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QUEM MANDA NAS PALAVRAS?

O DEBATE CHOMSKY / QUINE, A EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA DA LINGUAGEM E


O QUE FICA POR EXPLICAR.

MARIA LUÍSA COUTO SOARES


UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

- Quando utilizo uma palavra – disse Humpty Dumpty, num tom desdenhoso -, ela
significa exactamente o que eu quero que ela signifique.
- - A questão está em saber – disse Alice se podes fazer com que as palavras tenham
significados diferentes.
- A questão está em saber quem deverá ser o mestre, é só isso

LEWIS CARROL – Alice do outro lado do espelho

O wondrous power of words, by simple faith


Licensed to take the Meaning that we love

SHAKESPEARE

Perante os dados das actuais ciências cognitivas, neuro-ciências e


computacionalismo, existe uma alargada tendência para encontrar uma explicação
«naturalista» da linguagem. Sendo animal symbolicum, o ser humano é um misto de
natureza e liberdade, de instinto e razão, de corporeidade e espírito. É precisamente
neste cruzamento de dimensões heterogéneas que assenta a sua capacidade
simbólica e de representação. O visível remete para o invisível, os signos têm
virtualidades expressivas múltiplas e variadas porque o homem, enquanto ser
racional e sensível, livre e condicionado, realiza a mediação entre a fisicalidade do
signo e a realidade que ele significa, transportando-a da ausência para a presença
2

representacional. Esta capacidade de representar, de significar, de simbolizar, releva,


por um lado, de condições orgânicas, biológicas e neuronais específicas do ser
humano, por outro, da sua espontaneidade imagética, da sua liberdade, criatividade e
da plasticidade nas formas de expressão. Estas não estão totalmente determinadas
pela sua condição biológica, têm um grau de indeterminação que procede da
abertura a uma multiplicidade de modos de ser, de viver, de ser e realizar a sua
condição humana. Por isso, qualquer teoria explicativa do processo simbólico e do
fenómeno linguístico, não pode deixar de ter em conta esta variedade de factores qe
intervêm na comunicação e expressão humanas. Os progressos dos últimos anos da
neurolofisiologia fornecem dados importantes para a compreensão da aprendizagem
e prática da linguagem. Mas não cobrem toda a complexidade e riqueza do
fenómeno linguístico no que este tem de tipicamente humano.
É natural que se pergunte pelas condições básicas que possibilitam e dão
conta de todo o comportamento simbólico. Alguma capacidade inata? Algum tipo
de faculdade específica que se desenvolve e cresce como qualquer outra faculdade
humana?
Chomsky atribui a linguagem humana a uma «competência linguística», que
toma o lugar da mente de Descartes. É a razão que faz de nós seres humanos, diz-
nos a tradição cartesiana; para Chomsky é a linguagem que desempenha o papel
essencial na definição do que é ser humano. Para Chomsky, a linguagem é
puramente formal, universal e inata, uma capacidade autónoma da mente,
independente de qualquer conexão com as coisas do mundo externo. Ao mesmo
tempo, ela é algo de natural, biológico radicado no próprio organismo,
especificamente na constituição do cérebro. É algo que cresce na criança como lhe
crescem os braços e as pernas.
Embora rejeitando a noção de «competência linguística», que tem
ressonâncias cartesianas, as teorias behaviouristas e empiristas propõem uma
explicação do funcionamento da linguagem à base de uma teoria de estímulo-
resposta, assente unicamente na relação do organismo com o meio ambiente e os
estímulos (inputs) que deste recebe. A concepção behaviorista de Quine coincide
com Chomsky na tese segundo a qual a linguagem está subdeterminada pela
experiência e a criança possui uma aptidão inata para a linguagem. Mas a
3

discordância ocorre no que diz respeito à caracterização desta estrutura inata: Quine
rejeita as teses irredutivelmente mentalistas de Chomsky, e este rejeita as restrições
pouco razoáveis do behaviorismo de Quine.1 O seu cepticismo semântico origina
uma guerra às noções de sentido e significado, bem patentes na célebre tese da
indeterminação da tradução.
As explicações «naturalistas» serão satisfatórias? Poderão dar conta da
complexidade do fenómeno linguístico? Os meus argumentos podem não ser
totalmente persuasivos, mas pelo menos levantam algumas questões: à luz da
competência inata e dos universais linguísticos, e no quadro de uma explicação
científica, behaviorista do comportamento, como explicar em que consiste e como se
processa a significação? Como explicar a linguagem enquanto forma de acção
humana, racional e intencional? Como explicar a enorme flexibilidade e plasticidade
das formas de expressão humanas?
Estas são algumas das interrogações que não encontram uma resposta cabal
nas propostas de uma abordagem estritamente científica do fenómeno linguístico.
O propósito deste texto é o de confrontar as versões naturalistas das teorias
do sentido e da significação com estas questões, e mostrar que a compreensão da
linguagem humana não se funda apenas numa explicação científica – neurobiológica,
neurofisiológica, ou meramente biológica – mas releva de uma teoria antropológica
do conhecimento e da acção humanas.

