
ajuntou a adaga do chão e desapareceu.
Carl olhou para a garota, E sentiu todo o peso que a luta tinha sido. Sem esperar mais nada, ele perguntou:
- Acabou? – e quando ela acenou afirmativamente com a cabeça, ele desabou.

60
Ouvindo o passado
Brant
O corpo inteiro estava dolorido. Ele nem queria levantar da cama. Mas ao abrir os olhos, Brant teve uma visão. Só poderia ser uma visão. Sobre ele
estava alguma divindade. Seus cabelos dourados caíam por sobre os ombros, E se esparramavam sobre o peito de Brant. O toque d ela fazia com que a dor
sumisse. Então ela passou a mão por sobre seus olhos, e isso clareou sua visão. Não era uma divindade, mas poderia ser. Era aquela garota maravilhosa que ele
tinha visto outro dia no jantar. Ele olhou ao redor, e percebeu que ainda estava no mesmo quarto em que tinham passado a noite, a primeira vez que chegaram
á cidade.
Ele não viu Fred em nenhum lugar, bem como não viu nenhum dos outros. Estavam somente ele e a garota. Ele ia falar algo, mas ela interrompeu o que
ia dizer, pondo a ponta dos dedos sobre os seus lábios.
- Não se preocupe. Mantenha-se quieto, assim o unguento funciona melhor. – e então Brant percebeu que ela estava passando uma espécie de pano,
empapado em alguma coisa esverdeada, e era aquilo, e não o toque dela que aliviava a dor. Conforme a dor ia passando, ele ia ficando aliviado, e começou a
relaxar. Mas percebeu tarde demais, que ela estava fazendo alguma coisa. Ele estava ficando com os olhos pesados, e não demorou muito para que ele caísse
num sono profundo.
Quando acordou, percebeu que havia conversa no lado de fora do quarto. Já era noite, e a cama ao lado da sua continuava vazia, o que significava que
Fred com toda a certeza estava bem. Ele não sabia qual tinha sido o resultado do confronto, mas esperava que por eles estarem ali, era um bom sinal. Ele
levantou-se e percebeu que estava vestido com a mesma roupa que estivera antes de ir para a arena. Ao se encaminhar para o corredor, Entreabriu a porta para
ver quem estava ali. Eram Fred e Xan, que estavam discutindo.
Ao sair para o corredor, eles pararam imediatamente, o que fez Brant pensar que o quer que fosse que eles estivessem falando, era sobre ele. Olhando
para a cara de Xan, ele soube que não eram boas notícias, mas antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, ela desapareceu. Brant então olhou
para Fred, e perguntou:
- O que aconteceu? – e vendo o olhar na cara de Fred, continuou – é ruim?
- Tecnicamente sim. – Ele disse sério – Eu sei que você gosta de Xan, mas...
- Mas o quê? – perguntou Brant. – ela vai nos deixar?
- Não, mas é que ela – Fred não sabia como dizer aquilo. – ela não gosta de você. E não é no sentido de não ter nenhuma amizade. O que eu quero dizer
é que ela gosta de outro.
- Eu sei – disse Brant. Não que ele não gostasse de Xan, mas ele tinha novos objetivos agora. Ele soube no primeiro instante que Xan estava fora de
alcance. – ela gosta do Carl, não é? Mas eu não me importo, eu já estou em outra.
- Puxa. – disse Fred – eu nunca pensei que você fosse assim. Sabe, você parecia mais quietinho.
- Tanto faz – disse Brant, e lembrou-se do que ia perguntar. – Como terminou a batalha?
- Nós vencemos – disse Fred. – mais especificamente Xan e Carl. Afinal, eles foram os que restaram. E antes que você pergunte, Carl está lá em baixo,
com os outros. Parece que a gente vai jantar juntos de novo.
Eles se encaminharam para as escadas. Logo que chegaram ao topo já puderam ver a mesa sendo posta pela garota. O velho já estava no lugar, o
mesmo que ocupara a outra vez. Carl e Xan já estavam sentados, um ao lado do outro. Parecia mesmo que tinha rolado um clima. Mas era só impressão. Carl
pode constatar logo que eles nem se olhavam.
Ele e Fred se sentaram, um de cada lado de Carl e Xan. A garota sentou-se ao lado do chaveiro. E um lugar ficou vago para o caso de Taylor se levantar.
- E então, - perguntou o chaveiro – o seu amigo não vai se levantar?
- Ele estava se sentindo indisposto – respondeu Carl – mas se sentir melhor vai descer.
- A chave – disse Xan, sem desgrudar os olhos do chaveiro. – como o prometido.
- Primeiro nós temos de esclarecer algumas coisas das quais eu acho que vocês não têm conhecimento. – disse o chaveiro.
- Como o que – disse Carl, e ficou claro que ele não queria deixar Xan ter a oportunidade de falar.
- Como o fato de vocês estarem procurando a garota descendente dos Elfos. – respondeu o velho, agora sério, olhando de Xan para Carl. – por acaso
vocês dois tem algum problema? Caso o tenham, seria a hora perfeita para por as cartas na mesa.
- Eu tenho um problema sim! – disse Carl, se virando para Xan, e perguntando – por que você está simplesmente me ignorando?
- Por que você fez algo que não deveria. – disse Xan.
- O quê? Por acaso você está se referindo a salvar uma garota da sua tirania? – retrucou Carl.
- Você está me chamando de tirana? – gritou Xan – pois então não precisa me procurar mais! – e então desapareceu. A cara que Carl fez deixou claro
que aquilo tinha desmanchado todas as suas esperanças.
- Não se preocupe – disse a garota – você não fez nada além do certo.
- Megan! – disse o velho, em tom de quem não gostou nada do comentário. – não se meta em brigas alheias.
- Mas nada disso teria ocorrido se ela – disse Carl, apontando para Megan – tivesse se rendido como fez o outro mago. Por que era tão importante
assim não se render para ela? – ele explodiu, olhando para ela. As lágrimas começaram a se formar em seus olhos, e Brant teve vontade de socar Carl na sua
cadeira.
- Por que ela não podia – respondeu o chaveiro.
- E por que não? – perguntou Carl para o chaveiro, diminuindo a fúria.
- Por que a sua amiga pertence aos Três, e se render perante um dos Três, é pena de morte na lei dos magos.
- Um dos Três? – até Fred entrou na conversa. Ele parecia confuso. – eu pensei que ela era a descendente dos Elfos!
- Não – Interrompeu Megan – ela não é. Por que eu sou.
Aquilo caiu como uma pedra. Carl parecia atordoado, mas não ficou espantado. Ele olhou para ela e disse:
- Você? Eu suspeitei... – Carl começou, mas então uma pergunta veio a sua cabeça – como vocês sabiam que ela era dos Três? Pelo que eu saiba não se
pode identificar alguém deles assim, sem mais nem menos.
- Normalmente não. Mas eu acho que vocês não sabem tudo sobre as Três. Eu iria lhes contar, mas me contem vocês o que sabem. – disse o chaveiro.
- Bem – começou Brant. Como ele já tinha conversado com Xan sobre isso, ele achou que era ele quem devera falar. – as Três tem esse nome por causa
das três irmãs que as fundaram. Elas treinaram seus filhos para serem assassinos profissionais, e instruíram que seus filhos fizessem o mesmo com os deles. Mas
eles resolveram treinar outros, para que fizessem o trabalho sujo por eles. E então, eles foram ensinando mais e mais, e fundaram a companhia em homenagem
ás suas mães. Depois de décadas, a companhia percebeu que se começasse a treinar ainda quando crianças, os assassinos não teriam compaixão. Então eles
começaram a comprar crianças. E as manterem por toda a vida. Caso elas tentassem escapar, mandavam os melhores atrás delas, para capturá-las, vivas ou
mortas. E eu acho que é tudo o que eu sei.

61
- Já é melhor do que nada – disse o chaveiro. – mas há coisas piores. Primeiro vocês têm de saber que a companhia se divide em quatro castas. Cada
uma para representar uma das irmãs, e outra para representar a perfeição, que eles acreditavam ser essencial para se pertencer a uma das companhias. Eu digo
uma das companhias, por que elas são uma só, mas se dividem em três bases de treino. Uma delas lida com armas. Outra, com ven enos, e outras formas
meticulosas de matar. Mas a outra, a mais sombria e misteriosa, treinava pessoas com talentos especiais. E cada uma tem um sím bolo especial. O que estava
tatuado na sua amiga, era o da terceira casa. E cada um daqueles traços simbolizava um nível, e para que se consiga um novo nível, você tem de matar alguém
da casta superior em batalha pública. O problema era que o da sua amiga tinha quatro traços. O que quer dizer que ela era do nível quatro.
- E onde está o problema? – perguntou Brant, sem entender.
- O problema é que vocês nem imaginam o quanto ela é poderosa. – respondeu o chaveiro.
Carl então lembrou o poder que ele sentiu emergindo dela. E provavelmente nem era todo o poder, e sim só uma fração.
- Esperem! – disse Brant – eu acho que a gente tem um problema maior.
- O que você quer dizer com isso garoto? – perguntou o chaveiro, com uma sobrancelha franzida.
- Ela disse que havia fugido. – Brant percebeu que depois de falar aquela frase, a temperatura da sala deveria ter baixado alguns graus.
- Se isso for verdade, vocês têm de se livrar dela o mais rápido possível. – o chaveiro parecia preocupado – vocês nem podem imaginar o poder dos
assassinos que virão atrás dela.
- Mas afinal, - disse Fred – se ela não é a descendente dos Elfos, quem ela é?
- Eu tenho uma ideia – disse o chaveiro – mas eu não posso dizer agora. Primeiro vocês devem voltar com a esfera do fogo.
- Agora que você falou, eu me lembrei de algo – disse Carl – na arena, os outros magos tinham uma espécie de esfera, que eles usavam para obter
poder. O que elas eram?
- São réplicas das esferas do poder. – ao ver os olhos de espanto dos garotos, o chaveiro continuou – Sim eu sei. Elas são ilegais, mas nós tivemos que
tomar precauções. Nos dias de hoje, todo cuidado é pouco. Mas afinal, elas não chegam nem perto do poder das reais. E além do mais, elas têm um poder
viciante. Caso você utilize demais, depois não consegue largar.
- E nós podemos usar algumas dessas? – perguntou Brant esperançoso.
- Infelizmente para vocês, não surtiria efeito algum. – explicou o chaveiro. – vocês já são mais poderosos que elas, só não sabem. O que vocês precisam
agora é das verdadeiras.
- E quando vai nos dar a chave? – perguntou Fred.
- Eu não vou. – respondeu o chaveiro, e riu da cara de espanto dos garotos. – não adiantaria de nada. Vocês não poderiam abrir sem minha ajuda. Por
isso, eu vou abrir os portões para vocês.
- E quando você vai fazer isso? – perguntou Carl.
- Amanhã. – respondeu o chaveiro – e quem não estiver lá no horário exato, não vai ter outra oportunidade.
- E por que não? – perguntou Brant.
- Por que amanhã termina o período no qual os portões se abrem. Sinto lhes informar, mas vocês ficaram desacordados por cinco dias.
- Cinco dias?! – Brant parecia assustado. – Então devemos partir imediatamente! – e, sem querer perder tempo, ele olhou para Megan e perguntou –
você vai com a gente?
- Não. – respondeu o chaveiro. Brant estava começando a não gostar das atitudes dele – A menos que ela consiga me convencer até amanhã pela
manhã.
- Mas por quê? – perguntou Megan.
- Por que você, mesmo em posse da esfera, não conseguiu derrotar nenhum deles na arena. – ele olhou frio para ela, - e você tem de me convencer que
é capaz.
Todos se mantiveram em silêncio até o final do jantar. Eles sabiam que não valeria a pena tentar convencer o chaveiro, e que seria somente perda de
tempo. Ao fim da janta, o chaveiro se levantou, e ao começar subir a escada, desta vez não apagou o lampião, mas olhou para trás e disse para os garotos:
- Eu vou me deitar, pois tenho um longo dia pela frente amanhã. Eu recomendaria o mesmo para vocês, - ele deu de ombros – mas como eu não posso
mandar em vocês, pelo menos peço que apaguem o lampião ao subirem.
- Ele tem razão – disse Fred – devemos subir também. Temos um longo dia pela frente. – e olhando para Megan, ele completou – e se você quiser vir
com a gente, dê um jeito de convencê-lo de que é capaz.
- Pode ter certeza de que sim – respondeu Megan. Ela parou um pouco para pensar, e falou – vocês gostariam de ver uma coisa interessante?
- No momento não. – disse Carl. Dava para ver que ele não estava nada feliz com a situação atual – eu prefiro ir descansar.
- Eu também – disse Fred. – por que não deixamos para outra hora?
- Tudo bem – respondeu Megan, e era clara a sua cara de desapontamento. Brant percebeu que aquele era o momento ideal para fazer o que ele tinha
para fazer. Levantando-se da cadeira, ele disse:
- Mas eu gostaria de ver, - ele sorriu ao ver que os olhos dela se iluminaram novamente, ao ouvir o pedido dele – é claro, se não for incomodar.
- Mas é claro que não! – ela levantou de um salto só. Pegou o braço de Brant, e o começou a puxar escada acima, mas parou no topo, se virou para trás
e disse para Fred e Carl – apaguem as luzes quando forem deitar.
- Pode deixar – disse Fred.
Ela se virou, e puxou Brant pelo braço, e entrou no quarto das garotas. Ela de dirigiu para a janela, e Brant percebeu que aquele era realmente um bom
lugar. Ela subiu no parapeito primeiro, e saltou para o telhado em frente, e Brant foi atrás. Ela se sentou no topo do telhado, e de lá, ficou olhando para o local
em que as montanhas ficavam. Brant sentou-se ao lado dela, e ficou observando também. Contra o céu noturno, as nuvens que se acumulavam mesmo a
distância, eram pintadas de vermelho, pela forte atividade vulcânica da região.
- Você também sente? – perguntou Megan. Ao ver que Brant não havia compreendido, ela completou – O poder. Ele converge como uma onda para
aquele ponto. É como se todo o poder da região convergisse para lá.
- Não. – mentiu Brant. Ele sentia mais que isso. Ele sentia o poder que emanava dali, e com isso alguma ligação. Ele não sabia explicar, mas a ligação era
ancestral. Era de eras atrás. Um tipo de ligação que não poderia ser quebrada. – Não sinto nada.
- É uma pena – disse Megan, com os olhos brilhando. – Por que é lindo. Mas há outra coisa que eu posso lhe mostrar. – ao dizer isso, juntou algumas
folhas que estavam presas em telhas, e as esmagou nas mãos. As folhas secas estavam sob seus graciosos dedos. Ao abrir as mãos, os pedacinhos de folhas
voaram, mesmo sem vento, e Brant logo entendeu o porquê disso. Elas se uniram em um círculo, com quatro traços no meio, e com eçaram a brilhar. O círculo
explodiu em milhares de luzinhas verdes, e desapareceu, deixando um visual maravilhoso.
- Uau! – Brant exclamou. – isso é lindo!
- Isso é só o feitiço. – disse Megan, catando um pouco do pó verde que estava flutuando ao redor deles. Depois de juntar o suficiente, ela fez um
movimento com a mão, e o restante das folhas se dispersou. Ela dividiu o pó em duas partes iguais, e deu uma para Brant. Brant não sabia o que fazer com o pó,

