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Súmula 536-STJ

Márcio André Lopes Cavalcante

DIREITO PENAL /
PROCESSUAL PENAL

LEI MARIA DA PENHA


Inaplicabilidade da suspensão condicional do processo e da transação penal

Súmula 536-STJ: A suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na


hipótese de delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 10/06/2015, Dje 15/06/2015.

SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO


Suspensão condicional do processo é:
- um instituto despenalizador
- oferecido pelo MP ou querelante ao acusado
- que tenha sido denunciado por crime cuja pena mínima seja igual ou inferior a 1 ano
- e que não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime,
- desde que presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77
do Código Penal).

Previsão legal
A suspensão condicional do processo está prevista no art. 89 da Lei nº 9.099/95.

TRANSAÇÃO PENAL
Transação penal é...
- um acordo
- celebrado entre o MP (se a ação penal for pública) ou o querelante (se for privada)
- e o indivíduo apontado como autor do crime
- por meio do qual a acusação
- antes de oferecer a denúncia (ou queixa-crime)
- propõe ao suspeito que ele, mesmo sem ter sido ainda condenado,
- aceite cumprir uma pena restritiva de direitos ou pagar uma multa
- e em troca disso a ação penal não é proposta e o processo criminal nem se inicia.

Previsão legal
O instituto da transação penal é previsto na Lei dos Juizados Especiais (Lei n. 9.099/95):
Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo
caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de
direitos ou multas, a ser especificada na proposta.

LEI MARIA DA PENHA


A Lei n. 11.340/2006 (Lei de Violência Doméstica) é conhecida como “Lei Maria da Penha”, em uma
homenagem à Sra. Maria da Penha Maia Fernandes que, durante anos, foi vítima de violências domésticas
e lutou bastante para a aprovação deste diploma.

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A Lei n. 11.340/2006 prevê regras processuais instituídas para proteger a mulher vítima de violência
doméstica.
Desse modo, se uma mulher for vítima de violência doméstica e familiar, a apuração deste delito (crime ou
contravenção penal) deverá obedecer ao rito da Lei Maria da Penha e, de forma subsidiária, ao CPP e às
demais leis processuais penais, naquilo que não for incompatível (art. 13).

O réu que praticou violência doméstica ou familiar contra mulher pode ser beneficiado com TRANSAÇÃO
PENAL ou com SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO?
NÃO. A suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na hipótese de delitos
sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha.

Por quê?
A suspensão condicional do processo e a transação penal estão previstas na Lei n. 9.099/95. Ocorre que a
Lei Maria da Penha expressamente proíbe que se aplique a Lei n. 9.099/95 para os crimes praticados com
violência doméstica e familiar contra a mulher. Veja:
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da
pena prevista, não se aplica a Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995.

Vale ressaltar que a Lei nº 9.099/95 não se aplica NUNCA E PARA NADA que se refira à Lei Maria da Penha.

Esse art. 41 da Lei Maria da Penha é compatível com a CF/88? O legislador poderia ter proibido isso?
SIM. O STF decidiu que este art. 41 é constitucional e que, para a efetiva proteção das mulheres vítimas de
violência doméstica, foi legítima a opção do legislador de excluir tais crimes do âmbito de incidência da Lei
nº 9.099/95 (STF. Plenário. ADI 4424/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 9/2/2012).

O art. 41 fala apenas em CRIMES. Se o agente praticar uma contravenção penal com violência
doméstica, será possível aplicar a Lei nº 9.099/95? É cabível a transação penal (art. 76 da Lei nº
9.099/95) para contravenções cometidas com violência doméstica contra a mulher?
NÃO. A transação penal NÃO é aplicável na hipótese de contravenção penal praticada com violência
doméstica e familiar contra a mulher.
De fato, a interpretação literal do art. 41 da Lei Maria da Penha poderia indicar, em uma análise rápida, a
conclusão de que os institutos despenalizadores da Lei nº 9.099/1995, entre eles a transação penal, seriam
aplicáveis às contravenções penais praticadas com violência doméstica e familiar contra a mulher.
Entretanto, em uma interpretação que atenda os fins sociais a que a lei se destina, deve-se concluir que o
art. 41 da Lei nº 11.340/2006 afasta a Lei nº 9.099/1995 tanto em relação aos crimes quanto às
contravenções penais praticados contra mulheres no âmbito doméstico e familiar.
Nesse sentido: STJ. 6ª Turma. HC 280.788-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 3/4/2014 (Info 539).
Em suma, os institutos despenalizadores da Lei 9.099/1995, entre eles a transação penal e a suspensão
condicional do processo, não se aplicam a nenhuma prática delituosa contra a mulher no âmbito
doméstico e familiar, ainda que configure contravenção penal.

Repetindo: a Lei nº 9.099/95 não se aplica NUNCA E PARA NADA que se refira à Lei Maria da Penha. Nada que
esteja na Lei n. 9.099/95 poderá ser utilizado para delitos praticados com violência doméstica (outros
exemplos: composição civil dos danos, termo circunstanciado de ocorrência como substituto do flagrante etc.).

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