O grande interesse pela linguagem não é novo, data dos primórdios da nossa
cultura e pensamento ocidental. Lucrécio escrevia: Nomina si nescis, perit et cognitio
rerum (Se desconheceres os nomes, perecerá o conhecimento das coisas). E Platão
ensaiou no Crátilo a vantagem para a filosofia, de procurar elucidar os seus
problemas através da análise da linguagem. Mas, depois de uma exaustiva discussão
sobre a origem e a justeza dos nomes, Sócrates acaba por concluir que o problema
não é fácil de investigar nem é próprio de um homem cordato entregar-se com toda
a alma ao cuidado dos nomes. Como as palavras e os signos são tão mutáveis, tão
frágeis, tão sujeitos a modificações de sentido e de significado, parece que esta
instabilidade se contagia às próprias coisas; estas submergem-se num fluir contínuo
1 Cf Gibson, 1986: 180.
4

e são vítimas de fluxo e defluxo, tal como os homens atacados de catarro – a


comparação é de Platão.
Estas invectivas finais num diálogo que se propunha tratar dos nomes, da sua
origem e modo de significar, parecem votar toda a reflexão filosófica sobre a
linguagem ao fracasso. A sentença platónica é a de não ser uma tarefa própria de
homens sérios, fiar-se dos signos e das suas regras, ou supor que há alguma forma
de sistematizar os processos simbólicos recorrendo a um ou vários autores,
detentores de umas leis que os tornariam semanticamente eficazes e praticamente
válidos. Se assim fosse, esta conferência não teria qualquer sentido e seria uma tarefa
vã e inútil tentar abordar os problemas da linguagem.
Apesar do fracasso e do desenlace do Crátilo a investigação sobre a
linguagem tem sido uma constante tanto do ponto de vista filosófico, como
antropológico, linguístico e actualmente, um dos tópicos das ciências cognitivas, do
computacionalismo, das neurociências. As metáforas da mente como computador,
como máquina, os desenvolvimentos das linguagens formais, permitem novas
abordagens ao fenómeno da linguagem, nas quais por vezes perde força a convicção
de que a linguagem é uma capacidade humana por excelência.
O interesse filosófico pela linguagem, acentuou-se depois da
«transformação» transcendental (Kant) e, no seguimento desta, da transformação da
filosofia crítica kantiana numa crítica da linguagem, passagem esta que se pode
diagnosticar na interpretação de Wittgenstein (Tractatus) como uma crítica da
linguagem, uma indagação transcendental das condições de possibilidade do dizer
algo com sentido.
Este interesse crescente pela semântica filosófica, acentuado depois da
designada “viragem linguística”, será acompanhado pelo desenvolvimento das
ciências cognitivas e da linguística, e trouxe para a boca de cena uma série de
questões sobre a natureza dos signos, e o tipo de capacidade requerida para o seu
uso e manipulação. No âmbito estritamente filosófico, a atenção que tem merecido
toda esta problemática poderá ser motivada pelo movimento e evolução da própria
história da filosofia e do pensamento. Segundo uma sugestão de Habermas, seria
possível transferir para a história da filosofia o conceito de paradigma originário da
história da ciência e considerar uma divisão aproximada de épocas em termos de
5

“ser”, “consciência” e “linguagem”. É possível... distinguir os modos de


pensamento correspondentes, como ontologia, filosofia da consciência e análise
linguística.”2
A bifurcação dos interesses gerais da filosofia moderna, dividida entre teorias
mentalistas, idealistas, por um lado, e teorias materialistas, por outro, terá levado a
procurar a relevância e o estatuto filosófico de terceiras categorias, como a
linguagem, o corpo e a acção.
Esta seria uma forma de explicar a razão do interesse crescente pela filosofia
da linguagem, pela indagação dos problemas relativos ao processo de significação e
da prática linguística. Esse interesse tem sido fomentado e potenciado pelas actuais
investigações e desobertas nas áreas das neuro-ciências, das ciências cognitivas, da
psicologia científica. A possibilidade de aceder a uma explicação do processo da
linguagem recorrendo apenas a dados factuais fornecidos por estas ciências surge no
horizonte com uma força persuasiva cada vez maior. É a viabilidade deste
reducionismo que estará em causa no decurso desta intervenção.

Passo agora a formular algumas questões que se prendem mais


directamente com as abordagens contemporâneas por parte das ciências cognitivas,
neuro-ciências e computacionalismo: o meu propósito central será o de examinar
muito brevemente algumas das propostas mais significativas de «naturalizar» a
linguagem. Por «naturalizar» entendo aqui, de uma forma geral, propôr o fenómeno
linguístico como um objecto próprio para as abordagens estritamente científicas, e,
portanto, passíveis de ser satisfatoriamente explicado a partir destas. Tanto a
filosofia, a antropologia filosófica, a filosofia do conhecimento, como as diversas
ciências – neuro c. Cognitivas, etc. – propõem teorias ou hipóteses explicativas para
o problema da aprendizagem, da aquisição da capacidade linguística e para a questão
do significado. Um dos principais objectivos da actual filosofia da linguagem –
filosofia analítica – é a formulação de uma teoria do significado. Não podemos
ignorar os valiosos contributos que as ciências fornecem para uma compreensão do
fenómeno da linguagem humana. Mas, poderá este complexo processo da