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e então esperou que ela fizesse primeiro. Ela olhou para ele e disse – não se assuste com o que você ouvir. – e com um movimento rápido, jogou o pozinho na
boca e o engoliu.
Brant decidiu fazer o mesmo. Ao fazer isso, percebeu que o pozinho tinha um gosto adocicado, e também que descia fácil. Ao en golir, ele percebeu
imediatamente algo acontecendo. Ele percebeu uma infinidade de sons novos, muitos parecidos com rugidos, ou brigas entre animais. Mas também, pode ouvir
o cair das águas em uma cachoeira, e uma espécie de chiado.
- Mas o que é isso? – perguntou Brant, para Megan, e completou – quero dizer, esse chiado.
- Esse chiado é o som da barreira mágica. Mas você não deve se concentrar nisso – Megan respondeu. – Como você é novo nisso, vou te dar uma dica.
Esse pó serve para poder ouvir além da barreira. Concentre-se no ruído. Ele vai aumentar gradativamente, até parar completamente. E depois disso, você vai se
surpreender.
Brant fez o que ela disse. Ele concentrou-se no som da barreira, naquele chiado irritante. E ele foi aumentando, até se tornar quase insuportável. E do
nada, parou. E o silêncio que se seguiu, foi logo preenchido, por gritos, sons parecidos aos que os répteis faziam, e explosões. Parecia estar havendo uma guerra
do outro lado da barreira. E pelo que Brant parecia estar ouvindo, era exatamente do outro lado dos portões que davam acesso ao vale entocado entre as
montanhas, que ao longe enchiam as nuvens de um vermelho vivo.
- Mas que sons são esses? – perguntou Brant preocupado.
- Brant – disse Megan, com um tom triste. – Esses são sons do passado. Nada disso existe atualmente. E isso tudo é parte do seu passado. E do seu
futuro.
- Como assim? – perguntou Brant. Ele estava começando a ficar assustado.
- Esses gritos, são dos sues antepassados. – Megan estava tremendo, embora não estivesse frio – Muitas coisas aconteceram entre os magos e o seu
povo, mas uma não pode ser perdoada.
- Do que você está falando? – perguntou Brant – o que é que não pode ser perdoado?
- Há muito anos, - Megan começou a explicar – mais aproximadamente cerca de quinhentos, os seus antepassados estavam escavando em suas minas
profundas, a procura de metais preciosos, mas o que eles acharam lá jamais havia sido visto, pelo menos não na nossa era. Aquilo acabou destruindo a
sociedade deles. Um pedaço da história fazendo do seu povo parte dela. Quando perceberam que não poderiam escapar, tentaram fugir, e se a brigar com os
magos. Mas os magos fecharam os portões, temendo que eles pudessem atrair aquelas coisas para cá. O seu povo foi massacrado. E a barreira mágica foi criada
para evitar que aquelas coisas passassem para cá. Mas esse não foi o único motivo. Eles também a construíram para que não pud essem ouvir os gritos dos que
foram abandonados. E cabe a você derrotar o mal que há lá, e restaurar a paz do vale.
Brant tentou ouvir mais a fundo, mas logo que pararam os sons de gritos, começou um zunido estridente, que foi aumentando, at é se tornar
insuportável. Brant não sabia o que fazer, e por isso, vomitou, fazendo com que o resto do pozinho fosse expelido. Mas isso resolveu o problema, fazendo com
que parasse de ouvir aquilo.
- Você tentou ir fundo demais. – disse Megan. – muitos de nós magos tentamos explorar estas áreas do passado glorioso, para descobrir o que causou
isso, mas não conseguimos. Achamos que esse zunido é o momento em que eles desenterraram o que quer que esteja lá.
- Mas então o que é que eles desenterraram? – perguntou Brant, finalmente se recuperando.
- Ninguém sabe. – respondeu Megan - O que se sabe é que deve ter sido trancado há eras, por magia antiga. É isso que causa esse distúrbio, esse zunido
estridente. E isso causou a extinção do seu povo.
- Isso não causou a extinção do meu povo. – retrucou Brant – foi o seu povo que causou a extinção do meu.
- Que pena que você pensa assim – disse Megan, com um olhar triste no rosto, se virando e entrando pela janela. “ótimo” pensou Brant, “mais uma vez
eu estrago as coisas”.
Ele se levantou e entrou pela janela também. Preferiu nem olhar par Megan, para não sentir remorso pelo que tinha feito. Ao entrar no seu quarto,
notou que Fred já estava dormindo. Ele decidiu fazer o mesmo, e se encaminhou para a sua cama também. Ao deitar-se, percebeu que seria outra noite mal
dormida. Não conseguiria parar de pensar no que acontecera aos seus antepassados. Mas de uma coisa ele tinha certeza.
Ele descobriria.

63
Gêiseres
Brant
Brant realmente não dormira bem. Ao abrir os olhos, percebeu que já era manhã. E tarde.
Olhou para ver se Fred já estava de pé, mas notou que ele nem se mexia na cama ao lado. Pulou rapidamente da cama, e fez com que ele se apressasse
também. Ele não sabia se estavam atrasados ou não, mas não iria arriscar. Saiu pelo corredor, conferindo de quarto em quarto, mas não havia ninguém. Ambos
desceram correndo a escada, mas lá em baixo também não havia uma alma viva sequer. Eles já estavam começando a se perguntar onde diabos estariam os
outros, quando uma voz feminina e familiar soou atrás deles:
- Aí estão vocês! – disse Xan – Eu já tinha procurado vocês por todos os lados! Onde vocês estavam?
- No nosso quarto – respondeu Fred – por que não nos acordaram!
- Por que Carl tinha dito que tinha visto vocês levantarem cedo. Então todos nós pensamos que vocês tinham ido ao portão! – disse Xan – vocês estão
atrasados! Eles vão abrir o portão em dois minutos!
- Droga! – exclamou Brant – não vai dar tempo!
- Tem de dar – disse Xan. – Olha, um dos dois eu posso transportar, mas o outro vai ter de se virar.
- Tudo bem – disse Brant – leve o Fred. Eu vou ver se Josh está aí fora.
Xan desapareceu e reapareceu em frente a eles.
- Está sim. – pegando na mão de Fred, ela se virou para Brant e disse – não se atrase.
Brant correu para a porta. Mas Josh não estava lá. Brant correu em direção à ponte, afinal, ele não tinha tempo a perder. Logo que chegava a ponte,
Josh apareceu, subindo pela direção da cachoeira. Ele pousou no meio da ponte, em sua forma de dragão. Brant não precisou diz er nada, só pulou nas costas de
Josh, e ele foi á melhor velocidade que podia, em direção aos portões.
Brant mal percebia pelo que passavam. Logo abaixo deles, diversos magos começavam o dia, vendendo os seus produtos, ou os trocando po r
mercadorias diversas, com os mais diversos mercadores, de toda parte do mundo. A maioria tinha frutas ou legumes à venda, mas alguns tinham espécies
interessantes de animais, e nestas estavam incluídas algumas lagartas enormes, do tamanho da perna de um adulto, das mais var iadas cores, de roxos berrantes
com pintas amarelas, a azuis-bebê com pintas laranja. Mas isso não era importante. Eles estavam quase chegando aos portões. Lá havia uma pequena
aglomeração de pessoas, em torno da abertura, e um pequeno grupo, que incluíam os seus amigos, e o chaveiro.
Josh pousou um pouco afastado do pequeno bolinho, para evitar acabar pisando em alguém, Brant pulou de suas costas, e, estabelecendo uma
conexão mental com ele disse:
- Você não quer vir junto com nós?
- Infelizmente não posso – respondeu Josh – parece que há algum tipo de barreira mágica bloqueando a passagem. E além do mais, eu não iria querer ir
além dessas muralhas. E acho que você também não deveria.
- E por que não? – perguntou Brant curioso.
- Brant – disse Josh, voltando a sua forma normal de cachorro grande. – além dessas muralhas está alguma forma de poder antigo. Tão antigo que faz
todos os meus pelos se eriçarem. E eu não sei se é o poder da esfera do fogo.
- Por incrível que pareça, eu sei disso – disse Brant pensando nos gritos da noite anterior.
- Então por que continua? Você pode ficar aqui! – Josh estava quase implorando – é um lugar seguro.
- Por enquanto – disse Brant, pensando no que tinha visto do lado de fora das muralhas, e no que tinha sentido. – Mas não vai ser para sempre. Tchau,
amigo.
- Tchau – disse Josh, sentando-se sobre as patas traseiras, e olhando Brant se afastar.
Brant não queria olhar para aquilo. Ele sabia que não iria conseguir seguir em frente. Cães tem um jeito de fazer com que hum anos tenham compaixão
deles. Mas Brant seguiu em frente, se embrenhando no meio das pessoas aglomeradas ali. Parecia que ele nunca sairia do meio da floresta de corpos, mas do
nada, ele emergiu do outro lado.
Lá estavam eles. Carl, Fred, Taylor e Xan, além da garota nova, Megan. Se aproximando deles, ele falou para Megan:
- Pelo jeito alguém conseguiu convencer um velhote a deixa-la ir junto.
- Não, eu ainda não consegui – respondeu Megan, e o sorriso sumiu do rosto de Brant – mas não se preocupe. Eu ainda tenho algum tempo para fazer
isso. - E o chaveiro se encaminhou para eles.
- Muito bem, - disse o chaveiro – parece que o atrasado chegou. Então, vamos aos negócios.
- Antes posso fazer um pedido? – perguntou Brant, e com o sinal afirmativo de cabeça do chaveiro, ele disse – eu sei que o senhor disse que a Megan
precisava convencê-lo, mas eu acho que... – e Brant parou de falar quando o chaveiro gargalhou – o que foi?
- Não é necessário. Ela já me provou que é capaz de se juntar a vocês.
- Mas como? – perguntou Megan. Ela claramente estava muito mais confusa do que Brant e os outros – eu não fiz nada de especial.
- Exatamente – respondeu o chaveiro, e um sorriso estava se formando em seu rosto. – você não tentou me convencer. Por que isso seria perda de
tempo. Não importa o que você fizesse, não iria me convencer, e não fazendo nada, me provou que você é esperta o suficiente, e pode seguir com eles. Eu só
vou sentir saudades.
Todos ficaram em silêncio. O queixo de Megan caiu, deixando sua boca aberta. O chaveiro se virou, fez a chave deslizar para fora da manga, e a
introduziu na fechadura. Antes de girá-la, porém, Fred interrompeu e fez uma pergunta:
- Desculpe a interrupção, mas uma pergunta me veio à mente ontem à noite, e eu não tive a oportunidade de fazê-la. – ele pigarreou, e continuou – se
hoje é o último dia para abrir as portas, como é que nós vamos passar de volta?
- Acreditem – respondeu o mago – depois de voltarem de lá, não precisarão mais que alguém abra a porta para vocês. O caminho vai se mostrar
sozinho. – e falando isso, se virou para abrir as portas.
A chave fez um clique quando girou na fechadura, e uma série de barulhos sugeriu que um mecanismo de engrenagens no interior das portas começou
a girar, para destrancar a porta.
A enorme porta, com dezenas de metros de altura, e de forma semicircular, começou lentamente a se abrir. Todos os presentes prenderam a
respiração. Aos poucos foi possível ver por entre a abertura, e o que se podia ver, ia revelando um tipo de vale, formado principalmente por rochas vulcânicas. O
espaço entre as rochas era preenchido por um tipo de terra escura, e não se via nenhuma vegetação em lugar algum. Ao longe podia se ver enormes gêiseres,
que despontavam em uma espécie de planície entre montanhas. Um vento quente soprou vindo de entre as portas, e ele carregava um forte cheiro de enxofre.
- É só isso? – perguntou Carl – eu achei que ia acontecer algo majestoso, e inacreditável.
- É realmente – disse Fred – muito decepcionante.
Todos ficaram olhando para aquilo, sem esboçar reação alguma. Como nenhum deles se movia, Xan resolveu que seria a primeira a fazer isso. Então
simplesmente começou a andar em direção ao vale.

