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25 anos de Dark Kingdom

Shirlei Massapust

1
O retorno da deusa da destruição

Nosso universo está conectado à outra dimensão onde reina o caos. Esta
dimensão paralela está situada não em espaços conhecidos pelos homens, mas em
espaços que os separam. Por trás de um grande pórtico selado pela magia antiga jaz a
deusa da destruição, debilitada e faminta, aguardando o momento do seu retorno à
superfície terrestre. “Quatro selos foram usados para prendê-la, mas se por ventura um
deles for rompido a deusa despertará de seu sono e sua poderosa atividade vital gerará
espessas nuvens escuras1”.
O primeiro herói japonês a combatê-la, em defesa do reino de Metallicana, foi
Dark Schneider no gibi Bastard!! Mas “estamos diante da deusa suprema da destruição!
Ela era a mais poderosa dentre a horda de deuses malignos criada pela magia do mundo
antigo2”. Ela pertence à estirpe dos Grandes Antigos do sistema mitológico de Howard
Phillips Lovecraft (1890-1937). Já recebeu muitos nomes em muitas obras distintas.
A deusa não é propriedade de ninguém. Ela existe enquanto conceito no mundo
das ideias. Tem seu próprio mitologema. Tal monstro jamais poderia ser detido por algo
tão simplório quanto o fim de um gibi.
Anthrasax foi detida e novamente selada, mas sempre existe um bruxo ou bruxa
acordando a coisa medonha para satisfazer seus desejos mesquinhos e tentar dominar o
mundo. Beryl (ベリル) foi responsável pelo retorno da praga ao Japão! Por meio desta
personagem, Naoko Takeuchi ressuscitou a deusa da mesma forma que Kazushi
Hagiwara havia feito absorvendo o modelo do Necronomicon na versão de H.G. Giger.

A Deusa segundo H.G. Giger (Necronomicon, 1974) e Kazushi Hagiwara. (BASTARD!!, 1988)

1
HAGIWARA, Kazushi. A rebelião do Exército das trevas 16. Em: Bastard!! Trad. Arnaldo Massato
Oka. Rio de Janeiro, JBC, nº 1, p 128.
2
HAGIWARA, Kazushi. A rebelião do Exército das trevas 16. Em: Bastard!! Trd. Arnaldo Massato
Oka. Rio de Janeiro, JBC, nº 1, p 131.

2
Desde que H.P. Lovecraft inaugurou o gênero em O Chamado de Cthulhu, ficou
convencionado que no prelúdio destas estórias “nosso mundo foi povoado por outras
raças que, por praticar magia negra, perderam suas conquistas e foram expulsas, mas
vivem num lugar exterior, dispostos a todo o momento a voltar e se apoderar da Terra”.
O repugnante Cthulhu subjugou a humanidade até o dia em que uma conjunção
de astros o fez entrar em letargia. Desde então o monstro dorme numa cidade submersa,
aguardando uma época favorável para voltar à vida e de novo reinar sobre a Terra. Esta
também é a estória da sua versão feminina, desenvolvida no século XX.
No Japão o prelúdio da saga muda um bocadinho aqui e ali. A deusa pode estar
presa por quatro selos em quatro cidades dispersas nos quatro pontos cardeais,
governados pelos quatro reis celestes (Bastard!!), ou por um único selo no Pólo Norte
fixado pela esposa do comandante dos quatro reis celestes (Sailor Moon). Quando é
despertada por um bruxo ou bruxa ela está fraca após milênios de inanição, precisando
gerar energia (Bastard!!) ou roubar energia dos seres humanos (Sailor Moon).
Em sua última encarnação a deusa maligna deixou de ser Li e Anthrasax para
renascer como Queen Metaria (クイン・メタリア). A forma primária da deusa maligna
passa a ser a própria nuvem de fumaça preta gerada por sua manifestação.
A nuvem fala e se move livremente, projetando tentáculos e uma face humanóide,
provida de terceiro olho. De novo, por mais duas vezes, causando psicose coletiva e
incitando a violência, ela quase levou a humanidade – que estava no auge de seu
desenvolvimento – à destruição pela guerra.
Embora não haja nada parecido nos gibis, no episódio 45 da versão animada de
Sailor Moon a deusa nasce de uma flor de lótus roxa (Nymphaea colorata) germinada no
mesmo local onde o cadáver da bruxa que a libertou foi magicamente enterrado.
Na primeira vez que assisti ao vídeo fiquei estupefata porque nos livros religiosos
orientais, como o Sutra de Dharani, a promessa de nascer “pela transformação de um
lótus” e não mais de “um ventre” é um dom reservado aos santos mais devotos. No
entanto, a deusa maligna nasce e renasce do lótus também nos jogos de videogame
Sailor Moon Fighting (BANDAI, 1992) e Another Story (Bandai, 1995).
Resta-me concluir que a deusa nasce de um lótus porque a própria religião do
Estado ter-se-ia tornado um objeto de escárnio nas obras de autores desejosos de
promover reformas político-sociais... Outra opção é que os deuses nipônicos sejam como
certas entidades benéficas da antiguidade que podiam ser obrigadas a fazer o mal ou
cumprir qualquer desejo de qualquer pessoa contra a vontade, bastando que fosse exímia
conhecedora do ritual.

3
Ode à beleza da escuridão

No ato 8 do romance gráfico Bishō jo Senshi Sailor Moon (美少女戦士セーラーム


ーン) o rei celeste do ponto cardinal voltado à direção do oriente médio aparece em luto,
velando as caveiras dos três companheiros expostos em caixões de vidro. Kunzite está
triste e se queixa porque, dos quatro, ele foi o único que restou.
Beryl entra em cena assegurando ser possível ressuscitar os mortos com a energia
do cristal de prata (幻の銀水晶). Desde que ele lograsse êxito na tarefa de obter tal
artefato, ela traria todos de volta à vida. Kunzite beija a mão da feiticeira, prometendo
dar morte a quem deixou seus companheiros naquele estado de penúria.
Na página seguinte Kunzite já está fora daquela dimensão paralela e flutua no
mundo humano, no interior duma bolha de energia. Ele encontra pessoas apreciando as
luzes da cidade no entorno da Torre de Tóquio. Um diz: “Que paisagem noturna linda! É
tão iluminada que nem parece noite!” Outro complementa: “É como uma caixinha de
brilhantes!” Quase que só para contrariar, por pura maldade, Kunzite acaba com a
felicidade daqueles transeuntes e/ou turistas provocando um blackout.
Segundo a tradução de Arnaldo Massato Oka, ele diz: “Brilhos inúteis e
incômodos. Apenas o brilho da escuridão é verdadeiramente belo”.3 Assim teve início
uma sucessão de eventos causadores do efeito de surgimento do cristal de prata.