2 Habermas, 1992: 12-13


6

significação e da comunicação humana, ser radicalmente abarcado por uma teoria


«naturalista»?
Proponho-me, em primeiro lugar, fazer um brevíssimo exame de duas
propostas para dar uma explicação científico-naturalista da linguagem: o inatismo e a
noção de «competência linguística» de Chomsky e o behaviorismo naturalista de
Quine. As actuais teorias representativas da mente e os modelos computacionais
serão referidos adiante, como exemplos de propostas científicas para explicar o
processo da significação. Estão aqui em causa duas questões:
1) Diz-se que o homem é um animal symbolicum – a linguagem será então
algo de natural – ou conatural – ao ser humano. Quão natural é a linguagem? Isto é,
os processos de significação – semânticos, sintácticos, pragmáticos – são fenómenos
«naturais», no sentido em que podem e devem ser compreendidos e explicados
como tais, recorrendo a discursos pautados pelas exigências das ciências? Ou dizer
que o homem é naturalmente um animal symbolicum significa que se torna necessário
recorrer a uma visão holística da própria «natureza» humana para compreender a sua
capacidade linguística?
2) Diz-se também que a linguagem é uma estrutura – uma estrutura formal
– que releva de uma «competência» natural, inata, uma espécie de “orgão mental”. A
pergunta é: a sintaxe basta para explicar o processo da significação? O ser humano
possui «por natureza», essa competência linguística inata? (Esta questão prende-se
com a primeira). Vou tratar de explorar um pouco, com a brevidade que o tempo
me exige estas questões, que dizem respeito à «naturalização» da linguagem.

Comecemos por evocar Chomsky.


“É perfeitamente natural esperar que o interesse pela linguagem será
sempre central para o estudo da natureza humana, tal como foi no passado.
Quem se interessar pelo estudo da natureza humana e suas capacidades
tem sempre que se debater com o facto de que todos os seres humanos
normais adquirem a linguagem, enquanto a aquisição mesmo dos seus mais
simples rudimentos está para além das capacidades de um macaco, apesar
de inteligente, facto que foi enfatizado, de modo bastante correcto, na
filosofia cartesiana. Pensa-se frequentemente que os vastos estudos sobre a
7

comunicação animal desafiam esta perspectiva clássica; e é praticamente


considerado como certo que existe um problema de explicar a “evolução”
da linguagem humana a partir de sistemas de comunicação animal. No
entanto, se olharmos com cuidado para os estudos recentes da
comunicação animal, parece-me que estes não oferecem grandes bases para
estas teses. Pelo contrário, estes estudos revelam cada vez mais claramente
até que ponto a linguagem humana parece ser um fenómeno único, sem
nenhuma analogia significativa com o mundo animal. Se isto é assim, não
faz qualquer sentido levantar o problema de explicar a evolução da
linguagem humana a partir dos sistemas mais primitivos de comunicação
que ocorrem nos níveis mais baixos de capacidade intelectual. A questão é
importante, e eu gostaria de a tratar.”3

A linguagem é para Chomsky algo de especificamente humano, não tem


cabimento procurar traçar o processo evolutivo do fenómeno linguístico a partir de
sistemas mais rudimentares de comunicação existentes noutras espécies. Há um
«hiato explicativo» entre essas formas primitivas e a linguagem humana tal como ela
é usada.
“Tanto quanto sabemos, - continua Chomsky - a posse da linguagem
humana está associada com um tipo específico de organização mental, não
simplesmente um grau mais elevado de inteligência. Não parece haver
razão para considerar que a linguagem humana é simplesmente um caso
mais complexo de algo que se pode encontrar em algum outro local do
mundo animal...”4

Parece claro que devemos considerar a competência linguística – o


conhecimento de uma linguagem – como um sistema abstracto subjacente ao
comportamento, um sistema constituído por regras que interagem para determinar a
forma e o significado intrínseco de um número potencialmente infinito de frases.

3 Chomsly, 1998
4 ibid.
8

Trata-se, portanto, de uma capacidade inata no homem. A concepção da


linguagem de Chomsky é fundamentalmente cartesiana5: a linguagem assume o
papel que a razão desempenahava para Descartes, é a essência que define e
caracteriza o que é o ser humano. Não é uma «habilidade» que se aprende com a
prática, mas uma competência inata, que se desenvolve tal como se desenvolve todo
o organismo:

“A linguagem cresce e desenvolve-se na mente/cérebro. Adquirir uma


linguagem não é tanto uma coisa que a criança faz, mas algo que lhe
acontece, como o crescimento dos braços, e não asas, a passagem à
puberdade numa certa fase da sua maturação. Estes processos têm lugar de
diferentes modos, dependendo de acontecimentos externos, mas as linhas
básicas do desenvolvimento são determinadas internamente”. 6

A essência inerente à linguagem é meramente formal – a «gramática


universal», de carácter matemático, forma pura (a priori?) que não releva de nenhum
factor material extrínseco: neste sentido, o estudo do corpo e do cérebro não nos
daria nenhuma informação adicional sobre o funcionamento da linguagem. Pode ser
estudada introspectivamente. Até aqui a herança cartesiana. Mas, o que Chomsky
rejeita é a existência da substância mental e a ideia de que a razão/linguagem é
totalmente consciente, directamente acessível à reflexão consciente. De facto,
Chomsky teve o mérito de ter legado à ciência cognitiva a ideia do inconsciente
cognitivo, tal como se aplica à gramatica. Foi a partir das concepções linguísticas de
Chomsky que a primeira geração de cientistas cognitivos se tornou consciente da
enorme variedade de fenómenos que constituem o inconsciente cognitivo.