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- Espere! – disse o chaveiro, mas como ela não parou, ele disse o mesmo – Vocês têm de saber. Há coisas antigas aí. Antigas e perigosas. Coisas tão
antigas que nem mesmo eu sei o que são. E até os espíritos da natureza os temiam. Tenham cuidado.
Aquilo fez com que a espinha de Brant sofresse algum tipo de reação espontânea. Isso realmente não era normal, mas ele começou a andar em direção
ao vale. Ele sabia que se parasse agora, não iria conseguir seguir em frente.
- Tanto faz – gritou Xan de dentro do vale, e puxou a adaga longa que tinha escondida. – coisas antigas morrem também.
Brant não sabia o que estava fazendo seguindo aquela maníaca. Sério, aquilo só podia ser suicídio. Ela não dava a mínima para as palavras: “cuidado” e
“antigas e perigosas”. Ao exemplo dele, os demais também se dirigiram para lá. Quando Megan passou, as portas começaram lentamente a se fechar atrás
deles. Com um leve ruído, as portas estavam fechadas, e eles do lado perigoso da muralha.
- Nos temos cerca de - Megan disse, já ficando ofegante – um dia de caminhada. Mas nós podemos acampar próximos aqueles gêiseres. Depois, só
temos de atravessar aqueles campos para chegar aos antigos templos. E a esfera deve estar por lá.
- E como você sabe tudo isso? – perguntou Brant – quero dizer, se já faz quinhentos anos...
- Há registros de comerciantes daquelas épocas. – ela respondeu antes que ele pudesse continuar – E muitos mapas. Na biblioteca municipal. Eu
adorava lê-los. Eu nunca estive fora das muralhas então era uma coisa maravilhosa saber, mesmo que por livros. Encantava-me.
- Muito interessante – disse Xan, logo à frente, com certo sarcasmo na voz. – mas, segundo esses registros não seria meio perigoso atravessar estes
campos de gêiseres?
- Por quê? Você está com medo? – claramente Megan brincou, mas Xan não levou por esse lado. No mesmo instante, Megan viu uma adaga encostada
em sua garganta – Calma! Foi só brincadeira!
- Nunca mais diga isso! – ela falou com raiva – nem brincando.
- Tudo bem! – disse Megan, e a adaga desceu de seu pescoço. – mas nós ainda temos um problema. Não temos a menor ideia de onde está a esfera,
nem como encontra-la.
- Eu tenho uma solução para isso. – disse Xan – só que pode trazer alguns problemas para nós.
- E qual seria esta solução? – perguntou Brant.
- Bem, eu tenho uma amiga lá. – ela disse essa palavra, mas Brant demorou a entender que ela se referia às Três. – E eu posso contatá-la. Ela pode
verificar a biblioteca das companhias, para ver se encontra algo para nos ajudar. Mas isso oferece riscos ainda maiores do que os que já corremos.
- E quais seriam esses riscos? – insistiu Brant.
- Para que eu possa contatá-la, vai ser necessário abrir a minha mente para que ela possa me achar, mas ela não é a única que pode fazer isso nas
companhias. E eu garanto: se isso acontecer, não vai demorar muito para que um batalhão esteja atrás de nós. – respondeu Xan.
- Mas até lá nós teremos a esfera do fogo, e daí nenhum deles vai poder nos parar, certo? – perguntou Fred, entrando na conversa.
- Nem tanto. Possivelmente sim, mas pode ser que eles nos alcancem antes de chegarmos á esfera. – ela suspirou, e continuou – Mas também pode ser
que nem a esfera nos ajude caso a pessoa que eu acho que virá, venha.
- Mas quem é essa pessoa? – perguntou Brant.
- Ele não é ninguém especial, mas se ele se desenvolveu... – ela parou de falar imediatamente, puxando o arco juntamente com uma flecha. Ela olhava
para algumas rochas posicionadas logo acima, á direita. – tem alguma coisa ali.
- Eu também vi – disse Taylor, para confirmar o que Xan havia dito. – e parecia uma lagartixa grande, que andava sobre duas pernas.
- E por que você não falou nada? – perguntou Carl.
- Por que eu não achei que fosse importante, afinal, era só algum tipo de réptil.
- Isso não é nada bom – disse Xan, balançando negativamente a cabeça – continuem andando.
- Por quê? – perguntou Brant – o que pode ser?
- Eu não tenho absoluta certeza, mas já ouvi falar sobre criaturas assim. São uma espécie de réptil que se considerava extinta há milhares de anos. Eles
podem variar muito de tamanho. Desde o tamanho de uma galinha doméstica, até maiores que um trasgo. Taylor, qual era o tamanho deste aí?
- Era pouco maior que uma galinha, por quê? – perguntou ele.
- Ótimo. – disse Xan, baixando o arco e o guardando. – dos mais comuns. Nada preocupante. Já se fossem do tamanho de uma pessoa ou um pouco
maiores, nem quero pensar.
- Mas você não disse que alguns eram maiores do que trasgos? – perguntou Taylor – eu não sei, mas o tamanho me parece muito preocupante.
- Sim, os grandes não deixam de ser preocupantes, mas os pequenos... – ela deixou a frase morrer e continuou andando, sendo seguida pelos demais. –
os pequenos são inteligentes, e andam em bandos. Eles são os predadores perfeitos.
- Mas que tipo de animal é este? - Brant perguntou. E continuou – e se são tão espertos assim, como é que foram extintos?
- São dinossauros. E estão extintos por um só motivo: Dragões. – respondeu Xan, parando e se virando para dar uma olhada naquele ponto que ficava
para trás. – Algumas espécies evoluíram, e sabe, geralmente quando há evolução, o mais fraco é eliminado.
Dito isso, ela se virou e continuou andando. Os demais seguiam seus passos. Brant queria saber como em tão pouco tempo ela conseguira assumir um
papel de liderança. Ao continuar andando, ela perguntou para Megan:
- Corrija-me se eu estiver errada, mas você disse que depois de acamparmos, devemos atravessar os campos de gêiseres e estaremos nos templos
antigos – com um sinal afirmativo da cabeça dela, Xan continuou – mas eu acho que chegaremos a entrada dos campos de gêiseres em menos de uma hora, e
pelo que me consta, não deve ser nem meio dia. Por que nós iríamos acampar?
- Por que o contorno dos campos de gêiseres leva muitas horas, e não há nenhum outro ponto de descanso além desse. É pegar ou largar. – respondeu
Megan dando de ombros.
- Mas você não disse que iríamos atravessar os campos de gêiseres?
- Até iríamos – disse Megan – mas acontece que eu não sei o caminho seguro por entre eles. Os antigos comerciantes até tinham um, mas não podemos
arriscar. Gêiseres mudam com o passar dos anos. Por isso a melhor alternativa é contornar.
- Tudo bem. – disse Xan, e Brant se surpreendeu de vê-la concordando com aguem. – mas vamos logo. Quanto antes nós estivermos no abrigo melhor
será.
Ninguém discutiu. Era melhor nem tentar. Mas Brant pode perceber pelo tom de voz dela que ela não estava nem um pouco convencida. Ele resolveu
aproveitar e observar a paisagem. Não tinha nada demais nela. Só um monte de rochas vulcânicas, com terra vulcânica, cobertas de cinzas vulcânicas. Brant até
chegou a considerar qual era a chance de ocorrer uma erupção vulcânica enquanto eles estavam ali, porque parecia uma região muito propensa.
Eles iam se aproximando rapidamente do campo de gêiseres. Tanto que ao redor deles surgiam poças de água, das quais saia um forte cheiro de
enxofre, o que levou Brant a crer que provavelmente aquela agua era ácida. E pela primeira vez eles viram uma forma de vegetação. Pequenos musgos cobriam
as pedras que se encontravam cheias de umidade. Com a grande quantidade de cinzas jogadas no ar ali naquela região, provavelmente quase não chovia. Ainda

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faltavam alguns minutos para alcançarem os campos de gêiseres, quando ao longe avistaram um conjunto de rochas, que parecia f ormar uma forma de entrada
rudimentar para algum tipo de caverna.
- Você está brincando comigo! – disse Xan, olhando para aquilo – Eu não entro ali nem morta!
- E por que não? – perguntou Carl, chegando ao seu lado.
- Por que é tão escuro, e tão, tão – ela parecia estar engasgando para falar. – tão apertado.
- Você é claustrofóbica? – perguntou Carl, quase não acreditando naquilo.
- Sim, eu sou! – gritou Xan – por que você tem alguma coisa contra?
- Não, nada – disse Carl – só que eu também era quando menor. E aprendi uma técnica que ajuda a não ter mais medo disso. Venha, eu posso te ajudar.
Brant não estava interessado nas técnicas de ajuda de Carl, e disse para os outros:
- Venham, vamos entrar.
- Espere! – disse Taylor. – eu acho que eu vi alguma coisa grande ali em cima. – ele estava apontando para a parte alta da estrutura de pedra que dava
entrada para a caverna. – e parecia maior do que uma pessoa.
- Você só está imaginando. – disse Brant – mas por acaso alguém tem alguma ideia do que usar para fazer uma fogueira só por precaução?
- Se os velhos registros estiverem certos, deve haver algum tipo de madeira ou material assim aí dentro da caverna. Os mercadores sempre traziam
madeira para cá, para repor a que eles ocupassem. Assim, a madeira nunca ficava podre, por ser velha demais, nem faltava madeira também. Se houver madeira
aí, ela provavelmente vai ser bem velha, mas deve dar para fazer uma fogueira.
Eles entraram e não demorou muito para que tivessem organizado a fogueira corretamente. Logo depois de acenderem a fogueira, Carl e Xan entraram
abraçados. Brant estava feliz pelos dois, e esperava que em pouco tempo ele e Megan também pudessem estar assim. Fred pegou a sacola de suprimentos que
havia trazido consigo, e foi distribuindo frutas maduras e suculentas. Em um canto mais afastado, Taylor e Megan estavam falando sobre alguma coisa em
relação aos gêiseres pelo que Brant pode observar. E logo do outro lado da fogueira, Carl e Xan estavam abraçados. Ele estava murmurando algo no ouvido dela,
mas ela não esboçava nenhuma reação. Brant decidiu que deveria tomar alguma medida. O dia ainda estava claro, mas ele decidiu que era melhor eles irem
dormir logo, e alguém teria de ficar de vigia, por isso falou:
- Amanhã temos um longo dia, então que tal dividirmos os turnos de vigília? Assim, se houver alguém cansado, pode ir descansar. Quem quer começar?
- Eu! – disse Xan prontamente. Brant estava vendo claramente que ela não estava nada confortável ali dentro, embora fizesse o máximo para esconder.
- Tudo bem – disse Brant – então o próximo sou eu. Eu acho melhor dividirmos em somente três turnos. Os outros fazem a vigilância no caminho de
volta. Quem será o outro a vigiar?
- Pode deixar comigo – disse Fred.
Xan se dirigiu para a saída da caverna. Brant se perguntou por que ela não se teleportou, mas isso não importava. Ele tentou se arrumar o me lhor que
podia, mas não conseguiria dormir. Ele percebeu que Fred e Carl também não conseguiriam, por isso, foi se juntar a Taylor e Megan, que ainda estavam
conversando.
- O que vocês estão fazendo? – perguntou ele.
- Eu estava pensando em como passar pelo meio do campo de gêiseres, e me ocorreu uma solução. – respondeu Megan.
- E qual seria? – perguntou Brant.
- Eu conheço um feitiço, que pode nos mostrar o caminho. Mas o problema é que eu não posso realiza-lo. – respondeu Megan – faltam ingredientes.
- Alguns eu posso pegar, - respondeu Taylor – mas outros seriam mais difíceis de conseguir. As ervas que ela precisa devem crescer em algum lugar por
aqui. Mas já o outro ingrediente...
- Qual é? – perguntou Brant – seja qual for nós podemos encontrar – disse indicando Fred e Carl.
- Sangue fresco – respondeu Megan. – mas tem de ser recém-tirado do corpo.
- Isso pode ser providenciado – respondeu Brant, e se levantou. – estejam preparados para quando eu voltar. – e foi falar com Carl e Fred. Percebendo
isso, Taylor saiu da caverna, provavelmente em busca das ervas que ele precisava. Sentando-se entre Carl e Fred, Brant falou – Preciso da ajuda de vocês.
- Com o que? - perguntou Carl.
- Numa caçada – vendo a cara de confusão dos outros, Brant continuou – Megan está preparando um feitiço para nos indicar um caminho seguro por
meio do campo de gêiseres, e ela precisa de sangue fresco. Por isso, nós precisamos achar alguma coisa que sangre por aqui.
- Ótimo, e estamos esperando o que? – perguntou Fred, se levantando, e sendo seguido por Carl e Brant. Eles se encaminharam para a saída, e ao
saírem para a luz da meia tarde, Xan apareceu diante deles.
- Onde pensam que vão? Por acaso não deveriam estar descasando?
- Nós estamos indo caçar – respondeu Carl, voltando à frieza de antes de entrarem na caverna. Aquilo parecia uma doença. Tinha melhoras, e logo após,
recaídas. – por que, vai nos impedir?
- Não. – disse ela guardando o arco e fecha – mas eu planejo ir com vocês.
- Pelo que eu me lembre – disse Carl, com um sorriso na cara – era o seu turno para vigiara a entrada da caverna.
Pela cara que Xan fez, era obvio que uma tragédia estava prestes a acontecer. Fred resolveu interromper antes que qualquer coisa acontecesse com um
dos integrantes do grupo.
- Eu fico de vigília – Fred falou, olhando para Xan, esperando confirmação com a cabeça. – tudo bem para você?
- Para mim ótimo. – disse Xan, com muita raiva. Brant estava com pena do primeiro animal que aparecesse. E com toda certeza, ficaria com pena de
Carl, se não aparecesse nenhum animal.
Xan saiu andando em direção aos campos de gêiseres, e ao chegar ao limite deles, tomou à direita. Brant sem dizer nada simplesmente a seguiu. Mas
logo notou que Carl parou, e parou também. Notando que ninguém a estava seguindo, Xan parou, e ao se virar com cara de fúria, perguntou:
- Por que os dois pararam? – ela pôs as mãos na cintura, como se estivesse impaciente – nós temos de seguir em frente. Não vamos achar nada para
caçar por aqui.
- Eu só vou continuar se você me disser por que está agindo assim. – respondeu Carl, também escorando os braços no corpo, como se estivesse
esperando alguma explicação. – por que se for pelo que aconteceu na arena, então eu sei que é só por infantilidade.
- Você não sabe nada do que aconteceu lá na arena!- gritou Xan, e Brant poderia jurar que ela se virou para que eles não a vissem chorar.
- Então por que você não me conta? – perguntou Carl. Brant não estava a fim de estar no meio de uma briga de casal, mas ele gostaria de ouvir aquilo
também.
- A culpa é dos magos. – ela estava quase chorando, pelo tom de voz – Ninguém me contava, até mesmo por que é segredo. Nas companhias. Então,
com dez anos eu invadi a sala de registros, para descobrir quem era minha mãe, saber quem tinha me vendido para a companhia. Aí eu descobri que não havia
sido minha mãe. Os magos tinham me encontrado, e como nenhum se comprometeu a cuidar de mim.