Citação no ato 8, conforme reedição em formato tankō bon.4

3 TAKEUCHI, Naoko. Sailor Moon: Vol 2. Trad. Arnaldo Massato Oka. São Paulo, JBC, 2014, p 80.
4
TAKEUCHI, Naoko. 「美少女戦士セーラームーン.」 Volume 2. Japão, Kodansha Comics, 1997, Ato 8, p 122.

4
O termo utilizado por Kunzite para definir a beleza é utsukushii 美しい. O kanji 美
significa beleza, e pode ser encontrado em palavras como bijutsu 美術, que são “belas
artes”, e nos termos coloquiais bishoujo 美少女 (garota bela) e bishounen 美少年
(garoto belo), tal como aparece no título Bishō jo Senshi Sailor Moon (美少女戦士セーラ
ームーン). Deus sabe se bijutsu é raiz do vernáculo português bijuteria.
O personagem encontra beleza estética no espalhar da escuridão ã̠ŋko̞kɯ
̟ ᵝ 暗黒
— uma expressão composta pela conjugação do adjetivo escuro (暗) reforçado em
relação de tautologia com a cor preta (黒). — Naoko Takeuchi poderia tê-la escrito
apenas em hiragana あんこく, conforme aparece ao lado do kanji, mas optou pela escrita
mais formal e negritou as partículas mais importantes da sentença.
Há uma fala semelhante de Kunzite, então dublado por Kazuyuki Sogabe, no
episódio 33 da primeira temporada (sem cortes) da animação televisiva, que foi ao ar pela
primeira vez, no canal TV Asahi (テレビ朝日), em 7 de março de 1992. A fotonovela oficial,
em dez volumes, condensando os 43 capítulos da primeira temporada, foi editada pela
Kodansha. Sua autoria foi genericamente atribuída a um Departamento Editorial da
Amizade ・Hen (なかよし編集部・編), não especificamente à Naoko Takeuchi.
A transcrição da versão japonesa da fotonovela oficial diz:

Detalhe da fotonovela oficial.5

5
なかよし編集部・編 . 「 美少女戦士セーラームーン . 7」. Coleção 講談社ヒットブックス 36. Japão, Kodansha,
21/06/1993, p 113.

5
No DVD com áudio em japonês e legendas em inglês, comercializado em 2003
pela ADV Films, a legenda da parte correspondente a estes quadros diz: “What annoying
and wasteful lights. The only true beauty is the radiant darkness. The darkness of the Dark
Kingdom will shade the entire world. I cannot wait to see it”. 6 (Que luzes irritantes e
supérfluas. A única beleza verdadeira é a escuridão radiante. A escuridão do Dark
Kingdom assombreará o mundo inteiro. Mal posso esperar para ver isto).
Estas não são palavras de Naoko Takeuchi, mas sim um roteiro derivado delas, de
autoria de Megumi Sugihara (杉原 めぐみ). No episódio 33 houve mudança radical de
contexto do elogio à escuridão, em relação ao ato 8 do mangá. O afeto existente entre a
cúpula do Dark Kingdom (ダーク・キングダム) fragmentou-se. Em episódios anteriores
Beryl pune Jadeite (ジェダイト) por desídia, congelando-o em sono eterno. Zoisite (ゾイ
サイト) mata Nephrite (ネフライト) para tomar posse do kurozuishou (黒水晶), único
minério capaz de detectar os sete cristais arco-íris ou nijizuishou (虹水晶), que são as
partes componentes do bendito cristal de prata na versão televisiva.
A beleza nauseabunda do Dark Kingdom pode ser apreciada em toda sua glória
nos trabalhos de arte em cartolina produzidos no Mukuo Studio (ムクオスタジオ). São
cenários concebidos à imagem e semelhança de modelos settei せってい, organizados
por quatro diretores de arte chamados Kenichi Tajiri (田尻 健), Yoshiyuki Shikano (鹿野 良
行), Kazuyuki Hashimoto (橋本 和幸) e Minoru Ō kō chi (大河内 田実).7
Todos os cenários do Dark Kingdom são monstruosamente interessantes; sempre
repletos de formas retorcidas, misturas de pedra com tronco de árvore seca, que nos
fazem lembrar de coisas que não deveriam ou não poderiam estar ali. Essas coisas, é
claro, são apenas formas caprichosas de rochas e dobras de uma caverna subterrânea.
Pareidolia com mensagem supraliminar.
Por exemplo, o trono de Kunzite, que aparece no episódio 22, minutos 05:45-
05:54, parece um gigantesco feto liofilizado cujos olhos estão meio cheios ou meio vazios
de restos pegajosos. Embora tudo neste reino seja azul escuro, ao redor deste trono

6 「美少女戦士セーラームーン: Pretty Soldier Sailor Moon.」 Japão, ADV Films, 2003, episódio 33, segundo 0:11:23 a
0:11:27.
7 Yoshiyuki Shikano trabalhou como diretor de arte, produzindo cenários pelo Mukuo Studio, nos episódios 1-2, 4, 6, 10,
14, 18, 22-23, 27, 31, 35, 39 e 43, da primeira temporada de Sailor Moon. Minoru Ō kō chi (大河内 田実) trabalhou como
diretor de arte, produzindo cenários em 11 episódios (3, 7, 11, 15, 19, 24, 28, 32, 36, 40, 44). Kenichi Tajiri trabalhou como
diretor de arte, produzindo cenários pelo Mukuo Studio, em 35 episódios (1-4, 6-7, 9-15, 17-19, 21-24, 27-28, 30-32, 34-36,
38-40, 42-44, 46), e também colaborou na produção de acetatos pelo Studio Live em 11 episódios (5, 8, 12, 16, 20, 25, 29,
33, 37, 41, 45). Kazuyuki Hashimoto trabalhou como diretor de arte, produzindo cenários pelo Mukuo Studio, em 37
episódios (1-8, 10-12, 14-16, 18-20, 22-25, 27-33, 35-37, 39-41, 43-45), e também colaborou na produção de acetatos pelo
Studio Live em 10 episódios (9, 13, 17, 21, 26, 30, 34, 38, 42, 46).