5 Cfr Lakoff, G. e Johnson, M., 1999: 471. Na verdade, Chomsky herda apenas o carácter inato,
autónomo e isolado do corpo da mente cartesiana. O pensamento, segundo a concepção de
Xhomsky seria apenas uma questão de manipulação de símbolos. A crítica de Lakoff e Johnson
aponta justamente este carácter desincarnado da noção de pensamento e significado e a autonomia
da sintaxe: se assim fosse, esta estaria localizada no cérebro de modo independente, num módulo
que dispensaria qualquer input. Mas de facto, comentam estes autores, não há nenhuma parte do
cérebro, nem módulo ou subestrutura de neurónios que não necessitem de qualquer input neuronal:
isso seria fisicamente impossível.
6 Chomsky, ibidem
9

É convicção de Chomsky que esta competência inata, este “órgão mental”


pertence inteiramente à biologia:
“A minha própria perspectiva foi sempre a de que o aspecto do
estudo da linguagem que é aqui relevante é, em princípio parte da biologia
humana: biolinguística, como alguns lhe têm chamado”7 .

Se referi Chomsky, foi unica e simplesmente pelos pressupostos antropológicos


da sua concepção da linguagem; não pretendeo discutir – nem tenho competência
para tal – as suas teses de linguística e a questão da gramática generativa.8

A concepção da linguagem de Quine – o seu behaviorismo naturalista –


contrapõe-se, em princípio, à tese inatista de Chomsky.

“A linguagem – escreve Quine – é uma arte social que todos adquirimos com
base exclusivamente na evidência do comportamento visível, público das
outras pessoas, sob circunstâncias publicamente recognoscíveis.” 9

A partir do facto (ou da pressuposição) de que a linguagem é uma arte social,


segue-se naturalmente que a linguagem é acessível às técnicas intersubjectivas de
investigação características da ciência natural em geral.
O principal ataque da abordagem naturalista-behaviorista de Quine, é dirigido
contra as semânticas mentalistas e as teorias referenciais do significado. Para Quine,
o significado de uma expressão não é o objecto a que se refere, se pensarmos nesse
objecto como uma ideia, uma proposição, um corpo físico ou uma forma platónica.
A tese de Quine é a de que se temos de procurar os significados, então deveremos
olhar para as condições públicas do uso, isto é, o comportamento público das
pessoas ao usarem a linguagem. O significado, seja o que for, é aprendido através de
critérios comportamentais e, portanto, deve ser explicável por descrições de

7 Chomsky, 1999:393-401
8 Sobre esta questão cf Putnam, 1975: 85-106.
9 Quine, 1969:26-27
10

comportamento. Os significados que não puderem ser caracterizados por este


processo, não são significados, em absoluto.
Quine reconhece três níveis de explicação do comportamento humano: o
primeiro é o mentalismo, o menos satisfatório; o segundo, o behaviorismo, é sem
dúvida um avanço em relação ao anterior. O terceiro nível – a única explicação real
– é o neurofisiológico (ou mais genericamente, o físico). Este nível de explicação, no
entanto, tem apenas uma aplicação limitada na semântica: de facto, por regra, não
aprendemos os significados das expressões, correlacionando-as com estados
neurofisiológicos. Mas isto não significa que a neurofisiologia não tenha relevância
para a teoria da linguagem em geral. Pelo contrário, para dar uma explicação das
próprias disposições comportamentais, ou dos mecanismos subjacentes à aquisição
da linguagem, é evidente que as explicações neurofisiológicas, quando disponíveis,
são muito significativas e relevantes.
Apesar do diferendo Chomsky-Quine, que pode ser remetido para um diferendo
entre inatismo-racionalista versus empirismo, e do debate a que deu origem, há um
fundo comum no qual ambas as teorias coincidem: a possibilidade de uma ciência da
linguagem com base em dados meramente biológicos, físicos, passíveis de uma
abordagem «naturalista». Actualmente, a teoria representacional da mente e o
modelo computacional, apresenta também uma versão do funcionamentoda
linguagem com base em numa explicação naturalista, se bem que mais sofisticada,
recorrendo à analogia com as operações dos computadores digitais como via para
compreender o próprio pensamento: a “hipótese da linguagem do pensamento” de
Fodor apoia-se na suposição que o pensamento consiste nas operações
computacionais realizadas sobre frases do mentalês, a linguagem interna com que os
seres pensantes são dotados de uma forma inata.
O que há de comum a estas diferentes teorias é a convicção que é à ciência – em
geral – que compete dar conta do complexo processo da capacidade e domínio da
linguagem.
É precisamente este ponto que me proponho avaliar e pôr à vossa consideração.