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- Mas e o que aquela garota tem a ver com você? – perguntou Carl abraçando Xan, e deixando que ela soltasse lágrimas nos ombros dele – Não foi ela
quem fez isso com você.
- Mas ela me lembrou da vida que eu poderia ter tido – respondeu Xan aos soluços. – você não sabe como é difícil a vida lá. Ainda mais para alguém
como eu. È por causa da minha experiência nas companhias que eu tenho fobia de lugares apertados.
- Como assim? – Brant não pode deixar de perguntar. – desculpe, mas eu não entendi.
- É que nas companhias, para cada ato de desobediência, o infrator deve pagar com determinados dias nas masmorras. E eu praticamente cresci nas
masmorras. Tudo por causa do jeito como eu sou – Xan respondeu. Brant estava com medo de perguntar, mas mesmo assim se obrigou.
- De que jeito? – perguntou ele. – por acaso tem alguma coisa que nós devemos saber.
- É que – ela parecia receosa em contar – é que eu nasci com somente uma habilidade especial. Eu podia roubar os poderes de quem eu matasse. E foi
por isso que eu passei a maior parte da minha infância na masmorra. Para não ser tentada a sair por aí matando.
- E quem é você – perguntou Brant, mas mudou a pergunta – melhor, o que é você?
- Eu ainda – ela engoliu um soluço – ainda não posso dizer, mas na hora certa...
- Tudo bem – disse Carl, interrompendo Brant antes que ele pudesse fazer mais alguma pergunta do gênero. Ele ainda estava abraçado com Xan,
quando deu um pulo e gritou – olha! – ele estava apontando para algum lugar atrás de Xan.
Brant andou até o lado deles, e parou. Olhando para todos os lados, ele não conseguiu localizar o que Carl estava apontando. Mas olhando mais
atentamente, ele percebeu que havia alguma coisa entre duas rochas, logo ali em frente. Brant não a vira inicialmente por que era quase da cor da rocha,
cinzenta, e ficava quase perfeitamente camuflado. Ali estava uma versão do animal que Taylor tinha descrito antes, o tal de dinossauro. Era parecido com um
pequeno dragão sem asas, com pele escamosa, e uma coca cheia de dentes. Xan disse:
- Não se mecham! – ela lentamente puxou o arco e a flecha, para não espantar o bicho, mas antes que pudesse por uma flecha no arco, uma lança
dourada e branca voou em direção ao pobre animal, que ficou com ela empalada nele. – Poxa vida – reclamou Xan – acho que não deve ter sobrado parte inteira
dele.
- Vai reclamar? – perguntou Carl, com uma sobrancelha levantada – por acaso só você pode caçar agora?
- Não, mas eu é que não vou carregar aquilo – disse ela, se referindo ao animal morto. Como Carl não se mexeu, ela disse – Está esperando o que? Vai lá
pegar.
Carl, meio que resmungando, começou a ir em direção ao dinossauro empalado. Xan virou para Brant rapidamente, e disse:
- Eu estava esperando por isso – com a cara de espanto de Brant, ela disse, para que ele não tivesse oportunidade de interromper – Temos pouco
tempo. Eu tinha que falar com você em particular. Olhe, eu sei que você quer muito a esfera do fogo, mas eu tenho que te alertar de uma coisa. Sabe aquela
criatura lá na arena? – com a afirmação de Brant, ela continuou – Bem, é aquilo que acontece com um dos Filhos dos Dragões quando ele é corrompido pelo
poder. E a especialidade da esfera é exatamente essa.
- O que você quer dizer com isso? – perguntou Brant, ficando assustado.
- Quero dizer que você será tentado. – Xan o pegou pelos ombros, e o virou de frente para ela – Tentações tão grandes que você jamais imaginou. Ela
vai tentar assumir o controle. E se assumir, você nem pode imaginar o que vai acontecer. – Ela suspirou, e disse – Vou te dar um exemplo. A esfera do fogo era
guarnecida por um dragão, mas ele foi tentado pelo poder dela. E sabe no que ele se transformou?
- Não faço a mínima ideia – respondeu Brant.
- Exatamente – disse Xan – ninguém sabe. Só se sabe que é muito mais poderoso que o dragão. E o dragão? Não existem mais.
Ela se afastou um pouco dele, para que ele pudesse refletir. Carl voltou com o dinossauro, preso na ponta da lança, como se fosse um javali recém-
abatido. O dinossauro não era nem um pouco assustador, não fosse pelos dentes, finos, pontiagudos, e mortais. Ele era do tamanho de um cachorro médio, e
provavelmente nem era um predador, só se aproveitava das carcaças de animais mortos.
- De que vocês estavam falando? – perguntou ele ao se aproximar.
- Ah, só de umas coisinhas, tipo... – Ela não terminou a frase. Pôs as duas mãos na cabeça, e se ajoelhou, apertando com força os lados da cabeça. Ao
ver que os dois garotos estavam preocupados, ela disse – Tudo bem! Acho que é a visita de quem eu esperava.
- É isso mesmo – disse uma voz atrás dos garotos. – você foi difícil de achar Kate!
- Suzi! – exclamou Xan feliz, e correu para abraça-la, mas parou quando percebeu que não conseguiria. Suzi estava parada alguns metros além deles,
mas não estava lá. Parecia ser uma espécie de fantasma, quase invisível à luz do dia. Brant só conseguia identificar que ela era uma garota. E nem teria bem
certeza disso, não fosse a voz fantasmagórica. – você demorou!
- Culpa sua – Suzi amarrou a cara, se é que um fantasma podia fazer isso. – Se você não estivesse bloqueando a mente, nunca teria te perdido.
- Eu tinha de fazer isso – respondeu Xan – caso contrário, todos poderiam saber onde eu estou. E a companhia inteira atrás de mim não seria nada legal.
- Têm razão. – disse Suzi. – mas agora você está em perigo. Eu furei seu bloqueio mental, e agora você está exposta. Não vai demorar muito para que te
achem. E nem para descobrirem que eu estou em contato com você. – ela olhou para o lado, como se pudesse ver através da rocha. – Por isso temos de ser
rápidas. O que você queria para entrar em contato comigo?
- Oh-oh-oh – disse Carl – esperem um pouco. Quem é você? Ou melhor, o que é você?
- Depois eu explico. – disse Xan – Suzi, eu preciso que você procure nas bibliotecas da academia se você acha alguma referência à esfera do fogo nos
livros.
- Nem vai ser preciso – disse Suzi – Se eu bem me lembro – Suzi fez uma cara de força, como se estivesse pensando muito. - tem poucas coisas. Mas o
mais relevante é o que eu li em um livro sobre as antigas civilizações. E pelo que eu me lembro dos Fogadorianos, ou Filhos dos Dragões, eles cultuavam a esfera
como se fosse um deus. E por isso, ela estava sempre além de sacrifícios e louvores. O que quer dizer...
- Que deve estar além dos altares dos templos antigos – completou Xan – o que faz todo o sentido. – Ela refletiu sobre isso um momento, e no seguinte,
olhou para a imagem de Suzi. – O que você acha de se juntar a nós?
- Eu não sei – respondeu Suzi. – Se eu fizer isso, vou ser procurada também. E além do mais, como é que eu vou saber onde vocês vão estar?
- Vá para a cidade dos magos – disse Xan, e o sorriso que ela ostentava no rosto sumiu repentinamente, sendo substituída por medo. – Suzi, você tem
de sair agora daí. Alguém escutou nossa conversa, e vai te dedurar. Fuja o mais rápido que puder. E venha para a cidade dos magos. Eles vão te dar abrigo.
- Então estou indo – Respondeu ela, olhando freneticamente para os lados. Logo após desapareceu, deixando uma nuvem de vapor onde estivera. O
vapor se dissipou e nada restou da conversa.
- Já sabemos para onde ir – disse Xan, e em seguida se manteve em silêncio, com uma respiração leve. – Barreira erguida novamente. Que tal voltarmos
agora?
Os garotos deram de ombros, e voltaram por onde tinham vindo. Eles não estavam muito longe da caverna, então Brant aproveitou enquanto podia,
para olhar a extensão dos campos de gêiseres, e se surpreendeu ao perceber que não deveriam ter mais de dois quilômetros. Ao chegarem perto da entrada da