6
pululam jatos de gosma branca parecidos com girinos ou espermatozoides. Mas não
pensem bobagens! Parecido não é igual.

Pan cel com efeitos especiais de iluminação da sala do trono de Kunzite, reconstituído por Stayka
deyAvemta através de colagem de cenas capturadas em software GIMP. 8

Recorte de cenário pintado com nanquim e aquarela sobre cartolina branca, colado sobre cartolina
preta, grudado num acetato representando a personagem Queen Beryl sentada em seu trono.
Utilizado no episódio 21. (Coleção particular de Shirlei Massapust).

8 DEY-AVEMTA, Stayka. Stayka's Assembled Dark Kingdom Screen Shots . Ultima atualização em 16/07/2006. Hyperlink: <
http://saintseiyafan.com/stayka/dkhome/newshots/dk-caps.html>

7
Sala do trono: Xerocópias de folhas settei nº 35, 36, 36A, 36B e 36C.

8
Enfim, retomando o tema das origens, no episódio 33 não há luto nem vã
expectativa de ressuscitar ninguém. Sob o ponto de vista dos componentes do Dark
Kingdom, o ineficiente Jadeite jaz dormindo. Nephrite teve o fim que mereceu, pois traiu
a causa se unindo aos humanos. E Zoisite está vivo. Porém Kunzite deseja embelezar o
mundo cobrindo-o de escuridão, tal como Vange Leonel cantando Noite Preta.

Luzes da cidade
Meus olhos não aguentam mais
Luzes artificiais
E cadê a noite preta?
Eu saio da cidade
Procuro só a escuridão
A purificação na calada da noite
..............
Fecho os meus olhos
A caverna e o coração
Perdidos entre um sim e um não
Na calada da noite preta
Deus, Deus, Deus
Aonde eu vim parar?
À noite preta vou me entregar

A citação, que teve força de mitologema para resistir à adaptação dos quadrinhos
à animação televisiva, diz muito não somente sobre o falante, Kunzite, mas sobre a
ideologia e metas do Dark Kingdom. Numa construção sistemática de valores, a volta ao
estado primitivo das coisas, representado pela escuridão, ocupa o primeiro lugar.
O radical 暗 é alternativamente escrito ja̠mʲi 闇 em kanji, e é deste modo que ele
aparece nos programas ou prospectos dos musicais da franquia Bishō jo Senshi Sailor
Moon. Assim o vemos na melodia A Escuridão é Bela (Yami koso Utsukushii 闇こそ美し
い), escrita por Kayoko Fuyumori, cantada pelos personagens Queen Beryl e shitennō na
peça de teatro subintitulada Gaiden Dark Kingdom Fukkatsu Hen (外伝 ダーク・キング
ダム復活篇), em cartaz no verão de 1992, e em sua revisão (Kaiteiban 改訂版) no inverno
de 1994, bem como na peça posterior Starlights - Ryuusei Densetsu (スターライツ・流
星伝説), em cartaz no verão de 2003. Outro uso de 闇 ocorre na melodia Sarcófago da
Escuridão (Yami no Hitsugi 闇の柩) quando Beryl e os shitennō são revividos pela última
vez por Sailor Galáxia, no musical Eien Densetsu (永遠伝説), em cartaz no verão de 1997,
e em sua revisão em fevereiro de 1998.

9
O fenômeno Sailor Moon

Faz tempo que venho tentando entender como se deu o fenômeno Sailor Moon
(que ajudou a espalhar um certo conceito de vilania ao redor do globo). Naoko Takeuchi
não dormiu pobre e acordou num apartamento de luxo com uma Ferrari na garagem
porque tem um questionável talento para desenho. Isso aconteceu por causa da
capacidade de colaboração e organização duma equipe bastante heterogênea onde cada
parceiro trabalhou, opinou, criou e auferiu lucro com sua parte.
O primeiro produto da marca Bishō jo Senshi Sailor Moon (美少女戦士セーラー
ムーン), aqui referida pela abreviação Sailor Moon, foi uma história em quadrinhos, ao
que se chama mangá (漫画) em nihongo, composta de 52 Atos e dez histórias paralelas,
publicados entre fevereiro de 1992 e março de 1997; todos com roteiro e ilustrações
assinados apenas pela autora Naoko Takeuchi (武内直子), muito embora saibamos que
duas desenhistas, Madoka Omori (大森まどか) e Izumi Shou (いずみ哨), trabalhavam
como assistentes em seu estúdio.
A série Sailor Moon foi lançada primeiro sob a forma de coletânea, junto a outros
romances gráficos, estando a sequência dos atos na revista mensal Nakayoshi (なかよし
) e as histórias paralelas na revista RunRun, ambas da Kō dansha (株式会社講談), com
tiragem de três milhões de exemplares que esgotaram no mês do lançamento.
A revista independente ou tankō bon (単行本) de Sailor Moon foi posteriormente
relançada em dezoito volumes, em nihongo, com tiragem de um milhão de exemplares.
Tudo isso ainda não bastou para suprir a demanda pelos quadrinhos no Japão.
Então, em 2003, houve uma shinsō ban (新装版) ou reedição colecionável, com arte de
capa diferente, diálogos e ilustrações revisados. Finalmente, em novembro de 2013, houve
uma kanzenban (完全版) ou edição de luxo, com páginas ampliadas para o formato A5,
a fim de celebrar o vigésimo aniversário do mangá.
Aqui no Brasil nós não víamos nada dessas coisas. Assim como todo brasileiro
citadino mediano que foi criança ou adolescente na última década do século XX, eu sabia
que Sailor Moon foi um desenho animado japonês, cuja primeira temporada, com
quarenta e seis capítulos, passava na TV Manchete. Depois da falência da emissora o
seriado chegou aos duzentos episódios, mas se tornou inacessível às massas porque
migrou da TV aberta à TV a cabo (um privilégio de elite).
De qualquer forma, é só a primeira temporada mais popular que nos interessa.
Numa informação mais completa, poderíamos dizer que Bishō jo Senshi Sailor Moon (美
少女戦士セーラームーン) foi ao ar pela primeira vez, no Japão, no canal TV Asahi (テレ
ビ朝日), de 07/03/1992 a 27/02/1993. Depois estreou em canais abertos na França e