Será satisfatória e completa uma explicação cientifico-naturalista do


fenómeno linguístico?
11

Vou apresentar três argumentos que visam questionar as hipóteses de


«naturalização» do fenómeno linguístico, reduzindo-o ao plano fáctico passível de
uma abordagem com base nos dados biológicos e neurofisiológicos; com eles não
me proponho discutir «tecnicamente» as teses de Quine ou Chomsky, mas tão-só
apontar alguns problemas que me parecem não estar satisfatoriamente resolvidos no
âmbito destas propostas científicas.
1) O primeiro argumento diz respeito às próprias condições de possibilidade da
linguagem, isto é à teoria do significado: o que está em causa é saber como é
possível a linguagem? E isto remete para a pergunta crucial: como é possível o
significado?
Tentar responder a esta questão tornou-se a tarefa crítica central da filosofia e a
pergunta pelas condições da possibilidade do conhecimento formulada pela filosofia
transcendental, pode traduzir-se na pergunta pelas condições de possibilidade do
sentido. Essa passagem consistiu na transformação da filosofia crítica numa crítica
da linguagem pura. Como é óbvio a formulação de uma teoria do significado
tornou-se uma questão filosófica prioritária e central.
Numa rápida visão retrospectiva sobre os diferentes modos de compreender a
teoria do significado, parece-nos que podemos tirar algumas ilações, que não são
propriamente conclusões, mas meras indicações do que não serve para dar conta da
noção de sentido e de significado:
a) A ideia de sentido como “algo na mente”, independente e anterior ao
discurso, além de promover uma pululação de entidades espúrias, torna difícil
explicar como é que um evento mental se relaciona com o signo linguístico. “Os
significados não estão na mente” (Putnam); e tão-pouco é admissível a sua
hipostasiação como entidades existentes em si mesmas, independentemente dos
usos, das intenções e das práticas linguísticas.
b) A tentativa de explicar o significado como uma relação directa, isomórfica
entre discurso e realidade, conduz a uma série de impasses resultantes sobretudo da
eliminação do papel do sujeito e sua intenção significativa nos processos de
significação linguística. (Wittgenstein).
c) Remeter toda a explicação do significado para o factor intencional do sujeito,
fazendo incidir todo o sentido literal no sentido ocasional do locutor, leva em última
12

análise à negação provocativa da existência de uma linguagem, reduzindo-a a uma


série de eventos particulares, esporádicos e contingentes.

Para formular uma teoria do significado satisfatória é necessário integrar a


multiplicidade e variedade de factores – linguísticos, mentais, sociais, etc. – que
entretecem a complexidade do discurso humano. Este manifesta uma estrutura
linguístico-formal autónoma e simultaneamente releva da vontade de significado do
sujeito em cada situação de fala. Por isso, há que ter em conta uma certa autonomia
semântica – as palavras têm de facto um significado determinado – e ao mesmo
tempo os factores não estritamente linguísticos derivados do uso, das regras sociais
e das intenções comunicativas. Esta vertente dupla do significado, revelando por um
lado o seu aspecto formal, objectivo, e por outro lado um dinamismo prático e vivo,
exprime claramente a relação da linguagem com o pensamento, que por ser
originariamente discurso, se mostra na articulação intrínseca com o sentido e
produção de significado, e o carácter essencialmente activo, práxico de todo o
processo linguístico. Para compreender o funcionamento da linguagem no seu todo,
torna-se indispensável olhar simultaneamente para estas duas dimensões e integrar
os diversos factores semânticos e pragmáticos numa teoria unitária.

2) O segundo argumento vem na sequência directa do primeiro: a questão do


significado remete-nos para a estrutura dinâmica da própria acção humana,
intencional e racional. Até que ponto é a linguagem uma praxis que releva de uma
dimensão intencional e convencional? Não depende o significado, simultaneamente
da intenção de significado do locutor e das regras do uso que pressupõem uma ideia
de correcção da prática linguística?
A tentativa de explicar o processo de significação releva sempre de
pressupostos cognitivos e comportamentais que remetem para o contexto
pragmático. A crítica da linguagem, mesmo quando se apresenta como uma negação
da reflexão racional, é sempre um discurso que se constrói sobre a base de uma
racionalidade teórica e prática e de pressupostos de ordem epistémicos e
antropológicos.
13

Seja qual for a finalidade visada pela formulação de uma teoria do


significado, as dificuldades que se levantam à semântica provêm geralmente das
ilusões de um ideal representativo que leva a olhar a linguagem como uma imagem
fiel de algo – pensamento, realidade – que transcende as palavras. E o
reconhecimento que o processo de significação se enquadra no contexto geral de
toda a acção humana, e como tal, aponta para a ideia de intencionalidade e de
racionalidade prática, requer uma outra ideia da linguagem. O seu uso pressupõe
umas competências próprias para reconstruir um mundo da vida e uma cultura:
neste sentido é especificamente humano e só se compreende se integrado na
dinâmica prática e poiética do comportamento e da interacção social. A pergunta pela
possibilidade da semântica leva a concluir que esta é uma ciência eminentemente
social, a pergunta pela possibilidade da pragmática – a consideração da linguagem
como acção humana – aponta para a necessidade de um sistema de regras que não
seja totalmente arbitrário e convencional. Assim, entre semântica e pragmática há
um «comércio» imprescindível e frutuoso: a noção de significado ganha com a
integração da dimensão prática, e esta última requer ou funda-se na possibilidade de
um sentido estritamente linguístico, com uma certa independência da diversidade
dos usos. Da boa combinação das duas dimensões – semântica e pragmática –
depende o verdadeiro preenchimento, realização do acto expressivo.
A capacidade de significar não se pode reduzir à mera capacidade mimética
de reproduzir, representar, mas implica capacidades heurísticas e o dom peculiar de
intencionar, sem os quais qualquer palavra ou signo permaneceria mudo e opaco e
perderia a sua dimensão transitiva e, com ela toda a sua transparência. Por outras
palavras, as regras de representação, por si mesmas, não são suficientes para garantir
o bom êxito de um acto expressivo. Este depende tanto do correcto uso dessas
regras, que remetem para o factor convencional, como do acto intencional que está
na sua base e lhe confere a direccionalidade, ou a possibiliade de representar o
objecto visado.
A pragmática – que encontrará expressão emblemática na noção de
performativo, introduzida por Austin – lida precisamente com o funcionamento da
linguagem no contexto, considerada no quadro da acção racional. Duas noções
relevantes para entender a capacidade linguística são as de intenção e convenção –
14