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caverna, perceberam que Megan estava com uma espécie de tigela nas mãos, com uma mistura de alguns tipos pó. Fred estava ao lado dela, e ambos
conversavam e riam. Brant não gostou nem um pouco daquilo. Ao chegarem mais perto, Brant perguntou:
- Então, onde está Taylor?
- Ele ainda não voltou – disse Fred. – eu estranhei, já que ele ia pegar somente algumas ervas. Eu até já me ofereci para ir atrás dele, mas Megan me
disse que talvez ele prefira algum tempo sozinho.
- Como assim – perguntou Brant, estranhando as palavras – um tempo sozinho? Por que ele ia querer isso?
- Ele conversou comigo antes de você se juntar a nós lá na caverna. – respondeu Megan – e parece que ele anda bem preocupado com relação a não ter
desenvolvido nenhum poder ainda.
- Mas ele não devia! – respondeu Carl – eu sou mais velho do que ele e ainda não desenvolvi completamente os meus poderes. Ele não deveria se
preocupar com isso. Afinal, cada coisa vem ao seu tempo.
Megan ia falar alguma coisa, mas a frase dela foi interrompida por algumas pedras que rolaram da encosta mais próxima. Eram p edras pequenas,
menores que uma mão fechada. Mas se elas estavam rolando, queria dizer que havia movimento. E qualquer movimento naquelas regiões podia signif icar uma
erupção de um dos vulcões. Então outro movimento se seguiu, derrubando mais algumas pedras. O seguinte foi sentido por todos. E o seguinte, mais forte,
estava fazendo o chão começar a vibrar. Parecia que estava sendo provocado por alguma coisa. Alguma coisa que estava se aproximando. E se aproximando
rápido.
Foi então que eles ouviram o primeiro grito. Estava reverberando da esquerda dos campos de gêiseres, da direção contraria a que eles tinham tomado
quando foram caçar. Então outro grito se seguiu. E eles perceberam que eram os gritos de Taylor. E também que havia algo realmente grande atrás d ele. Logo
os gritos foram ficando mais altos, e log eles puderam ver Taylor virando a curva que se direcionava a esquerda perto dos campos de gêiseres. E logo atrás de
Taylor, vinha um dinossauro. Mas não era um dinossauro qualquer. Aquele que Xan tinha mencionado, do tamanho de um trasgo, era pequeno se comparado
àquele. Ele era exatamente como a versão menor, pendurada na ponta da lança de Carl. A única diferença, é que ele não era cinzento, e sim marrom. E ele
também não deveria se alimentar dos cadáveres de outro animal. A menos que se considere um cadáver, uma presa repartida ao meio antes de ser engolida por
aqueles enormes dentes e aquela boca monstruosa.
Ele deveria ter cerca de sete a oito metros de altura, patas traseiras grosas, e dianteiras atrofiadas. A boca ocupava a maior parte da cabeça, o que
indicava que não era muito inteligente, embora fosse um predador. Os dentes deveriam ter no mínimo metade do tamanho de Brant, e eram tão grossos na
base quanto a sua perna. E ele estava quase alcançando Taylor.
Brant não esperou por ninguém. Voltou andando de costas para a caverna, sem conseguir desgrudar os olhos do dinossauro. Ao perceber que os outros
continuavam hipnotizados, ele gritou:
- Ei! – os outros conseguiram sair do transe – Entrem na caverna!
Dessa vez, os outros não esperaram por ele. Viraram-se e entraram correndo na caverna, e Brant não esperou para ver se Taylor conseguiria ou não, se
virando para entrar na caverna também. Eles se encaminharam para perto de onde a fogueira morria, e viram Taylor entrar correndo, instantes antes de uma
mandíbula se fechar diante da entrada da caverna. Ele caiu ao chão, derrubando algumas folhas compridas, que segurava em uma das mãos.
- Ótimo! – exclamou Megan – exatamente do que eu precisava. – ela juntou as folhas do chão, e começou a dispô-las no fundo da vasilha, de forma a
formar uma circunferência, e depois disse para Carl – me dê o sangue.
Carl deu-lhe o dinossauro, e arrancou a lança de dentro dele. Imediatamente, pelo buraco da lança, começou a escorrer sangue. Megan pôs a vasilha
debaixo do corpo do animal, e coletou o sangue. Depois de dizer umas palavras, o sangue começou a brilhar em vermelho vivo.
- Não que eu queira apressar as coisas, mas – disse Xan, e a caverna deu uma sacudida, derrubando poeira em todos. – A DESGRAÇA DO DINOSSAURO
ESTÁ ATACANDO A GENTE! DÁ PRA FAZER ISSO MAIS RÁPIDO?!
- Não precisa gritar! – disse Megan, tocando com a ponta do dedo no sangue, e em seguida tocando a língua com o sangue, como se provando se o
tempero estava ideal. Brant não queria pensar naquilo agora, mas era muito nojento. – Deve haver alguma coisa errada – disse ela olhando para o dinossauro
que Fred segurava.
- Deve haver mesmo! – disse Xan – por que eu não vejo essa coisa nos mostrando à saída segura daqui.
- E nem iria mostrar – disse Megan – só mostra para quem provar do sangue primeiro. E isso está me mostrando aquilo – disse ela apontando para o
dinossauro com Carl. Olhando para Xan, ela perguntou – e do que você tá reclamando? Por um acaso você não pode se teleportar?
- Eu estou meio fraca – disse Xan, olhando com interesse o dinossauro nas mãos de Carl. – E eu acho que eu sei o que quer dizer isso.
Ela pegou o dinossauro, e andou em direção à saída da caverna. Quando chegou próxima a entrada, o dinossauro que se encontrava pa ra o lado de
fora, começou a atacar a caverna como doido.
- Prestem atenção! – disse Xan – Eu vou jogar esse dinossauro para aquele outro ali, e vocês devem correr o mais rápido que puderem, em direção aos
campos de gêiseres. Não olhem para trás. Eu espero que funcione.
Assim que os demais se agruparam próximos à entrada da caverna, Xan ensaiou o lançamento de dinossauro. Assim que o grandão pelo lado de fora
começou a tirar a boca da entrada após uma tentativa de atacar, ela lançou o cadáver para o mais longe que podia, para o lado contrário ao campo de gêiseres.
Atraído pelo cheiro do sangue, o dinossauro maior desviou a atenção para o cadáver do menor, eles desataram a correr. O dinossauro os viu, mas o cheiro do
sangue o confundiu, e por sorte, ele preferiu atacar primeiro o dinossauro menor. Mas o cadáver não durou muito tempo. Logo que engoliu, o dinossauro maior
foi atrás dos garotos. E eles não tinham atingido nem a borda dos campos de gêiseres. Brant não estava muito seguro em atravessar os campos, m as como
Megan se meteu sem pensar duas vezes, ele foi atrás, assim como um dos outros.
Não que fosse muito perigoso atravessar um campo cheio de buracos. O mais perigoso é que esses buracos podiam expelir agua fervente a qualquer
hora. E o que estivesse mais próximo desses buracos, era totalmente cozido, assim que a água caísse depois da subida. Megan estava correndo, passando longe
de alguns buracos, os quais poucos instantes depois expeliam água fervente. E de outros passava bem próxima, e estes nada expe liam. Mas o melhor de tudo
era que o dinossauro estava se aproximando rapidamente.
Megan percebeu isso, e ao olhar para trás, para ver a qual distância estava o dinossauro, tropeçou e derrubou a tigela. Taylor e Carl a ajudaram a
levantar rapidamente, mas pela cara dela, algo muito ruim tinha acontecido.
- Pessoal, temos um problema – disse ela mostrando a tigela, que estava sem sangue – parece que o feitiço acabou.
- Droga! – disse Xan. – do que você precisa para refazê-lo?
- Sangue... – ela disse, e conferindo a tigela, ela disse – é só isso. O resto eu posso reaproveitar, mas o sangue tem que ser fresco.
- Droga de novo! – disse Xan, e olhando para o dinossauro, ela completou – eu tenho uma ideia, mas vou precisar disso – disse, arrancando a lança da
mão de Carl.
Com a lança, ela chamou a direção do dinossauro, e correu em direção a um dos buracos mais próximos. Pela distância que o dinossauro estava dela,
ele suspeitou que não importasse o que ela fosse fazer não haveria tempo. Ele estava se aproximando muito rápido. Ele foi abocanhar Xan, mas ela utilizou a
lança como escora para a boca do dinossauro, apoiando a ponta afiada no céu da boca dele, e a outra no chão duro. Brant percebeu ao longe, que isso só serviu

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para deixar o dinossauro mais furioso, pois agora ele estava com uma lança presa no céu da boca. Ele tentou abocanhar Xan mais uma vez, mas ela somente foi
andando lentamente para trás, para evitar ser apanhada por aqueles dentes enormes. Brant percebeu algo tarde demais. Ela ia cair no buraco do gêiser, e então
gritou:
- Cuidado! – mas já era tarde demais. Ela caiu pela borda do buraco, e Brant prendeu a respiração. Carl ameaçou sair correndo em direção ao buraco,
mas Fred e Taylor o seguraram. O dinossauro atacou a entrada do buraco violentamente, como se pudesse entrar nele. E foi então que algo aconteceu.
O gêiser explodiu na cara do dinossauro, e por toda a sua boca aberta, com agua fervente, entrando por todas as cavidades da sua cabeça. O dinossauro
deu alguns passos para trás, e antes de tombar inerte, um jorro de água caiu sobre o corpo quase sem vida dele. Carl, ao lado deles, caiu de joelhos, e começou
a chorar. Se um dinossauro daquele tamanho não sobrevivera, Xan certamente também não. Ele estava chorando copiosamente, quan do uma voz disse atrás
deles:
- Por que você está chorando? – disse Xan, espantando todos. – por acaso não gostou da minha maneira de matar um dinossauro?
Carl correu para abraça-la, e desta vez, ela não tentou evitar. Ele a agarrou em seus braços, com toda a força, e apertou-a o máximo que pôde. Ainda
enxugando as lágrimas, ele disse:
- Jamais faça isso novamente. – ele se afastou um pouco, o suficiente para que pudesse olhar para ela – você não tinha dito que seus poderes estavam
esgotados?
- Perfeitamente – disse ela – mas era por causa da barreira mental. Depois de desarmá-la, eu comecei a recuperá-los lentamente. – olhando para os
outros, ela também viu ao fundo um dinossauro caído – que tal um pouco de sangue de dino, fresquinho?
Com isso, ela arrancou a tigela das mãos de Megan, e se encaminhou para o corpo do dinossauro. Quando se aproximou, tapou o n ariz. Brant e os
outros nem se moveram, mas ele podia suspeitar que cheiro de réptil cozido ao vapor não era muito bom. Xan já estava voltando com um pote cheio de sangue,
e com a lança de Carl, quando Taylor disse algo:
- Ei pessoal, - ele apontava para as colinas de onde eles tinham vindo que agora estavam a cerca de cem metros. – O que é aquilo?
Brant apertou os olhos para poder identificar o que era, mas mesmo assim era difícil. Pareciam pequenos pontos verdes e cinzentos, escamosos. E esses
pontos estavam se movendo. Brant não gostava nada do jeito com que aquelas coisas se moviam. Ele percebeu que os outros também estavam observando. E
aquelas coisas estavam começando, lentamente a se movimentar em direção ao campo de gêiseres.
- Xan – disse Brant – eu não quero apressa-la, mas seria muito bom que você viesse rápido, e sem movimentos bruscos de preferência. – e vendo que
ela não havia entendido, ele indicou com o dedo as colinas agora distantes.
Xan se virou, e vendo as dezenas de pontos coloridos disse:
- É melhor vocês correrem! – ela mesma começou a correr – esses são os predadores inteligentes. – passando por eles, ela completou – eles devem ter
ouvido o grandão aí, e vieram fazer uma boquinha com o que sobrou.
Eles não haviam percorrido nem cinquenta metros quando Brant parou para olhar para trás. Os primeiros dinossauros estavam chegando ao cadáver do
gigante. E a maioria estava aproveitando o banquete grátis, mas alguns continuavam perseguindo. Virando-se novamente para correr, ele percebeu que faltava
menos de um quilômetro para eles atravessarem por completo os campos de gêiseres, mas constatou que seriam alcançados antes, por isso, ele gritou:
- Ei, arqueira! – e quando Xan deu uma olhada para trás, para ver o que estava acontecendo, ele completou – está na hora de começar a trabalhar.
Xan entendeu na hora. Puxou o arco e flecha, e não esperou por uma segunda chance. Mirrou no dinossauro mais próximo, que ain da estava poucos
metros além do corpo de dinossauro gigante, e acertou entre os seus olhos, no meio da testa. Ele vinha tão rapidamente, que os que vinham atrás trombaram
em seu corpo sem vida, causando certa confusão entre eles. Mas a confusão não durou muito. Logo eles voltavam a perseguir o g rupo, em alta velocidade. Xan
não parava de disparar, e um após o outro, os dinossauros iam caindo rapidamente, Mas os que vinham atrás já haviam aprendido a lição, e esquivavam dos
corpos sem vida dos demais.
- Não é o suficiente! – gritou Xan – eles ainda vão nos alcançar!
- Eu não queria fazer isso! – gritou Fred, e parou, se virando na direção da qual os dinossauros vinham. Brant tentou agarrar a sua camisa, puxando-o
para fazer com que ele continuasse correndo, mas ele insistiu no mesmo lugar. Sentindo o ambiente ao redor, Fred reuniu todo o poder que ele conseguia
concentrar, e o focou num ponto logo à frente. Ele esperou até os dinossauros mais próximos estarem próximos o suficiente, E então a terra começou a tremer.
- O que... – Brant começou a perguntar, pensando que aquele fosse um novo poder desenvolvido por Fred. Mas não era possível. Megan era a ligada a
terra, então não havia como Fred estar causando aquele tremor. A menos que... – Corram! – gritou Brant.
- Mas e Fred? – perguntou Carl.
- Só corram! – gritou Brant, e eles obedeceram. Bem a tempo, por que a metros deles, o chão desapareceu, quando o maior gêiser do campo surgiu do
nada, fazendo com que muitos dos dinossauros fossem atirados para o ar juntamente com a água. Brant tinha entendido o que Fred estava fazendo, por que ele
lembrou algo que tinha aprendido muitos anos antes, com a senhorita Palie. Debaixo de uma grande concentração de gêiseres, sempre há um lago de água
fervente. E a única coisa que Fred tinha feito era trazer a água até a superfície. Brant ficou imaginando quanto esforço isso tinha exigido, quando percebeu que
Fred estava caído, logo além do novo buraco. – Fred! – gritou ele, e correu para ajuntá-lo, seguido de Carl.
Ele estava desmaiado, certamente pelo uso exagerado dos poderes. Xan chegou também, e Examinando um dos olhos de peixe morte dele, ela disse:
- Ele vai ficar bem – ela indicou para que Brant e Carl o carregassem pelos braços – só precisa de um descanso. Vamos – disse, olhando para a cratera
cheia de água fervente que estava diante deles. Ela provavelmente não esvaziaria mais como os outros gêiseres, e por isso, os outros dinossauros teriam de
contornar por outro caminho. Mas isso não ia durar para sempre – Isso só vai atrasá-los. E lutar de uma posição mais alta é melhor.
Os garotos não questionaram. Seguiram carregando Fred, e seguindo os passos de Megan, que os estava guiando por um caminho seguro. Não
demorou muito para que eles atingissem a outra borda do campo de gêiseres, e Brant ficou abismado com o que viu. Ele estava prestando atenção no templo, a
maior parte do tempo. E por isso, não tinha visto o cenário ao redor.
O templo ficava encravado na encosta de um vulcão. E era ele que iluminava todo o céu acima, tingindo-o de vermelho. Na base da montanha, que
também era limite do campo de gêiseres, Se iniciava uma escadaria que levava até a entrada do templo. No início da escadaria, estavam duas estátuas, com
cerca de dez metros cada, e com armadura de combate completa. Brant sentiu na hora uma espécie de ligação com as estátuas. Mas o cenário mais devastador
era ao redor, perto das escadarias. Dezenas de ruínas de casas, quase todas completamente destruídas. Pilares, paredes, portas e muros estavam por toda
parte. Era definitivamente uma cidade fantasma. Brant se encaminhou para as estátuas, e tocou uma delas. Uma voz disse atrás dele:
- Você sente uma ligação com esse lugar, não é? – era Megan. Olhando para as enormes estátuas, ela disse – elas foram construídas para proteger a
cidade. Mas nem elas foram capazes disso, quando o mal recaiu sobre este lugar.
- Você disse proteger? – com o aceno de cabeça positivo, Brant teve uma ideia genial. – E por um acaso nós podemos reativar estas estátuas?
- Provavelmente, com o feitiço certo, e um pouco de sangue... – mas ao perceber que Brant olhava para a tigela que ela segurava, ela corrigiu – não
esse tipo de sangue, mas do seu tipo. Sangue de um Fogadoriano. De um dos Filhos dos Dragões.