10
Espanha (dezembro de 1993), Itália, Canadá e Estados Unidos (1995), Alemanha, Brasil,
Colômbia e México (1996), Catalunha (2001), Polônia (2011), Argentina (2012) e Indonésia
(2013). Talvez haja passado noutros países. Essa lista não é taxativa.
Nos Estados Unidos o estúdio de dublagem DiC Entertainment aplicou censura
prévia excluindo cinco episódios e compactando cenas seletas dos últimos dois em um.
Isto foi exibido no canal Toonami e foram comercializadas fitas VHS. 9 No Brasil os
telespectadores viram todos os episódios sem cortes, dublados no estúdio Gota Mágica;
todavia o comércio de fitas VHS ou DVD em idioma português nunca foi licenciado.10
No Japão o mangá do Ato 1 foi lançado cerca de dois meses antes da estreia da
animação televisiva lançada pela Toei Animation enquanto a Bandai saturava o mercado
com grande variedade de brinquedos (fliperama incluso).
A fotonovela oficial, em dez volumes, em formado 12,5 cm por 18 cm, condensa
os 43 capítulos da primeira temporada. Também foi editada pela Kodansha, sendo a
autoria da compilação Hen (編) genericamente atribuída ao Departamento Editorial
Nakayoshi (なかよし編集部).
A fotonovela japonesa é composta de falas de personagens encaixadas em
quadros onde vemos fotografias de acetatos sobre cenários produzidos por diferentes
estúdios, sob encomenda da Toei Animation, que tratou de montar cada cena e acrescer
efeitos especiais de iluminação por computação gráfica. Ou seja, dá para ver que tem
alguma coisa ali (cenários prolongados, nitidez, etc.) que não há na animação televisiva.
A versão da fotonovela licenciada para distribuição no México, impressa pela
Editorial Toukan, dividiu este material em 48 revistas Sailormoon.
A versão da fotonovela Sailor Moon licenciada para distribuição no Brasil, dividiu
os três primeiros volumes japoneses em revistas quinzenais, em formato 16,2 cm por 26
cm, encerrando a narrativa nos nove primeiros capítulos da primeira temporada. Foi
editada pela Abril Jovem, de outubro de 1996 a maio de 1997.
Aparentemente a compra da licença da edição de fotonovela implicava em certos
privilégios de liberdade de criação, desde que respeitando os padrões de modelos settei
(せってい) que estavam na base do know-how no pool de patentes11 da franquia12. Sendo

9 Os direitos autorais da DiC Entertainment sobre as duas primeiras temporadas de Sailor Moon expirou em 2004. Em 2014
a Viz Media obteve direitos de realizar sua própria dublagem em idioma inglês.
10 A única escessão foram os nove primeiros episódios da segunda temporada, divididos em dois DVDs produzidos no polo
industrial de Manaus, pela Flash Star Home Video, que foram distribuídos em bancas de jornaleiro nas grandes cidades
brasileiras.
11 Na legislação de patentes, uma Patent Pool é um consórcio de, ao menos, duas empresas que concordam em cruzar
licenças de patentes relacionadas a uma determinada tecnologia.
12 Franquia é uma estratégia utilizada em administração que tem, como propósito, um sistema de venda de licença na qual
o franqueador (o detentor da marca) cede, ao franqueado (o autorizado a explorar a marca), o direito de uso da sua marca,

11
assim, no México, a Editorial Toukan produziu a série Sailor Moon – Revista Actividad
Toukan, contendo palavras cruzadas e outros passatempos temáticos. No Brasil a Abril
Jovem laçou a série Pinte com Sailor Moon, com desenhos para colorir, para crianças a
partir de três anos. Neste caso a arte, atribuída a Naoko Takeuchi, seguia modelos quase
idênticos aos elaborados pelos designers de personagens do Estúdio Live, que eram
Kazuko Tadano (只野 和子) e seu esposo Hiromi Matsushita (松下 浩美).
Curiosamente os livros de colorir brasileiros não são versões dos livros de colorir
japoneses. As imagens utilizadas no produto similar são diferentes, especialmente para
não repetir discrepâncias como as do セイカ の ぬりえ CN-2561307-B•III onde Ami
Mizuno aparece voando com asas, auréola e toga de anjo ocidental, ou セイカ の ぬり
え CN-2561307-A•II onde Jadeite segura um punhal (arma branca estranhamente liberada
para isto, mas não para o mangá ou desenho animado destinado a um público mais
adulto). Em セ イ カ の ぬ り え CN-2561307-D • II o único quadro de Zoisite traz o
personagem posando na frente de folhagem ao invés da chuva de pétalas de flores de
cerejeira. Enfim, presumo que tal material não satisfaça a ninguém.

Usagi Tsukino sendo repreendida pela professora por ter tirado trinta pontos na prova de inglês.
Desenhos dos blocos de Figuras para Colorir (セイカ の ぬりえ), volumes CN-2561307-A•II e CN-
2561307-B•I.

A primeira temporada de Sailor Moon teve um álbum com duzentas e cinquenta


figurinhas adesivas editado no Brasil pela TWR International Comercial Importadora Ltda.
Isto era vendido em jornaleiro. Também houve um segundo álbum com sessenta

patente, infraestrutura, know-how e direito de distribuição de produtos ou serviços. O franqueado investe e trabalha na
franquia; paga parte do faturamento ao franqueador sob a forma de royalties.