intenção do locutor10 que dá vida a um sistema mais ou menos abstracto de


símbolos, convenção para dar conta da possibilidade da comunicação e do carácter
público da linguagem. Intencional-convencional são dois elementos
complementares, que se compenetram na teoria do significado.
A perspectiva da pragmática consiste em olhar a linguagem como uma forma de
acção racional. O que a caracteriza fundamentalmente é o facto de ser uma acção
intencional, nos vários sentidos em que se pode entender esta noção. No programa de
Grice11, a explicação do significado assenta na “intenção do locutor” – o que o
locutor quer dizer com uma expressão e a intenção de ser reconhecido pela sua
audiência. A intenção tem uma relação causal com o emprego de uma determinada
expressão e constitui aquilo que confere significado ao uso dessa expressão. Falar,
comunicar é, portanto uma forma de agir racional e intencionalmente.
Sendo assim, para compreender o processo de significação, é não só útil, mas
necessário, recorrer à teoria da acção racional. O que caracteriza a acção é o facto de
ser intencional. Isto é, não ser apenas um evento que se dá no sujeito, ou algo que
este faz instintivamente, mas algo que revela um fim visado e está por isso
direccionado para um objectivo. A acção, em sentido próprio é uma actualização e
condensação da racionalidade. Tentar explicá-la recorrendo às categorias de
causa/efeito, ou tentar integrá-la num esquema científico tradicional, significa
reduzir a acção a um mero mecanismo semelhante a outros processos físicos,
biológicos, que se podem traduzir por uma teoria assente em leis científicas. A
dificuldade de dar conta da racionalidade prática assimilando-a à racionalidade
teórica tem sido apontada recorrentemente, e essa diferença que marca o próprio da
praxis está na origem da problemática em torno do binómio explicar/compreender.
Pode dar-se uma explicação, em termos causais, da acção humana? Ou esta remete
para outro modelo cognitivo que releva de outras categorias e do recurso a um
modo de pensar teleológico que se integra mais na compreensão do que na
explicação?
Em síntese: uma teoria do significado requer uma compreensão da linguagem
como acção e esta por sua vez exige analisar a estrutura do acto de significação. Nele

10 O programa de Grice é o exemplo de uma visão intencionalista da prática linguística.


11 Cf Grice, 1989.
15

intervêm diferentes níveis ou estratos que vão desde as crenças, desejos e intenções
do locutor, a interpretação e compreensão, as regras implícitas no emprego da
linguagem, a sua estrutura formal como meio para atingir os fins propostos pelo
sujeito linguístico. A complexidade do processo significativo resiste a qualquer teoria
simplificadora que ignore ou subestime a pluralidade e variedade dos factores nele
implicados. Como acção que é, a linguagem não se pode identificar com uma
espécie de super-estrutura construída por entidades abstractas; tão-pouco se pode
remeter exclusivamente para a particularidade e contingência de cada evento
linguístico nem muito menos para a intenção do sujeito. Como acção tipicamente
humana, é racional, intencional; mas é uma acção estratégica, o que significa que a
intenção de significar contém em si mesma a intenção de seguir as regras e as
convenções. Não há portanto uma oposição nem sequer uma tensão entre o
intencional e o convencional, mas uma imbricação peculiar que representa o aspecto
mais genuíno do funcionamento da linguagem.
Esta perspectiva assinala um nítido contraste com a tradição, pois a sintaxe e
a semântica sempre pretenderam dar uma visão da linguagem em abstracto, sem ter
em conta os contextos situacionais: a primeira pretende averiguar se uma série de
palavras constitui uma frase gramaticalmente correcta, a segunda, ocupa-se do
significado de uma proposição-tipo, abstraindo de qualquer emprego concreto e
particular. De facto, na prática linguística, não há lugar nem para uma abordagem do
significado de proposições em si mesmas consideradas, fora do contexto de uso,
nem se pode esquecer que os factores práticos e sociais se interpenetram com os
factores puramente semânticos, que determinam o significado das palavras e
proposições. A competência linguística releva de uma acção intencional, integrada
numa racionalidade prática e estratégica.
Os debates actuais em torno do modo de enquadrar a relação entre o
pensamento e a linguagem, no âmbito da psicologia e das ciências cognitivas
propõem modelos de explicação da intencionalidade num plano meramente
representativo, isto é, apresentam-se como formas de reduzir a intencionalidade a
uma relação naturalde representação: nomeadamente a discussão da “Hipótese da
Linguagem de Pensamento”, como exemplo de uma nova teoria representacionista
que se propõe explicar essa relação fundamental no processo de significação. A
16