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Brant não hesitou. Puxou a manga da camisa mais para cima, no braço, e com uma pequena faca, fez um corte no antebraço, para deixar o sangue
correr. Megan coletou com uma vasilha, e em seguida, cortou um pedaço de suas próprias vestes, para amarrar o braço cortado de Brant. Ele amou cada uma
daquelas coisas, mesmo que envolvesse o seu sangue. Nisso, Xan se aproximou, e disse:
- Pessoal, temos outro problema. – indicando com a cabeça Fred, que estava com Carl e Taylor, ela falou – nós não podemos leva-lo para cima, mas
também não podemos deixa-lo aqui. Eu já posso ouvir os dinossauros vindo, e não iremos conseguir subir tudo isso a tempo. O que vamos fazer?
Brant percebeu pela primeira vez que ela estava realmente em duvida do que fazer. Por um lado ela estava totalmente certa, mas Brant não sabia se
poderia arriscar fazer o que fosse necessário.
- Eu sei o que fazer – disse Megan, assumindo a responsabilidade pela situação. E Brant a amou ainda mais por isso. – Eu posso acordá-las – disse ela,
apontando para as estátuas. – mas eu vou precisar de um tempo. E caso os dinossauros cheguem antes, eu vou precisar de proteção. Mas eu garanto que posso
fazer isso.
- Eu não sei – disse Xan, mordendo o lábio, e Brant percebeu que ela estava realmente confusa. Virando-se para Brant, ela perguntou – você acha que
Taylor, Carl e você podem dar conta, sozinhos?
- É claro – disse Brant, se virando para encarar o templo, dezenas de metros mais adiante e acima. E virando-se para Xan, ele disse – e você, tem certeza
que pode fazer isso sozinha?
- Eu não vou estar sozinha – disse ela, passando um braço pelas costas de Megan, e a puxando para junto de si mesma. – duas garotas podem mais do
que você imagina. Ainda mais se houver um cara desmaiado necessitando de proteção por perto.
Isso fez com que Brant desse um sorriso. Ele chamou os outros dois garotos, que trouxeram Fred mais para perto. Brant lhes explicou a situação, e eles
concordaram, mesmo que contraditoriamente. Carl deu um ultimo abraço em Xan, e começou a subir as escadarias. Brant sabia que caso ele ficasse mais um
segundo ali, ou se pensasse novamente naquilo, não poderia seguir em frente, por isso, decidiu que o melhor era seguir em frente. E subindo as escadas, logo
atrás de Carl, e ao lado de Taylor, ele constatou uma coisa.
Que viesse o que tinha de vir, por que eles estavam preparados.

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Em busca do fogo
Brant
As escadarias eram muito mais longas do que pareciam de baixo. Naquele momento, eles estavam quase chegando ao topo, e Brant estava quase
morto. Quando tinham chegado à metade das escadas, Brant parou para respirar, e aproveitou para dar uma olhada para trás, para ver como as meninas
estavam se saindo. Ele tinha se sentido mal por não ter ficado com elas, e as ter ajudado a defender Fred, mas se alguém não fosse atrás da esfera, o ataque dos
dinossauros jamais acabaria. Porém, ele se surpreendeu quando olhou para baixo, e no pé das escadarias, duas enormes estatuas começaram a se mover.
Naquele momento, os dinossauros já haviam chegado, e Xan já tinha abatido muitos com o arco, mas eles estavam começando a che gar em maior número. E
atraído pelo barulho, também se aproximava outro dinossauro do tamanho do que eles haviam matado. Um dos guardas gigantes começou a chutar e espetar
com sua espada enorme os pequenos dinossauros, que diante da ameaça, começaram a hesitar no ataque. Já o outro guarda foi ao encontro do dinossauro
maior, que vinha do oeste, sem adentrar nos campos de gêiseres.
Como as garotas pareciam em melhor estado, Brant e os outros continuaram subindo, e Brant ficou consternado ao perceber que e le era o mais
cansado dos três. No meio do caminho entre a metade e o fim da escadaria, ele parou novamente, para observar como as garotas iam indo. O guarda d
dinossauro maior o tinha agarrado por baixo do braço, e estava dando uma chave de pescoço nele. Até aí tudo bem. Mas o outro, dos dinossauros menores não
estava em tão boa situação. Parecia que os dinossauros tinham perdido o receio de atacar, e agora estavam subindo por todo o corpo do guarda, e c om isso, o
estavam fazendo cair. Alguns preferiam atacar as garotas e Fred, mas Xan dava conta deles, os derrubando a distância, sem nunca errar flecha alguma.
Depois disso, ele decidiu não olhar mais, mas agora que estava no topo, não resistiu. O guarda que estava sendo coberto de dinossauros agora estava
em pedaços no chão, e os dinossauros estavam procurando algo para comer por entre os destroços, o que era bom, já que assim, eles não tentavam atacar as
garotas. O outro, agora estava tentando dilacerar a boca do dinossauro maior, puxando a sua mandíbula, e ele estava tendo suc esso. A mandíbula abriu num
ângulo que parecia extremamente doloroso. Mas assim que percebeu o fraquejar do dinossauro, o guarda simplesmente aplicou mais força e terminou
quebrando todos os ossos da boca. Não satisfeito, ele deixou o dinossauro cair no chão, e socou a cabeça do infeliz contra o chão, até o corpo parar de se bater.
E ao perceber que mais dinossauros estavam na região, resolveu ataca-los também.
Os dinossauros tentaram aplicar o mesmo método que aplicaram no outro guarda, mas parecia não funcionar. Brant constatou que, ou o guarda era
mais inteligente, ou mais rápido. De qualquer forma, isso deveria ganhar algum tempo para eles e as garotas. Brant subiu os últimos degraus, e soube no mesmo
momento porque Carl e Taylor estavam boquiabertos. Quando viu o templo, ele prendeu a respiração.
Ele era enorme. Tinha colunas de dezenas de metros, que sustentavam uma abobada de pedra, circular, que preenchia todo o espaço, até encostar-se à
montanha. Ao encostar-se à encosta da montanha, o templo deixava de ser algo que quaisquer humanos poderiam fazer. Primeiramente, por que a própria
montanha era o templo. E segundo, por que aquilo ali era um vulcão.
Brant não sabia como, mas enormes formas circulares, muito semelhantes aos pilares, e eles estavam organizados na parede, com espaço de cerca de
dez metros um entre o outro. Até aí, nada fora do normal, mas eles eram feitos de algum material transparente, e preenchidos com alguma coisa vermelha viva,
puxando levemente para o tom alaranjado. E Brant soube na hora o que aquilo era. Era o sangue da montanha. Era magm a vindo direto das camadas mais
baixas do planeta.
- Uau! – disse Brant, observando os pilares. Eles eram alguma forma de iluminação, que aproveitava a própria energia da montanha. Seguindo com os
olhos, eles podiam perceber que esse tipo de pilar seguia por uma centena de metros, até se abrir em uma espécie de círculo, também emanando uma luz
vermelho alaranjada. Brant apontou para lá e disse – É lá, eu tenho toda a certeza. A esfera está lá.
Ele sabia sem que ninguém precisasse dizer. Ele tinha deixado de prestar atenção, mas agora, ele sabia. Todo o poder que vinha de qualquer canto do
vale convergia para aquele ponto. Pareciam ondas intermináveis. Ele podia até ver as ondas de poder. Foi quando Carl disse ao seu lado:
- Quanto vermelho! – ele estava olhando para cima, e Brant suspeitou que ele via a mesma coisa que ele. Diversas ondas de poder, se dirigiam para
aquele lugar. E elas tinham um aspecto de fogo vivo, avermelhado e intenso. – Isso tudo é poder?
- Sim – respondeu Brant, e percebeu que ambos os outros o estavam encarando. Ele não sabia o que dizer a seguir, mas optou pelo básico – Então,
vamos seguir.
- Você sabe – começou a dizer Carl, enquanto eles andavam em direção ao templo. – que todo esse poder será seu, daqui a pouco.
Brant não tinha analisado por aquele ponto de vista, mas decidiu não confessar, por isso, só fez sinal afirmativo com a cabeça. No momento, outra
curiosidade lhe veio. Como eles faziam para manter o magma liquido dentro daqueles pilares, mesmo depois de anos. E ao se aproximarem do primeiro, ele
obteve a sua resposta.
O magma estava se movimentando, o que queria dizer que ele não fora o mesmo desde a construção. Ele estivera sempre em movime nto, que evitara
que ele se resfriasse, e também que endurecesse. Brant tinha quase certeza de que o magma estava sendo pego de um dos diversos veios que costumavam
permeara as paredes dos vulcões.
Isso não tinha mais importância. Sempre lhe haviam dito que um mistério perde a graça depois de ser desvendado, e foi o que aconteceu. Todos os
pilares eram iguais. E o que estava chamando sua atenção agora, era o fim do corredor no qual eles estavam que se aproximava rapidamente.
Aos poucos, o misterioso fim do corredor que se aproximava, foi revelando uma enorme câmara circular, que fez Brant ficar ainda mais impressionado.
Por todo o arredor da câmara, grandes estátuas de homens vestindo capas com capuzes estavam inclinadas em direção ao centro d a câmara. Brant percebeu
que não havia chão. Tudo era um enorme poço de lava borbulhante. A única coisa presente dentro da câmara era uma espécie de píer, que ia da direção do
corredor pelo qual eles haviam chegado ali, até exatamente o centro da câmara. No centro, essa espécie de píer se alongava, ficando com uma forma circular, e
sobre o centro dessa forma circular, estava uma espécie de mesa para sacrifícios. A mesa estava rachada ao meio, como se tivesse sido atingida por algo muito
forte. Mas, além disso, não havia mais nada.
- Não está certo. – disse Brant – a esfera deveria estar além do sacrifício, mas não há nada depois daquela mesa – disse indicando a mesa rachada ao
meio.
- Eu acho – disse Taylor, se aproximando da mesa, e depois olhando pela beirada, para o poço de lava. – que há algo sim. Algo que somente um
Fogadoriano poderia enfrentar. Eu acho que ela está lá.
Brant e Carl também se aproximaram. Brant até tentou ver se podia ver para que local o poder convergia, mas era tão densa a nuvem de poder ali, que
nada podia ver além de vermelho por todo lado. Ele não queria fazer aquilo, mas era a única explicação plausível. Brant olhou para o poço, poucos metros
abaixo. E sem dizer nada saltou para dentro dele. Ele sabia que se tentasse discutir isso com os outros, seria uma enorme per da de tempo, e eles não tinham
tempo para perder. Ele ainda pode ouvir Carl gritando “Não!”, mas já era tarde. Fechou os olhos, e sentiu o calor se aproximando.
Ao mergulhar na lava, ele sentiu a temperatura ao redor do seu corpo subir, mas ele não se queimou. Parecia que a lava estava tentando falar com ele.
Ela estava tentando tomar conta de suas roupas, e destruí-las, como se nunca tivessem existido, mas Brant sabia que se permitisse, O próximo passo seria tomar
o seu corpo, e fazer o mesmo com ele. Ele tinha de resistir.
Ao abrir os olhos, se impressionou, pois nunca iria imaginar que seria tão fácil enxergar lá embaixo. Ele procurou ao redor, mas não conseguiu ver
nenhuma esfera, em nenhum lugar. Porém ao olhar para baixo, ele viu o brilho avermelhado, e percebeu que podia sentir todo o poder que emanava daquele