12
figurinhas que vinham de brinde no chiclete de bola Buzzy®. Isto foi distribuído
gratuitamente, em 1997, pelo departamento de marketing da Balas São João S.A.
Não houve nenhum outro produto licenciado para a produção no Brasil até
29/03/2014, quando o mangá traduzido finalmente foi lançado pela JBC. Entretanto, ainda
nos anos noventa, começaram a entrar brinquedos produzidos no Japão pela BANDAI e
BANPRESTO. A coleção Sailor Moon Adventure Dolls era produzida pela BANDAI com
caixas em idioma nihongo para suprir o mercado interno e caixas em inglês para
exportação. Contudo, depois passou a ser produzida idêntica pela Irwin nos Estados
Unidos, mudando só a marca na caixa.
Em 1999 a política de proteção ao comércio nacional da Alemanha proibiu a
importação destes brinquedos e decretou a produção de material substituto, sendo a
IGEL licenciada para fazer bonecas da coleção Sailor Moon. Essas eram diferentes das
japonesas e fizeram a felicidade dos fãs devido ao incremento no acervo pré-existente.
Alguém na Alemanha criou um baralho de tarô do seriado, coisa que inexiste no
Japão. Até 2009 a editora japonesa Kodansha possuía um contrato de licença com a
editora, distribuidora e licenciadora Mixx Entertainment Inc.
Esta empresa, sediada no Japão, tem filiais na Alemanha e nos EUA, de modo que
o mangá de Sailor Moon foi prontamente traduzido para alemão e inglês. E não ficou só
nisso. Além da série regular, Naoko Takeuchi editou seis volumes da coleção de livros de
arte Pretty Soldier Sailormoon: 美少女戦士セーラームーン 原画集, pela Kodansha. Isto
foi traduzido e editado na Alemanha como Sailor Moon Art Edition.
A única exceção foi o sétimo livro de arte 美少女戦士セーラームーン 原画集 vol
∞, um livro apócrifo editado pela autora sem participação da Kodansha.
A Mixx produziu uma coleção de guias ou livros de fã, de autoria atribuída à Naoko
Takeuchi, K. J. Keiji Karvonen, Joel Baral, Tim Buggs, Trong Ta, Mary Coco e outros. São
eles: Meet Sailor Moon: Crystal (August 1, 2000); Meet Sailor Mercury: Ice (September 15,
2000); Meet Sailor Mars: Fire (January 1, 2000); Meet Sailor Jupiter: Thunder (November 1,
2000), Meet Sailor Venus: Love (March 1, 2000).
Os primeiros cinco volumes existem em idioma nihongo, inglês e alemão. Após o
quinto volume, apenas o cerne alemão, coleção Sailor Fanbuch, deu continuidade à
produção de material até somar vinte e dois exemplares. Tem até um volume Die Feinde
(Nr. 8) dedicado aos vilões da primeira temporada.
Enquanto a Mixx lançava mais e mais guias ilustrados coloridos na Alemanha, a
América do Norte era contemplada com a coleção de novelas Naoko Takeuchi’s Sailor
Moon, de autoria de Stuart J. Levy (vol. 1-2) e da jovem muçulmana Lianne Sentar (vol. 2-
8). São elas A Scout Is Born (lançada em abril de 1999), Power of Love (agosto de 1999),

13
Mercury Rising (dezembro de 1999), Mars Attacks (julho de 2000), Eternal Sleep (junho de
2000), Scouts on Film (janeiro de 2000), Cel Mates (agosto de 2000) e Diamond's Not
Forever (outubro de 2000).
Em inglês existe uma edição de luxo em capa dura, chamada Sailor Moon: Friends
& Foes Hardcover (novembro de 1995), publicada por Kodansha Amer Inc., possivelmente
um nome fantasia da Mixx.
No Canadá as novidades vinham duma equipe formada por Mark C. MacKinnon,
Karen McLarney, Jeff Mackintosh, Mark C. MacKinnon, Lindsey Ginou e John R. Phythyon
Jr. Eles criaram o jogo de cartas The Sailor Moon Collectible Card Game, lançado em julho
do ano 2000, pela Dart Flipcards.13 Também elaboraram o jogo de mesa The Sailor Moon
Role-Playing Game and Resource Book, lançado em março de 2000, sendo seguido por
vários suplementos, como o The Complete Book of Yō ma e o ficheiro Dark Warrior
Character Diary, todos publicados pela editora Guardians of Order.
Ignoro se este grupo brilhante e eclético também foi responsável pela criação do
jogo de tabuleiro canadense Web of The Negaverse.

Mar de quinquilharias

Com tudo isso, fica demonstrado que Sailor Moon é um romance gráfico ou
mangá (漫画), que gerou livros de arte derivados. Mas também é uma animação televisiva
ou animê (アニメ) que gerou mais livros de arte, fotonovelas e guias para o telespectador.
Suas cenas constam em álbuns de figurinhas, etc. Sailor Moon é uma marca explorada
pela Kohdansha, Toei Animation, BANDAI e BAMPRESTO, mas também pela Mixx
Entertainment Inc, Irwin, Igel, Dart Flipcards, Guardians of Order, Editorial Toukan, Abril
Jovem, Balas São João S.A., etc.
A lista de produtos e licenças parece interminável. Em 1992 até o governo japonês
colaborou produzindo selos e cartões telefônicos.
Boneca de pano, de plástico e de resina. Estatueta e figura articulada. Neste
esquema um produto deve promover o outro. A presença da imagem em mídias
insuspeitas trabalha com uma ampliação do conceito de vitrine. No Japão já fizeram até
pó compacto, absorvente feminino e papel higiênico com embalagem de Sailor Moon.
O mercado precisa ser alimentado por um suprimento contínuo de lançamentos
temáticos a fim de manter vivo o interesse do público. Assim o fã pode estar vendo os
mesmos episódios pela terceira vez consecutiva, mas a parafernália é nova. Nos anos

13 Tal jogo era composto de 160 cartas colecionáveis; 6 comuns, 60 incomuns, 30 raras e 10 dificílimas que só ocorriam uma
vez em cada 12 pacotes.

14
noventa havia casa de bonecas para as meninas, videogame para os meninos e estatuas
para os adultos. Hoje em dia é diferente. Parece que todos querem tudo.
Certos fãs acabaram criando verdadeiros museus domésticos sem conseguir
satisfazer o fervoroso desejo de completar a coleção de bugigangas.
Fantasias, bijuteria, souvenires de peças de teatro, etc. Embora a marca fosse
fortemente carismática, era preciso evitar um consumo desesperado escolhendo somente
o que fosse apropriado ao gosto individual e faixa etária. Do contrário o insensato
dominado pela paixão poderia pagar quantitativamente caro, perder a noção de valor
qualitativamente e desperdiçar energia emocional desejando o impossível.