perspectiva lingualista contemporânea, inspirada sobretudo na obra de Fodor, levanta


de novo os problemas que a concepção de linguagem do Tractatus originou, com a
atitude transcendental de examinar na linguagem e através da linguagem as condições de
possibilidade do pensamento.
Há uma conaturalidade entre o pensar e o dizer, duas faces do logos (ratio e oratio)
que estão em causa na articulação intrínseca entre razão e linguagem. Esta
articulação tem dado origem a que se considere o pensamento como uma espécie de
linguagem, concepção particularmente difundida a partir do Tractatus, e de um modo
particular a partir da ideia de Fodor de uma linguagem do pensamento. A ideia central
assenta na necessidade da existência de uma linguagem do pensamento, e na
convicção que o conhecimento consiste em operações computacionais sobre as
expressões dessa linguagem, que não pode ser aquela que o sujeito aprende. Pensar
consiste literalmente em realizar operações computacionais sobre as frases do
mentalês, uma linguagem interna com a qual os pensadores estão dotados de forma
inata. Nesta perspectiva, uma criatura capaz de pensar é uma criatura em cujo meio
mental ocorrem manipulações racionais de símbolos, sendo este meio mental um
conjunto de „módulos‟ interligados caracterizados pelas suas inter-relações
funcionais.
As opiniões em torno do computacionalismo e dos méritos da psicologia
cognitiva contemporânea estão actualmente muito divididas12: Searle, por exemplo
argumenta que as explicações computacionalistas do conhecimento deixam de fora a
consciência do sujeito e sugere que embora os cientistas cognitivistas tentem
descrever a sua actividade na continuidade com as ciências naturais, o fenómeno que
estudam não satisfazem uma condição necessária para serem objectos da explicação
natural e científica: a de serem essencialmente dependentes do observador, portanto
não absolutamente objectivas.

12Cfr Preston, J. (ed.), 1997, contém ensaios de Davidson, Searle, Glock e Dennett, entre outros,
que discutem a hipótese da linguagem do pensamento. Embora nenhum destes autores subscreva a
teoria de Fodor, tão pouco exprimem uma atitude radicalmente contra as teorias
representacionistas. As objecções que apontam à linguagem do pensamento são de ter em conta
numa discussão ampla do problema e suas implicações.
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Outros, como Dennett13, apontam o carácter de certo modo não-biológico da


hipótese da linguagem do pensamento, que mesmo a analogia com a arquitectura do
computador não consegue desmentir. A hipótese de Fodor apoia-se numa
perspectiva subjectivista, individualista e „internalista‟ do pensamento, muito
relacionada, talvez de um modo pouco adequado com a ideia de mente na filosofia
cartesiana. Em contraste com este modo de enquadrar o binómio
pensamento/linguagem, Davidson, por exemplo, considera que a capacidade de
desenvolver pensamentos complexos restringe-se (e de certo modo está
dependente) aos seres que empregam a linguagem. O uso lintuístico e o pensamento
remetem inntrinsecamente um para o outro, não é possível decidir qual tem a
prioridade ou o estatuto de fundamento do outro: as capacidades de perceber, falar
e pensar vão-se desenvolvendo em conjunto e gradualmente 14. A capacidade
linguística faz parte do nosso “equipamento” natural, não é um instrumento que
utilizamos para lidar com problemas da compreensão, cálculo e comunicação.
Davidson recorre à analogia da linguagem com os orgãos dos sentidos para rejeitar a
ideia da linguagem como um medium através do qual vemos o mundo. Não vemos o
mundo através da linguagem, tal como não vemos através dos olhos, mas com os
olhos; como qualquer outro orgão do sentido, com a linguagem estabelecemos um
contacto directo com o meio ambiente, sem mediações. Postular uma linguagem do
pensamento significa exactamente deturpar esta perspectiva, pois leva a pensar na
linguagem falada como uma mediação entre o pensamento e o seu objecto
intencional.

3) Por último, um argumento que invoca a extrema liberdade,


espontaneidade e criatividade das variadas formas de expressão humana. A
dificuldade de explicar a aprendizagem da linguagem e a sua prática provem, em
parte, desta variedade que escapa a qualquer pré-determinação, e portanto resiste a
uma explicação em termos meramente causais, de estímulo-resposta, ou a partir de
uma estrutura abstracta e universal que subsuma a diversidade das práticas
expressivas.