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ponto. Ele tentou se locomover em direção á esfera, mas percebeu que era quase impossível se locomover na lava. Você até pode pensar que é como nadar na
água, mas não é nem parecido. Por isso Brant tentou se concentrar em toda a lava ao redor, e tentou fazer com que ela trouxesse a esfera até ele. A esfera
estava se aproximando lentamente, e foi então que um enorme olho se abriu diante de Brant.
Mas não era um olho qualquer. Era uma espécie de olho ofídico, e no interior da pupila em fenda, ele podia sentir todo o poder que emanava da esfera,
e então ele compreendeu. Ele não estava sozinho ali. Em frente a ele estava à fera do fogo.
O olho piscou, e então, ao se abrir novamente, apareceu outro olho. E os dois estavam fixos na mente de Brant. Uma voz preencheu o espaço do poço
de lava, e Brant não teve dúvida de que era a criatura. Ela dizia:
- Filho do fogo, descendente das raças antigas. O que o trás aqui?
- A esfera! – respondeu Brant mentalmente – eu não quero lhe perturbar, somente quero a esfera. O mundo está em perigo novamente, e eu preciso
dela para protegê-lo.
- Não diga isso – disse a fera. – você não conhece o maior perigo. Se você tirar a esfera daqui, o vale vai estar condenado para sempre e você não vai
poder fazer nada por ele. Todo o seu passado estará perdido. E nada mais vai poder deter a criatura.
- Mas eu posso – disse Brant, e tentou avançar em direção à esfera.
Era obvio que isso não ia funcionar. Brant foi violentamente atirado para trás, sendo arremessado para fora do poço, e indo se chocar com a mesa de
sacrifício. Carl e Taylor o estavam ajudando a se levantar, quando um leve tremor começou a balançar a sala, e fez alguma poeira se desprender do teto.
- O que foi isso? – perguntou Taylor.
Brant iria responder, mas não foi preciso. Do poço de lava, começou a se elevar uma grande bolha de lava, que parecia prestes a estourar. Os garotos se
viraram para a saída, e saíram correndo. Mas tinham chegado à metade do corredor, Puderam ouvir o barulho da bolha estourar, e cobrir a sala inteira de lava
fervente. Brant deu uma olhada para trás, e ficou impressionado com a beleza do que viu. Exatamente onde estivera à mesa do s acrifício antes, agora havia um
exuberante pássaro de fogo.
Seu corpo parecia com o de um pássaro normal, mas as penas das asas e da cauda, bem como a maioria das que cobriam o corpo eram simplesmente
fogo, com uma tonalidade que variava do laranja ao amarelo, dando um visual maravilhoso. E no centro da cabeça, Brant a via. Era apenas um pequeno brilho,
mas, ele sabia que era a esfera. Não era necessário olhar para o poder, ele sentia que todo o seu poder estava sendo sugado para aquele lugar. Seria a mais bela
visão de todas, não fosse por um motivo: a fera estava dizendo mentalmente para Brant “Vocês podem correr, mas não vão escapar”.
Brant podia ler isso em seus olhos, que não eram mais amistosos. Agora, eles eram poços vermelhos de raiva, como se fossem um a representação do
poço de onde saíra.
Eles não esperaram para ver o que iria acontecer, e saíram correndo para a parte frontal do templo. Eles puderam ouvir o piar do pássaro quando alçou
voo. Brant deu uma olhada para trás, mas não pode ver para onde tinha ido a ave. Mas soube que ela tinha ido em direção ao teto, quando o templo começou a
tremer, e pedaços de pedra começaram a cair. Eles conseguiram chegar em segurança à parte do templo que fora construída. Mas não puderam ficar lá. Os
pilares estavam rachando, e iriam desmoronar em breve. Eles estavam chegando à saída do templo, quando o pássaro apareceu em frente, poucos metros
acima das escadarias. Brant soube que não teriam como escapar. Eles precisavam enfrentar a fera do fogo.
- Carl! – gritou ele, e apontou à direita. – vá para lá! Taylor! – agra ele apontava a esquerda – Para lá! – ele esperava que o plano dele funcionasse, mas
falhou antes de começar. Os outros dois garotos não tiveram chance nem de se mexer, e o pássaro atacou.
Ele bateu as asas com força, em direção aos garotos, e com o ar quente que veio em direção a eles, veio em sequência uma nuvem de fogo, que
iluminou o interior do templo, e Brant mal teve tempo de criar um campo de força para proteger os outros dois do fogo. O fogo se espalhou por todo o templo,
deixando-os isolados em um ponto solitário.
- Você não vai resistir – disse a voz do pássaro na sua cabeça. – o poder vai te consumir.
Brant soube no momento que não poderia vencer somente utilizando os poderes. Ninguém poderia. Por isso, resolveu utilizar a inteligência.
Então por que você não vem me olhar nos olhos! – gritou para o pássaro.
No mesmo instante, o fogo cessou. O pássaro entrou lentamente no templo. Brant acenou para Carl e Taylor, e ambos saíram correndo para os lados
combinados. O pássaro nem se incomodou com eles. Certamente sabia que não havia para onde eles escaparem. Brant puxou o machado de suas costas, e o
mostrou para o pássaro. Ele hesitou, e Brant foi girando lentamente ao redor dele, por fim ficando de costas para a saída, co m o pássaro voltado com as costas
para o interior do templo.
- Você foi muito corajoso – disse o pássaro – mas você precisa entender que eu não posso deixa-lo ficar com a esfera, muito menos ir embora.
- E não precisa – disse Brant, lentamente recuando, e chegando ao limítrofe que separa o interior do templo do exterior. Ele finalmente tinha alcançado
as colunas. Agora ele esperava que Carl e Taylor tivesse entendido o plano. Olhando para um dos pilares, Ele desceu o machado em uma das rachaduras, o que
fez com que o pilar cedesse alguns centímetros. Aquilo não estava nos planos. O pássaro percebeu o que Brant estava tentando fazer, e reagiu. Mas não houve
tempo. Brant arrancou o machado da rachadura do pilar, e este cedeu por completo, caindo sobre o pescoço do pássaro. Ele tentou se levantar, usando a força
das asas, mas Brant rapidamente atingiu o pilar mais próximo, e ao ceder, ele caiu sobre uma das asas, e fez com que o pássaro caísse ao chão novamente. Brant
olhou ao redor, procurando pelos outros, e viu que Carl estava tentando derrubar um dos pilares. Olhou para o outro lado, e viu o momento em que Taylor
tirava o escudo de uma das fendas de um dos pilares, fazendo com que ele cedesse. Quando Carl conseguiu fazer com que o seu t ambém cedesse, os demais
também começaram a ceder, com o peso da abóbada. E assim a parte externa do templo, começou lentamente a ceder.
Brant pode ver a fúria nos olhos do pássaro, antes de um pesado bloco da abóbada caísse, bloqueando a visão. Com a queda do b loco, Brant foi
violentamente atirado para trás, descendo as escadas. Por sorte, após descer alguns degraus, ele bateu contra uma parede de uma das casas destruídas, e
parou. De lá ele viu todo o resto da parte externa do templo desmoronar, e também Carl e Taylor virem em seu encontro. Taylor estava exultante, e Brant, ao
perguntar por que, ficou surpreso com a resposta:
- A gente matou uma fênix! – Brant sabia que isso era impossível. Mas outra coisa lhe veio à mente, coisa que não havia vindo antes, quando ele bolou
o plano.
- Até pode ser, mas infelizmente com isso nós perdemos algo muito importante – ele viu o ânimo de Taylor se desfazer com a compreensão d que havia
acontecido. – A esfera se foi. Está coberta por toneladas de entulho.
- Talvez não. – disse Carl, e correu em direção ao templo. Brant e Taylor ficaram no mesmo lugar, só observando. Carl pegou um dos blocos com as duas
mãos, e tentou levantá-lo. Sem sucesso, ele parou, antes de tentar novamente – vamos lá!
- Nem que fossemos cem – disse Taylor, mas Brant entendeu o que Carl queria. Se ele conseguisse recuperar parte da força que ele havia usado antes...
E então o primeiro bloco foi levantado. Carl o atirou para o lado, e ele desceu a montanha. Brant ficou observando que ia aco ntecer com ele, e quase
no pé do vulcão, ele esmagou alguns dos poucos dinossauros que ainda estavam lá. Aproveitando, ele tentou localizar as garotas, e as viu aos pés do guarda de
pedra gigante, juntamente com Fred. Os dinossauros que restaram pareciam estar receosos, mas Brant não tinha certeza se era por causa do guarda ou por
causa da fênix.
Foi quando ele viu outro bloco passar por eles, desta vez um pouco menor, e seguido por uma exclamação, meio surpresa, meio assustada de Carl:

72
- Ei pessoal, eu acho que temos um pequeno problema.
- O que foi? – perguntou Taylor.
- Venham ver – disse ele. Taylor e Brant subiram os degraus em direção ao templo, e, ao chegar ao lado de Carl, perceberam o que estava acontecendo.
Por entre os entulhos, uma espécie de areia escura escoria para fora, indo se acumular em um local próximo dali. Ela estava tão acumulada, que já formava uma
pequena elevação.
- Mas o que... – Brant estava perguntando, mas sua pergunta morreu no ar, quando a esfera do fogo saiu rolando do meio dos entulhos. Ela foi se juntar
às cinzas, e Brant correu para pegá-la. Quando tocou nela, o seu braço foi violentamente puxado para o interior das cinzas. As que vinham dos destroços do
templo começaram a envolvê-lo. Brant tentou arrancar a esfera do meio do monte de cinzas, e, ao perceber que não teria sucesso, tentou soltá-la, e retirar o
seu braço. Mas sua mão não queria respeitar os seus comandos, e o braço continuou preso. Carl e Taylor tentaram ajudá-lo a sair de lá, mas foi em vão. Brant
deu uma ultima olhada para os outros dois garotos, antes de ser tragado pelas cinzas.
Lá dentro ele não conseguia respirar, muito menos enxergar. Ele sentiu a esfera esquentar em sua mão, e percebeu imediatamente o que estava
acontecendo. Uma fênix não podia ser morta, e ela estava se regenerando. Elas geralmente renasciam das cinzas, mas naquele caso, Brant estava desconfiando
que ela estivesse tirando energia da esfera, para reaproveitar as cinzas e ressurgir com toda a força. E era exatamente isso que estava acontecendo.
As cinzas ao seu redor se reacenderam, e a fênix voltou com toda a força. E ele estava no interior dela. E sem o seu machado. Ou seja, não iria escapar
dali tão fácil. Brant imaginou que ela iria atacar os outros garotos, mas ela parecia estar com uma dor terrível, e com isso, ela levantou voo.
Brant não conseguia ver nada para fora do corpo dela, mas desconfiava que eles estivessem se dirigindo para o cume do vulcão. E isso era mal. Lá ele
estaria sozinho, e a fênix no seu habitat perfeito. Além do mais, ele tinha começado a perceber que a fênix estivesse rouband o sua energia vital, por que cada
vez ele se sentia mais fraco. Ele ouviu um som, e soube que eles tinham pousado, ou batido em alguma coisa. Mas ao sentir que podia se mexer me lhor
novamente, ele entendeu. Eles estavam dentro da boca do vulcão.
Brant se moveu o melhor que pode, até conseguir a cabeça para fora da lava, que agora o cercava por todos os lados. Ele finalmente conseguiu respirar
corretamente. Ele sabia que tinha de sair dali, mas estava muito fraco para fazer isso.
- Não há como sair – disse uma voz em sua cabeça, e ele soube que era a da fênix. – você realmente não entende. Eu não posso. Se isso acontecer, o
que assombra o vale vai tomar conta dele.
- O que assombra o vale? – perguntou Brant. Ele sabia que quanto mais tempo conseguisse manter a fênix distraída, mas tempo estaria vivo. Ele
precisava aguentar até que a ajuda chegasse.
- Sim, o que assombra o vale – disse a fênix, e Brant percebeu um vacilar na voz dela. – Há muitos anos, os habitantes desse vale, acharam uma porta
trancada com magia antiga. Eles me pediram conselhos, e eu lhes disse que não deveriam abri-la. Eles acharam que eu estava mentindo. – nesse momento, a
fênix deu uma gargalhada, e esperou o eco parar de soar para continuar – Eles usaram de tudo para abrir a porta. Pensaram que eu estava tentando esconder
algo que poderia me derrotar. – Ela parou um momento antes de continuar – Sabe, esse sempre foi o mal dos Fogadorianos. Deixavam-se seduzir pelo poder
muito facilmente. Assim como você.
- Eu jamais faria isso – gritou Brant furioso. Ele sabia que precisava ganhar tempo, e esse era melhor método.
- Por enquanto – disse a fênix, e retomou o assunto anterior – mas enfim. Eles resolveram tentar de tudo para abrir aquela porta. E então eles fizeram o
que não deveriam. Eles foram até os abismos do norte, e libertaram os cavaleiros da morte. Em troca, Mal abriu os portões para eles.
- Mal? – perguntou Brant, e então percebeu do que se tratava – o terceiro cavaleiro?
- Bem, isso depende – disse a fênix, pensando – você pode conta-lo por primeiro, ou segundo. Ele só será o terceiro se você conta-lo por ultimo. Mas
isso não importa. Foi o maior e último erro dos seus antepassados. Demorou menos de um dia para que os magos fechassem as por tas, e lançassem os feitiços
de proteção. O que eles não sabem, é que isso de nada adianta. Sabe, o que assombra o vale só não destruiu tudo ainda, por que o poder da minha esfera está
mantendo sua ganância alta. Mas ela ainda tem medo de me enfrentar em meus domínios. E se eu cair, provavelmente todo o mundo cairá.
- Isso é mentira – disse Brant, mas um calafrio percorreu toda a sua espinha. – Se houvesse alguma coisa assombrando o vale, nós a teríamos visto.
Nada do que você diz é verdade.
- É uma pena que você pense assim. Se você sair daqui vitorioso, você irá descobrir quem são os seus verdadeiros inimigos. E muitos daqueles a quem
você chama de inimigos podem te surpreender.
Brant estava usando toda a força da qual dispunha, para chegar à margem do lago de lava, e estava quase conseguindo. Mas naquele momento, A fênix
ressurgiu da boca do vulcão, muito maior do que estivera antes. E muito mais assustadora. Brant finalmente tinha conseguido sair para a margem, mas de nada
adiantaria. Mas um lampejo a sua direita o fez mudar de ideia.
- Espero que agora você possa compreender o porquê de eu estar fazendo isso. – disse fênix. – foi bom te conhecer, pequeno Brant.
- Eu digo o mesmo – disse Brant, quando a fênix atacou. Mas ela não chegou a acertar Brant. Uma flecha prateada acertou o seu olho direito, e uma
lança o seu pescoço. Ela se debateu, e caiu inerte logo além de Brant, se desintegrando em um monte de cinzas. Mas mal terminou de se desintegrar, as cinzas
começaram a tomar forma. – Não adianta! – gritou Brant – Ela vai continuar a se refazer.
- Então é melhor começar a lutar! – disse Carl, e atirou o machado para Brant. Brant sabia que isso não iria adiantar. A fênix ressurgiu das cinzas, desta
vez muito mais furiosa, e menos disposta a conversa. Ela localizou Carl mesmo invisível, e com o mesmo truque que fez antes, encheu o ar de fogo, fazendo com
que Carl desaparecesse no meio das chamas. Brant estava prestes a correr para ele, quando o fogo baixou, e ele viu Taylor com o escudo em frente a Carl. Carl
agora estava com a espada de Fred, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Xan, de uma rocha mais alta, disparou três flech as ao mesmo tempo, e a fênix,
com um movimento de asas desviou-as. Xan ficou furiosa.
- Ninguém nunca me fez errar flecha alguma! – com isso, ela pegou um punhado de flechas na aljava, e disparou todas de uma vez. A fênix refez o
mesmo movimento com a asa, mas o vento quente que o movimento gerou não foi o suficiente para afastar todas as flechas, e alg umas ficaram cravadas na
parte externa da asa. A fênix repetiu o gesto com as asas e incendiou o ar na direção de Xan. Por sorte, ela conseguiu se teleportar a tempo para um local
seguro. Não que houvesse qualquer lugar seguro ali.
- Não veem? – perguntou a fênix, para todos – Eu sou imortal. As minhas cinzas me garantem isso. Vocês não podem me derrotar.
- É o que vamos ver! – disse Brant, e dali mesmo onde estava, atirou o machado em direção á fênix. O machado acabou acertando-a no peito, E ela se
desmanchou em cinzas. Brant correu o mais rápido que pode, e retirou a esfera do meio das cinzas, bem como o seu machado e a lança de Carl. Ele a devolveu
para ele, e disse – Vamos ver se sem a esfera ela pode se regenerar.
Mas não funcionou. Como da primeira vez, a esfera foi violentamente lançada em direção às cinzas, mas desta vez, Brant a soltou. A fênix estava se
refazendo novamente.
- Como vamos matar isso?! – perguntou Carl, ficando desesperado. E ao ver a fênix inteira novamente, ele disse – a energia não vai se esgotar nunca?
- É uma das esferas, garoto tolo – disse a fênix – ela pode fazer muito mais do que você imagina!
Olhando para o lago de lava na boca do vulcão, os seus olhos brilharam. E do lago, surgiram, primeiramente mãos, e depois cor pos. Eram Crateryus.
Dezenas deles.