Os empreendedores estavam tão seguros do sucesso que o oligopólio se deu ao


luxo de apresentar a crítica ao consumo irresponsável como ‘moral da história’ de vários
episódios do animê. A maioria dos produtos oficiais eram baratos. Como, a propósito,
dizia o personagem Jadeite: “Não há nada mais caro do que algo grátis”.

Jadeite sugando energia dos consumidores de seus produtos.


Cena capturada da animação televisiva (acima) e cópia feita pela fã Tatiana Kirgetova (abaixo).

15
Tradutores, traidores

Do estúdio de dublagem Gota Mágica, sediado em São Paulo, SP, saíram as vozes
brasileiras dos seriados Sailor Moon (1ª temporada exibida na Rede Manchete) 14 , os
Cavaleiros do Zodíaco (Rede Manchete), Dragon Ball (até o episódio 60, exibido no SBT),
etc. Seu trabalho era tão apreciado que muitos fãs de seriados japoneses consumiam
revistas temáticas contendo entrevistas com os dubladores.

Existem algumas diferenças entre o material narrado em nihongo e suas traduções


seguidas das respectivas derivações. Por exemplo, o que se traduziu suavemente como
escoteira (scout), em idioma inglês, era originalmente senshi (戦士), o que significa
literalmente um(a) combatente, guerreiro(a) ou soldado.

No Japão yō ma (妖魔) é um ente folclórico sem equivalência noutras culturas.


Pode-se dizer que seja um tipo de assombração fantasmagórica, assim como a mula sem
cabeça, o saci, etc. Como o nome da yōma destruída no primeiro episódio era Morga (モ
ルガ), e esta Morga virava o pescoço para traz, imitando a garota possessa no clássico O
Exorcista, a dublagem em português passou a interpretar yōma como “demônio” ou
“maligna”. Também passou a repetir compulsivamente o nome da primeira personagem
derrotada. Ou seja, na versão brasileira Jadeite criou uma assistente mutante que não
morre e assume um corpo diferente a cada aparição. Flor (フラウ) é Morgana. Ramua (
ラムア) é Morgana, etc. Curiosamente, na dublagem sueca, até Queen Beryl (クイン・ベ
リル) foi chamada de “Drottning Morga” e a dimensão paralela do Dark Kingdom era
“Morka Kungariket”.
Na mitologia oriental há menção a um quarteto de elite chamado shitenō u (四天
王), indicando que há um imperador (王 nou) de ascendência divina (天 ten) – ou seja,
um avatar – em cada um dos quatro (四 shi) reinos mais ou menos divididos pelos pontos
cardeais. Porém, este grupo tão nobre aparece reduzido a “generais” na dublagem da
Gota Mágica, a “quatro guerreiros” (four warriors) na versão da DIC e a meros capangas
(henchmen) na caixa da boneca Queen Beryl produzida pela Bandai.

Na animação japonesa o quarteto shitenō u é formado por Jadeite (ジェイダイト


) dublado por Masaya Onosaka (小野坂昌也), Nephrite (ネフライト) dublado por Katsuji

14
Conforme exposto, a primeira temporada de Sailor Moon estreou em 1996 na TV Manchete (canal de TV aberta).
Infelizmente, algum tempo depois, a emissora faliu. As outras temporadas de Sailor Moon foram exibidas a partir do ano
2000 pelo canal Cartoon Network (canal de TV a cabo).

16
Mori (森功至), Zoisite (ゾイサイト) dublado por Keiichi Nanba (難波圭一) e Kunzite (クン
ツァイト) dublado por Kazuyuki Sogabe (曽我部和恭). Todos homens. Porém Zoisite é
claramente efeminado. Daí começou o disse me disse. Segundo revelado por Kazuyuki
Sogabe em entrevista à imprensa, Zoisite tem sentimentos não correspondidos por seu
mentor Kunzite. De acordo com o comentário posterior de Naoko Takeuchi, à época do
controle mental pelo poder de Queen Metaria, era Kunzite quem nutria sentimentos por
Zoisite.15 Conforme o bom senso de qualquer telespectador arrazoado, ambos os rapazes
parecem felizes juntos.

Isso era inaceitável pelos puritanos responsáveis pela censura prévia de conteúdo
audiovisual fora do Japão. Na versão norte-americana da DIC, que serviu de padrão para
outras traduções da américa latina, os generais são três homens e uma mulher.

Charge da telespectadora Astrodonna

Muito estranhamente, embora todos tivessem nomes em inglês desde o início, a


DIC achou necessário truncar alguns nomes e substituir outros.

Japonês Inglês (DIC)


Jadeite (ジェイダイト) Jedite
Nephrite (ネフライト) Neflyte
Zoisite (ゾイサイト) Zoycite
Kunzite (クンツァイト) Malachite

A versão brasileira seguiu o modelo da DIC. Aqui “Jedite” foi dublado por
Leonardo Camillo, “Neflite” por Flávio Dias, “Geocite” por Noeli Santisteban e “Malachite”
por Wellington Lima. Na versão do estúdio Gota Mágica o personagem Zoisite também

15
TAKEUCHI, Naoko. 「Pretty Soldier Sailormoon: 美少女戦士セーラームーン 原画集 vol 1.」 Japão, Kodansha, ano?? p ???

17
foi interpretado por uma mulher, e recebeu um nome pronunciado de modo cacofônico,
similar ao nome do então famoso serviço de hospedagem GeoCities16, onde qualquer um
criava sites gratuitos sem censura prévia ou controle de conteúdo. Era lá que todo
brasileiro caia, deslumbrado, quando pesquisava no Altavista (mecanismo de busca hoje
substituído pelo Google) ao acessar a rede mundial de computadores pela primeira vez
na vida.17

Além da americanização de nomes nipônicos18, a mudança mais radical está na


substituição de um nome inglês baseado no da pedra kunzite pela pedra malaquite.
Apenas Kunzite foi abreviado para “Kunta” na dublagem sueca, enquanto todos os outros
nomes permaneceram iguais. Na Itália o quarteto de elite era formado respectivamente,
por ordem de aparição, por Jack, Nevius, Zakar e Lord Kaspar.