13 Cfr “How to do Other Things with Words”, in Preston, J., 1997: 219-235.
14 Cfr Davidson, D. “Seeing through language”, in Preston, J., 1997: 15-27.
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Como explicar a extrema plasticidade da função simbólica humana? Nada está


determinado: Merleau-Ponty bem o mostrou no que diz respeito às formas de
expressão – é neste sentido que afirma não ser possível falar de «signos naturais «,
porque não há uma correspondência determinada entre um estado de consciência e
os gestos ou a mímica que o exprime.15 É pela grande variedade de formas de
expressão que Merleau Ponty considera que, na verdade, esta enorme plasticidade
não permite falar de «signos naturais»: isso pressuporia que a estados de consciência
dados, a organização anatómica do nosso corpo faria corresponder gestos definidos.
De facto, não é isso que acontece: Merleau-Ponty evoca a diferença da mímica da
cólera ou do amor num japonês e num ocidental. “O uso que um homem faz do seu
corpo transcende este mesmo corpo como ser simplesmente biológico”
A emoção, como variação do nosso ser no mundo é contingente em relação aos
dispositivos mecânicos contidos no nosso corpo. Não há formas obrigatórias de
expressão. Dentro do repertório pré-determinado dos modelos possíveis, os falantes
fazem escolhas, inflexões, distorções. Se estas apresentam uma certa constância...
poder-se-á então dizer que configuram estilos individuais ou idiolectos.
Poderá a gramática generativa – que explica a possibilidade de originar um
número potencialmente infinito de frases – dar conta destas distorções, inflexões,
variações livres?
Esta plasticidade e capacidade de fingimento estão emblematicamente
representadas na linguagem poética. Como seria possível explicá-la com base
exclusivamente no organismo humano, na sua competência inata para a
aprendizagem ou nos esquemas behavioristas, em termos de estímulo-resposta?
Talvez o argumento que evoquei não seja suficientemente forte e persuasivo,
ou possa ser objecto de refutação por parte do adversário – neste caso, o adepto de

15Cfr Merleau-Ponty, 1945: 220 “O signo artificial não se reduz ao signo natural, porque não há no
homem signo natural, e, ao aproximar a linguagem das expressões emocionais, não se compremete
o que ela tem de específico, se é verdade que a própria emoção como variação do nosso ser no
mundo é contingente em relação aos dispositivos mecânicos do nosso corpo (...) Só poderíamos
falar de «signos naturais» se, a «estados de consciência» dados a organização anatómica do nosso
corpo fizesse corresponder gestos definidos (...) O equipamento psicofisiológico deixa em aberto
quantidades de possibilidades e não há aqui, como não há no domínio dos instintos uma natureza
dada de uma vez por todas. O uso que o homem fará do seu corpo transcende este mesmo corpo
como ser simplesmente biológico.”
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uma explicação estritamente científica e naturalista do funcionamento da linguagem


humana.
Por isso termino com um argumento ad hominem, que poderá ser visto mais
como um desafio ou provocação: que explicação científica satisfatória – biológica,
neurológica, ou física – poderia dar conta, por exemplo, da bem conhecida
Autopsicografia de Fernando Pessoa? A possibilidade de fingimento é condição
necessária para a recriação poética (poiesis) da experiência pessoal: “a dor que deveras
sente” não é causa comportamental da escrita, mas nasce com ela, brota dela, numa
confusa mistura com o que o poeta «finge tão completamente».
Encontro uma certa sintonia entre o poema de Pessoa e um outro de Paul
Celan:
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Autopsicografia
F. Pessoa

O Poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que lêem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Paul Celan

A Dor Dorme com as palavras, dorme, dorme.


Dorme e vai buscar nomes, nomes.
Dorme e a dormir morre e renasce

Se é a dor que busca os nomes, como explicá-los como uma mera resposta a
estímulos orgânicos ou biológicos? E que competência inata e universal teriam
Pessoa e Celan para escrever estes poemas?
Como se explica, além disso, que é precisamente quando a linguagem, por
vezes, sai fora dos eixos, que ela ganha expressões novas, e origina em nós novas
sensações, vivências diferentes. Um texto literário nem sempre cumpre à risca as
regras sintácticas e gramáticas, mas são esses desvios que abrem horizontes novos, e
dizem muito mais do que as formas correctas.
O estilo é feito de mil detalhes na construção das frases, no ritmo que se lhes
imprime, nas transgressões intencionais mas não procuradas. Não se aprende um
estilo, não se constrói com base em novas regras: o estilo é precisamente a contínua
invenção da linguagem. Segundo palavras de Vergílio Ferreira, “O estilo de um
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grande artista, ele próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus gestos. Ou a
mímica do seu rosto quando fala. Porque quando o souber tê-lo-ia já perdido.”
É ele, o poeta, o artista, que fala, escreve, e nunca acaba de dizer em palavras
tudo o que quer. A linguagem não é para ele um mero instrumento é muito mais. Vive
com ele, noite e dia, ou melhor é ele que vive na sua língua, que se apodera dela
completamente – seja ela qual for. A tal ponto que acontece o que terá dito Pessoa:
“Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.”

Todo este tema daria para um outro ensaio, que espero vir a escrever.
Isto não significa, de modo algum, que esteja a pôr em causa os contributos
científicos, que permitem um conhecimento cada vez mais detalhado das bases
neurológicas do processo linguístico. Eles são, sem dúvida alguma, importantes. Mas
não vejo como possam dar conta da criatividade, espontaneidade, flexibilidade e
liberdade com que os homens se exprimem. Pode ser que haja uma explicação
neurocientífica disponível que explique a criatividade literária, na sua imensa
variedade. Eu não a conheço. Mas se há, gostaria muito de a conhecer.
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