73
- Agora nós estamos ferrados – disse Carl.
- Talvez ainda não. – disse Taylor, e pela sua cara, Brant supôs que uma ideia tivesse surgido em sua mente. Olhando para os outros, ele disse – vocês
acham que conseguem matá-la novamente?
- Isso é fácil – disse Carl – o difícil é mantê-la morta. Qual é o plano?
- Não há tempo para explicar - disse Taylor – Vocês precisam confiar em mim.
Brant não soube o que dizer. Era a primeira vez que ele pedia isso. Brant já pedira isso antes, e eles tinham confiado nele. Mas não pode deixar de
lembrar o aviso da fênix “você irá conhecer os seus verdadeiros inimigos.”. Mesmo assim, Brant resolveu confiar nele.
- Está certo. – disse Brant – uma última vez? – perguntou ele, olhando para Carl, e se perguntando onde estaria Xan.
- Sempre – disse Carl, largando a sua lança de lado, e ficando com a espada de Fred.
- Com toda a certeza, - gritou uma voz além da fênix. Brant percebeu que era a voz de Xan, e um momento depois, a fênix se curvou, como se tivesse
sido atingida por alguma coisa. Ela se virou para atacar, e Carl aproveitou a oportunidade. Só que ele se esqueceu de cuidar-se.
Quando partiu para atacar, o primeiro dos Crateryus, que era o único que conseguira sair d poço até aquele momento estava levantando uma espada
flamejante para ataca-lo. Carl percebeu no último momento, mas nada podia fazer. A espada estava descendo, quando uma enorme estátua de pedra se atirou
contra o Crateryus, o derrubando novamente no lago de lava. Brant olhou ao redor, e no limite do poço, viu cerca de dez homens iguais parados. E aos seus pés,
estava Megan, sorrindo. Ao ver que Brant a observava, ela disse com os lábios, mas sem emitir som algum, algo como “Eu achei enterrados por aí”.
Brant não tinha tempo para aquilo agora. Olhando para Carl, ambos conseguiram entender um ao outro sem dizer uma palavra sequer. Eles correram
para a fênix, que estava atacando Xan, com fúria inigualável, e não percebeu a aproximação deles. Eles não precisaram combinar nem ensaiar. O machado de
Brant, e a espada de Fred, que estava com Carl, desceram juntos, e acertaram a fênix. O machado de Brant decepou uma das pernas, e algumas das penas de
fogo. A espada de Carl fincou-se atrás das costas da fênix. Ela se curvou, e caiu para trás, começando a se desfazer em cinzas. Brant olhou para Taylor, para ver
qual era o grande plano dele, e ao ver qual era somente conseguiu dizer uma coisa:
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO – mas já era tarde.

74
Sacrifício
Brant
Sempre haviam dito para Brant que sacrifícios eram necessários para se obter grandes resultados, mas ele nunca tinha entendido aquilo. Por que
alguém iria se sacrificar, para que outros pudessem obter glória e sucesso? Definitivamente, não parecia ter sentido algum.
Mas o que Taylor fizera, não precisava de explicação. Brant soube que tudo o que ele fazia era por eles. Os únicos amigos que tivera, na vida inteira. E
também por seu irmão, que mesmo não gostando dele, era seu sangue.
Ao ver Taylor com o pequeno frasco na mão, ele não entendeu imediatamente. Mas ao vê-lo abrindo o frasco, despejando o cogumelo na mão, e o
cogumelo-palhaço, ao entrar em contato com a pele de Taylor, fez pequenas bolhas se levantarem. Taylor rapidamente o pôs na boca, e an tes que a voz de
Brant saísse da boca, ele o engoliu.
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO – Gritou Brant, mas já era tarde.
- É tudo por vocês – disse Taylor, poucos segundos antes de se dobrar ao meio, e urrar de dor. Ele levantou a cabeça uma última vez, e disse, com
lágrimas começando a escorrer do rosto – Tudo por mim.
Ele foi atirado para o ar. Literalmente. Enquanto as cinzas da fênix começavam a se agrupar, Taylor continuava a subir pelos ares. De repente, ele parou.
Ficou flutuando por um ou dois segundo, e então, levantou as mãos. Ao levantar as mãos, ventos começaram a soprar, primeirame nte fracos, depois mais
fortes. E foram aumentando a velocidade. Muita poeira começou a ser levantada do chão. As cinzas da fênix começaram a ser levadas também. Elas tentavam
resistir, se juntar, mas o vento estava se tornando forte demais.
Aos poucos, todas as cinzas foram levadas, e começaram a circular ao redor de onde Taylor estava. Toda a poeira, cinzas e pequenos destroços
começaram a flutuar por ali. Brant De dirigiu para apedra mais próxima, e se segurou, pois o vento estava começando a ficar f orte demais. Ele olhou, e viu que
alguns dos Crateryus estavam começando a ser sugados para lá também. Os ventos já estavam passando dessa categoria para furacão. E um dos grandes.
Brant viu de canto de olho, quando a esfera saiu voando em direção ao furacão recém-formado. Ele não teve outra opção, senão se soltar, e se deixar
ser levado por ele. Ele estava se aproximando rapidamente da esfera, e esperava poder alcança-la antes de entrar no furacão, embora não soubesse bem o que
fazer quando isso acontecesse. Mas não houve tempo. A esfera entrou no furacão, e ele entrou logo atrás.
De uma coisa ele teve certeza. Jamais iria pensar em moléculas se agitando, como se estivessem em um furacão. Ele estava send o atirado de um lado
para o outro, e sendo acertado por dezenas de pequenos pedregulhos, não grandes o suficientes para matar, mas grandes o suficiente para que sua cabeça
ficasse latejando por alguns dias.
Foi então que ele parou de ser atirado de um lado para o outro. Ele abriu os olhos, e viu que estava preso em uma calmaria. Era o olho do furacão. E
logo à frente, estava Taylor. A visão era assustadora. A pele dele estava totalmente rachada, como se fosse terra seca. E estava começando a esfarelar. Brant foi
levado até próximo a ele por alguma força invisível, E soube na hora que era ele.
- Quem diria? – disse Taylor, e tossiu uma nuvem de poeira seca – Eu, o mais poderoso. O cara que não tinha nenhum poder. É uma pena que logo vai
acabar para mim.
- Não diga isso – disse Brant – não acabou para você. Nós vamos voltar para os magos, e eles vão poder fazer algo por você. Aguente firme.
- Brant, - disse Taylor com um tom de tristeza na voz – olhe para mim. Acabou. Eu só posso fazer mais uma coisa por vocês. – e tirando uma das mãos
do bolso, ele entregou a esfera do fogo a Brant. – Cuide dos outros, e não se deixe tentar pelo poder. Você sabe o que vai acontecer.
Brant começou a cair rapidamente, e estava certo de virar purê de batatas, quando parou subitamente. Olhando para baixo, ele constatou que estava a
menos de um metro do chão. Então caiu esta pequena altura. Se recuperando do susto, ele rapidamente olhou para cima, para ver Taylor.
Ele Murmurou alguma coisa inaudível, que Brant supôs que fosse “se cuide”, e então, lentamente, ele começou a se desmanchar. O pó que desgrudava
do seu corpo ia se juntar ao furacão que estava ao redor. Em pouco tempo, todo o seu corpo tinha se ido, juntando -se ao furacão. Brant soube que não havia
volta. E então o furacão começou a se dissipar.
Primeiro, saiu do chão, e então, violentamente, os seus ventos se espalharam para todos os lados. Brant entendeu o que Taylor tinha feito. Ele espalhou
as cinzas da fênix, o mais longe que pode uma das outras. Levariam anos até que todas pudessem se juntar novamente, isso se c onseguissem transpor as
barreiras naturais. Enquanto isso, ele seria o novo dono da esfera. Só que Taylor tinha se sacrificado ao ter feito isso. E era um peso grande demais para
carregar. Algo que não tinha preço.
Epílogo
Fred viu um furacão se formar do nada, e também desaparecer do nada. Ele tinha que ver o que estava acontecendo. Xan e Megan o tinham largado
próximo às ruínas do templo antigo, que ele também tinha visto desmoronar. Ele tinha visto muitas coisas naquele dia. Ele só não tinha visto duas estátuas
massacrarem um bando de dinossauros. Mas naquele momento, ele só estava interessado em uma coisa. Depois de ter começado a subir a encosta íngreme em
direção à boca do vulcão que ele viu o tornado se formando. Naquele momento, ele havia reunido todas as suas forças, para poder subir o resto da encosta o
mais rápido que podia.
Logo depois, o furacão estava desaparecendo, assim como tinha aparecido. E ele soube que havia algo de errado. Sentiu um peso no peito, como se
tivesse levado uma pancada, ou como se tivesse comido algo estragado. Não importava o quão cansado ele estivesse, ele subiu o resto da colina correndo.
Ao chegar ao topo, ele avistou Brant de joelhos, a alguns metros dali, chorando copiosamente. Carl estava ao seu lado, de pé, abraçado por Xan. E
Megan corria ao encontro de Brant. Mas Fred não viu Taylor em lugar algum. Ele olhou por todos os lados, mas não conseguiu av istá-lo. Então o peso no peito
começou a tomar forma, e ele soube imediatamente, mas não quis acreditar. Correu também em direção à Brant, e ao chegar perto, se jogou no chão, em
frente a ele.
- Onde está Taylor? – ele disse, pegando Brant pelos ombros. Como Brant não respondeu, Fred perdeu o controle. Levantou a cabeça de Brant e lhe
esbofeteou a cara, então gritando em sua cara – ONDE ESTÁ TAYLOR?
Brant não teve tempo de responder. A temperatura do ar caiu drasticamente, mesmo eles estando à beira da boca de um vulcão. Todos os sons vindos
do vale cessaram. Todos levantaram a cabeça exceto Brant. Fred perguntou:
- O que foi isso?
Ninguém respondeu. A cada segundo que passava, ficava mais frio. Os guardas gigantes de pedra, se desmancharam, caindo em pedaços, E a lava das
bordas mais externas do lago se solidificaram, mesmo estando dentro da boca do vulcão ainda.
- Ele chegou – disse Brant, levantando a cabeça, e sorrindo. – o que assombra o vale está aqui.

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