Minério censurável

Conforme exposto, na ficção os Quatro Reis Celestes (shitennō 四天王) receberam


nomes de pedras transliterados do inglês e foram chamadosde Jadeite (ジェダイト),
Nephrite (ネフライト), Zoisite (ゾイサイト) e Kunzite (クンツァイト), por ordem de
chegada. A intenção era representar cada rei por uma gema preciosa, mas os estúdios
de dublagem determinaram a substituição do último nome porque a kunzita é a matéria
prima da fabricação do antidepressivo fluoxetina, mais conhecido como “bolinha” ou
Prozac®, um medicamento de tarja preta cuja venda irregular é um problema de saúde
pública.

Historicamente o mineral foi nomeado em honra ao seu descobridor, George


Frederick Kunz (1856-1932), cuja biografia certamente inspirou vários tópicos do roteiro

16 GeoCities foi criado em 1994 por David Bohnett e John Rezner. Foi um serviço de hospedagem de sites do portal
Starmedia, popular na década de 1990.

17 As conexões à internet se iniciaram no Brasil em setembro de 1988, estando inicialmente restritas ao setor acadêmico.
Em julho de 1994 o Ministério de Ciência e Tecnologia e o Ministério das Comunicações finalmente selecionaram cinco mil
usuários foram escolhidos para testar o serviço de acesso às redes domésticas, que ficaria a cargo da Embratel e da RNP.
Em maio de 1995, o acesso foi liberado.

18 Por exemplo, o codinome de Nephrite é Masato Sanjoin (三条院正人) na animação japonesa. Foi substituído por Maxfield
Stanton pela DIC, e mantido como Masato Sanjoin pela Gota Mágica.

18
de Sailor Moon.19 Contudo, na vida real, kunzite é mais usado pela indústria farmacêutica
do que no ramo de joalheria, devido ao baixo ponto de clivagem (racha durante a
lapidação) e à mudança permanente de cor da gema rosa/arroxeada que clareia quando
exposta ao sol.
Naoko Takeuchi sabia como transformar pedra em pílula, pois ela estudou este
tópico na universidade de farmácia Kyū shū Kyō ritsu (九州共立大学 ), estagiou num
instituto conexo e trabalhou como farmacêutica no Keiō Hospital durante três anos. Seu
personagem Kunzite-sama (クンツァイトさま) é o espírito da pedra, ente abstrato que
controla uma organização com domínio final do fato sobre as brigas de gangues rivais
que disputam território próximo às escolas e universidades.20

Charges da telespectadora alemã Jess Stoncius. (Arte © 2001, Jess Stoncius).

No início todos os heróis e vilões da série estão procurando um “cristal prateado


causador de ilusões” (幻の銀水晶) capaz de gerar energia infinita enquanto durar a vida
do usuário. Na ficção isto é uma metáfora da união dos amantes materializada pela

19 Durante um longo tempo George Frederick Kunz procurou diamantes extraterrestres em meteoritos de ferro, crendo
que os antigos “atribuiriam poderes talismânicos maravilhosos às pedras como esta, provavelmente geradas em algum
planeta perdido, chegadas à nossa Terra em meio aos resíduos do espaço sideral”. Em 1886 ele foi à Sibéria investigar uma
notícia de queda de meteoro, mas não viu os diamantes (extraídos por outra pessoa). Sete anos depois outro meteoro
inacessível quedou no Cañon Diablo. Uma amostra do Kansas, chamada pelos fazendeiros de “ moon meteorite”,
materializou as frustrações de Kunz, pois continha diamantes microscópicos, inúteis para uso em joalheria, todos
estruturalmente idênticos aos diamantes artificiais! Pelo trabalho de provar que diamantes extraterrestres são iguais aos
mais baratos produzidos no Japão ele foi condecorado oficial na Ordem do Sol Nascente. (KUNZ, George Frederick. The
Magic of Jewels and Charms. London, J. B. Lippincott Company,1915, p 100-102).
20 Os vilões fazem isso na intenção de coletar energia e matar Saitou, líder duma gangue, para que Kunzite reencarne em
seu cadáver. (TAKEUCHI, Naoko. コ ー ド ネ ー ム は セ ー ラ ー V — 2. Japão, Kodansha Comics, 1993, ato 8, p 57).
Curiosamente o avatar eleito foi reconhecido por Aino Minako, predestinada a se apaixonar pelo mesmo homem “toda
vez que retorna”. (TAKEUCHI, Naoko. コードネームはセーラーV— 3. Japão, Kodansha Comics, 1993, p 185).

19
lágrima de Usagi Tsukino (月野 うさぎ) pingada sobre o cadáver de Mamoru Chiba (地
場 衛).21
Contudo é preciso deixar claro que todas as vezes que o uso de drogas foi
indiretamente abordado a referência era pejorativa e reprovava tais atitudes. Uma óbvia
alusão ao tráfico de entorpecentes ocorre no episódio “Um Pesadelo na Terra dos
Sonhos” (夢ランドの悪夢), onde uma boneca mecânica possessa conquista a confiança
das crianças que entram na Casa da Diversão (おかしの家) dentro do parque Terra do
Sono ( 夢 ラ ン ド ). Ali a vilã serve doces capazes de causar efeitos alucinógenos à
semelhança do ácido lisérgico.

Alternativamente ela assopra um pó cuja inalação surte o mesmo efeito. As drogas


fazem os alucinados pensarem que vivem num mundo de alegria e paixão enquanto
passam vergonha rindo como loucos diante dos observadores lúcidos. Novamente, a
energia liberada alimenta as entidades do mundo etéreo. Se o processo não for
interrompido a tempo, antes que acabe a energia vital, os usuários desmaiam exaustos e
se transformam em escravos do submundo. Por isso o nome da fornecedora de doces
envenenados, Mū rido (ムーリド), é a palavra “dormir” (ドーリム) lida de trás para frente.

No episódio A Misteriosa Doença do sono (謎のねむり病) parece existir outra


critica mais sutil aos paraísos artificiais. Todas as noites Jadeite e sua assistente Flor (フラ
ウ) organizam um programa de rádio onde ele lê uma das cartas de amor enviadas pelas
suas numerosas ouvintes. Para ele todas as pessoas que caem em sua lábia são idiotas,
estúpidas (baka 馬鹿 em japonês).

O programa pirata toca à meia noite e os destinatários da correspondência nunca


escutam rádio de madrugada, mas o locutor envia um prêmio de consolação: Um broche
de flor de lírio que exala um perfume capaz de fazer quem quer que o cheire dormir e
sonhar incessantemente com seus amores... O objeto endemoninhado funciona, mas suas
usuárias são carregadas inertes para os hospitais. Enquanto exalam energia vital
(ectoplasma) todas as vitimas da tramóia parecem envolvidas por nuvens de fumaça. Daí
a associação entre fumo e flor. Após testar o estratagema, Jadeite declara: “Não
imaginava que o entusiasmo das garotas pelo amor era tão poderoso! Já recebemos
muita energia só fazendo-as dormir com o broche e roubando seus sonhos”.

21 A pedra surge um pouco antes do príncipe (プリンス) ser conduzido ao trono do submundo para governar junto à
rainha (クイン) que o reconheceu como avatar do semideus Endymion (エンディミオン, do grego Ἐ νδυμίωνος ).

20
Outra versão da mesma parte

Na ficção os Quatro Reis Celestes (shitennō 四天王) receberam nomes de pedras


transliterados do inglês e foram chamados, por ordem de chegada, de Jadeite (ジェダイ
ト), Nephrite (ネフライト), Zoisite (ゾイサイト) e Kunzite (クンツァイト). Além da
utilização como adorno pelos joalheiros japoneses, as três primeiras pedras – jadeita,
nefrita e rubi zoisita – são ingredientes típicos da alquimia xintoísta. A última pedra,
kunzita, deve seu nome a G. K. Kunz, que a descreveu pela primeira vez em 1902.
Trabalhá-la em joalheria é muito difícil devido à sua clivagem fácil (sensível à pressão) e
ao fato das cores clarearem por exposição ao sol. Desconhecida no Japão medieval, suas
principais jazidas estão no Brasil, nos Estados Unidos, na República de Malgaxe e na
Birbânia.

A kunzita só entrou na lista dos ingredientes mágicos porque a alquimia evoluiu


e se transformou em verdadeira medicina. Essa pedra possui o que hoje os supersticiosos
chamam de “espírito forte”, capaz de induzir estados alterados de consciência, e é a
matéria prima da fabricação do antidepressivo fluoxetina (mais conhecido como “bolinha”
ou Prozac®), um remédio de tarja preta cuja venda irregular configura crime de tráfico
de entorpecentes em diversos países.

Naoko Takeuchi conhecia estes efeitos melhor do que ninguém, pois ela fez
faculdade de Farmácia e estagiou durante seis meses no Keiō Hospital, situado em Azabu
Jûban (este simpático distrito japonês deve seu nome às antigas plantações da erva aza,
maconha, na margem do décimo lote do rio Furukawa, sendo que erva era usada para
fu-eru, uma técnica para aumentar ou alcançar a plenitude, antes da proibição do plantio
e consumo).

O rei celeste Kunzite é o mais poderoso do quarteto, embora não nos seja dito o
que este personagem fazia com os humanos para ficar tão forte. Só sabemos que ele é
o espírito da pedra kunzita e que foi um violento líder de gangue numa encarnação
humana passada. No desenho este personagem acidentalmente comete suicídio
arremessando um bumerangue cor de kunzita com arestas afiadas... Todas as dublagens
realizadas por empresas licenciadas nas Américas modificaram a transliteração japonesa
クンツァイト do inglês Kunzite pelo inglês Malechite, derivado da pedra imã malacita
cuja simbologia nos remete às experiências do espiritismo europeu da época de Mesmer.

21
Contudo é preciso deixar claro que todas as vezes que o uso de drogas foi
indiretamente abordado a referência era pejorativa e reprovava tais atitudes. Uma óbvia
alusão ao tráfico de entorpecentes ocorre no episódio “Um Pesadelo na Terra dos
Sonhos” (夢ランドの悪夢), onde uma boneca mecânica possessa conquista a confiança
das crianças que entram na Casa da Diversão (おかしの家) dentro do parque Terra do
Sono ( 夢 ラ ン ド ). Ali a vilã serve doces capazes de causar efeitos alucinógenos à
semelhança do ácido lisérgico. Alternativamente ela assopra um pó cuja inalação surte o
mesmo efeito. As drogas fazem os alucinados pensarem que vivem num mundo de
alegria e paixão enquanto passam vergonha rindo como loucos diante dos observadores
lúcidos. Novamente a energia liberada alimenta as entidades do mundo etéreo. Se o
processo não for interrompido a tempo, antes que acabe a energia vital, os usuários
desmaiam exaustos e se transformam em escravos do submundo. Por isso o nome da
fornecedora de doces envenenados, Mū rido (ムーリド), é a palavra “dormir” (ドーリム)
lida de trás para frente.

No episódio A Misteriosa Doença do sono (謎のねむり病) parece existir outra


critica bem mais sutil aos paraísos artificiais. Todas as noites Jadeite e sua assistente Flor
(フラウ) organizam um programa de rádio onde ele lê uma das cartas de amor enviadas
pelas suas numerosas ouvintes. Para ele todas as pessoas que caem em sua lábia são
idiotas, estúpidas (baka 馬鹿 em japonês). O programa pirata toca à meia noite e os
destinatários da correspondência nunca escutam rádio de madrugada, mas o locutor
envia um prêmio de consolação: Um broche de flor de lírio que exala um perfume capaz
de fazer quem quer que o cheire dormir e sonhar incessantemente com seus amores... O
objeto endemoninhado funciona, mas suas usuárias são carregadas inertes para os
hospitais. Enquanto exalam energia vital (ectoplasma) todas as vitimas da tramóia
parecem envolvidas por nuvens de fumaça, daí a associação entre fumo e flor. Após testar
o estratagema Jadeite declara: “Não imaginava que o entusiasmo das garotas pelo amor
era tão poderoso! Já recebemos muita energia só fazendo-as dormir com o broche e
roubando seus sonhos”.

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